                   EDUARDO SPOHR




    DA QUEDA DOS ANJOS AO CREPSCULO DO MUNDO


A BATALHA DO APOCALIPSE
- 1 EDIO -
A espada no vive sem o Querubim e o Querubim no vive sem
sua Espada.

A BATALHA DO APOCALIPSE
DA QUEDA DOS ANJOS AO CREPSCULO DO MUNDO
REVISO
GUILHERME SIMES REIS
ARTE DA CAPA
HARALD STRICKER
PROJETO GRFICO
RODRIGO TOBIAS, DEIVE PAZOS, ALEXANDRE OTTONI
ARTE CONCEITUAL
ANDRS RAMOS E HARALD STRICKER
ISBN
978-85-909900-0-0




Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo no todo ou
em parte atravs de quaisquer meios.
                               memria de meu av, Carlos Spohr, que desde cedo me
                                                  ensinou a gostar de histrias fantsticas.




H muitos e muitos anos, h tantos anos quanto o nmero de estrelas no cu, o Paraso Celeste
foi palco de um terrvel levante. Armados com espadas msticas e coragem divina, Querubins
leais a Jeov travaram uma sangrenta batalha contra o arcanjo So Miguel e os anjos que o
seguiam.
         Deus, o Senhor Supremo de Todas as Coisas, continuava imerso no profundo sono que
cara aps ter concludo o trabalho da Criao  o descanso do Stimo Dia. Enquanto Ele
permanecia ausente, os arcanjos ditavam as ordens, impondo seus desgnios no Cu e na Terra.
Sentados no topo de seus tronos de luz, cada um deles almejava alcanar a divindade.
         Concentrando todo o poder debaixo de suas asas, os poderosos arcanjos, onipotentes e
intocveis, utilizavam a Palavra de Deus para fazer jus  sua prpria vontade. Revoltados com o
amor do Criador para com os seres humanos, e movidos por um cime intenso, decidiram ir
contra as leis do Altssimo e destruir todo homem que caminhava sobre a Terra, acabando assim
com parte da Criao do Divino.
         Impulsionado por essa fria, Miguel, o Prncipe dos Anjos, enviou  Haled diversas
calamidades mas, como insetos persistentes, os mortais resistiram. Os tiranos alados desejavam
um regresso  aurora dos tempos, quando s os animais povoavam o mundo. Eles nunca
aceitariam venerar uma criatura feita do barro, uma vez que tinham sido gerados a partir do
prprio esplendor e glria do Senhor.
         Decidido a eliminar de vez a humanidade, Miguel ordenou que os Ishim, a casta
anglica que controla as foras da natureza, arquitetassem a Destruio Final. Submissos, eles
derreteram as calotas polares e a Terra foi inundada por um volumoso dilvio. No obstante, os
mortais novamente subsistiram.
         Diante de tanta morte e devastao, uma conjurao teve incio. Em sua inocncia
poltica os lderes dessa conjurao foram trados por outro arcanjo, Lcifer, a Estrela da
Manh, nico que conhecia o plano dos revoltosos para libertar o Paraso da opresso a que era
submetido. Quando o Arcanjo Sombrio denunciou as idias revolucionrias, os rebeldes foram
derrotados, expulsos do Cu, e condenados a vagar pelo mundo dos homens at o fim dos
tempos. Enquanto a luz do Stimo Dia brilhar, enquanto Deus continuar adormecido, os anjos
renegados sero perseguidos e mortos pelos agentes celestiais.
         Com o poder e prestgio que conseguiu por ter delatado os insurgentes, Lcifer
arquitetou a sua prpria revoluo. Movido por interesses nem um pouco justos, o Arcanjo
Sombrio pretendia tomar o principado de Miguel e ascender acima mesmo do Criador,
coroando-se em Tsafon, o Monte da Congregao, e tornado-se assim igual a Deus. O Filho do
Alvorecer no queria apenas vencer seu irmo, mas desejava tornar-se ele prprio Deus 
subjugar no apenas o monarca, mas tambm Yahweh.
         Muitos anjos, revoltados com a poltica celeste, no conheciam as motivaes egostas
de Lcifer, e se juntaram a ele. Ao descobrir a traio, o Prncipe dos Anjos declarou nova
guerra, e uma segunda batalha estalou. Por seus atos e ambies macabros, a Estrela da Manh e
seus seguidores foram lanados ao Sheol, um poo obscuro de trevas e sofrimento, um lugar
terrvel, um crcere permanente. L, o Arcanjo Sombrio governa, e espera o momento certo
para iniciar sua vingana. Hoje, os mortais conhecem essa dimenso pelo nome de Inferno.
         Muitos milnios se seguiram s duas guerras anglicas, e ento os humanos
reinventaram o perodo das grandes catstrofes, com suas prprias armas modernas.
         Na Fortaleza de Sion, a Roda do Tempo est prestes a terminar o seu giro. No alvorecer
do milnio, a humanidade caminha lentamente para o Apocalipse. Em nvel regional, a
marginalidade, a violncia e o crime organizado so mais fortes do que a polcia e o governo. A
pobreza e a misria so crescentes. No plano internacional, h guerras por todo o globo, pessoas
matando umas s outras e conflitos onde os mais prejudicados so os membros da indefesa
populao civil. Milhares de crianas morrem a cada dia, vtimas do dio e do orgulho de
lderes sem rosto, que lutam em prol de ideais hipcritas e egostas. No h justia. O mundo
chora. As pessoas sofrem. A civilizao d os seus ltimos gritos desesperados em busca da
salvao. Mas  provvel que ningum mais a oua.
         No Cu e no Inferno, o Armagedon marca o incio de uma nova era. Quando o ciclo for
completado, Deus despertar de seu sono e todas as sentenas sero revistas. O Tecido da
Realidade cair. Antigos inimigos se enfrentaro, e no haver fronteiras entre as dimenses
paralelas. E esse ser o Dia do Ajuste de Contas.
         O crepsculo do Stimo Dia se aproxima, e a noite cair em breve.




Tsafon, o Monte da Congregao, dias atuais.
Certo dia, o arcanjo Uziel, cansado daquela espera infindvel, resolveu galgar o monte Tsafon
e afrontar seu irmo. Armou-se de sua espada de fogo, vestiu uma armadura dourada e tomou a
longa escadaria de mrmore que levava  construo de pedra no topo do morro. Ao fim dos
degraus, o Santurio do Alvorecer aparecia meio oculto pelas nuvens geladas, um aposento
imponente, erguido por largas colunas redondas. Uma forte luz azulada coruscava em seu
interior, um brilho que o arcanjo acreditava ser as emanaes do prprio Deus Yahweh.
         Mesmo atravs de seu elmo polido, que completava o conjunto da bela couraa, o rosto
de Uziel era austero, e demonstrava a sua vontade. Sozinho, ele ponderara por anos a fio, e
agora enfim decidira visitar o Altssimo, s para ter certeza de que o esprito de Deus
continuava adormecido, deitado no santurio, e no morto, como s vezes ele suspeitava. Um
dia, h muito tempo, Uziel havia contemplado a face do Criador, uma ddiva reservada s aos
arcanjos  nem os anjos tiveram esse jbilo. E o que ele viu foi fraternidade, amor e
compreenso. Ento, como teriam os celestiais chegado quele grau de corrupo? O Paraso
cara em decadncia, e junto a ele tambm o mundo dos homens.
         Mas o caminho ao santurio no seria facilmente vencido. Miguel, o Prncipe dos
Anjos, irmo direto de Uziel, guardava o trono divino, e no estava disposto a permitir seu
ingresso. Sozinho, ele bloqueava a passagem, brandindo sua espada sagrada, a insupervel
Chama da Morte. Envergava uma armadura completa, prateada como os raios da lua, e adornada
por detalhes dourados no peito, que formavam desenhos complexos no metal espelhado. O
capacete, de crista vermelha e queixada pontuda, fora posto de lado, deixando aparentes as
feies masculinas, a barba por fazer, e o rosto cheio de cicatrizes horrveis, adquiridas nas
Batalhas Primevas, um confronto ancestral, sucedido antes mesmo da criao do universo.
         Miguel era o mais forte dos cinco arcanjos, o primognito, o herdeiro do Criador. Seu
cabelo, negro e comprido, era cortado por uma mecha alva que corria  nuca, e os fios estavam
presos em um rabo-de-cavalo pouco alinhado. Se avistado por olhos humanos, poucos o
reconheceriam como uma entidade celeste, no fossem as asas branqussimas, afiadas como
navalhas nas pontas.
         O vento ameno da aurora agitou o cabelo do prncipe, e soou com apito aos ouvidos de
Uziel. O visitante estacou a dez metros do guardio, na parte mais baixa da escadaria.
Silenciosos, os dois Gigantes se encararam  Miguel, forte e confiante; Uziel, indignado e
decidido. O invasor levantou sua espada em posio de defesa, segurando a arma com ambas as
mos.
         -- Saia de meu caminho, Miguel. Estou reivindicando o direito de visitar o nosso Pai
Yahweh, em seu leito de repouso.  meu direito como arcanjo e descendente do Criador.
         Por um momento, o prncipe nada disse. Em seguida, desceu um degrau.
         -- Voc no vai a lugar algum, caro irmo. Minha pacincia esgotou-se. Estou farto de
sua insolncia. Eu sou o Prncipe dos Anjos, e isso significa que eu sou o lder dos arcanjos
tambm. A minha palavra  a lei  determinou  Yahweh est dormindo, como todos sabemos.
E Ele no pode ser perturbado. Eu estou aqui para defend-lo, e no ser voc ou qualquer outro
que destituir de minha funo principal.
         Uziel pareceu ainda mais irritado.
         -- E como saberei que Ele est mesmo a dentro, Miguel? Voc nos diz o mesmo h
milnios, insistindo que, um dia, o Criador despertar para punir os injustos. Pois eu digo que
este dia chegou. A podrido tomou conta do mundo. J  hora de sabermos se o que fala 
correto.
         -- Atreve-se a questionar os meus comandos? Eu sou o seu irmo mais velho! No
duvide de seu comandante.
         -- Veja aonde voc nos levou, e pergunte a si mesmo se  realmente algum tipo de
lder. Gabriel arrastou metade dos nossos anjos para uma guerra civil contra ns, e Rafael nos
abandonou, caindo em desgraa. Se voc se opuser a mim, qual o outro arcanjo que ter ao seu
lado? Lcifer?  ironizou, evocando o nome do maior de todos os inimigos do Cu: Lcifer, o
Arcanjo Sombrio, expulso pelo prprio Miguel do Paraso junto com sua horda nefasta.
         O Prncipe dos Anjos lanou ao invasor um olhar de desdm, ao mesmo tempo em que
levantava sua espada fulgente.
         -- Eu no preciso de voc, Uziel. No preciso de ningum.
         Ento, o guardio empunhou sua arma, e a moveu para o ataque. Suas chamas
cresceram, e a luz do fogo sagrado refletiu nos olhos castanhos do prncipe. Uziel sentiu
vontade de fugir frente  majestade do inimigo, mas sua pujana o motivou ao combate.
         -- Ento  verdade, no ?  verdade o que Gabriel disse aos seus anjos...  Mas antes
que Uziel terminasse, Miguel alou vo, abriu suas asas, e desceu para ferir o irmo com um
golpe violento de espada. Ofuscado pelo brilho do sol, o visitante quase no se esquivou, mas
conseguiu rolar para o lado no instante preciso. Um estrondo titnico abalou a montanha, e a
lmina flamejante tocou a escadaria de mrmore, abrindo uma fenda larga no solo. O invasor
teria cado pela encosta do morro, no tivesse adejado em reflexo. Ascendeu s alturas, mas em
seguida mergulhou, aterrissando em um stio acima do guardio, muito perto da passagem ao
santurio. Dando as costas ao perigo, disparou para dentro do templo, subestimando a potncia
do algoz.
         Mesmo entendendo que jamais venceria o impiedoso vigia, Uziel continuou sua trilha.
Queria entrar no Santurio do Alvorecer e vislumbrar a face do Onipotente, s mais uma vez,
nem que isso custasse sua vida. Se o Altssimo estivesse realmente adormecido, ele teria obtido
a resposta que procurava  a de que a sua luta ao lado do arcanjo Miguel tinha sido legitima.
Mas e se nada encontrasse?
E se Yahweh no estivesse deitado em Tsafon? Essa hiptese o apavorava sobremaneira, mas
ainda assim pereceria feliz, sabendo que desafiara seu tirnico irmo, mesmo que num
derradeiro momento. Teria, ento, se redimido de todas as matanas, de todas as catstrofes que
promovera, de todos os cataclismos que comandara.
         Correndo e voando, ele pulou para o interior do edifcio, venceu as colunas e
ultrapassou o umbral de entrada.
         Uma luz intensa confundiu seus sentidos, mas logo a vista se adaptou  claridade. No
centro do grande aposento, surgiu um pedestal trabalhado, e sobre ele descansava um livro
grosso, de aparncia antiga, escrito por dentro e por fora. Aquele era o Livro da Vida, um
magnfico artefato deixado ao Prncipe dos Anjos pelo prprio Deus Yahweh, e que relatava,
em detalhes, toda a histria do Stimo Dia, desde a criao do homem at o crepsculo dos
tempos. Estava marcado com o cdigo secreto dos Malakim, um idioma anterior  aurora do
mundo. Miguel nunca deixava que qualquer um se aproximasse do tomo, e sua obsesso para
com o objeto chegava a ser psictica.
         Quando percebeu o que se passava, Uziel sentiu as costas rasgarem em um corte
abrasado. A dor do fogo queimou suas asas, e o sangue escorreu pelo ferimento. Como um raio
certeiro, a espada flamejante do furioso Miguel dilacerou suas costas, lanando o invasor ao
estado letal. Atordoado, desabou contra o cho, largando o sabre e se esticando  espera da
morte.
         O guardio pisoteou o busto do visitante, esmagando o metal da armadura dourada.
Ento, apontou sua lmina ao rosto do irmo, em preldio ao choque final.
         -- Miguel, voc nos traiu!  protestou o ferido, cuspindo um refluxo de sangue  Voc
traiu a confiana dos arcanjos e de todos os celestiais.
         -- Eu no tra ningum, Uziel. Foi voc quem traiu a si prprio.
         -- Onde est Deus, Miguel? Onde est o nosso Pai Luminoso?
         s portas do desfalecimento, Uziel ainda resistia, procurando resposta  sua busca
desesperada. No distinguira sinais do Altssimo no templo de mrmore, s os contornos de um
livro envelhecido. O que teria acontecido ao Criador?
         -- O Onipotente est aqui mesmo, Uziel. Ser que no percebe? Ele est aqui, no
Santurio do Alvorecer!
         Uziel maneou a cabea, convencido da insanidade do irmo.
         -- Yahweh est morto,  isso! Ele morreu ao fim do Sexto Dia! No est apenas
adormecido como voc havia contado. Voc nos enganou por todos estes anos, Prncipe Celeste
 acusou  Eu me sinto envergonhado por ter acatado as suas ordens, mas estou feliz por, enfim,
ter alcanado a verdade.
         Desta feita, Uziel acalmou-se. A vida o estava deixando, mas ele havia cumprido a sua
misso. Agora, sua essncia vital poderia se dissipar finalmente, e regressar ao ventre do
Infinito.
         Pronto  execuo, Miguel deteve sua espada por mais um segundo.
         -- Perdeu seu juzo, pobre irmo. Se preferisse esperar s mais um pouco, no estaria
agora estendido neste piso gelado. A Roda do Tempo no tardar a anunciar o Apocalipse. Mas
no  sua culpa. Nada voc poderia ter feito para evitar o destino. Assim est escrito 
completou, fatalista.
         Ento, o prncipe levantou sua lmina, e Uziel aguardou a sentena.
         -- No me tome por louco  acrescentou o arcanjo Miguel, em inesperado discurso 
Antes que morra, quero que saiba que eu s digo a verdade, e fao tudo pelo bem da Criao.
Deus est adormecido, e se voc no o encontrou quando entrou nesta sala  pausou e em
seguida atacou com a espada, perfurando o estomago do moribundo   porque no teve a
dignidade de olhar para trs.
         Quando a arma encravou, o invasor se contorceu em espasmos de dor. Miguel
trespassara seu peito, a parte mais sensvel da anatomia anglica, onde est concentrada toda a
essncia celeste, toda a energia sagrada, todo o poder da aura pulsante.
         Com uma mo, o prncipe despedaou a couraa, e com a outra arrancou o corao do
irmo. Uma luminosidade mstica envolveu o cadver, e o corpo se dispersou em vibraes
cintilantes. E esse foi o fim do arcanjo Uziel, patrono da casta dos Querubins.
         Vitorioso, Miguel se aproximou do pedestal, onde repousava o livro fechado. Deslizou
os dedos sobre as inscries, e sublinhou com os olhos os caracteres marcados. Virou-se para
trs, para a nave do templo, agora vazia. Ento, regressou a ateno ao tomo sagrado. Com um
misto de seriedade e loucura, o arcanjo falou em sussurro:
         -- Concordo com voc em um ponto, irmo: chegou o dia de Deus despertar de seu
sono.




Rio de Janeiro, costa leste da Amrica do Sul, em um futuro prximo.


                               O REI CADO DE ATLNTIDA

O sol estava se pondo.
         Em p, sobre a gigantesca mo da esttua do Cristo Redentor, o Anjo Renegado
observava a cidade,  aproximao do crepsculo. Sua expresso, inabalvel e serena, era de
algum que muitas vidas vivera, de um andarilho que percorrera o mundo, desvendara seus
infinitos mistrios, e enfrentara toda a sorte de criaturas, abissais e celestes. Mas era tambm o
semblante de um pioneiro, que visitara naes j perdidas, e que se sentara  mesa com os
grandes homens de outrora. Era como se, nas profundezas daqueles olhos cinzentos, estivesse
gravada uma parte singela de cada civilizao, de cada povo, de cada cultura ancestral e
moderna  das torres resplandecentes de Atlntida s pirmides da Babilnia; das cidades-
estado gregas  majestade do Imprio Romano; das catedrais medievais s caravelas de Sagres;
das campanhas napolenicas ao horror nuclear. A histria de toda uma espcie vivia agora na
mente do fugitivo, um guerreiro de jovem aparncia, to preservado quanto os homens mortais
no auge da casa dos trinta.
        s vezes o lutador ficava imvel por horas, em absoluto silncio, meditando sobre seus
amigos j mortos, de maneira a no olvid-los jamais. Padecia de um nico temor: o medo de
esquecer  esquecer os seus ideais, o seu passado, e a sua luta incansvel.
        Uma rajada de vento sacudiu a montanha, balouando os loiros cabelos do renegado.
Ele os prendeu com uma fita, e caminhou sobre a estrutura de pedra. Seu equilbrio era
impecvel, mesmo na estreita passagem, que completava o brao da escultura titnica. No se
parecia com um anjo de fato, porque escondia suas asas, enfiadas na carne. O rosto era nrdico,
tipicamente, e o corpo atltico, forte e delgado. Guardava um aspecto felino  era a face de um
caador, sempre alerta ao perigo, e pronto a responder ao ataque. A barba, mais espessa  volta
da boca, formava um cavanhaque dourado, e as roupas escuras delineavam uma silhueta
sombria. Esttico, inabalvel ao vento, o Querubim esperava por algo. Provava o cheiro do ar,
escutava o movimento das nuvens, e enxergava a despedida do sol.
        Dali, do cume da imensa montanha, mesmo os maiores arranha-cus eram agulhas,
farpas minsculas no corao da cidade. As guas da baa de Guanabara, cercada pelo morro do
Po de Acar e pelas brancas areias da enseada, refletiam o rseo brilho poente. Foi ento que,
 contemplao da paisagem, o celeste percebeu o quanto a metrpole crescera, desde sua
chegada ao Brasil, h trezentos anos exatos. As praias estavam interditadas, e as fbricas
poluam a baa. As pessoas construram pontes e ruas, e levantaram antenas no alto dos morros.
        Agora, era s uma questo de tempo at que o sol extinguisse seu fogo, e a civilizao
mortal perecesse.
        E o gigante dos tempos entendeu porque estava triste.
        Por mais que um dia tivesse sido um anjo, ele agora era humano tambm.


        O Tecido da Realidade tremeu, e um trovo correu pelas nuvens.
        A membrana mstica, a pelcula invisvel que separa o Mundo Fsico do Espiritual, fora
abalada, lanando ao Plano Material dois visitantes, duas entidades to fortes quanto o general
exilado. Uma delas se materializara  distncia, e permanecia parada sobre a grade de ferro que
circulava a base da esttua. Emanava uma aura terrvel, malfica, cheia de dio e furor. O
segundo era amistoso, e no desejava combate. Apareceu ali perto, por cima do ombro do
Cristo, prximo ao anfitrio renegado. Coxo, ele caminhou ao encontro do anjo guerreiro,
apoiado em uma bengala afiada.
        -- Ablon, o Anjo Renegado  sussurrou o forasteiro, evocando o verdadeiro nome do
general -- Imaginei que o encontraria aqui. De certa forma no deixa de ser irnico...
        A criatura saiu das sombras e, tal como o lutador, parecia um homem comum. Maduro,
tinha o corpo largo e macio, mas era mais baixo do que o celeste. Usava um terno alinhado,
imitando os trajes mundanos. Uma barba escura cobria a face, delineando um queixo redondo.
        -- ... nos braos de Deus  completou.
        Orion, o Rei Cado de Atlntida. Era assim que o chamavam.
        -- Pensei que voc viesse sozinho  reagiu o Querubim, fitando o demnio disfarado
de gente, trepado na grade metlica a 30 metros abaixo de si.
        -- Ah, sim, Apollyon...  a ateno de Orion se desviou  mureta de ferro  Eu sinto
muito. Tive que traz-lo. Ordens do chefe.
        As montanhas enfim engoliram todo o lume do sol vespertino, e o oceano aguardou o
nascimento da lua. J na penumbra da noite, Ablon virou-se para encarar seu velho confrade,
um anjo cado, hoje um dos duques do Inferno, um monarca falido, que havia seguido as hostes
de Lcifer nos tempos da Guerra no Cu. Como muitos, Orion fora ludibriado pela persuaso do
Diabo. Quando celeste, fora enviado  Terra para governar a legendria cidade de Atlntida,
mas o Dilvio destruiu toda a ilha, e sepultou seu povo adorado. O Rei Cado ento regressou ao
Paraso, revoltado com as catstrofes incitadas pelo arcanjo Miguel. Assim, quando Lcifer se
levantou contra o Prncipe dos Anjos, Orion assumiu seu partido, mas a revoluo fracassou, e
os rebeldes foram lanados ao Abismo. Isso foi depois do expurgo dos renegados. Nos dias da
revoluo, Ablon e sua irmandade j haviam sido execrados. Se Orion estivesse no Cu  poca
da conjurao, talvez tivesse se juntado a ela.
         -- Orion, em considerao  nossa antiga amizade eu aceitei me encontrar com voc.
Eu quero deixar claro que este  o nico motivo. O seu mestre me traiu. O demnio que o
acompanha  e ele se referia ao implacvel Apollyon, um assassino terrvel, conhecido por ter
vitimado dez dos dezoito renegados  matou muitos de meus amigos. Ademais, eu nunca
simpatizei com os condenados do Poro  era uma gria que definia o Inferno  Portanto seja
breve. O tempo corre.
         O Rei Cado sorriu. Aquele era o antigo Ablon, sem dvida, o seu bom camarada que s
vezes o visitava em Atlntida, e se sentava ao banquete nos dias festivos. O general no havia
mudado. Orion o admirava porque, apesar das provaes, das perdas e das perseguies, ele no
largara os seus verdadeiros valores. Desafiara a todos para defender uma causa, e por ela
continuaria lutando. Quisera eu ser como ele  pensou o monarca, mas ele reconhecia tambm o
revs da liberdade. A morte e a solido acompanham os exilados, e de repente Orion achou que,
mesmo que tivesse escolhido o caminho dos bravos, ele talvez no conseguisse trilh-lo.
         -- Ento voc tambm notou, no ?  instigou o infernal  Os sinais. Eles so a prova
definitiva de que o fim do Stimo Dia est terminando, e com ele toda a vida humana.
         O Apocalipse.
         Orion estava certo. Os sinais eram evidentes. Todos os smbolos e profecias apontavam
para o Juzo Final.
         -- Eu sou um anjo renegado, o ltimo ainda vivo. Estou condenado a viver neste
Mundo Fsico. No posso mais cruzar o Tecido da Realidade como vocs. Mas no  preciso ser
muito esperto para notar que o Armagedon se aproxima  o guerreiro fez uma pausa, e ento
concluiu:
          E  triste pensar que tudo o que fizemos foi em vo.
         Orion achegou-se ao exilado, e tocou o seu ombro. Mesmo manco, se equilibrava com
maestria no brao da esttua de pedra, arrastando a bengala.
         -- No h mais sada, Orion  continuou o fugitivo  No h mais esperana. O arcanjo
Miguel finalmente conseguir seu intento, mas desta vez ele no enviar os seus anjos. A
civilizao humana arruinar a si prpria, com suas guerras e armas modernas. E contra os
homens, nada podemos fazer.
         Seguiu-se um longo silncio, e a conversa penetrou na noite cerrada. Ablon continuava
atento  silenciosa presena de Apollyon, o Exterminador, que o observava de longe. Os dois
eram inimigos declarados, desde os tempos em que ambos eram generais no Paraso  Apollyon
era tambm um anjo cado, como Orion e Lcifer. Era aquela uma contenda milenar, e essas
brigas ancestrais s se resolvem na espada.
         -- H muitos anos, eu fui o prncipe de Atlntida  comeou o visitante  Como um
deus, eu governei a cidade. Cada humano era para mim como um filho. A felicidade estava em
todo o lugar, e quase no existia o sofrimento. Naquela poca, eu tinha um amigo. Ele era um
formidvel guerreiro, um soldado valente e sbio. No raro, ele vinha ao meu palcio. Ns
falvamos  multido e depois cantvamos louvores ao Altssimo  ele mirou as ondas do mar 
Mas um dia, terminou a utopia. A fria dos arcanjos devastou minha ilha, e o povo morreu.
Com ela, acabou tambm o meu sonho, o meu desejo de difundir a perfeita civilizao, sem dor
ou misria. Quando regressei ao Salo Celestial, soube que o meu amigo, o general incansvel,
havia enfrentado os primognitos, e a coragem dele me fez prosseguir. Tudo o que eu queria era
vingana, e ento, desesperado, eu aceitei as idias de Lcifer.  verdade que fomos derrotados,
e que tenebrosa foi a nossa punio, mas eu nunca me arrependi por ter confrontado o opressor.
Para isso, eu me inspirei em algum  o olhar voltou ao lutador  Por toda a sua vida voc lutou,
general. No pode desistir logo agora.
         -- E qual  a sua proposta?  perguntou, amolecido pela confisso do monarca.
         -- Sei que Lcifer o traiu. Talvez ele no seja a criatura mais justa do universo, mas 
quem melhor conhece as fraquezas do tirnico Miguel. Todos, no Inferno e no Cu, esperam
pelo derradeiro confronto, a batalha do Armagedon, que anteceder ao despertar do Altssimo.
O combate  a nossa ltima chance de despojar o Prncipe dos Anjos, antes de o Criador voltar 
cena do cosmo. Os vencedores estaro mais perto de Deus, e a Ele apresentaro suas armas.
         -- Quando Yahweh acordar, Ele punir os perversos  argumentou o renegado  E no
h dvida de que Miguel ser o primeiro a ser condenado, por ter usado a Sua Palavra para
justificar tantos massacres. Ento, por que no esperar, simplesmente. Por que no aguardar o
regresso de Jeov?
         -- No sei quanto a voc, mas ns queremos vingana  rebateu, e analisou o rosto
sofrido do fugitivo  E eu diria que voc tambm.
         -- Tudo o que eu quero  a justia.
         -- Que seja. Chame-a como quiser. Os seus interesses esto ligados ao nosso. Miguel se
prepara para a guerra, e ns temos um inimigo em comum.
         -- O que est me propondo  uma aliana  digeriu o guerreiro, incrdulo.
         -- A Estrela da Manh quer voc ao nosso lado.
         -- Seu mestre sabe que eu nunca me uniria a ele, no depois de ele nos ter enganado, e
denunciado a conjurao. Se eu tiver que lutar essa ltima batalha, no ser sob as asas de um
maldito farsante.
         Orion j esperava aquela resposta, e chegara a julgar estpido o seu senhor, por t-lo
enviado  Terra com to inusitada proposta. Mas por muitas vezes o Rei Cado se surpreendera
com a perspiccia do Arcanjo Sombrio, e preferiu no julg-lo precipitadamente.
         -- Eu entendo todas as suas preocupaes, mas desta vez  diferente. Este  o embate
final de uma guerra que persiste por milhares de anos. No haver uma outra oportunidade para
derrotar o arcanjo.
         Ablon cerrou os punhos, e fechou os olhos, em ligeira meditao. Tudo o que ele mais
desejava era completar o ministrio de sua vida, enfrentar o Prncipe Celeste e vingar a memria
dos renegados. O anjo guerreiro sabia que jamais venceria uma guerra sozinho, mas certamente
aquela guerra no seria vencida sem ele. Depois de tantas batalhas, de tantos combates, o
fugitivo era o comandante ideal, o mais indicado para dirigir um exrcito hostil ao tirano. Mas,
controlando ou no uma armada, Ablon iria desafiar Miguel mais cedo ou mais tarde, porqu
essa era a sua demanda vital, o sentido de sua existncia. O duelo s seria possvel quando o
Tecido da Realidade casse, j que o exilado estava preso ao seu corpo fsico, e portanto incapaz
de passar ao plano espiritual, e de viajar ao Paraso. E a membrana s desapareceria  concluso
do Apocalipse. Mas, caso firmasse acordo com Lcifer, teria o Diabo meios de pr prncipe e
vagabundo cara a cara, para uma peleja mortal?
         -- Estarei esperando por voc nas proximidades da ponte Rio-Niteri daqui a quatro
dias exatos.  disse Orion, quebrando o silncio  Se voc no estiver l, eu voltarei ao Sheol e
direi ao meu mestre qual foi a sua resposta.
         O renegado concordou, com um tmido sinal de cabea. No descuidava nem um
instante de seu odiado rival, o demnio Apollyon, ainda empoleirado no gradeado. Era
fortssimo o tal Exterminador, um demnio guerreiro, pertencente  casta dos Malikis, os
soldados do Inferno. A pele era morena como a dos bedunos, e os cabelos negros e ralos.
Vestia um sobretudo marrom, muito batido, e roupas grossas. Tinha, assim como Ablon,
instintos de predador, e  claro que estava preparado para o assalto, caso o celestial explodisse, e
saltasse para atac-lo.
         Orion andou para as trevas, mas acrescentou antes de desaparecer no escuro:
         -- Quero que fique com isso  sussurrou, sacando um fragmento de pedra do bolso. Era
um estilhao negro de basalto, e um smbolo em baixo-relevo marcava a superfcie.
         --  a runa atlntica da paz  reconheceu.
         -- Era parte do monolito que eu levantei na praa central de Atlntida. Foi a nica coisa
que sobrou da minha cidade  completou, melanclico.
         -- Eu me lembro  respeitou o guerreiro, aceitando o presente.
         Ablon no era o nico a sofrer com as memrias passadas. Orion tambm tinha os seus
prprios fantasmas, e talvez fosse a dor que os unisse, a nostalgia inesquecvel daqueles dias de
glria. Compreendeu, ento, mais uma das grandes emoes humanas. A ligao entre demnio
e renegado era forte, porqu compartilhavam das mesmas lembranas. E essas recordaes so
inviolveis, precisamente porqu se transformam em lugares mticos, inalcanveis, cones para
uma mente doda.
         Quando a lua nasceu, arrastando o anil da primavera, os dois infernais j haviam
sumido. A membrana fora novamente partida, e agora Orion e Apollyon estavam a caminho do
Inferno.
         -- Lcifer foi muito esperto ao mandar voc at aqui, Rei Cado  sussurrou o celeste 
 o nico a quem ouo. Mas eu estarei preparado para tudo. Como sempre estive.
         Desceu a esttua com um pulo, e tomou a estrada em retorno  cidade.




Quarto Cu, doze mil anos atrs



                                  As GUERRAS ETREAS

No PRINCPIO, HAVIA O CU E A TERRA, as duas grandes dimenses de um universo bem jovem. H
muito tempo, antes da queda de Lcifer, o inferno no existia, s a Gehenna, o purgatrio das
almas, uma das sete camadas celestes destinadas a abrigar o esprito dos pecadores. Esse lugar
no era muito diferente do Sheol, para onde o Arcanjo Sombrio e seus seguidores foram
lanados aps o fracasso na guerra. Na Gehenna a Estrela da Manh governou, at que fosse
expulsa pelo arcanjo Miguel.
         Naqueles dias antigos, anteriores mesmo  conjurao, os anjos eram numerosos e
fortes, e alguns por demais violentos. Antes do dilvio, a civilizao humana na terra era
dominada por duas naes rivais: Enoque, a Bela Gigante, e Atlntida, a Prola do Mar. Mas,
apesar da majestade das grandes potncias e de seus heris inesquecveis, sua influncia no
chegava a todos os rinces do planeta. Pores significativas continuavam independentes, e
dezenas de milhares de tribos e cls habitavam o mundo.
Muitas aldeias no reconheciam a existncia de um nico Deus e veneravam suas prprias
divindades locais. Essas divindades nada mais eram do que espritos de grandes heris que,
adorados aps a morte, se tornaram entidades poderosas, crescendo com a energia das preces de
seus dedicados fiis, A fim de permanecer em contato com seu squito de adoradores, essas
entidades preferiram no seguir para o paraso, mas ficar na camada mais profunda do mundo
espiritual, o chamado plano etreo -- da se chamarem espritos etreos.
         Com o tempo, os espritos etreos, personificados sob a forma de divindades tribais,
foram ampliando sua influncia,  medida que seus cultistas se multiplicavam. Esse poder
paralelo na esfera mstica ameaava a autoridade dos celestiais, que assistiam, aos poucos, 
decadncia de seu domnio sobrenatural sobre os seres humanos.
        Diante da situao, os arcanjos determinaram que os espritos etreos deveriam ser
confrontados e destrudos. Iniciaram-se ento as Guerras Etreas, uma serie de campanhas
militares conduzidas no plano etreo, cujo objetivo era aniquilar toda e qualquer entidade
deificada. As Guerras Etreas duraram cerca de dois mil anos, entre doze mil e dez mil anos
antes de Cristo. Em algumas regies, opecialmente no Oriente, as legies celestes foram
destronadas, mas em outras partes saram vitoriosas.
        Ao fim das Guerras Etreas, os arcanjos retomaram a poltica dos grandes massacres,
enviando pelotes de anjos  terra para assassinar os seres humanos. A justificativa era muito
simples. Segundo Miguel, que dizia falar em nome de Deus, Yahweh havia se envergonhado de
sua criao, to perversos haviam se tornado os homens. A civilizao humana no parava de
guerrear -- cl contra cl, tribo contra tribo, aldeia contra aldeia. Pelo dio natural que
carregavam no corao, os mortais deveriam ser descartados.
Muitos anjos bons no concordavam com os morticnios, mas como questionar uma entidade
que era a prpria voz do Criador? E alm disso, os arcanjos eram insuperveis em inteligncia e
vigor.
Os poucos que enxergavam a verdade sabiam que Miguel tinha inveja e cime da humanidade,
por Deus ter dado a ela o mundo, a alma e o livre-arbtrio. O Prncipe dos Anjos desejava em
seu ntimo acabar com todos os homens, roubar-lhes a terra e assumir o trono do Deus
adormecido, pelo menos at seu despertar. Mas ele no era o nico. O ambicioso Lcifer tinha
igual motivao, e fet ento que se tornaram rivais.
No entanto, a cada ano que se passava,  medida que a civilizao florescia, engrossava o tecido
da realidade. Assim, tornava-se cada vez mais difcil para os celestes agirem na esfera material,
e ento Miguel, indomvel, arquitetou o cataclismo que, segundo ele, liquidaria de vez os
"bonecos de barro".
Para seu desagrado, o prncipe descobriria a verdadeira resistncia da espcie terrena.


                                     CHUVA DE SANGUE
         No Quarto Cu, isolada no corao do oceano celeste, havia uma montanha delgada que
se alargava no topo, imitando a forma de um cogumelo. Em seu cume ficava o Castelo da Luz, o
principal ncleo de atividade dos guerreiros alados no paraso. A fortaleza fora projetada para
suportar mil legies, prontas a defender o cu contra qualquer invaso. O lder do castelo era o
arrogante Balberith, o prncipe da casta dos querubins. Temido por todos os soldados,
envergava uma armadura sagrada chamada Couraa da Honra, dada a ele pelo arcanjo Uziel,
patrono da ordem dos combatentes.
         Naquele dia, h doze mil anos, a aurora dava espetculo, e o sol nascente desenhava
uma estrada tremulante no mar. Ablon, o Primeiro General, aterrissou no ptio central e contraiu
as asas. S ento regressava ao forte, depois de um longo perodo de recuperao. Gravemente
ferido durante as Guerras Etreas, o lutador quase perdera a viso ao afrontar o deus Rahab,
chefe de uma horda de entidades etreas. De foto, no estava totalmente curado, mas um acon-
tecimento terrvel antecipara sua volta.
         Justo e bom como era, Ablon no tolerava participar das carnificinas ordenadas pelos
arcanjos, mas, enquanto descansava, o comando de sua legio fora entregue ao maior de seus
adversrios -- o abominvel Apollyon, o Anjo Destruidor. Esse homicida nefasto liderara seus
soldados em uma sangrenta incurso pela Haled -- como os celestiais chamam o plano fsico
--, aniquilando um povoado inteiro. A operao fora chamada de Chuva de Sangue, em aluso
 passagem atroz da legio.
         Indignado, porm contido, o general retornou sem demora, preocupado em retomar a
liderana de suas divises. Mas, a despeito de sua querela com o Destruidor, outro evento
marcante estava para mudar para sempre a poltica anglica, e quanto a isso o lutador nada
podia fazer.
         No Palcio Celestial, no Quinto Cu, os cinco arcanjos discutiam a proposta de Miguel
de lanar um cataclismo  terra. A deciso dos primognitos seria anunciada em breve, e os dez
generais deveriam estar reunidos -- havia dez gran-is querubins sob a tutela de Balberith. Ablon
e Apollyon estavam entre eles.
         Lcifer, a Estrela da Manh, mostrara-se contrrio  hecatombe. O impasse foi
resolvido, ento, com o envio de trs celestiais  Haled, cuja misso seria comprovar -- ou
refutar -- a perversidade dos homens. Se existisse ao menos uma pessoa justa e reta na face da
terra, ela seria poupada.
         Os escolhidos para a misso foram trs anjos de castas distintas. Um deles era Balam,
da casta dos hashmalins, ordem que defende a purificao da alma pelo sofrimento da carne. O
segundo enviado era Nathanael, da casta dos ofa-nins. Os ofanins so anjos da guarda, figuras
de luz e sabedoria que amam os mortais e os ajudam no caminho da salvao. Por fim, o
terceiro designado era Baturiel, o Honrado, capito da ordem dos querubins, guerreiro cuja
nica atribuio seria arbitrar a disputa.
         Durante a incurso, Balam tentou corromper cada mortal que encontrou, usando de seus
estratagemas para incitar a cobia nos homens. Nathanael tentou anular suas artimanhas, mas o
hashmalim era ardiloso e teria voltado ao cu com um relatrio impecvel, no fosse por um
nico humano que resistiu s provaes: No. E era precisamente sobre o destino desse homem
que os arcanjos agora deliberavam.
         Ablon, por sua vez, j tinha em mente uma conjurao. Planejava reunir alguns
celestiais que compartilhavam das mesmas idias que ele e depois buscaria o apoio de um dos
cinco gigantes -- Lcfer, o principal inimigo do poderoso Miguel. Mas, para isso, a
humanidade teria que sobreviver  prxima destruio, e ento os conjurados agiriam.
         Por ora, a situao estava nas mos dos arcanjos.


        O Castelo da Luz era uma edificao grandiosa, lapidada em pedra clara, ouro e
mrmore e praticamente inacessvel por terra ou mar. Por ar, os virtuais inimigos teriam que,
antes, vencer as numerosas patrulhas aladas que defendiam a fortaleza. Por todos os cantos do
cu, anjos armados deslizavam ao vento, subiam, desciam, mergulhavam e rodopiavam, em uma
dana bela e mortal.
        No ptio menor, uma rea circular com cem metros de raio, os querubins praticavam
tcnicas de infantaria, manejando suas espadas contra oponentes invisveis. Outros moviam suas
lanas, simulando o combate, enquanto um regimento de mulheres-anjo praticava tiro com seus
arcos fantsticos.
        Ablon ajeitou sua armadura dourada, uma couraa peitoral coruscante. As armaduras
completas, com placas por todo o corpo, estavam reservadas aos prncipes de casta e aos
insuperveis arcanjos -- Balberith, o lder da ordem dos anjos guerreiros, tinha uma couraa
completa. Depois, o general apertou a fivela cinto e desceu a mo  bainha, s para sentir o
conforto de sua espada mstica, a Vingadora Sagrada. Para os querubins, mestres da luta, a
espada  uma rte do corpo, um acessrio indispensvel  batalha. Eles nunca esquecem suas
armas e se sentem incompletos sem elas.
        Nas alturas da fortaleza, a brisa gelada trazia o aroma da maresia. Com sentidos de
caador, o Primeiro General escutava as ondas a estourar na base da delgada montanha,
novecentos metros abaixo. Ouvia o espargir dos respingos e as gotas salgadas escorrendo na
rocha.
        De repente, um movimento chamou sua ateno. No cu, avistou dois soldados em
disputa feroz. Sem armas, eles trocavam socos e chutes, disparando nuvens e em seguida
descendo ao ptio. Os duelos eram comuns no castelo e incentivados como parte da natureza
dos querubins. De acordo com o cdigo da casta, qualquer guerreiro podia desafiar outro de
mesma hierarquia para um combate particular. No confronto, porm, as armas eram vetadas, e o
uso de armadura, obrigatrio. Assim, a peleja nunca era letal. O duelo virava treinamento dirio,
motivando os adversrios a aprimorar suas habilidades. Muitos desafios eram aceitos na hora, e
frequentemente a fortaleza se convertia em arena aberta. Anjos em servio no podiam lutar,
apenas os celestiais em perodo de descanso.
        O costume de convocar algum ao duelo consistia em desatar a fivela do cinto,
deixando cair a espada. Era o sinal que indicava que o rival estava desarmado e pronto para a
disputa. Os alados que portavam armas distintas -- como lanas e arcos -- simplesmente
largavam o objeto no cho e aguardavam a resposta do oponente.
        Esquecendo a briga, Ablon escutou um andar regular, acompanhado do tilintar de metal.
O capito Dariel, lutador clebre pela rapidez e percepo, parou diante do superior.
        -- General, o prncipe Balberith solicita a presena de todos os lderes de legio no
ptio central -- anunciou, contraindo as asas em sinal de respeito.
        -- Ele adiantou alguma coisa?
        -- Baturiel retornou, senhor. Ele traz a deciso dos arcanjos.


                                 A VONTADE DOS HOMENS
         O ptio principal do castelo era enorme. Vista de cima, a fortaleza desenhava um grande
crculo central, orlado por quatro ptios menores. Entre eles, altas torres de guarda faziam a
segurana, com os olhos voltados aos pontos mais distantes do oceano.
         A rea do ptio somava trezentos metros de dimetro. A leste, na direo do sol
nascente, uma escadaria em meia-lua levava  sala de guerra, uma construo semelhante aos
templos de teto abobadado, suportada por colunas brancas e cingida por esttuas de ao que
copiavam a imagem dos cinco arcanjos. O grande largo era envolvido por um peristilo, uma
galeria de pilas trs em volta da praa, formando um corredor circular.
         A oeste, duas fileiras de pinheiros adultos delimitavam o caminho at uma larga piscina
de mrmore, cuja fonte de gua brotava do corao da montanha. Nas torres e nos muros,
galhardetes e flmulas exibiam os brases das legies, diversos em formas e cores.
         Balberith, o prncipe dos querubins, subiu a um parlatro no ptio e encarou os dez
generais, ajoelhados diante dele. No era um lutador muito forte, mas Incrivelmente gil, frio e
audaz. Com a armadura completa, parecia um deus dourado, de longas asas esbranquiadas. Os
cabelos eram vermelhos, compridos e lisos, e desciam pelas costas como uma cachoeira de
fogo.
         Ele enfrentou os oficiais como se fossem inimigos, arrogante que era. Gostava de
imprimir medo em seus subalternos e, como todo militar, no admitia ser questionado. Quando
entendeu que estavam ali os comandantes, prostrados e a suas ordens, anunciou:
         --Miguel, o Prncipe dos Anjos, decretou a destruio final da humanidade.
         Havia certa satisfao em sua voz. Era bajulador dos arcanjos e apoiava suas campanhas
funestas. Ablon suspeitava que este era o motivo pelo qual ele colocara Apollyon para controlar
a legio.
         -- Mas a piedade dos gigantes  copiosa, e eles julgaram por bem poupar um nico
mortal, que se mostrou virtuoso. Esse homem ser preservado, e tambm sua famlia.
         -- Ento, h realmente pelo menos um humano justo e puro na face da terra, meu
prncipe? -- indagou Shenal, general conhecido pela cautela e inteligncia.
         --  o que foi constatado.
         -- E qual seria a participao da nossa casta nesse evento to importante? -- interpelou
o ousado Apollyon, vido por tomar parte na hecatombe.
         -- Nenhuma -- devolveu o prncipe, indiferente. -- O cataclismo ser precedido de
causas naturais. Os ishins faro todo o servio. Um dilvio. A destruio vir por meio de uma
grande inundao.
         -- E quem comandar a mortandade? -- inquiriu o Anjo Destruidor, invocado.
         -- Amael, o Senhor dos Vulces, soberano da Cidadela do Fogo.
         -- Esse Amael  um fraco -- grunhiu Apollyon. -- At mesmo seu aprendiz, Aziel,
despreza sua autoridade. Os ishins so incapazes, um bando de incompetentes que nunca
pegaram em armas.
         -- Lembre-se de quem voc  -- alertou Varna, mulher-anjo comandante da legio das
arqueiras. -- Somos anjos, querubins e soldados. Nosso dever  obedecer s ordens supremas e
cumpri-las.
         -- No h lugar para ns nesta destruio -- completou Ablon, contestando o
Destruidor. -- Faremos como nos foi ordenado.
         Aliviara-se por no ter que participar da matana. Mas, na certa, a preservao de No
era um engodo para obscurecer uma deciso leviana. Os arcanjos nunca achariam que uma s
famlia mortal resistiria  desolao aps o dilvio.
         Apollyon irritou-se ao ser contrariado por seu mais odiado rival. O sangue ferveu, e ele
ensaiou uma rplica, mas Balberith o cortou.
         -- Est acertado. Instruam seus soldados e assegurem toda a proteo aos ishins nessa
operao. Alguns de ns teremos de ir  Haled para escolt-los -- e dirigiu o olhar ao
Destruidor. -- Voc pode se apresentar como voluntrio.
         Somos querubins, guerreiros, assassinos de Deus!-- pensou Apollyon. Como dar o
comando da misso aos ishins?-- revoltou-se, e sua raiva recaiu sobre o Primeiro General, que
to seriamente o questionara. Quem ele pensa que ? Tornou-se heri  minha custa, superando
a minha legio nas Guerras Etreas.
         Quando Balberith terminou, os generais se dispersaram. Imediatamente, Ablon
imaginou como poderia arquitetar uma resistncia. O Castelo da Luz no era o melhor lugar
para principiar uma conjurao, mas no havia tempo a perder. Nunca fora bom poltico, e teria
que pensar muito se quisesse obter qualquer tipo de apoio.
         Preferiu, ento, procurar Baturiel.


         Baturiel, o Honrado, era um dos mais destacados capites querubins. Seu principal rival
era outro capito, um guerreiro chamado Euzin, subordinado ao voraz Apollyon. Euzin
consagrara-se nas Guerras Etreas, depois de uma terrvel batalha em que venceu vrios
espritos. Desde ento, sua espada mstica ficou conhecida como Raio de Ao, uma homenagem
 lmina mortal. Mas, para alguns, a fama tem seu revs. A celebridade o tornou orgulhoso, e
Euzin virou um detestvel celeste, invejoso e inseguro. Receava, mais do que tudo, perder o
renome, por isso desafiava anjos mais fracos ao duelo, desviando de seus superiores e
desprezando o cdigo da casta. No cansava de humilhar seus soldados e cobiava a posio de
seus chefes.
         Ablon e Baturiel se encontraram no passadio externo. De um lado, o precipcio
altssimo terminava no oceano; de outro, uma escada descia ao ptio leste, um dos quatro largos
menores  volta da esplanada central.
         A despeito de sua natureza disciplinada, Baturiel no era simptico ao assassinato dos
homens. Ablon conhecia bem seus lutadores e entendia a bondade do capito. Mesmo assim,
no inclura seu nome entre os potenciais conjurados, porque era demasiado ordeiro, e o general
temia que no fosse capaz de desafiar os arcanjos. Naquele momento, tudo que precisava era de
um fio de esperana, uma centelha que lhe indicasse que os humanos poderiam resistir  ca-
tstrofe.
         -- A Haled... a terra dos homens -- divagou o general, fitando o horizonte. -- Poucos
anjos conhecem a dimenso material.
         O lar dos celestiais era o paraso, e muitos no gostavam de viajar ao mundo fsico.
         -- Ela  para ns um lugar sufocante -- acrescentou Baturiel. Trajava uma placa
dourada, semelhante  couraa de Ablon, e carregava lana e espada. Tinha os cabelos curtos e
negros, e os olhos como duas esmeraldas fulgentes. -- O tecido da realidade limita os nossos
poderes, e a cada dia a terra se afasta do plano espiritual. Desde que o primeiro mortal se
esclareceu, tomando conscincia de sua individualidade, os celestes no mais detm sobre eles o
mesmo domnio. A fora dos homens  inigualvel, general. Foi esse o grande aprendizado que
obtive em minha misso. Frgeis enquanto criaturas palpveis, so insuperveis em vontade.
Esse  o poder de sua alma imortal.
         -- Ento me diga, capito... A humanidade resistir ao holocausto?
         Baturiel silenciou por um curto instante e depois respondeu.
         -- Os homens tm sentimentos que ns, anjos, desconhecemos. So sentimentos
divinos, sublimes. Eles, que geram a vida como Deus nos gerou, no abandonam sua cria e de
tudo fazem para proteg-la. E o tipo de emoo que nunca entenderemos. Talvez o Altssimo
lhes tenha dado esse instinto, o da preservao da espcie, para que vivessem para sempre na
superfcie da terra.
         -- E qual  sua concluso?
         -- Os arcanjos nada conhecem sobre a humanidade. Suspeito que tenham medo de
descer  Haled e nunca voltar, fascinados por suas maravilhas. O instinto humano da
multiplicao  incrvel, eu diria que nem todas as guas do mundo poderiam apag-lo --
afirmou, e finalizou num sussurro:
         -- O dilvio resultar em fracasso. A inundao no apagar a existncia mortal.
         Ablon abriu um breve sorriso, mas o suprimiu em seguida. No ntimo, o corao
festejava.
         -- E ser que a famlia escolhida resistir ao cataclismo? Sero capazes de reconstruir a
civilizao?
         -- Nem s eles sobrevivero. Muitos desprotegidos tambm vo escapar  matana. A
resistncia dos terrenos  admirvel. Alm disso, at Miguel tem seus inimigos, e agora me
refiro a Lcifer. Se os escolhidos morrerem, a unidade dos arcanjos ser abalada. No acho que
o monarca se arriscaria a tal ponto. Uma briga entre Miguel e Lcifer terminaria em uma guerra
sangrenta, que poderia arrasar o paraso.
         Lcifer -- pensou o Primeiro General. O Filho do Alvorecer ser o trunfo dos
conjurados -- planejou. Quem melhor do que ele para apoiar uma revolta contra o perverso
Miguel?
         Na ocasio, Ablon no sabia que seria vtima de sua prpria inocncia poltica. Lcifer
tambm era perverso, porm mais inteligente e astucioso que seu irmo. No assumia uma
postura tirnica, mas carismtica. Muitos anjos -- bons e cruis -- o adoravam, porque a
Estrela da Manh era a voz da liberdade em um reino opressor, a fora que se levantava pelo
direito dos fracos.
         Suas pretenses, no entanto, eram medonhas.


                                   O LEGENDRIO DUELO
         Ablon ficou em silncio ao lado do capito, imerso no distante sonho da conjurao.
Apollyon, o Anjo Destruidor, se aproximava pelo passadio, seguido por dois celestiais que
adejavam em escolta. Apollyon era quase um gigante, vigoroso e possante -- certamente o mais
forte dos generais. Uma couraa de metal prateado protegia-lhe o torso, e na cinta levava uma
lmina afiada. Os olhos escuros fulminavam, brilhando de ira e maldade.
         Ablon manteve apertado o cabo da arma, mas conservou a espada na bainha.
Dificilmente seria atacado de surpresa, embora seu rival no obedecesse s regras da ordem.
         Os olhares inimigos se cruzaram, e as sentinelas pressentiram a tenso.
         -- Relaxe a guarda, guerreiro -- disse o Destruidor, percebendo a preveno do heri.
-- S vim devolver-lhe o comando de sua legio, oficialmente.
         -- Parece que conseguiu a vingana que procurava -- retrucou Ablon, referindo-se 
rixa pessoal entre eles. -- Estamos quites agora. No quero mais continuar esta briga -- props,
tentando pr termo  rivalidade.
         -- Aquela vitria era minha! -- protestou Apollyon, relembrando as Guerras Etreas.
-- Nossa contenda s terminar com sua humilhao -- determinou -- ou com sua morte.
         -- Se assim prefere... Ento  provvel que nunca consiga sua desforra -- desafiou, o
general, e isso enfureceu o brutamontes, que instantaneamente dirigiu o punho ao cinto. Ablon
imaginou que fosse sacar a espada e assumiu posio de batalha, mas o perverso deslizou a mo
at a fivela e a desatou.
         Os outros querubins debandaram e voaram para longe dali, espalhando-se como
pssaros em revoada,
         Um duelo!
         Ablon no tinha sada. Era lutar ou morrer.
         O cinto e a espada de Apollyon caram, e o guerreiro, compreendendo o desafio, abriu
tambm sua fivela. Mas, antes que a Vingadora Sagrada tombasse, o Destruidor investiu como
um touro e acertou um murro no rosto do gene-ral. Sua cabea inclinou para trs, e o corpo
anglico foi arremessado do passadio ao ptio central. S parou quando as costas encontraram
uma grande coluna e, rachando a pilastra, ele escorregou para o cho.
         Com o nariz imundo de sangue, o heri viu o adversrio chegar voando ao largo.
         -- Pelo jeito, ainda no engoliu o fato de eu t-lo superado na guerra -- dsse Ablon,
ainda aturdido. -- Mas  bom se acostumar. Logo ter uma coleo de fracassos.
         -- Voc  atrevido, guerreiro. Vou esmagar sua ousadia.
         Os soldados, capites e generais, surpreendidos pela escaramua, correram para assistir
ao confronto. Eis uma ocasio que seria por milnios lembrada: o combate entre os dois
principais generais.
         Ablon se levantou, apoiado em um dos pilares. A viso era turva. A face ensanguentada
tornava a mirada obscura, mas ele distinguiu uma mancha vermelha crescendo em sua direo
-- era o rival que corria novamente ao ataque.
         Abrindo as asas em posio defensiva, o guerreiro usou os outros sentidos, menos
feridos, para perceber o inimigo. Apollyon vinha em carga, e o general decidiu que seu prximo
movimento seria um contra-ataque. Tolice bater de frente com ele, um monstro grande e
poderoso.
         No instante em que os dois lutadores estavam para se chocar, Ablon se desviou. E em
vez de deixar que o inimigo enfrentasse as colunas, simplesmente o agarrou pela gola da
armadura e alou voo. Surpreso, o homicida no reagiu,  medida que era puxado para cima.
         Quando, enfim, o Primeiro General alcanou a linha das muralhas, empurrou o
oponente ao solo com tanta violncia e rapidez que o grandalho nem conseguiu abrir as asas. O
Destruidor se espatifou contra o mrmore, abrindo uma cratera no cho. O impacto da armadura
na pedra gerou som estridente e fez as torres da fortaleza tremerem.
         Os anjos vibraram. As flmulas das legies sacudiram ao vento.
         Mas Apollyon no estava incapacitado, absolutamente, apesar da fora do golpe. Ciente
da resistncia do inimigo, o general desceu voando para mais um assalto. Como uma guia,
pretendia cair com as duas pernas sobre o brutamontes, pressionando o rosto do adversrio
contra o piso estilhaado. O perverso, porm, pressentiu a investida e saltou aos cus com as
asas abertas, para interceptar o lutador. No ar, Ablon descia com a guarda afrouxada, e
Apollyon girou de baixo para cima, acertando o guerreiro com um chute feroz.
De novo, o heri foi jogado para longe, a oeste do ptio, onde duas fileiras de pinheiros
desembocavam em uma piscina quadrada. O choque do corpo arrancou duas rvores, e o
general continuou em trajetria, abrindo um caminho profundo no cho.
         Aquele era um duelo de grandes. Era melhor assistir a distncia.
         Ferido, Ablon pulou da fissura, pronto para mais um embate. O sangue agora subia pela
garganta, avisando que algum rgo interno tinha se rompido. Quem disse que as batalhas
desarmadas no eram letais? Sim, j houvera mortes em combates assim, mas eram rarssimas.
As armaduras geralmente absorviam a maior parte da potncia dos golpes.
         De longe, Balberith observava a disputa. Nem mesmo ele, em toda sua vivncia de
guerra, tinha assistido a to magnfico duelo. Claro que j tinha presenciado uma centena de
escaramuas mortais, mas nunca entre dois generais. Com tanta pujana, o prncipe sabia que os
oponentes poderiam at se matar e destruir o castelo. De acordo com a norma da casta, s ele
tinha autoridade para interromper o confronto. Mas deveria par-los? Apenas com um bom mo-
tivo, ou os competidores seriam desonrados. Afinal, o duelo era um direito que assistia a todos
os querubins. E, mesmo assim, Balberith no poderia se arriscar a perder um de seus
comandantes. Preferiu, ento, esperar e acompanhar a evoluo da batalha. Talvez o prximo
golpe finalizasse a briga -- ou liquidasse um deles.
         No ptio, Ablon tomou posio, mas sentiu crescer a ardncia por dentro. Um litro de
sangue saiu pela boca, e ele se encurvou para cuspi-lo. Debilitado pelo enjoo, descuidou-se de
seu inimigo, que pulou para esmag-lo. Os ps do assassino atingiram-lhe o peito, e o
grandalho montou sobre ele. Em seguida, veio uma sequncia de socos. A cada pancada, a
cabea do general afundava no cho, lanceando seu rosto.
         Ablon estava no limite de suas foras, machucado e com a aura j fraca. Teria apenas
uma oportunidade de virar o combate, se acertasse um assalto preciso. Mas como?
         Os querubins conhecem uma tcnica especial chamada Ira de Deus, com a qual
concentram toda sua energia divina em um nico golpe. Essa ttica no era usada com
frequncia, por seu carter potencialmente fatal. O Primeiro General estava certo de que se
lanasse a Ira de Deus sobre Apollyon poderia venc-lo, mas a disputa se transformaria em uma
peleja mortal.
         Reanimado por uma raiva suprema e estimulado pelo cheiro de sangue, o guerreiro
acometeu.
         A Ira de Deus!
         Sim, esse combate seria para sempre lembrado.
         O punho vermelho de Ablon reluziu em uma leve aura dourada e encontrou o estmago
do homicida. Num instante, a armadura do brutamontes cedeu e se partiu ao meio. O Anjo
Destruidor foi atirado para cima, como se atingido por uma exploso colossal. Foi lanado na
direo das muralhas, traando uma linha de sangue no ar e depois batendo contra as pedras do
passadio.
         Interromper o duelo? -- pensou Balberith.
         Uma dezena de estilhaos de rocha despencou para o mar, e alguns espectadores nos
muros foram tambm acertados. Apollyon desabou, caindo paralelo ao rochedo. Sem a
armadura, estava vulnervel no s ao perigo da queda, mas tambm aos ataques do general.
         Ablon voou  passarela e de l viu seu inimigo desabando, desgovernado demais para
desfraldar as asas. Resolveu, ento, que sua vitria seria total. Era um querubim, um combatente
honrado, e prosseguiria a luta em igualdade, mesmo que o Destruidor no desse importncia ao
cdigo.
         Assim, desfez as amarras laterais da couraa e largou a placa de lado. Com o peito nu,
derrotaria o adversrio.
         Ento, com sobrenatural velocidade, mergulhou na direo do oponente, que raspava
nas pedras a cada segundo. Dali, eram pelo menos novecentos metros at o sop da delgada
montanha, onde uma praia de pedras pontudas os aguardava.
         No cimo de uma torre dourada, Balberith observava inquieto o duelo, a expresso
preocupada encrespando-lhe o rosto.
         Interromper o duelo?-- pensou novamente.
         No passadio, o capito Baturiel tambm divisava a batalha, calado. Euzin, subordinado
a Apollyon, visualizava igualmente, do outro extremo da fortaleza. Um deles seguramente
perderia seu general.
         Perto do prncipe da casta,  volta da bastilha de ouro, Shenial, um dos dez generais,
dirigiu-se a Varna, a comandante da legio das arqueiras.
         -- Agora eles esto sem armadura, a nica coisa que assegurava que sairiam vivos deste
combate. Sem ela, um deles vai morrer, com certeza.
         -- Sim, mas qual deles? -- rebateu a mulher-anjo. Interromper o duelo?-- ponderou
Balberith, sinceramente.
         Enquanto Apollyon desmoronava pela encosta, Ablon disparou, procurando a garganta
do inimigo. Batendo as asas com toda a energia, agarrou o pescoo do Destruidor com as duas
mos, fortalecidas pela Ira de Deus. Despencando, no meio do caminho entre o castelo e o mar,
o guerreiro no sentia mais nada ao seu redor, obcecado por um nico objetivo sangrento: matar
o perverso. O mundo  sua volta era s um cenrio sem vida. Tudo que importava era aquela
peleja, seu duelo final.
         Engalfinhados, os dois competidores entraram em combate cerrado, enquanto rolavam
pelo paredo. E assim, no meio da luta, Apollyon invocou sua prpria Ira de Deus, quebrando as
costelas do heri com murros consecutivos.
         De sbito, ento, os golpes pararam.
         O possante Apollyon, perceptivo, agarrou forte a goela do general com uma s mo e
com a outra puxou o brao do inimigo. O corpo de Ablon rodou e logo ele estava por baixo, em
plena cada,
         Um segundo depois da manobra do assassino, as asas do guerreiro encontraram o cho
de pedras afiadas, em uma sufocante batida. A pele, j arranhada, lascou-se em cortes
profundos, e o sangue escorreu pelas penas. As ltimas foras do general estavam a sumir
novamente.
         Os lutadores estacaram, imveis nas rochas. Perto dali, a seo prateada da couraa do
Destruidor jazia num buraco de eroso -- a mesma placa que se quebrara ao receber o ataque
enfurecido de Ablon. Mais prximo ao aclive, logo atrs, uma pilha de escombros de mrmore
evidenciava a destruio da muralha.
         Apollyon mantinha os dedos apertados em volta da garganta do inimigo, imobilizando-o
com o joelho no peito. Ambos estavam arrasados, feridos e fatigados. Mas cada um acreditava
ainda na prpria vitria.
         Interromper o duelo!-- decidiu Balberith.
         Supostamente em perfeita vantagem, Apollyon no estrangulou sua vtima. Manteve o
general preso e ergueu a mo direita para a investida final.
         O corao! O Destruidor visava o corao, a parte mais vulnervel da anatomia
anglica. Perfurar o corao de um celestial  o mesmo que mat-lo na hora, e essa seria a
prxima manobra do assassino. Para os alados, no h outra Tida aps a morte. Sua conscincia
se apaga e a vibrao pessoal regressa  fluncia do cosmo. Talvez por isso os dois lutassem
to bravamente para preservar a existncia.
         O brutamontes se preparou, concentrando a Ira de Deus. Mas Ablon no estava assim
to indefeso. Escondera na manga um segredo, uma estratgia de guerra. Fingia estar abatido,
mas se esquivaria do assalto no momento mais crucial, deixando que o atacante estourasse o
punho nas pedras. Ento, aplicaria a aut ofensiva fatal.
         O heri viu os dedos do inimigo se enrijecerem em forma de garras. Man-tinharn olhos
nos olhos. Um nico deslize levaria um deles  morte. A vida estava segura por uma fronteira
bem frgil.
         E assim, no auge do combate, uma voz ecoou por todos os oceanos:
         -- Parem agora! -- ordenou Balberith, flutuando para baixo com as asas abertas.
         Mas a fria de Apollyon no amainara, e ele esticou a mo como uma lana,
desprezando o comando do prncipe. Na hora Balberith endureceu, e sua fala soou como um
trovo:
         -- Por acaso voc tem a inteno de me desobedecer, Apollyon? -- perguntou, cm tom
assustador.
          claro que tenho!-- pensou o assassino. Mas s pensou.
         A paisagem retomou a cor, e a clera diminuiu no semblante dos predadores. Balberith
pairou a trs metros da gua, repreendendo os duelistas com uma expresso irritada.
         Centenas de anjos mergulharam para a base do alto rochedo, para assistir  concluso da
legendria disputa. Mas eles no eram os nicos que queriam a continuidade da briga. Os dois
rivais, mesmo j esfriados, desejavam terminar logo o embate.
         -- Meu prncipe, deixe que prossiga o confronto! -- suplicou o Primeiro General. No
queria desobedecer ao superior, mas era grande a vontade de exterminar o adversrio e
conservar a honra.
         Balberith chegou ao lado dos dois celestes e os encarou. No usava sandlias, como os
outros, mas botas de couro macio. Sua presena era fascinante, e sua aura, admirvel.
         -- Se insistirem neste combate, terei que mat-los -- blefou, e fez gelar o sangue dos
generais. Ainda que poderosos, nem Ablon nem Apollyon eram preo para o prncipe da ordem.
O Destruidor se enfureceu com a deciso e teria atacado o soberano, mas preferiu guardar seu
dio. Felizmente para ele, Balberith era um combatente, mas no podia ler pensamentos. Se
pudesse, Apollyon estaria arruinado.
         Os oponentes se levantaram.
         Quando o ruivo foi embora, regressando  torre dourada, o brutamontes rosnou:
         --Ablon, da prxima vez no haver nenhum prncipe para salv-lo.
         -- Esperaremos ansiosos por esse dia -- devolveu o lutador, dando de ombros e
voejando ao Castelo da Luz.
         O duelo estava encerrado.
                                    A TERCEIRA GUERRA
ABLON ESTACIONOU A MOTOCICLETA DE GUIDO cromado em um beco escuro, desmontou e atravessou
a estreita rua de paraleleppedos, j deserta quela hora da noite. Mesmo sendo uma cidade
grande, algumas reas do Rio de Janeiro, especialmente as do centro, conservam a arquitetura
do sculo XIX -- sobrados de trs andares, igrejas barrocas e vias pouco iluminadas --, uma
herana do passado colonial que continua presente nas zonas histricas, onde outrora caminha-
lam piratas, jesutas e escravos. A alguns metros dali, as ruelas antigas convergem em uma larga
avenida asfaltada, margeada por enormes arranha-cus com anncios de non no topo. Pela
calada, buracos de metro adentram o solo,  luz dos postes noturnos e dos semforos piscantes.
Esse  o aspecto do centro, uma conjuno entre o velho e o novo, um choque arquitetnico
entre a urbe moderna e a extinta capital da colnia.
         H cerca de cinquenta anos, com o crescimento da cidade, muitas pessoas ac mudaram
para bairros mais distantes, e o centro deixou de ser residencial, passando a ser exclusivamente
comercial. Quase ningum mais mora por ali, e os poucos residentes so na maioria mendigos
ou forasteiros que dormem em abrigos ou nas poucas penses, mais usadas pelas prostitutas.
          noite, aquele  um bairro fantasma, visitado apenas pelos operrios da prefcitura, que
consertam sinais de trnsito e reparam o asfalto. Quando chega o dia, contudo, a vizinhana 
invadida pela mais heterognea das turbas -- executivos de terno, aleijados, pedintes,
vendedores de amendoim, motoristas de nibus, estudantes atrasados e pregadores religiosos. O
movimento diminui s pelo fim da tarde, ao trmino do expediente, quando os trabalhadores
voltam para casa. Alguns permanecem, divertindo-se nos bares ou frequentando os prostbulos,
mas tudo acaba antes da meia-noite, para renascer com o brilho do sol.
         Havia uma penso escondida no lado antigo, o Hotel Montenegro, que Ablon escolhera
como refgio. Conseguira convencer o proprietrio a alugar um dos quartos grandes por tempo
indefinido, o que salvou as contas da hospedaria, j quase entregue s baratas.
         Se havia um lugar na cidade para um anjo renegado se hospedar, era aquele local. O
Hotel Montenegro no passava de uma penso desprezvel, praticamente abandonada. E, mesmo
sendo uma construo bem antiga, o mundo espiritual estava limpo sob o tecido da realidade --
nada de espritos arrastando correntes ou espectros saindo das sombras. Os antigos residentes do
sobrado, conforme Ablon j conclura, no deixaram assuntos pendentes para castigar a alma.
Ao contrrio do que se pensa, nem sempre os fantasmas atormentam os vivos, mas os anjos
podem avist-los no plano astral, e  aborrecido, por vezes, assistir ao lamento das
assombraes.
         O Hotel Montenegro estava de acordo -- isolado e obscuro, um buraco decadente na
cidade decrpita.


        Ablon abriu a porta e entrou no apartamento. O quarto era grande, antigo, com o p-
direito alto e o cho de madeira, que provavelmente fazia parte da construo original. O
cmodo, largo e sem divisrias, ocupava todo o terceiro andar do sobrado. O proprietrio
contara ao renegado que o recinto fora, no passado, uma espcie de depsito. Havia poucos
meses, ao se estabelecer ali, o celestial trouxera centenas de inusitados objetos, artefatos que
colecionara por cerca de ses mil anos. Nunca carregava coisa alguma em suas viagens, mas
guardava os itens em stios escondidos, e agora ele os reunira em seu refgio. Assim, o salo
mais parecia um pequeno museu. Nas estantes abarrotadas, descansavam documentos
ancestrais, tomos de feitiaria, tapearias medievais, tratados helnicos, papiros egpcios, mapas
espanhis e exemplares de livros originais do sculo XIX, incluindo um manuscrito de A
origem das espcies, de Darwin. Outras prateleiras sustentavam mais caixas, dentro das quais
jaziam gldios romanos, armaduras japonesas, escudos nrdicos, placas sumrias, quadros
renascentistas e outros cones culturais que Ablon preferia preservar, nem que fosse
simplesmente para no esquecer o prprio passado.
        Trancada a porta, o lutador tirou o sobretudo emborrachado, que usava para se proteger
das chuvas frequentes que caam sem avisar naquela cidade mida e quente. Puxou uma cadeira
e se sentou  macia tvola de mogno, entulhada de jornais e revistas, que dividiam espao com
rolos envelhecidos de pergaminho, escritos em aramaico. O guerreiro estivera, por semanas,
analisando os peridicos e buscando ligaes entre os fatos recentes e as velhas profecias.
Infelizmente, reconhecera os paralelos e notara os sinais.
        Os sinais do Apocalipse.
        Para um pria como Ablon, era difcil saber o que acontecia no cu ou no inferno. Mas,
com o tempo, ele foi entendendo que os eventos espirituais encontram reflexo no plano fsico.
Foi assim que, pela primeira vez, percebeu os sinais, os indcios que confirmavam os ltimos
dias da terra. Comeou com aquilo que os profetas chamaram de "cavaleiros do Apocalipse".
No houve cavaleiro de fato nem entidades montadas que personificassem a previso. Mas o re-
negado podia perceb-los nas guerras no Oriente Mdio, nas crianas famintas da frica, nas
epidemias, nos falsos videntes e em todo lugar onde a morte arrastava seu manto. Depois, a
situao mundial se degradou, e isso nada teve a ver com as foras infernais ou celestes.
        No incio do sculo XXI, a crise econmica mundial voltou a fomentar o expansionismo
das grandes potncias, a exemplo do que acontecera em fins do sculo XIX, Os Estados Unidos
da Amrica, abalados por problemas polticos e financeiros, buscavam expandir seus territrios
de influncia, invadindo e ocupando dezenas de pases menores. Aps a invaso do
Afeganisto, os americanos avanaram para o Iraque e depois continuaram a operao,
ocupando a Sria, O Ir e a Lbia, sempre sob o pretexto de autodefesa. Acusavam levianamente
seus inimigos de deter arsenais de armas qumicas, biolgicas e nucleares, argumentos que
quase sempre eram refutados pelos inspetores das Naes Unidas. Fixando o domnio sobre
esses pases, os estadunidenses fecharam o cerco ao Oriente Mdio, estabelecendo bases slidas
para suas operaes na sia. Para assegurar o contingente de tropas nas regies ocupadas, os
EUA selaram um pacto de cooperao com os principais pases da Europa, encabeados pela
Gr-Bretanha, Itlia e Alemanha. Assim criou-se a chamada Liga de Berlim, em aluso ao nome
da capital que abrigou os chefes de Estado durante a conferncia que formalizou o acordo.
        Surgia, porm, a necessidade de implantar um posto de operaes no Oriente, e o marco
escolhido foi Taiwan, cujo governo aceitou de bom grado o capital investido pelos patronos
ocidentais. Mas a aliana com a ilha no passou despercebida aos olhos da China e da Coreia do
Norte, naes que assim como os Estados Unidos, desejavam expandir suas reas de influncia
e dominar mercados. Os dois pases exigiram a evacuao das empresas ocidentais de Tawan, e
a recusa levou ao primeiro grande conflito do sculo XXI, a Guerra dos Trezentos Das, que
vitimou em apenas um ano cerca de trs milhes de pessoas, entre militares e civis, e terminou
com a vitria do Oriente. A Liga de Berlim foi obrigada a deixar a ilha, e desde ento os dois
blocos trocam hostilidades, como uma panela de presso prestes a explodir.
        A China e a Coreia do Norte entenderam que eram os principais alvos da Liga e
decidiram pela expanso. Em uma campanha sem precedentes na histria da humanidade, os
dois exrcitos invadiram o Japo sem disparar um s tro e ocuparam todo o arquiplago, na
chamada Ofensiva dos Dois Exrcitos. Fecharam acordos de cooperao com a ndia, Monglia,
Tailndia, Malsia, Indonsia e Filipinas, mas o golpe final ainda estava por vir. Descontentes
com a misria crescente aps o fim do comunismo, os russos abraaram com todas as foras a
causa chinesa, e o pas se uniu ao bloco do leste, formando a Aliana Oriental, que recebeu, em
poucos meses, adeses de algumas ex-repblicas soviticas-
        Preocupados com a perda de soberania, os americanos conseguiram, depois de inmeras
conversaes, o apoio do Canad e da preciosa Oceania, e continuaram sua poltica
expansionista, invadindo Cuba e Panam. Um novo confronto entre os dois blocos estourou na
Turquia, nco pas muulmano aliado  Otan, aja desfeita Organizao do Tratado do Atlntico
Norte. O governo turco se dividiu, dando origem a dois partidos que pegaram em armas e trans-
formaram Ancara em um mar de sangue, afundando a nao em uma guerra civil. Cada uma das
potncias enviou armas e tropas. Para a Liga de Berlim, era imperativo deter o controle da
Turquia, para que pudesse fazer uma ponte com os pases ocupados do Oriente Mdio. A
Aliana Oriental, por sua vez, sabia que, se os inimigos tomassem a capital, se abriria uma
frente de invaso pelo sul.
         Estava, ento, armado o palco para um conflito mundial. De um lado, a Liga de Berlim,
formada pelos Estados Undos e a Europa; de outro, a Aliana Oriental, liderada pela China,
Coreia do Norte e Rssia. E no meio desses dois blocos conservavam-se neutros os pases
pobres da frica e da Amrica Latina, agora mais preocupados em defender as prprias
fronteiras. Foi nesse contexto calamitoso que os sinais se tornaram mais claros. Ablon sabia que
um embate dessas propores culminaria em um confronto atmico, e no via salvao para a
humanidade caso isso acontecesse.
         Mas isso tudo seria simplesmente mais uma guerra, no fossem os rasgos permanentes
no tecido da realidade. Todos, anjos e demnios, sentiram que a membrana estava se
desfazendo. E compreenderam, alguns mais cedo que outros, que o Apocalipse estava em
decurso, e comearam a se preparar para o Armagedon -- a batalha final que decidir a
soberania da Haled, que estar aberta  invaso espiritual quando a membrana cair.
         Apesar de todos tomarem por verdade a profecia sobre o despertar de Yahweh, oa
melhor no arriscar. Ambos -- celestes e infernais -- j preparavam suas fileiras para o maior
dos confrontos e esperavam o estalar do conflito. Os nicos que seriam capazes de antever o
futuro -- os malakins, uma casta de anjos estudiosos e sbios -- no falavam mais nada. Eles se
distanciaram do cu, e alguns sustentavam que evoluram a outras esferas, imergindo em transe
profundo.
         O pergaminho em aramaico na mesa do renegado era o texto original das revelaes de
Joo, que narra a viso do profeta sobre os ltimos dias do mundo. Ablon conseguira esse
registro por sorte em Roma, no ano de 119, poca em que o Imprio estava sob o comando de
Adriano. O general comprara o documento de um ladro de estrada, que o tinha roubado de um
aristocrata taliano. Nenhum deles -- nem o patrcio nem o gatuno -- sabia o valor do que esta-
iram portando. O texto fora copiado quando Joo ainda vivia, e o original deve ter cado nas
mos de algum centurio nos anos em que o apstolo foi atirado ao crcere, com outros cristos.
J nessa poca, em 119, o pergaminho estava apodrecendo, mas o querubim conseguiu
recuper-lo com uma mistura  base de ervas, uma receita secreta da Ordem de Sippar, a ele
ensinada por uma amiga feiticeira. A verso bblica atual de Joo  praticamente a mesma, salvo
alguns erros que os escritos sofreram quando foram traduzidos para o grego.
         O apartamento estava iluminado somente pela luz dos postes noturnos da rua, que
chegava ao quarto atravs de uma larga janela. Sentado, Ablon recolheu alguns papis e com
eles organizou uma pilha. Em seguida, levantou-se e espiou l fora.
         Tudo calmo.
         Sentiu o peso da runa atlntica da paz, inscrita no fragmento de basalto. Tirou o objeto
do bolso e o examinou, sob o brilho fraco das lmpadas urbanas. Ento, andou at o telefone e
puxou o gancho ao ouvido.
         Comeou a discar.


                           SHAMIRA, A FEITICEIRA DE EN-DOR

        Shamira era a supervisora da escavao. No era para menos. Toda a expedio fora
financiada por ela mesma, uma mulher que dominava como ningum os mistrios da
arqueologia. No quis o auxlio de universidades ou organizaes, mas tambm no precisava.
Aquela era uma pesquisa pessoal, um objetivo particular, uma misso.
        Fora o trabalho operrio, a moa fazia todo o resto -- mapeava a rea, registrava os
objetos, estudava o solo e montava os equipamentos. Em todo o mundo, no havia ningum
melhor do que ela nos segredos sumrios. Conhecia muito bem aquele deserto, uma regio que
visitara pela primeira vez havia quatro mil anos, quando fora a Babel invocar um esprito.
         O stio de escavao fora montado nas proximidades das runas da fabulosa Babel, mas
a mulher no procurava vestgios da capital esquecida. Buscava s um objeto, um item ordinrio
em aparncia, mas carregado de poder magnfico, um artefato havia muito deixado naquele
cenrio infrtil.
         Esperta, Shamira fitou com cuidado a vala, escavada em diferentes nveis de
profundidade. No acampamento, o sol atingira o znite. Os homens, cansados, largaram as
picaretas e foram almoar. A moa, ento, ficou ali sozinha, observando cada detalhe do fosso.
         De repente, teve uma intuio quase divina, pegou uma p e saltou ao buraco. Ao fraco
sopro do vento, balanaram suas longas e negras madeixas, lisas como a plancie desrtica. Os
olhos eram castanhos, e a pele clara e macia brilhava com o frescor da mocidade. Seu corpo,
ainda bem jovem, fora conservado por mgica. A expresso, ainda que sensual, era decidida e
forte -- o semblante de uma mulher nada indefesa.
         Avistou, ento, uma ponta a brilhar na areia e comeou a cavar frenetica-nente.
Encontrou, assim, uma haste metlica que refletia ao sol. Tirou os culos escuros e se ajoelhou
ante o objeto. Com uma escova, removeu o excesso de terra e descobriu uma longa espada,
corroda pela intemprie. A lmina, enfermada, tinha o fio dentado. O cabo, supostamente
dourado, estava descascado e preto. Em quase toda sua extenso, a arma estava coberta por uma
casca de pedra, e Shamira teve de usar sua faca para raspar a dureza da crosta.
         A Vingadora Sagrada.
         Sorriu, finalmente. Achara o que viera buscar.
         Escutou os passos de um operrio. Um sujeito alto, coberto dos ps  cabea por uma
tnica rabe, a chamou de fora da vala, gritando um aviso. Rpida e destra, ela voltou ao deserto
com a espada arruinada nas mos e caminhou at um jipe cinzento. Estacionado no sop de uma
enorme montanha, no meio de cinco tendas de lona, o carro estava aparelhado com um telefone
via satlite e dois computadores. Outros equipamentos de comunicao estavam guardados em
uma barraca, ao lado da geladeira de suprimentos e de gales de refresco.
         No espao entre o banco do motorista e o assento do passageiro, uma luz vermelha
piscava. Era a chamada do comunicador.
         -- Sim -- disse ela, sacando o aparelho.
         -- E ento, revirando os escombros? -- falou algum do outro lado da linha.
         -- Ablon! -- exclamou, alegre pelo contato. -- Voc no se cansa de me surpreender,
renegado. Como sabia onde eu estava?
         -- Ns sempre sabemos. Na verdade achei que, mais cedo ou mais tarde, voc voltaria
para casa.
         -- Quem conhece o passado prev o futuro -- ela concordou, nostlgica.
         -- Como esto as coisas por a?
         -- Quase como deixamos -- replicou, rapidamente.--J tem anos que no nos vemos
-- ela mudou de assunto --, e eu quase me sinto como uma senhora de idade recebendo o
telefonema de um amor platnico do colegial. Mas, por algum motivo, receio que as notcias
que voc me traz no sejam boas.
         -- Por que est dizendo isso?
         -- No  sempre assim? -- a voz baixou uma oitava. -- Os espritos me sussurraram
umas coisas, e a maioria delas  assustadora. Tem algo errado, no tem? O
est decaindo. Comeou, no ?
         Depois de um longo silncio, o Anjo Renegado respondeu:
         -- Receio que sim, feiticeira. Mas, antes do fim, preciso de seu auxlio, mais uma vez.
Infelizmente, tem sempre de ser assim.
         A moa tremeu com um pressentimento ruim ao escutar o pedido. Todas as vezes que
Ablon solicitara sua ajuda fora para se lanar em uma misso alm de suas capacidades.
         Quem ou o que o Anjo Renegado pretende enfrentar desta vez?, pensou, preocupada.
Ela no queria que ele se arriscasse, mas os guerreiros sempre se arriscam. Alm disso, mesmo
que ela se recusasse a apoi-lo, ele perseguiria seu objetivo sozinho.
         -- O que foi? Problemas com o pessoal do poro?
       --Acho que no. Ainda no sei realmente -- ele hesitou. -- Mas no se preocupe. No
vou me enfiar em nenhuma luta voraz. Foi Lcifer que decidiu me caar e no o contrrio.


         Shamira se sentiu mais segura ao compreender que Ablon desejava, desta vez, s uma
conversa pacfica com seu traidor. Mas nem sempre as coisas foram assim.
         -- Voc pode se encontrar comigo? -- indagou o renegado.
         --  claro -- devolveu a mulher, olhando a espada enferrujada. -- De fato, era
justamente o que eu pretendia fazer.
         Ela pegou um bloco e uma caneta no porta-luvas do carro.
         -- Onde voc est?
         -- No Rio de Janeiro -- ele revelou, e ela anotou no papel.
         -- Acho que posso chegar a em 48 horas. Vou tomar um avio.
         -- Isso seria timo. Gostaria de v-la mais uma vez, antes que o mundo mergulhe nas
trevas -- confessou, naturalmente sombrio.
         As trevas. A feiticeira sempre esperou que elas se dissipassem, mas a civilizao tomou
um caminho adverso e agora rumava  destruio.
         -- Encontro voc no aeroporto -- ela combinou.
         -- Estarei l -- confirmou o general, desligando o telefone.
         No deserto, o olhar da moa alcanou o topo da enorme montanha, como se sua
memria recuasse muito no tempo, a um passado imemorial, j apagado de todos os registros
humanos.
         -- Espero que voc esteja bem -- divagou a mulher, deslizando os dedos pelo cabo da
espada.




Mesopotmia, 2334 a.C.

                                    A TORRE DE BABEL

A COMITIVA MILITAR BABILNICA DEIXOU O STIO das grandes colinas e ganhou a estrada pelo deserto
rochoso. Cinquenta soldados de elite, em seus cavalos e charretes, escoltavam uma nica
mulher, uma feiticeira, trazida por eles de Cana por ordem de seu rei, Nimrod. Presa por
correntes a uma coluna de ferro, afixada no cargueiro de uma carroa vulgar, a moa tentava
procurar uma posio confortvel, mas as amarras a esticavam. Seus cabelos negros estavam su-
jos, cheios de terra, e a alva pele, castigada pelas tempestades de areia. Sentia fome, sede e
calor, sob o forte sol da rida plancie. Dos pulsos, algemados por toda a viagem, escorriam
filetes de sangue. Amordaada, ela quase no conseguia respirar.
         Shamira era conhecida em toda parte como a Feiticeira de En-Dor, nome que indicava
sua aldeia de origem. Dezesseis guardas a vigiavam de perto, cercando a carroa em
movimento. Usavam primitivas armaduras de ferro e elmos cm formato de ogiva. Suas armas
eram a lana, o arco e a faca longa, e alguns carregavam escudos.
         Naquelas terras do Oriente, a cativa era famosa por sua necromancia, o ramo da magia
que estuda os mortos e o mundo espiritual. Era tida como uma bruxa terrvel, mas os sbios
compreendiam que os necromantes no eram essencialmente malignos. Lidar com os mortos
no significa, necessariamente, trabalhar o bem ou o mal. A vida e a morte so leis naturais, s
quais todos estol submetidos, e os necromantes devem, melhor do que ningum, entender a
neutralidade do processo vital.
         Em Babel, o rei Nimrod no s era o lder poltico, mas comandava o exrcito tambm
-- diretamente. Alm de ser um exmio lutador, nunca perecia ei combate, mesmo depois de
atingido por mais de cem flechas. Seu povo acreditava que ele era invulnervel, graas  bno
da deusa Ishtar.
         Com sua fora avassaladora, Nimrod j havia sobrepujado a Sumria, a Acdia e a
Assria -- e isso era a maior parte do mundo, no sculo XXIV a.C. Mas uma tribo de nmades
do deserto, chamada Filhos de Jaf, desafiava sua pujana. O soberano no conseguia encontr-
los, mesmo enquanto infligiam pesadas perdas aos babilnicos. Como se no bastasse, os tribais
mataram seu pai, Cush, queimaram o corpo e esfarelaram a ossada, guardando apenas o crnio
chamuscado, o qual enviaram de volta aos inimigos. No processo, submeteram o velho monarca
a um ritual de purificao, uma cerimnia sagrada que condena ao inferno o esprito do falecido
e liberta a alma dos que pereceram em agonia sob seus comandos cimrios.
         Com o assassinato de seu protetor, Nimrod mergulhou na insanidade. Enquanto
aguardava a vitria final contra os Filhos de Jaf, decidiu que, para ele, o mundo dos homens
no seria o bastante. Seus domnios se estenderiam tambm  esfera celestial,  terra dos anjos,
 morada de Deus. Para isso, fez de seus conquistados escravos e os usou para iniciar a
construo de uma torre que, segundo ele, alcanaria o cu.
         Shamira j tinha ouvido falar do fabuloso edifcio, mas no estava preparada para
aquela apario. Quando a comitiva se desviou  plancie, a feiticeira avistou a silhueta de uma
montanha fina, que subia em espiral. Estavam, ento, a duzentos quilmetros da capital, e o sol
ofuscava sua vista. Mas, no instante em que a carroa virou de direo, teve uma revelao
impressionante,
         No  uma montanha --  uma torre!
         -- Observe, mulher, a magnfica Torre de Babel, a maior construo j erguida pela
raa humana -- rejubilou-se o capito, cheio de orgulho nacionalista. -- Goze este momento,
pois, de todas as maravilhas, esta  a maior.
         A Feiticeira de En-Dor no discordou. O monumento era espantoso. Nem mesmo na era
moderna contemplaria to extraordinria edificao. Era boa com nmeros e calculou que sua
ponta, inacabada, j chegava a mil metros de altura. De longe, a estrutura era cnica -- larga na
base, ia se afunilando no topo. A parede externa era ladeada por uma rampa contnua, que subia
em espiral, delimitando sees. O arcabouo era essencialmente de pedra e adobe, mas nos
nveis inferiores os escravos trabalhavam no acabamento, preparando placas de bronze para
revestir as paredes. O acesso ao interior j era possvel nos primeiros andares, projetados para
abrigar os escritrios reais. Escadarias e andaimes cingiam a bastilha em construo, e nela
trabalhavam sessenta mil operrios. Como formigas, subiam e desciam pela rampa externa,
executando uma tarefa contnua, tal qual uma linha de produo tenebrosa.
         A Torre de Babel estava sendo edificada dentro dos muros da capital, que por si ss j
eram altssimos, somando cinquenta metros do cho s guaritas. As muralhas, de ferro
enegrecido, imitavam uma terrvel onda negra, que se precipitava sobre os invasores. Na poca,
os babilnicos eram os nicos hbeis na manufatura do ferro, o que tornava insuperveis suas
armas.
         As nicas construes mais altas que o muro, as quais Shamira podia avistar, eram a
torre e o zigurate -- uma imensa pirmide de degraus toda revestida de prata que abrigava, no
cume, o trono dourado do re.
         -- Sob a proteo de nosso senhor Nimrod, o Imortal, o povo da Babilnia tocar as
bordas do cu -- continuou o capito -- e invadir o reduto dos anjos. E governaremos todo o
universo.
         Para Shamira, aquele discurso era um delrio abismal. Qualquer um que conhecesse o
mnimo sobre os reinos espirituais sabia que o paraso celeste no escava acima das nuvens ou
da atmosfera, mas em outra dimenso, alm dos pianos astral e etreo, e s era acessado por
raros portais, vigiados por criaturas incrveis. No importava quanto subissem -- jamais
chegariam ao cu que pretendiam. A motivao de toda uma civilizao, ela reparou,
evidenciava a ignorncia de seu soberano -- ou a esperteza de quem o controlava.
         -- Alto, homens! -- gritou o capito, e a comitiva parou. -- E hora do almoo. Mas
sejam breves. Em trs dias, estaremos cruzando os portes de Babel e entregando ao Imortal os
frutos de nossa misso -- ele desviou o olhar  feiticeira e ento reforou:
         -- No demorem com a rao nem amoleam o corao. Somos babilnicos, filhos da
terra e descendentes de Ado.
         A maioria dos soldados viajava a cavalo, mas um time de vanguarda conduzia charretes
de duas rodas -- belicosos veculos reforados com folhas de cobre. Um dos dianteiros era o
capito Pazuno, um sujeito bruto, de cabelos negros e crespos. A barba era cheia, encaracolada,
e em sua armadura estava gravado, em alto-relevo, o rosto de um touro enfezado -- smbolo do
poder nacional.
         Para a ligeira refeio, os guardas tiraram carne e pes de seus embrulhos e
destamparam as bexigas de gua. Ento, Pazuno ordenou a um dos guerreiros:
         -- Nahor! -- chamou, cuspindo migalhas no cho. -- Alimente a bruxa.
         Descontente e temeroso, o jovem oficial acatou o comando, sem saber por que fora
escolhido. Nahor, como a maioria dos babilnicos, era um homem cheio de fria e malcia.
Tinha o rosto marcado por cicatrizes de sucessivas batalhas e era amante da violncia.
         Subindo  carroa, o soldado encarou a necromante, imaginando, no ntimo, que
segredos ela escondia. A moa, coberta s por um vestido rasgado de l, tinha parte dos seios
brancos  mostra. Os cabelos pretos reluziam ao sol, e os olhos eram como prolas negras no
leito marinho. Mas o que excitava o depravado no era a beleza do corpo perfeito, mas sua
situao degradante -- suja, amarrada, ensanguentada e  merc do ardor masculino.
         Cumprindo a ordem, Nahor puxou a mordaa de Shamira e levantou o cantil.
         --Tem sede? -- perguntou, sdico, sorvendo ele prprio um gole profundo. Deixou que
a gua escorresse pelos fios da barba e sorriu entre os dentes. Todo molhado, aproximou o rosto
ao da mulher, procurando um beijo forado mas ela o repudiou, desviando a face.
         Os outros guardas caram na gargalhada, debochando do conterrneo, desprezado pela
bruxa infernal. O motejo deixou o oficial ainda mais irritado, e ele puxou a moa pelos cabelos,
trazendo-a para junto de si.
         -- Sua vbora endoriana! Acha que tenho medo dos seus encantamentos? Vou mostrar-
lhe toda a pujana de um legionrio.
         Uns vinte homens j se aglomeravam ao redor da carroa, aguardando o grotesco
espetculo. Conviviam com Nahor j havia alguns anos e conheciam sua fama de brbaro
estuprador.
         -- Cuidado! -- zombou um deles. -- Ela vai te lanar uma maldio e perders a
potncia.
         -- Para o abismo com as bruxarias! -- ele retrucou, em meio  torrente de risadas
cruis. -- Vou faz-la sangrar, agora no s pelos pulsos.
         Despindo-se, o bruto lanou as mos aos seios da moa, ao mesmo tempo em que
rasgava suas vestes. Em resposta, a feiticeira no reagiu, mas iniciou o murmurar de uma
dezena de palavras estranhas:
         -- Zi Dingir nngi e ne Kanpa. Zi Dingir ennul e ne Kanpa.
         -- Est rezando -- sugeriu um batedor, irnico.
         -- Est dando graas por ter encontrado homens to viris no deserto -- emendou um
arqueiro.
         Sedento, Nahor desceu a mo pelos quadris da mulher, mas naquele instante o capito
Pazuno percebeu o escarcu e vociferou em alarde:
         -- No a deixem falar, suas bestas!
         Porm o soldado, entretido, no deteve seus impulsos perversos. Enfiou o bao pelo
vestido, mas logo sentiu um formigamento estranho entre os dedos evolveu a mo, assustado.
         Por Ishtar!
         A carne de seu punho estava apodrecendo, como a dos cadveres em putrefao, e uma
colnia de vermes devorava-lhe a palma da mo.
         Nahor deu um passo atrs e notou que o cargueiro estava infestado de serpentes -- najas
ferozes, que cuspiam peonha de suas presas agudas. Descontrolado, pulou da carroa, mas caiu
meio aturdido, arrebentando o joelho em um pedregulho pontudo. O pnico sobrepujou toda a
dor, e o militar se arrastou para longe, fugindo das cobras que o perseguiam, at ser despertado
pelo capito.
         -- Levante do cho,  covarde -- exigiu Pazuno, sacudindo o guarda, agora de perna
quebrada.
         Ao novo suspiro, as serpentes haviam sumido, e o brao podre voltara ao normal. Fora
alvo de uma iluso, um feitio psquico que s afetara sua mente, arrastando-o ao terror
invisvel. Nenhum dos perigos era real -- nem a decomposio nem as najas.
         Os camaradas no perdoaram a chacota e, absorto, o depravado no reagiu. A tropa, que
via em Nahor um pavoroso assassino, perdera todo o respeito por ele. Era agora s um poltro,
que corria diante das ameaas de uma mulher indefesa.
         Com a desistncia do oficial, enfiado ainda em situao vergonhosa, o ca-assumiu o
comando. Subiu ao cargueiro e voltou a amordaar a cativa.
         -- Vai ficar sem comida, sua bruxa maldita -- avisou, apertando bem as correntes.
         A distncia segura, com o tendo estourado, Nahor tremia, soluava e orava ao seu
monarca imortal. Provara o sinistro poder da magia e talvez no regressasse  conscincia
integral.
         Oh, sublime Nimrod, livre-nos desta, aberrao.
         --Vamos partir agora! -- retomou o experiente Pazuno, saltando para a charrete. --
Logo estaremos na presena do Imortal.
         Assim que subiu em seu carro, o capito puxou o arco, preparou uma flecha e a apontou
ao meio da comitiva. Sob os olhares surpresos dos soldados, Pazuno disparou uma seta, que
voou pelo ar at encontrar o corao de Nahor.
         -- Isso  o que acontece com todo babilnico que sucumbe  feitiaria -- justificou, e
os lutadores engoliram em seco.
         O grupo prosseguiu pela plancie, afundado em macabro silncio. O corpo do
estuprador ficou ali no deserto, para mais tarde servir de alimento aos lees.


                   Os JARDINS SUSPENSOS E o ZIGURATE DE PRATA
        O comboio chegou  capital trs dias depois,  hora exata do sol meridiano. Babel era
uma ferica mistura de maravilha e horror. Muitas vezes, em En-Dor, Shamira ouvira descries
sobre a famosa metrpole, mas os relatos estavam muito aqum da verdade.
        Os muros eram de ferro macio, ligeiramente envergados para fora. No passadio,
guardas com arcos e lanas observavam o movimento,  atenta superviso de seus comandantes
nas guaritas blindadas. A capital, enorme para os padres ancestrais, tinha um porto duplo de
pedra e metal, que no se abria para fora ou para dentro, como as portas comuns, mas se
recolhia para o interior das muralhas, quando puxado por vigorosos mamutes. No passado,
todos tinham acesso a Babel, porque ela era tambm um centro comercial importante. Depois,
com a ascenso de Nimrod, os babilnicos subjugaram todas as naes parceiras e passaram a
roubar suas riquezas, em vez de compr-las. Assim, no havia mais a necessidade -- nem o
interesse -- de receber forasteiros, s escravos.
        Na seo externa do muro, cingindo os portes, duas gigantescas esttuas de quarenta
metros retratavam a imagem de um homem com cabea de touro, um dos smbolos principais do
Estado. Shamira calculou que o "touro" fosse Cush, o pai falecido do atual soberano.
        -- Parados! -- gritou um oficial, do alto do muro,  comitiva que se aproximava. Sua
voz soava muito baixa, dada a altura do passadio. -- Quem so aqueles que se aproximam dos
portes de Babel?
        -- Sou o capito Pazuno -- anunciou-se o comandante. Era lgico que eram
babilnicos, mas Shamira notou um padro ritualstico, como se sempre se apresentassem
assim, no importava quantas vezes entrassem ou sassem. -- Trago ao Imortal a nossa cativa, a
Feiticeira de En-Dor.
         O militar no cimo das muralhas silenciou, e suas sentinelas assumiram uma expresso
de surpresa.
         -- Pois ento pode entrar, capito. Nimrod o espera.
         Os portes se separaram com um arrastar de correntes, acompanhado do bramir de
elefantes peludos, e o grupo penetrou na capital da Babilnia.


         Um cenrio inesperado se escondia no interior das muralhas. Em contraste com a
desolao do deserto, a metrpole estava apinhada de gente, uma multido que se aglomerava
nas ruas. Naquele tempo, Babel tinha cerca de cem mil cidados e quatrocentos mil escravos.
Estes infelizes, militares e civis de naes conquistadas, caminhavam pelas avenidas sujos como
mendigos, presos a grilhes que os foravam ao movimento constante. Seguindo em fila
indiana, trabalhavam sem parar na construo da torre maldita. No raro, morriam de fome e
insolao, e os corpos continuavam atrelados s gargantilhas de ferro por dias, at que um
soldado decepasse o defunto ou fossem devorados pelos prprios colegas esfomeados.
         Do outro lado da configurao social estavam os cidados babilnicos, um povo
doutrinado desde a infncia para odiar seus diferentes. Caminhavam como deuses pelas
avenidas, descansando  sombra dos grandes monumentos e se alimentando de iguarias
excntricas. Vestiam tnica branca, braceletes de bronze e colares de ouro, adornados com
pedras azuis. Quase sempre portavam um basto de cobre com a extremidade superior em forma
de gancho, til para aoitar os escravos, e calavam sandlias de couro.
         Perseguindo com o olhar os transeuntes, a ateno da necromante foi naturalmente
desviada  prodigiosa Torre de Babel, cuja base ocupava um tero da rea central da grande
metrpole. De perto, era visvel o sofrimento dos operrios, que andavam pela rampa externa e
se metiam pelos andaimes.
         E to alta... Como ser que fica em p? A moa no sabia, mas tambm no era
especialista na arte da engenharia. Pelo seu raciocnio matemtico, a edificao j devia ter
desabado. A altura j superara de longe a largura, e os andares inferiores no seriam fortes o
bastante para aguentar os nveis acima.
         Entre o porto e a torre ficava um altssimo zigurate de prata, uma pirmide de degraus
com duzentos metros de altura, com um trono de ouro no topo. Esse era o palcio real, dividido
em seis andares, ou ptios, to largos que guardavam jardins fabulosos, revestidos de grama e
decorados com plantas raras, animais exticos e rvores frutferas. A vivacidade da natureza
suspensa se fazia possvel graas ao lenol de gua subterrneo, um brao submerso do rio Eu-
frates, que atravessava o deserto e brotava na capital. A pirmide, toda prateada, refletia o brilho
do sol, dando a impresso de que tinha luz prpria. Com efeito, era difcil mir-la dretamente,
pelo lume que refulgia, e assim, durante o dia, era possvel avist-la a quilmetros na rida
plancie. Em suas cmaras suntuosas, com almofadas de seda e piscinas de ouro, moravam o
corpo real e os militares de alta patente, cercados por uma legio de escravos domsticos.
         Na superfcie leste do zigurate, uma longa escadaria em linha reta cortava os degraus e
levava ao pinculo -- um terrao quadrado, centralizado por um trono belssimo, onde Nimrod
permanecia sentado. Shamira podia v-lo l em cima, imvel, impenetrvel, defendido por
centenas de guardas que montavam formao na escada.
         Nos edifcios comuns de Babel, que margeavam as vias, morava a elite. Feitos de pedra
marrom, tinham formato piramidal, imitando o palcio. Essas manses particulares somavam
entre dez e doze metros de altura, e nelas cada uma das famlias tradicionais conservava seus
copiosos tesouros.
         Imersa na contemplao da cidade, Shamira no percebeu que ela prpria era alvo de
observao. Cautelosos, os passantes a encaravam com um misto de dio e averso. Eram por
demais supersticiosos, e a feiticeira sups que isso teria ajudado na propagao do mito do rei
imortal.
         Pobres ignorantes.
         Desviando o rosto das ruas, a necromante percebeu que estava sendo guiada, ainda
atrelada  carroa, pela avenida principal, diretamente  Pirmide de Prata, na cidadela real.
Uma segunda muralha circulava o zigurate, e seu porto arqueado levava  escadaria.
         O comboio parou diante das portas internas, guardadas por soldados fortes e de olhar
apurado. O capito Pazuno desceu do carro, disse alguma coisa s sentinelas e as grades do
porto se abriram. Shamira foi tirada do cargueiro por trs homens armados, que mantiveram
suas mos algemadas e a empurraram para as escadas. Respirando fundo, a necromante reuniu
suas ltimas foras para vencer a caminhada, porque sabia que, se casse, seria arrastada.
         Enquanto subiam, ela reparou na cidade vista de cima, impressionada com sua
magnitude. Passou ao lado dos jardins suspensos, sobre os ptios laterais, e sentiu o cheiro da
mata, to rara naquela regio seca. Em certos stios, entre as rvores, brotavam fontes de gua
que se ampliavam em pequenos lagos refrescantes, copiando a vegetao dos osis. A
prisioneira estava sedenta e pensou no que no daria para se banhar naquelas piscinas.
         Pisando firme no ltimo degrau, Shamira viu o homem que a aguardava no trono. No
era muito diferente de seus oficiais. J beirando os 50 anos, tinha uma longa barba tranada e os
cabelos compridos. Era robusto, mas no muito alto, e projetava uma expresso sria e irritada.
A nica arma que carregava era um cetro de ouro adornado com rubis, jades e diamantes e
decorado com uma cabea de touro na ponta, esculpida em quartzo azul. Suas vestimentas eram
tambm fabulosas. Trajava uma capa de pele de carneiro, borrifada com gotculas de ouro. No
peito carregava um colete de cobre incrustado de prolas, sobre uma tnica de algodo tingida
de azul. Protegido por dois guardas musculosos, mantinha a seu lado um enorme tigre de
estimao, muito maior do que os tigres normais. Era um dos grandes dentes-de-sabre, uma raa
perdida de felinos, preservada at ali em cativeiro.
         Shamira foi jogada aos ps de Nimrod, que a fitou, impiedoso. A um gesto do rei, os
homens tiraram suas algemas e mordaa. Aliviada, ela se ergueu com dificuldade, e os soldados
se afastaram, em um ato temeroso instintivo. Mas a Feiticeira de En-Dor estava fraca demais
para reagir. Sentia-se arrasada, exausta e faminta. Os lbios secos se quebravam, a pele ardia
pela viagem ao sol, e a cabea latejava.
         -- Esta mulher est imprestvel! -- reclamou o Imortal, ao reconhecer o estado
deplorvel de sua cativa. -- Levem-na para o palcio -- ordenou aos guardas -- e tragam-na a
mim quando estiver em condies de me servir.
         A mulher nada disse, mas abenoou sua sorte. Tudo o que precisava era de descanso e
de uma boa refeio, com a qual pudesse reaver suas foras. Mas o melhor de tudo, ela reparou,
era o fato de o rei no ser feiticeiro -- os magos se identificam com uma simples troca de
olhares. Ignorante nas artes mgicas, o soberano precisaria das habilidades da moa, e isso
garantiria sua vida, ou pelo menos assim ela imaginava.
         Arrastada pelas sentinelas, Shamira entregou-se ao cansao e deixou-se desfalecer.
Estava segura de que Babel no seria o seu tmulo.


                                    No MUNDO SEM COR
         Shamira acordou imersa em uma piscina de gua quente, no interior de um aposento
fantstico. No teve dvidas de que estava no palcio real, quando percebeu o cho de mosaicos
e as colunas de mrmore rosado que sustentavam o teto do quarto. Uma janela em arco dava
vista ao exterior, trazendo o vento frio noite, peculiar ao deserto. Perto das pilastras, uma dezena
de piras de leo iluminava o recinto, e um umbral na parede sul indicava a sada, bloqueada s
por uma cortina de couro. Sozinha, sem ningum a vigi-la, a feiticeira deu-se conta de que
estava nua na gua. Suas velhas roupas no estavam mais l, mas uma tnica vermelha jazia
sobre uma cadeira de prata,  frente de uma mesa farta de alimentos. Recordou-se, ento, que j
no comia havia horas, e deixou o banho agradvel para satisfazer suas necessidades mais
bsicas. Sem nenhum pudor, correu  mesa redonda e devorou toda a refeio -- um banquete
com pes, uvas, mel e avels. Bebeu a gua direto da jarra, sem parar para derrama-la numa taa
dourada.
         Foi s quando a fome amansou que trajou a veste rubra, bordada com a tradicional
cabea de touro, e conseguiu raciocinar calmamente. Divisou, ento, um par de sandlias no
piso e as calou. Agora, estava protegida do frio e um tanto mais relaxada.
         Achegou-se ao parapeito e confirmou que estava cativa na Pirmide de Prata. Da janela
avistou os jardins suspensos nos ptios laterais, logo abaixo, concluindo que aquele era o
terceiro andar dos seis que completavam o zigurate. Esticando ainda mais o pescoo, viu pane
do segundo andar, abaixo. Duas vezes mais largo do que a rea do terceiro nvel, seu jardim
tinha vegetao menos densa, com plantas coloridas dividindo espao com altas palmeiras reais.
         De sbito, a necromante escutou um barulho, olhou para trs e viu uma menina que
adentrava o quarto, atravessando a cortina marrom que delimitava o umbral. Tinha 10 ou 12
anos e usava uma tnica sbria e alinhada, de algodo cru, com cortes bem feitos. A pele era
escura, mas os traos, finos, e os cabelos, lisos e negros. A julgar pela excentricidade daquele
palcio, s podia ser uma escrava.
         Carregando um jarro de cristal azulado, a pequena seguiu at a mesa e pousou sobre ela
o recipiente.
         Vinho -- inferiu a mulher, pelo cheiro da uva. Os prisioneiros devem fazer fila nos
portes de Babel-- pensou, irnica, estranhando o melindre no tratamento,
         -- Meu nome  Adnari -- apresentou-se a garota, colando os olhos no cho. Guardava
uma face serena e conformada, como a das marionetes. -- O gro-servo me selecionou para
atend-la.
         Shamra no gostou da mordomia, ao reconhecer a condio da criana. Nunca possura
um escravo, e aquele luxo no combinava com seu estilo de vida nem com seu carter idneo.
Pensou em dizer alguma coisa, mas as palavras sumiram.
         A menina deixou o aposento e desapareceu no corredor.
         A Feiticeira de En-Dor preferiu esperar.
         Agora que tinha voltado  razo, Shamra estava pronta para sentar e ponderar sobre a
situao. A fuga estava, a princpio, fora de questo. No achava que Nimrod fosse tolo a ponto
de deix-la desguarnecida, apesar da janela sem grades e da porta fechada s por cortinas. Se
fosse pega, poderia estragar tudo eenterrar para sempre seus sonhos de liberdade. A magia
tambm no teria utilidade por enquanto, a no ser que sasse voando por cima dos muros -- e a
necromante no conhecia nenhum encanto do tipo.
         Mas se Shamra era prisioneira na realidade material, talvez no o fosse na dimenso
irreal. Desde pequena, aprendera a projetar seu esprito, levando a alma a viajar pelo plano
astral. O plano astral  a camada mais rasa do mundo espiritual, a que primeiro se conecta ao
plano fsico. No  nada mais do que m espelho descolorado da terra dos homens, por onde
vagueiam os fantasmas -- espectros de pessoas mortas, que ainda permanecem presos a suas
pendncias mais. Um esprito vivo, quando projetado, pode deslizar pelo ar, atravessar paredes e
levitar  atmosfera da terra. A alma permanece ligada ao corpo por um fio mstico de prata, tal
qual um cordo umbilical. Acessando a dimenso irreal, a feiticeira esperava espionar o palcio,
obter informaes sobre o rei e sua corte eprocurar a sada mais fcil do zigurate, para o caso de
uma evaso desesperada.
         Obstinada, Shamira recostou-se em um div de madeira, que completava o conjunto do
mobilirio, e expandiu a mente. Juntou algumas almofadas de seda e iniciou a concentrao,
esquecendo a existncia do universo palpvel.
         Seus olhos piscaram com velocidade, e logo a audio apagou. Pouco depois, o breu da
conscincia deu lugar a uma imagem disforme e, gradualmente, ela sentiu como se estivesse
emergindo de um lago. Cruzava, assim, o tecido da realidade -- ou a fronteira espiritual, como
era comumente chamado pelos malgas no Ocidente. Em instantes no ouvia mais nada, somente
o silncio dos mortos.
         Ento, descobriu-se flutuando pelo meio do dormitrio, mas seu corpo material
permanecia bem fixo, e ela agora podia v-lo no plano fsico, relaxado sobre o div. Distinguiu
novamente o recinto, mas ele no era exatamente real, s um reflexo, um cenrio sem cor, em
tons plmbeos e azulados. Os objetos reluziam com uma fraca aura brilhante denunciando que
eram intocveis na dimenso dos espectros -- no podiam ser agarrados ou movimentados,
apenas ultrapassados.
         Esquadrinhando a cmara, a necromantc no encontrou nenhum fantasma, o que a
intrigou. Uma cidade como Babel, cheia de escravos em sofrimento, devia possuir uma legio
de avejes, obcecados por vingar a prpria alma. Centenas de trabalhadores deviam ter morrido
durante a construo do palcio, e quando os homens perecem em agonia geralmente se
convertem em espritos errantes, angustiados e empenhados em sua desforra -- s vezes pela
eternidade.
         Nada, Nenhum brado, lamento ou arrastar de correntes.
         Flutuando pela sala, como um polvo deslizante no fundo do mar, ela notou a presena
de um esprito que atravessava as pedras do cho. Era a alma de uma menina morena e estava
ligada aos nveis abaixo pelo cordo mstico de prata, comprovando que estava viva tambm,
mas projetada ao astral.
          a pequena escrava -- raciocinou a feiticeira, reconhecendo a garota que havia pouco
trouxera ao seu quarto o jarro de vinho. Fora ao alm falar com os mortos e s encontrara sua
serva mais acessvel.
         No rosto, a criana inibira toda a expresso reprimida. Ali, no mundo espiritual, parecia
muito mais solta e festiva. No era de admirar. No plano imaterial ela certamente encontrava
toda a liberdade que lhe fora negada, mas com quem aprendera a tcnica da projeo?
-- Eu sou Adnari -- comeou a menina, ainda um pouco contida. -- Lembra-se de mim?
         -- Eu sou Shamira -- apresentou-se, meio confusa. Seria aquela alguma artimanha do
rei? Como a menina podia saber que a necromante viajaria ao astral?
         -- A Feiticeira de En-Dor. Todo mundo aqui em Babel conhece voc ou j ouviu
alguma histria a seu respeito. Eu fiquei muito contente quando o gro-servo me escolheu para
servi-la. Eu gosto muito de mgica -- disse, com uma linguagem um tanto simplista.
         -- Notei -- retrucou a mulher, em tom amigvel. Se a garota estava projetada,
certamente aprendera isso com algum com um mnimo conhecimento do oculto.
         -- No fique preocupada -- acrescentou Adnari, como que entendendo o receio da
prisioneira. -- Eu no vou contar nada a ningum. Os buscadores me matariam se soubessem
que s vezes visito o mundo sem cor.
         O mundo sem cor -- Shamira simpatizou com o nome.
         -- Buscadores? Quem so os buscadores? -- interessou-se a feiticeira. Tinha que
coletar todas as informaes que pudesse, e essa era a oportunidade.
         -- So os conselheiros do Imortal. Eles no gostam dos escravos nem dos forasteiros.
Vivem mandando a gente fazer um monte de coisas erradas.
         O semblante de Shamira encrespou-se pela injustia, porm Adnari a reconfortou:
         -- Mas no tem problema. Eles nunca me descobrem. Acham que estou dormindo junto
com os outros domsticos.
         -- E com quem aprendeu a visitar o "mundo sem cor"?
         -- A minha me era uma feiticeira, ou uma bruxa... -- a menina se perdeu nas
nomenclaturas. -- Ela fazia mgicas.
         -- E como sabia que me encontraria por aqui? -- Shamira fez acompanhar um sorriso,
para no assustar a garota com sua tempestade de dvidas. A verdade, porm, era que estava
desesperada por uma pista que a tirasse dali.
         --  a primeira coisa que fazem os necromantes, no ? Vasculhar a terra dos mortos?
Foi o que disse a minha me. E ela me contou tambm que muitos necromantes so maus.
         -- Mas nem todos. Nossa arte lida com a natureza da morte, que  uma fora muito
poderosa, inescapvel. Com tanto poder nas mos, alguns realmente so corrompidos pela
maldade, que  o caminho mais fcil  ascenso. Mas isso no acontece s com os feiticeiros,
tambm com os guerreiros e os monarcas.  uma fraqueza dos homens,
         -- E tambm das mulheres? -- inquiriu a menina, imediatamente.  narrao, seus
olhos se arregalaram. Era fascinada pelos assuntos fantsticos, como so todos os infantes.
         -- Eu quis dizer isso -- Shamira sorriu, complacente. Por um instante, gostaria de ser
criana de novo. Insupervel  a alegria da infncia, quando tudo  novo e magnfico. Mas, a
despeito da deleitvel conversa, era importante saber sobre o zigurate.
         -- Voc j viajou por todo o palcio, Adnar?
         -- Por toda a cidade -- ela se gabou, em vaidade tipicamente infantil. -- Eu ia muito 
cmara do tesouro, mas parei. No conseguia tocar em nada mesmo...
         -- E o rei?
         -- Fica sempre l em cima, sentado no trono. Nunca sai do pinculo, nem para comer
ou dormir.
         Mais supersties -- pensou Shamira, incrdula, mas depois ponderou. Teria se
enganado sobre a ignorncia mgica de Nimrod? Afinal, quem era ela para desprezar as
supersties? Era uma feiticeira e vivia da matria inexplicvel.
         -- Como um homem pode no se alimentar nem descansar, e ainda por cima ser
imortal? Ele  um bruxo ou mago?
         -- No -- replicou a pequena, convicta. --A fora da deusa o protege, A deusa que
vive nos subterrneos deste palcio.
         -- Deusa? O que  essa deusa? Um esprito, um dolo, um totem?
         -- No sei -- admitiu Adnari, desagradada por no ter as respostas. -- Eu j
desci s masmorras, flutuando pelo mundo sem cor, trespassando as paredes, e nada encontrei.
 como se ela no tivesse alma, como ns. Mas ela existe! Os escravos que trabalham nos
andares submersos disseram que j a contemplaram.
         -- Uma deusa, viva? -- divagou a feiticeira, mais para si. Ela sabia que as entdades
etreas, veneradas fora de Cana, nada mais eram do que espritos muito poderosos, mas no
tinham a capacidade de se materializar e passar ao mundo material. Ento, como a tal deusa
podia estar "confinada" em um calabouo, no plano fsico? Tal histria era absurda.
         -- E quanto aos espritos da gente comum, as almas dos mortos? No vi nenhum
espectro pela pirmide.
         Adnari sorriu, satisfeita por ter a explicao na ponta da lngua.
         -- O zigurate era cheio deles, desses fantasmas, mas agora eles foram embora. Eles no
gostavam muito de conversar. Eram apticos, cansados, e s grunhiam pelos corredores. E a,
uma noite, uma luz levou todos num s furaco.
         O ritual da purificao! Estava tudo muito claro agora. Cush, o pai de Nimrod, que
construra o palcio, fora submetido ao ritual da purificao pelos sacerdotes nmades da tribo
inimiga. Pela cerimnia, qualquer esprito pode ser condenado, e so libertas as almas daqueles
que morreram em sofrimento, sob suas ordens. O dio dos antigos espectros da pirmide estava
direconado a Cush, e quando ele foi levado ao sacrifcio os fantasmas do zigurate se viram
livres para seguir ao paraso.
         O ritual da purificao , de fato, uma prtica bastante sinistra, embora eficiente. A
pessoa, ainda viva,  envolta por tecidos marcados com frmulas mgicas. Depois,  presa 
fogueira. Enquanto a carne  incinerada, os clrigos verbalizam cnticos msticos, e toda a carga
negativa acumulada pela vtima  revertida para sua alma, que  amaldioada. No raro, o
inferno  o destino dos pecadores, mas alguns acabam por vagar para o limbo, onde
permanecem indefinidamente.
         -- Eu ficava longe deles -- continuou Adnari. -- Tinha medo que cortassem meu
cordo de prata e separassem para sempre minha alma do corpo, mas eles nada faziam.
         A vingana. Shamira conhecia bem a natureza dos fantasmas.
         -- Voc sabe por que Nimrod me capturou? -- indagou a feiticeira, agora mais 
vontade na presena da servial,
         -- No fao idia. Ele pode estar querendo a ajuda de uma necromante contra os
sacerdotes tribais. No h necromantes aqui em Babel.
         -- No pretendo trabalhar para Nimrod.
         -- No diga isso! -- assustou-se Adnari, gesticulando para que falasse mais baixo. -- O
rei mata todos que a ele se opem.
         -- Se ele tentar, usarei nele a minha magia -- rebateu Shamira, intencionalmente
dramtica para impressionar a pequena, mas a frase no surtiu efeito.
         --A bno da deusa Ishtar o afasta das maldies.  a mesma fora que impede que
seja ferido ou morto. Nenhum feitio tem resultado sobre o Imortal.
         Invulnervel, imortal e resistente  bruxaria. Devia haver uma brecha nas defesas do
rei. No podia ser de todo invencvel.
        -- Ento talvez seja preciso mais do que mgica para me tirar do cativeiro -- comentou
a mulher. Sua mente era agora um mar de questes, muito maior que a poa de dvidas que
pretendia esclarecer antes de se projetar ao astral.
        Por mais meia hora, Adnari e Shamira ficaram ali, nas sombras do mundo, conversando
sobre muitos assuntos, a maioria sem grande importncia. Ento, as duas concordaram que
deviam retornar ao corpo fsico. A projeo astral  processo cansativo, e a necromante
precisava de um tempo sozinha, para descansar e digerir o contedo das revelaes.
        A menina, por sua vez, contou ainda um pouco sobre sua vida pessoal. Disse que
pertencera a uma tribo chamada Filhos de Sem, uma comunidade que foi aniquilada pelos
babilnicos. Os sobreviventes, como ela, foram feitos escravizados e trazidos para a
Mesopotmia. A me de Adnari era uma feiticeira tribal, conhecimento da alta magia, mas
instruda nas cerimnias de sua aldeia.
        J no mundo material, Shamira avistou, pela janela, a lua alta no cu e calculou que
estava perto da meia-noite. Sete das dez piras de leo j tinham se apagado, deixando o quarto
em uma penumbra aprazvel.
        Esticando o corpo pelas almofadas do suntuoso div, a moa tentou pregar os olhos,
pelo menos at o despertar da aurora no leste.
        Um rei indestrutvel, uma torre que sobe aos cus, uma deusa encarcerada no
calabouo.
        Shamira no conseguiu dormir.


                             REVELAO NO MIOLO DO PO
         O sol nasceu e a grande cidade acordou -- para alguns. Para outros, ela nunca dormia.
         O rudo das correntes, agora, dividia as ruas com o passeio dos cidados, invadiam as
avenidas aos primeiros raios de sol, enlouquecidos pela febre do desenfreado consumo. De p 
janela, Shamira observava, do zigurate, o movimento nas vias centrais. Tinha estado superativa
por toda a madrugada, caminhando pelo quarto de l para c, sem adormecer um instante
sequer.
         Um rei indestrutvel, uma torre que sobe aos cus, uma deusa encarcerada no calabouo.
         L pelas oito horas a temperatura esquentou, obedecendo ao ciclo comum do deserto,
para se tornar realmente custica s nove. Na praa central da metrpole, visvel dos jardins do
palcio, um obelisco tinha a funo de ponteiro, projetando sua sombra na esplanada e
indicando assim as horas do dia, como um gigantesco relgio de sol.
         Voltando ao interior do aposento, a feiticeira reparou que a gua que caiai da fonte e
inundava a piscina mudou de quente para fria, refrescando o ambiente antes gelado, mas agora
escaldante. Cansada pelas longas horas de espera, a necromante banhou-se de novo, desta vez
na piscina refrescante, avivando o corpo e clareando a mente.
         s dez horas, Adnari entrou pela sala, acompanhada por dois escravos adultos, que
carregavam bandejas de metal prateado. Traziam o desjejum -- po, queijo, leite, gua potvel,
tmaras, ovos e um tipo de ch de ervas. A menina nada disse, temente aos buscadores, mas as
duas trocaram olhares de conivncia. No podiam, de jeito nenhum, demonstrar empatia ou
sugerir cumplicidade, mesmo longe da presena dos guardas.
         A pequena ajeitou os talheres na mesa e os alinhou de um jeito irrelevante aos
estrangeiros. A maioria dos aldees ou camponeses nunca usava colheres ou garfos nas
refeies.
         --  feito de trigo da Mdia, o melhor que h neste mundo -- disse a garota, referindo-
se  massa do po. -- Seria bom que comesse tudo -- sugeriu, e deixou o quarto com seus
assistentes.
         Quando Adnari e os escravos saram, Shamira sentou-se  mesa e provou a doura do
leite. Comeu um dos ovos cozidos e, sempre vigilante, separou com uma faca a casca do po,
revelando o miolo.
         Um pergaminho!
         No interior do po estava escondido um pergaminho enrolado, cujos detalhes, a
princpio, a feiticeira no conseguiu decifrar. Ento, ao ter certeza de que ningum mais a
olhava, esticou o rolo por baixo da mesa c visualizou o contedo.
         Um mapa. Uma planta das profundas masmorras do palcio real, com uma dezena de
sadas secretas.
         Como teria a pequena Adnari obtido um documento to sigiloso? Quem teria desenhado
o projeto? Para onde corriam aquelas rotas de fuga?
         Ento, por um momento, Shamira sorriu com a ironia. Teria sido melhor se tivesse sido
jogada em uma cela escura, de onde, mais provavelmente, teria condies de escapar.
         Memorizando todo o mapa, ela o escondeu dentro de uma das almofadas de seda.
Costumava gravar imagens estticas e raramente as esquecia. O que precisava, agora, era ser
lacrada nos calabouos, mas como convencer os soldados a lev-la at o subterrneo sem
levantar mais suspeitas?
         Bebeu um gole de gua, tomou um copo de leite e engoliu duas tmaras. Ao trmino do
desjejum, rasgou uma tira da prpria roupa e a usou para prender a faca de po por baixo da
manga da tnica.
         Armada e provida de um bom plano de escape, a necromante estava pronta para ficar
frente a frente com o rei de Babel.
                                       O REI IMORTAL
         Ao meio-da em ponto, de acordo com o relgio de sol da praa central, quatro guardas
reais entraram pela porta do dormitrio, rasgando a cortina marrom que delimitava o umbral.
Estavam armados de lanas de ponta de cobre e longas facas de ferro e carregavam escudos
retangulares. Esses soldados de elite dam liderados por um homem magro, alto, de pele morena
e postura elegante. Parecia mais um poltico, pela constituio delgada e gesticular requintado.
Tnha o nariz fino, a barba pontuda, e emanava sufocante presena. Os olhos amendoados
estavam delineados com lpis azul, e os cabelos, untados com leo vegetal perfumado. A roupa
era parecida com a dos aristocratas, mas um colete de couro fechava o conjunto da tnica,
exibindo o braso com a cabea bovina.
         -- Meu nome  Zamir -- apresentou-se. Sua fala era calma e segura, como a dos
patrcios mais influentes. -- Sou um dos buscadores.
         Os buscadores do rei. Os conselheiros ao Imortal.
         -- Acompanhe-me -- convidou. -- O grande Nimrod espera por voc na plataforma
elevada.
         Shamira no questionou -- sabia a hora certa de agir. Caminhou at o mais vigoroso
dos guardas e ofereceu os punhos  algema, mas o buscador sacudiu a cabea em negativa.
         -- Isso no  necessrio. O poder de Babel  grande, e sua fora no est s energia das
armas. A cidade  um organismo imortal, assim como seu soberano -- suas palavras eram frias
e educadas, sem muita emoo. -- Aqui estamos seguros.
         Obediente, a necromante seguiu sua escolta atravs dos corredores do zigurate. Ali, viu
maravilhas que nunca mais esqueceria. Contemplou passagens orladas por pilastras de ouro,
jardins internos com tetos de cristal, lagos e rios artificiais, salas de prata e marfim, pisos de
rubis e esmeraldas, esttuas de diamantes e escadarias interminveis.
         Por meia hora caminharam, at estacar diante de uma longa rampa, altssima, que
certamente dava passagem ao terrao, pelo brilho intenso do sol no topo. A subida no tinha
degraus, mas o casco de um escaler estava alinhado a um veio no meio da rampa, puxado para
cima em um trilho, por um sistema de engrenagens.
         A feiticeira, o buscador e seus guardas chegaram ao jardim do penltimo andar e
caminharam pela escadaria externa at o pinculo, e de l  base do trono dourado. A vista, do
cimo da Pirmide de Prata, estendia-se para muito alm dos muros da grande cidade,
alcanando o horizonte deserto.
         Impassvel, Nimrod observou em silncio a aproximao da Feiticeira de En-Dor,
cercado por seu corpo de elite, enquanto afagava o pescoo do tigre-dentes-de-sabre, preso por
uma coleira  lateral do assento. Estimulado pelo odor feminino, o felino rosnou, e Shamira teve
medo de que a fera avanasse, mas o predador j no era to feroz quanto seus ancestrais
selvagens.
         O Imortal conservou a face penetrante e perigosa, quando Zamir e os guardas se
ajoelharam para saud-lo. A necromante reparou que o buscador era uma figura maligna, mas
razovel. Se tentasse negociar sua libertao, que fosse com o conselheiro, no com o exaltado
monarca.
         -- Vejo que j conhece Zamir, o Brilhante -- falou o rei. Sua voz era grossa e
imponente, e seu tom, nada amigvel. -- Meus sditos me contaram sobre uma necromante que
vivia alm do mar Salgado. No esperava que fosse to jovem -- disparou em desprezo, mas a
prisioneira no se abalou,
         -- Venho de En-Dor, na terra de Cana... -- comeou a mulher.
         -- Poupe-me de sua intil apresentao. Seu protocolo tribal no  necessrio aqui. Sei
quem voc , caso contrrio no estaria aos meus ps. Os buscadores investigaram sua
miservel trajetria no mundo, antes que fosse capturada, e traaram suas origens at a aldeia de
Knossos, atravs do Grande Mar.
         Shamira engoliu em seco e no disse mais nada. Quando pensava ter virado a situao,
o Imortal frustrara todos os seus planos, provando que conhecia tanto sobre sua vida quanto ela
mesma. Na verdade, Nimrod podia fazer muito pior do que simplesmente mat-la. A
necromante temeu por seu povo, pelos aldees e pescadores de En-Dor -- pobres camponeses
que nunca desejaram rnal a ningum, mas que agora estavam ameaados pela fria de um rei
enlouquecido, um escravocrata cruel, que se proclamara o maior dos homens da terra.
         -- Assim como voc, Zamir  tambm um feiticeiro -- continuou o Imortal, e a moa
gelou. A magia era sua nica vantagem e garantia de vida. Sem ela, Shamira no seria mais do
que uma garota indefesa diante daqueles usurpadores sinistros.
         O conselheiro fez uma vnia e deu dois passos na direo da mulher.
         -- Sou um invocador -- falou  cativa, j prevendo sua dvida. -- Sabe o que  isso?
         A feiticeira no respondeu. Sentia-se a ltima das criaturas, a mas intil das mulheres.
Em sua aldeia, era adorada e respeitada como uma jovem prodgio, mas ali no passava de uma
novata.
         -- Eu imaginei -- retomou o conselheiro, entendendo a confuso. -- Ns, in-
vocadores, estudamos um campo da mgica diferente daquele da necromancia. Buscamos a
canalizao de nossos feitios nos elementos naturais. Manipulamos o fogo, a gua, o ar e a
terra, e tambm as substncias paraelementais, tais como a lava, a fumaa, o p e o vapor. No
sou hbil na matria dos mortos, e  por isso que voc est aqui.
         -- Ento o que precisam  de algum instrudo no objeto espiritual -- arriscou, atisfeita
por finalmente reparar que era essencial.
         -- No se julgue inestimvel -- fez questo de afirmar Nimrod. -- No fosse voc,
seria outro necromante.
         -- Infelizmente -- completou Zamir --, a maioria dos grandes necromantes vive alm
da segunda catarata do Nilo. Cana  mais perto daqui, e mais acessvel.
         Verdade?
         -- Nossa tradio mgica -- continuou o buscador -- remonta aos tempos da gloriosa
cidade de Enoque, a Bela Gigante.  a partir de Caim que ns, babilnicos, traamos nossa
ancestralidade, razo pela qual estamos fadados a vencer sempre.
         -- Nem que para isso tenhamos que derramar sangue, maculado ou inocente --
desfechou o Imortal.
         -- E ser que sofrero o mesmo destino de seus antepassados? -- ousou a mulher.
         Ao escutar a inaceitvel blasfmia, a face do soberano corou de dio. Os guardas
recuaram, temerosos como raposas que se escondem na tempestade.
         -- Os celestes que mandem outra inundao -- esbravejou, exaltado, erguendo o cetro
de ouro na direo da torre em construo --, e eu vingarei os meus ancestrais, pois a minha
torre se erguer ainda mais alto do que o monte Ararat. Nenhum deus vai me tirar esta cidade!
-- gritou, violento. -- Que venham os exrcitos! Que venham os anjos! Que venham os
espritos! Nada pode debelar o esplendor de Babel.
         -- Sim -- apoiou o conselheiro. -- Somos invencveis.
       -- Tragam a arca! -- bradou Nimrod para suas sentinelas. -- Comea agora a vingana
de meus progenitores.


        As pragas seguiu-se o cansao, e o soberano voltou ao trono, espumando de raiva pela
boca barbuda. Respirou longamente e apoiou o rosto entre os dedos morenos.
        Que louco! -- Shamira pensou, preocupada com seu destino naquela cidade de
alucinados. Nimrod no hesitaria em tortur-la, ou mesmo mat-la, se assim julgasse preciso.
        Ento, enquanto o Imortal meditava, Zamir achegou-se  necromante e sussurrou de
esguelha:
        -- No h como se opor  nossa potncia. Seja prudente e colabore. Faa o certo e todo
o conhecimento do mundo antigo estar ao seu alcance. Decline e morrer lentamente. Voc
tem mais a ganhar do que ns.
        O conhecimento do mundo antigo.
        Mas, quela altura, no era s em poder que a feiticeira pensava. Era ainda jovem, e
talvez tenha sido a mocidade que a livrara da tentao. Aos 20 anos, no tivera muito tempo
para as decepes da vida adulta. Era sonhadora e cultivava ideais inflamados, mais fortes que a
riqueza e a glria. No queria terminar a vida mergulhada numa piscina de ouro, servindo de
conselheira na corte de um monarca insano. Queria amar, ter filhos e ser feliz ao lado de
algum. Sob a mscara da bruxa infernal, havia uma mulher como todas as outras, que via nas
coisas simples o verdadeiro prazer de viver. Gostava de se sentar  fogueira e escutar histrias
at o sono chegar. Queria passear pelo campo, tomar banho no rio, escutar o canto dos pssaros
e provar o toque do homem amado.
        E, por mais singelos que fossem seus sonhos comparados ao poder do dinheiro, Shamira
no pretendia abandon-los.


         Ao rufar dos tambores, dois guardas trouxeram ao terrao uma arca de puro marfim,
esculpida, nos flancos, com a herldica da cabea de touro. Os soldados a pousaram na
plataforma, ao fim dos degraus, e Zamir caminhou at ela.
         -- Cush, progenitor de nosso Rei Imortal, foi morto pelo inimigo. Acreditamos que seu
esprito possa nos indicar o caminho ao acampamento rebelde.
         O conselheiro ergueu a tampa da arca e enfiou a mo na escurido do ba. Nimrod
continuava afundado no trono, quieto, autista, perigosamente calado. A moa temia que ele
explodisse em um novo ataque de fria e a atacasse com o cetro metlico.
         Ento, o feiticeiro retirou da caixa um crnio enegrecido, visivelmente humano, mas
chamuscado pelo contato com o fogo.
         -- Os Filhos de Jaf nos enviaram isso -- mostrou o conselheiro, esticando a .caveira
queimada. -- Sabe por qu?
         -- O corpo foi submetido ao ritual da purificao, com certeza. Os ossos, agora, no
tm nenhuma serventia.
         O invocador examinou o crnio mais uma vez, como um professor que desconfia da
mentira infantil. Enquanto isso, o Imortal despertou de seu transe e correu  plataforma,
         -- Voc invocar  matria a alma de meu pai, e teremos a nossa vitria.
         -- No posso -- confessou a mulher. -- A alma de seu pai est agora vagando no
abismo e de l no pode voltar. Duvido que algum necromante consiga resgat-la do grande
vazio.
         Dito isso, o dentes-de-sabre rosnou, e o soberano acompanhou sua clera. Brandiu o
cetro adornado e precipitou-se ao ataque, cheio de dio mortal. Surpreendida, Shamira tentou
desviar, mas o basto acertou-lhe cabea, e ela foi jogada contra o piso da escada. Em seguida,
foi chutada na boca do estmago tomada pelos cabelos.
         O Imortal a lanou feito brinquedo  base do trono, com toda a violncia de um chefe
guerreiro. Ali, seu rosto delicado encontrou o cho prateado, abrindo um corte ralo acima da
testa.
         A Feiticeira de En-Dor encarou seu agressor e percebeu a vontade assassina em seus
olhos vermelhos. Nimrod no a pouparia -- no depois de sua pronta recusa. Seria esmagada
ali, no pinculo da Pirmide de Prata, para servir de exemplo aos futuros capturados. Mas o que
ela poderia ter feito? A reverso do ritual era invivel, mesmo ao mais poderoso dos mgicos.
         Levantando o cetro sobre a cabea, o governante preparou a pancada final. Mas quando
a mulher fechou os cotovelos para proteger a cabea, sentiu pesar a manga da tnica e lembrou
que ali escondera a faca de po. No pretendia sac-la to cedo nem ter de us-la em combate,
mas no tinha mais opo. Diante da realidade da morte, puxou o punhal e, com todo o vigor de
uma presa acuada, atacou. Era uma necromante, iniciada nos segredos da vida e sbia nos
estudos de anatomia. Conhecia cada vaso do corpo humano, cada rgo, cada ponto crtico da
carcaa vital.
         A adaga correu e, com uma fincada certeira, rasgou a tnica do Imortal, alcanando sua
carne. Um esguicho de sangue acompanhou a ferida, e a lmina cravou fundo no corao.
         Com o fluido rubro a manchar-lhe as mos, Shamira se afastou do rei cambaleante,
espantada pela prpria pujana. Rejeitava todo tipo de assassinato e crueldade, mas sua ao
fora instintiva. Agora, o soberano feneceria aos poucos, no cume de seu adorado palcio.
Nenhum homem, mago ou guerreiro, suportaria aquela punhalada fatal.
         Mas em vez de avanar, como qualquer sentinela faria, os guardas no se mexeram,
copiando a tranquilidade do buscador, que persistia altivo na plataforma. Seu comandante
estava agonizando, morrendo, e continuavam estacados os soldados!
         Foi ento que o impossvel aconteceu.
         Esparramado sobre o trono, definhando na poa de sangue, Nimrod aindal respirava,
lutando como um touro bravio pela ltima centelha de vida. O monarca soltou um urro terrvel,
um berro inumano e gutural, como uma funesta orao aos deuses perdidos. Deslizou a mo ao
punho da faca e, tremendo de dor, finalmente a arrancou do peito.
         Em proeza fantstica, digna dos grandes heris do passado, ele se levantou e proferiu
uma gargalhada sinistra, luntica, no mesmo instante em que abria o colete da tnica, revelando
o corte coagulado.
         O ferimento regenerou sobre a pele!
         -- Que Ishtar seja louvada! -- exclamou o conselheiro, elevando as palmas ao cu. Os
vigilantes o imitaram, tombando lanas e escudos ao piso.
         Recuperando seu cetro -- e tambm sua perfeita sade --, o Imortal cuspiu uma ndoa
de sangue e dirigiu-se  fascinada Feiticeira de En-Dor.
         -- Assim  o meu povo, invencvel -- e exibiu o busto sarado. -- No tememos a ira de
Deus nem o ataque dos anjos. Eu o desafio,  Yahweh! -- aproveitou, arrostando o profundo
lume do sol. --Voc que inundou Enoque, a ptria dos meus ancestrais. Eu o renego, 
Refulgente, pois eu sou Nimrod, o legado do grande Cam.
         E apontou o basto  feiticeira, completando a sentena.
         -- Ser poupada, mulher, para que estude o ritual e aprenda a convert-lo. Ele no
aceitara, ainda, o fato de que o encantamento era irreversvel.
         -- Agora levem-na daqui -- gritou aos guardas. -- Joguem-na no calabouo, nos
pores do zigurate.  sob a terra a morada dos necromantes.
         As sentinelas a algemaram, mas antes que fosse amarrada Zamr disparou mais um de
seus desprezveis conselhos.
         -- Seria melhor que voc estivesse em condies de realizar a cerimnia ao cair da
madrugada. Eu no desagradaria Nimrod outra vez.
         Dali Shamira foi arrastada pela escadaria at o jardim, e de l para as masmorras na
fundura do palcio real. Mas, antes que desaparecesse pelos degraus, avistou o soberano, meio
tonto, procurar a mo amga do feiticeiro.
         -- Zamir, preciso ter com a deusa.


                                 PELOS OLHOS DO RATO
         Nimrod no era nem um pouco tolo. Ao ser jogada em uma cela mida, inunda, escura e
cheia de ratos, Shamira entendeu que o tratamento especial que recebera na noite anterior tinha
um propsito. O Rei Imortal no a hospedara em um quarto luxuoso porque se preocupava com
sua sade. Era uma ttica -- uma manobra para mostrar  prisioneira o que de melhor e de pior
hava em Babel.
         Era bvio que depois de passar toda uma noite nas masmorras do zigurate, sem gua ou
comida, ela de tudo faria para voltar ao quarto de mrmore, mergulhar na piscina aquecida e
provar as iguarias do farto banquete. At mesmo o mais forte dos homens, fosse ele rei ou
escravo, sucumbiria hora ou outra s necessidades vitais e aos prazeres da carne. E era essa a
inteno do Imortal e de seu feiticeiro.
         Nimrod e Zamir sabiam que a necromante se dobraria como qualquer outro cativo, mas
desconheciam a pea fundamental que desbancava a estratgia: o mapa do calabouo, entregue
 prisioneira pela menina Adnari. Shamira deixara o pergaminho no dormitrio, mas
memorizara cada detalhe do projeto subterrneo e se lembrava perfeitamente da localizao das
sadas secretas. O desfio, agora, estava em transpor as paredes da cela, bloqueada por uma
grossa porta de ferro e trancada por trs classes de fechaduras tranadas. A feiticeira no tinha
muito tempo de ao. Calculava mais seis ou sete horas at o crepsculo, e dali mais sete 
madrugada.
         A cela onde fora enfiada era mnima, abafada, e a nica luz incidente vinha dos archotes
do corredor e penetrava pela fresta na soleira da porta. O silncio era cortado pelas gotas de
gua que escorriam da pedra e pelos gritos ocasionais dos prisioneiros em tortura. No
totalmente sozinhos, os condenados tinham a companhia dos ratos, que de incio se espantavam
com as pancadas no cho, mas depois, famintos, perdiam a inibio e no raro atacavam.
         Depois de certo tempo, j adaptada  escurido, Shamira distinguiu a aproximao dos
roedores e os afastou com uma pisada. Um delicioso almoo os aguardava em outras alcovas,
onde os cadveres dos prisioneiros ficavam por dias, at que os escravos os recolhessem.
         Como humana, a feiticeira dali no podia sair. A porta era muito forte para ser
arrombada, mas a ferrugem corroer o canto das dobradias, desenhando pequenas gretas no
ferro, por onde entravam e saam ratos e baratas. Era o momento de Shamira usar novamente
sua mgica. Estava ferida na testa, mas podia ainda se mover, falar e lanar feitios elementares.
Os componentes seriam seus nicos companheiros de cela, os mesmos que desejavam devor-la
com os dentes agudos.
         Improvisou uma luva, fazendo duas dobras no tecido da tnica, e agarrou um dos
roedores que pela ferrugem se esgueirava. Com a mo direita, coletou um pouco de seu prprio
sangue, que flua pelo ferimento, e marcou uma runa mgica nas costas do animal. Depois,
arrancou um fio de pelo do bicho e o enfiou debaixo da lngua.
         -- Ia Mashmashti! Kakammu Selah!-- recitou, fitando os midos olhos da criatura.
         O encanto de conscincia animal  um ritual dos mais bsicos, ensinado aos jovens
feiticeiros como um instrumento de espionagem e explorao. Pelo feitio, o mago  capaz de
estender sua conscincia ao animal e enxergar atravs de seus olhos. Enquanto o sangue
permanecesse fresco no dorso do rato, Shamira poderia tambm controlar sua rota e visualizar
seu caminho.
         Soltando o bicho no cho, a feiticeira fechou os olhos e principiou a viso.


        Se comparada  do homem, a viso dos ratos  embaada e monocromtica, mas
extremamente eficiente  noite. As pupilas saltadas contribuem para uma percepo panormica
do espao, ajudando na deteco de sombras de movimento, em ngulos muito expandidos.
        Foi assim que Shamira avistou sua rota -- uma passagem escura, tenebrosa pontilhada
pelo fulgor descolorado das tochas, que seguia infinitamente pelo corredor. O animal avanou
para o norte, procurando a escada ao nvel superior, e encontrou dois carcereiros que,
indiferentes  sua presena, conversavam  guarda de um largo umbral arqueado. Adiante, a
senda dava acesso a uma escada espiral, que subia e descia em sentidos opostos.
        Driblando os vigias, o rato saltou para os degraus e galgou, um aps o outro, buscando o
prximo lance. Mas ento congelou, ao perceber a sombra de dois descendo. Recuou  fresta
mais prxima e ali os esperou em silncio. Foi ento que a necromante, pelos olhos do bicho,
identificou os passantes eram ningum menos do que o prprio rei Nimrod, apoiado em seu
buscador! Tremulante, o Imortal caminhava, aturdido, exausto, abatido.
         Shamira queria fugir, mas no resistiu ao mistrio. Na indeciso entre ficar ou correr, a
feiticeira tomou o rastro de seus inimigos. Deixou que os babilnicos seguissem na frente, e
pelos olhos do rato acompanhou o percurso. Zamir e Nmrod desceram at o nvel mais fundo e
entraram por uma passagem estreita, quase um tnel, que culminava em uma nica porta de
ferro, reforada por chapas de cobre.
         O roedor viu quando os dois homens deslizaram  cmara -- uma sala ilumnada por
piras de fogo -- e riscou pelo cho antes que fechassem o caminho. Encontrou um largo
aposento, redondo, centralizado por um tipo de anfiteatro, com degraus circulares e orlado por
pilastras cilndricas.
         O animal levantou o focinho, captando o cheiro de sangue, e em sua mente distante a
feiticeira assistiu a uma cena que nunca mais esqueceria e que encerrava todos os segredos da
antiga Babel.




                              A DEUSA DO MUNDO INTERIOR
        Fechada cm sua cela, incapaz de sair, Shamira apertou forte as plpebras e mordeu a
lngua em horror, quando o rato transps a passagem.
        Suspensa por correntes ao teto estava uma bela mulher, de pele clara e face aptica. Os
cabelos, louros, compridos e ondulados, caam-lhe s costas, indicando seu trao mais absurdo
-- um par de longas asas de penas brancas, marcadas por rajas de sangue.
        A deusa! A deusa Ishtar. A deusa do mundo interior. A deusa de Nimrod!
        A condenada no era realmente mulher, mas uma entidade celestial, como aquelas
descritas no Livro de Magan, um dos antigos compndios de misticismo aja autoria se atribui
aos sbios da extinta cidade de Enoque. Esses celestes, at onde se sabia, foram criados pela luz
do Altssimo e serviram como arautos em sua criao. Foram eles a primeira raa do universo, e
muito antes da feitura do homem j vagavam pelas estrelas, desbravando o infinito.
        Mas quem teria capturado criatura to majestosa, e por qu?
        Era impossvel, mesmo para um necromante, ter certeza se a alada ainda vivia, pela
gravidade de seus ferimentos. No s as asas, mas todo o corpo estava coberto de leses e
hematomas, como o dos soldados que regressam da guerra.
        Mas ento, quando o rato circulou a pilastra, a prpria Shamira estremeceu  viso do
espetculo dantesco. Usando uma faca magica de ritual, o feiticeiro Zamir rasgava as costelas
da deusa, deixando verter o sangue da pobre entidade dependurada. Enquanto isso, ajoelhado
aos ps da celeste, Nimrod sorvia o fluido vermelho, engolindo com ardor as gotas de plasma.
        Bebendo o sangue da deusa!
        O sangue humano  o alimento de muitos espritos e frequentemente  usado como
material nos rituais de bruxaria. Mas a necromante nunca ouvira falar de um homem que tivesse
provado o sangue imortal e no tinha idia dos efeitos resultantes de tal cerimnia. Era certo,
porm, que os filhos de Nod (que viviam em Enoque) muito pesquisaram sobre a natureza
anglica. Se o busca-dor tivesse mesmo os tomos antigos de feitiaria, provavelmente fosse
experto nas propriedades ocultas da anatomia celestial, e ento a feiticeira inferiu o mais lgico.
         o sangue da deusa que torna, o soberano invencvel.
        A situao hedionda desconcertou a mulher, que quis vomitar, mas deteve o impulso. A
concentrao vacilou, e foi quebrado o encanto. Na sala, o rato, liberto, fugiu para a escurido, e
os profanos avanaram com sua orgia macabra.
         No calabouo, uma figura solitria percorreu as alcovas e parou em frente  cela de
Shamira. Sacou do cinto um molho de chaves e destrancou cada uma das trs fechaduras.
         Quem ser? -- assustou-se a mulher. E se o bruxo tivesse detectado seu feitio de
conscincia animal? Que destino ele poderia arquitetar para ela, alm da execuo? Se Zamir
conhecia os segredos ancestrais, certamente saberia como amaldio-la, convertendo-a em uma
criatura inumana, como faziam os magos de Nod.
         A porta se abriu, e Shamira viu no um guarda, mas um escravo, um sujeito alto,
moreno e forte, que trabalhava como servial em alguma ala do palcio. No portava armas, s
uma veste comum, e no parecia agressivo.
         -- Sou amigo de Adnari -- esclareceu, e o corao da moa quase pulou de alvio. --A
menina me contou que voc conhece a sada.

          -- Um escravo por aqui... e sozinho? -- ela murmurou, ainda meio abalada. Nenhum
vigia circulava pelos corredores, e a masmorra parecia desguarnecida.
          -- Voc tem de se apressar. O rei e o buscador desceram s cmaras inferiores. Sempre
que isso acontece, as sentinelas so ordenadas a deixar a priso. A evacuao temporria
permitiu o meu ingresso.
          Zamir e Nimrod zelavam pela conservao do mistrio, embora Adnari tenha dito que
alguns escravos chegaram a contemplar "a face da deusa". Na verdade, a presena fsica da
divindade no era um tabu, e sim a dependncia do governante de seu sangue. Se algum
aristocrata descobrisse a fonte da invencibilidade do rei, certamente tentaria roub-la.
          -- Qual  seu nome? -- ela quis saber, finalmente recobrando a razo.
          -- No seria seguro, nem para mim nem para voc, que eu revelasse meu nome. Fao
parte de um crculo de escravos que articula uma insurreio. Muitos perderiam se eu fosse
exterminado.
          E, sem mais perguntas, os dois correram pela senda do norte e venceram a escada, agora
vazia, at o arco de acesso ao prximo nvel. A feiticeira parou no umbral e avisou ao escravo:
          -- Eu fico aqui. Este  o caminho para a sada secreta.
          -- Boa sorte -- desejou o conspirador, pronto para continuar sua rota de volta ao
palcio.
          -- Escute -- chamou a feiticeira, certa de que poderia ajudar na insurreio. -- A deusa
Ishtar...
          Um rudo contnuo interrompeu a conversa, e os fugitivos distinguiram uma sombra
disforme que subia os degraus.
          -- V -- insistiu o escravo, repudiando a silhueta. Se a priso havia sido esvaziada,
ento s restavam duas pessoas livres a vagar pelos subterrneos.
          Nimrod e Zamir.
          Aterrorizada pela possibilidade de reencontr-los, a moa correu pelo corredor quase
como um gato em caada,  procura do tnel de sada.


                                   A PASSAGEM SECRETA
        Shamira foi caminhando pelo corredor, at dobrar em uma curva ao leste. A passagem
parecia muito com o calabouo inferior, ladeada por centenas de celas trancadas. As paredes
continuavam imundas, mas ali a iluminao era mais regular. Do teto pendiam lamparinas de
bronze, e no tochas, alimentadas por cargas de leo e marcadas com a herldica real.
        Trezentos metros alm da entrada, a vereda terminava em uma parede limosa, e diante
dela havia um poo de pedra, solitrio no fundo do beco. Era. uma cacimba de gua, uma fonte
subterrnea de suprimento. O buraco no era profundo, e a distncia de um brao separava a
boca do poo da linha da gua. Shamira esticou a mo  cisterna e provou o gosto do lquido.
        Agua doce.
        Era aquela a sada, certamente, segundo as diretrizes do mapa.
        Enchendo os pulmes, a moa mergulhou na gua gelada e abriu os olhos na
profundeza. Distinguiu um tnel submerso, anelado e redondo, e se meteu dentro dele, sem
reparar muito bem para onde levava.
        A tubulao era deslizante e estreita e subia em ngulo suave, at emergir para o ar.
        Com o peito a queimar, a Feiticeira de En-Dor insurgiu e respirou o gs precioso,
engasgada pelo esforo excessivo. A sada delgada fazia lembrar um cano de despejo de esgoto,
mas a gua era pura. L dentro, a escurido seria total no fosse um brilho dourado no fim da
passagem, dali a mil metros, que guiava a travessia.
        Uma longa distncia para percorrer rastejando -- mas nem por isso exatamente
penosa. A alegria por ter deixado a masmorra era tanta que a feiticeira esqueceu a palpitao do
ferimento na testa e nem se importou de ralar os joelhos no cascalho afiado.
        Assim se passaram duas horas inteiras.
        Esgotada, a feiticeira escutou o rudo do vento e distinguiu o anel de sada. Apressou
sua rota e enfim sentiu o aroma da terra, quando o tnel se abriu em uma caverna minscula,
ligada ao exterior por uma racha pequena. Um fio de gua escorria da boca do cano, desenhando
uma poa diminuta no solo arenoso.
        Livre!
        A Feiticeira de En-Dor conseguira fugir. Estava livre dos calabouos da terrvel Babel e
do assdio de seus inimigos, mas para onde teria escapado? Certamente o tubo avanava sob as
muralhas da capital e subia em leve inclinao, para acabar em um recanto seguro, longe da
agitao da cidade.
        Era noite quando Shamira saiu pela abertura. O deserto  sua volta dava vida a um
cenrio irregular e montanhoso, uma regio pedregosa, que delineava um labirinto de passos
rochosos, desfiladeiros e morros pontudos. Aquela era uma terra infrtil e desabitada, conhecida
pelos mesopotmicos como Mar de Rocha. A fase cheia da lua iluminava os montes, e do vale a
necromante avistou o caminho mais bvio, que enveredava ao centro de uma ampla garganta.
        Ento, enquanto vagava descansada pela trilha, Shamira escutou repetidas pancadas
estremecerem o desfiladeiro.
        Cavalos.
        A feiticeira estava sendo procurada!


         O rei e o buscador no tardaram a descobrir que Shamira havia fugido dos at ento
intransponveis calabouos da Babilnia, mas como teriam rastreado seu curso? O tnel, de fato,
no era uma sada de prisioneiros, mas uma rota secreta construda pelos prprios babilnicos,
como uma alternativa de evaso no caso de stio. Sendo assim, era bvio que o soberano
conhecia cada uma das tubulaes e seus respectivos destinos. Como uma escrava domstica,
Adnari tinha acesso ao quarto dos buscadores e de l roubou o mapa, na melhor inteno de
facilitar a fuga da amiga. Mas a menina no contava com a perspiccia dos conselheiros nem
esperava que Nimrod e Zamir estivessem subindo a escada no exato minuto em que a feiticeira
saa da cela.
         A necromante correu pelo vale, perdida. Procurou por um esconderijo, mas no
encontrou nenhuma gruta que servisse. O barulho dos cascos aumentou, e a moa reparou na
desgraa da geografia. As curvas e os paredes do Mar de Rocha confundiam a viso e
impediam a observao a distncia. A qualquer momento, um soldado poderia saltar do meio
das fendas e render a feiticeira com sua lana.
         Na corrida, a feiticeira perdeu a percepo dos rudos mais graves, e as batidas do
corao suplantaram os passos dos caadores. Com os ps inchados, Shamira obrigou-se a
sentar. Voltou a escutar o relinchar dos cavalos e percebeu um guarda no alto do desfiladeiro.
No instante em que os soldados irromperam no vale, a feiticeira teve certeza de que, mais cedo
ou mais tarde, seria descoberta. Distinguiu, ento, no canto extremo da garganta, uma sada para
a plancie -- uma fissura no paredo, que cruzava uma senda e levava ao deserto.
         Os caadores puxaram as rdeas, e o peloto de vanguarda desmontou. Hava, ali, perto
de quarenta guerreiros de olhar apurado, e ao menos dez deles inciaram a busca pela base da
encosta. Acenderam lampies e com bastes fustigaram os buracos. Foi a que, sem alternativa,
Shamira correu, atenta principalmente aos guardas armados de arcos.
        A areia mais fofa atrasou-lhe a disparada, mas os vigilantes no a perceberam, at que
ela se meteu pela fissura, e uma sentinela deu o alarme. Ao soar dos berrantes, os cavaleiros
partiram em perseguio.
        Quando entrou no desfiladeiro, Shamira ouviu o som de engrenagens metlicas e
distinguiu, logo adiante, uma charrete de duas rodas, puxada por um par de negros corcis. Seu
auriga era um homem comprido, de nariz fino e barba pontuda. A pele morena estava bem
maquiada, e os cabelos, tratados com uma soluo oleosa.
        Era Zamir, o feiticeiro.


                       O JUSTICEIRO DAS MONTANHAS ALONGADAS

         Encurralada entre uma horda de lutadores e a charrete do mago, Shamira recuou ao
vale, na v tentativa de escalar o aclive. Conhecendo a real importncia de uma vitria integral,
sem falhas ou desvios, Zamir resolveu demonstrar suas habilidades fantsticas e alcanar assim
o triunfo perfeito.
         Sempre calmo e ordeiro, o feiticeiro se transformou de repente, incorporando uma
mscara de ardor infernal. Levantou os braos e gritou uma prece aos poderes antigos.
         -- Ia Dag! Ia Dag! Ia Margolqbabbonnesh! Ia Marrutukku! Ia Tuku Suhrim Suhgurim!
-- bradou o conselheiro, contorcendo os punhos em gestos profanos.
         E assim a areia subiu ao redor da mulher, formando uma onda espiralada, tal qual um
pequeno tornado. O furaco sugou sua vtima, e Shamira fo jogada para l e para c no corao
do ciclone, sendo enfim lanada ao cho, com violncia e brutalidade abissais. Engasgada pela
terra e suja de poeira calcria, rolou para o extremo do vale, parando a um metro do carro de
Zamir.
         -- Infelizmente, voc descobriu o poder de um invocador pela via mais rude -- disse o
conselheiro, retomando sua postura alinhada.
         A Feiticeira de En-Dor simplesmente no poda falar. A boca sangrava e o peito doa.
Os soldados, por sua vez, estavam igualmente assustados. Todos em Babel eram acostumados
aos mitos fantsticos, mas nunca haviam presenciado a invocao de um feitio to magnfico.
No duvidariam, nunca mais, das lendas sobre o Imortal.
         -- O rei no costuma deixar a cidade -- esclareceu o buscador --, mas quer voc viva,
para que seja executada diante da torre. Entenda que foi a nica que j escapou das masmorras
do zigurate. No podemos deix-la inclume.
         Na frieza do homem, havia uma neutralidade peculiar. Zamir no parecia exatamente
cruel, apesar de suas atitudes. Era como se o extermnio de Shamira nada significasse para ele,
um bruxo cuja ambio morava muito alm da realidade mundana.
         -- Espanquem-na! -- ordenou, finalmente. -- Poupem o rosto, para que seja
reconhecida pelo povo nas ruas. -- E completou, oficializando o comando:
         -- E o desejo do Imortal.
         Trs homens desceram do cavalo com curtos chicotes. Um quarto avanou annado de
bastes de bronze.
         J entregue  runa, Shamira perdeu todas as esperanas e aceitou sua sina. Mas,
naquele momento, os guardas silenciaram, ao rudo de passos firmes que chegavam ao vale.
         Quem? Quem em s conscincia se aventuraria pelo desfiladeiro assombrado ainda mais
lotado de guerreiros armados, nascidos na maior de todas as naes de seu tempo?
         Os batedores, e at o mago, estranharam quando um forasteiro apareceu caminhando s
costas do peloto. Com a surpresa, os soldados abriram caminho, e o homem seguiu pelo meio
da tropa, para estacar diante da moa. Vestia uma tnica pesada, de pano marrom, castigada
pela longa viagem. Um capuz obscuro tapava-lhe o rosto, mas a necromante pde reparar nos
olhos cinzentos no cavanhaque alourado. No carregava arma ou escudo. A expresso era
temerria, refreando o assalto dos combatentes.
         Durante um longo minuto ningum disse nada, nem mesmo o buscador, o viajante
ajoelhou-se para ajudar Shamira, alheio  presena do esquadro. Examinou o ferimento da testa
e tateou os ossos quebrados. Indignado, Zamir exigiu:
         -- Alto l, forasteiro! Quem  voc, que debela nossas defesas?
         Desfeitos do choque, os guardas cobriram a dianteira, preparando as lanas e apontando
os arcos. O estrangeiro encarou o bruxo, e Shamira viu que ele tinha a pele bem clara. Era alto,
robusto e guardava toda a dureza de um guerreiro versado.
         -- Sou um viajante, mas j conheo um pouco estas bandas -- respondeu, e voz era
forte. -- Seguia o caminho de meu santurio, quando avistei o peloto cm perseguio 
mulher. E para que tanta gente? -- e olhou ao redor, indicando a multido de infantes.
         -- Ela  uma bruxa -- justificou um dos oficiais.
         Somente a segurana do eremita impedia que fosse alvejado.
         -- Ora... -- argumentou, levantando do cho como um tigre assassino. -- Ela no me
parece assim to perigosa -- desviou-se ao feiticeiro. -- Sua caada noturna est encerrada --
endureceu as palavras. -- Sua prisioneira est quase morta, e vou lev-la comigo.
         Os soldados retrocederam, mas o mago no parecia vencido.
         -- No vai conseguir isso to fcil.
         -- Eu imaginei que no -- reagiu o viajante.
         Assim, decidido a liquidar qualquer obstculo  sua demanda nacionalista, Zamir fez
sinal aos lutadores, que retesaram os arcos e apontaram as flechas.
         O desfiladeiro no era l muito vasto, e apenas sete homens compunham a linha de
frente. Os outros caadores vinham logo atrs, mas eram justamente os primeiros que miravam
as setas. A maioria estava a p, inclusive os arqueiros, que haviam desmontado para
esquadrinhar a garganta.
         No preciso ato do disparo dos guardas, o forasteiro jogou para cima sua capa,
enganando os atiradores -- eles lanaram flechas aos cus, mirando a veste vazia.
         Voltando as vistas ao solo, notaram, estupefatos, o solitrio guerreiro, que vinha de
encontro  tropa como um projtil de catapulta. O estrangeiro acometeu com os punhos
cerrados, mas, em vez de esmurrar os capites, atacou o cho, em premeditada investida.
         O soco produziu uma extraordinria onda de choque, que correu para frente em forma
de cone, pondo todo o peloto a nocaute. Aturdidos, os guardas desabaram, mas nem Shamira
nem Zamir foram atingidos. Na retaguarda, os cavalos fugiram, horrorizados com a sacudida.
         Nesse momento, o inabalvel Zamir fraquejou. Julgava-se insupervel, mas agora
encontrara um oponente ao qual no podia vencer. E no era s isso. No semblante do feiticeiro,
a necromante leu a mscara do terror, como se o viajante tivesse despertado nele a lembrana de
um pavor enterrado.
         Afundado em desespero, o mago tentou mais um de seus encantos bizarros, mas o
forasteiro saltou sobre ele como um leo em caada e o arrancou para fora da biga. Quando
ambos caram, o andarilho o levantou pela camisa, de costas para o brilho da lua. Ao contemplar
o rosto de seu agressor, Zamir tremeu feito criana e abortou qualquer reao.
         -- Parece que a coragem dos babilnicos falha ao primeiro sinal de perigo -- constatou
o forasteiro. -- Ser que a fora divina dos exrcitos de Nimrod s funciona contra moas
feridas e escravos desnutridos?
         -- Perdo! -- suplicou o buscador, tomado pelo pnico irracional. -- Perdo! A idia
no foi minha. Foi o rei que me persuadiu. Piedade, eu imploro! No tire minha vida!
         -- Tenha calma, homem -- retrucou o estrangeiro, sem entender muito bem covardia
to brusca. -- No tenho a inteno de feri-lo.
         Assim, o viajante solitrio liberou a pegada, e o bruxo deslizou para o deserto, deixando
para trs a charrete, os corcis e tambm o peloto desacordado.
         O silncio voltou ao desfiladeiro, e Shamira sentiu que era erguida nos braos pelo
justiceiro das montanhas alongadas. No viu mais nada depois, s o breu e o conforto do sono.


                                   O HOMEM SEM ALMA
         Shamira acordou com o agradvel aroma de peixe cozido, uma fragrncia
particularmente gostosa, que sempre a transportava ao passado, s tardes de sbado em En-Dor,
quando todo o povo descansava do labor da semana e preparava o banquete comunitrio.
         O corpo j no doa. Ela abriu os olhos, mas a luz indireta do sol machucou a retina.
Aos poucos, reparou ao redor e distinguiu os contornos de uma gruta pequena, aquecida e aberta
ao norte por uma sada redonda. Uma fogueira, no centro da caverna, cozinhava uma sopa
marinha -- uma mistura de peixes, algas e lula.
         No extremo sul da gruta, reluzia um objeto metlico, encravado no corao de uma
alcova. O canto mais parecia um altar, destacado por uma espada longa, que jazia enfiada na
pedra. Sua lmina era de um material diferente do ferro, muito mais brilhante e macio.
         E, do outro lado da galeria, prximo  abertura na pedra, meditava o forasteiro, sentado,
de pernas cruzadas. Os cabelos loiros chegavam  altura dos ombros fazendo um rabo de cavalo
abaixo da nuca.
         Faminta, a feiticeira provou o cozido, separando boa poro em uma tigela de argila.
No queria incomodar seu salvador nem tir-lo de seu repouso. Nos dias da Babilnia, o
cavalheirismo no era uma atitude comum, principalmente entre os viajantes. Uma mulher
capturada podia esperar pelo pior, do estupro  morte, da humilhao  tortura.
         Shamira voltou ao seu leito, uma cama rstica de tecidos e feno, e continuou a refeio
merecida, descobrindo lascas de palmito no fundo do prato.
         -- No d muita importncia ao gosto. Sou pssimo cozinheiro -- surpreendeu o
andarilho. -- Guardei um pouco de gua naquela garrafa -- e indicou uma vasilha de barro.
-- H o suficiente para vrios dias.
         Shamira no bebia nada desde que fora atirada ao crcere, ou assim ela pensava. Os
lbios estavam rachados e secos, mas os ferimentos tinham sarado, todos eles, e os ossos
quebrados voltaram ao lugar.
         O jovem ermito caminhou at a fogueira. A feiticeira nunca tinha visto um homem
daqueles -- bonito e imponente, mas singelo tambm, simples em suas aes e direto em seus
objetivos. No devia ter muito mais que 30 anos, mas os olhos cinzentos projetavam uma
sabedoria ancestral, descendente de uma era anterior  feitura do mundo.
         Desde criana, Shamira sempre fora destacada nas habilidades msticas, mesmo antes de
aprender a arte dos mortos. Algumas de suas capacidades eram inatas e no dependiam de
frmulas mgicas ou runas simblicas. Uma dessas habilidades era a de se projetar ao astral, e
outra era a de contemplar os espritos. A necromante podia ver os fantasmas, os espectros
errantes, e consequentemen-te podia enxergar tambm a alma dos vivos, presa ao corpo
encarnado.
         A silhueta astral do estrangeiro, porm, era terrivelmente apagada, e a mulher recuou.
Se no tinha alma, no era realmente humano, mas ento o que era?
         -- Quem  voc e por que me salvou no Mar de Rocha? -- ela balbuciou.
         -- Acho que  de minha natureza assistir os desamparados -- respondeu, meio
desprevenido. -- Mas no sou exatamente um heri, talvez precisamente o contrrio -- ele
sorriu, descontraindo a tenso. -- Sou apenas um viajante, um guerreiro perdido, um desertor de
meu prprio exrcito.
         -- E que lugar  este? Por que me trouxe para c?
         -- Para trat-la,  claro, em ambiente seguro. Este  um santurio, uma espcie de
templo que eu mesmo constru, um tanto singelo, como pode ver. Como soldado, nunca fui
apegado ao luxo.
         Um santurio? Dedicado a que deus?
         Instintivamente, os olhos da moa se voltaram ao altar,  espada fincada na rocha.
         -- Esta  a Vingadora Sagrada--ele explicou, orgulhoso como quem apresenta um
filho. --  o ltimo esplendor que carrego comigo, desde que fui expurgado.
         -- Voc disse que  um desertor? -- interpelou a feiticeira, intrigada pela histria. No
conhecia nenhum exrcito de homens brancos naquelas partes desrticas, nem tivera notcias de
legies em batalha.
         -- Um renegado, um desgarrado talvez. Assim como voc, eu tambm sou um fugitivo.
Quem sabe tenha sido isso que me levou a defend-la no passo.
         -- E o que aconteceu? No sei de nenhum exrcito estrangeiro cruzando estas
cercanias.
         -- O meu exrcito no viaja por terra, mas pela vastido do cu azulado, acima das
nuvens e alm da realidade comum--revelou. -- No  um exrcito mundano, tampouco uma
tropa terrena, mas uma legio invisvel.
         Recuperada, mas ainda confusa, Shamira deslizou at a boca da pequena caverna e
vislumbrou a sada. A abertura no levava ao deserto ou a alguma outra plancie, mas a um
precipcio indescritvel, mais elevado que qualquer formao do Mar de Rocha. A gruta, de fato,
estava encravada no alto de uma mon-. colossal, e sua encosta era to lisa que no podia ser
escalada nem mesmo mais hbil dos alpinistas.
         E s ento a Feiticeira de En-Dor entendeu que seu salvador no era humano ou etreo,
mas uma entidade celestial, uma figura antiga, mais velha que qualquer pessoa vivente.


         A montanha para onde Shamira fora levada era a infame montanha de Mashu, o reduto
anteriormente assombrado, mas agora absolutamente tranquilo. No passado, a formao havia
sido o lar dos terrveis espritos-serpente de Kur, uma horda de monstros rastejantes adorada
pelos aldees primitivos da velha Sumria. A regio foi ento invadida pelos celestiais durante
as Guerras Etreas, dez anos antes do nascimento de Nimrod, quando todas as entidades
ofdicas
aniquiladas pelas legies do arcanjo Miguel.
         A caverna, um recanto impenetrvel aos homens comuns, dava vistas ao norte e era to
alta que, de l, se podia ver com clareza o rio Tigre, ao leste, que com o Eufrates fechava as
fronteiras da Mesopotmia. Uma plancie rida se estendia ao norte, e mais para oeste outra
formao se elevava aos cus -- a Torre de Babel. O Mar de Rocha ficava quilmetros ao sul,
na direo da cidade, e quase inavistvel pelo ngulo invertido.
         O eremita que salvara Shamira no era um homem mortal, mas um anjo renegado, um
querubim que, segundo ele prprio, fora expulso do cu por desafiar a autoridade dos
impiedosos arcanjos. Os dois -- o anjo e a feiticeira -- conversaram por horas sobre muitos
assuntos, materiais e sublimes, at que a cananeia se convenceu da integridade do novo amigo e
de sua inteno de ajud-la. Ele revelou o seu nome -- Ablon -- traduzido para a lngua terrena
e contou um pouco sobre sua origem alada.
         Quando o sol decaiu no horizonte, os fugitivos se sentaram na entrada da caverna. A
paisagem vespertina traava uma linha azul acima da superfcie do Tigre, circulada pela faixa
verde  margem do rio.
         -- Voc salvou a minha vida, e eu no tenho como agradecer-lhe -- disse a
necromante,  luz do espetculo dourado. -- Mas no vejo sua alma, se  que tem uma, e isso
me deixa assustada. Sou uma feiticeira e sempre dependi de minhas capacidades para sobreviver
neste mundo.
         --A alma  uma propriedade humana-- aclarou o renegado. -- E um presente de Deus
aos Filhos do den, como ns, anjos, chamamos a espcie mortal. E na alma que reside a
capacidade dos homens de guiar seu destino e comandar a prpria vontade.
         -- Mas como algum, mesmo um celeste, pode no ter alma? Qual  a energia que os
move, que os mantm ativos no cosmo?
         -- Todos ns temos um esprito: humanos, deuses, animais e at plantas. O esprito  a
energia vital que alimenta os seres viventes, mas esprito e alma so elementos distintos, embora
poucos o saibam.  a alma que faz dos terrenos especiais no universo. E a fora da alma que os
torna conscientes, autnomos, que d a vocs o livre-arbtrio, a ddiva que foi negada s
entidades aladas.
         -- E como regem sua vida, se no pela rota do corao?
         -- Os celestiais no so conduzidos pelos prprios anseios, mas por sua natureza divina.
No cu, estamos divididos em castas, cada qual com sua funo. Existem anjos guerreiros,
estudiosos, protetores, juizes e tambm aqueles que governam as provncias elementais.
         -- So como os magos invocadores? -- perguntou a mulher,  traumtica lembrana de
sua estadia em Babel.
         -- No como eles. Ns nunca seramos mgicos, porque a magia provm da fora da
alma, a alma que nunca tivemos. Nossos poderes, aos quais chamamos divindades, nascem da
potncia de nossa aura pulsante, uma energia suprema que  o sopro essencial dos anglicos.
         -- Se so espritos, pura e simplesmente, como se manifestam na terra?
         Parecia bvio que o lar dos espritos fosse o plano astral, e s ele.
         -- Diferentemente da maioria das entidades astrais e etreas, os anjos so capazes de se
materializar no plano fsico. Para isso, formamos um avatar, um invlucro carnal com o qual
agimos atravs do tecido. Mas os anjos renegados, como eu, foram amaldioados e presos para
sempre ao corpo material. No podemos mais dissipar nosso avatar e regressar ao mundo
espiritual, muito menos voltar ao paraso.
         --Alguns sacerdotes, em Cana, contavam histrias sobre anjos cados, terrveis
monstros que se escondem na sombra do infinito.
         -- Os anjos cados e os anjos renegados so dois grupos diferentes. Os cados
protagonizaram uma verdadeira guerra no cu, e por sua crueldade foram atirados ao Sheol, um
lugar de horror e sofrimento, uma dimenso obscura. Hoje, so demnios do desespero,
eternamente agarrados ao mesmo dio que os derrubou.
         Quando o sol finalmente desceu, todo o calor foi embora com de, e Shamira preferiu
retornar  caverna, pouco confortada com os glidos vencos da altitude. Ali ficaram acordados
por mais algum tempo, e a moa discorreu sobre sua histria de vida, sobre sua iniciao
mgica em En-Dor e sobre a linhagem de sua famlia, que chegara ao Oriente fugindo de uma
guerra fratricida que agitara o Mediterrneo havia trezentos anos.
         Cerca da meia-noite, a fogueira morreu, e o sono apertou, Shamira no resistiu ao
chamado da noite e adormeceu profundamente, encoberta pelos remendos de l.
         Ablon retomou sua viglia na entrada da gruta, mas no temia o ataque de guardas ou
feiticeiros.
         Com efeito, seus inimigos eram bem mais pavorosos.


                                GLOSAS SOBRE A CRIAO
        Na manha seguinte, Shamira despertou agitada, O sono fora interrompido vrias vezes,
 repetio do mesmo pesadelo, que recordava zigurates, masmorras, feiticeiros e deusas
aprisionadas em calabouos de pedra. Volta e meia ela abria os olhos nas trevas, atnita, mas a
presena sbria do celeste acalmava-lhe o corao. Ablon era como um falco protetor, uma ave
de rapina que defende seu ninho, sempre alerta. Agachado na entrada da gruta, ele no se
cansava, no se movia, no vacilava, nunca dormia.
        Antes de se levantar, a Feiticeira de En-Dor esticou-se no leito, ainda dolorida pelos
golpes que sofrera a caminho do crcere. Mais tarde, o renegado revelaria  moa o perodo de
seu torpor curativo. Desde o assalto no Mar de Rocha at sua primeira viso da caverna haviam
se passado duas semanas, tempo em que ela fora alimentada, exclusivamente, com extrato de
ervas -- um preparado esverdeado e pastoso, rico em vitaminas e minerais, e especialmente
indicado aos enfermos. Havia, na gruta, pelo menos vinte vasos de barro, com tampas e asas,
prios para a conservao de gua e comida, mas o suprimento no duraria para sempre, e a
necromante tremia ante a possibilidade de ter de escalar o rochedo.
        Foi durante o desjejum que o celestial contou sobre a existncia de uma fonte no topo
da montanha, cinquenta metros acima, na qual teria de repor o quanto antes o contedo dos
vasos. Ele a convidou a subir ao cume, de onde teriam ampla viso de todo o pas babilnico.
        --A nascente fica escondida entre duas pedras irms -- disse Ablon. -- Ela brota aos
pingos de uma fonte pequena e depois regressa ao ventre da rocha.
        -- Eu nunca conseguiria galgar o paredo, para cima ou para baixo -- resistiu a mulher.
--  muito ereto, impossvel de ser escalado, mesmo com um gancho nos ps.
         -- Posso lev-la comigo -- ele ofereceu.--J escalei muitas vezes esta montanha, e na
ltima ocasio eu a trouxe comigo.
         --  muito ngreme. Os apoios fsicos so mnimos.
         -- E como voc acha que chegou at aqui?
         -- No sei... -- ela se confundiu. -- Pensei que os anjos... sempre imaginei que os
celestes voassem como pssaros no cu.
         -- Durante a materializao, nossas asas so incorporadas  carne, desaparecendo
inteiramente no corpo fsico. Manifest-las  cansativo e doloroso, e pouco inteligente a um
fugitivo. Para todos os efeitos, sou um humano viajando pelo deserto, e no um alado.
         Antes do meio-dia, portanto, Shamira aceitou participar da empreitada, certa de que
aquele que a salvara no seria o mesmo a sacrificar sua vida ou a exp-la ao perigo
desnecessrio. Espantada, porm confiante, ela viu quando o general usou uma corda para at-la
s suas costas, como uma mochila viva. Prendeu outro cabo ao cinto de couro, ligando sua
extremidade s asas dos vasos, no interior da caverna, para que pudesse pux-los depois.
         Ento, acocorado no plat  sada da gruta, Ablon saltou para o vazio, como quem se
atira para a morte, e por um instante a feiticeira achou que despencaria nas rochas, com seu
salvador suicida. Mas o renegado havia pulado para cima e encravado os punhos em uma racha
minscula, invisvel a distncia. Dali, pendurado na encosta regular da montanha, foi subindo
feito uma aranha, aproveitando os raros apoios e produzindo fendas de suporte onde elas no
existiam, com seus dedos poderosos, capazes de perfurar o calcrio. Em certo momento, pulou
novamente, chegando a uma plataforma, quase no auge da elevao.
         A seguir, o caminho se aplainava em uma trilha, larga o bastante para um homem
passar. A passagem contornava a encosta e terminava no pico. L, no ponto mais alto da
montanha de Mashu, o caminho se abria em uma praa natural, cercada por megltos pontudos.
         Enquanto Ablon puxava os vasos, a necromante contemplou toda a terra. Tentou no
olhar para oeste, para a cidade maldita, mas a curiosidade a forou, e ela enxergou a silhueta da
terrvel Torre de Babel,
         -- No  um cenrio muito aprazvel, esse do oeste -- comentou o celestial, percebendo
o receio nos olhos da moa. -- Preferia que Enoque nunca tivesse sido arrasada. Seus
descendentes, os babilnicos, no tm a menor idia de quem foram seus antepassados.
         -- Mas eu pensei que todos ns, humanos, fssemos de alguma forma herdeiros dos
antigos homens de Nod -- argumentou a mulher.
         -- E so. Todas as etnias humanas provm de um mesmo ramo ancestral. Antes mesmo
da fundao de Enoque, nos tempos de Ado, os mortais se espalharam pelo mundo,
construindo povoados e vilas, algumas muito distantes da capital. Os babilnicos so os
herdeiros desse povo central, os sucessores dos cls fundamentais que decidiram no emigrar.
         -- E quanto  gente da legendria Atlntida?
         -- Os atlantes eram to humanos quanto os filhos de Nod, mas sua raa tinha origem
em um galho independente. De qualquer forma, nenhum deles sbreviveu ao dilvio.


        Shamira queria saber de tudo. Como feiticeira e estudiosa, no se cansava de perguntar
sobre os objetos mais variados, e muitas dessas questes nem o celeste era capaz de responder.
Mas Ablon no se aborrecia com isso. Ele admirava sua vivacidade humana, sua criatividade e
sua inteligncia, traos comuns  juventude.
        -- Conte-me tudo -- ela pediu. -- Fale-me sobre o universo, sobre as coisas que viu
enquanto vagava pela sombra do espao. Revele-me o aspecto de Deus.
        -- Mas eu sei muito pouco. S os arcanjos conhecem os verdadeiros mistrios do
cosmo. Sou s um guerreiro, um executor, ou pelo menos era...
        Mas, ao notar a decepo no rosto da necromante, o renegado emendou:
        -- Posso lhe contar o que sei, o que ouvi dos malakns, os anjos sbios que no Sexto
Cu e vivem para estudar os segredos antigos.
        A Feiticeira de En-Dor recostou-se na rocha, j fascinada pelo relato que seguiria. Um
vento agradvel soprava no alto, abrandando o calor da manh.
         -- Houve um tempo, muito anterior  aurora do universo, em que o infinito dividido em
duas provncias, a provncia das trevas e a provncia da luz. A escurido era ento governada
por uma divindade hedionda, Tehom, a deusa caos. Essa monstruosidade csmica era assistida
por diversos deuses menores, eles Behemot, o Horrendo, com sua lmina negra, e controlava a
maior parte do extenso vazio. Seu opositor era o deus da luz, o resplandecente Yahweh.
determinada ocasio, Yahweh e Tehom entraram em guerra.
         -- Um s deus, contra muitos?
         -- Para ajud-lo nesse combate, o Reluzente fez nascer os cinco arcanjos, seres de
poder fabuloso, que lutaram a seu lado contra os deuses das trevas. Yahweh e seus arautos
venceram o confronto, ao qual nos referimos como Baralhas Primevas, e lanaram ao inferno os
cadveres de seus inimigos. Com Tehom derrotada, o Pai Celestial assumiu as duas provncias,
comandando tanto a luz quanto as trevas e consagrando-se onipotente sobre todas as coisas.
Invencvel, ele teve tempo para iniciar a criao do universo. Com um estalo, o Altssimo deu
vida aos anjos, todos de uma vez, povoando o espao com as legies celestes. Depois, produziu
uma fagulha de luz e principiou a feitura do cosmo.
         -- E sobre Deus, o que sabe dele?
         -- S sentimentos e energia. O Senhor nunca foi acessvel, mesmo enquanto moldava o
infinito. S os arcanjos falavam com ele, e no creio que falassem muito. Yahweh era como um
pai ocupado, um progenitor que dava muita importncia ao seu trabalho. Mas podamos senti-lo
em nosso corao, e no fundo no estvamos sozinhos. Tolo  o filho que depende do pai, que
se apoia em sua segurana e desiste de desbravar o mundo por si.
         -- E depois, o que aconteceu?
         -- Ao correr de bilhes de anos, o Criador cultivou seu labor, dividindo seu projeto em
dias. Cada um desses dias sagrados corresponde a milhares de anos humanos. No primeiro dia
ele criou o cu, o sol e os primeiros astros do firmamento. Construiu uma mirade de luas e
planetas, at descobrir seu mundo perfeito. Por incontveis sculos, a terra foi o lar dos animais,
o canteiro dos anjos, at que, no fim do sexto dia, surgiram os homens, a maior de todas as
obras de Deus. Encantado pelo resultado final, Yahweh deu a eles uma alma, concluindo a
tarefa da criao. Ento, exausto e realizado, o Reluzente caiu em letargo. Voou at o Stimo
Cu, a seu santurio no topo do monte Tsafon, e ali adormeceu, deixando aos arcanjos o servio
de governar em seu nome. Terminou assim o sexto dia, e comeou o stimo, que persiste at
hoje.
         -- O stimo dia -- repetiu a mulher. -- E quando ser concludo?
         --  impossvel dizer. Os arcanjos, e tambm os malakins, sustentam que o Altssimo
despertar no futuro, para punir os injustos, e esse ser o tempo do Apocalipse, um evento
universal que encerrar o ltimo dia. Miguel, o Prncipe dos Anjos, detm, no pinculo de sua
fortaleza, em Sion, a Roda do Tempo, um artefato incrvel que marca, supostamente, a
continuidade do stimo dia. Quando seu ciclo estiver terminado, o Onipotente ressurgir e
instaurar um reino de paz. Mas isso  s previso.
         -- E voc? -- ela perguntou. -- Por que est aqui? Por que viaja por terra e no com
sua espcie no cu?
         Ablon fez uma pausa dramtica e fitou o brilho do sol, que agora j descia pela rota do
oeste. Substituiu os vasos na pia da fonte e sentou-se  frente da moa.
         -- Yahweh sempre foi muito dedicado  sua criao, o que entristecia os arcanjos, que
disputavam sua ateno. Ento, quando o Reluzente deu a alma ao homem, os arcanjos, e
tambm muitos anjos, se encheram de cimes e raiva. Assim, no instante em que o Altssimo
adormeceu, o prncipe Miguel iniciou sua poltica de destruio. Alegando falar em nome de
Deus, avisou que o Pai estava farto da crueldade humana e que decidira eliminar todo mortal da
face da terra. Comeou, com isso, a era das grandes catstrofes, dentre as quais a pior foi o
dilvio.
         -- A inundao que sepultou Enoque e Atlntida -- acompanhou a feiticeira.
         -- O cataclismo indignou metade do paraso, mas os anjos ainda no estavam
preparados para reagir nem para desafiar a autoridade do Monarca Alado. Por isso, decidi
articular uma conjurao.
         -- Voc? -- surpreendeu-se Shamira. -- Achei que fosse s um guerreiro.
         --  no exrcito que reside o poder das revolues, mas sua surpresa  justificvel. Eu
era um general, um lder militar consagrado, mas subordinado ao chefe de minha casta e
logicamente aos arcanjos tambm. Sozinho, seria esmagado.
         -- E o que resolveu fazer?
         -- Formei um crculo de conjurados, todos eles confiveis, composto por dezoito
querubins, que no me trairiam jamais. Contudo, precisava de apoio contra o enfadonho Miguel,
e para isso recorri a outro arcanjo.
         -- E quem era ele?
         -- Lcifer, a Estrela da Manh. Ainda que fosse um arcanjo, Lcifer sempre se mostrou
favorvel  causa humana, mesmo que s para desafiar seu irmo. Ele era o nico que tinha
poder para debelar o Prncipe Celestial e era perfeito ao quadro da conjurao.
         -- Qual foi a resposta dele?
         -- Ele aceitou o meu plano, e achei que juntos poderamos pr fim s hecatombes e
talvez despojar o tirano. Mas nem tudo correu como esperado. Sculos depois do dilvio, os
homens voltaram a se multiplicar, o que enfureceu sobremaneira o ditador. Sua fria caiu,
ento, sobre a cidade de Sodoma, um terreno que prosperava e crescia. Miguel resolveu devastar
o lugar e convocou todos os anjos para uma assemblia, com o intuito de anunciar sua deciso.
Aps um demorado discurso, confirmou o extermnio no s de Sodoma, mas de todas as
cidades na vastido da plancie. Irritados, eu os conjurados levantamos a palavra, e tudo no
teria passado de discusso se o ardiloso Lcifer no tivesse nos delatado. Ali, diante do
conselho, o Arcanjo Sombrio nos traiu, revelou a conjurao, e ento pegamos em armas. Uma
luta violenta se sucedeu, at que os pilares do paraso racharam, e despencamos. Fantstico e
insupervel  o poder do sinistro Miguel; ele nos amaldioou, condenando-nos  pior sentena
que poderia ser dada aos celestiais. Ele nos encarcerou em nosso corpo fsico e nos expulsou
para a terra. E assim fomos relegados ao plano material.
         -- Mas por que Lcifer preferiu tra-los, se era Miguel o seu verdadeiro inimigo?
         -- A Estrela da Manh no desejava nossa aliana. Ele no se preocupava
verdadeiramente com a preservao da humanidade, mas s em contrariar o tirano. Almejava
tomar o trono e depois ascender acima do prprio Deus, firmando seu palcio emTsafon, o
Monte da Congregao.
         --  difcil concluir qual dos dois  pior, um ditador assassino ou um vilo ardiloso.
         -- Delatar a conjurao deu a Lcifer influncia e prestgio, poder que ele usou para
arquitetar sua prpria revoluo. Atraiu milhes a seu lado, prometendo um governo de paz e o
fim da tirania. Alguns anjos bons aderiram  sua revolta, desiludidos com o ministrio do
prncipe. Pouco tempo depois do expurgo dos dezoito renegados, uma guerra sangrenta agitou o
paraso, mas a rebelio foi derrotada. O Diabo e seus anjos foram lanados ao Sheol, uma
dimenso escura e funesta, e ali permanecem como demnios do desespero.
         -- Como soube de tudo isso, se j no frequentava o cu  poca da batalha?
         -- Por Orion, um anjo cado que aceitou, erroneamente, os termos da revoluo.
ramos amigos nos dias da velha Adntida, e ele subiu do inferno para me procurar. Falou-me
sobre a guerra, e disse-me tambm que Lcifer pusera toda a culpa de sua derrota nos
renegados, que teriam sido o incio de tudo.
         -- A corda sempre arrebenta do lado mais fraco.
         -- Orion veio me avisar que a Estrela da Manh designara caadores para nos acossar.
E, por uma detestvel ironia, Miguel, no cu, fizera o mesmo, sustentando que a conjurao
semeara o fruto da revoluo. Embora nunca tenhamos tido nada a ver com a insurreio de
Lcifer, ambos os lados precisavam encontrar um alvo para descarregar sua raiva. J prevendo a
perseguio, ns, os renegados, preferimos nos separar e nos espalhar pelo mundo.
         -- Uma deciso arriscada.
         -- Logo que chegamos  terra, fomos ao nico lugar que conhecamos: Enoque, ento
uma runa submersa no deserto de Nod, povoada pelos fantasmas daqueles que morreram na
devastao do dilvio. L, a Irmandade dos Renegados ficou oculta por sculos, estudando as
obras de arte, a arquitetura e os imentos humanos. E no fim desse perodo de exlio, resolvemos
partir solitrios, porque juntos seramos achados e mortos de uma s vez.
         -- E o que o trouxe  Babilnia, afinal?
         -- Meu encontro com Orion aconteceu depois da dissoluo da irmandade, quando eu
vagava sozinho pelas pradarias sumrias. Agora,  minha misso reagrupar os fugitivos e alert-
los para o perigo que correm.
         -- E voc j encontrou algum deles?
         -- Um dia, durante minhas andanas pelas margens do Tigre, percebi um tremor no
tecido da realidade.  uma tcnica conhecida pelos celestiais a prtica de enviar mensagens
atravs da membrana. Com efeito, era um alarme, um pedido de socorro, um sinal lanado por
uma querubim renegada: a guerreira Ishtar.
         Ishtar!
         Shamira empalideceu. Seria aquela a mesma Ishtar de Babel? A deusa que ela vira
aprisionada no calabouo de pedra, a entidade alada, encarcerada nas masmorras do zigurate? E
se fosse? Deveria a feiticeira revelar o segredo ou omit-lo pela segurana do general? Poderia
Ablon penetrar na capital babilnica, vencer seu exrcito armado e derrotar o Imortal e seu
conselheiro? Ela apostou no. Imaginou que, na cidade maldita, Zamir seria invencvel ao lado
do rei. No fosse assim, jamais teria capturado a deusa e a usado em suas cerimnias nefastas.
         -- O que foi? -- reparou o general, e o sangue da moa gelou.
         -- De repente, eu me vi jogada de volta ao pesadelo -- ela disfarou, decidida arriscar a
vida do amigo. -- Conte-me o que aconteceu em seguida -- esquivou-se.
         -- A mensagem sugeria que Ishtar havia descoberto alguma coisa bem grande, assunto
que requeria minha imediata ateno. Farejei o seu rastro por toda a Mesopotmia, e minha
busca me levou ao Mar de Rocha -- ele apontou a sudoeste, indicando o labirinto rochoso. --
Mas cheguei l muito tarde. Em meio aos rochedos, avistei a lutadora em combate com uma
criatura incrvel, um tenebroso anjo de asas negras. Sua aura era confusa, conspurcada, e um
elmo metlico cobria-lhe a face. Eu no sabia se era demnio ou anjo, mas, percebendo que no
alcanaria a montanha a tempo de salvar a celeste, atirei-me contra o paredo, e todo o morro
ruiu. No sei o que aconteceu aos duelistas, mas seria morta se eu no tivesse destrudo o monte
no instante preciso. Acho difcil que ela tenha perecido no desabamento, considerando sua
resistncia imortal. Desde ento, venho esquadrinhando o Mar de Rocha  sua procura, mas sem
sucesso. Minha hiptese  de que tenha rugido para o norte.
         Ishtar no morreu no colapso do morro, calculou Shamira. Talvez s tenha apagado, o
que, seguramente facilitou sua captura pelos babilnicos.
         Competncia ou oportunismo? O que teria, em verdade, permitido o aprisionamento da
deusa?
         -- Por que no viaja para o norte ento? -- arriscou a mulher, tentando afastar o
renegado da capital odiada e do mago que, provavelmente, poderia subjug-lo como fez com
Ishtar.
         -- Ainda no. O mais correto  esperar. Se a guerreira estiver por aqui, ela me achar.
         A feiticeira calou-se, esquecendo todas as questes que patrulhavam sua mente, 
exceo de uma, que no a abandonaria to cedo. Estava atnita. No sabia o que fazer ou que
movimento seguir para contornar o impasse. Se contassee a Ablon sobre sua viso pelos olhos
do rato, ele certamente invadiria Babel e morreria pelas lanas do exrcito, pela fora do Rei
Imortal e pelos feitios do bruxo. E se no contasse, ele possivelmente viveria, mas ela teria
trado a confiana de seu salvador.
         Na dvida, a necromante resolveu adiar o anncio.


         Ablon e Shamira continuaram juntos no topo da montanha at a noite cair. Abalada pela
revelao, ela no conseguia tirar a figura de Ishtar da cabea, agora que sabia quem era e como
fora levada ao zigurate.
         Antes mesmo de a lua nascer, o anjo e a feiticeira desceram  caverna, mas continuaram
a conversar sobre a capital babilnica, reparando nos estranhos hbitos de seus habitantes. O
renegado se mostrou consternado pelo sofrimento dos operrios, mas tinha por ideologia no
interferir no curso da histria.
        -- Os homens tm livre-arbtrio, que  um presente sagrado, e deveriam ser os nicos
responsveis por sua redeno ou por sua condenao -- explicou. -- Assim como o arcanjo
Miguel no tem o direito de massacr-los, eu no devo salv-los.
        -- Mas os renegados se levantaram justamente contra o assassnio da humanidade --
lembrou a feiticeira.
        -- A conjurao pretendia preservar os mortais da fria celeste, e no deles mesmos.
No somos deuses, mas anjos, e s podemos guiar os seres humanos, nunca empurr-los ao
caminho premeditado.
        -- E por qu?
        -- Porque essa  a vontade de Deus -- respondeu, simplesmente. -- Assim planejou
Yahweh, e ns, celestiais, somos o seu instrumento, os executores de suas ordens. E isso que
nos diferencia dos homens, que so livres de fato, e no esto presos a nenhum desgnio ou
ordem.
        Recuando ao fundo da gruta, a necromante se cobriu com uma manta de l e acendeu a
fogueira. Tomou um pouco de sopa e depois se deitou, acomodada no leito de palha.
        -- S tem uma coisa que eu ainda no entendi -- estendeu o general, antes que ela se
virasse na cama. -- Se Babel tem tantos escravos, por que eles no se revoltam?
        -- Os trabalhadores temem o rei Nimrod, que  imortal e no pode ser ferido por arma
alguma.
        -- Imortal? -- espantou-se o renegado. -- Ora, isso  impossvel.
        Shamira fechou os olhos e rolou para o lado.
        Dormiu muito pouco.




                                    ABLON E SHAMIRA
        A chegada do vero deixou o tempo um pouco mais mido. Nessa poca, o calor na
Mesopotmia castiga as montanhas, aquece o deserto, esquenta as plancies e faz borbulhar as
guas do Tigre, criando zonas sazonais de precipitao, que fertilizam o solo no leste.
        Por toda a primavera, a Torre de Babel no cessou suas obras, rasgando a paisagem e
instigando a j perturbada conscincia da Feiticeira de En-Dor. Ela no encontrou coragem para
revelar ao renegado a verdade, e agora j era tarde demais.
        Com o tempo, e apesar do dilema, Ablon e Shamira se tornaram amigos. Certo dia, ao
brilho derradeiro da tarde, os dois descansavam no plat da caverna, quando repararam na
sombra da torre.
        -- Est ficando maior a cada dia -- comentou o renegado. -- Deve ter mais de mil
metros agora. Em breve alcanar dois mil.
        -- Como? -- contestou a feiticeira. -- Se crescer mais, tudo desaba, O edifcio no tem
sustentao para suportar todos os andares abaixo. No sei como ainda fica de p.
        -- No  nenhum mistrio da mgica, mas uma proeza da engenharia. Nunca estive em
Babel, mas venho acompanhando a distncia o progresso da construo. Um lenol subterrneo
cruza a cidade, e seu volume de gua  imenso.
        --  o mesmo lenol que abastece os jardins do palcio -- ela recordou.
        --  um canal submerso do rio Eufrates. Depois de cortar as muralhas e o zigurate, a
torrente segue adiante. Os operrios cavaram fundo na terra at encontrar seu curso e ento
construram uma barragem, forando o rio a continuar fluindo, mas para cima.
        -- Para cima?
        -- No centro da Torre de Babel h um gigantesco cilindro de ferro, um cano vertical de
largo calibre. O canal corre por dentro dele, e sua presso  to forte que mantm o tubo reto.
Para sustentar o equilbrio, minsculas comportas deixam a gua escapar em direes
estratgicas, criando uma coluna de apoio, que suporta a estrutura central.
        --  incrvel. Assim podero continuar trabalhando infinitamente.
        -- Ambio. Nesse ponto, anjos, demnios e homens compartilham da mesma maldade.
        E ali ficaram, na plataforma da gruta, at que as estrelas nasceram e o frio apertou.
Eram to diferentes -- o celestial e a terrena -- e ao mesmo tempo to parecidos. Ambos
fugiram da opresso e descobriram por si os prprios valores. No procuravam a guerra, o dio
ou a dor. S desejavam a paz, mas suas trajetrias os lanaram  violncia, a uma vida de
aventuras que, embora excitante, nada tinha de agradvel.
        O vento soprou nas alturas, e os dois se abraaram num instinto humano.
        Nenhum deles jamais esqueceu aquele momento.


                                      MISSO DIVINA

         Depois do primeiro ms de vero, o calor aumentou. A caverna ficava a muitos metros
do solo, e a altitude refrescava a manh, mas ao meio-dia nem a gruta escapava do sol. Assim,
em uma tarde escaldante de julho, o anjo e a feiticeira decidiram excursionar at as margens do
Tigre. A caminhada seria longa, mas Shamira precisava andar, e o querubim saberia gui-la.
Eles j tinham escalado a montanha algumas vezes e reposto a gua dos jarros, mas agora era a
comida que terminava nos vasos.
         Com fios de corda, Ablon improvisou uma rede de pesca e depois costurou muitos
metros de pele de carneiro esticada, preparando uma larga sacola, dentro da qual guardaria os
vveres. Buscariam peixe, palmito, roms e talvez um pouco de carne para incrementar a dieta.
Os celestiais no precisam comer, mas o general sempre degustava as receitas da moa, j que
as suas eram quase intragveis.
         Pela primeira vez em muitas semanas, Shamira pisou o cho de areia, e juntos, eles
viajaram na trilha do leste, na direo da faixa verde que fecundava a margem do rio. Dois dias
depois, j avistavam raposas, gazelas, lontras, falces mhas, alm de vrios tipos de rvores
frutferas e um bosque de tamareiras. Arbustos esparsos surgiram da terra, at que o cenrio se
esticou em um tapete de relva.
         Alguns casebres se levantavam ao sul, tristes propriedades de fazendeiros roubados
condenados  misria pelos impostos reais. A cada dois meses, Nimrod os buscadores aos
recantos distantes do imprio, para oprimir os camponeses e executar os rebeldes. A
possibilidade de os viajantes encontrarem patrulhas armadas era grande, mas o renegado no
temia os batedores.
         -- Os babilnicos passaram por aqu faz cinco dias -- ele notou, tateando as pegadas na
grama. -- Vieram com uma comitiva e carregavam uma liteira pesada.
         -- Eles viajam muito rpido, mesmo a p -- concordou a mulher.
         -- A Coroa dispe de uma trilha secreta, que passa por dentro da terra. Eu j vi o
caminho do alto, mas nunca estive nele de fato.
         -- Um tnel subterrneo que atravessa o pas? -- ela estranhou.
         -- No um tnel, mas uma vala, uma estrada afundada. Eu no saberia precisar os
detalhes nem dizer como foi construda.
         -- E por que voc nunca usou essas rotas? Devem ser a passagem mais rpida aos
rinces da Babilnia.
         -- Nunca quis topar com um batalho. Os buscadores esto sempre a cavalgar pela via
oculta, acompanhados por seu squito de combatentes.
         -- Achei que fosse praticamente invencvel -- rebateu a feiticeira.
         O renegado sorriu, em sua modstia habitual. A maioria dos anjos  superior aos
terrenos comuns, mental e fisicamente, mesmo materializados em seus avatares, e a necromante
no se esquecera da luta no Mar de Rocha, quando seu salvador aturdira os guardas com um
nico assalto preciso.
         -- No sou invencvel. Se fosse, no teria sido expulso do cu.
         -- Mas tem resistido a seus assassinos.
         -- No sei por quanto tempo. Logo um caador me achar como achou a guerreira
Ishtar. E no posso recuar ao combate.
         Seu orgulho  to mortfero assim? -- instigou a mulher, entristecida pela soberba do
amigo.
         -- Isso no tem nada a ver com orgulho. Sou um querubim, um guardio e um
predador. Essa  a minha natureza -- repetiu.
         Ablon e Shamira j tinham conversado um bocado sobre o livre-arbtrio dos homens e
sobre a natureza invarivel dos celestiais, mas ela ainda no se conformara com o impulso do
lutador, talvez porque fosse humana, e os humanos no padecem de uma vontade constante.
         -- E quanto ao receio da morte? -- ela insistiu.
         -- Para um soldado, a morte  s o fim da misso.
         -- E o que voc teme, ento, general? Ou so os alados tambm imunes a toda falha do
esprito?
         O renegado parou sobre a relva e tocou o rosto da moa.
         -- Esquecer -- disse ele, acariciando sua pele macia. -- Esquecer as coisas pelas quais
passei, as lies que aprendi, esquecer aqueles que amo. E, acima de tudo, temo esquecer meus
valores, perder minha ideologia e matar minha causa.
         A necromante engoliu um soluo e desviou o olhar. Entendeu, s ento, que seria muito
egosta se tentasse desvi-lo de sua misso, uma demanda que certamente o levaria  morte, mas
que salvaria sua causa.
         Essa  geralmente a escolha dos verdadeiros heris, e Shamira no poderia det-lo.
         Sozinha, chorou em silncio.


         Os dois andarilhos montaram acampamento a uns duzentos metros da margem do rio,
esticando mantas na grama. Dali em diante, o campo virava um charco, um pntano lodoso que
se estendia at a orla do Tigre.
         A tarde j ia findando, e eles resolveram descansar apesar dos insetos, cozinhar alguma
coisa e levantar bem cedo no dia seguinte, para pescar e recolher alimento. Shamira usou
algumas pedras para delinear a fogueira e queimou um punhado de ervas exticas para afastar
os mosquitos. Juntou uma pasta heterognea de razes estranhas e ensinou ao renegado um
preparado secreto, capaz de conservar a matria orgnica por anos, preservando couro, papel e
tecidos. A frmula fora desenvolvida pela antiga Ordem de Sippar, uma confraria de magos
extinta havia sculos.
         Naquela mesma noite, enquanto a feiticeira dormia, Ablon sentou-se sobre uma pedra
redonda e mergulhou em profunda meditao. Os celestiais meditam com alguma frequncia,
para recordar lugares e situaes do passado, que do contrrio seriam esquecidos.
Diferentemente dos homens, os anjos vivem por milhares de anos, e nem todos so espertos
como os malakins, cuja mente no esmorece jamais.
         Antes mesmo do alvorecer, no dia seguinte, os viajantes venceram o charco e atingiram
as guas serenas do Tigre. Depois da caminhada, banharam-se na na refrescante corrente e ali
ficaram nadando ao sol por quase toda a manh.
         Ao meio-da, Shamira recolheu-se  praia, e Ablon lanou a rede de pesca  torrente,
onde o fluxo descia em queda. Estavam no paraso, realmenie, uma viso delirante e frtil,
cercada de vida e beleza, um stio agradvel na vastido deserto.
         -- Os sacerdotes em Cana nos ensinavam que os homens surgiram do barro --
comeou a feiticeira, rateando a terra molhada. -- Quando criana, eu ficava pensando se as
escrituras estavam corretas.
         -- O barro  metafrico -- explicou o general. -- Ele representa a carne, a matria
fsica, a substncia palpvel do universo concreto. O ser humano  parte de uma escala
evolutiva que se iniciou no mar, no quarto dia, e que deu incio ao nascimento de vrias
espcies.
         -- Mas voc disse que os terrenos foram criados por Deus.
         --A fora de Deus sempre esteve presente na evoluo. Ela  a energia essencial que
move o curso do infinito e o engrandecimento das coisas. Os clrigos costumam comparar o
trabalho de Yahweh com o labor da gente comum, para que possam compreend-lo. Mas o
ofcio de um marceneiro ou de um pescador no se equipara  potncia divina. A criao
movimentou energias supremas, misteriosas e invisveis.
         -- Ento, os documentos sagrados nada mais so do que velhas parbolas?
         --As parbolas no so desprezveis, mas representam o pice da comunicao humana.
Assim, cabe ao indivduo interpret-las. No h nada mais adequado raa dotada de livre
vontade, aberta a encontrar as prprias respostas. As ituras esto cheias de smbolos que ajudam
os homens a entender o sgnificado do cosmo. Mas a verdade perfeita s existe na mente de
cada um.
         -- E quem foram os nossos ancestrais, antes do surgimento de Ado?
         -- Uma espcie de homindeos que habitava a escurido das cavernas. Os anjos
desprezavam na poca, at que eles alcanaram o cimo da evoluo, e os concedeu uma alma,
instigando o cime dos perversos arcanjos.  por isso que muitos celestiais invejosos preferem
se referir aos mortais como bonecos de barro, ou primatas, uma aluso  sua origem material.
         -- E curioso pensar que um anjo nunca tenha visto a face de Deus -- ela comentou,
relembrando a conversa que tiveram no topo do morro.
         -- Mas isso  o que menos importa. Prefiro pensar nele como um conceito, uma
inspirao, um objetivo. Acho que a f  justamente a propriedade de acreditar no indecifrvel.
         Shamira conhecia bem a fora da f, porque era uma feiticeira, e nenhum encanto 
operado sem f. A energia de seus encantamentos provinha de sua alma humana, mas a alma 
tambm uma herana de Deus, um canal que liga os terrenos  potncia suprema. Os feitios,
prodgios e milagres agem todos atravs da essncia dos homens, a mesma essncia que os une
ao Altssimo e os conecta ao universo.




                     ZAMIR DESAPARECE -- BABILNIA EM CRISE

        Zamir desapareceu da corte babilnica em meados da primavera, depois que Nimrod o
havia enviado, juntamente com um peloto, para perseguir a Feiticeira de En-Dor. O
comandante da tropa, um homem de 50 anos chamado Nebron, relatou ao rei que a bruxa
escapara, mas nada avisou sobre a apario do andarilho. O ambicioso capito pusera a culpa do
fracasso na imprudncia do invocador, que os teria enviado na direao incorreta. Como Zamir
no regressara  capital, a verso militar foi aceita, e os soldados foram poupados da morte.
        Nas semanas que se seguiram, o Imortal ficou mais agressivo, visivelmente abalado
pela perda de seu conselheiro. Mas encontrou falso conforto na companhia dos demais
buscadores, que no passavam de sombras do mago, mas que de tudo fariam para assumir seu
lugar. Com isso, o palcio foi agitado por uma rede de traies e intrigas, que culminou com a
morte de diversos aristocratas. Assassinos contratados se esgueiravam pelos jardins, arriscando
vida para exterminar a de outrem.
        O Imprio Babilnico tremeu, mas Nimrod estava certo de que poderia suport-lo
sozinho. Segundo ele, nada nem ningum tinha o poder de enfrent-lo ou a seu exrcito. Havia
guardado o punhal mgico do feiticeiro, a nica arma capaz de rasgar a pele da deusa, e se fosse
preciso desceria sozinho ao calabouo para subtrair-lhe o sangue.
        Embora descontrolado, Nimrod era tambm precavido. No princpio do vero,
circularam rumores sobre a existncia de um "deus do deserto", que teria dado cabo do bruxo.
Logo, o rei voltou a interrogar os batedores e arrancou deles toda a verdade. O veterano Nebron
confessou que a tropa fora aturdida com um nico golpe e falou sobre o estrangeiro. Enfurecido,
o Imortal executou oficiais e soldados e ponderou sobre a natureza de seu inimigo. Como Ishtar
fora encontrada no Mar de Rocha, concluiu que o forasteiro era tambm uma entidade celeste,
s que mais poderosa. Entretanto, ele era um babilnico e no temia sequer a ira do
esplendoroso Yahweh.
        No fosse a tradio, que o impedia de deixar o zigurate a no ser em tempos de guerra,
Nimrod teria ido pessoalmente ao deserto, para desafiar o viajante. Mas aqueles eram dias
conturbados, e ele sabia que s a sua presena na capital uma revolta de escravos. Alm disso,
se sasse em campanha, uma guerra civil ameaava estourar entre os buscadores, que
disputariam  fora o cargo  direita do rei. Preferiu, ento, aguardar o assalto do "deus",
convencido de que certa hora ele viria vingar sua companheira. Resolveu manter a adaga de
Zamir consigo, j que era uma lmina enfeitiada, adequada para ferir qualquer divindade.
Sonhou com o combate por noites a fio e fantasiou proezas e feitos. J conquistara o mundo,
tornara-se imortal, e agora venceria um deus. Seu nome seria gravado em poemas, narrado em
lendas, e ele atingiria o cu, superando os anjos do paraso.
        No comeo de agosto, o segredo vazou, e a existncia do tal deus do deserto passou a
ser aceita como verdade pelos escravos, alimentando suas esperanas e revivificando a causa
dos operrios rebeldes, liderados por Kumarbi, o Alto. Um perigo externo certamente facilitaria
a insurreio, contando que o rei deixasse a metrpole. O imprevisvel sumio do feiticeiro era
igualmente animador aos conspiradores. Zamir era o crebro por trs do trono, a inteligncia
que lentava a cidade.
        No terceiro ms do vero, um novo e perturbador boato assustou a realeza. Murmurava-
se nas ruas que Zamir havia retornado a Babel, disfarado, e que planejava uma desforra terrvel
contra aqueles que tentaram ocupar sua posio. Os buscadores repudiaram a idia, mas  noite
nenhum deles dormia direito.
        As semanas correram, e Nimrod se afastou de tudo e de todos, isolando-se no pinculo
da Pirmide de Prata. L do alto, em seu trono dourado, s fitava o horizonte, como que 
espera de algo.


         Ablon e Shamira tinham agora gua e comida para todo o vero e no precisariam mais
descer  plancie. Juntos, continuaram a estudar, um com o outro, os sedutores segredos do
cosmo. A feiticeira ensinou ao Anjo Renegado muitos costumes humanos, como tambm a arte
da medicina e da culinria, e ele discorreu sobre a dimenso celestial, e sobre os planos alm.
Formavam uma dupla extraordinria, cada qual com suas habilidades fantsticas. O querubim
era um perito em combate, resistente e veloz, e a necromante, uma mestra da mgica.
         -- Voc tem o dom -- elogiou o general, em meio a uma conversa comum. -- E a
melhor feiticeira que j conheci. E conheci muitos sbios c msticos.
         -- Muitos? Pensei que fssemos poucos neste mundo deserto.
         -- Agora so. Mas isso foi h muito tempo, antes da submerso da Atlntida. Naquele
tempo, a magia fazia parte do dia a dia. Quase nada era feito sem mgica.
         -- Deviam ser tempos felizes. Mas como a feitiaria pde se perder to intensamente?
         -- No tenho certeza. No conheo muito sobre a histria das confrarias, mas
provavelmente a extino dos sensitivos tem a ver com a dilatao do tecido.
         -- O tecido da realidade -- considerou a feiticeira. -- A membrana que separa os dois
mundos.
         -- Qualquer efeito mstico produzido na realidade mundana  dragado dos planos alm.
A energia dos encantos dos magos provm de sua alma humana, que reside no plano astral. A
potncia das divindades dos anjos dimana de sua aura pulsante. Assim, os feitios devem
atravessar a pelcula para ser lanados aqui, no mundo fsico. Quanto mais grosso o tecido, mais
difcil  a mgica. Antes do dilvio a membrana era muito mais fina. Hoje, s os humanos mais
dotados podem manipular as foras incrveis.
         -- Mas por que o tecido da realidade se adensou tanto?
         -- No sei, mais uma vez s posso supor. O tecido, segundo os malakins,  formado
pela conscincia coletiva da humanidade.  uma defesa inconsciente dos homens a tudo aquilo
que no podem compreender e tampouco afrontar. Nasceu quando o primeiro terreno, Ado,
tomou razo de quem era e passou a questionar a natureza do universo. Desde ento, as pessoas
vm criando explicaes lgicas para tudo o que vem, costurando uma membrana psquica
entre aquilo que consideram real e o que julgam onrico. E essa fora humana  to exuberante
que foi mesmo capaz de dividir o espao e segmentar as duas realidades: os mundos fsico e
espiritual.
         -- Ainda que eu conhea bem a fronteira dos mortos, a teoria no deixa de ser
complicada -- reconheceu Shamira. -- E tudo muito abstrato.
         -- Certas coisas no devem ser racionalizadas. Muitas delas continuam obscuras aos
anjos tambm, que tm um contato muito mais prximo com o infinito.
         As lendas a respeito de Atlntida sempre despertaram a ateno de Shamira, embora
tratadas com certo ceticismo at mesmo pelos sacerdotes de Cana, que aos poucos viriam a
exclu-las dos documentos sagrados. A Feiticeira de En-Dor gostava de pensar em como seriam
os atlantes, um povo justo, avanado e belo. Toda a magia que resta no mundo descende das
migalhas rudas da antiga Enoque, um conhecimento minsculo se comparado ao esplendor
integral de outrora.


         -- Voc j esteve em Atlntida, que hoje  a utopia dos homens. Fale-me da fora que
eles detinham, que tanto inspira os mais lindos sonhos.
         Mas Ablon nada contou, recuando ao fundo da gruta.
         -- O que foi? -- a moa perguntou, embaraada pela atitude do amigo.
         -- Shamira, preciso partir -- declarou, sem rodeios. -- Devo dar continuidade a minha
misso e reagrupar os renegados. Irei embora no fim do vero.
         -- Bom... -- ela murmurou, meio sem graa. -- Eu posso ir com voc.
         O general balanou a cabea e a encarou seriamente.
         -- Receio que no v querer me acompanhar.
         -- Por qu? -- reagiu a necromante, no impulso da inocncia.
         -- Porque... -- ele hesitou. -- Porque vou para Babel.
         -- No -- ela suplicou, aos lampejos da lembrana traumtica.
         -- Babel  a capital do mundo.  para onde convergem todas as informaes. Outros
fugitivos podem ter passado por l.
         -- A cidade  perigosa. O rei... -- a feiticeira engasgou, ainda sem saber se deveria
revelar o cativeiro de Ishtar.
         -- Posso me mesclar aos mortais. J aprendi a ocultar as emanaes de minha aura
pulsante. Nenhum caador me descobrir em Babel.
         --Voc pode voltar comigo para Cana. Jeric tambm  uma localidade importante, o
centro comercial do Ocidente.
         -- Cana est na regio de Sion, um territrio patrulhado pelos celestiais. L, no plano
etreo, fica a maior de todas as bases do arcanjo Miguel, a Fortaleza de Sion, guardada por mais
de dez mil legies. Mesmo viajando pelo mundo material, os alados me achariam, e quem sou
eu para confrontar um exrcito? Seguir para oeste j  arriscado, quanto mais atravessar o mar
Morto...
         A Feiticeira de En-Dor escondeu o rosto e enxugou os olhos molhados.
         -- Muito bem -- conformou-se, e se afastou. No queria alongar a conversa, porque
no tinha mais argumentos. Restava ainda um ms para o fim da cstao, um ms inteiro em que
eles conviveriam na gruta.
         Durante esse tempo, Shamira esperava convencer Ablon a mudar de idia.
         Pelo menos, era com isso que contava.


                                     FRIA VERMELHA

        Para Shamira, as ltimas semanas do vero passaram como areia em uma ampulheta.
Vivia atormentada pela dor da conscincia. No imaginava qual seria a reao de Ablon ao
anncio do aprisionamento da deusa, nem gostava muito de pensar sobre isso. Diante do
impasse, relembrou as palavras do lutador sobre o livre-arbtrio dos homens e ponderou se a
liberdade era mesmo uma ddiva. Melhor seria se tivesse uma natureza exata, que falasse por
suas aes, mas o fato  que a vida humana  feita de escolhas, e algumas delas no podem ser
evitadas -- e geralmente  melhor que no sejam.
        Ento, no ltimo dia de agosto, o anjo e a feiticeira amarraram suas trouxas e se
prepararam para abandonar a montanha. A necromante levava suprimentos para sobreviver no
deserto e uma pepita de ouro encontrada no Tigre, com a qual pretendia comprar um cavalo na
aldeia mais prxima. O Anjo Renegado, por sua vez, carregava somente a espada, presa s
costas por um cinto de couro. Embrulhada em tecido sedoso, a arma viajava escondida,
disfarada de vara ou basto.
        At metade da jornada, Ablon e Shamira tomaram o mesmo caminho, uma trilha estril
que culminava na falda do Eufrates, o rio limtrofe a oeste da Babilnia. Dali, o guerreiro se
voltaria ao sul,  cidade maldita, e a necromante continuaria direto pelo deserto fechado, at
alcanar as fronteiras de sua terra natal.
        A orla do Eufrates, a exemplo do Tigre, era frtil tambm, embora pouco alagada. A
gua do rio era distribuda em canais e avanava sem excesso s plantaes. Nos arredores,
fazendas cultivavam ervilha, cevada, lentilha e cebola. Um campo de relva e capim
acompanhava o curso do grande ribeiro, e nele pastavam bois, vacas, bodes e cabras. Mas a
paisagem rural era conspurcada pela sombra da torre, associada  violncia das muralhas de
ferro.
        O anjo e a necromante seguiram at a ponta de um ancoradouro e ali pararam,
aguardando a chegada de um fazendeiro qualquer que aceitasse transportar a mulher em sua
canoa ao custo de um metro de couro. J passava das trs horas da tarde, mas o tempo aberto
aguava o calor, refratando miragens disformes na linha do horizonte. Bem longe dali, no Mar
de Rocha, uma tempestade de areia nascia, revirando poeira nos vales minguados.
        Enquanto esperavam, os dois fugitivos se olharam de perto, e um calor formidvel os
tocou. Embora largamente temidos, respeitados por seus iguais, nenhum deles antes conhecera o
verdadeiro ardor da paixo. Ablon era um anjo, um guardio empenhado, e Shamira uma garota,
adolescente e imaculada.
        -- Ablon... Voc no deve ir a Babel -- tentou a mulher, pela ltima vez.
        -- Voc ainda insiste nisso? -- redarguiu o rebelde, certo de j ter superado a
persistncia da moa. -- Acha que ser fcil para mim? Detesto isso tanto como voc. Mas 
assim que tem de ser.
        -- Mas... -- gaguejou, a ponto de desmoronar novamente.
        Na expresso da feiticeira, ento, o renegado notou um tormento muito maior que a
simples dor da despedida.
        -- O que h com voc, feiticeira? Desde a primeira vez que conversamos sobre a
Babilnia voc se recolheu em palavras. Se h algum segredo que no tenha me contado, 
melhor deix-lo sair agora, antes que eu siga em jornada.
        Dito isso, a Feiticeira de En-Dor explodiu em lgrimas. O mistrio rua, naturalmente.
Shamira condenaria o amigo ao revelar toda a histria, mas larg-lo desprevenido em Babel
talvez fosse ainda mais perigoso. Em sua viso, Zamir continuava ativo no zigurate, na
companhia de Nimrod,  espreita de mais alados para suas cerimnias infaustas.
        -- Ishtar... -- ela balbuciou, derrubada em prantos.
        -- Ishtar? O que tem Ishtar? -- estranhou o celeste, afagando os negros fios da jovem.
        -- Ela... Ishtar  mantida prisioneira na Pirmide de Prata -- disparou. -- Nimrod a
capturou.
        -- O qu? -- rugiu o Anjo Renegado. -- Por que escondeu isso de mim?
        -- Eu... Eu... -- Shamira tremia. Queria provar ao querubim sua verdadeira inteno,
que nunca foi engan-lo. Estava determinada a preservar a vida dele,  o bem mais precioso
para os seres humanos, mas no para os celestiais.
        Com isso, viu crescer a fria no rosto do lutador. Toda. sua aura ferveu em dio
escaldante, e os olhos brilharam em fogo vermelho. A mulher teve medo do general, mesmo
sabendo que ele nunca seria capaz de machuc-la. De uma hora para outra, o mais sbio dos
andarilhos se converteu num assassino voraz.
        O renegado girou em direco  metrpole e deslizou irreconhecvel rumo ao deserto.
         -- Ablon! -- Shamira gritou, num ltimo mpeto de salv-lo. -- Milhares de homens
defendem os muros de Babel. E Nimrod... Nimrod... -- ela esgoelou-se mas o guerreiro no
desistiu, ento s restava o alerta:
         -- Voc ser morto!
         E assim, sem desviar de sua rota, Ablon retrucou:
         -- Para isso,  preciso muito mais do que um exrcito de barro -- e prosseguiu,
qual um leo em caada.


        Com a viso ainda turva pelas lgrimas, Shamira viu o Anjo Renegado desaparecer na
paisagem, como um jaguar faz para esconder o seu rastro. Enquanto isso, no Mar de Rocha, a
tempestade ganhava potncia.
        Est feito!
        Dali em diante, os dados estavam lanados, e os caminhos, traados. A Feiticeira de En-
Dor fizera o que julgava correto, apesar das consequncias -- e se sentia aliviada por isso.
Estava livre, afinal, do conflito que atordoava sua mente, mas ainda triste pelo rumo das coisas.
        Rumo?
        Quem disse que estava tudo acabado? Ainda no. Ela era uma necromante, uma mstica
experimentada, e tinha ainda alguns trunfos na manga. Encontraria um meio de salvar seu
amigo, e este seria seu teste final -- no uma prova de bruxaria ou um exame trivial de feitios,
mas uma etapa de raciocnio, um ensaio de imaginao porque  a que reside a verdadeira
natureza da mgica.
        A Feiticeira de En-Dor sentou-se prxima ao canal, entre as razes de uma figueira. O
calor decaa lentamente,  tnue aproximao da tormenta. Sorveu um gole do cantil e
descansou as mos nos joelhos.
        Para escapar do calabouo, Shamira fora ajudada por um escravo rebelde, um servidor
que dissera estar articulando uma insurreio. Esse conjurado, seguramente, era conhecido da
pequena Adnari, e juntando as peas a feiticeira concluiu que a menina participava, a seu modo,
dos interesses da rebelio. Estava claro tambm que era a presena de Nimrod em Babel que
inibia o levante dos operrios. Mas dentro em pouco um celestial atacaria a cidade, e sua ofen-
siva ocuparia toda a ateno do Rei Imortal. Enquanto o soberano e seu exrcito estivessem em
batalha, os escravos teriam a chance de estourar a revolta e quem sabe conquistar a vitria.
        Shamira decidiu, portanto, que era imperativo avisar  garota sobre a invaso do celeste.
Mas como a alcanaria antes do anjo guerreiro, se o zigurate era s um montculo reduzido na
imensido da plancie,  sombra da grande torre elevada?
         a primeira coisa que fazem os necromantes, no ? Vasculhara terra dos mortos?
        Sem mais esperar, a Feiticeira de En-Dor relaxou todo o corpo, esticou a coluna e
ampliou a mente. Os sentidos se apagaram, aos poucos, e ela foi lanada  percepo do alm.


                                  TEMPESTADE DE AREIA
         No quarto de um dos buscadores, em Babel, Adnari arrumava uma cesta de frutas,
enquanto outra menina, Mari, um pouco mais velha que ela, limpava e polia as bandejas de
ouro. Entardecia l fora, e no palcio os andares residenciais estavam vazios. Os aristocratas
haviam subido aos nveis superiores para trabalhar, e suas mulheres agora passeavam nas
avenidas, escoltadas pelos soldados reais.
         Uma rajada de vento irrompeu a janela. Mari, uma adolescente de pele marrom e fios
encrespados, desviou a ateno aos arcos de mrmore e depois correu o olhar  vastido do
deserto.
         -- Uma tempestade est vindo para c. Vai ser uma noite difcil para os trabalhadores
da torre.
         -- Tem algum aqui! -- percebeu Adnari.
         -- Aqui? -- sussurrou a amiga, vasculhando a sala vazia. -- Estamos sozinhas no
quarto.
        -- A Feiticeira de En-Dor. Ela voltou  cidade.
        -- Os portes esto sendo vigiados -- argumentou Mari. -- Como poderia alcanar o
palcio?
        Adnari no respondeu. Saiu correndo do dormitrio, dobrou o corredor principal,
desceu um lance de escadas, cruzou uma passagem arqueada, venceu tcantero interno e voltou
ao aposento dos escravos. Se fosse flagrada longe tarefas dirias, poderia ser executada sem
julgamento, porque era obrigao dos escravos servir, simplesmente, e nunca questionar. Adnari
conhecia o perigo, mas no era a primeira vez que se arriscava. Era ainda criana, destemida e
curiosa, e no tinha quase nada a perder.
        J os buscadores... Eles tinham um reino inteiro.


         O setor dos escravos, na Pirmide de Prata, em nada se comparava aos sales regulares.
Um corredor estreito terminava numa janela pequena, por on-iluz penetrava, difusa. Aos servos
no era permitido o uso de velas, tochas ou lamparinas, ento o lugar ficava escuro. Nas duas
paredes, do cho ao teto, pontilhavam pequenos nichos, usados como leito. De longe, pareciam
colmias, imprprias ao conforto humano.
         Adnari teve sorte e no topou com nenhum guarda no percurso. Subiu at sua cama e se
escondeu no buraco. Era uma sensitiva e havia notado uma presena espiritual muito forte no
quarto do buscador. Imaginou, logo de cara, que fosse a Feiticeira de En-Dor, j que Shamira
era a nica, na Babilnia, que dividia com ela aquele dom.
         Projetando a conscincia, Adnari rompeu o tecido e empurrou sua alma ao plano astral.
No espao do corredor, flutuando perto do teto, a garota viu a alma brilhante da feiticeira.
         -- Adnari... -- chamou a mulher, no curioso tremular do alm.
         -- Ento voc sobreviveu! -- exclamou a menina. -- Os buscadores disseram que tinha
morrido numa disputa mgica com o mago Zamir.
         -- Eu fui salva. Fui ajudada pelo deus do deserto.
         A garota franziu o cenho,  meno da misteriosa entidade. Ishtar era a nica divindade
cultuada na poca da Babel legendria, embora os buscadores reconhecessem a existncia de
dolos e heris estrangeiros -- e tambm do superior Yahweh.
         -- Foi ele quem matou o feiticeiro? -- interpelou Adnari.
         -- No... -- retrucou a necromante. -- Por qu? Zamir foi assassinado?
         -- Bom, desde sua fuga ele nunca mais apareceu no palcio. Mas,  claro, isso no quer
dizer que tenha sido morto.
         Como subestimar a inteligncia de um bruxo? Shamira sabia que os mstcos no davam
ponto sem n e que o conselheiro devia ter um bom motivo para no retornar  capital. Mas
agora isso no tinha importncia. A ausncia do invocador, talvez, facilitasse o assalto de
Ablon, mas no anulava o risco.
         --Adnari -- a feiticeira mudou de assunto e abordou o ponto central. -- Escute muito
bem agora, porque  urgente minha mensagem. H uma chance de libertar os escravos,
         -- Como?
         -- O deus do deserto. O deus que me amparou. Ele  o marido da deusa -- inventou,
para incrementar o impacto. -- E ficou furioso com o aprisionamento de sua esposa.
         A criana sorriu, silenciosa, e Shamira recordou o universo infantil -- to puro,
inocente e verdadeiro. Ela prpria fora menina, no havia muito tempo. Na aldeia de En-Dor, os
sensitivos eram treinados desde cedo no ramo da ne-cromancia. Na velha Cana, feiticeiros e
sacerdotes caminhavam juntos. Enquanto os magos estudavam a mgica e preparavam feitios,
os clrigos guardavam as escrituras, zelavam pelas tradies e ministravam os ritos.
         -- Em poucas horas, a cidade ser atacada! Invadida pelo deus do deserto -- continuou
a necromante. -- Voc, Adnari, precisa avisar aos outros escravos.
         -- Ns ansiamos por esta revolta, mas o rei aumentou o nmero de guardas nos portes
e duplicou a escolta dos buscadores. Colocou tambm uma linha extra de soldados fora das
muralhas, como uma primeira defesa aos invasores. E a deusa... -- ela se confundiu. -- Achei
que a deusa o protegesse.
         -- No! -- insistiu Shamira. -- A deusa foi capturada e forada a servir ao Imortal, o
que enfureceu seu marido. O deus, agora, enfrentar Nimrod, e durante o duelo os trabalhadores
podero principiar o levante. A torre deve ser evacuada e o zigurate tambm.
         -- Sei a quem avisar -- disse a pequena, mentalizando a figura de Kumarbi, o Alto,
chefe dos conspiradores. -- Graas aos rumores, todos a vem como uma bruxa poderosa, que
desafiou o insupervel Zamir. Direi aos insurgentes que fui visitada pela Feiticeira de En-Dor e
falarei do assalto.
         -- Mas voc precisa correr! A ofensiva vir com a tempestade, antes do pr do sol.
         -- A notcia vai se espalhar com o vento e correr com o turbilho.
         --  exceo dos escravos domsticos, todos os demais trabalharam presos icorrentes,
atrelados uns aos outros por grilhes apertados. To juntos, grudados pelo lavor, sua
comunicao era rpida e discreta, especialmente adaptada quela vida de sofrimento.
         E assim, na presso da urgncia, a menina voltou ao corpo fsico, e Shamira retrocedeu
 margem do Eufrates,  base da grande figueira. Quando abriu os olhos, viu a tormenta, cuja
potncia s aumentava. Um tufo revolvia poeira ao sul, assustando os animais e mergulhando o
deserto numa borrasca de areia.


         Nas casas piramidais dos cidados babilnicos, o vento apagou as lamparinas. A
temperatura caiu, e quando isso acontecia em pleno vero era sinal da chegada de um furaco ou
tornado. As tempestades no eram incomuns naquela poca do ano, especialmente as mais
fracas. Na maioria das vezes, os muros capital inibiam a entrada da areia, mas no raro os gros
deslizavam por cima dos portes e alcanavam as avenidas. Nessas ocasies, as famlias
abastadas se refuugiavam no interior de seus palacetes, deixando os servos nas ruas,  merc das
rajadas de p.
         No horizonte, o sol baixou. As cortess voltaram ao zigurate, e at os soldados
regressaram s suas guaritas, coladas aos muros, para escapar do tufo, deixando os escravos
desguarnecidos. Cerca de quatrocentos mil homens trabalhavam na torre, subindo e descendo os
infinitos andaimes. Eram figuras tristes, desprovidas de felicidade ou fortuna, que viviam dia a
dia  espera da morte. Mas, naquele dia, algo mudara. No rosto dos operrios, havia uma
reviravolta sutil, que o ar carregado ajudou a esconder dos feitores. Um sopro de esperana
lanado, aquecendo o corao dos aflitos.
         A notcia de que a cidade seria atacada correu feito epidemia e antecipou o sonho da
liberdade. Com tal urgncia em preparar o levante, nenhuma revolta poderia vingar, mas a
verdade  que a insurreio estava acertada havia meses, como um vrus silencioso que
carcomia o Imprio. Desesperados, os trabalhadores estavam preparados para desafiar seus
senhores e arrasar a Babilnia, mesmo desarmados.
         As correntes de ferro que prendiam os escravos eram, de fato, uma nica correia longa e
contnua, composta por sees, em que eram afixadas gargantilhas de bronze, feitas para fechar
os pescoos. Essa extensa correia estava atada a duas polias que giravam em seu eixo, como
gigantescas roldanas.
         Uma das polias encontrava-se no interior da torre, e a outra, uma coluna giratria de
cobre, estava instalada em uma das praas centrais. A corrente, presa s extremidades,
determinava um circuito fechado, percorrido pelos escravos, que comeava na torre, atravessava
a cidade, passava pela praa e retornava  torre. Geralmente, era nesses entroncamentos que os
operrios recebiam sua dose de gua e depois um pedao de po. Ora, no era preciso ser
engenheiro para entender que, se uma das polias fosse quebrada, o trajeto seria interrompido.
         Os revoltosos pretendiam desde o incio derrubar a coluna de cobre da praa, o que
daria aos trabalhadores a liberdade de movimento necessria  insurreio. Ainda estariam
presos pelo pescoo, mas a corrente era to comprida que eles poderiam ir de um canto a outro
da capital, lutar e mais tarde usar suas ferramentas para estourar os eixos metlicos.
         Derrubar a pilastra no seria difcil. Se todos puxassem o cabo de uma s vez, ele se
partiria to facilmente quanto um graveto seco de sndalo,
        O que era s aspirao, ento, floresceu de repente. Foi tudo to rpido que os guardas
no tiveram tempo de avaliar o perigo. As lonas da rebelio estavam de p. No momento
oportuno, uma trombeta vibraria na pirmide.
        Era o sinal combinado.


                   O DEUS DO DESERTO  A TROMBETA DE COBRE

         Uma guarnio composta por dez mil soldados, liderada pelo experiente comandante
Pazuno, patrulhava o exterior da cidade. A tropa estava espalhada ao redor das muralhas,
formando um anel defensivo alm dos portes. Parte dos militares circulava o permetro,
correndo em seus cavalos e charretes de guerra. Outros eram homens de infantaria, basicamente,
e trabalhavam parados, encarando o horizonte deserto.
         Logo atrs deles, os negros muros se levantavam, encimados por milhares de guardas,
sempre atentos no passadio. Das guaritas e torres, os capites organizavam os arqueiros,
separando-os em posio uniforme. Logo abaixo, j no rior da Babilnia, os treinadores
alimentavam os gigantescos mamutes, pobre animais em extino, que s serviam para fechar e
abrir os portes.
         O furaco engrossava, jogando areia ao cu. No firmamento, a refraco do poente
atravessava a poeira, colorindo a tarde de um vermelho pesado. Em p, sua biga de bronze, um
soldado reparou numa figura comum, que caminhou em direo ao porto principal. Todo
coberto por uma velha manta de pano, o andarilho no fazia medo a ningum. Mais parecia um
eremita perdido, viajante indefeso. Esse era, a propsito, o tipo de gente que os babilnicos
gostavam de importunar.
         -- Pare a, forasteiro! -- gritou o vigilante, apontando sua lana.
         O andarilho no fez meno de parar e prosseguiu, indiferente ao comando. Quanto
mais ele se aproximava, mais crescia em presena. De repente, e a cada passo, ele no parecia
mais to ordinrio, e ento o oficial recuou.
         Um outro guarda, mais destemido, vinha atrs, dirigindo sua prpria charete.
Determinado a impressionar seus colegas, ele saltou para fora do carro e correu de lana na
mo, para perfurar a barriga do recm-chegado. Tentou a estocada, mas o eremita desviou e
com habilidade impressionante agarrou o cabo da arma. Puxou forte sua haste e, como o
soldado se recusou a largar, foi jogado ao longe, expelido pela fora inumana.
         O capito Pazuno assumiu, ento, a dianteira do ataque. Decidiu no subestimar o
invasor, porque era um veterano e j escutara muitas histrias sobre magos e heris invencveis.
Pensando nisso, fez sinal aos guerreiros de elite e dois lutadores giraram suas bigas. Tomaram
distncia, prepararam as lanas e dispararam em carga. Nesse momento, o capito pressentiu
seu erro. De longe, vislumbrou o olhar do peregrino e avaliou sua coragem assassina. Tinha
rosto de homem, mas aspecto de predador. O semblante era como o de uma fera, mistura sinistra
de falco e pantera.
         Supostamente desarmado, o andarilho carregava nas costas um longo embrulho
delgado, curto demais para ser uma lana e muito grande se comparado s facas. Os babilnicos
no imaginavam que podia ser uma espada, pois no conheciam a manufatura das lminas
longas.
         As rodas dos carros se arrastaram, os cavalos explodiram em relinchos, e os dois
carreteiros avanaram contra a fora do vento. Foi ento que sucedeu o prodgio. Com uma s
pisada no cho, o estrangeiro fez o solo tremer. A vibrao desequilibrou os soldados, que
perderam as rdeas e tambm o impulso da carga. Uma das charretes tombou, e a outra,
desordenada, atropelou uma pedra, partindo o eixo no fundo do carro.
         O capuz do eremita escorregou, e todos enxergaram sua expresso enervada. Um terror
inexplicvel assaltou a guarnio, e o velho Pazuno no pensou duas vezes.
         -- Recuar! -- berrou aos vigilantes. -- Voltem para dentro da cidade, todos os
batalhes!
         Mas, de to espalhados  volta dos muros, muitos guardas no escutaram a ordem. Foi
quando o comandante soprou o berrante, e toda Babel se deu contai do ataque. No passadio, os
arqueiros pegaram suas setas, e as tropas do lado de fora convergiram s portas de acesso.
         -- Fechem os portes! -- bradou, o mestre da torre, e os treinadores chicotearam: os
mamutes, que com bramidos estridentes retesaram as correntes, cerrando aos poucos as sees
gigantescas.
         Em suas guaritas, os generais babilnicos respeitaram o alerta, mas no compreenderam
o desespero. No fosse a exigncia do rei, de reagir com toda a cautela a qualquer situao
anormal, teriam repudiado a "loucura" dos pelotes, que retrocediam  metrpole por todos os
cantos,  simples aproximao de um andarilho.
         O porto foi lacrado com uma batida metlica, que reverberou com intensidade
tremenda. Ablon parou diante da entrada principal e observou os dois dolos que cingiam a
porta. No alto da Pirmide de Prata, Nimrod ergueu-se do trono e afagou o pelo de seu tigre pr-
histrico.
         --  ele, sem dvida -- murmurou para si mesmo. -- O deus do deserto. Ser este o
ltimo combate, a batalha final entre mim, o maior de todos os homens, e o emissrio celeste.
Comea aqui uma nova era para a nao babilnica.
         Assim, finalmente, os generais entenderam o perigo e de suas torres comandaram os
arqueiros. O capito Pazuno chegou correndo ao passadio, exausto, e clamou aos soldados:
         -- Os tambores! Toquem os tambores! Puxem as flechas. Levantem as lanas.
         Comecem o ataque!
         Na torre e nas avenidas, os escravos perceberam a agitao dos soldados. Ento, os
rumores eram verdadeiros -- Babel estava sendo atacada!
         O estouro do levante estava muito prximo agora, mas eles continuaram a trabalhar,
martelando suas pedras e rodando a corrente. Logo, a insurreio explodiria num assalto
repentino, no exato instante do sinal combinado.
         No quinto andar da Pirmide de Prata, o ltimo anterior ao terrao do trono, uma sala de
pedra, estreita e longa, onde descansava uma alal -- espcie de trombeta de cobre, muito
grande, um objeto caracterstico da velha Mesopotmia, que produzia um som agudo fortssimo.
O rei Cush mandara construir essa cmara para servir como posto de alerta. Contudo, pouco
depois da inaugurao do palcio, os buscadores decidiram substituir a corneta por uma srie de
instrumentos de percusso e aloc-los no no zigurate, mas nas guaritas sobre as muralhas.
Desde ento, a sala estava abandonada, salvo por dois serviais que s vezes iam at l limpar a
poeira.
         Kumarbi, o Alto, um escravo jovem, corpulento, de personalidade forte e grande
carisma, fora poupado de trabalhar na torre por causa de seu privilegiado intelecto. Capturado
ainda menino, j sabia ler e escrever com preciso, e por isso assumiu o cargo de escriba oficial
dos buscadores. Suas cartas e documentos a intimidade da corte, desvendando histrias de
intriga, manobras, tratados comerciais, planos de guerra e projetos arquitetnicos. Confidente
dos palacianos, Kumarbi era o conspirador ideal, e no foi  toa que assumiu a dianteira da
revoluo.
         O Alto estava a postos desde o incio da tarde, quando Adnari lhe contara sobre a
apario da Feiticeira de En-Dor. Apesar da pouca idade, Adnari era uma garota prodgio, muito
esperta e perspicaz, por isso de nem pensou em desacredit-la. As suas viagens noturnas ao
"mundo sem cor" muitas vezes foram teis  rebelio, ajudando os conspiradores a descobrir os
segredos mais ocultos da Babel legendria. Adnari era uma espi por necessidade, embora no
reconhecesse muito bem sua funo e espiasse os mistrios sem nenhuma maldade. Entendendo
sua pureza, Kumarbi de tudo fazia para preserv-la, e nunca chegou a revelar, nem aos outros
insurgentes, quem era sua fonte principal.
         Quando o porto se fechou, juntando suas sees num estrondo terrvel, Kumarbi
compreendeu que precisava tocar a trombeta, sinal acertado para o estalar da revolta. To logo
seus amos saram, largou pena e papiro e deixou o escritrio -- uma sala arejada no quarto
nvel, onde geralmente eram redigidos os discursos polticos. Passou confiante por muitos
soldados, porque era um servidor conhecido e costumava circular por ali.
        Alcanou um aposento final, um salo construdo em vrias tonalidades de mrmore.
Era adornado por vasos enormes, de onde brotavam plantas pr-histricas -- algumas altas e
duras, outras coloridas e leves. O aposento, iluminado por altas janelas, fora por anos um ponto
de festas da realeza, onde a corte danava, se divertia e assassinava escravos por puro prazer.
        Kumarbi percorreu o espao vazio at a base de uma escadaria, a principal passagem s
salas do quinto andar. Dois guardas em armaduras defendiam a entrada, barrando o acesso.
        --Acha que vai aonde, escravo? -- rosnou um deles. -- Volte j para o seu chiqueiro.
        -- Tenho uma carta aos buscadores -- improvisou.
        -- Ento  s mostrar sua autorizao -- resolveu o segundo, mais srio. -- Sem ela,
nem o velho Ado subiria aqui.
        O Alto estendeu um rolo de papiro aos vigilantes, uma imitao feita por ele, s pressas,
no escritrio, sem o selo real. Era uma alternativa inverossmil, nada convincente, mas no tinha
outro pretexto.
        -- Esta porcaria  falsa! -- percebeu o guardio, sacando a faca comprida. -- Est
condenado, chacal!
        Mas Kumarbi, j esperando o ataque, tirou um punhal escondido e com ele perfurou a
garganta do guarda, num golpe surpresa. O homem caiu, sem reao, e seu sangue encobriu o
reflexo no mrmore.
        O segundo puxou a lana, mas o escravo j tinha corrido e agora sumia atravs do
umbral.
        Kumarbi disparou como nunca, sem pensar em mais nada. No viu ningum no
corredor, nenhuma sombra ou perigo, s caminhos sem foco, enevoados pela descarga de
adrenalina. No alucinante ritmo da emergncia, o Alto enxergou finalmente a entrada certa e a
corneta de cobre colada  janela. Deslizou dreto para a porta, mas ento seus reflexos falharam
por um segundo mortal. De repente, um soldado surgiu do escuro e manobrou sua lana para a
investida fatal.
        Uma dor aguda perfurou-lhe o corpo, e ele reparou que o arpo tinha atravessado o
pulmo, rasgado a pele e destroado a coluna. Kumarbi tombou, tal qual o guarda esfaqueado na
escada, e foi a que cresceu o tormento. O soldado puxou a arma, escorregando o fio para baixo,
e com a lmina veio um pedao do estmago, selando, para o ferido, todas as esperanas de
vida.
        -- O que vai fazer? -- ele escutou um homem dizer, mas a viso era turva. Esticou o
brao no cho,  procura da faca, mas os dedos encontraram s uma massa melada. Era uma
seo delgada de seu prprio intestino.
        -- Vou acabar logo com ele -- respondeu outro algum. -- Escravo imbecil. Ser que
no ouviu o alarme? Por que continuou aqui, como uma barata que vasculha o esgoto?
        -- No, no faa nada -- sugeriu o primeiro. -- Ele est quase morto. Deixe que
agonize. Agora, todos de volta a seus postos -- ordenou.
        Havia pelo menos dez guardas ali, embora o Alto no os distinguisse.
        -- H confuso nas muralhas.
        Assim, os guerreiros saram, alguns desapontados, e regressaram a suas posies,
naquele e noutros andares. Deitado, largado no piso, desamparado, Kumarb no sentia mais
dor, s o tenebroso calor dos espirros de sangue que precedem a completa frieza da morte.
        Flutuando entre a conscincia real e o sombrio abismo do extermnio, ele notou uma
vibrao suave no assoalho e escutou pegadas bem calculadas, tpicas de um escravo em
trabalho.
        -- Kumarbi! -- era a voz soluante de Adnari.
        --Adnar -- ele sibilou, ao toque afetuoso da pegada infantil.
        -- Eles o machucaram.
        -- Vou morrer, pequenina.
        A garota engoliu as palavras, em respeito ao falecimento do mrtir.
        -- A sala -- esforou-se o rebelde. -- A saa da trombeta. Voc deve so-la, Adnari.
Toda a gente est dependendo s disso. Conduza os escravos para fora daqui. Guie-os. Lidere-
os. Voc  a nica que pode comand-los e reviver o encanto das tribos.
         O Alto engasgou-se e cuspiu muito sangue. A hemorragia era fatal, inevitvel, e ele
fitou o vazio, antes de arriscar sua primeira -- e ltima -- profecia:
         -- A cidade de Babel no passar desta noite.


                                     No ABISMO DA IRA

         Nas muralhas, fez-se silncio completo por todo um minuto. Nenhum som. Nenhum
movimento. Nenhum suspiro. Ento, os tambores vibraram, mergulhando a cidade no prenncio
da guerra.
         BUM... BUM... BUM...
         No passadio, trs mil arqueiros apontaram as armas ao solitrio invasor. O capito
Pazuno, de brao erguido, aguardou uma trgua do vento. O estrangeiro estava de p, s a dez
passos do muro, mas a poeira era tanta que ningum o enxergava direito. A roupa marrom o
confundia com a terra, mas quem, mesmo oculto, suportaria uma saraivada de flechas?
         Seguiu-se um instante de pura tenso e depois o comando de ataque.
         Uma negra chuva de setas eclipsou o cu rosado, e a nuvem mortal encobriu o anjo
guerreiro. O assalto varreu toda a rea, e os soldados, em seus postos, escutaram o choque das
pontas perfurando o solo arenoso.
         O inimigo estava morto, com certeza. Ningum sobreviveria quela investida.
         Mas, quando as sentinelas descansaram os arcos, no avistaram o corpo do forasteiro,
apenas uma floresta de varas, pela metade, encravadas no cho. Para onde teria fugido? Como
desaparecera assim, instantaneamente, sob a vista de todos? Pazuno e os generais, em suas
torres, fitaram o deserto, confusos, procurando a carcaa do morto.
         O cadver... sumiu!
         E foi a, exatamente, que um berro agudo sacudiu a cidade, e os babilnicos tremeram
de susto. Pensaram que pudesse ser o grito de um monstro ou o lamento final do deus do
deserto... mas no. O brado era o sinal da corneta de cobre, a alai da Pirmide de Prata,
incitando os escravos  revolta.
         Pela primeira vez em dezenas de anos, as correntes pararam. Todos juntos, de uma s
vez, os escravos puxaram os cabos de ferro, e a coluna que os movia caiu, desfazendo o
percurso fechado.
         Imediatamente, como ao de reflexo, os arqueiros no passadio se viraram para o
interior de Babel, e enquanto isso, l fora, na base do porto, uma figura se elevava, inclume e
ainda mais ruriosa.
         Uma onda de vento e poeira jogou pedras ao longe, e de um buraco na areia surgiu uma
sombra alada, uma criatura de outrora, titnica, fenomenal. O corpo era essencialmente humano,
ou assim parecia, mas duas asas de anjo nasciam das costas, de penas brancas rajadas de sangue.
Os olhos brilhavam em brasa, e a presena era terrvel, quase diablica.  apario, alguns
guardas correram, mas outros continuaram firmes, estimulados pelo sabor das histrias antigas,
sobre o povo de Enoque, que desafiava os celestes em suas fortalezas de pedra.
         E assim, o Anjo Renegado voou, espargiu as penas e aterrissou sobre o passadio. Os
celestiais expurgados, preocupados em esconder sua natureza divina, quase nunca desprendiam
as asas, conservando-as sempre incorporadas s costas. Mas, no furor do combate, Ablon
esqueceu muitos princpios e agiu por instinto, procurando o caminho mais rpido ao corao da
metrpole. Nem mesmo ele poderia saltar cinquenta metros, e esta era, precisamente, a altura
dos muros.
         Sobre a mureta, apenas quatro soldados poderiam atac-lo por vez, dois de cada ado.
Uma fila dupla de homens se aproximava ao norte, certa de que, se o primeiro tombasse, o
seguinte daria continuidade ao golpe. Ao sul, um par de guerreiros, sozinhos, puxou suas facas,
e um deles atacou, mas o alado evitou a rasgada dobrando os joelhos. Levantou, um segundo
depois, e num giro chicoteou com a asa o peloto  esquerda, jogando todo mundo para trs.
Muitos largaram as armas e se agarraram ao anteparo, evitando a queda fetal.
        Os dois combatentes ameaaram o celeste com furadas de faco no ar. O mais jovem
deles, ento, tomou coragem e investiu novamente, para nova tentativa frustrada. Com uma
mo, o querubim bloqueou o assalto, c com a outra desferiu um soco potente, que destroou os
dentes e o nariz do terreno. O homem percebeu o impulso, e seu corpo voou, caindo inerte perto
do abismo.
        A linha dupla do norte refez formao e tornou a avanar. Desta vez, porm, Ablon no
esperou o embate, preferindo iniciar sua prpria sequncia. Revoou, sobre a tropa e desceu com
os dois ps no peito dos oficiais dianteiros, supostamente os lderes do peloto. Correu depois
pelo meio dos homens, evitanto cada ataque, cada pancada, e revidando tambm, com
movimentos to rpidos que incapacitavam os soldados. Logo, perto de mil babilnicos j
haviam sucumbido.
        Assim, Ablon chegou a uma grande guarita de esquina, no ponto exato onde a muralha
se virava para o oeste. Vinte arqueiros, incentivados por seus capites, surgiram nas janelas da
torre e miraram as setas. Dispararam com todo o vigor, o anjo bateu forte as asas, levantando
uma rajada de vento que desviou as pontas letais.
        Impressionados, os vigilantes retrocederam. Prepararam escadas e cordas para descer s
avenidas e ganhar campo aberto.
        Quando lanaram os cabos, porm, deram-se conta do alvoroo.
        Nas ruas, nas casas e mesmo no zigurate, uma multido de escravos sublevava o
exrcito, roubando-lhe todas as armas e lutando como ces furiosos. Tal qual um cordo de
formigas carnvoras, os trabalhadores evacuavam a torre e partiam, reforando a legio de
operrios.
        Mas e o Rei Imortal? Onde estava? Por que nada fazia? O que estaria aguardando?


         Nimrod continuava l, no alto do palcio, sentado no trono, observando o levante.
Conservava a tripla expresso, uma mistura obscura de orgulho, dio e satisfao.
         Ento, o deus ouviu meu chamado e aceitou o desafio -- pensou o monarca, puxando
pela coleira o tigre-dentes-de-sabre. A besta rosnava, excitada pela confuso e nervosa pelo
barulho.
         Os olhos irados de Ablon e os lunticos de Nimrod enfim se cruzaram, e o general
renegado distinguiu seu inimigo. Maldito porco de barro, refletiu o alado. Vou estourar seu
trono e lan-lo s profundezas da, terra, que  seu lugar. Arrasarei sua cidade e lhe
arrancarei o corao.
         Nas muralhas, os soldados entenderam a contenda e interromperam o ataque ao celeste.
De alguma forma, perceberam que aquela batalha era intil, e que o rei era o nico que, dali em
diante, poderia resolver o embate.
         O anjo decolou do anteparo no muro, desfraldou as asas rajadas, atravessou a cidade e
flutuou rumo  escadaria da Pirmide de Prata. Da base, subiu vo do, rasante aos degraus, e no
pinculo o Imortal libertou seu felino pr-histrico.
         -- Acabe com o invasor! -- ordenou ao animal. -- Mate-o! Engula-o! Aceitando o
comando, o tigre-dentes-de-sabre acelerou pela escada, mas quando chegou perto do choque, o
querubim arremeteu, e a fera passou reto por ele, indo morder um dos guardies babilnicos que
defendiam a rampa do zigurate. No queria machucar bicho algum, e, sinceramente, nem
mesmo os soldados. Desejava apenas vingar sua amiga e exterminar o Rei Imortal.
         Quando perceberam a invaso e avistaram a entidade em voo, todos -- escravos e
cidados, civis e militares -- congelaram os golpes, engoliram os gritos e pararam para assistir
ao confronto. O sol j havia se posto, e o furaco circulava Babel. No passadio, o capito
Pazuno, muito ferido, esbravejou aos treinadores
         -- Soltem os mamutes! Soltem os mamutes!
         Dali a seguir, sabia o capito, no havia muito mais esperana  nao. O levante j
tomava conta das ruas, os aristocratas estavam sendo dizimados, a torre estava vazia, e uma
divindade desafiava o soberano. E verdade que aqueles mamutes, os ltimos de sua raa, nunca
tinham lutado antes. Todavia, raciocinou Pazuno, ainda matariam muitos escravos, se jogados 
revelia nas avenidas.
         Os treinadores assim fizeram, e recolheram as portinholas, desligando as correntes. A
manada saiu pelos quarteires, correndo, derrubando homens com suas trombadas, atropelando
pessoas e demolindo paredes. Em sua marcha frentica, no distinguiam soldados ou escravos,
rebeldes ou legalistas, perversos ou justos.
         Ablon pousou no fastgio do trono, e Nmrod se levantou para encar-lo. A barba
tranada pingava de suor, e o capacete ogival protegia-lhe a cabea. Estava visualmente
desarmado e no carregava nem mesmo o cetro cravejado de joas que era duro, bom para
amassar em combate.
         --Voc veio! -- regozijou-se o monarca. -- Eu sabia que no resistiria ao chamado.
Estou aqui, pronto para liquid-lo -- desafiou, apontando os braos ao firmamento. -- Envie as
catstrofes. Mande as enfermidades. Lance todas as hecatombes. Ao contrrio de Enoque, Babel
resistir.
         Ablon teria achado graa, no estivesse to bravo. Nimrod era um louco, ignorante nos
assuntos antigos. Mesmo assim, havia certa ironia na situao.
         Ao mencionar os cataclismos, o rei seguramente se referia aos dias anteriores ao
dilvio. Ele citara os desastres, e no havia dvidas de que detestava os anjos, mais
precisamente os arcanjos. Nessa matria, o prncipe Miguel era o verdadeiro culpado, e no os
renegados, que se rebelaram justamente contra o assassinato dos homens!
         -- Ajoelhe-se! -- exigiu o governante, a confiana cega estampada no rosto. --
Ajoelhe-se perante Nimrod.
         -- Eu s me ajoelho perante Deus -- rebateu o general, cansado da arrogncia. Seus
ideais, por um minuto, fizeram-no hesitar, mas a ele se lembrou de Ishtar e extravasou sua ira.
         Com um murro poderoso, acertou o terreno, fazendo-o trombar contra o encosto do
trono. O apoio se quebrou, e o monarca estatelou-se na plataforma, com os escombros dourados.
Apesar das advertncias, Ablon nunca levara multo a srio as lendas sobre o Rei Imortal, por
isso achou que tivesse matado o sujeito, mas no. Num segundo, Nimrod estava colado no cho,
e noutro se levantava, to veloz quanto uma serpente faminta. Da bota, tirou uma faca, uma
adaga mgica -- o punhal de Zamir --, e golpeou.
         Mas seu adversrio no era um anjo comum, e sim um anjo guerreiro. O general
renegado pressentiu o perigo, com suas habilidades fantsticas, e se esquinou. O fio passou
muito perto, cortando duas penas rajadas, mas foi s isso. As plumas logo flutuaram, levadas
pelo vento fortssimo aos jardins mais abaixo.
         Fitando o instrumento de morte, capaz de dilacerar humanos e celestiais, Ablon esperou
nova investida, e quando Nimrod estocou, estendendo o golpe ao mximo, uma defesa precisa o
desarmou. Deslizando s costas do rei, o celestial prendeu-lhe o pescoo em um golpe do tipo
gravata.
         -- Sou imortal, abominao -- rugiu o soberano, quase sufocado. -- Nunca poder me
vencer. Deixe a minha cidade, eu ordeno!
         Imortal., o Rei Imortal... Agora, sim o discurso de Shamira fazia todo o sentido. Era
isso que ela tentava me dizer  margem ao rio... Nimrod,.. ele e seu feiticeiro... Nimrod e Zamir
capturaram Ishtar para beber-lhe o sangue. Um humano que prova o sangue de um anjo se torna
imortal, nunca envelhece, e raramente  ferido. O ritual era antigo e fora desenvolvido pelos
magos de Nod, que com suas magias vitimaram muitos alados.
         -- Ento, voc se alimentou do sangue de Ishtar? -- gritou o renegado, forando a
cabea do rei contra o assento do trono, tal qual um carrasco arrasta sua vtima  tora de
execuo.
         -- Eu j disse, criatura! Fuja enquanto  tempo. Nada poder me matar, nenhum efeito
do cu ou da terra seria possante para destituir Nimrod.
         -- Como pode ter tanta certeza? No passa de uma escultura de barro, um primata
imperfeito, um macaco que aprendeu a falar. Agora mostrarei a voc o supremo brio celeste, a
verdadeira potncia de Deus, contra a qual  indefeso.
         E foi ento que o querubim levou a mo s costas, onde as asas se dobravam num veio,
e pegou o embrulho que carregava consigo. Dos panos, sacou a espada mstica, at ento
escondida no rolo de peles. E ao contemplar lhe a lmina, os mortais -- e tambm Nimrod --
ficaram como que hipnotizados, to refulgente era o brilho da arma. Nunca haviam vislumbrado
a textura do ao, que agora coruscava em tons alaranjados, espelhando a cor do poente.
         -- Prepare-se para morrer, Nimrod, porque esta  a Vingadora Sagrada, forjada no
incio dos tempos, quando seus ancestrais ainda rastejavam pelos oceanos.  uma arma sagrada,
e sob seu fio j sucumbiram anjos, demnios e deuses. Agora, chegou a vez de ela provar
sangue humano.
         O rei balbuciou murmrios guturais, antigas profanaes ensinadas a ele pelo mago
Zamir, frmulas mgicas feitas para afastar espritos maus, que no entanto eram absolutamente
inteis contra o celeste.
         Nesse momento, Ablon ergueu o flagelo e segurou forte o rei pela nuca, pronto para
decapit-lo. Com o joelho imobilizava o monarca, mas antes de descer o fio puxou-lhe a franja,
obrigando o ditador a mirar toda a longitude da torre, agora praticamente vazia,
         --Aprecie pela ltima vez a sua capital, pois em breve o nico domnio que conhecer
ser o reino dos mortos -- declarou, estendendo o punho da espada, para o golpe final.
         -- Espere, general! -- interrompeu uma voz feminina. -- Estas palavras j foram
proferidas antes, mas no por voc,
         -- Shamira? -- exclamou o renegado, reconhecendo a amiga. Ele virou o corpo, sem
liberar sua presa, e distinguiu o semblante da Feiticeira de En-Dor, que subia as escadas da
Pirmide de Prata. Nos braos, ela carregava o corpo inerte da guerreira Ishtar, com as asas
marcadas de sangue.
         -- Como chegou at aqui?
         -- Memorizei a planta do calabouo, com todas as entradas e sadas secretas. Havia um
tnel perto do rio, e o usei para voltar  masmorra. Achei que deveria traz-la at aqui --
respondeu, pousando no cho o cadver da celestial renegada.
         Na plataforma, Ablon continuava parado, ainda surpreso, sem entender muito bem qual
teria sido a inteno da necromante ao regressar ao seu lugar de tortura. Com que objetivo tirara
Ishtar de seu tmulo?
         Nas ruas, a ventania acalmou, mas o pior ainda estava por vir. Naquele instante Babel
entrava no olho do furaco, onde o turbilho geralmente abre uma e toma flego para o sopro
final.
         --Voc v? -- instigou a mulher. -- Ishtar est morta, e agora no h mais como mudar
sua sina. No acha que j basta de tantos massacres? -- perguntou, ido com o olhar o rei
derrotado.
         -- Como pode defend-lo? -- reagiu o querubim. -- Depois de tudo o que ele lhe fez...
         A feiticeira encarou o general e subiu  plataforma. Tomou nos dedos o punho calejado
do guerreiro celeste e revelou-lhe a palma.
         -- Suas mos esto cheias de sangue humano -- ela fez uma longa pausa. -- Ser que
no compreende?
         Dito isso, o brao punitivo do lutador fraquejou, e a Vingadora Sagrada tremeu. Vises
desencontradas atacaram-lhe a mente, como um pesadelo remoto que insiste em voltar. Numa
srie de lampejos terrveis, ele recordou seus tempos como assassino, quando batalhava sob a
bandeira do arcanjo Miguel. Reviveu campos de morte, chacinas interminveis, morticnios de
gente indefesa, extermnios de seres humanos. E rememorou a face de seu inimigo mais pessoal,
o demnio Apollyon, que, quando ainda anjo, chefiara a destruio de Sodoma e Gomorra. 
medida que a raiva se dispersava, comeou a questionar impulsos.  o dio. Ele obscurece
nossos valores e nos empurra  runa.
         -- Percebe o que eu digo? -- foi Shamira quem quebrou o silncio. -- Isso no tem
nada a ver com a crueldade do rei, tem a ver com voc. Se mat-lo agora, sobre este palcio,
estar entregando seu corao  fria instintiva. Estar matando um ser humano e, por mais
perverso que seja Nmrod, esse pequeno ato ir enterrar sua causa. No foi por isso que voc foi
expulso do cu, porque repudiava o extermnio da espcie terrena? E no  justamente esse o
seu grande temor, o de esquecer seus ideais e abandonar a justia?
         Ento, a feiticeira se afastou, deixando o renegado sozinho em sua deciso. Ele
percebia, melhor do que ele, que o homicdio do Rei Imortal, naquelas circunstncias, marcaria
o fim de sua jornada, de toda sua luta contra os arcanjos, isso que quis dizer quando recriminou
suas palavras de ira.
         -- Sou uma necromante -- acrescentou, antes de se calar finalmente --, e como mestre
na arte dos mortos sei que h uma tnue lnha entre o bem e o mal. Se voc ultrapassar essa
fronteira, talvez no possa voltar. Vingana ou justia. Qual das duas voc vai escolher?
         -- Elas so a mesma coisa.
         -- A nica diferena  quando voc as executa com dio.
         Nimrod, que a tudo escutara, teve medo pela primeira vez. Ali, sob o fio da arma, ele
no era mais o monarca supremo, mas apenas um mortal indefeso, humilhado. Pensou em
implorar pela vida, em gritar e chamar pelo pai, mas a garganta estava cada vez mais apertada, e
naquela posio mal conseguia gemer.
         Nas avenidas, os insurgentes observavam o duelo. Os soldados j tinham sido
debelados, em todos os cantos da capital, e at as muralhas estavam tomadas. Bastava um s
comando para que a turba derrubasse os portes. Mas, por outro lado, se o ditador sobrevivesse,
a situao ainda poderia se inverter. Com o rei novamente ativo, o exrcito lutaria at a ltima
fasca, e o levante seria contido.
         Agora, o destino de muitos dependia da resoluo do celeste. O que ele pretendia fazer?
Deveria poupar Nimrod e conservar seus valores, ou decapitar o soberano, desforrando assim a
memria de Ishtar?
         Os olhos cinzentos voltaram a brilhar, e ele estendeu sua arma. Retomando a fora do
golpe, o renegado atacou, e a espada desceu contra o Rei Imortal.
         Shamira desviou o olhar e aguardou o rudo da cabea rolando. Mas, em vez do som
abafado, toda a metrpole escutou um grito agudo, seguido por um lamento de dor. A lmina
penetrou no na nuca, mas no ombro, atravessou a carne e se afundou no assento dourado,
prendendo Nimrod ao apoio. O sangue espirrou pelo brao, em quantidade muito superior 
humana, e escorregou pela rampa, molhando os degraus e enegrecendo o reflexo da prata.
         -- Voc continuar vivo, Nimrod -- sentenciou o Primeiro General. -- Est condenado
a viver para sempre, e a nunca morrer. O ferimento em seu ombro continuar escorrendo por
toda a eternidade. E daqui a muitos anos, toda vez que sentir seu estigma ardendo, vai se
lembrar deste dia em Babel e saber que foi a piedade celeste que o poupou. Ento, nessas
horas, ter vontade de morrer, mas no poder.
         Sozinha, reclusa s sombras do novo crepsculo, Shamira sorriu, mas ningum notou.
Nas praas e nos quarteires, a Babilnia era ento s calmaria. Organizados e vitoriosos, os
escravos escancararam os portes e abriram passagem  plancie. Aos poucos, a tormenta
voltava, com toda a intensidade de um tufo legendrio. Os operrios desprezaram a pilhagem e
saram todos em fila, sem nem ao menos olhar para trs.
         No topo da Pirmide de Prata, embora vencido, Nimrod no resistiu  soberba. Restava-
lhe, ainda, um ltimo consolo, um pilar derradeiro que alimentava a luxria, um monumento
perene que, segundo os buscadores, resistiria a qualquer calamidade.
         -- Voc me condenou,  verdade, mas minha torre prosseguir eterna -- disse ele, j
enfraquecido pela perda de sangue, ao seu carrasco. -- Os viajantes continuaro a enxerg-la a
quilmetros no deserto e sabero quem a construiu, mesmo depois de passados sculos.
         -- Engana-se, mais uma vez. Toda sua obra ser apagada -- corrigiu o general. -- Foi
astuto ao canalizar o curso do rio para dar sustentao ao edifcio.  um projeto arrojado,
contudo possu um ponto fraco.
         Ele sabe!, desesperou-se Nimrod. Ele conhece o segredo da coluna de gua, que
mantm ereta a construo. De todas as realizaes de Zamir, essa foi a maior, e no pode
ser,,,
         -- No! Minha torre no! -- berrou o babilnico, chorando e esperneando como uma
criana no bero. Tentou se levantar com todo o vigor, mas a lmina de ao o prendia ao
assento.
         E assim, o Anjo Renegado voejou, novamente, dali  base da torre. Entrou unhando por
seus amplos sales e seguiu ao ncleo do prdio. Contemplou muitas cmaras vazias, algumas
suntuosas, outras rsticas, e lamentou pelos escravos que ali faleceram. Destruiu vrias portas
lacradas, despedaou um porto dulo de cobre e chegou ao eixo central.
        Bem no meio da Torre de Babel, descobriu o interior de um imenso vo circular, que
alcanava as mximas altitudes do edifcio. Por ali corria, em vertical, grosso tubo de ferro que,
do cho, subia quase infinito, e nele se apoiavam todas as vigas que seguravam as paredes.
Atravs dessa tubulao eram bombeados os milhes de litros de gua por dia, e sua presso era
to forte que sustentava o cano assentado, como uma coluna vertebral que segura todo o
esqueleto. Em pontos-chave do tubo, o lquido saa por escoadouros pequenos, diminuindo
gradualmente sua violncia.
        O general tocou o cano de ferro e calculou sua espessura. Devia ter mais de metro, e era
revestido, por dentro, por uma grossa camada de marfim, que impedia o desgaste do ferro. Ser
que ele, apesar de suas capacidades fantsticas, conseguiria romper a parede?
        Concentrando a energia divina da aura nos punhos cerrados, invocou a Ira de Deus, sua
tcnica mais poderosa, a arma fundamental dos querubins, a mesma divindade que usara em
duelo contra o terrfico Apollyon, no Castelo da Luz.
        Esmurrou a tubulao, e o metal no suportou. Uma fissura correu para cima, e a gua
comeou a jorrar, cada vez mais intensa. A presso, por si s, terminaria o servio, e a natureza
vingaria seu crcere.
        As rachaduras se alastraram, as vigas ruram, e a torre entrou em colapso. O celeste saiu
voando dali, esquivando-se das pedras cadentes, desviando-se das pilastras tombadas e
escapando da fora da gua que inundava os escombros.
        Quando, enfim, cruzou o portal de sada, a torre j estava em destroos. O canal
subterrneo cuspia seu leito, como um chafariz colossal, alagando ruas e becos, imergindo
terraos e jardins. Ablon ascendeu ao topo do zigurate e em pleno voo retirou a espada do
ombro do rei, que de to consternado no se moveu. Continuou a fitar sua torre, autista,
lacrimejante, desconcertado pela destruio, inconsolvel pelo fracasso.
        Sem pousar, o renegado recolheu sua arma. Agarrou Shamira com um brao e com o
outro apanhou o cadver da guerreira Ishtar. Subiram alto, muito alto, aproveitando o revolver
do ciclone, e de l assistiram  queda da torre maldita, quando desabou a ltima laje. A gua
invadiu as casas, as avenidas, as praas, arrebentou os muros e engoliu o palcio.
        Nada sobrou.
        A tempestade de areia chegou logo depois e varreu a capital, enterrando a cidade no
corao do deserto.
        Babel estava morta.
        Sculos mais tarde, outras cidades da Babilnia surgiriam. Seriam os gloriosos tempos
de Hamurabi, de Nabucodonosor e de muitos outros. No entanto, a verdadeira Babel, a Babel de
Nimrod e Cush, a Babel lendria, foi sepultada no ltimo dia daquele vero do ano de 2334 a.C.
        E foi assim que tudo aconteceu.


                                    VIVER PARA SEMPRE

        -- Voc tem comida e gua para muitos dias nesta mochila -- disse Ablon, entregando
 moa uma bolsa de couro revestida com peles, que ele mesmo fizera nos dias de recluso na
caverna. As asas rajadas estavam recolhidas de novo, imperceptveis sob a musculatura do
dorso.
        O anjo e a feiticeira tinham parado um minuto, no decurso de uma trilha estreita que
circulava a encosta de uma montanha altssima.  esquerda nascia um paredo, todo de rocha,
que se aplainava antes da base, formando uma senda, e  direita a vereda se abria numa vala
profunda, entre duas pedras gigantes, e descia s profundezas do solo. Grandes elevaes eram
comuns naquela regio do deserto, e assim elas continuavam, por muitas milhas, at onde as
colinas encontravam o planalto de dunas.
        -- Ento, esta  a despedida final? -- instigou a feiticeira, charmosa. Ficava mais linda
ao sol da manh, quando os raios vermelhos coloriam-lhe a pele. Estavam felizes, os dois,
apesar da separao. Haviam feito o certo, seguido seus valores e rejeitado o abismo das trevas.
        -- O mundo no  to grande assim -- ele brincou, tambm sedutor.
         -- No demore muito. O tempo  implacvel com os seres humanos. Logo estarei to
velha que meus olhos no reconhecero seu rosto. E este o fado dos homens.
         -- Eu sei. Apesar de minha origem celeste, hoje me considero humano -- confessou e
virou os olhos  moa. -- Foi voc que me fez assim, Shamira. Voc fez com que eu
desvendasse minha prpria humanidade, e me ajudou a entender o que  ser carne.
         Ela sorriu, ruborizada, e desviou o olhar.
         Ento, o general tomou uma ao inesperada. Sacou da bainha a Vingadora Sagrada e
contemplou sua folha brilhante, como quem d adeus a um amigo.
         -- No sou mais um celestial, feiticeira, a despeito de minha fora divina. O querubim
que havia em mim morreu com a devastao de Babel. E  preciso saber onde um mundo acaba
e o outro comea.
         E assim, Ablon girou a arma sobre a cabea, cortando o ar em arcos redondos, e
arremessou pelo meio da vala. A lmina desceu rolando o precipcio e encontrou jazigo na
fundura da terra.
         A espada no vive sem o querubim, e o querubim no vive sem sua espada.
         -- A Vingadora Sagrada era a nica coisa que me remetia a meus antecedentes
primevos -- explicou o general. -- Vou tentar viver como homem, Shamira.  assiim que deve
ser daqui para frente. No quero me tornar um anjo amargurado e vingativo. Devo me libertar
de todo o dio que carrego.
         A mulher o abraou, e ele a envolveu.
         -- Assim como eu, voc vive  margem dos dois mundos, renegado. Esse  o nosso
legado.  a nossa sentena.
         Ficaram ali por um longo tempo, debaixo do sol ascendente. Era o princpio do outono,
e a brisa trouxe de longe o cheiro salgado do mar. Um falco rasgou o firmamento e, no cho,
ratos selvagens cavavam sua toca.
         -- Para onde pretende ir agora? -- quis saber o guerreiro.
         -- Ouvi dizer que h um sbio necromante que vive alm do Sinai e conhece
encantamentos capazes de driblar at mesmo a morte. Quem sabe ainda possamos nos encontrar
mais algumas vezes ao longo da histria?
         -- Quem sabe... -- ele respondeu, e beijou-lhe a testa.
         A mulher seguiu seu caminho a passos largos e dobrou a falda do morro. Antes que
sumisse pela orla da rocha, Ablon a mirou a distncia e murmurou baixinho:
         -- Que Deus a acompanhe, Feiticeira de En-Dor.


        Alguns meses depois, Shamira alcanou o Egito e conheceu o mestre Dra-kali-Toth, que
foi seu grande professor na arte da mgica. Ele a ensinou a roubar a energia dos espritos
malficos e assim conservar a prpria vitalidade por sculos infinitos.
        Ablon construiu um tmulo para Ishtar na caverna, no topo da montanha de Mashu, e
lacrou a sepultura para nunca mais reabri-la.
        Adnari guiou os escravos com segurana para fora de Babel e os liderou, fundando uma
nova civilizao. Morreu muito velha, aos 130 anos, e at hoje os msticos a conhecem como a
maior maga de seu tempo.
                                    OUTONO TROPICAL

O BOEING 747 EM QUE SHAMIRA VIAJAVA decolar de Bagd s 23h48 -- atrasado, como  de praxe.
Dessa vez, a culpa no era dos funcionrios da companhia area. Em sua trajetria, o avio
sobrevoaria Israel, cujo espao areo vinha sendo interditado duas ou trs vezes ao dia, em
virtude das invases de jatos rabes de reconhecimento -- provenientes principalmente da Sria
e do Lbano. Sempre que isso acontecia, caas eram acionados para patrulhar a rea, e o clima
de tenso aumentava. Pela primeira vez desde a Guerra dos Seis Dias, havia a ameaa de um
conflito generalizado no Oriente Mdio. Os pases rabes ocupados pelos Estados Unidos se
insurgiam, e as naes muulmanas livres firmavam aliana contra a Liga de Berlim, o bloco
ocidental encabeado pelos EUA e pela Europa. Em Jerusalm, o nmero de atentados
terroristas tambm crescera em igual proporo das agresses do exrcito israelense aos
territrios palestinos. A nica coisa segundo os especialistas, garantia a integridade da Terra
Santa era o fato de estar localizada em solo sagrado para as trs religies -- caso contrrio,
diziam os mais pessimistas, j teria sofrido um ataque atmico.
         A aeronave foi sacudida por uma turbulncia inesperada, logo aps sobrevoar o mar
Morto. A velhinha sentada ao lado de Shamira agarrou-se  poltrona e beijou o crucifixo. Era
uma senhora simptica, com mais de 70 anos, que passara a maior parte do tempo discursando
sobre a vida dos cristos no Iraque, mas que agora s proferia oraes. O comandante
informara, pelo amplificador, que as sacudidelas a bordo eram resultantes de uma corrente de ar,
mas a feiticeira conhecia bem a regio e sabia que aquilo nada tinha a ver com o clima.
Segundos depois, os bebes comearam a chorar, e as mes, impacientes, no conseguiram
acalm-los. Mesmo ciente das implicaes msticas da situao, a necromante manteve a calma
e pousou seu computador porttil sobre a mesinha. Tentou ligar o aparelho, mas a bateria
falhou, sinal de que o tecido da realidade estava sendo abalado. A agitao que vinha sentindo
no plano astral chegou ao pice quando passaram por Jerusalm, que h milnios tem sido uma
rea em que a atividade espiritual  intensa.
         Dez minutos depois tudo se acalmou e as crianas calaram o berreiro. O voo seguiu
tranquilo pelo Mediterrneo e fez escalas em Atenas e Madri, antes de cruzar o oceano
Atlntico em direo ao Rio de Janeiro, o destino final. Quando desceram na Espanha, o avio
superlotou. A senhora idosa suspirou aliviada, agradeceu a Deus por ter chegado com segurana
e se despediu de Shamira, distribuindo graas. O assento vazio foi ocupado por um homem de
meia-idade, de pele clara e cabelo grisalho, vestido com um terno cinzento -- um tipo blas e
um tanto arrogante.
         O pessoal da tripulao serviu o jantar, e depois as luzes no interior do avio
diminuram de intensidade. A feiticeira no dormiu. Ligou a lmpada pessoal da poltrona e
passou a noite toda compenetrada no laptop, estudando e anotando tudo o que podia sobre o
conflito mundial que se aproximava. Ao lado do micro, deixou aberto um exemplar da Bblia
em Apocalipse 5,6, onde se lia: "A abertura dos seis primeiros selos". Tentou estabelecer
alguma conexo entre a situao poltica e o livro sagrado, mas no achou nada concreto. A
maioria das coisas descritas ali no passava de metforas e alegorias que podiam ser in-
terpretadas de muitas maneiras. Sentiu-se frustrada e, quando o sol nasceu na imensido do
oceano, parou de trabalhar e cochilou por meia hora. Foi despertada pela comissria de bordo,
que a sacudiu no assento.
         -- Jornal, revista ou um fone de ouvido? -- ofereceu a aeromoa, alinhada em uma
camisa de seda branca, fechada por uma jaqueta de linho azul.
        -- No... obrigada -- respondeu Shamira, ainda desnorteada pelo cansao. -- S uma
xcara de caf, por favor.
        Depois de se recompor, a Feiticeira de En-Dor reparou no relgio.
        14h11. 12 dia de maro. Princpio do outono no hemisfrio sul. Ento, quando a viso
clareou, esticou o pescoo e identificou a chamada principal do jornal, nas mos de seu vizinho
de banco, que dizia o seguinte:
"Liga de Berlim lana ofensiva na Turquia". E continuava: "Aliana Oriental admite usar armas
nucleares para defender seus domnios".
        O avio voltou a tremer, mas agora a vibrao era puramente mecnica -- o trem de
pouso estava sendo acionado. Ouviu o som agudo das turbinas chupando golfadas de ar, e ento
veio o aviso pelo alto-falante:
        -- Ateno, tripulao, preparar para o pouso. Temperatura local 35 graus.


        Shamira no teve problemas com a liberao da bagagem na alfndega, a despeito de
todos os objetos estranhos que trazia consigo e da espada enferrujada que desencavara no
Iraque. Tinha autorizao internacional para transportar artefatos antigos, emitida por uma dzia
de universidades de arqueologia ao redor do planeta. Era uma cientista, para todos os efeitos,
um disfarce deveras irnico para uma feiticeira. Mas era eficiente. Diferentemente de Ablon,
que tentatava conservar ao mximo seu anacronismo, mantendo-se  margem da sociedade
mortal, a necromante estava sempre informada sobre as novas tecnologias e usava isso a seu
favor. Frequentava, abertamente, lugares pblicos os mais variados, desde faculdades a
danceterias, com objetivo puramente didtico. Cada vez mais se surpreendia com a capacidade
mutvel do homem, com habilidade de criar, inovar e se adaptar s situaes mais inusitadas.
Chegou  concluso de que, no importava quanto vivesse, sempre se espantaria com a mente
inconstante e a alma apaixonada dos seres humanos.
        Deixou a seo alfandegria por uma porta dupla, automtica, que se abria em um
amplo salo, com colunas inclinadas de metal que sustentaram um teto vidro.  sua frente,
separada por uma armao de correntes, uma pequena multido se aglomerava,  espera dos
passageiros. Agentes de turismo seguravam placas de identificao, e familiares aguardavam
parentes.
        J passava das quinze horas, e o sol da tarde entrava oblquo pelo teto envidraado, que
se dobrava em uma parede tambm transparente. L fora, a rua asfaltada protagonizava a
agitao caracterstica dos aeroportos, com seu trnsito habitual de carros comerciais, nibus
pblicos e furges de hotel.
        O desembarque foi s 14h37, mas Shamira gastara pelo menos vinte minutos enchendo
documentos de liberao e esperando pelas malas na esteira. Agora, livre da burocracia, olhou
ao redor,  procura do Anjo Renegado, mas no o avistou em parte alguma. Temores terrveis
percorreram-lhe a mente, sobre a possibilidade de o fugitivo ter sido finalmente encontrado... e
quem sabe morto? Mas logo lembrou que, como pria, Ablon aprendera a assumir uma postura
discreta, e por isso, incrivelmente, s vezes os seres humanos simplesmente no o enxergavam.
No incio era intencional, mas agora acontecia quase sempre, e o querubim nem precisava mais
se esforar para sumir no cenrio.
        A feiticeira aprimorou a mirada e o localizou, imvel ao lado de uma das colunas de
ao. J fazia mais de um sculo que no o via, mas ele nada mudara,  exceo das roupas
escuras. Os raios vespertinos, j enfraquecidos, davam um tom dourado a seus loiros cabelos. O
olhar era o mesmo: expressivo, determinado, temerrio. E a expresso era de inegvel satisfao
por reencontrar a nica pessoa em todo o mundo com quem se preocupava realmente.
        Ablon esboou um sorriso -- afvel, acolhedor. Shamira chegou perto dele e pousou as
malas no cho, sobre o mrmore escuro. Por um longo momento, apenas o contemplou, em
silncio. O rosto da moa era uma mscara de incredulidade, mas tambm de alvio. Um minuto
depois, ento, ela o abraou, emocionada.
        --  voc mesmo? Nem parece verdade -- constatou, reconfortada. --  difcil
acreditar que esteja vivo.
        Ele voltou a sorrir.
        -- Vai ficando mais fcil. Se eu estivesse morto, voc j saberia.
        --  provvel. Do jeito que as coisas vo no mundo espiritual, no me admiraria se
recebesse notcias desencontradas a seu respeito.
        Ablon pegou as duas malas no piso -- uma de mo, e a outra, maior -- e as carregou
para fora. Os dois cruzaram o saguo e saram pela porta automtica.
        -- Realmente -- ele concordou. -- O cu e o inferno esto se preparando para a guerra.
 por isso que os espritos esto to agitados. O tecido da realidade est prestes a se romper.
        -- O Armagedon! Ento  verdade. Finalmente o Dia do Juzo Final se aproxima -- ela
achou graa nas prprias palavras. -- Olha s para mim, at pareo um daqueles profetas
falando.
        -- Eles tiveram o seu valor -- comentou o renegado, nostlgico.
        Saram para a calada e sentiram o calor escaldante do outono tropical. A rua fervilhava
com o barulho de motores, buzinas e arrancadas.
        -- E o que voc tem a ver com tudo isso... digo, com o fim do mundo? Pensei que
tivesse decidido no tomar parte na poltica celeste.
        -- Agora  diferente. Parece que o poro quer fazer um acordo comigo.
        -- Foi por isso que me chamou aqui, no foi?
        -- Preciso da proteo de seus encantamentos.
        -- Pensei que tivesse dito que as coisas estavam mais fceis -- replicou a mulher,
explicitando sua preocupao com o Anjo Renegado.
        -- Os dois lados esto mobilizando suas tropas, concluindo alianas, acertando tudo
para a batalha final. Ningum est mais preocupado em me caar. Pela primeira vez desde o
expurgo, sinto-me seguro. Os anjos e demnios tm suas prprias preocupaes.
        -- Mesmo assim... acho que no custa voc dormir com um dos olhos aberto --
advertiu, como fora de expresso.
        -- Eu nunca durmo -- ele respondeu, espontneo. Shamira era uma mulher precavida.
Tinha aprendido isso com o prprio general renegado.
        No final da calada, chegaram ao local onde Ablon estacionara sua motocicleta. Tinha a
cor negro-metlica, pneus grossos e foscos, e rodas e guido cromados. O assento de couro era
longo, fazendo uma lombada para o carona, soldo ainda espao para a bagagem.
        -- Um transporte nada usual para uma dama -- reparou a feiticeira, descontrada.
        -- Mas bem de acordo com um renegado -- replicou o guerreiro, no mesmo informal.


                               O LTIMO ANJO RENEGADO

        O anjo e a feiticeira passaram no Hotel Montenegro, a fim de descarregar a bagagem, e
depois seguiram para um lugar mais arejado. Shamira nunca tinha viajado ao Rio de Janeiro, s
conhecia a metrpole por fotos e filmes, por isso convenceu o renegado a lev-la para perto do
mar, onde ele revelaria seus planos. A cidade, litornea e acidentada,  quente durante todo o
ano, e o clima esfria muito pouco, mesmo ao cair do crepsculo -- um ambiente totalmente
diferente do deserto iraquiano, com suas noites geladas e madrugadas insuportveis.
        Por volta das 17h30, pouco antes do incio da hora do rush, a motocicleta cou o centro e
manobrou entre os carros em direo  zona sul, alcanando o litoral. Ablon e Shamira
percorreram a avenida  beira-mar at o fim, onde a pista para automveis contnua,
circundando a encosta de uma montanha rochosa. No meio do caminho h um ponto turstico,
um mirante belssimo prximo  falda, que exibe uma das mais belas paisagens do mundo.
Daquele local avistaram toda a praia do Leblon e de Ipanema, que, juntas, formam uma enseada,
com sua faixa de areia terminando em um calado de pedras portuguesas. Alm da calada est
o asfalto, e em seguida inmeros prdios altos com sacadas de vidro e coberturas milionrias
erguem-se como gigantes de concreto. Partindo da orla, em direo ao oeste, o terreno vai aos
poucos se inclinando para cima, dando aos observadores a falsa impresso de que a cidade est
apoiada em solo plano.  a que fica grande parte da rea urbana.
         No extremo oeste, o horizonte  recortado por uma cadeia de morros verdes, sobre os
quais esto fixas inmeras antenas de transmisso de rdio e TV. O ponto mais alto desse
macio montanhoso  uma salincia afinada chamada de Pico do Corcovado, coroada pela
impressionante esttua do Cristo Redentor, com os braos abertos.
         Ablon parou a motocicleta em uma pequena rea de estacionamento ao redor do
mirante. Shamira no se conteve e caminhou at a mureta de pedra. Dez metros abaixo, as ondas
do mar se chocavam contra a falsia, lanando respingos, e a feiticeira ficou ali por alguns
instantes, tranquila, contemplando o espetculo marinho. O renegado chegou logo depois
trazendo uma garrafa de gua mineral, que tinha comprado em um quiosque. Ele sabia que a
necromante ainda guardava necessidades humanas, mesmo que j tivesse aprendido a evitar a
prpria morte. Ela olhou toda a paisagem, at que sua vista foi parar l longe, onde o Cristo
Redentor se erguia imponente.
         -- Agora entendo por que voc escolheu esta cidade para esperar o Dia do Ajuste de
Contas.
         -- Parece sugestivo, no? -- concordou o general, desviando a viso  esttua. -- Mas
no  isso. Eu tenho a impresso de que, quando tudo comear a ruir, este ser o ltimo lugar a
desaparecer. O Brasil  um dos chamados pases neutros, um dos Estados fora da linha de
conflito entre a Liga de Berlim e a Aliana Oriental.
         --Acho que perdi alguma coisa... -- replicou a feiticeira, sem entender muito bem.
         -- No sei como ser o fim do mundo. No acredito que estrelas cairo do cu, ou que a
lua se transformar em sangue. O que essas profecias nos indicam so sinais. E esses sinais so
evidentes.
         Shamira encarou Ablon, sria.
         -- Voc acha que o Apocalipse se aproxima?
         -- Ele j comeou. No h dvida. Os quatro cavaleiros iniciaram sua marcha.
         -- Guerra, fome, doenas... j vimos isso antes. O que o faz pensar que agora 
diferente?
         Ele deslizou o olhar pelos morros. Feixes de sol cortavam as nuvens, colorindo as
encostas verdejantes. Era um raro momento de paz, que em muito lembrava os tempos antigos.
Era triste pensar que tudo aquilo -- a terra, o cu, os oceanos -- acabaria em breve.
         -- A humanidade est corrompida, Shamira -- e ao dizer isso a expresso do renegado
era muito mais de frustrao do que de melancolia. -- No corao dos homens, a esperana foi
suplantada pelo dio.
         -- Mas no em todos eles.
         -- Como sempre, poucos pagaro pelos erros de muitos. Foi assim no dilvio, que
destruiu Enoque e Atlntida. Foi assim em Sodoma e Gomorra. E ser asssim no Armagedon.
Aconteceria mais cedo ou mais tarde. A Roda do Tempo no pode ser contida. Somente o
prprio Deus tem poder para mov-la. E, como sabemos, ele se encontra ausente por ora.
         -- A Roda do Tempo... -- murmurou a necromante, como se estivesse buscando algo
guardado l no fundo da mente. -- Voc me falou dela uma vez.
         -- A Roda do Tempo  um artefato divino. Foi criada por Yahweh com o objetivo de
marcar a continuidade do stimo dia. Quando seu ciclo chegar ao o stimo dia tambm estar
terminado. O Altssimo acordar, e o tecido da realidade cair por completo. Os dois mundos, o
fsico e o espiritual, se tornaro um s, e esse ser tambm o princpio do reino de Deus.
         Shamira escutava em silncio, compenetrada.
         --  isso o que nos conta o manuscrito sagrado dos malakins -- continuou o general. --
Mas ele no diz que o fim dos dias ser precedido por episdios cruis e sangrentos. Foram os
humanos que profetizaram o Apocalipse dessa forma. Eu, particularmente, sempre acreditei no
contrrio. Sempre achei que despertaria quando os terrenos tivessem alcanado a plenitude,
quando a paz reinasse absoluta. Foi assim que eu sempre quis que acontecesse. Mas, depois de
tanto tempo na terra, deixei de me iludir e entendi que a salvao da alma  uma ddiva para
poucos.
         Ablon parou de falar e respirou fundo, apreciando o cheiro agradvel do mar. A lua
nascia no leste, parecendo emergir do oceano. Sua luz formava uma trilha ida que comeava no
horizonte e s terminava na arrebentao, perto da praia. A mente da feiticeira fervilhava com
tanta informao, mas ela continuou calada, digerindo as palavras sinceras.
         -- Voc se lembra de quando a conheci? -- ele falou, de repente, -- Certa vez lhe
contei sobre o livre-arbtrio e disse que esse era o prmio mximo concedido por Deus aos
mortais.
         -- Sim... -- respondeu a mulher, simplesmente.
         -- No acho que precisava ter sido assim. Foram os terrenos que escolheram caminho,
eles fizeram o seu mundo. Decidiram pela trilha da morte e se iram na prpria luxria. Mas... --
repensou -- no falo isso como inquisidor, tampouco como juiz. No sou e nunca fui um
modelo a ser seguido. Tambm j cometi muitos erros.
         Ao dizer isso, ele a encarou com os olhos cinzentos e prosseguiu com ternura:
         -- Lembro que uma vez estive s portas da corrupo. Mas, no instante mais negro, tive
algum que me resgatou das trevas.
         -- Eu apenas lhe apresentei as opes. Voc fez sua escolha.
         -- Sim. Nem todos tiveram a chance que eu tive. Nem todos tiveram algum para
indicar-lhes o caminho.  por isso que eu no os julgo. s vezes penso que eu mesmo tenho
uma parcela de culpa nisso. Poderia ter feito mais. Poderia ter ajudado a humanidade, em vez de
ter caminhado pelas sombras do mundo, tentando reconstituir a irmandade. Mas lamentos no
mudaro nada. O que est feito est feito.
         A noite ia chegando, sorrateira. A mar encolheu, e as ondas recuaram na areia.
         -- Muito bem -- falou Shamira, quebrando a tenso da conversa. -- Ento, o que o
Anjo Renegado quer de mim? Voc falou em um acordo.
         -- Lcifer mandou Orion me trazer uma mensagem. Parece que a Estrela da Manh
quer que eu me junte s suas fileiras nesta guerra final.
         -- Ento, por que precisa de mim? A proteo do Arcanjo Sombrio no  suficiente?
         -- A verdadeira proteo que eu preciso  contra ele. Lcifer j me traiu uma vez. No
pretendo aceitar sua proposta, mas estou curioso para ouvir o que ele tem a me dizer. Por isso
decidi ir visit-lo no inferno.
         -- Olhe l o que voc vai fazer... -- ela advertiu. -- Lembra-se da ltima vez que
solicitou minha magia para esse tipo de coisa?
         -- Eu nunca esqueci. Meu corpo ainda di pelas queimaduras. Aquilo foi imprudente.
Mas os tempos eram outros. Eu era caado naquela poca, e havia uma recompensa pela minha
cabea. Alm disso, eu invadi levianamente os limites proibidos. Era natural que os sditos de
Lcifer esperassem dele uma atitude impiedosa. Agora, entretanto, fui convidado.
         Os argumentos do renegado eram convincentes, e Shamra concordava com eles.
Todavia, continuava preferindo que Ablon no empreendesse aquela jornada. Levantou-se da
mureta de pedra e, pensativa, andou um pouco, pesquisando, mentalmente, os encantamentos
que guardava na manga. Sim, ela possua alguns rituais que poderiam ser teis.
         -- Uma viagem ao inferno... -- encolheu os lbios, raciocinando. -- Voc conhece os
perigos. Uma vez l estar vulnervel.
         -- Estou disposto a correr o risco.
         -- Conheo alguns feitios que podem lhe dar uma proteo limitada. Mas, se eles
quiserem acabar com voc, nem todo o meu poder poder preserv-lo.
         -- Prefiro pensar na sua magia como uma precauo. No creio que o Arcanjo Sombrio
e suas hordas desejem mesmo me matar. No desta vez.
         A necromante ainda tinha suas dvidas.
         -- Por que voc confia tanto nisso?
         -- Orion. Ele pareceu estar falando a verdade, e nele eu confio. Alm disso, se Lcifer
est s portas da guerra,  bem provvel que queira mesmo minha ajuda. Seria prtico para ele
me usar como smbolo, afinal sempre fui o cone da resistncia.
         -- Isso contraria um pouco toda a propaganda que ele fez em prol da caa aos
renegados, no acha? O Diabo ps em vocs toda a culpa por sua queda. Voc mesmo me disse
isso h muito tempo.
         -- Sim, mas a Estrela da Manh sabe muito bem como moldar as situaes a seu favor.
 o maior mestre da persuaso que existe.  capaz de transformar at o pior inimigo em mrtir.
Se voc o tivesse conhecido, saberia do que estou falando. Tem a lngua afiada como cobra e a
inteligncia de mil estrategistas. No foi  toa que arrastou um tero dos alados  sua rebelio
contra o arcanjo Miguel.
         -- Orion... o Rei Cado de Atlntida -- ponderou a feiticeira. -- Sim, voc tem motivos
para confiar nele. Mas ser que o prprio satanis no est sendo vtima das persuases de seu
mestre? -- Os satanis constituem a ordem mais nobre de demnios, equivalentes aos celestiais
serafins.
         -- Talvez. Mas, como eu disse antes,  um risco que estou disposto a correr. Depois de
tantos sculos, enfim me sinto pronto para qualquer desafio. Sinto-me preparado para enfrentar
Miguel em combate e depois apresentar armas diante de Deus. Mas s poderei chamar o
Prncipe dos Anjos ao duelo quando o tecido da realidade cair. Por enquanto, minha maldio
me prende ao mundo fsico. Ento, s me resta aguardar. Aguardar at que todos os Selos do
Apocalipse estejam abertos e a membrana tenha se desmantelado.
         A lua, por fim, subiu reta ao cu, e os carros na avenida reduziram seu fluxo. As janelas
dos edifcios brilhavam, e as antenas de TV balanavam ao vento.
         -- Somos tudo o que resta de uma poca que se perdeu no esquecimento, varrida pela
mesma tempestade que devastou a velha Babel -- declarou a mulher, saudosa. -- Vou ajud-lo,
general. Eu lhe devo isso, e muito mais... Sempre lhe deverei alguma coisa. Mas no concordo
com isso. Acho que sou egosta, no fundo... No quero perd-lo.
         --Voc sempre espera pelo pior... e de certa forma eu tambm.  nosso jeito de reagir
ao desconhecido, ao futuro imprevisvel. Mas j escapei da morte muitas vezes, e penso que
posso faz-lo uma ltima vez.
         -- Mas e se no conseguir?
         -- Voc mesma j disse que nossa era acabou. Estamos vivendo alm de nosso tempo.
E j fui muito mais longe do que deveria ir. Sou o ltimo anjo renegado. E sobre mim pesa a
tarefa daqueles que, um dia, resolveram aceitar os meus ideais. No posso decepcion-los,
feiticeira.
         No pode, de fato -- pensou a necromante. Voc nunca os esqueceu nem abandonou
aqueles de quem gosta. Salvou minha vida e me defendeu, muitas vezes. Depois, venceu
espritos, bruxos, assassinos e caadores. Escapou do inferno e derrotou a inveja de seus
inimigos. Agora, caminha para sua rota final, para a mais terrvel das guerras, para a
convergncia derradeira de todas as suas virtudes.
         Sim, Shamira iria ajud-lo. E o faria com orgulho.


                                   INTERLDIO NOTURNO

         Ablon e Shamira voltaram ao Hotel Montenegro pouco depois do cair da noite. O
senhorio estava embriagado e teve de se esforar para cumprimentar os hspedes com um aceno
de mo. Murmurou algumas palavras, todas sem coerncia, e voltou a cochilar no balco.
         Subiram para o quarto e se acomodaram no aposento. Instantes depois, uma tempestade
engoliu a cidade, formando caminhos de gua no vidro da janela.: No havia camas por ali, mas
a feiticeira improvisou um colcho com cobertor e pedaos de lona. Quando finalmente esticou
o corpo, reparou na prpria exausto e se lembrou de que j no dormia havia quase dois dias.
         Ela se deitou, fechou os olhos e procurou relaxar. Antes, porm, percebeu Ablon
sentado  mesa, na penumbra, lendo alguns pergaminhos antigos, e sentiu uma sensao
agradvel, que no provava havia muito tempo. Era como estar de volta  caverna, quando
adormecia sob a proteo do renegado, sempre gado, sempre atento a qualquer invaso. Estava
segura e certa de que, enquant aqueles olhos cinzentos a vigiassem, nada de ruim lhe
aconteceria.
         Pegou no sono.
         Acordou l pela meia-noite. Ainda chovia. Ablon estava de p, em silncio colado 
janela, examinando com o olhar a quietude da rua, os postes de luz, o telhado dos prdios. Ela
conhecia aquela expresso afiada, de guia no ninho, e temeu pelo pior.
        -- O que houve? -- perguntou, em sussurros.
        -- Shhhhh... -- sinalizou o anjo, indicando que no fizesse barulho. O sangue da
necromante gelou ante a suposta ameaa.
Passaram-se uns trs minutos, at que Ablon relaxou a postura, afastando-se da vidraa. Agia
como se tivesse captado um falso alarme. A tenso se dissolveu e Shamira perguntou
novamente:
        -- O que aconteceu?
        -- Nada. Est tudo bem. Eu s tive a impresso de que... S achei que...
        -- O qu? -- cortou a feiticeira.
        -- Nada. No h de ser nada. Volte a dormir.
        Ela insistiu mais um pouco.
        --Talvez um anjo caador ou um demnio vingativo? -- e usou um tom mais
descontrado, para esconder de si mesma o prprio nervosismo.
        -- No. Se alguma entidade estivesse por perto, eu j teria percebido as vibraes de
sua aura.
        As plpebras de Shamira pesavam. Se no estivesse to cansada, teria voltado assunto,
mas o letargo a dominou. Dormiu tranquilamente e no voltou a despertar.


                                 O RITUAL DE PROTEO

         Shamira passou toda a manh lanando encantos invisveis e executando pequenos
rituais no interior do apartamento de Ablon. O objetivo era converter o antigo depsito em um
santurio. Um santurio , por definio, uma rea atada no plano fsico onde o tecido da
realidade  muito fino, quase nulo. A suavidade da membrana, em um santurio, permite que ela
se rasgue mais facilmentc, e o resultado prtico disso  que os efeitos sobrenaturais, no ponto
afetado, so produzidos com muito mais eficcia. H muitas maneiras de criar um santurio.
Cada tradio mgica, seita ou religio tem os prprios mtodos para isso. A trilha da
necromancia, em particular, vale-se de objetos msticos e fcrmulas mgicas para remodelar o
tecido. Os encantamentos preliminares estavam contidos em um livro muito antigo, com capa de
couro e folhas de papiro, denominado Grimrio de Nippur. Um preparado lodoso, especial, 
usado para delimitar a cmara escolhida -- que ali se estendia da porta  janela, abrangendo
todo o espao do quarto.
         H situaes, mais raras, em que os santurios so criados sem nenhuma interveno
humana. Isso ocorre com frequncia em locais onde santos ou personagens lendrios so
mortos, ou onde entidades msticas fazem aparies ocasionais.
         O tamanho de um santurio  varivel. Eles podem ser to pequenos quantc camarinhas
ou to grandes quanto florestas. Diferentemente do que muitos pensam, esses locais msticos,
contudo, podem ser maculados. H meios intencionais para isso, como a utilizao de feitios
profanos, mas a maneira mais comum a simples banalizao do lugar. Uma catedral que 
demolida, transformada er praa pblica, e cuja importncia  totalmente esquecida, logo volta
ao patamar inicial, e o tecido reverte  consistncia normal.
         A inteno de Shamira ao criar ali um santurio visava preparar o cmodo para a
realizao de um ritual realmente poderoso. Teria que ser forte o bastante para proteger Ablon
no inferno, pois os demnios raramente so enganados por truques baratos. Resolvera, desta
vez, empregar um pouco da antiga magia, a magia esquecida, a magia da velha Enoque,
registrada nas pginas do grmrio ancio. A execuo a deixaria exausta e incapaz de usar suas
habilidades msticas por um dia inteiro, mas seria por uma boa causa.
         A Feiticeira de En-Dor concluiu as preparaes no fim da tarde. Descansou um pouco e
se satisfez com a comida chinesa em caixinhas que o renegado comprara. Como sempre, Ablon
a acompanhou no jantar, embora no precisasse comer -- nenhum anjo precisa. Sentados no
assoalho de madeira, despojados, conversaram sobre futilidades, sobre suas viagens ao Oriente,
e Shamira relembrou o sabor da autntica comida chinesa, da poca dos mandarins, muito
diferente daquele macarro oleoso.
        -- Quando vamos comear a cerimnia? -- perguntou o general, recolhendo os restos
do jantar.
        -- Vamos esperar pela noite. E nessas horas que o mundo espiritual est mais acessvel.
E ainda preciso terminar os detalhes.


         Depois de levarem o lixo para fora, o anjo e a feiticeira afastaram a escrivaninha e as
estantes maiores, criando uma rea limpa, um grande espao vazio. Sobre o velho piso de
tbuas, Shamira desenhou um pentagrama, uma estrela de cinco pontas, usando um barro
avermelhado antiqussimo, cuja terra pertencera ao solo de Enoque. A argila, somente, j era
carregada de misticismo, em virtude de sua origem lendria.
         O pentagrama foi rodeado por inscries. Em quatro das cinco pontas, a moa
posicionou recipientes de cermica contendo pores nfimas dos elementos naturais -- um
deles estava cheio de terra; o segundo continha gua; do terceiro emanava fogo; e o quarto
deixava escapar uma fumaa branca. Na quinta ponta, a superior, a necromante fixou um
punhal, sua adaga pessoal de encantamento.
         O palco estava pronto. O sol havia morrido, sem que eles percebessem, obscurecendo as
ruas. O cu estava limpo, sem nuvens, e agora era o brilho da lua ,e no as gotas de chuva, que
tingia a vidraa, desenhando formas prateadas no cho.
         -- Estamos com sorte -- avisou a mulher. --  uma noite agitada no mundo espiritual.
Acho que vamos conseguir completar o ritual com sucesso. Est preparado?
         -- Sem problema -- replicou o celeste.
         Ela ps de lado suas roupas modernas e vestiu uma tnica simples, de um s corte. Era
feita de algodo cru e tinha aparncia antiga, mas estava conservada. e pertencera  sua primeira
mestra, em Cana, e manteve-se intacta graas ao preparado Sippar. Em um dos braos apoiava
o grimrio e com a outra mo gesticulava os dedos.
         -- O que vamos fazer aqui  tentar invocar dois espritos maiores. O poder entidades 
grande, comparvel mesmo  potncia dos celestiais. Uma vez invocados, teremos que
barganhar um pouco da essncia deles, e com ela energizarei o punhal -- e apontou para a faca
deitada no pavimento. -- S ento completar o feitio.
         -- Voc acha que vai ser fcil convenc-los a entregar sua essncia?
         -- Nunca  fcil. Esses espritos so muito antigos e com o tempo vo ficando mais
arrogantes. Mas j tenho alguma experincia com eles.
         -- Voc  modesta -- comentou o general. -- O que devo fazer?
         -- Nada, pelo menos at que eu diga o contrrio. Por enquanto, observe, apenas.
         Ablon acedeu com a cabea e a feiticeira comeou a lanar um feitio, Repetiu, em voz
alta, a srie de runas msticas contidas no livro:
         -- Mer Sidi! Mer Kurra! Mer Urulu! Mer Martu! Zi Dingir Anna Kanpa! -- a
entonao era estranha e no se assemelhava a nenhuma linguagem conhecida pela humanidade.
Fazia parte de um cdigo mgico, um idioma oculto pronunciado apenas pelos feiticeiros.
          medida que a cano prosseguia, Shamira comeou a suar. Foi ento que algo
estranho aconteceu. O brilho da lua, que cortava a janela, foi sumindo aos poucos, at tudo l
fora ser dominado pela mais completa escurido, um breu terrvel, comparvel  negritude
csmica.
         -- O que est acontecendo?
         -- Uma transferncia momentnea para o plano etreo. Eu estou abrindo a passagem
pelos quatro portes. Ns, juntamente com este cmodo, estamos agora atravessando as
fronteiras da realidade.
         Um frio fantasmagrico inundou o apartamento. No se via mais nada atravs da
vidraa: os prdios, a lua, os postes de iluminao da calada... nada, apenas trevas. Era como se
o salo tivesse sido atirado aos confins do espao, inspito e longnquo. Agora, a nica fonte de
claridade provinha da tigela com fogo, que ardia numa das pontas do desenho em estrela.
         A necromante parou o recital, descansou a cabea e deitou o pesado tomo de lado, sobre
uma caixa comum. O silncio era absoluto, mas no durou muito tempo.
         O general escutou um barulho de madeira quebrando. De repente, as tbuas do cho se
arquearam para fora. Uma criatura de odor repugnante forava o cho para sair, destruindo o
assoalho dentro da rea demarcada pelo pentagrama. Se no fosse j to experta, to
acostumada ao universo bizarro, Shamira teria ficado nauseada pela apario.
         A entidade que emergia das tbuas era um ser monstruoso e disforme. Lembrava uma
massa de carne, ora negra, ora esverdeada, com centenas de pequenos olhos espalhados pela
superfcie do corpo e dezenas de bocas que mordiam o ar. Movimentava-se com lentido, por
meio de pseudpodes gosmentos. O cheiro insuportvel vinha da secreo que expelia pela
carne, penteada de poros abertos, cheios de pus.
         Destemida, a moa caminhou ao circulo mgico, sem avanar para dentro. Encarou a
criatura com autoridade. Seu olhar era duro e austero, e a face nada indefesa.
         -- Bacarata! -- assim ela chamou o monstro, em uma linguagem obscura, normalmente
usada pelos espritos corrompidos que vagueiam na fundura do etreo.
         Os mltiplos olhos se fixaram na necromante, e as bocas se abriram, dantescas.
         -- Feiticeira de En-Dor, mestre da arte da necromancia, conjuradora de muitos
espritos. Bacarata escuta.
         Os lbios copiosos se articulavam todos ao mesmo tempo, produzindo uma voz
estridente.
         -- Bacarata, prncipe da matria. Venho implorar um cndice da sua essncia para a
realizao do feitio da proteo.
         O cndice  um tipo de unidade mstica usada para medir a energia espiritual.
         A criatura se moveu, cuspindo o odor insalubre.
         -- E quem receber o encantamento? -- intimou o monstrengo.
         -- Ablon, o Anjo Renegado, expulso do cu antes mesmo da queda de Lcifer. O
querubim que desafiou a tirania do arcanjo Miguel aps a destruio Sodoma.
         Quieto, um pouco mais recuado, Ablon teve a impresso de que alguns olhos de
Bacarata o observavam, analisando-o dos ps  cabea. As asas do anjo estavam recolhidas,
como sempre, fundidas s costas, imperceptveis. Mesmo assim, sua sombra na parede mostrava
o contorno das asas abertas. H uma confraria de feiticeiros, os Magos Negros, que busca a
energia para seus feitios na escurido. Eles costumam dizer que a sombra sempre revela nossa
verdadeira natureza.
         -- A aura dele  poderosa -- divagou a entidade, e depois soltou um grunhido ridculo,
seguido por um silvo.
         -- Eu acho -- sussurrou o general ao ouvido da necromante -- que no vamos
conseguir nada desta figura asquerosa. -- Ele j comeava a ficar impaciente. Os querubins so
combatentes e pouco acostumados  diplomacia.
         -- Pacincia -- sugeriu a mulher. -- A barganha ainda nem comeou.
         A entidade voltou a rugir, deslizando no pentagrama. Suas palavras eram pouco
compreensveis, muito arranhadas.
         -- Aura poderosa... Bacarata quer essncia do anjo. Essncia por essncia, essa  a
troca.
         -- Mas essa no  uma troca, Bacarata -- desafiou a Feiticeira de En-Dor, lanando um
olhar perigoso.
         Imediatamente, o esprito emitiu um berro agudo, de dio, e reconheceu o ardil. O
excesso de secreo que saa de seu corpo indicava um estado de raiva, e a criatura avanou em
fria contra a necromante. Mas estacou ao alcanar as do crculo, como se algum muro invisvel
o prendesse l dentro. Em um reflexo, o general avanou, deu um passo  frente para proteger a
amiga, ela o deteve, indicando que no corria perigo.
         -- Voc est preso no Pentagrama de Bethor, Bacarata, caso ainda no tenha percebido.
         Vulnervel e incapaz de ultrapassar a rea demarcada, a entidade se contorceu e do
corpo jorrou mais um litro da gosma. Cuspiu uma torrente de barulhos infames, amaldioando a
feiticeira.
         -- Feiticeira... voc queimar no fogo de Xahra quando eu me libertar.
         Ela sorriu, maliciosa.
        -- No pragueje, "prncipe". Posso resolver deix-lo a para sempre -- ameaou, e
depois retomou a barganha. -- Estou apenas procurando urna soluo bilateral -- e fez uma
pausa para que o esprito se acalmasse. -- Voc seria capaz de esquecer esse dio se eu lhe
desse uma gota do sangue do renegado?
        -- Sangue...  s matria -- rosnou a criatura.
        -- Voc  o mestre da matria. Tenho certeza de que vai encontrar uma utilidade
preciosa para o fluido vital. O que estou pedindo  um cndice da sua essncia. Em troca eu lhe
ofereo a liberdade, e mais o plasma fervente do general fugitivo.
        Bacarata no tinha sada. Fora encurralado, trapaceado, enganado por uma feiticeira --
um tipo de situao bastante humilhante para um esprito to influente. Mas, apesar das
circunstncias desfavorveis, chegou  concluso de que no perderia tanto ao aceitar a oferta.
        Pelos resmungos e movimentos irregulares dos pseudpodes e pela agitao das bocas
minsculas, Shamira entendeu que ele aceitara a permuta, mesmo a contragosto. E que outra
opo ele tinha?
        -- Ablon, faa um furo superficial no seu dedo e deixe que uma gota de sangue caia no
pentagrama -- indicou a necromante, estendendo ao querubim uma agulha enfeitiada. -- Mas
no pise dentro do crculo, ou o selo de proteo ser quebrado.
        O anjo guerreiro fitou a entidade, intrigado, e hesitou em entregar-lhe seu sangue, mas a
amiga o confortou.
        -- No se preocupe. Ele no tem poder efetvo sobre seu avatar.
        Conformado, Ablon pressionou a ponta da agulha e lanou um pingo vermelho ao cho,
perto do monstro. Bacarata se retorceu e proferiu um gemido profano, de prazer diablico,
quando provou com a pele o precioso fluido celeste. Quando, enfim, nada mais lhe restava para
sugar, o monstrengo escorregou de volta ao buraco, e as tbuas saltadas se endireitaram, como
se nunca tivessem sido quebradas.
        O punhal acima do pentagrama irrompeu em chamas, mas no derreteu. O fogo era de
cor violeta, diferente da ardncia normal, e basicamente espiritual. A faca estava energizada,
enfim, com a essncia da criatura, mas um cndice s ainda no era suficiente.
        -- Preciso aproveitar que o tecido anda esta flexvel para chamar a prxima entidade
-- avisou Shamira, endireitando a tnica.


         Sem perder muito tempo, a feiticeira caminhou  valise e sacou l de dentro um
pergaminho gravado com frmulas mgicas. Eram inscries to poderosas quanto aquelas do
velho grimrio, mas o desenho era bem diferente, provavelmente desenvolvido por alguma
cultura europia. Os contornos das letras to retilneos, e sim mais circulares. Todos os
caracteres estavam ligados por curvas, dando a impresso de formarem um nico pictograma. A
necromante analisou o documento com cuidado e iniciou a leitura.
         O esprito demorou a aparecer, e Ablon chegou a pensar que ele no mais viria. Quanto
mais evoludo  um ser etreo, mais distante ele est do universo carnal -- e portanto menos
acessvel. As entidades corrompidas so muito dependentes da energia dos seres humanos, por
isso  mais fcil encontr-las vagando, perdidas alm do tecido, do que fixadas em seus
domnios singulares. O convidado conseguinte, no entanto, era justamente o oposto.
         Para atrair a prxima criatura, Shamira precisou recitar o feitio vrias vezes. Quando j
estava exaurida, quase sem foras, uma luminosidade dourada apareceu adiante, flutuando um
metro acima do crculo. O esprito veio sob a forma de um belssimo espectro de luz, que
refulgia em tons acobreados. Ao observ-lo, o Anjo Renegado distinguiu braos e pernas e
tambm a cabea, mas o rosto estava ofuscado, invisvel na claridade.
         A feiticeira largou o pergaminho, fatigada, e quase caiu de joelhos, mas o renegado a
amparou. O esforo exagerado roubara-lhe todo o vigor, e ela precisava respirar, antes de tudo.
         Enquanto Shamira se recompunha, a entidade falou. Sua voz era feminina, suave e
musical, como a melodia adorvel do reino das fadas.
         -- O que voc me traz, feiticeira? -- sibilou a imagem. -- Um celestial... posso sentir
sua aura pulsando. Um querubim... Sexto ciclo. Anjos como ele no costumam visitar o plano
fsico. O que faz aqui, arauto?
        Ablon abriu a boca para responder, mas antes que dissesse palavra a criatura j
replicava:
        -- Voc  um anjo renegado, e est preso ao seu avatar. -- Se ela j sabia, ento por
que perguntou? -- cochichou o general  necromante.
-- Ela no sabia, at ler seus pensamentos. Captou a resposta na ponta da lngua, assim que
voc a formulou em sua mente. Seu nome  Korrigan, deusa celta de grande sabedoria.
        O esprito retomou seu discurso. J entendera, por seus poderes divinatrios, tudo o que
Shamira desejava e o objetivo real daquele ritual.
        -- Os celestiais esto em guerra -- comeou a divindade, proftica. -- O Armagedon,
como os anjos o chamam, est muito prximo agora. Ns, os espritos, no queremos a
devastao do planeta.  por isso que o mundo espiritual est to agitado. A minha essncia,
conforme necessitam, j est no punhal.
        E o que mais?, pensou Shamira, certa de que Korrigan poderia escut-la. Voc no me
ajudaria de graa,., Nem os espritos evoludos nem os deuses etreos so to altrustas. O que
quer como barganha?
        -- Tudo o que eu quero  a preservao dos dois mundos -- manobrou a imagem. -- O
general renegado...  ele que tem na palma da mo a opo do futuro, a chave para trancar a
ganncia celeste. Ele impedir que o Armagedon se complete -- determinou.
        -- Mas esta no  e nunca foi minha inteno -- interpelou Ablon. -- Quando o
Apocalipse terminar, a membrana estar desfiada, e ento subirei at as nuvens, para desafiar o
tirano Miguel. Deus, em seguida, acordar e punir os perversos. Mesmo que eu morra em
batalha, o Prncipe dos Anjos ser condenado por ter instaurado o horror e desrespeitado a
vontade do Pai. O Armagedon , para mim, a redeno final.
        -- E como voc pode ter tanta certeza de que Yahweh despertar realmente? -- props
a entidade.
        -- Assim est escrito no Livro da Vida -- ele rebateu, automtico.
        -- E alguma vez voc j viu esse livro? -- instigou, e o celestial ponderou. O Livro da
Vida era um tomo mstico, dado a Miguel pelo Criador, e que registrava a histria do mundo.
Ali estaria contida toda a sequncia do stimo dia, da feitura do homem ao Juzo Final. Mas s
os arcanjos o acessavam.
        O esprito flutuou  borda do pentagrama. Korrigan podia rastrear pensamentos,
lembranas e emoes e interpretar seus valores.
        -- Nem todas as coisas acontecem como projetamos, guerreiro. Agora, neste exato
momento, um exrcito de anjos est deixando o Quinto Cu e se deslocando para a Fortaleza de
Sion, no plano etreo, onde o arcanjo Miguel aguarda o incio da grande batalha. Se o Prncipe
Celestial vai ser de fato punido pelo Reluzente, no lhe parece estranho que esteja esperando to
ansiosamente pela concluso desta guerra? Qual seria o interesse dele em promover o
Armagedon?
        O Anjo Renegado engoliu seu protesto e ficou em silncio, preocupado, divindade celta
propusera uma questo complicada -- e extremamente releva te. Como ele fora cego por,
durante sculos, nunca ter raciocinado sobre isso!
        E o que mais voc v, esprito?, pensou o querubim. O que mais pode nos velar sobre
os planos alm?
        -- Tudo o que vejo  o crepsculo dos tempos, uma terra arrasada, destruda por
humanos e anjos. Vejo um impasse, o mais fundamental dos dilemas.
Quando muitos j tiverem morrido, e s as cinzas cobrirem a face da terra, voc ter que
resolver uma crise e escolher entre a divindade e a humanidade.
        -- No sei se compreendo. Por que a minha escolha  to importante?
        -- No saberia diz-lo, nem acho que deveria. A sua natureza  reta, mas haver um dia
em que voc decidir pelo mundo.  tudo o que sei.
        -- Eu no esperava por tanta responsabilidade.
        -- Voc sempre foi um rebelde -- afirmou a entidade. -- Mas viver  margem do
mundo  muito mais fcil do que govern-lo. Seu tempo de andarilho findou. Cedo ou tarde,
ter de regressar  batalha, aparecer aos inimigos e assumir seu posto. O Apocalipse j
comeou. O ltimo sinal, o Stimo Selo, acaba de ser aberto. Agora, apenas as Sete Trombetas
nos separam da destruio terminal.
         Poucas vezes, mesmo no paraso, Ablon fora iluminado por tanta argcia. Agora,
estranhamente, o universo ao redor parecia fazer mais sentido, e sua perspectiva sobre muitas
coisas comeou a mudar. Ele no tinha a capacidade de, sozinho, sem o recurso da mgica,
penetrar no plano etreo, e no tinha a menor idia do que l acontecia. Mas o esprito trouxera
informaes preciosas sobre o movimento das tropas celestes.
         O som musical terminou e, abruptamente, a luz sobrenatural apagou. O etreo de
Korrigan se desfez, sumindo do pentagrama. Durante algum tempo, Shamira e Ablon ficaram
quietos, estupefatos, ainda no percebendo a importncia de tudo o que tinham escutado.
         A janela do apartamento acendeu, refletindo a luminosidade mundana dos postes
eltricos e trazendo-os de volta  realidade comum. O contorno dos prdios se destacou na
paisagem, e uma sirene ao longe confirmou o regresso.
         -- Estamos de volta? -- perguntou o renegado.
         -- Ao plano material? Sim.
         -- E o encantamento? Foi concludo?
         -- No. Ainda no. Usarei o punhal energizado para lanar o feitio.
         Dali em diante, a feiticeira sabia bem o que fazer. A parte difcil j fora.  verdade que
nunca tinha testado antes esse ritual, mas a maioria dos encantamentos complexos  efetuada
poucas vezes, especialmente nos dias de hoje, em que h to poucos feiticeiros no mundo.
         Shamira buscou o punhal, na ponta superior do selo, e o tomou entre os dedos. Depois,
rodou nos calcanhares e voltou  presena do anjo.
         -- Estenda o brao. Isso vai doer um pouco.
         Ele esticou o brao direito. Compenetrada, a mulher usou a adaga para marcar uma runa
mgica na parte inferior do antebrao do amigo. A lmina queimou ao toque da pele, deixando
escapar uma fumaa escura e produzindo uma cicatriz pequenina, que delineava a inscrio.
         -- Isso di mais do que um ferimento normal -- constatou o general, provando a
aflio da furada.
         -- A adaga est encantada. O corte est atingindo no s sua carcaa fsica, mas
tambm seu corpo espiritual. Carne e esprito esto sendo aftados -- e afastou a lmina. --
Agora, mostre-me o outro brao.
         O querubim estendeu o antebrao esquerdo, e Sharnira inscreveu nele uma segunda
runa, diferente da primeira, mas seguindo padres iconogrficos semelhantes. Certamente
pertenciam ao mesmo cdigo mgico. H centenas deles. Praticamente cada cultura humana
com tradies msticas tem seu alfabeto oculto.
         A feiticeira terminou de marcar a ltima runa e respirou fundo, esgotada. Largou a faca,
e a arma perdeu o brilho. A energia dos espritos fora consumida, e o feitio, fechado. Os
elementos naturais dentro dos potes de cermica no mais existiam, levados pela fora da
bruxaria. O barro vermelho secou, e todas as frmulas mgicas desenhadas no crculo estavam,
agora, borradas ou ilegveis.
         -- O feitio est completo -- anunciou a mulher, ofegante. Alguns rituais demandam
energia demais, e esse estava no topo da lista.
         Ablon olhou para as queimaduras em ambos os braos. Sentia na prpria pele o poder
das inscries, mas no compreendia sua utilidade.
         -- Esses ferimentos sero cicatrizados no mesmo ritmo dos de um humano normal --
avisou a feiticeira. -- Infelizmente, voc no poder utilizar seus poderes anglicos para
regener-los. Depois disso, restar apenas uma marca escura, como uma tatuagem, que
permanecer gravada em seu corpo at que a runa entre em ao.
         -- E qual  o poder dessas runas?
         -- Cada uma delas tem sua funo. A primeira, gravada no brao direito,  a runa do
corpo. Ela ir poup-lo de um ferimento mortal.
         -- Se eu for morto, ela me trar de volta?
         -- Sim, mas s funcionar uma vez. Depois disso a runa desaparecer e voc estar
novamente vulnervel. De forma semelhante funciona a segunda runa, marcada no brao
esquerdo: a runa da mente. Ela preservar sua mente contra qualquer investida psquica, como
esquecimento, tentativa de dominao e leitura de pensamentos. No importa quo forte seja o
poder de seu atacante, a magia o proteger.


        O renegado sorriu. Ficara satisfeito com o resultado do ritual, mas sua principal alegria
era ver quanto sua amiga evolura, aprendera e se especializara durante todos aqueles anos. Era
sem sombra de dvida a mulher mais fascinante j conhecera, e uma exmia praticante das artes
mgicas. Era inteligente e bela, sabia e atraente.
        -- Acho que estou bem protegido. Esse ritual  muito mais eficiente do que supunha.
        -- Sim... Mas no se esquea, cada runa age apenas uma vez, e no mais.
        A mgica  a mais complexa de todas as atividades do mundo, a mais estimulante e
compensadora. Todavia, anjos e demnios no podem us-la, portanto nunca a compreendero
realmente.
        Um raio dourado entrou pela janela. Um novo dia estava nascendo.
        -- J  dia? -- estranhou o general. -- Pensei que...
        -- O tempo passa mais depressa no plano etreo -- lembrou a necromante.
        -- Ah, sim, claro -- recordou o guerreiro. -- H muito tempo que eu no deixo a
Haled. Os assuntos etreos me fogem.
        Shamira estava arrasada.
        -- Agora preciso descansar e dormir. Acho que no vou despertar antes do pr do sol.
        Ela cambaleava, e o renegado a acompanhou at a cama. Ficou a seu lado por uns dez
minutos e ouviu quando ela sussurrou, antes de apagar finalmente.
        -- O que voc acha que Korrigan quis dizer quando falou que o Stimo Selo j foi
aberto?
        A ateno do celeste estava perdida no cu nublado, atravs da vidraa.
        -- Ela quis dizer que a guerra comea hoje.




                                   VINGADORA SAGRADA

Os QUATRO DIAS DE ESPERA COMBINADOS COM ORION haviam terminado. Sc o demnio cumprisse sua
palavra, estaria esperando por Ablon no princpio da noite, em um ponto especfico  sombra da
ponte Ro-Niteri, uma colossal estrutura de concreto, de treze quilmetros de extenso, que
cruza a baa de Guanabara e liga o Rio de Janeiro  cidade vizinha.
        A despeito do convite que recebera para encontrar Lcifer no inferno, o renegado se
perguntava como faria para chegar at seu anfitrio. E claro que a Estrela da Manh j devia ter
cuidado disso, mas como? Diferentemente dos outros anjos, que podem se materializar e se
desmaterializar  vontade, o general perdera a propriedade de cruzar o tecido da realidade. O
Sheol, assim como o paraso,  um reino espiritual, apesar de no estar sobreposto ao plano
material, como esto o astral e o etreo. Levando em conta essa cosmologia, as chances que
Ablon tinha de atravessar a membrana eram limitadas, para no dizer nulas. A forma mais
comum de rasgar o tecido  mediante rituais mgicos, como aquele ministrado pela Feiticeira de
En-Dor, mas ele no acreditava que Lcifer ou Orion mantivessem um mago de planto para
uma ocasio to peculiar. O mais provvel  que utilizassem portais dimensionais -- portas
msticas que ligam uma dimenso a outra --, mas o querubim desconhecia a existncia de
qualquer um desses pontos de poder naquela regio da cidade. Analisando as alternativas, Ablon
s conseguia pensar em mais um meio -- o rio Styx.
         O rio Styx  um mistrio at mesmo para os malakins. Ningum sabe sua origem, sua
natureza, ou onde comea e termina. Sabe-se, contudo, que  um rio exclusivamente espiritual,
que percorre o etreo em locais especficos. Suas guas agem da mesma forma que os portais,
transportando o viajante para algum reino superior ou inferior. O Styx tem muitas bifurcaes e
trilhas diferentes, todas memorizadas secretamente pelos barqueiros.
         Os barqueiros so seres etreos de procedncia desconhecida. Parecem ser os nicos
que conhecem a verdadeira natureza do Styx e suas rotas. Mediante o pagamento adequado,
essas entidades sinistras podem levar o forasteiro a qualquer lugar.
         Viajar pelo Styx sem ajuda  complicado, muitas vezes fatal. Embora as guas tortuosas
do rio no sejam aparentemente nocivas, guardam perigos. De uma para outra, vertentes amenas
podem desembocar em corredeiras bravias, tornando o nado impossvel. No obstante, alguns
redemoinhos podem sugar os viajantes, e alguns deles so na verdade vrtices que levam a
dimenses inexploradas. Alm disso, muitas criaturas belicosas se escondem nas profundezas e
no hesitam em atacar qualquer um que cruze seu territrio -- muitas vezes em busca de
comida. Inmeros anjos, demnios e deuses encontraram a destruio total no leito do Styx.
         Shamira dormira quase o dia todo, acordando s ocasionalmente para beber gua. Ablon
no desgrudou os olhos da janela do nascer ao pr do sol, estendendo seus sentidos para alm da
vidraa. Estava mais curioso do que apreensivo em razo de sua entrevista com o Arcanjo
Sombrio. Por natureza, sempre desconfiado, uma caracterstica inerente  sua casta.
         Shamira levantou s seis horas da tarde, praticamente restabelecida. Como no havia
banheiro no quarto, teve de usar um chuveiro comum no fim do corredor. Com a gua
escorrendo pelo corpo, sentiu-se muito melhor. Vestiu roupas confortveis, porque no
pretendia deixar o hotel at o general retornar.
         Na volta para o quarto, a feiticeira arrastou uma velha televiso, jogada no corredor,
para dentro do apartamento. O objeto era propriedade do hotel, mas parecia abandonado. Com a
penso vazia, o proprietrio no encontrava utilidade para o aparelho. Shamira tinha o bom
hbito de se manter informada sobre tudo o que acontecia no mundo, ento deu um jeito de ligar
o dispositivo, o que no foi uma tarefa muito simples. Enquanto Ablon estivesse ausente, ten-
taria se divertir com coisas mundanas -- nada de feitios, fantasmas ou bruxarias.
Tudo o que queria era assistir a seriados engraados, comer biscoitos de chocolate e escutar uma
musica agradvel.
         A temperatura voltou a esfriar e comeou a chuviscar. Ablon precisava partir, mas temia
deixar a feiticeira sozinha. Ela sempre soubera se defender, durante todos aqueles anos, mas,
naquela noite, havia uma sensao ruim no ar, um estranho cheiro de perigo, que deixou o
renegado em alerta. Como guerreiros, os querubins s vezes so surpreendidos por premonies
desse tipo. Ele teria desistido da viagem, mas Shamira o tranquilizou.
         -- Meu poder est voltando. No h razo para se preocupar -- garantiu a necromante.
         -- Voc tomou sua deciso. Acho que precisa focar suas energias para o encontro com
Lcifer. Eu  que deveria estar preocupada com voc, e no o contrrio.
         -- Voc tem certeza de que vai ficar bem?
         -- Claro -- ela sorriu. -- Tenho TV, comida chinesa, uma bela vista da cidade... 
claro que ficarei bem -- e piscou um dos olhos, bem-humorada. -- Alm disso, trouxe comigo
alguns objetos msticos para o caso de ocorrer alguma eventualidade.
         Ele pareceu mais seguro e acariciou-lhe os cabelos, descendo a mo ao rosto macio.
         -- Muito bem. Tranque a porta -- disse o renegado, meio srio, meio brincando.
Entregou-lhe a chave do apartamento, vestiu o sobretudo e tocou a maaneta, mas ento a
mulher o chamou:
         -- Espere...
         -- O que foi? -- ele estranhou.
         Quando a viu novamente, a Feiticeira de En-Dor estava ajoelhada ao lado de sua mala
maior, abrindo a tranca e levantando a aba de couro. Dali resgatou um artefato comprido, muito
parecido com uma espada. A lmina estava enferrujada, quebradia e cheia de falhas, e uma
casca spera cobria a superfcie da folha. O cabo era de um metal enegrecido, mais semelhante
ao bronze oxidado.
         -- Quero que leve isso em sua jornada -- pediu a mulher, estendendo a espada ao
amigo.
         -- A Vingadora Sagrada! -- ele exclamou, um tanto surpreso. -- Como a encontrou?
         -- Eu notei os sinais. No estava certa se eram os prenncios do Apocalipse, mas decidi
arriscar. Ento conclu que, se o Armagedon estivesse mesmo prximo, voc precisaria dela
novamente. Voltei ao local onde a tinha deixado e Iniciei a escavao. No foi nada fcil
encontr-la na base da montanha. A energia mstica que havia nela sumiu. No pude usar minha
mgica para rastre-la. Tive de confiar somente nos velhos equipamentos, nos quais felizmente
sou perita.
         --  natural. A espada no vive sem o guerreiro. Sem a fora de minha aura, a
Vingadora Sagrada  apenas um pedao de metal.
         -- Eu sei disso. Por isso a trouxe at voc. Achei que talvez fosse a hora de reviver o
querubim que salvou minha vida.
         --  uma relquia maravilhosa, e s a usaria em ltimo recurso -- ele fez uma pausa e
olhou para a necromante, com todo o afeto. -- Agradeo seu empenho, mas no devo lev-la
nesta viagem.
         -- Por qu?
         -- No me deixariam entrar armado no inferno. Alm disso, a Vingadora no me
impedir de ser morto por Lcifer, se assim ele quiser. Em uma situao extrema as runas tero
maior serventia. Elas so um elemento-surpresa.
         A feiticeira concordou.
         -- Est bem. Mas, sobre as runas, volto a dizer: elas no agem infinitamente. Voc s
ter uma chance de fuga, caso seja atacado.
         -- Farei o mximo para me manter vivo, feiticeira, quantas vezes puder. Ela ps a arma
de volta na mala, e o guerreiro deixou a penso. Um pressentimento terrvel a sacudiu, e ela
pensou em avisar ao general, mas talvez fosse um calafrio.
         S um calafrio.
         Agora, pelo menos, o Anjo Renegado sabia onde estava a Vingadora Sagrada e clamaria
por ela, se assim desejasse.


                                 O SENHOR DOS VULCES

         Em uma determinada altura da ponte, quase chegando a Niteri, as guas da baa de
Guanabara vo ficando mais rasas, e a via de concreto segue por mais trs quilmetros sobre
terra firme. Nesse ponto, o que se v  direita  uma paisagem decadente, cujo centro  um
complexo de indstrias de peas navais e materiais pesados. De seus galpes brotam fileiras de
tubos de concreto que despejam esgoto e resduos txicos no mar. As margens, prximas s
fbricas, exibem dormes pedaos de metal enferrujado e carcaas podres de petroleiros. O
cheiro do ar  repugnante, e as partculas de sujeira expelidas pelas chamins aderem s
superfcies, padronizando as construes com um deprimente tom cinza-escuro.
         Uma faixa contnua, de areia suja, estende-se ao longo de dois quilmetros  sombra da
ponte, dando forma a pequenas praias de guas negras, constan-temente cobertas pela nvoa da
poluio.
         A motocicleta de Ablon contava com boa trao e pneus resistentes, por isso ele
conseguiu seguir dirigindo at o exato local onde marcara o encontro com Orion. Era uma
dessas praias escuras, rejeitadas at mesmo pelos insetos rastejan-tes. Por ter estacionado bem
debaixo da ponte, o renegado achou que o rudo dos carros seria insuportvel, mas olhou para
cima e viu que as pilastras que sustentavam a pista tinham mais de trinta metros de altura --
distncia suficiente para dispersar qualquer barulheira.
         Desligou o motor, mas deixou o farol ligado, para indicar sua posio. Era uma atitude
mais simblica do que prtica, pois sabia que os demnios enxergavam na escurido -- at bem
demais.
         Segundos antes da hora combinada, a fumaa pareceu expandir-se -- mas no era a
poluio, realmente. O denso nevoeiro que avanava no vinha das fbricas nem de nenhuma
outra fonte mundana. Assemelhava-se, muito mais, a uma bruma espectral, uma fora diablica
dragada das dimenses esquecidas. O farol da motocicleta falhou, e ento o anjo sentiu um
abalo no tecido da realidade.
         Ablon entendeu que seus anfitries se aproximavam e desmontou, caminhando em
seguida para perto do mar. Em meio  neblina, surgiu um barco mediano, confeccionado em
madeira, muito parecido com as embarcaes usadas pelos egpcios durante o Novo Imprio
para navegar pelo Nilo, porm sem velas. Era longo e fino, com a proa e a popa distantes, e
dotado de uma cabine fechada no centro. Tal cabine tinha o teto alto, o que bloqueava a viso
dos passageiros  outra extremidade do barco. Mas o detalhe mais assustador era, com efeito,
seus condutores -- fantasmagricas criaturas guiavam o transporte, e o fugitivo deduziu que
fossem eles os estranhos barqueiros.
         Ablon nunca viajara antes pelo rio Styx e jamais tinha se deparado com ura daqueles
seres bizarros. Vestiam tnicas negras, com capuzes longos que cobriam totalmente o rosto.
Dois deles empurravam o barco com varas longas. A aparncia em si no era assustadora, mas o
que impressionava, sem dvida, era a ausncia total de emanaes msticas provenientes de seus
espritos negros. Era como se no existissem, como se simplesmente no estivessem ali. No
podia senti-los.
         Em p, sobre uma elevao na proa, estava Orion. Mostrava a antiga imponncia real e
vestia a mscara da aparncia humana.
         Anjos e demnios so esprito de luz, ou de trevas, cujas formas verdadeiras s podem
ser percebidas nos reinos espirituais. Os anjos, em geral, so muito parecidos com os seres
humanos, mas a grande maioria dos demnios reflete no corpo espiritual a corrupo do
corao. So a imagem da decadncia, e sua  quase sempre distorcida e monstruosa.
         Celestiais e infernais diferem dos espritos comuns porque possuem a habilidade de se
materializar. Os avatares so dotados de rgos humanos, ossos, carne e sangue, mas no
necessitam de alimentao, a no ser quando esto feridos. Os avatares so idnticos  estrutura
corporal humana, no importa qual seja a forma espiritual daqueles que a controlam. A
aparncia exata  definida pela entidade, que normalmente escolhe a forma que mais lhe
convm. Querubins, por exemplo, preferem avatares fortes e resistentes, ao passo que demnios
negociadores e trapaceiros costumam adotar um semblante mais carismtico, de moas bonitas,
velhinhos simpticos ou crianas adorveis.
         Os nicos apndices sobrenaturais que anjos e demnios podem manifestar no fsico so
as asas. Alguns demnios, porm, no as possuem, e naturalmente no tm como invoc-las.
Ambos, todavia, raramente fazem isso. Desprender as asas gera grandes abalos no tecido, o que
torna o processo praticamente impossvel em reas em que a membrana  espessa.
         Quando um celestial retorna ao plano espiritual e ascende ao cu, o avatar se dispersa
no tecido da realidade, sumindo do universo palpvel. A nica maneira de um celestial ou um
infernal alcanar o mundo fsico sem utilizar a materializao  por meio de rituais mgicos,
executados por bruxos e feiticeiros. O avatar de Orion sofria de uma deformidade na perna. O
joelho se partira muito tempo, durante os ltimos dias de Atlntida, quando o obelisco principal
da cidade tombara sobre ele, esmigalhando os ossos abaixo da coxa. Por razes inexplicveis, o
ferimento nunca sarou por completo, e ele era obrigado a recorrer ao apoio de uma bengala.
         Os olhos de Ablon encontraram o rosto de Orion atravs da bruma cerrada, no instante
em que o barco ancorou.
         -- Sabia que viria, meu amigo -- disse o Rei Cado, com um tom de voz calculado,
caracterstico dos satanis. A expresso era sbria, mas no escondia a satisfao por estar,
novamente, ao lado de seu companheiro celeste.
         O general conhecia bem as vibraes do amigo e teve certeza de que aquele  sua frente,
na proa, era mesmo o antigo elohim, e no um simulacro enviado por Lcifer para embosc-lo.
A desconfiana se foi, e ele pulou com elegncia para dentro do barco.
         Ao notar o ingresso do passageiro, os barqueiros aparentemente entenderam o que
vieram buscar e fincaram os bastes no leito, preparando-se para dar meia-volta. O anjo apenas
os observou em silncio.
         -- Nossa viagem no ser longa -- avisou Orion, enquanto o barco regressava 
fumaa. De repente, as margens sumiram, e a baa desapareceu. A gua mudou de cor e
consistncia, passando do verde-escuro ao vermelho-sangue. Penetravam assim em outra
dimenso.
         O renegado no disse nada. Analisou as alteraes e os movimentos das criaturas de
negro.
         -- Voc deve estar se perguntando quem so esses, no ? -- falou o atlante, indicando
as entidades sem rosto. -- No, eles no so demnios, como eu. So os barqueiros.
         -- Eu imaginei -- concordou o querubim, pela primeira vez. -- Ento, vamos pegar a
rota pelo Styx?
         --  a maneira mais rpida, e por isso muito mais cara.
         O general no conhecia a logstica daquelas viagens. Nunca precisara percorrer as vias
ocultas.
         -- E qual foi o pagamento exigido?
         -- Essncia -- revelou o amigo. -- Eles apreciam muito a energia de nossa aura
pulsante.
         Ablon entranhou a resposta.
         -- Senti suas emanaes quando subi a bordo, Orion, e ainda as sinto agora. Se voc
usou a energia de sua aura para pagar os barqueiros, deveria estar exausto por isso.
         -- No fui eu que paguei pela viagem -- interrompeu o infernal, apontando  popa.
         O querubim esticou o pescoo e avistou, na outra extremidade do barco, os contornos de
uma criatura humanoide, envolta pelas sombras da noite.
         -- Foi Amael, o Senhor dos Vulces -- emendou o cado. -- Ele cedeu uma boa
quantidade de sua energia aos barqueiros. Vai ficar enfraquecido por algum tempo. Por isso
voc no sentiu a presena dele. Ele est vazio.
         -- Amael... -- murmurou o general, mais para si. Lembrava-se com clareza daquela
figura, outrora gloriosa, que um dia fora um anjo tambm, mas como muitos, acabara iludida
pelas falsas promessas de Lcifer, juntando-se ao Arcanjo Sombrio na guerra contra Miguel.
         Comovido, o renegado fez meno de rumar ao seu encontro, mas Orion o deteve.
         -- No -- alertou o demnio. --  melhor no chegar muito perto. Ele no conseguiria
encar-lo.
         -- Por qu?
         -- Voc conhece a histria. Amael foi, no passado, um ishim, um anjo que controlava
as foras da natureza. Seu ttulo era Senhor dos Vulces, por causa de seu poder supremo sobre
a provncia do fogo. Quando Miguel e os arcanjos ordenaram o dilvio, Amael foi escolhido
para executar a misso. Usou toda sua potncia para derreter as calotas polares e aumentar
assim o nvel dos oceanos. Mas, na verdade, ele nunca quis ter feito aquilo. Seu pupilo, Aziel,
teve a chance de recusar o encargo, mas ele no teve sada. E responsvel pela morte milhes, e
ainda assim um inocente -- Orion fez uma pausa e fitou-lhe a silhueta sombria. -- Tomado por
um terrvel sentimento de culpa, ele se juntou ao Diabo e caiu ao inferno, como eu. Hoje,  um
zanathus, um demnio elemental.
         -- Foi esse o mesmo dilvio que destruiu sua cidade de Atlntida. Foram as mesmas
guas que sepultaram seus sonhos?
         -- Sim. Eu considerava Amael responsvel. J senti muito dio dele. Agora, contudo,
s consigo sentir pena. Pobre criatura atormentada. Um assassino de milhes, vtima do prprio
crime.
         Havia muito que os antigos companheiros no conversavam daquela maneira. Tinham
sido separados pela arrogncia de seus lderes, mas nem mesmo a distncia liquidara a amizade.
A presena do Rei Cado transportou Ablon de volta a Atlntida, a majestosa capital dos reinos
de antigamente.
        -- O dio nos transformou em monstros, meu amigo -- discorreu o querubim. E a
verdade  que, por mais que eu decida participar de uma guerra, j me cansei dessas matanas
interminveis. Cansei de fugir. Minha maldio no  ser um renegado, mas ter sido obrigado a
me tornar um assassino. Estou farto de matar para me manter vivo.
        -- Voc no  mais um fugitivo, general, e nunca foi um assassino. O tempo das
perseguies acabou.  chegada a hora de selar alianas e deixar o passado de lado. No  mais
importante quem fomos, c sim o que somos e o que seremos. Todos temos os nossos pecados.
Alguns j pagaram por eles, outros no, o que importa? Cedo ou tarde, todos tero de enfrentar
a sentena. E no nos cabe julg-los. A ns, cabe apenas fazer o que achamos certo. Assim
garantiremos nossa redeno.
        As palavras de Orion pareciam emanar do prprio general renegado. O passado em
comum moldara neles os mesmos valores, as mesmas convices. Era difcil entender como o
acaso os pusera em lados to diferentes.


                               No VALE DOS CONDENADOS
         O barco navegava nas trilhas etreas do Styx, guiado pela hbil conduo dos
barqueiros. As guas avermelhadas estavam mais agitadas, mas a nvoa recuara, permitindo a
viso das margens. Deslizando pela orla, corria uma srie de vultos, mas Ablon no conseguiu
identificar suas formas. Como os condutores nada fizeram, ele concluiu que tais monstros eram
inofensivos. Acima, o cu era uma cortina escura, estril, sem lua nem estrelas.
         Em certo momento, um cheiro agradvel despertou a ateno dos passageiros. Estava no
ar, nas guas do rio, em todo lugar. Era um tipo de vapor aromtico, que guardava em si a
maravilhosa fragrncia das flores silvestres. Assim, quando o querubim olhou em volta, o
cenrio tinha mudado radicalmente. O ambiente sombrio desaparecera, e uma luminosidade
confortvel branqueara a paisagem. Ablon reparou na beira fluvial e percebeu que agora o rio
cruzava uma dimenso florestal. Flores multicoloridas dividiam espao com rvores magnficas,
que de to belas nem existiam na terra. Esquilos escalavam os troncos, coelhos bebiam gua das
poas, e uma raposa dormia entre as razes de um grande carvalho.
         -- Voc sabe que lugar  este? -- Ablon perguntou.
         -- No tenho certeza -- respondeu Orion. -- Os barqueiros do Styx nunca pegam a
mesma rota mais de uma vez. Imagino que estejamos cruzando a Arcdia, a terra das fadas.
         -- A terra das fadas -- concordou. -- Ela  incompreensvel at mesmo para ns. Mas
pensei que as fadas vivessem no plano etreo, que permeia o mundo fsico. No imaginava que
tivessem tambm uma dimenso s para elas.
         --Alguns dizem que elas migraram para o mundo dos homens h muito tempo, mas  a
Arcdia sua casa central -- arriscou o atlante.
         -- E por onde mais deveremos passar?
         -- No sei. Foi Amael quem liderou toda a barganha. Ele me disse que o rio Styx era
largamente usado antigamente, pelos deuses pagos, e que foi abandonado depois das Guerras
Etreas. Contou-me sobre a lenda dos leviats, barcos como este, mas gigantes, capazes de
transportar milhares de almas.
         No muito tempo depois, o barco fez uma curva brusca  direita, invadindo um canal
secundrio e subindo o rio contra a corrente. A visibilidade era boa, e logo  frente os
passageiros avistaram uma pequena cascata, cuja queda descia por uma encosta rochosa. Pelo
curso da embarcao, passariam bem debaixo da cachoeira. Os viajantes sentiram os respingos,
mas as guas se abriram e o barco correu para dentro de um tnel lotado de estalactites.
         A sensao de tranquilidade foi ficando para trs. Gritos de desespero se fizeram ouvir
-- terrveis berros humanos, cheios de pavor e angstia. Por algum motivo, Ablon achou que
estavam no caminho certo para o inferno. Com sentidos apurados notou, mesmo na escurido,
que as paredes de pedra decoradas com rostos de homens e mulheres, que se moviam presos 
argila.
         Enfim, o barco deslizou para fora do tnel e saiu em campo aberto. Proseguiu rio abaixo
por uma regio detestvel, de cu avermelhado, conhecida pelo nome de vale dos Condenados.
Uma plancie tenebrosa nascia  margem do rio, e seu solo estava amontoado, at onde a vista
alcanava, de pedaos de corpos humanos, que se contorciam em agonia. Criaturas hbridas --
misturas bizarras de homem e bicho -- pulavam sobre os cadveres, mordendo e devorando-
lhes as carnes. Em alguns pontos, buracos no cho cuspiam jatos de fogo, formando lnguas de
chamas.
         -- Este lugar sempre foi horroroso -- divagou Ablon --, mas percebo claramente o
toque pessoal de seu amo aqui. Lcifer transformou o Sheol em uma segunda Gehenna.
         -- Meu amo  o senhor da dor e do desespero. Mas no sinta pena daqueles que voc v
sofrendo aqui. Eles fizeram por merecer.
         Sob os ps do querubim, o soalho de vime tremeu. Eram os condutores que atracavam o
barco, prendendo as cordas s hastes do fundeadouro -- uma apavorante estrutura, toda
construda com ossos humanos.
         O Rei Cado deixou a embarcao e seguiu por uma estrada pavimentada crnios, que
passava em meio aos corpos e a terminar na boca de uma cama de pedras chamuscadas. Em
algum lugar ali dentro, a Estrela da Manh aguardava seu convidado.
         Ablon pisou fora do barco, tencionando acompanhar o amigo, mas algum o segurou
pelo brao. Como no tinha sentido nenhuma vibrao, o renegado imaginou que fosse um dos
barqueiros, mas ao se virar descobriu o pobre Amael, o Senhor dos Vulces, que lhe chamava a
ateno. Conservava a aparncia humana, que usara para ir  Haled. Os olhos castanhos eram
profundos, afundados em olheiras pesadas. O cabelo longo e crespo pingava de suor, e ele
parecia muito fraco e exausto -- at mesmo a fala vacilava.
         -- General... voc me perdoa? Perdoa-me pelo que fiz? -- a voz soou rouca, como o
suspiro de um doente final.
         O querubim no pde ficar insensvel  situao. Teve pena do infernal, uma entidade
perturbada, cheia de mgoa no corao.
         -- Voc no precisa do meu perdo, Amael. Alm disso, quem sou eu para perdo-lo?
Sou apenas um fugitivo, s isso -- retrucou, meio sem jeito. No se via na posio de juiz,
muito menos de salvador.
         O olhar do zanathus brilhou de esperana, e ele voltou a suplicar:
         -- Voc sabe que o que fiz foi errado. Nunca concordou com as ordens dos arcanjos.
Sabia que Miguel ordenava as catstrofes porque odiava os terrenos, tinha inveja deles. Aqui, no
poro, a maioria acha que agi corretarnente.  por isso que preciso do seu perdo -- implorou.
         Ablon analisou o infeliz, com toda a piedade do mundo, e pousou-lhe a mo no ombro,
s para confort-lo.
         -- Se isso vai faz-lo sentir-se melhor, ento eu o perdoo.
         -- Obrigado, general -- a criatura abaixou a cabea, agradecida, -- Um dia me
redimirei por completo.  uma promessa.
         J a distncia, o Rei Cado de Atlntida, parado sobre a via de crnios, chamou o
general.
         -- Ablon, meu senhor o aguarda.
         O renegado voltou-se ao abatido Amael pela ltima vez, mas ele j tinha regressado 
penumbra. Tentou esquecer a cena no barco. Tentou expulsar a angustia do corao. Tentou
esquecer a dor daqueles que estavam sofrendo, no cu, na terra e tambm no inferno. Deixou os
tormentos para trs e retomou a confiana.
         Deu as costas para o ancoradouro e seguiu em frente, diretamente ao covil da serpente.


                                     O EXTERMINADOR
         A entrada da caverna estava sendo vigiada, e seu guardio no era uma sentinela
comum.
         Ningum menos do que o demnio Apollyon, o Extermnador, antes conhecido como
Anjo Destruidor, um dos assassinos mais temidos do inferno, defendia a passagem.
Coincidncia ou no, era tambm o maior inimigo de Ablon, e isso j havia milhares de anos.
Alguns dizem que as antigas inimizades nunca se acabam, mas ganham fora, acumulando dio
e fria, e por vezes explodem em ataques violentos. Durante a maior parte de sua existncia, o
Anjo Renegado soubera controlar sua ira, mas a presena do malikis sempre despertava nele
uma raiva especial. Dessa vez, porm, era o general quem dava as cartas. Ele havia sido
convidado e contava com a proteo do chefo. Preferiu, ento, conter seus impulsos destrutivos
e no acometer de primeira.
         Quando os dois lutadores se encararam, porm, a tenso no pde ser evitada. Eram
combatentes por natureza e desejavam, os dois, entrar em duelo. O demnio avanou, mas
Orion o deteve.
         -- Afaste-se, Apollyon, ele  nosso convidado.
         O Exterminador segurava uma espada mstica, a famigerada Fogo Negro, tecida por ser
a arma mais poderosa do universo, superando at mesmo as relquias dos arcanjos. Pertencera
ao deus Behemot, servo de Tehom, e fora um presente de Lcfer. Conhecida por tomar parte
em incontveis crueldades, sua lmina era escura, larga e pesada, e ardia em chamas negras,
espectrais. Era cobiada por todos os demnios guerreiros, mas no havia quem a roubasse de
seu esgrimidor. Agressivo, ele desembainhou sua folha, mas a manteve apontada ao cho.
         O corpo do Destruidor parecia humano, mas o rosto deformado denunciava a marca de
sua discrdia. Os olhos eram como globos pretos, e da boca saltavam duas fileiras de dentes
pontudos. Uma longa queimadura do lado direito da face, que comeava na cabea e terminava
no queixo, deixava a carne exposta, revelando parte dos msculos e dos tecidos do crnio. O
ferimento fora infligido pelo Flagelo de Fogo, a espada flamejante do arcanjo Gabriel, durante a
guerra no cu.
         Apollyon era mais alto e mais forte que Ablon, mas no to gil e resistente. Suas asas
estavam recolhidas, imperceptveis. Mais tarde, Orion revelaria que o monstro no costumava
us-las, quase nunca.
         O malikis no liberou o caminho, ento o satanis forou a passagem. Mas o guardio
no queria ceder e apertou forte o cabo da espada. Seu olhar fulminava o renegado, seu inimigo
de eras.
         -- Ablon, o Anjo Renegado... -- desdenhou o assassino, numa voz inumana.
         -- Deve ter muita coragem para vir aqui, sozinho e desarmado -- o comentrio soou
como uma ameaa.
         -- Eu imaginei que voc no entenderia -- respondeu o celeste, impassvel. -- Mas no
estou desarmado -- e olhou para os prprios punhos. -- Acho que posso fazer um bom estrago
com o que j tenho -- provocou, referindo-se, obviamente,  sua tcnica de batalha, a Ira de
Deus.
         O demnio guerreiro sorriu, malicioso.
         -- Continua arrogante. Tem sorte de estar vivo. Seus amigos, porm, esto todos
mortos. Eu mesmo acabei com muitos deles. A cabea de seu principal comparsa, Yarion, tem
lugar de honra em meu castelo. A Irmandade dos Renegados sucumbiu finalmente. E, em breve,
voc encontrar a mesma fortuna.
         -- Se  assim to capaz, por que nunca me venceu? Eu sempre estive na Haled,  sua
espera. Muitos demnios encontraram o meu rastro e a todos superei.
         A clera  um sentimento inerente aos malikis, a ordem de diabos guerreiros. Apollyon
era a imagem do caos e pouco podia fazer para segurar sua raiva. No estava preocupado em
dominar seu ardor, mas s em destruir, liquidar, esmagar. Assim,  declarao do celeste,
investiu sem pensar, erguendo a espada em posio de combate. Mas o querubim no se moveu
e, antes que o Exterminador atacasse, o Rei Cado de Atlntida se interps entre os dois,
esfriando a tenso.
         -- No, Apollyon. No haver peleja neste lugar -- censurou, usando toda sua oratria
monrquica. -- J disse que Lcifer tem assuntos com ele.
        Furioso, o Destruidor acatou, sem saber ao certo por qu, e liberou a entrada.
        -- Tenha pacincia, malikis -- instigou o Anjo Renegado. -- O Dia do Ajuste de
Contas est prximo.
        Ainda cheio de raiva, mas impedido de avanar pelos poderes repelentes de Orion, o
infernal replicou, em carter proftico:
        -- Ablon, seu destino  to rubro quanto suas asas.
        -- E o seu  to negro quanto seu corao.


                                 A PROPOSTA DE LCIFER

         Orion e Ablon desceram por tneis obscuros, que terminavam em um grande salo
escavado na pedra. Uma galeria nascia alm da passagem e estava abarrotada de ossos, do cho
s paredes. Labaredas ocasionais brotavam do solo, iluminando o cenrio e soltando fumaa.
         Apesar da amplitude da gruta, o renegado experimentou uma desagradvel sensao de
claustrofobia, talvez por causa da atmosfera enevoada, que reservava zonas de penumbra aqui e
ali, ocultando inominveis perigos.
         Lcifer, a Estrela da Manh, estava no fundo da furna, elegantemente sentado em seu
trono de crnios. Sua postura majestosa era muito superior  dos lderes comuns e imitava a
imponncia de um deus. De longe, parecia um homem belssimo, de rosto juvenil, traos finos e
aparncia angelical. A pele era macia, delicada, e os olhos refletiam um azul profundo, tal qual
o brilho do cu. Os longos cabelos loiros estavam presos em trana, atados por pequeninos fios
de ouro. Uma tnica de seda branca cobria-lhe todo o corpo delgado, deixando escapar a nica
coisa que realmente o distinguia como um ser infernal: um horrendo par de asas de morcego.
         Em p, a seu lado, estava seu principal conselheiro, o odioso demnio Samael. 
primeira vista, era s uma criaturinha desprezvel, magra e esguia. Tinha, o corpo como o das
serpentes e uma lngua dupla que se agitava para dentro e para fora da boca, por entre as presas
ofdicas. Andava se arrastando, pois no tinha pernas, s braos, iguais aos humanos, em
contraste com sua forma bizarra.
         Quando ainda era um anjo, Samael fora incumbido da tarefa de transmutar-se em cobra
e ir ao Jardim do den tentar o memorvel Ado. Sua natureza vil e perigosa o aproximou de
Lcfer desde o incio, e depois da queda acompanhou seu mestre s trevas do Sheol. Ao
converter-se em demnio, continuou deixando sua marca detestvel na humanidade, tendo
guiado inmeras almas  corrupco. Ficou to famoso entre os terrenos que muitas vezes foi
confundido com o prprio Diabo, recebendo dos mortais a designao de Sat ou Satans.
         Orion se ajoelhou diante de seu mestre, espalhado na cadeira de ossos. Mais atrs,
Ablon estava em alerta.
         -- Bom trabalho, meu servo -- elogiou o Arcanjo Sombrio, reconhecendo o esforo do
Rei Cado de Atlntida. -- Agradeo por sua lealdade.
         Depois, encarou o general, satisfeito, e voltou-se a seus comandados.
         -- Orion, Samael -- falou aos demnios. -- Podem ir agora.
         -- Sim, meu amo -- aceitou o atlante, retornando ao mesmo tnel por onde tinha
entrado, Samael se arrastou e desapareceu em um canto obscuro.
         Quando teve certeza de que seus sditos j no o escutavam, o Filho do Alvorecer
relaxou e abriu um sorriso cordial.
         -- No imagina como estou feliz por ter aceitado meu convite.
         -- Poupe-me de suas amabilidades, Lcifer. Esta  uma viagem de negcios.
         -- Mas  claro que  -- acedeu a Estrela da Manh, com um sorriso malvado, ocultado
pela fumaa das labaredas.
         -- O que aconteceu com seus chifres e cauda? Voc parece ter mudado bastante desde a
ltima vez que o vi.
         O Arcanjo Sombrio se levantou, deixando transparecer muita calma. A auto-confiana
certamente era sua caracterstica mais importante.
         -- Ora, general, no fique impressionado. Posso assumir qualquer forma. No princpio
at eu me surpreendia, mas depois de tantos anos a coisa vai ficando aborrecida. "O Diabo tem
muitas faces." Voc j deve ter ouvido isso em algum lugar.
         A expresso sria de Ablon no se alterou, apesar do humor diablico.
         -- Entendo -- disse apenas, como quem no v graa em uma piada de mau gosto.
         Lcifer caminhou firme na direo do renegado, mas estacou a uma distncia aceitvel.
         -- A propsito, espero que Apollyon no tenha causado problemas na entrada. Se o fez,
peo desculpas. Tente compreender que ele e voc so como os dois lados de uma moeda.
Absolutamente diferentes, mas pertencentes  mesma pea.
         -- O que quer dizer? -- reagiu o celeste, perguntando a si mesmo se aquele no era
mais um dos muitos estratagemas da espcie infernal.
         -- Perceba, o destino de vocs est unido desde o princpio. Apollyon uma vez foi um
anjo, encarregado de destruir Sodoma e Gomorra. E sabemos que a conjurao que voc
comandou foi deflagrada quando Miguel ordenou a aniquilao dessas duas cidades.
Infelizmente vocs puseram tudo a perder quando levantaram armas contra o conselho.
         -- Infelizmente -- Ablon se apressou em esclarecer -- confiei minha revolta a um dos
arcanjos, a um dos grandes. Acreditava que ele tambm estava indignado com a tirania do
prncipe e com sua inteno de acabar com a humanidade.
         Ao dizer isso, o guerreiro olhou zangado para o anfitrio e completou:
         -- Mas esse arcanjo me traiu.
         O Filho do Alvorecer logo entendeu a indireta e passou  defensiva: -- Eu no queria
de fato faz-lo, Ablon, juro a voc! -- protestou, com um toque de inocncia infantil.
         -- Ento por que o fez? Voc sabia que delatando a conjurao conseguiria mais poder
e prestgio. Foi por isso, no foi? Ambio.
         -- Sim, sim! -- exclamou, excitado por ter a oportunidade de expor sua verso. -- Eu
os delatei para poder subir na hierarquia e me igualar a Miguel. S assim poderia arquitetar
minha prpria rebelio e ter chance de sair vitorioso. Eu sabia que vocs nunca despojariam o
tirano. Eram apenas dezoito. Dezoito anjos! -- Lcifer se esforava para ser convincente. --
Eu, ao contrrio, consegui trazer um tero do cu para o meu lado. Tnhamos realmente a
chance de vencer. Ser que entende agora? No foi nada pessoal. Nunca tive coisa alguma
contra voc. Sempre admirei sua vontade e sua perseverana. Mas tive de sacrificar a irmandade
para dar incio a algo muito maior, que, eu imaginava, duraria para sempre.
         -- No seja hipcrita, Lcifer. Voc nunca quis o bem dos humanos, tampouco dos
anjos. Queria depor Miguel por razes particulares. Queria tomar o lugar dele e ascender acima
de Deus.
         -- Isso no  verdade, general. Quero o bem da humanidade, E foi por isso, que o
chamei aqui. Para evitar que nosso inimigo traga o Armagedon sobre a terra.
         -- E por que voc acha que eu ia querer impedi-lo? O Armagedon marca o despertar do
Altssimo. Yahweh acordar de seu sono e punir os injustos.
         -- Ora, Ablon, pense bem! Se isso  verdade, ento por que Miguel est se preparando
para o Juzo Final, por que est to vido por esse momento? Ele  um opressor e seguramente o
primeiro a ser condenado se o Criador acordar.
         -- Qual  sua hiptese, ento?
         -- Miguel provavelmente descobriu um meio de usar a energia que ser despreendida
ao despertar do Altssimo para se converter em um deus, ele prprio -- declarou Lcifer,
chegando ao ponto em que queria.
         O querubim estava confuso.
         -- Isso  possvel?
         -- Sem dvida.
         Ablon sabia que a Miguel no faltava vontade de tornar-se onipotente. Sua gana de
poder era ilimitada. Ele seria capaz de qualquer coisa para alcanar a divindade, at mesmo
roubar a energia do Pai. Quanto a isso o renegado tinha certeza, mas como o prncipe pretendia
implementar seu projeto macabro?
         A Estrela da Manh passeava pela caverna, aguardando a reflexo do guerreiro. As asas
de morcego movimentavam-se lentamente, para frente e para trs, acompanhando o caminhar
elegante. Parou ao lado de uma labareda e brincou com o fogo, pondo o dedo na chama.
         -- Estou pedindo sua ajuda para impedir que o Prncipe dos Anjos conclua seu plano
terrvel, poupando assim milhares de vidas humanas -- desfechou o Senhor do Sheol.
         -- Se  verdade que Miguel pretende ascender ao nvel de Deus, o que me assegura que
voc no tentar imit-lo?
         -- J disse que no quero ser Deus, Ablon. Talvez no passado, quando ainda um
arcanjo, isso j tenha me passado pela cabea, mas hoje no. D uma olhada  sua volta. Tenho
meu prprio reino aqui. Tenho meus servos. Nada me ameaa, nem as legies celestiais --
garantiu, caminhando de volta ao trono. -- Trazer as almas injustas para c e tortur-las  o que
eu gosto de fazer, voc sabe disso. Para mim,  imperativo preservar as coisas como esto.
Anjos no cu; ns, demnios, no inferno. No h ningum que se beneficie mais com disputa do
que eu. Ela move o paraso tambm, mas a verdade  que meu irmo percebeu que est
perdendo. A degradao tomou conta da humanidade. Cada vez mais, os mortos vm at mim.
Por isso Miguel quer o fim do mundo, quer que o tecido se desintegre logo.
         O Diabo se sentou novamente e teceu uma explicao mais detalhada:
         -- Ns, os infernais, no temos devaneios de pureza. Veja o caso daqueles que morrem
em bondade. Seus espritos seguem ao cu e l permanecem por toda a eternidade, enfiados
naquelas chatssimas colnias celestes. Os arcanjos nunca permitiriam que se tornassem alados.
Mas ns... ah, conosco  diferente -- regozijou-se. --Toda alma corrompida que vem para c
tem sua chance de crescer, de prosperar e de vir a comandar hordas inteiras. No  um caminho
fcil,  claro, mas com isso nossas forcas esto se multiplicando. Em breve teremos contingente
suficiente para invadir o paraso.
         Ablon no gostou nem um pouco do que ouviu, mas Lcifer o tranquilizou:
         --  claro que no pretendemos fazer nada disso. Sei, melhor do que ningum, que no
h trevas sem luz. Mas a verdade  que aquele dspota l no poleiro -- e apontou um dedo para
cima -- est se borrando de medo do que eu possa vir a fazer -- o tom ficou mais agressivo --
e encontrou a hora certa para agir.
         A capacidade de persuaso do demnio era lendria. Por muitas vezes, Ablon tinha
repetido para si mesmo que recusaria o acordo, mas agora no podia negar que estava ansioso
para ouvir a proposta. Ainda no sabia se a aceitaria, mas o fato era que os argumentos do
Arcanjo Sombrio faziam todo sentido. Poucas vezes o guerreiro escutara verdades to srias
sobre o tirano Miguel, e as proposies de Lcifer, com efeito, eram postas de forma que ambos
pareciam j aliados contra um perigo maior.
         -- Digamos que eu aceite. Qual  minha parte no acordo?
         O Filho do Alvorecer sorriu na penumbra e se ajeitou no trono de ossos.
         -- Voc conhece a Fortaleza de Sion. No era uma pergunta.
         -- Eu a vi ser construda.
         -- Em uma cmara no penltimo andar de Sion, est a Sala dos Portais.  um aposento
circular, com muitas portas, que na verdade so passagens msticas para outros planos de
existncia. Uma delas leva ao Sheol, ligando a cmara a um ponto especfico no inferno, muito
prximo a esta caverna em que estamos agora. O que voc precisa fazer  entrar na torre e abrir
a porta correra. Assim, eu e minhas hostes poderemos invadir o baluarte por dentro. Pegaremos
Miguel desprevenido e o mataremos, abreviando assim seus dias de crueldade. De outra
maneira, nunca poderamos penetrar na bastilha.
         O Anjo Renegado fitou o vazio, digerindo aquelas palavras. Enquanto isso, Lcifer
enfiou a mo em um buraco ao lado do trono e de l tirou um objeto rstico, moldado em barro
slido. Tinha a forma de uma cruz, envolta por um: anel, e o tamanho no superava o de uma
palma aberta. A aparncia era ordinria, mas suas vibraes eram muito fortes. A superfcie
estava marcada por inscries msticas, em uma linguagem s acessvel aos anjos.
         -- Pegue! -- o Arcanjo Sombrio jogou o objeto no ar, e o lutador o agarrou reflexo. --
Esta  a chave. Basta que voc a encaixe na cavidade da porta e empurre a passagem. Estaremos
l em instantes.
         O renegado analisou a relquia e constatou sua autenticidade.
        -- Por que eu? -- indagou de repente, ainda relutante em concordar. -- Por voc
precisa de mim para fazer o servio?
        Lcifer contemplou o convidado, com certo ar de admirao.
        -- Primeiro porque voc  o melhor combatente que conheo. Depois de tudo pelo que
passou e de todos os inimigos que enfrentou, no creio que haja no mundo quem possa venc-lo
em combate direto -- era um exagero,  claro, a Estrela da Manh entendeu que deveria exalt-
lo, como tcnica de eloquncia. -- Segundo, porque voc viveu muito tempo na Haled e sabe
melhor que ningum ocultar sua aura pulsante. Por isso, os guardies de Sion no podero ser
alertados de sua presena, se decidir por uma infiltrao sorrateira, o que recomendo
fortemente. Afinal, nem mesmo um general sobreviveria a um exrcito de querubins furiosos --
concluiu e aguardou a reao do guerreiro, deixando-o bem  vontade.
        Ablon estava ainda indeciso, mas no sabia exatamente por qu. Como poderia acertar
um pacto com a mesma entidade que, havia anos, pusera ele e seus amigos na linha de fogo?
        -- O que eu lhe ofereo -- reforou o demnio, percebendo a hesitao do celeste --
no  apenas a oportunidade de derrotar Miguel.  a chance de salvar o universo.
        O Anjo Renegado ponderou. No era exatamente aquilo que esperava ouvir do Senhor
do Sheol. O Diabo sempre tinha as palavras corretas para o momento mais oportuno. Em
contendas verbais era invencvel.
        -- Escute, guerreiro -- prosseguiu, emendando um novo assunto --, no ache que estou
alheio ao que acontece na terra. Sei que os homens esto envolvidos em sua prpria guerra e
que desenvolveram armas capazes de devastar o planeta. Mas para ns, imortais, essas bombas
que ameaam cair so apenas sinais que nos indicam a iminncia do Apocalipse. Por mais que
os humanos tentem se destruir, nunca tero sucesso absoluto. Nem mesmo ns conseguimos
isso. Voc se lembra da era glacial? Lembra-se do dilvio? J perdi a conta de quantos
cataclismos os arcanjos fomentaram -- e ajustou a tonalidade da voz, para parecer mais
dramtica. -- No... os terrenos vo sobreviver a esta guerra mundial, como j fizeram
anteriormente, c seus remanescentes ressurgiro das runas. Entretanto, se Miguel conseguir o
que planeja, os massacres continuaro. Sem o tecido da realidade para limitar-lhes os poderes,
os anjos da morte vagaro pelos escombros ceifando cada vida humana, at que no reste mais
"nenhum primata para sujar a criao". Mas... -- o tom mudou novamente, assumindo um
carter glorioso -- se vencermos... Se vencermos tudo voltar a ser como era antes da tirania, c
o paraso ser finalmente governado pelos alados devotos da palavra de Deus. Voc alcanar
sua redeno e voltar ao cu como heri.
        -- E quanto a Deus? -- surpreendeu o anjo, encurralando o infernal.
        -- Deus? -- pela primeira vez Lcifer se complicou, mas com sua mente aguada logo
contornou a situao. -- Bem... Se Yahweh acordar mesmo, general, ento saber o que fazer.
Mas acho que no devemos contar mais com isso. Caso queira mesmo saber, minha conscincia
est limpa. Sempre fiz o que achei certo. Nunca me curvei e nunca me curvarei a um assassino.
Todavia, tenho cincia de que no serei meu prprio juiz. Se o Altssimo resolver me punir, no
poderei fazer nada alm de aceitar a sentena. No tenho vergonha dos meus pecados, porque
no so maiores do que os erros dos outros.
        Foi um discurso impressionante, reconheceu Ablon, mas ser que as palavras do
Arcanjo Sombrio eram verdadeiras, ou aquilo no passava de uma encenao para empurr-lo 
armadilha ou us-lo como pea em seu jogo? O Filho do Alvorecer era astuto, traioeiro e,
acima de tudo, sedutor. Dominava a oratria e sabia explorar os pontos fracos de seus
entrevistados. Qualquer um se dobraria facilmente a ele, sobretudo diante de uma proposta to
tentadora: destruir o perverso Miguel, salvar a humanidade e retornar ao paraso. O que mais um
anjo renegado poderia querer? Tudo se encaixava e, pelo que o querubim conhecia da
personalidade de Lcifer, ele no estava sendo adverso  sua natureza. Todos ganhariam: anjos,
demnios e homens.  claro, muitos mortais seriam vitimados pela fora de suas armas
humanas e pela guerra que eles prprios ar-quitetaram. Mas o general j testemunhara situaes
bem piores, como a que sucedeu ao dilvio, quando somente alguns poucos terrenos
sobreviveram, e mesmo reduzidos revitalizaram toda a civilizao.
        As evidncias empurravam o renegado  resposta positiva, mas seu veredicto final
surpreendeu o Diabo.
         -- No posso fazer isso, Lcifer.
         -- No compreendo, general -- sua expresso era sria, mas neutra. -- Se nos unirmos,
poderemos concretizar aquilo que tanto eu como voc sempre sonhamos: pr fim  opresso dos
arcanjos.
         -- Sou um anjo renegado. Nunca tomei parte neste confronto entre o cu e o inferno
porque nunca concordei com ele. E no ser agora, prximo do fim, mudar minha posio -- e
virou o corpo, j se preparando para deixar a caverna. -- Mas no se preocupe. Suas
informaes esto seguras comigo. Vou us-las da melhor forma e talvez at faa alguma coisa
para deter o Armagedon -- e acrescentou, com firmeza --, mas no ser ao lado de um traidor.
         As palavras saram agressivas, mas no havia raiva em seu corao. Era uma opinio
to slida, consciente, que provinha da experincia, e no do furor da vingana. Na verdade,
Lcifer nunca fora o objeto de sua vingana, nem mesmo o Arcanjo Miguel, e sim o demnio
Apollyon, que torturara seus amigos.
         Preparado para qualquer investida, o celestial fechou os punhos e recuou uns dois
passos, Lcifer no era o tipo que engolia desaforos e talvez no tivesse gostado de ter sido
chamado de traidor. Mas, como o demnio observara anteriormente, Ablon era um oponente
inigualvel, e agora ainda contava com a proteo das runas mgicas gravadas em seu brao
pela Feiticeira de En-Dor.
         Contrariando todas as expectativas, Lcifer replicou:
         -- Respeito sua deciso, general. Se  nisso que acredita, ento que assim seja.
         Sim, era isso. E ponto final. No havia muito mais a dizer, e o general no estava
disposto a continuar por ali, em to funesta companhia. Caminhou  sada, mas a se lembrou
que ainda segurava a chave de pedra -- a relquia mstica que Lcifer lhe entregara e que,
supostamente, abriria a passagem ao inferno. Como no tinha selado nenhum acordo, achou por
bem devolv-la, mas a Estrela da Manh o impediu.
         -- No, Ablon, fique com a chave. Para o caso de voc mudar de idia.
         O Anjo Renegado estranhou. Lcifer sempre fora esperto e prudente, mas no havia
prudncia alguma em deixar uma pea to importante em poder de algum que no fosse seu
aliado. O celestial imaginou que aquela atitude poderia ser calculada, uma ao posta em prtica
para faz-lo reconsiderar. Mas, se era seu objetivo, o Arcanjo Sombrio falhara. Ablon no
estava disposto a entrar na ciranda. Moveu a cabea em negativa e mais uma vez pensou em
largar o objeto, porm o anfitrio reiterou:
         -- No se preocupe comigo. Mandei fazer uma cpia -- declarou, piscando um dos
olhos e reassumindo sua faceta sarcstica. -- Leve-a com voc.
         Por fim, o heri concordou, e guardou a relquia no bolso -- no havia mal algum em
ficar com ela. Talvez suas vibraes pudessem denunci-lo, mas quem viria ca-lo, a esta
altura? Acabara de se encontrar com o prprio Diabo, e, se Miguel em pessoa aparecesse para
mat-lo, ele o enfrentaria. Novamente refletiu sobre todas as artimanhas e trapaas possveis e
concluiu que Lcifer no era mais ameaa. Em seguida, deixou a caverna.
Sua ltima viso foi bem parecida com a primeira: vislumbrou o Diabo sentado em seu trono de
crnios, com a expresso indecifrvel por trs da fumaa.


                             UM PRESSENTIMENTO TERRVEL
        Enquanto caminhava rumo  sada da caverna, percorrendo aqueles nebulosos tneis de
pedra, Ablon entendeu que no estaria realmente seguro enquanto continuasse ali, no inferno, 
merc de seus inimigos. Sempre soubera, de fato, que aquele seria o momento mais crtico --
uma vez recusada a aliana, nada impediria Lcifer de ordenar sua morte. Por isso, no ficaria
espantado se encontrasse um grupo de extermnio  sua espera, pronto para aniquil-lo na
passagem adiante,
        Foi com surpresa, entretanto, que o Anjo Renegado se deparou com o caminho livre. Ao
contrrio de uma recepo brutal e sangrenta, tudo o que o general percebeu foi a abertura na
caverna  sua frente e a extensa via de ossos que levava ao ancoradouro, onde os barqueiros o
esperavam para lev-lo de volta. Orion estava l, aguardando seu retorno, mas ele no viu sinal
de Apollyon, e isso o perturbou seriamente.
         O Rei Cado de Atlntida se aproximou pela estrada de ossos, sempre mancando com a
dor no joelho.
         -- Voc recusou a aliana, no foi? -- perguntou, j prevendo a resposta.
         -- Como voc j imaginava.
         Os dois foram andando na direo do barco de vime. Ali, os sinistros condutores
preparavam suas varas.
         -- Esta poderia ter sido nossa ltima chance de vencer o arcanjo Miguel lamentou o
atlante, visivelmente desconsolado.
         -- No confio em Lcifer. Por trs daquele discurso apaixonante, h mente doentia e
maligna. O Diabo mente sempre, e por isso  totalmente previsvel. No, Orion, j fui suscetvel
s idias dele, mas desta vez eu pude de alguma forma, ver a sombra da traio em seus olhos.
Ainda no sei ao sei o que ele planeja, mas nada  como parece. Algo me diz que estamos sendo
usados como pees em uma conspirao gigantesca. Todos ns. Inclusive voc.
         Orion tambm j tinha sido enganado por Lcifer, assim como Amael e tantos que se
entregaram  rebelio. Outros, como Samael e Apollyon, de sempre tiveram o corao
corrompido, e para esses no houve graa maior do que serem atirados ao inferno. Para o Rei
de Atlntida, ento, que conhecia melhor do que ningum as mltiplas faces de seu amo, as
desconfianas do Anjo Renegado no eram de todo infundadas. Ao ouvir a advertncia do
general, o satanis assentiu levemente com a cabea, mas no ousou ir alm.
         Antes de entrar no barco, Ablon olhou mais uma vez para trs, para a entrada da gruta, e
uma sensao pavorosa o assaltou. -- Vamos embora, Orion. Alguma coisa terrvel est para
acontecer.




                                        MEIA-NOITE

ERAM    QUASE ONZE HORAS DA NOITE QUANDO SHAMIRA trocou de canal para assistir ao ltimo
telejornal do dia. Desde que Ablon sara, ela estivera atenta s principais notcias, e a maioria
delas detalhava os fatos associados  tenso internacional. As hostilidades se agravaram
imensamente naquela tarde, aps a rejeio, pelos dois lados, da ltima proposta de paz
apresentada pelo secretrio-geral das Naes Unidas, que poria fim  guerra civil na Turquia,
principal ponto de confronto entre a Liga de Berlim e a Aliana Oriental. Depois de mais de
dois anos de inimizades, que sucederam  Guerra dos Trezentos Dias, pelo domnio de Taiwan,
estava claro que as alianas para uma nova guerra mundial j tinham sido definidas e rachavam
o planeta ao meio.
         As trocas de ameaas, que havia meses vinham se tornando mais concretas, incluam a
utilizao de msseis de longo alcance para levar a cabo ataques com armas nucleares. Diante
disso, as vias diplomticas, esgotadas, perderam fora e falharam em seu intento de buscar uma
soluo pacfica para a crise. Temerosas, milhes de pessoas na Amrica do Norte, Europa e
sia j deixavam as grandes cidades rumo ao campo, onde estocavam alimentos, construam
abrigos e adquiriam toda sorte de material isolante e roupas contra radiao. Aqueles que
tinham parentes ou residncia nos pases neutros emigravam aos milhares, j esperando pelo
pior.
        Na fronteira entre os dois blocos, o Oriente Mdio padecia de uma situao singular.
Animada com o fortalecimento da Aliana Oriental, a populao civil dos pases rabes
ocupados pelos Estados Unidos -- Afeganisto, Iraque, Sria, Ir e Lbia -- formava milcias
para se insurgir contra a potncia estrangeira. O estado de Israel, tradicional aliado dos
americanos, abrigava as nicas instalaes aos soldados estadunidenses na sia Central, mas
por uma ironia histrica a Terra Santa era, agora, uma das reas menos conflituosas da regio,
porque israelenses como palestinos desejavam preservar seus santurios sagrados em Jerusalm
e arredores. Mesmo assim, o clima era tenso. Ningum atacava e ningum defendia, porque
todos temiam que o banho de sangue que se seguiria ao barulho do primeiro tiro viesse a arrasar
a Terra Santa para sempre, pondo abaixo templos e monumentos adorados pelos dois povos.
        Perto da meia-noite, a luz da TV oscilou. Aquele tipo de fenmeno estava associado a
um abalo no tecido, e a concluso bvia era a de que alguma entidade havia se materializado ali
perto. O quarto, a princpio, estava lacrado  invaso espiritual -- ela mesma efetuara um ritual
para assegurar esse tipo de proteo --, o que significava que qualquer visitante que tentasse
entrar no apartamento teria que estar no plano fsico.
        Como todo bom necromante, Shamira sabia que mundo espiritual  tudo aquilo que est
por trs do tecido.  um espelho do mundo fsico, com diversas passagens e tneis para outros
inmeros reinos dimensionais, tais como o cu e o inferno. No mundo espiritual, h muitas
camadas sobrepostas, que refletem o plano material, e entre elas as mais importantes e
acessveis so o plano astral e o plano etreo.
        O astral, a primeira camada,  um reflexo, puro e simples, do plano fsico. A camada
mais profunda, o plano etreo, est separada do astral por uma membrana semelhante ao tecido
da realidade, chamada de membrana etrea. Esse  o lar dos poderosos espritos desencarnados
e dos deuses pagos. Embora a geografia do etreo seja a mesma que a do mundo fsico, as
construes e objetos feitos pelo homem no encontram reflexo ali. Na verdade, as entidades
que habitam o etreo ergueram sua prpria civilizao alm das fronteiras da realidade humana.
Por essa razo, as cidades, torres e palcios existentes nessa camada no so vistos ou
percebidos pelos mortais,  exceo de magos ou sacerdotes dotados de poderes para isso. E no
plano etreo que fica a famosa ilha mstica de Avalon, venerada pelos povos celtas e que por
isso era avistada apenas por algumas pessoas, quando a membrana afinava e a conexo com o
mundo espiritual permitia sua observao. O templo dos deuses localizado no topo do monte
Olimpo, na Grcia,  igualmente uma construo etrea.
        Alm do astral e do etreo, h outros planos sobrepostos ao fsico, porm menos
conhecidos e visitados e de mais difcil acesso. Alguns so curiosos, como o mundo dos sonhos;
outros enigmticos como a dimenso dos espelhos; e h tambm aqueles perigosos e sinistros,
como o plano das sombras,


         Ablon sempre chegava sem ser notado, ento, ao perceber o abalo no tecido da
realidade, Shamira entendeu que no era o renegado que se aproximava. Cautelosa, ela se
afastou lentamente da televiso e andou de costas, em direo  escrivaninha, onde estava
apoiada sua mala menor. Ps a mo direita l dentro, procurando um de seus artefatos especiais,
e voltou a ateno  porta, por onde esperava que o perigo surgisse.
         Ouviu passos no corredor e concluiu que estavam vindo ao seu quarto. Uma pancada
forte escancarou a madeira, e ela distinguiu dois homens l fora.
         Eram fortes como lutadores e guardavam expresses arrogantes. A feiticeira no
enxergou-lhes a alma, ento sups que no fossem humanos. O primeiro tinha os cabelos
escuros e o olhar perigoso; o outro, que vinha atrs, exibia na testa, abaixo da cabea raspada, o
inconfundvel smbolo dos querubins, inscrito como tatuagem.
        O moreno, que parecia deter a autoridade, mostrou um sorriso maldoso, feliz por ver a
necromante acuada, com a mo para trs. Avanou para dentro da sala, provando o gosto do ar.
        -- Uhh... ahhhh... -- suspirou, ao sentir o perfume feminino. Tinha sen tidos de
predador, comuns aos guerreiros celestes, e pelo olfato notou que Shamira era humana. -- Acho
que temos uma festa das boas hoje -- zombou, ao ver os saquinhos vazios de biscoito.
        -- Quem  voc? -- perguntou a mulher, controlando o medo.
        -- Sou Euzin. E este aqui -- ele apontou para o companheiro, que fechava a sada -- 
Ankarel, o Chicote de So Miguel -- acrescentou com um orgulho ameaador, deixando claro
que no era amistoso.
        Mas a necromante no se intimidou. Tentou pensar rpido, procurar uma estratgia, pois
s a inteligncia a deixaria em vantagem. Recordou-se, ento, de algumas coisas sobre aquele
tal Euzin, informaes que poderiam ajud-la numa contenda moral. Ablon tinha lhe contado,
certa vez, que Euzin era um anjo covarde e inseguro, caractersticas que o levariam  runa
dentro de uma casta em que os membros, supostamente, no deveriam temer coisa alguma.
        -- Euzin? -- ela se aproveitou, devolvendo-lhe o sorriso maldoso. -- Ablon me fclou
de voc.  o anjo que s desafia inferiores e recua diante de seus iguais. Estou certa?
        Se no estivesse, provavelmente o celeste no teria ficado to furioso. A raiva subiu-lhe
 cabea, precisamente por ter sido insultado por uma feiticeira humana. Era um lutador
invejoso e detestava, assim como seu lder Miguel, a simples existncia dos homens. Sua
misso, naquela noite, no era matar sua vtima, mas ele decidiu, assim mesmo, puni-la por sua
ousadia.
        Precipitou-se com os punhos fechados para agredir a mulher, mas nessa hora a feiticeira
surpreendeu e sacou da valise uma pistola de grosso calibre, a temida Desert Eagle .50, uma das
armas de mo mais potentes do mundo. Era grande e cromada, e seu cano espesso como um
polegar. Euzin parou, impressionado pela atitude. Esperava de tudo, desde facas enfeitiadas at
encantos pirotcnicos, mas nunca uma arma de fogo. Mal sabia ele que a fora dos sbios est,
justamente, na capacidade de se aproveitar do imprevisvel, de enganar o oponente e atac-lo no
ponto mais fraco, de fingir debilidade e depois investir feito leo.
        Felizmente para o invasor, as armas mundanas no eram perigosas para os anjos, e
dificilmente uma delas furaria seu avatar. Ao raciocinar isso em sua mente vagarosa, Euzin se
desfez do assombro e continuou caminhando para cima da moa, ainda irado, mas satisfeito por
desbancar sua ttica.
        --  isso que usa para se defender?
        --Afaste-se! -- ameaou a necromante. -- Encantei o metal dos projteis. So to
mortais a voc quanto uma adaga ritual.
        Ele hesitou, novamente, mas ento Ankarel, seu comparsa, que at ali nada dissera,
estimulou o atacante, disparando um conselho:
        -- Ela est blefando.
        Incentivado pelas palavras de confiana, Euzin retomou a ofensiva e replicou  mulher:
        -- Uma pistola mgica! Isto  pattico -- desdenhou, e em seguida acometeu. Abriu os
dedos em forma de gancho, para estrangular a mulher e depois quem sabe estupr-la. Os anjos
perversos apreciavam tais crueldades, quando encarnados em seus avatares.
        Sem pensar duas vezes, Shamra reconheceu o perigo e puxou o gatilho. O tiro atingiu a
cabea de Euzin, estourando parte do crnio e espalhando miolos quentes por todo o
apartamento. Imediatamente, o invasor foi atirado ao cho, num arrojo desengonado. Ankarel,
o careca tatuado, recuou.
        -- Sua vaca! -- gritou Euzin, esparramado no assoalho. -- Sabe quanta energia preciso
gastar para materializar esta carcaa? -- praguejou. Estava intil, embora vivo. No podia mais
caminhar nem enxergar muito bem, mas seu avatar no seria destrudo enquanto o corao
estivesse pulsando.
        -- Voc tem um pssimo vocabulrio, querubim. Seu prncipe lhe ensinou isso?
        Do outro lado da sala, porm, o espantado Ankarel, mais desesperado do que corajoso,
ameaou saltar sobre ela.
        -- Fique onde est, eu j disse! -- avisou a feiticeira, puxando o co da pistola. --
Estou mirando no seu corao.
        Ele deu um passo atrs, erguendo a mo em sinal de derrota.
        Shamira no aliviou a mira e retrocedeu  porta dos fundos. Tinha agora que sair
daquela ratoeira e procurar um refugio seguro, pelo menos at o regresso do general. Nessas
horas, o melhor  ficar em lugares cheios de gente, onde o tecido da realidade  espesso. Ablon
a encontraria, seguramente, no importava onde ela estivesse.
        Ablon.
        Estes anjos... Eles no me atacariam na presena do renegado. A no ser que
soubessem que ele estaria em viagem!
        Mas como? Eram anjos, no demnios. O general fora ao inferno encontrar o Diabo.
Como Miguel teria descoberto sua ausncia?
        A Feiticeira de En-Dor engoliu em seco e subitamente algo sinistro virou a balana.
        Uma criatura de aspecto ameaador arrebentou a vidraa e voou para dentro do quarto,
desfraldando as asas escuras. A aura era confusa, indecifrvel, e o rosto estava oculto por uma
mscara de ao. O corpo era forte, musculoso, e uma couraa negra protegia o peito. Se era anjo
ou demnio, a necromante no sabia dizer. At onde se lembrava, os anjos tinham asas brancas,
no pretas, e raramente as manifestavam na terra, pelo exorbitante gasto de energia.
        Afobada, ela disparou com a pistola, mas a armadura refletiu os projteis. Era rpido,
apesar do tamanho, e aterrissou no meio da sala, destruindo as estantes. Shamira reparou em
seus olhos por dentro do elmo e percebeu uma vontade assassina. Parecia obstinado, como
Ablon, porm voraz e malvado.
        O Anjo Negro!-- imaginou a feiticeira. Era ele! O Anjo Negro. Sua figura combinava
com a descrio do caador de Babel, o mesmo que perseguira a guerreira Ishtar, havia tanto
tempo. Seria ele mesmo? O terrvel predador do Mar de Rocha?
        O Anjo Negro -- pensou novamente, tentando imaginar quem era, de fato, aquela
entidade abominvel, e por que a atacava. No encontrou a resposta.




                                     DUELO NA PONTE

        Orion e Amael acompanharam Ablon na viagem Styx acima. A volta para a Haled foi
um pouco mais taciturna. Amael, recolhido nas sombras, estava fraco demais para falar, e Orion
no escondia o desconsolo pelo amigo no ter se juntado a Lcifer, Mas no era s isso. O
prprio Ablon estava calado. Preocupava-se com o que podia acontecer, depois de ter
pressentido uma vibrao negativa.
        Um pouco antes da meia-noite, o barco aproximou-se da praia, s sombras Aponte,
sempre envolto naquelas brumas espectrais. O renegado desembarcou e dali subiu na
motocicleta. Avistou a embarcao sumindo na nvoa e depois desligou os motores. Conduziu a
moto at a via asfaltada e acelerou sobre o concreto.
        A ponte estava vazia, o que era comum quela hora da noite. Nenhum veculo transitava
pelos dois sentidos, o que despertou a curiosidade do anjo. Especialmente atento s
perturbaes, Ablon captou um aroma conhecido e notou as falhas de energia nos postes de luz.
Apertou o freio e vrou o guido abruptamente. O pneu traseiro raspou no asfalto, soltando o
cheiro de borracha queimada. A moto parou de lado, cruzando a faixa principal.
        Enxergou, ento, um anjo de cabelos ruivos, trepado em um dos postes  magem da
pista. De to equilibrado, era bvio que se tratava de um querubim, por sua habilidade em
manter o balano. O controle gravitacional  a divindade que d a desenvoltura aos guerreiros,
que lhes permite saltar  distncia e escalar com maestria.
        O anjo sobre o poste escorregou, gracioso, e pisou onde as linhas amarelas pintadas no
cho demarcavam a diviso das duas raias. Seu rosto era magro, e o ar carismtico no deixava
dvidas sobre sua identidade.
        Balberith, o prncipe da casta dos querubins.
         Ablon no o via desde o dia em que fora expulso do cu e no planejava reencontr-lo,
sobretudo em uma situao to conturbada. Uma vez o general admirara seu prncipe, mas todo
o respeito se fora,  medida que ele se corrompia. Balberith acatava todas as ordens do arcanjo
Miguel, at mesmo as mais homicidas, sem nunca questionar seus mtodos. E verdade que dos
querubins se exige toda a obedincia, afinal so soldados -- mas no propriamente assassinos!
         Houve um tempo em que Balberith era invencvel dentro da casta, e talvez ainda o
fosse, mas Ablon no era o mesmo combatente de outrora. Desde sua expulso, tinha
aprimorado sua destreza, enquanto Balberith ficara, por todo o tempo, sentado em seu trono no
Castelo da Luz, dando ordens e se metendo na poltica celeste. Outrora tivera fora e autoridade
para derrotar Ablon e Apollyon juntos, mas hoje sua aura seria ofuscada pela energia de
qualquer um dos dois.
         O prncipe dos querubins no era muito forte, o que compensava em agilidade e percia.
Mas, apesar disso, parecia corpulento a distncia e vestia roupas pesadas. As camadas
sobrepostas tinham um nico objetivo: ocultar sua armadura dourada. Balberith nunca largava
sua casca, a famosa Couraa da Honra, uma das mais resistentes e cobiadas peas do paraso.
Enquanto a maioria dos anjos vestia chapas peitorais, Balberith possua uma armadura
completa, com placas que cobriam os braos e as pernas, porm sem elmo. No levava espada, 
claro, porque o cdigo dos lutadores o impedia de ergu-la contra um oponente desarmado,
ainda que fosse um renegado -- ou at um demnio.
         Ablon conservou a expresso confiante, diante de algum que, obviamente, estava ali
para atras-lo. O semblante determinado desagradou o anjo ruivo, mais acostumado a ser
bajulado.
         -- Ablon! -- esbravejou Balberith. -- Ser que no se recorda de seu velho lder?
         -- No reconheo nenhum lder -- retrucou o guerreiro. No estava disposto a iniciar
um dilogo. S queria ir embora, voltar  presena de Shamira.
         -- O que se passa em sua cabea distorcida, general? -- mudou de assunto, fingindo se
preocupar. -- Voc agora deu para formar aliana com perdedores? Logo voc?
         Era, naturalmente, uma provocao pelo seu encontro com Lcifer, a quem os anjos
julgavam um "derrotado". Mas como ele sabia da viagem?
         -- Saa da minha frente, Balberith -- limitou-se a dizer, sem muita pacincia. Girou o
acelerador da motocicleta e se preparou para arrancar.
         -- No, soldado. No posso deix-lo partir. Tenho minhas ordens e costumo cumpri-las.
Como perceber em breve, as coisas mudaram um pouco por aqui enquanto esteve fora.
         O prncipe caminhou para o lado, a fim de ficar frente a frente com o general. Ablon
ainda no tinha conseguido entender o motivo daquela abordagem. No acreditava realmente
que Miguel estava preocupado em mat-lo, e se estivesse no mandaria s um caador. Mas
como o teria encontrado?
         A ponte continuava vazia. Nenhum veculo.
         Um vento frio soprou do leste, c Ablon teve a impresso de que o prncipe tomava
posio de combate.
         -- Voc  um maldito anjo renegado, Ablon, e no respeita ningum. Mas precisa
aceitar de uma vez por todas que sou seu superior. Sim, ainda sou, E tambm o mais poderoso
dos querubins. Se hoje voc  o que , deve tudo a mim. Eu o treinei. Eu o nomeei general. E
por isso me sinto responsvel por todo esse fiasco em que se meteu. Eu nunca deveria ter
interrompido aquele duelo entre voc e Apollyon. Mas preferi faz-lo porque no queria perder
um bom lutador. Salvei sua vida naquele dia.
         O renegado no queria conversa.
         --Voc fala demais, Balberith.
         --Acho que no compreendeu. De certa forma, voc  produto do meu trabalho. No
posso continuar carregando esta vergonha.  algo que macula minha honra. Prefiro ter um
oficial morto a v-lo andando no meio dessa gente de barro. E, neste particular, acho que voc
passou dos limites.
         Gente de barro. Era como Miguel se referia aos humanos.
         -- Shamira! -- concluiu Ablon. Era lgico. O relacionamento dele com a humana era o
que o prncipe queria dizer com "voc passou dos limites". Se os celestes sabiam onde ele
estava, seguramente encontrariam a feiticeira, ou j a tinham encontrado!
         Sem que percebesse, a fria esquentou-lhe a pele. Costumava ser calmo e dificilmente
perdia o controle, mesmo quando sua vida estava ameaada. Aprendera a conservar a paz e a
nunca dar vazo ao ardor. Mas a necromante era, indubitavelmente, seu ponto fraco. Morreria
para defend-la e no admitiria que fosse jogada naquela guerra estpida por sua causa. Os
soldados so assim, geralmente. Do a vida por seus companheiros, por sua nao ou por um
ideal, sem se preocupar com as consequncias.
         Apesar da ira, Ablon no desejava enfrentar Balberith. No devia perder mais tempo.
Tudo que pensou foi em acelerar a motocicleta rumo  cidade, mas seu oponente no saiu do
meio da pista. No o deixaria passar, no importava o que acontecesse. O renegado conhecia a
determinao dos querubins, porque era um deles tambm.
         -- Voc no vai a parte alguma -- reforou o prncipe, sugerindo um duelo entre os
dois. O guerreiro estava furioso, ciente de que Shamira estava em perigo, e tinha pressa, mas
simplesmente no podia recuar ao confronto.
         Tentou, pela ltima vez, alertar o inimigo.
         -- Balberith, eu no sou mais seu antigo oficial do Castelo da Luz. Eu mudei desde
ento. Aprendi coisas novas, aprimorei minhas tcnicas e no permitirei que meus valores se
desfaam em p -- e completou, com uma frase antes usada pelo prprio Balberith:
         -- Portanto, se insistir neste combate, terei que mat-lo.
         O prncipe dos querubins surpreendeu-se ao ver que ele se lembrava to bem daquelas
palavras distantes. Mas isso no foi o bastante para intimid-lo, como j era de esperar. Sentia-
se resoluto, ainda mais com sua Couraa da Honra. Considerava-se o melhor dos lutadores, o
vassalo mais perfeito do arcanjo Miguel Seu erro no foi ter se oferecido ao duelo, mas no ter
analisado corretamente a capacidade do adversrio.
         Ablon no teve escolha. Desmontou da motocicleta e aceitou o desafio.
         Estavam distantes uns vinte metros e se posicionaram na mesma linha, um de frente
para o outro. Ajoelharam-se quase ao mesmo tempo, fecharam os olhos e concentraram nos
punhos o poder invisvel da Ira de Deus. No era mais um simples treinamento. Um deles
morreria. E os dois estavam cientes dos riscos.
         A ponte continuava vazia.
         Ablon e Balberith abriram os olhos e encararam-se profundamente. Quando dois
querubins chegam a esse ponto, parece que so tomados por uma espcie de transe, e da em
diante nada pode det-los.
         O prncipe e o renegado dispararam, um contra o outro, a uma velocidade inumana.
Eram to rpidos que seus movimentos deslocavam o ar, produzindo um rudo igual s lufadas
de vento. O rosto era como o dos predadores, prontos para destroar o almoo.
         Quando chegaram perto o bastante para golpear, ambos saltaram bem alto, quase
alcanando a linha onde os postes de luz se encurvavam para dentro. No espao em que os dois
se cruzaram, em pleno ar, sabiam que s teriam tempo para desferir um nico ataque, que
deveria ser letal, para aniquilar o oponente.
         E ento atacaram.
         Nenhum barulho foi ouvido.
         Ablon e Balberith aterrissaram, com os ps firmes no cho, um de cosias para o outro.
Aparentemente nenhum deles tinha acertado a pancada, pois no pareciam feridos. Estavam
como comearam.
         O Anjo Renegado olhou para o punho fechado, como um carrasco fita a espada.
Relaxou o corpo, certo de que havia concludo a infeliz tarefa de eliminar seu capito. Deixou a
linha de combate e caminhou em direo  motocicleta. J tinha feito o que precisava fazer.
         Mas, ao perceber a evasiva, Balberith protestou.
         -- Pare onde est, general! Eu avisei que voc no ira a lugar algum sem me enfrentar.
No h como fugir, soldado! Volte j para sua linha de duelo. O combate ainda no terminou.
         -- Para voc j, Balberith.
        O anjo ruivo ia continuar praguejando, mas sentiu uma estranha dor no peito, como se
uma agulha lhe apertasse o corao, e calou-se. De repente, todo o corpo comeou a tremer, e
ento ele ouviu o barulho de uma rachadura no metal. Depois outra e outras. Estupefato,
percebeu que a Couraa da Honra, a belssima armadura dourada que envergava, estava ruindo!
Naquele instante, Balberith ficou sem ao, apenas assistindo ao estilhaar da famosa relquia,
at que se reduzisse a minsculas lascas de ouro. Um terrvel sentimento de derrota o dominou
-- uma sensao nova para algum que, at ento, nunca fora vencido.
        A dor no peito aumentou -- ele no podia mais respirar. O corao, a parte mais
sensvel do corpo de um anjo, fora atingido, e ele nem sequer vira o golpe. Foi to potente, to
rpido, que um nico soco destruiu a armadura, penetrou o trax e fez explodir o msculo
cardaco. A velocidade extraordinria do ataque desintegrou as molculas do metal e
despedaou os tomos da carne, mas o efeito foi retardado, pela celeridade do choque.
        Um segundo depois, o corao estourou, de dentro para fora. Balberith tombou. O
sangue esparramou-se na pista, desenhando uma enorme poa no asfalto molhado.
        Balberith, o prncipe dos querubins, estava morto.
        Ablon voltou  motocicleta, subiu na mquina e acelerou. Antes, diminuiu a velocidade
e passou novamente pelo local onde jazia o avatar inerte de seu ex-comandante. Parecia um
boneco, um invlucro, ainda mais inanimado do que um cadver humano. Essa  a aparncia
dos corpos fsicos dos anjos quando so destrudos.
        Apesar de tudo, o general no queria mat-lo. Mas aquela era uma guerra, e ele era um
guerreiro.
        Olhou mas uma vez para a carcaa estirada.
        No conseguiu sentir pena.


                                      O ANJO NEGRO

        Ablon correu como nunca com sua motocicleta, avanando todos os semforos
vermelhos e no parando nos cruzamentos. Os pneus desprendiam fumaa a cada encruzilhada,
e o cano de descarga cuspia gasolina fervente. Chovera mais cedo, e as falhas no calamento
formavam poas na pista.
        Era quase meia-noite, as ruas estavam praticamente vazias, e o retorno  velha penso
foi bem rpido. O Anjo Renegado j imaginava o pior, por isso acelerou. Tomou todos os
atalhos que conhecia, passando por vias interditadas e becos mal iluminados. Parou a moto
numa rua estreita, onde se erguia a fachada do Hotel Montenegro, e no se preocupou em
estacionar corretamente o veculo. A maioria dos postes de luz estava quebrada, e a viela
mergulhara na escurido urbana.
        Trs andares acima, a janela de seu apartamento estava em pedaos. Alguns estilhaos
haviam despencado na calada e agora descansavam a seus ps, no cho da ruela. As narinas
aguadas captaram um detestvel cheiro de podrido, misturado a carne queimada. Sentiu uma
presena misteriosa, que no soube identificar. Captou a fragrncia da necromante e teve certeza
de que estava viva, ainda.
        Manipulando o centro de gravidade de seu corpo, saltou e se agarrou a um cano de
ferro, no segundo andar, que servia como escoadouro da chuva. Dali pulou diretamente para
dentro do quarto, atravessando o arco da janela,
        O cmodo estava vazio, e a baguna dominava o lugar. A mesa de madeira fora
quebrada, e vrias folhas de papel repousavam espalhadas no cho. As prateleiras que
sustentavam os objetos histricos tombaram, destruindo alguns artefatos antigos, que o anjo
guardara ao longo de sculos. O odor peculiar provinha de pedaos de carne cinzenta, agarrados
ao cho -- no eram de Shamira, e isso o aliviou. A televiso estava ligada, porm silenciosa.
Suas imagens eram a nica fonte de luz a clarear o salo.
        As emanaes da aura maligna vinham l de fora, do terrao do prdio. Em um canto do
apartamento, uma porta de fundos dava acesso ao ptio externo -- uma rea imunda, com
antenas de TV, sacos de lixo e quinquilharias estragadas. Sem perder tempo, Ablon escancarou
a passagem, preparando-se para enfrentar qualquer inimigo. Mas nem mesmo suas suposies
mais macabras o haviam preparado para o que viria a seguir.
         O Anjo Negro!
         Um anjo de asas negras segurava Shamira nos braos, desacordada. O corpo,
essencialmente humano, era muiro forte e estava protegido por uma armadura negra. Um elmo
metlico cobria-lhe o rosto, tapando-lhe totalmente a face. Apoiava-se sobre a mureta de
concreto, quase adejando. Atrs dele o terrao acabava em um vo de cinco metros, que
separava o sobrado do prdio ao lado.
         O Anjo Negro!
         Era a mesma entidade que tentara assassinar a renegada Ishtar no Mar de Rocha. Ablon
jamais esperara encontr-lo ali e chegara a pensar que havia morto. O renegado o odiava por ter
perseguido e quase matado sua companheira. No princpio, pensara em se vingar, pela perda que
lhe causara. Mas ningum nunca tinha ouvido falar de um anjo de asas negras no cu ou no
inferno, isso o guerreiro havia desistido de procur-lo. Agora, aquele ser odioso reaparecera
para, mais uma vez, levar embora aquilo que ele mais adorava.
         -- Ablon! -- chamou o Anjo Negro, com a voz abafada saindo da mscara. -- Parece
que  meu destino roubar suas mulheres -- regozijou-se, sarcstico.
         Ablon notou que um outro anjo, mais fraco, se posicionava entre ele e a entidade. Era o
tal Ankarel, conforme se lembrava, um capanga do Prncipe dos Anjos. No materializara as
asas, diferentemente do raptor, e nessa forma assemelhava-se a qualquer ser humano. Usava
roupas comuns, inclusive. Na jaqueta agarravam-se marcas de sangue, que no eram dele.
         Ablon no deu importncia  dbil presena de Ankarel. Seus olhos de caador estavam
focados no Anjo Negro, analisando seus movimentos e aguardando o instante perfeito para dar o
bote e salvar Shamira. O calor de sua fria queimou o tecido, e todos os seres espirituais que
estavam por ali souberam que um fabuloso combate estava para acontecer.
         -- Solte-a! -- gritou. -- Ela no tem nada a ver com esta guerra abominvel.
Acertemos as contas, ns dois!
         E sem esperar uma reao, o renegado avanou, pronto para lutar, mas Ankarel pulou 
sua frente, bloqueando o caminho. Escondia na manga uma espada curta, uma arma celestial,
capaz de matar qualquer criatura, comum ou divina. Sacou sua lmina e, traando no ar um
semicrculo, tentou decepar a cabea do general, Ablon abaixou-se, evitando o ataque, e em
seguida levantou o corpo novamente, com o brao esticado, desferindo um soco forte no queixo
do adversrio. O capanga foi arremessado para o lado e caiu desnorteado em uma pilha de sacos
de lixo.
         A briga deu ao Anjo de Asas Negras o tempo necessrio para alar voo, sobrevoar o vo
e recuar para o terrao do outro prdio, tomando distncia. Mas estava fugindo. Ainda tinha um
recado a transmitir.
         -- Certamente, renegado, temos contas a acertar. Mas voc nunca esteve em posio de
caar ningum -- desdenhou. -- No, ainda no ser desta vez. A feiticeira  a nossa garantia.
A garantia de que sua aliana com Lcifer no se concretizar. Ela ficar a salvo e voltar com
vida, se voc no se opuser  vontade do arcanjo Miguel.
         E acrescentou:
         --Aguardo-o no crepsculo dos tempos, general. Sou o Anjo do Abismo Sem Fundo,
aquele que abre todas as portas. Sou a luz e as trevas, o comeo e o fim.
         Apesar de abafada, a voz do raptor era alta e soava como um rugido. Mas Ablon no
parou para ouvi-lo. Pulou sobre o vo e seguiu em carga para golpear o rival. Havia muito
abandonara a idia de fazer acordos.
         Mas, subitamente, um barulho estremeceu a membrana. No era uma sonoridade
natural, mas uma sinfonia do alm, que abalou todo o tecido. Os seres humanos no podiam
ouvi-la, mas os anjos e demnios, em todas as partes do mundo, caram de joelhos, com os
tmpanos ardendo. Ablon e Ankarel apertaram as mos contra os ouvidos, mas no adiantou.
Era como um sopro desafinado e irritante, cujo eco demorou a se dissipar.
        Quando a agonia cessou, Ablon olhou  sua volta, procurando pelo Anjo Negro, mas ele
havia sumido. Sua aura tambm desaparecera, o que significar v que no estava mais no plano
material. Sobre os telhados daqueles prdios antigos, avistou apenas o querubim Ankarel, que,
como ele, acabara de se recuperar do sopro mstico.
        Ankarel fugiu pelo terrao, ao notar que estava sozinho, e pulou para o telhado do outro
prdio. Ainda estava desorientado demais para se desmaterializai; ento correr era a alternativa
de escape mais bvia. Mas Ablon no estava disposto a facilitar-lhe a evaso. Aquele querubim
agora era a sua nica pista para esclarecer o mistrio do Anjo de Asas Negras. Quem era aquela
criatura? O que queria? Para quem trabalhava?
        Depois de trs saltos perfeitos, o general agarrou o fugitivo pela jaqueta e o atirou de
costas contra as telhas. Por pouco o forro no cedeu, graas s vigas mais grossas.
        -- Quem era aquele anjo negro? Para onde ele levou a feiticeira? -- pressionou Ablon,
cheio de raiva.
        -- No sei -- respondeu Ankarel, assustado. -- Minha misso era s atras-lo nada
mais.
        -- Ento voc veio com Balberith!
        -- Ele nos mandou para c -- confessou.
        -- E de quem  o sangue no piso?
        -- Do nosso chefe, Euzin. A feiticeira o baleou. Euzin! Aquele abutre nojento.
        -- Quem ordenou esta misso?
        -- No sei -- repetiu o prisioneiro. -- Ningum sabe sobre ela alm de mim, Euzin,
Balberith e o Anjo Negro.
        Maldio!
        Ablon enfrentara Balberith, e o sangue na jaqueta de Ankarel parecia mesmo ser de
Euzin, se ele bem conhecia seu cheiro. Ambos estavam fora de seu alcance agora. Balberith
estava morto e Euzin j retornara ao plano etreo. Mas mesmo eles no deviam saber muito
sobre o sequestro. Estava claro que eram s comandados, e que Miguel e o prprio Anjo Negro
eram a chave de todo o segredo.
        O Anjo Renegado acalmou-se. No princpio tentara rejeitar essa guerra -- recusando a
aliana com Lcfer --, mas ela viera em seu encalo. Agora, no poderia mais evit-la. De
certa forma, fora ingnuo ao achar que conseguiria permanecer vagando pelas trevas da
humanidade, quando o Dia do Ajuste de Contas chegasse. Ele era o lder dos renegados. Se no
tivesse virado as costas para isso anteriormente, talvez Shamira no estivesse agora em poder do
arcanjo. Assim, a guerra ganhava amplitude. No era mais s de Miguel ou de Lcifer -- era
sua tambm.
        O general soltou a pegada, liberando Ankarel. O capanga se levantou, cambaleando,
ainda assustado, e recuou. Ablon no pretendia mat-lo a sangue-frio. Degolar o prisioneiro no
mudaria muito as coisas.
        Sem dizer palavra, o renegado deu as costas ao inimigo e caminhou ao apartamento.
        Contrariando o cdigo de honra dos lutadores, Ankarel aproveitou-se da vantagem para
tentar estocar o rebelde. Sacou novamente a espada curta e adiantou-se com a lmina em riste,
pronto para finc-la nas costas. Mas o general j esperava por isso. Ouviu o barulho do metal
deslizando na bainha e em seguida captou o som do corte no ar.
        Desviou para o lado, c a espada atingiu o vazio. Sem encontrar obstculo  frente, o
atacante perdeu o equilbrio, expondo parte do tronco. Ablon ento assaltou, golpeando-lhe o
corao. Foi tudo muito rpido. Mal Ankarel investra, a mo do renegado j perfurara-lhe o
trax. O anjo sentiu o impacto; depois tudo por dentro se rompeu.
        Com uma puxada forte, Ablon retirou-lhe o msculo pulsante. Pde sentir a energia
invisvel se dispersando, e a conscincia do inimigo apagou. Os dedos amoleceram, e a espada
curta escorregou de seu punho afrouxado. As pernas perderam a fora, e o corpo despencou na
ruela.
        O renegado observou o avatar de Ankarel se espatifar l embaixo, estourando a cabea
nos paraleleppedos do beco. Olhou para o corao, novamente, e o atirou para longe. Nesse
momento, a espada do morto, largada sobre um cano, comeou a se decompor. O ao
enferrujou, rachou-se, e o ouro enegreceu. Depois, a arma se desfez em pedras de cinza.
        A espada, no vive sem o querubim, e o querubim no vive sem sua espada.
        Pingos de chuva caram do cu, e a gua lavou os telhados.
        De ccoras sobre a mureta de concreto, o anjo guerreiro observou a cidade, em meio ao
temporal. Estava sozinho, pela primeira vez. No passado, tivera a companhia dos renegados, e
depois da Feiticeira de En-Dor.
        Antes, pretendia esperar a desintegrao do tecido, para s ento desafiar o arcanjo
Miguel. S que agora o Prncipe dos Anjos estava com sua amiga, e talvez fosse arriscado
demais esperar o Armagedon para resgat-la. No, o Anjo Renegado no podia esperar. No
devia confiar no destino, tampouco em seus inimigos, que sempre o traam em momentos
estratgicos.
        Ablon ficou um bom tempo parado no topo do prdio, com a chuva a encharcar seus
cabelos, pensando sobre aquele barulho terrvel, que o impedira de atacar o Anjo de Asas
Negras. De onde partira o silvo? Quem o teria provocado?
        Meio perdido, refletiu sobre o que faria adiante.
        E ento, de repente, a soluo apareceu na penumbra.


                                  A PRIMEIRA TROMBETA
         O Anjo Renegado regressou ao apartamento. Observou a baguna. Tudo parecia ter
virado de pernas para o ar. Os mveis estavam quebrados, os objetos destrudos, e o cho
arruinado. A chuva caa sem parar, invadindo o quarto atravs da janela e borrando as inscries
mgicas gravadas no piso. Ablon se lembrou do ritual ministrado pela necromante e das runas
em seu brao, que, primeiramente, teriam o objetivo de proteg-lo no inferno. Mas no houve
nenhuma emboscada, e todo o esforo acabou sendo intil.
         Intil!-- lamentou o guerreiro. De que adiantava ser imbatvel, ou parecer imbatvel, se
ele nem ao menos conseguira defender sua amiga?
         Do outro lado do cmodo, defronte a uma poltrona de couro rasgada, a velha televiso
ainda funcionava. O som estava desligado, mas o anjo distinguiu uma srie de imagens
estranhas, de msseis e bombas, e depois uma reprter apareceu ao microfone, falando em uma
mesa de estdio. Os noticiosos no transmitidos quela hora, s os informes especiais. Correu,
ento, e aumentou o volume. Trocou de canal vrias vezes, mas todas as emissoras mostravam o
mesmo quadro.
         -- Aconteceu h meia hora -- informou a jornalista. -- O mssil que atingiu Pequim
levava uma ogiva de cem megatons e devastou toda a rea metropolitana. O impacto estendeu-
se a outras cidades, agitando o golfo de Bo. Pelo menos outras trinta localidades foram afetadas,
e a radiao j chegou  Monglia -- a apresentadora tremia, visivelmente abalada. -- Os
prejuzos so incalculveis.
         A tela mostrou imagens de Washington, e a voz seguiu em off:
         -- Os chefes de Estado americanos e europeus ainda no se manifestaram a respeito,
mas a Aliana Oriental afirmou ter provas de que o ataque partiu de uma das bases da Liga de
Berlim no oceano Pacfico, e prometeu uma resposta violenta. O ministro das Relaes
Exteriores... -- Ablon tirou o fio da tomada.
         A Primeira Trombeta! -- deduziu o general. O discurso de Korrigan era claro agora. Os
Sete Selos j haviam sido abertos. Os sinais se esgotavam a cada instante e levavam consigo a
vitalidade do stimo dia.
         Como Lcifer sugerira anteriormente, as Sete Trombetas, assim como os Selos do
Apocalipse, nada mais eram do que sinais, indcios que ndicavam o fim dos tempos e a
proximidade do Armagedon. A Estrela da Manh havia comentado sobre essas armas nucleares,
mas o Anjo Renegado no esperava que fossem usadas to de repente, nem que a guerra
mundial dos humanos estourasse em to poucos dias. Ele detestava admitir, mas o Arcanjo
Sombrio era um visionrio. Sua percepo das coisas, mundanas e espirituais, era realmente
incrvel.
         Parte do mistrio se esclarecera. O barulho que o guerreiro ouvira minutos atrs, ao
tentar atacar o Anjo Negro, fora de fato o rudo da Primeira Trombeta, uma designao antiga
utilizada por um profeta igualmente antigo para classficar o evento. "O primeiro anjo tocou a
trombeta. Granizo e fogo, em mistura de sangue, caram sobre a terra", diz a Bblia em
Apocalipse 8,7. No fora um sopro apenas, mas o reflexo de um rasgo permanente no tecido da
realidade, produzido quando centenas de milhares de almas, vitimadas pela exploso,
atravessaram a membrana ao mesmo tempo. O abalo foi tamanho que sacudiu toda a extenso
da fronteira espiritual e quase a destruiu.
         O Anjo de Asas Negras provavelmente sabia o instante exato em que a trombeta soaria
e escolheu a hora certa para escapar, levando Shamira consigo. Mas como ele conhecia aqueles
detalhes? Como podia ter certeza do momento especfico da detonao?
         As respostas s lanavam mais dvidas, ento Ablon desistiu de pensar sobre elas.
         O Apocalipse tinha chegado, e a guerra humana comeara. O Dia de Ajuste de Contas
no tardaria.
         Do corao vazio, surgiu a esperana, e o Anjo Renegado entendeu que precisava,
enfim, retornar ao caminho da luz. As palavras de Shamira ecoaram em sua mente, como vela
na escurido: Achei que talvez fosse a hora de reviver o que~ rubim que salvou minha vida,
         Em seguida, era a voz de Orion que surgia em seus pensamentos: Por toda sua vida
voc lutou, general. No pode desistir logo agora.
         E, mais uma vez, Ablon entendeu que no combatia somente por si, mas por seus
amigos, por aqueles a quem amava e por todos que, de uma forma ou de outra, depositaram nele
sua f. Lutava pelo Deus Yahweh, onde quer que ele estivesse. Mais do que isso, lutava por uma
causa, combatia para defender aquilo que considerava certo e justo e para preservar a grande
criao do Altssimo.
         Aproximou-se lentamente da mala de Shamira e a abriu. L dentro, danificada como um
esqueleto de metal, estava a Vingadora Sagrada, a arma celestial que empunhara quando ainda
era um general de legies, e que o acompanhara em inmeras batalhas. L estava ela,
apodrecida, enferrujada, rachada e parcialmente fossilizada por uma craca de pedra.
         A espada no vive sem o querubim, e o querubim no vive sem sua espada.
         Ablon tomou a Vingadora nas mos e apertou firme o cabo da arma.
         Subitamente, um espetculo maravilhoso ocorreu. A casca de pedra se esfarelou e
sumiu como fumaa no ar. As rachaduras no metal fixaram-se sozinhas e a empunhadura voltou
a reluzir. O ao retomou seu polimento, e as inscries msticas na superfcie da lmina
tornaram-se novamente visveis. O anjo captou a poderosa aura de poder da espada, que era, em
essncia, a canalizao de sua prpria energia.
         No precisava mais se esconder. No tinha mais por que fazer isso.
         Ele e a Vingadora Sagrada estavam juntos de novo.
         O Primeiro General renascera.
                                   O MESTRE DO FOGO

Cidadela do Fogo, regio central do Primeiro Cu



AJELHADO NO CHO DE MRMORE, envolto pelos vapores do templo, o arcanjo Gabriel meditava.
A expresso era serena, como o orvalho da manh que escorre pela superfcie das plantas, ao
encontro dos primeiros raios de sol. Tinha longos cabelos cor de mel, atados em uma trana
comprida. O corpo magro, porm :uloso, estava coberto por uma belssima armadura de ouro,
com placas que protegiam no s o tronco, mas tambm as pernas e os braos. Lindas ombreiras
suportavam uma capa branca, dividida ao meio para no prejudicar o movimento das asas. E
diante dele, a um palmo de distncia, descansava a Flagelo de Fogo, a espada flamejante que, no
passado, servira para expulsar Lcifer e seus seguidores da morada divina.
        O Templo da Harmonia era um salo gigantesco, todo trabalhado em pedra alva e
sustentado por grossas colunas, medindo cem metros de altura. O cho, em toda sua amplitude,
fora preenchido com gua fervente,  exceo de uma ponte que levava  plataforma do arcanjo.
O lquido puro evaporava, inundando o lugar com brumas quentes e confortantes, de aroma
revigorante. A nvoa confundia a viso, mas a escurido era afastada por feixes de luz que
entravam por aberturas no teto.
        O templo era a principal construo da Cidadela do Fogo, cerne poltico do Primeiro
Cu. Essa era a morada dos ishins, a casta de anjos que controla os elementos da natureza. A
cidadela ficava na boca do maior vulco do paraso, o Netnia. Quatro grandes correntes, presas
por ganchos s paredes do vulco, suportavam um bloco pesadssimo de pedra, sobre o qual fora
moldada a cidade-fortaleza. Poucos metros abaixo, a lava borbulhava. Agentes leais a Gabriel
patrulhavam as redondezas, alertas a qualquer invasor, fosse ele anjo ou demnio. Em um
passado distante, a Cidadela do Fogo fora governada por Amael, o Senhor dos Vulces, mas
este se aliou a Lcifer, deixando as rdeas do poder nas mos de seu pupilo, Aziel, a Chama
Sagrada. Mais tarde, quando a unidade dos arcanjos comeou a ruir, Aziel cederia o templo a
Gabriel, dando abrigo a seus anjos, que no mais desejavam permanecer no Quinto Cu,
prximos  tirnica opresso de Miguel.


         Gabriel, com as mos pousadas sobre os joelhos e os olhos fechados, respirou fundo,
deixando que o vapor quente deslizasse s narinas. Relaxou, buscando sentir o universo,
procurando tocar a imensido do cosmo com sua aura pulsante. Na concentrao, sentiu uma
presena. Ergueu as plpebras, revelando seus sublimes olhos castanhos. Tranquilo, observou o
visitante a caminhar pela ponte de mrmore. Era o ishim Aziel, a Chama Sagrada, que viera
atender a seu chamado. Pisava com leveza na pedra, quase no deixando escapar nenhum som.
Vestia uma tnica delicada, de seda e algodo, e revelava uma longa cabeleira preta, que
alcanava a linha da cintura. A pele era to branca quanto as asas, e os olhos, negros como a
noite profunda.
         Aziel ajoelhou-se diante de seu patrono, no ousando invadir a plataforma. A Flagelo de
Fogo interpunha-se entre eles, desembainhada, com a lamina a crepitar, pronta para decepar
qualquer invasor desagradvel
         -- Venho atender a seu comando, Mestre do Fogo -- esse era o principal ttulo do
arcanjo Gabriel, famoso por seu domnio sobre os elementos. -- Em que posso ajud-lo?
         -- Ablon ainda est vivo -- disse o gigante, direto.
         -- Sim. Captei as emanaes de sua aura.
         O Mestre do Fogo respirou a nvoa escaldante e encarou o subordinado.
         -- O Anjo Renegado ocultou sua presena por incontveis sculos, provavelmente para
impedir que os agentes de Miguel o encontrassem. Mas, agora, expandiu novamente a aura que
guarda no corao. E essa energia  to forte que foi sentida at mesmo aqui, no Primeiro Cu.
         Aziel abaixou a cabea, em dvida.
         -- No compreendo, mestre. Por que ele faria isso? Logo agora que o Stimo Selo foi
rompido... Imaginei que ele fosse esperar pelo Juzo Final, para s ento executar sua vingana.
         -- Eu diria que  um chamado -- respondeu Gabriel, conclusivo. -- Ablon est
pedindo nosso auxlio. E ns tambm precisamos da ajuda dele.
         -- Mas  provvel que ele nem saiba que existamos. Como poderia saber que nos
separamos de Miguel e montamos um exrcito prprio? Ablon  um fugitivo e, vagando
escondido na terra, no teria como assistir aos nossos progressos.
         -- Isso  correto, Aziel. De fato, talvez nem o prprio general saiba que suas idias
dividiram o cu e lanaram as sementes da guerra civil. Mas, apesar de tudo, estou certo de que
ele ainda confia que h anjos leais  sua causa.  para eles que o querubim expande sua aura. 
com eles que conta.  por isso que temos o dever de ir ao seu encontro.
         Ao dizer isso, o arcanjo fez um minuto de silncio. Depois, pegou a Flagelo de Fogo e
ficou um longo tempo a olhar sua folha. Assim como Ablon, Gabriel tambm temia esquecer --
esquecer as situaes pelas quais passara e, principalmente, as coisas que aprendera. A espada
estava ali como testemunha, para ajud-lo a se recordar das falhas antigas e obrig-lo a no
voltar a cometer os erros de outrora.
         Aziel aguardou pacientemente at seu mestre retomar o pronunciamento.
         -- Envie nossas tropas para o plano etreo e as posicione prximas  Fortaleza de Sion,
bastio das foras inimigas -- ordenou o arcanjo. -- Ao que tudo indica, a batalha final ser
mesmo travada na terra, ainda que no no plano fsico, mas no mundo espiritual. Quem vencer
essa guerra garantir a soberania sobre a Haled.
         -- Nossos espies reportaram que um anjo de asas negras levou uma humana a Sion,
provavelmente uma feiticeira -- acrescentou o ishim.
         -- Talvez seja Shamira, a Feiticeira de En-Dor. Soube que Ablon a salvou na Babilnia.
Se for mesmo ela ento tudo se encaixa. Ablon quer nossa ajuda para libert-la.
         -- Mas por que Miguel raptaria uma humana?
         --  difcil prever as intenes de meu irmo. Sou um arcanjo, mas nem mesmo eu sei
tudo. Na verdade, sei muito menos do que pensava saber. Mas a nica coisa que um terreno tem
e os anjos no possuem  a alma.
         Gabriel devaneou por mais um curto instante e depois completou, enrgico:
         -- Execute as manobras militares e entregue o comando a Baturiel, o Honrado. Em
seguida v ao encontro de Ablon e leve-o ao acampamento de nossas tropas. Soube que foram
bons amigos no passado.  um dos poucos a quem o guerreiro admira.
         Fez uma pausa, mas logo prosseguiu:
         -- H um portal para o etreo na montanha Horeb, atravs do qual o general poder
passar, mesmo estando preso a seu avatar. Eu os estarei aguardando. Sieme, da casta dos
serafins acompanhar voc nessa jornada.
         Aziel desagradou-se, mas no demonstrou. O problema no era a misso, mas a
companhia. No tinha nada em particular contra Sieme, mas a postura fria e calculista dos
serafins s vezes o irritava. Isso no quer dizer que fossem anjos malficos, eram apenas
autoconfiantes demais. Mas no os culpava. Como poderia? Essa era a natureza deles. Os
serafins so polticos, diplomatas e conselheiros, para isso foram concebidos. Era natural que
gostassem de comandar e tivessem srios problemas em receber ordens e aceitar opinies
divergentes. Estavam sempre tentando convencer os outros de seus prprios pontos de vista,
eram irredutveis, e esse era o tipo de coisa que Aziel mais detestava.
         -- O Anjo Renegado  o elemento que faltava ao nosso teatro de operaes, Aziel --
explicou o Mestre do Fogo. -- S ele poder liderar nosso exrcito no Armagedon.
         -- Sim, mestre -- respondeu o ishim, recurvando-se em sinal de respeito. Logo ao
perceber que seu lder tinha concludo o discurso, virou-se respeitosamente e deixou o Templo
da Harmonia.
         Gabriel observou a Chama Sagrada sair. Pousou a Flagelo de Fogo novamente  sua
frente, ps as mos sobre os joelhos, fechou os olhos e voltou a meditar. Antes de mergulhar no
transe mstico, disse para si mesmo, com a voz sossegada:
         -- Enfim, poder lutar por seu ideal, general. Sua revolta no foi em vo. E retornou 
harmonia do cosmo.


                                       AZIEL E SIEME
         Aziel e Sieme chegaram  terra nas primeiras horas da manh, antes mesmo de o sol
despontar no horizonte. Para viajar entre as dimenses, utilizaram-se de um vrtice que ligava o
Primeiro Cu a uma praia no plano astral, relativamente prxima  cidade de onde partiram, na
noite anterior, as emanaes do Anjo Renegado. Voaram pelo astral sobre o mar e, ao atingir as
ruas da metrpole, deslizaram por entre os prdios at encontrar um beco, onde o tecido da
realidade era mais fino, e ento se materializaram, alcanando finalmente o mundo fsico.
         H muitos tipos de conexes msticas que ligam as diversas dimenses. As principais
so os portais, os vrtices e os vrtices. Os portais so sem dvida o . tipo de passagem mais
visado. Eles ligam os reinos superiores e inferiores (como o cu e o inferno) ou o etreo
dretamente ao plano material. Uma entidade que cruze esse umbral no precisa gastar energia
para se materializar, passando para a dimenso adjacente usando seu corpo espiritual, sem que
para isso tenha que formar um avatar. Da mesma forma, um ser humano pode alcanar outro
plano de existncia com seu corpo fsico, sem precisar projetar o esprito. Os portais
permanentes so muito raros e por isso so vigiados pelas criaturas nativas das dimenses a que
esto ligados. Os humanos praticantes de magia desenvolveram, com suas habilidades, rituais
capazes de abrir portais, mas a durao deles est sempre limitada por conjunes estelares,
atividades climticas ou esgotamento de material de sacrifcio. Feiticeiros malignos costumam
abrir portais com frequncia, para invocar demnios em suas terrveis formas espirituais e
utiliz-los em tarefas macabras. H ainda alguns portais, menos importantes, que tm a
propriedade de conectar o mundo material ao plano etreo, mas estes raramente so procurados.
         Os vrtices so conexes parecidas com os portais, mas ligam algum reino superior ou
inferior ao plano astral ou ao plano etreo -- mas nunca ao plano fsico. Uma vez no astral ou
no etreo, o viajante ainda ter de utilizar sua prpria capacidade de materializao para cruzar
o tecido da realidade e chegar ao mundo material. O vrtice tomado por Aziel e Sieme ligava o
Primeiro Cu ao plano astral sobre uma praia prxima ao Rio de Janeiro.
         Por fim, os vrtices no so exatamente passagens msticas; so stios onde ocorre uma
interseo dimensional. So locais que existem tanto no plano material como no plano etreo.
Esses pontos podem ser frequentados tanto por seres humanos como por entidades em suas
formas espirituais. Naturalmente, os vrtices existem em espaos limitados, como pequenas
grutas, templos e pores antigos. Nos santurios o nvel do tecido aproxima-se do zero, ao passo
que nos vrtices a membrana tem grau negativo, permitindo assim a fuso dos dois planos.
         Aziel, a Chama Sagrada, e Sieme, a Mestre da Mente, saram do beco bem ao lado da
velha penso onde Ablon estava hospedado. Sieme sentia-se pouco confortvel em sua carcaa
fsica, pois os serafins no costumam atuar na Haled, posto que seu ofcio, essencialmente
poltico, tem os Sete Cus como centro de atividade. No obstante, seu avatar no devia nada a
seu corpo espiritual em matria de elegncia e imponncia. Era uma bela mulher, de cabelos
prateados e corpo escultural, rosto fino e expresso sria. Vestia-se de forma impecvel, com
uma parca de couro, botas longas e culos de sol espelhados que lhe protegiam os olhos azuis.
        -- No sinto nada -- avisou Sieme, com aquela confiana tpica dos serafins, que
beirava a arrogncia. -- Nenhuma emanao. Tem certeza de que este  o local certo?
        -- Absoluta. -- respondeu Aziel -- Eu mesmo captei a essncia do general na noite
passada.
        Eram por volta de seis horas da manh, e a vizinhana de sobrados e prdios baixos
ainda no atingira o pice de sua atividade urbana. Em uma hora ou duas, as lojas estariam
abertas, os ambulantes invadiriam as caladas e os carros circulariam sem parar. Agora,
contudo, s havia um grupo de lixeiros juntando os dejetos acumulados no meio-fio pela chuva
da noite anterior, e algumas pessoas que cortavam caminho para tomar o metro em uma das
grandes avenidas mais adiante,
        -- Veja! -- Sieme apontou para o ltimo andar do Hotel Montenegro, para a vidraa
quebrada do apartamento de Ablon. -- A janela foi despedaada. H fragmentos de vidro no
cho -- e mostrou os pedaos pequeninos em que quase pisara sobre o asfalto molhado. -- So
marcas de luta. Houve combate aqui durante a noite.
        -- Sim,  verdade -- concordou Aziel. O semblante da Chama Sagrada destoava
imensamente do de Sieme. Usava roupas simples, claras, que realavam a negritude de suas
meenas. -- Voc sente algum cheiro?
        -- Sou um serafim, Aziel, no um querubim com sentidos de predador. O nico cheiro
que sinto  de toda esta sujeira -- ela se referia  podrido da calcada. -- Mas tambm estou
curiosa. Eu posso, melhor do que ningum, captar os abalos no tecido, e no percebo coisa
alguma. Ou o Anjo Renegado est ocultando sua aura ou ento ele foi a vtima da peleja que
ocorreu aqui.
        -- No seja tola, Sieme. Se ele tivesse morrido, no teramos sentido a exploso de sua
aura pulsante.
        Ela no deu importncia s palavras de seu comparsa.
        -- Seja como for... Chega de suposies. Vamos subir e verificar. No estou disposta a
passar todo meu tempo na Haled parada em frente a esta espelunca -- e caminhou em direo 
porta da penso, adentrando o estabelecimento.
        Aziel a acompanhou.


         A porta do quarto de Ablon, no ltimo andar do sobrado, estava entreaberta. Sieme a
empurrou com cuidado e observou o espao interno. No apartamento de um s cmodo, reinava
uma completa baguna. Prateleiras estavam atiradas ao cho, espalhando dezenas de objetos
antigos pelo piso de madeira. Uma mesa pesada de mogno fora destroada e agora jazia em
pedaos em um canto da sala, juntamente com estilhaos de vidro. O sistema eltrico tambm
fora avariado, mas a luz do sol que entrava pela janela era agora suficiente para banhar todo o
recinto. Porm nada disso chamou a ateno da serafim, que buscava por indcios msticos. No
encontrou nenhum sinal do renegado, ento se precipitou para dentro do quarto e imediatamente
percebeu a diferena no ambiente.
         -- Magia! -- exclamou em voz baixa.
         -- O qu? -- indagou Aziel, que vinha logo atrs.
         -- Utilizaram magia para transformar este lugar em um santurio. No percebe que aqui
o tecido  incrivelmente frgil?
         A Chama Sagrada acabara de entrar no cmodo e tambm sentiu a mudana.
         -- Sim,  um bom sinal. Ento a Feiticeira de En-Dor deve ter estado aqui. Estamos na
pista certa. Mas onde est...
         O ishim calou-se subitamente. Antes que qualquer um dos recm-chegados reagir,
Ablon emergiu das sombras, por trs deles, e pousou a lmina da Vingadora Sagrada sobre a
nuca de Sieme, submetendo-a. A Mestre da Mente sentiu o toque gelado do ao no pescoo, e
seu sangue frio de serafim congelou.
         Aziel entendeu que o general estivera ali durante todo o tempo, oculto, escondido para
surpreend-los. Conseguira permanecer escondido mesmo naquela sala bem iluminada, e isso
deixou a Chama Sagrada impressionada. Aziel foi assaltado por emoes conflitantes. Estava
feliz em rever o amigo, mas ao mesmo tempo precisava convenc-lo, o mais depressa possvel,
de que Sieme no era inimiga, mas aliada. Os anjos renegados, sobretudo o lder deles, eram
bastante desconfiados, uma caracterstica compreensvel para um bando de fugitivos que passou
a maior parte de seus dias sendo caados.
         -- Aziel -- exclamou o Primeiro General em tom cordial, porm firme. -- Voc  bem-
vindo -- acrescentou, sem desviar a ateno de Sieme.
         A Chama Sagrada sentiu-se mais aliviada com a receptividade, mas ainda tinha impasse
a resolver. O renegado no afrouxara a lmina um milmetro sequer.
         -- Ablon... Muitos de ns no Primeiro Cu captamos a expanso csmica de sua aura, e
por esse motivo estamos aqui. Desejamos oferecer lhe nosso auxlio. Acho que sabemos para
onde levaram a Feiticeira de En-Dor e quem a capturou -- falou com sinceridade -- No h
com o que se preocupar. Pode confiar em mim.
         -- Confio em voc, Aziel. Mas quem  ela? -- perguntou, indicando Sieme com um
movimento de olho.
         -- Esta ... -- o ishim ia comear a falar, mas a mulher-anjo o interrompeu.
Demonstrando coragem, virou lentamente o corpo, ficando de frente para o general. A espada
estava agora a ameaar-lhe a garganta. Tirou os culos espelhados e fitou profundamente os
olhos cinzentos de seu algoz.
         -- Eu sou Sieme, Mestre da Mente, da casta dos serafins -- apresentou-se. -- Viemos
encontr-lo, general, no para julg-lo, mas porque decidimos segui-lo. Resolvemos trilhar os
seus passos. Assim como muitos, acreditamos em seu ideal e estamos dispostos a morrer por
ele. Sei que ns, serafins, no somos to rpidos ou to espertos na arte do combate quanto
vocs, querubins, mas ofereo minhas habilidades psquicas em defesa de nossa causa -- e,
dizendo isso, abaixou a cabea, desviou o olhar e entregou sua sorte nas mos do guerreiro.
         Os serafins so peritos em poltica e oratria. Aziel no acreditava que Sieme estivesse
mentindo -- pelo contrrio, sabia que ela lutava pela mesma causa que ele. Tambm no
cogitava que fosse uma espia ou algo do gnero. Entretanto, supunha que a forma demasiado
respeitosa com que ela conduzira o discurso fora uma manobra diplomtica para livrar-se
daquela enrascada. Os serafins se tornam mais humildes quando postos sob o fio da espada.
         Ablon era perspicaz e havia aprendido, ao longo de anos submetido a trapaas, a ler a
verdade na fisionomia dos outros. Era um soldado e tivera que desenvolver essa percia para
reconhecer seus inimigos. Foi isso, aliado s traies do passado, que o impedira de pactuar
com Lcifer. Resolveu, ento, acreditar nas palavras calculadas de Sieme. Tambm no nutria
muita simpatia pelos serafins, mas as virtudes da casta eram inegveis. Se a celestial subjugara-
se a ele, coisa que raramente os serafins fazem, era porque acreditava na legitimidade do
general.
         -- Muito bem, Sieme -- disse o renegado, abaixando a espada. -- Aceito sua ajuda.
No se espante com minha atitude. Voc deve compreender que ainda h muitos que teriam
prazer em acabar comigo, apesar da situao conturbada.
         -- No  de surpreender que seja to precavido -- constatou Aziel, quando o clima de
tenso amansou.
         --  exatamente por isso que continuo vivo -- acrescentou Ablon, agora tranquilo
quanto  presena dos novos celestiais. No havia mais necessidade de confinar sua aura, e mais
uma vez ele a libertou. Sieme e Aziel captaram na totalidade a forte emanao que partia do
general e entenderam que ele era mesmo o nico que poderia ter liderado a ousada revolta que o
tornara famoso. Era uma fora intensa, envolvente, inspiradora, digna de algum que ascendera
ao mais alto ciclo de poder.
         Ablon afastou-se e pegou alguns panos soltos, em meio s estantes. Comeou, a enrolar
a Vingadora Sagrada no tecido, procurando ocult-la. Aziel imaginou que ele se preparava para
deixar o apartamento.
         Sendo uma sensitiva, Sieme no pde deixar de notar as nuances do tecido.
         -- Sinto os remanescentes de uma energia terrvel nesta sala. Mas no consigo perceber
sua natureza exata.  uma fora estranha, misteriosa.
        -- O Anjo Negro -- esclareceu o renegado, enquanto amarrava com uma corda os anos
que escondiam a espada. -- Uma criatura de procedncia desconhecida que se autointitula Anjo
do Abismo Sem Fundo -- completou, atando firmemente dois ns s extremidades do volume,
formando uma ala para carregar s costas. -- Ele esteve aqui, ontem  noite, juntamente com
dois querubins. Foi de quem levou a feiticeira ao soar da Primeira Trombeta -- e voltou a
encarar a Chama Sagrada. -- Aziel, voc disse que tinha informaes sobre o rapto.
        -- Sim.
        -- Quero saber tudo. Mas antes vamos deixar este quarto. O santurio que havia aqui
foi profanado -- explicou, ao mesmo tempo em que caminhava  porta. -- Acompanhem-me.
Conheo um bom lugar para o desjejum.
        -- Desjejum? -- sussurrou Sieme para Aziel, em sua ignorncia quanto aos assuntos
mundanos.
        -- E um tipo de ritual alimentar humano -- indicou seu parceiro de misso.
        -- Entendo -- replicou a celestial. Tinha vindo pouqussimas vezes  Haled, e no
conhecia quase nada sobre os costumes mortais. Felizmente era a Mestre da Mente, e aprenderia
rpido.


                UMA REVELAO IMPRESSIONANTE  A GUERRA CIVIL
        Ablon guiou Aziel e Sieme por seis quarteires, at que os trs chegaram a uma das
avenidas principais. O general aproveitou a caminhada para contar  Chama Sagrada o que tinha
lhe acontecido desde que os sinais do Apocalipse comearam, do encontro com Orion ao
sequestro de Shamira.
        No meio do caminho, o cenrio urbano se transformou, e quando os celestiais menos
esperavam tinham deixado a vizinhana de sobrados e adentrado a rea moderna, com seus
arranha-cus de vidro e concreto. Igrejas barrocas, protegidas por leis de tombamento,
escondiam-se em recantos decadentes, s sombras de construes magnficas, A sujeira
enegrecera a fachada dos templos, e a poluio enfraquecera suas vigas, deixando-os
praticamente arruinados.
        O movimento e a correria aumentaram com a abertura dos pontos comerciais. Eram
quase oito horas da manh, e a temperatura subira cinco graus. O sol arrastava-se pelo leste, e
agora a bola de fogo j podia ser avistada no topo dos edifcios. Para a infelicidade de Sieme, o
clima ia ficando cada vez mais abafado  medida que penetravam o labirinto de prdios -- onde
o ar encontra dificuldade para circular. O calor excessivo a obrigou a retirar a parca e a
continuar o trajeto apenas de camisa. Para ela, que era uma novata nas questes corpreas, as
duras condies tropicais eram um aborrecimento  parte. Entretanto, as descobertas
desagradveis que a Mestre da Mente fazia eram compensadas por novas experincias, muito
mais interessantes.
        Ao observar a massa de pessoas que a toda hora cruzava seu caminho, Sieme percebeu
quo dbeis eram as defesas psquicas dos seres humanos. Os pensamentos dos mortais
brotavam-lhes da mente como gua da fonte, e ela podia ouvi-los sem nenhum esforo: A bolsa
caiu 2,3% esta semana; Meu Deus, ento a coisa deu em guerra mesmo; Tenho que levar meus
filhos ao jogo; Acho que o supervisor no vai ficar satisfeito; A receita leva ovo batido. Com
isso, em poucos minutos, a inteligente serafim j acumulara uma quantidade considervel de
informao a respeito do comportamento terreno, e tentava, em sua mente, organizar e processar
todas essas idias, para ento desvendar seus reais significados.
        Passaram em frente a uma banca de jornal, e em volta dela havia uma aglomerao
incomum. Mesmo atrasados para seus compromissos, muitos no conseguiam prosseguir sem
antes dar uma olhadela na primeira pgina dos jornais pendurados. As manchetes de todos eles,
sem exceo, falavam sobre o ataque nuclear a Pequim da noite anterior. A guerra mundial
ainda no fora oficialmente declarada, mas todos acreditavam que seria em breve, com uma
sangrenta resposta oriental  ofensiva que, supostamente, partira de um dos postos militares da
Liga de Berlim no oceano Pacfico. Os peridicos sensacionalistas alertavam para a
proximidade do "fim do mundo", enquanto os mais moderados indicavam que certos pases, os
chamados pases neutros, como o Brasil, estavam fora do eixo de combate. As pginas
principais tambm mostravam entrevistas com cientistas, que afirmavam que a capacidade de
destruio dessas novas armas era muitssimo superior quelas que devastaram Hiroshima e
Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial. Um s mssil seria capaz, segundo eles, de aniquilar um
pas inteiro.
         O coro -- como os celestiais chamam um grupo de trs ou mais anjos -- andou mais
uma quadra e entrou em uma cafeteria pequena, de formato estreito e profundo. De longe,
Ablon sentiu o aroma do bano, com que foram talhados os mveis. O renegado descobriu
aquele lugar logo que chegou ao Rio de Janeiro e rapidamente se acostumou com ele. Era
calmo, silencioso, e passava a maior parte do tempo vazio. O movimento era maior  noite e
depois do almoo, quando os executivos vinham tomar uma xcara de ch ou degustar uma dose
de usque. A fachada era antiga, devia ter mais de cem anos. Quando foi inaugurado, por volta
de 1900, era uma chapelaria, depois passou a vender charutos e por fim converteu-se em uma
casa que servia cafs, drinques e petiscos. No fundo do bar, sobre o balco, uma televiso com o
volume baixo transmitia um jogo de futebol.
         Os trs sentaram-se em uma mesa prxima  janela, de onde tinham uma excelente
viso da rua e da confuso metropolitana. O Anjo Renegado pediu  garonete uma lata de suco
de laranja e esperou a mulher se afastar, para s ento iniciar o dilogo.


         -- E ento, onde ela est?
         -- Na Fortaleza de Sion -- respondeu Aziel. -- Um anjo desconhecido a levou s
cmaras internas. Pela descrio que voc me deu, trata-se de fato do Anjo Negro, o mesmo que
invadiu seu apartamento.
         A Fortaleza de Sion -- pensou o general, intrigado pela coincidncia.
         -- O que foi? -- inquiriu a Chama Sagrada, reparando no devaneio.
         Ablon voltou  realidade.
         -- A Fortaleza de Sion. Era para l que Lcifer queria me mandar quando me
apresentou seu plano.
         -- E o que a Estrela da Manh pretendia?
         Como resposta, Ablon ps a mo no bolso do sobretudo e sacou um objeto rstico,
circular, moldado em barro slido. Media mais ou menos dez centmetros de dimetro e tinha a
forma de uma cruz envolvida por um anel. Ps a relquia sobre a mesa.
         -- Reconhece este artefato?
         --  a chave de uma das passagens dimensionais da Sala dos Portais, localizada no
interior da Fortaleza de Sion -- rebateu Aziel, aguado. -- Pelas inscries, eu diria que ela
abre um vrtice para os domnios do Arcanjo Sombrio nas profundezas, Lcifer deu isso a
voc?
         -- Sim.
         -- Muito estranho...
         -- Por qu?
         -- No imagino como ele possa ter conseguido este objeto. A Fortaleza de Sion 
completamente impenetrvel a qualquer demnio.
         -- Pode ter sido um traidor.
         Aziel ponderou por um segundo e depois respondeu, convicto:
         -- No acredito nisso. Mesmo que um anjo estivesse trabalhando para Lcfer, jamais
conseguiria adquirir essa chave.  claro que o Diabo pode ter espies espalhados por Sion, ns
mesmos temos vrios. Mas entrar na Sala dos Portais significa estar cara a cara com o arcanjo
Miguel.
         -- Ento a chave pode ser falsa?
         --  possvel, mas acho que no. Posso sentir o poder do artefato -- opinou Aziel,
deslizando o dedo indicador sobre as runas msticas que delineavam a superfcie do barro.
         Os dois ficaram em silncio por um momento, arriscando hipteses mentais que os
ajudassem a lanar alguma luz sobre o mistrio que se apresentava. Sieme estava atenta ao
dilogo, mas continuava calada, lendo os pensamentos das pessoas que passavam na rua.
Achava que isso a ajudaria a compreender melhor o mundo onde estava, sobre o qual quase
nada sabia.
         A reunio est comeando; Essa no! Eu tenho um amigo que mora em Pequim; Puxa,
que noite; Acho que vou comprar uma trava para o carro; Ah, ele  maravilhoso!; Vo jogar
uma bomba na nossa cabea.
         -- H alguma pea desse quebra-cabea que no se encaixa, Aziel -- constatou Ablon,
preocupado.
         O ishim limitou-se a concordar. Tambm no conseguia pensar em nada que
esclarecesse a situao.
         O general devolveu a chave de barro ao bolso do sobretudo. Depois, voltou o olhar 
Chama Sagrada e retomou a conversa do ponto onde parara.
         -- Com ou sem a chave, voc acha que pode me ajudar a salvar Shamira?
         -- Eu no. Mas talvez Gabriel possa.
         -- Gabriel? -- reagiu Ablon, surpreso. Agora era sua vez de estranhar as palavras do
amigo. -- Gabriel  um arcanjo! Os arcanjos so nossos inimigos.
         Aziel trocou olhares com Sieme, que enfim entrou na conversa. At ali, os dois celestes
no tinham parado para pensar quanto tempo fazia que o renegado estava na terra, e que
realmente no tinha como saber o que se passava no cu. Pela primeira vez, a Mestre da Mente
falou:
         -- Muita coisa aconteceu desde que voc foi confinado  Haled, general. Aziel
adicionou:
         -- Acho que voc est defasado em relao a mais de dois mil anos de histria celeste.
         O querubim nada disse, apenas se ajeitou na cadeira, esperando que os enviados lhe
explicassem o que de to importante teria ocorrido em sua ausncia. Aziel comeou:
         -- Logo depois do expurgo dos renegados, muitos de ns fomos tomados por um
estranho sentimento, uma mistura de remorso e confuso. Queramos estar ao seu lado, mas
nada fizemos para impedir que Miguel os expulsasse. E tambm no tnhamos iniciativa para
continuar sua luta. Talvez fosse o medo dos arcanjos, ou simplesmente a falta de uma liderana
coesa... No sei ao certo.
         Ao terminar a frase, o ishim foi interrompido. A garonete trazia uma lata de suco de
laranja e trs copos. Sieme analisou o recipiente, sem saber como funcionava ou para que
servia. Ablon puxou a tampa e serviu aos amigos, mas a serafim recusou o lquido amarelo,
indiferente ao paladar. Quando perceberam que estavam a ss, Aziel continuou:
         -- Alguns tomaram a deciso errada e se uniram a Lcifer, na esperana de que a
rebelio do Arcanjo Sombrio fosse uma continuao da sua, porm com mais chances de
sucesso. Outros, como eu e Sieme, vimos as verdadeiras intenes da Estrela da Manh e o
rechaamos.  claro, muitos abraaram a revoluo por anseios sinistros e diablicos. Quando a
batalha no cu eclodiu, s havia dois lados: ou voc estava com Miguel ou com Lcifer. Preferi
o Prncipe dos Anjos porque, mesmo reconhecendo que era um tirano, achei que as coisas po-
deriam ser piores se os rebeldes vencessem.
         Ablon bebeu um pouco de suco, sem tirar os olhos de Aziel.
         -- Lcifer caiu, junto com seus aliados -- prosseguiu o ishim. -- Com a vitria sobre
os revoltosos, Miguel se fortaleceu e comeou a se isolar cada vez mais no poder. Dos cinco
arcanjos que governavam o paraso, agora s sobravam quatro: Gabriel, Uziel, Rafael e o
prprio Prncipe dos Anjos. Destes, apenas o Mestre cio Fogo era preo para o ditador, mas seu
desinteresse quanto  poltica celestial ajudou o irmo a galgar as escadas do trono. Sem Lcifer
para se opor a ele, o balano de foras no conselho ruiu.
         -- Diante desse quadro -- interferiu Sieme -- tudo levava a crer que em pouco tempo a
Haled c seus habitantes sofreriam novos desastres.
         -- Sim -- concordou Ablon, acompanhando o raciocnio.
         -- Sim -- retomou Aziel. -- E era isso que aconteceria no longo prazo. Mas ento
alguma coisa ocorreu, algo que mudaria para sempre o rumo das foras no cu.
         O guerreiro pousou o copo sobre a mesa, interessado. O ishim seguiu com suas
palavras:
         -- H cerca de dois mil anos, o at ento passivo Gabriel ps-se em conflito com seu
irmo. As divergncias estavam relacionadas ao destino da Criana Sagrada. Miguel queria dar
fim ao menino, mas Gabriel se ops ao assassinato. A contenda gerou um racha permanente nos
Sete Cus. Com isso, o ideal da conjurao, semeado por voc e pelos renegados, ganhou um
novo impulso. O arcanjo Gabriel deixou o Palcio Celestial e solicitou exlio na Cidadela do
Fogo.  claro que teve todo o meu apoio. Uma legio fabulosa e imensa o acompanhou. Todos
ali ansiavam por derrubar o Prncipe dos Anjos e pr fim ao seu reinado de medo, tanto sobre os
celestes quanto sobre os seres terrenos. Desejavam acabar com a tirania e salvaguardar os
mortais na Haled.
         -- Miguel nunca entendeu que a humanidade  parte da criao divina -- argumentou
Ablon. -- Feri-la significa ferir tambm uma parte de Deus.
         -- Mas mesmo depois de o paraso ter sido palco de duas rebelies, Miguel no se deu
por vencido. Sua insistncia arrastou as duas faces para uma guerra civil. O Quarto Cu
transformou-se em um infinito campo de batalha, onde os exrcitos lutaram, por mais de mil
anos, em p de igualdade. A cada instante, uma fortaleza caa e outra era retomada. As tropas
estavam to niveladas em termos de contingente e percia que os progressos eram nfimos. As
foras do tirano no conseguiram invadir o Primeiro Cu e sitiar a Cidadela do Fogo, e nosso
exrcito no foi capaz de subir ao Quinto Cu e atacar o palcio.
         -- Mas com a chegada do Apocalipse tudo muda -- afirmou Sieme.
         Aziel maneou novamente a cabea, em uma afirmativa emocionada.
         -- O Prncipe dos Anjos moveu sua base de operaes para a Fortaleza de Sion, no
plano etreo, de onde espera iniciar a dominao da Haled, quando o tecido da realidade cair.
Ele e os anjos que o acompanham j esto posicionados ao redor da bastilha. Mas essa manobra
do inimigo, ironicamente, nos foi muito propcia. Diferentemente das investidas no Quarto Cu,
onde as foras travavam combates isolados, no etreo os exrcitos podero se enfrentar at o
fim, digla-diando-se na grande Batalha do Armagedon. E aos ganhadores ser reservado o
prmio de assistir ao despertar do Altssimo.
         A expresso do Anjo Renegado encrespou-se. A emisso do nome divino lanou sobre
ele novas preocupaes, trazendo  tona questes que supunha ser de menor importncia.
         -- No que est pensando, general? -- perguntou Sieme, evitando ler seus pensamentos.
         -- S em uma coisa que Lcifer me disse. Para o Arcanjo Sombrio, Miguel estaria
arquitetando um plano pelo qual usaria a energia liberada no despertar de Deus para atingir a
prpria divindade.
         Aziel e Sieme se entreolharam, mostrando-se absolutamente descrentes,
         -- Essa idia  absurda -- protestou o ishim. -- Voc acredita mesmo naquele traidor?
         -- No, mas devo reconhecer que h algum sentido em seu discurso. Vocs acham
mesmo que Miguel passar impune aos olhos do Criador no Dia do Juzo Final? No, sem
dvida ser o primeiro a ser condenado. Alm disso, o retorno de Yahweh tira o arcanjo do rol
das decises. E no foi apenas o Diabo que levantou essa teoria. Urna entidade com quem
conversei props a mesma coisa. Eu tambm custei a aceitar, mas, se voc raciocinar bem, 
bastante lgico. S no consigo compreender por que Orion ou Lcfer no me contaram sobre
isso, sobre a guerra civil e o exrcito de Gabriel. Seguramente o demnio estava tramando
alguma coisa ao ocultar-me todas essas informaes.
         -- Imagino que sim -- retrucou Aziel. -- A Estrela da Manh est sempre maquinando
algo. Voc tomou a atitude certa em no firmar aliana com ele.
         -- Isso eu nunca faria, de uma forma ou de outra. Mas se a batalha ser entre Miguel e
Gabriel, qual  a participao de Lcifer nessa guerra?
         Sieme opinou:
         -- A julgar por sua natureza vil, ele esperar que os dois exrcitos se matem, para s
ento tentar um acordo com os vencedores, j enfraquecidos pelo combate. Todos sabemos
quanto as hostes infernais so belicosas, mas ainda assim no so suficientemente fortes para
enfrentar os anjos estacionados na Fortaleza de Sion nem nossa legio comandada pelo Mestre
do Fogo.
         O Mestre do Fogo -- esse era o principal ttulo ostentado pelo famoso arcanjo Gabriel,
graas ao seu absoluto poder sobre o calor e as chamas. O nico que poderia fazer frente a ele
nesse domnio era Lcifer, que, alm de muitas maestrias, tambm era perito na arte elemental.
Alm desse, Gabriel tinha outros nomes, entre os quais O Mensageiro, Fora de Deus, Prncipe
da Justia e O Anjo da Revelao. Foi ele quem anunciou a vinda de Cristo. Foi ele quem ofe-
receu o perdo a Caim. Foi ele quem ditou as palavras do Alcoro a Maom. Diferentemente de
Miguel, Gabriel sempre atuou na esfera terrena.
         Talvez isso o tenha feito, em determinado momento, recusar as idias brutais de seu
irmo -- pensou o renegado, e ento recordou-se, espontaneamente, dos outros arcanjos, Uziel
e Rafael. Onde estariam?
         -- O que aconteceu com os outros arcanjos? -- inquiriu Ablon, dando-se conta de que
ainda no havia escutado a histria toda. -- Qual foi a posio que tomaram nessa guerra?
         Aziel sacudiu a cabea, desta vez indicando uma negativa.
         -- Rafael h muito deixou o reino dos anjos, desiludido com a atitude de seus irmos.
Perdeu toda a vontade de continuar governando e desistiu de tudo e de todos, isolando-se em
alguma dimenso desconhecida. J Uziel esteve ao lado de Miguel, liderando os querubins, h
at bem pouco tempo, mas ento, certo dia, sua aura simplesmente se apagou.
         O Primeiro General respirou fundo. Por um momento, amaldioou sua falta de
conhecimento. Se soubesse dessas coisas antes, teria as respostas certas para os momentos
oportunos -- como Lcifer tinha. Mas no podia se culpar. A verdade, por mais fatalista que
fosse, era que, fora as oscilaes do tecido, no tinha outra maneira de obter notcias do mundo
espiritual. As nuances da membrana carregavam apenas fracos resqucios sobre os
acontecimentos que se sucediam em outros planos.
         Ainda preocupado com Shamira, voltou  questo do rapto:
         -- E esse Anjo Negro, ou Anjo do Abismo Sem Fundo, como gosta de ser chamado?
No pude identificar sua aura. Carregava em si uma energia diferente de tudo o que j senti. O
que sabem sobre ele?
         -- Tanto quanto voc, general -- rebateu Sieme. -- Ele serve apenas ao Prncipe dos
Anjos, e a ningum mais.  forte e poderoso, cruel e impiedoso. Nossos espies reportaram que
nem mesmo os lacaios de Miguel conhecem sua verdadeira identidade.
         Ablon bebeu de uma vez todo o suco que restava no copo. Percebeu que o jogo de
futebol, antes transmitido pela TV, havia acabado, e agora os clientes no bar assistiam ao
noticirio matinal.
         Aziel e Sieme vieram  Haled prestar auxlio ao general, mas ele tinha a impresso de
que no era s por isso que estavam ali. Havia algo mais. Tinham sido enviados por um arcanjo
e, por mais que aceitasse a redeno de Gabriel, custava a acreditar que o Mestre do Fogo fosse
to altrusta. Voltou os olhos cinzentos aos dois celestes e resumiu:
         -- Vocs tm uma inigualvel legio de querubins e um lder forte como Gabriel. O que
querem de mim?
         -- O Armagedon  a grande batalha -- reconheceu Aziel --, o combate pelo qual todos
os celestiais tm esperado. Voc  o Anjo Renegado, aquele que primeiro desafiou as ordens do
inimigo, e por isso tornou-se uma lenda. Os feitos de bondade e bravura perpetrados pela
conjurao inspiraram muitos de ns, at mesmo o prprio Mestre do Fogo,
         -- Gabriel no pretende continuar nos liderando por muito tempo -- Sieme revelou. --
At ento os dois exrcitos lutaram em equilbrio, mas em Sion ns seremos os invasores, e eles
defendero suas posies. Tero a vantagem de estar confinados em sua fortaleza. Por isso
precisamos de voc. Se o ltimo anjo renegado puder comandar nossas tropas, se o prprio
cone da resistncia erguer a bandeira da liberdade, ento a vitria ser certa.
         Os serafins costumam ser frios e controlados, mas Ablon percebeu um brilho
apaixonado na ltima frase da mulher-anjo. Seguramente havia ali uma imensa admirao, que a
natureza autoconfiante de sua casta a impedia de demonstrar. Quando foi expulso do cu, o anjo
guerreiro no esperava se tornar um mito, Era irnico pensar sobre isso, mas no foi ele quem
cultivou essa reputao, e sim o arcanjo Miguel, que ordenou a caada aos renegados. Se pelo
menos um deles sobrevivesse s perseguies, como foi o caso de Ablon, se tornaria um mrtir.
         Aziel e Sieme ficaram quietos, esperando ansiosos pela resposta do Primeiro General. O
segundo que se seguiu pareceu-lhes uma eternidade.
         -- Este  o tipo de proposta que se faz -- disse Ablon, decidido, arriscando um leve
sorriso com o canto da boca. Quando, havia milhares de anos, jutou vingar-se de Miguel e
confront-lo no Dia do Ajuste de Contas, no esperava faz-lo com uma legio sob seu
comando. Mas se era assim que a situao se apresentava, tanto melhor.
         Azel sorriu e ps a mo no ombro do amigo, oferecendo-lhe apoio incondicional e
jurando nunca mais abandon-lo. Sieme fez apenas um gesto de aprovao, mas seu
contentamento no era menor que o do companheiro.
         -- Contudo -- ponderou Ablon -- h um porm. No posso me desmaterializar. Como
espera que eu encontre as tropas de Gabriel acampadas no plano etreo?
         A Mestre da Mente tinha a soluo.
         -- Tomamos conhecimento de um portal pelo qual voc poder passar sem ter de
atravessar a membrana. A passagem nos levar s proximidades do local onde o exrcito do
Mensageiro est se preparando.
         -- Um portal? Portais so muito raros. Com quem obtiveram essa informao?
         -- Com o prprio arcanjo Gabriel -- revelou Aziel.
         O general tranquilizou-se. Se quisesse entrar de cabea nessa guerra, no teria outra
opo a no ser confiar em Gabriel e em seus anjos.
         -- E onde fica esse canal mstico?
         -- Em uma caverna na montanha de Horeb, no deserto do Sinai.
         O deserto do Sinai pertence hoje ao Egito, mas fica prximo  Terra Santa. Ao imaginar
aquele cenrio milenar, Ablon lembrou-se de uma passagem do xodo bblico. Conhecia bem as
escrituras.
         -- A montanha de Horeb?  onde o Antigo Testamento sustenta que o profeta Moiss
teve sua primeira revelao de Deus.  compreensvel. S Gabriel poderia saber a localizao
desse portal. Ele  o Anjo da Revelao, que apareceu ao hebreu em forma de fogo, ao lado da
rvore que ardia em chamas. Por isso alertou Moiss para tirar as sandlias e no se aproximar
da sara. Se o profeta pisasse naquele solo sagrado, seria atirado para dentro do tnel mstico.
         -- Ento devemos partir imediatamente -- props Sieme. -- Qual  o barco mais veloz
que vocs tm por aqui?
         --Vamos tentar uma coisa um pouco mais rpida -- sugeriu o general, achando graa
na inocncia da serafim. Ela no imaginava o que era um avio ou mesmo um carro, embora j
tivesse visto alguns automveis circulando nas ruas.
         Ablon e Aziel, que j conheciam melhor os recursos modernos, no deram importncia
ao anacronismo da Mestre da Mente. Estavam mais preocupados com como chegar  Terra
Santa, em um momento to crtico como aquele, quando a Haled era sacudida por um conflito
mundial. O Anjo Renegado, que j presenciara centenas de guerras humanas, sabia que todo
tipo de locomoo se tornava difcil em tempos de crise. Calculou, pelo que vira nos jornais,
que os aeroportos nos pases rabes estariam todos fechados, portanto era invivel tentar chegar
ao Egito de avio. A opo mais bvia era embarcar em um voo para Israel e, a partir de
Jerusalm, seguir de carro para a pennsula do Sinai. S no tinha pensado ainda como colocaria
os dois anjos, Aziel e Sieme, sem passaportes ou documentos, dentro da uma aeronave.
         Jerusalm, a Cidade Santa -- o nome soou como uma msica triste na mente do
general. Por anos, ele sonhou em conhecer aquela regio que, no passado, fora palco de
momentos histricos to significantes e grandiosos. Imaginava como seria caminhar sobre suas
muralhas, vagar pelo monte das Oliveiras e explorar os santurios judeus, cristos e
muulmanos. Mas Ablon era um exilado. Nunca pde se aproximar da Terra Sacra, territrio
proibido a todo anjo renegado. Jerusalm sempre esteve cercada pelos agentes de Miguel, que
estendiam suas rondas desde o mar Morto at a linha do Mediterrneo. Ultrapassar aquelas
fronteiras era, para qualquer inimigo dos arcanjos, um ato suicida. Agora, porm, com a
chegada do Apocalipse, Miguel chamara todos os seus soldados para defender a Fortaleza de
Sion, suspendendo as patrulhas e posicionando esses guerreiros na linha de frente. Pela primeira
vez, a cidade estava desprotegida, e o Anjo Renegado poderia adentr-la sem problemas.
         -- Sieme est certa. No devemos perder mais tempo -- concordou o guerreiro,
olhando por cima dos ombros e procurando a garonete. Ao ver a moa, fez sinal para encerrar
o servio.
         Os trs anjos j se preparavam para levantar, quando uma dor terrvel os acometeu. No
sabiam de onde vinha, e diante dela ficaram inteis. Chegou sob a forma de um barulho
estrondoso, um eco estridente que os perfurava e os paralisava. O flagelo auditivo os queimou
por dentro, e Aziel, tomado pelo sofrimento, tropeou e caiu. A cabea de Sieme, que era a mais
sensvel dos trs, ameaou explodir. A serafim apagou por um segundo, mas logo retornou 
conscincia, quando o assobio mstico se calou.
         Aziel, ainda desorientado, ps-se de p. As pessoas no bar, curiosas, olhavam para ele,
imaginando por que um homem jovem e saudvel desmaiara to de repente. A garonete,
solcita, veio ajud-lo, e a Chama Sagrada constatou que ele, Ablon e Sieme haviam sido os
nicos afetados pela sensao.
         -- O senhor est bem? -- perguntou a garonete, amparando Aziel.
         -- Ah, sim... obrigado, foi s uma leve tontura -- disfarou o ishim, ainda desnorteado.
         -- Vou buscar um copo-d'gua -- ofereceu a moa, correndo ao bar.
         -- A Segunda Trombeta -- os anjos ouviram Ablon dizer, enquanto se recuperavam. O
renegado j tinha ouvido o silvo da primeira, por isso no ficara to impressionado.
         -- No Primeiro Cu, onde estvamos, o sopro no foi to agudo -- resmungou Sieme.
         -- O que acabamos de sentir foi um rasgo permanente no tecido -- explicou o general,
pondo algumas moedas na mesa. -- A Haled est toda permeada por cie, e  natural que o rudo
seja mais forte no mundo fsico. O que vocs ouviram no Primeiro Cu foi apenas um eco do
que aconteceu aqui -- concluiu, dirigindo-se  sada. Aziel e Sieme o seguiram.
         -- A guerra dos humanos acaba de ser declarada. O mundo est sendo atacado -- disse
o querubim. -- Temos de chegar a Jerusalm antes que a cidade se converta em cinzas.
         -- E como pretende viajar ao Oriente Mdio? -- questionou Aziel. -- Conheo alguns
atalhos pelo plano astral, mas voc no pode se desmaterializar.
         -- Vamos embarcar em um voo para Israel hoje mesmo. Acho que tenho um passaporte
antigo nos escombros de meu apartamento. Mas no h como mascarar a identidade de vocs
dois. Ainda no sei o que fazer.
         -- O que  um passaporte? -- perguntou Sieme.
         --  como uma carta de fronteiras -- esclareceu Aziel  parceira. -- Precisamos dela
para ingressar em outros pases. Sem esse papel, no temos como entrar na Terra Santa.
         -- Deixe isso comigo -- retrucou a Mestre da Mente. Ela tinha mtodos mais
eficientes, porm menos ticos, para ajud-los a passar pelos postos da polcia. Ablon aceitou de
imediato o inestimvel auxlio da mulher-anjo e abenoou Gabriel por t-la enviado quela
misso. Certamente o Mestre do Fogo previra sua utilidade. A ajuda de uma telepata era
indispensvel, mas aquele no seria o nico obstculo que precisariam superar.
         Ablon viajaria pela primeira vez a Jerusalm e sentiu um frio na barriga ao lembrar-se
da ltima vez em que caminhara por aquelas bandas e de como fora barrado ao alcanar os
portes da cidade, muito tempo atrs. Foi uma das poucas vezes em que fora obrigado a recuar e
a dar as costas ao seu objerivo.
         Determinado, decidiu que, desta vez, entraria em Jerusalm e no retrocederia de novo.
         Por um segundo, o Primeiro General fechou os olhos e, em um nico instante, recordou-
se daquela que, provavelmente, fora a mais clebre de suas aventuras.
Vale do rio Amarelo, norte da China, perto do ano 1 a.C.


                                      PERIGO INVISVEL

A VIAGEM FORA LONGA, MAS FINALMENTE l estava eu, no Oriente. No princpio, custei a acreditar
que tinha chegado to longe. Deixei Roma no ano 61 a.C., logo aps Csar, Crasso e Pompeu
terem instaurado o triunvirato, e caminhei calmamente em direo ao leste, sem me preocupar
muito para onde as estradas me levariam. No pretendia voltar to cedo  Cidade Eterna, mas
alguns problemas me obrigaram, mais tarde, a alterar os planos. Naquele dia quente de julho,
porm, eu no imaginava quo perigosa seria minha jornada s provncias chinesas, ento
governadas pela dinastia Han.
        Em 202 a.C., uma feroz guerra civil derrubou os monarcas Qin, e Gaozu, o primeiro
imperador Han, subiu ao poder. Com ele, a China conheceu um novo perodo de prosperidade e
expanso, conquistando extensos territrios ao sul e na pennsula da Coreia. Indiferentes a esses
conflitos, os camponeses seguiam uma vida tranquila, e foi com essas pessoas simples que tive
contato durante quase todo o tempo em que estive trilhando aquelas plancies frteis.
        Depois de trs dias caminhando, meu objetivo inicial fora completado -- eu havia
chegado, so e salvo, s margens do rio Amarelo. Vi o sol se deitando atrs das montanhas e
achei que era uma boa hora para fazer uma pausa e lavar o rosto. Parei diante de uma falsia de
dez metros, cuja queda levava ao leito do rio, responsvel por abastecer toda a regio e irrigar o
solo. Mas minha idia no era enfrentar aquela lngua-d'gua. Desejava justamente acompanhar
a margem e seguir para o norte, at a bela Muralha de Zhao, construo que anos depois veio a
integrar o extenso conjunto de fortificaes que deram origem  Muralha da China. De l, talvez
esticasse minha viagem ao deserto de Gobi, com suas ridas plancies e rinces inabitados.
        A noite chegou e os poucos camponeses que continuavam recolhendo arroz deixaram as
plantaes e voltaram para casa com balaios enormes. Fiquei sozinho, no alagado, e resolvi
procurar uma rea seca onde pudesse esticar as roupas molhadas. Por sorte, logo encontrei uma
pedra, cujo topo formava uma superfcie plana. Joguei primeiro as botas e depois saltei sobre a
rocha, sentindo-me bem melhor ao pisar em solo spero e quente. L de cima eu tinha uma
excelente viso de toda a esplanada, e me espantei ao ver como era ampla, continuando ao sul,
alm do rio, at o corao da China. A oeste o terreno ia ficando mais rido, at que os montes
viravam morros, e estes, montanhas, para se alinhar, quilmetros  frente,  grande cordilheira
do Himalaia.
        Fechei os olhos e mergulhei em profunda meditao. Tudo estava de acordo: o clima, a
noite, o cheiro de terra molhada e at mesmo o eco regular das marolas do rio se arrastando
contra a encosta.
        O inimigo nos ataca quando menos esperamos. E, de todos os meus adversrios, o
prximo a me enfrentar seria o mais inesperado de todos.
        Naturalmente, naquela noite de vero, eu ainda no sabia disso.


        Quando o sol raiou, segui caminhada pelos campos de arroz. Para no chamar ateno,
conservava o rosto coberto por um capuz, mas meu porte avantajado me denunciava. Era mais
alto que os lavradores e mais forte que os guerreiros que patrulhavam aquelas cercanias.
         Agachados, recolhendo os cereais, os agricultores me lembravam anes autmatos,
criados para desempenhar apenas uma funo. Vestiam-se todos iguais, com roupas escuras de
algodo e largos chapus de palha, necessrios para suportar um dia inteiro trabalhando sob o
sol forte. Raras vezes tiravam as mos de dentro da gua, ento era difcil observar-lhes a pele e
o rosto.
          exceo de alguns olhares amedrontados e meia dzia de palavres, os pobres
lavradores no tinham como me ameaar, por isso no me preocupei com eles. A viagem,
portanto, evolua sem problemas, quando, em uma daquelas tardes de marcha, enquanto a chuva
caa fininha sobre a lavoura, meu senso de perigo foi ativado. Destro, pulei para trs,
procurando as sombras de uma rvore, e ali fiquei em silncio, preparado para qualquer
investida. Mas no vi ningum alm dos trabalhadores que, distantes, davam continuidade a seu
trabalho. Onde estaria o adversrio para o qual minha intuio me alertara? No havia nada ali
-- nenhuma presena, nenhum abalo no tecido da realidade. Vasculhei a plantao com meus
sentidos de predador e, desconfiado, observei a alma de cada um dos camponeses. No captei
nenhuma dissonncia psquica. Eles eram humanos, simples mortais, e no entidades em cascas
fsicas.
         Fiquei sob a rvore por mais meia hora e, ao me certificar de que nenhum anjo ou
demnio circulava a plantao, voltei  trilha. No consegui parar de pensar no que tinha
acontecido.
         Meu senso de perigo nunca falhara.


                                NATHANAEL, O MAIS PURO

         Assim correram os dias, at que uma semana depois deixei o vale e avistei no horizonte
uma linha de pedras marrons, que bloqueava a passagem para o norte. No era uma formao
natural, mas uma fortificao erigida pelo homem -- era a primeira imagem que, a distncia,
um forasteiro tinha da grande Muralha de Zhao. Aos poucos, tornaram-se visveis tambm os
galhardetes, as bandeiras, os animais de guerra e os soldados alinhados em guarda.
          sada do vale, o clima e o terreno ficaram mais secos, e a vegetao, mais esparsa.
Naquele solo acidentado, eu levaria mais dois dias para alcanar o colosso de pedra, mas, como
no tinha pressa,  chegada da noite, fiz mais uma daquelas minhas longas paradas para apreciar
o cu.
         Ao fixar a ateno no cu estrelado, pus a mo dentro da algibeira e tateei, nas moedas
de prata, o rosto do ditador Sila em alto-relevo. Quase imediatamente, minhas lembranas me
transportaram de volta  Cidade Eterna. Roma no era o tipo de lugar para um anjo renegado. A
burocracia apoderara-se do Estado. Viver em meio  civilizao demandava possuir
documentos, registros c papis que eu no podia me dar ao luxo de ter. Mas devo admitir que
passei bons momentos na capital do mundo. Durante os ltimos anos da Repblica, Shamira,
aps uma longa viagem  sia, chegou  Cidade das Sete Colinas. Apaixonou-se pela
efervescncia urbana e decidiu comprar uma casa confortvel perto do monte Capitolino. Os
magos costumam ter fascnio pelo conhecimento, e Roma era o ponto para onde todas as
informaes convergiam. No demorou muito para que, ao passear pelas caladas, eu sentisse o
cheiro doce de sua pele. Foi em um dia gelado do ano 62 a.C. que, por acaso, nos encontramos
s margens do Tibre. Fazia duzentos anos que no a via, e tnhamos muito a contar um ao outro.
Relaxamos ao sol, no trio da casa romana, e a manh, a tarde e a noite daquele inverno urbano
correram embaladas por histrias de demnios, bruxos, espritos e anjos. Um desses relatos, e,
vale dizer, o mais impressionante, ilustrava um evento que assustara os magos ao redor do
mundo: o assassinato de Drakali-Toth, que at ento era o maior dos necromantes e que fora o
principal instrutor de Shamira. Ningum sabia quem cometera o crime, mas especulava-se que
sua morte estava ligada ao assassinato de outros mestres feiticeiros.
         Um ano depois, no outono de 61, achei que seria prudente deixar a cidade -- no podia
esquecer que continuava sendo caado.
          Eu fechara os olhos ao imaginar aqueles dias felizes e deixara as constelaes para
depois.
         Foi ento que, na escurido noturna, em meio aos pontinhos de luz, uma estrela
comeou a brilhar com majestosa intensidade. Da altitude extrema, o astro comeou a descer, e
o cu inundou-se com seu fulgor dourado. No era uma estrela que caa, no era um meteoro
errante nem mesmo um tanto de poeira csmica. O esplendor que eu contemplava era um anjo,
uma entidade que descia  terra. E por seu lume ficara evidente que era um ofanim.
         De todas as castas de anjos, os ofanins so os mais puros. Dedicam-se a proteger os
mortais e a gui-los  salvao. Atuam com frequncia no mundo espiritual, afastando os
homens do assdio de demnios e espritos maus. No raro, formam avatares e, disfarados de
pessoas comuns, vm ao plano fsico ajudar os necessitados, os pobres e os desgostosos de si.
Amam como ningum os seres humanos e repudiam os massacres perpetrados pelos arcanjos.
Suas divindades concentram-se principalmente em habilidades de cura, fsica ou mental. So
tambm hbeis em manipular partculas de luz, o que lhes permite fazer o prprio corpo reluzir.
         Ao perceber a que casta pertencia o visitante celeste, inflei-me de paixo. Sua simples
presena me inspirava coragem e, tranquilo, observei a estrela viva suprimir seu brilho ao
descer em minha direo. Mesmo ofuscado, eu agora j podia distinguir suas formas, mas no
as feies que lhe compunham a face. Seguramente eu o conhecia, mas ainda era impossvel
dizer quem era. Voava gracioso, com o auxlio de um par de asas.
         Ao fim de sua trajetria descendente, o ofanim aterrissou, recolhendo as penas. A luz,
outrora deslumbrante, foi murchando e enfim resumiu-se a um nico pulso brilhante,
concentrado no corao.
         -- Paz, meu amigo! Rogo-lhe que no tema, pois no venho como juiz ou carrasco --
anunciou uma voz masculina, que soava como uma melodia infinita. -- Procuro por Ablon, o
Primeiro General, e no pelo anjo renegado que os agentes da vergonha insistem em perseguir.
          audio, o timbre soou familiar, mas minha mente ainda estava confusa.
         -- Se no me deseja mal, ento aproxime-se para que eu veja seu rosto.
         O anjo chegou mais perto e,  luz de seu corao pulsante, reconheci o semblante de
Nathanael, um celestial que carregava a alcunha de O Mais Puro. Tinha longos cabelos
dourados, e os olhos eram como peas de cobre. Eu e Nathanael havamos sido grandes amigos.
Mesmo pertencendo a uma casta de natureza pacfica, ele tinha a coragem de um leo, e a
histria de seus feitos era coroada de glrias.
         Eu sabia que, mesmo sendo um anjo e tendo acabado de descer dos cus, Nathanael
jamais levantaria um s dedo contra mim. A amizade que eu tinha por ele era to forte quanto a
que sentia por Orion e Aziel. Ao perceber minha fisionomia de contentamento, o ofanim abriu
os braos e nos abraamos forte. Alm da felicidade de reencontrar um companheiro, as
emanaes de sua aura transmitiam harmonia e confiana.
         -- Nathanael, meu bom Nathanael. Que bons ventos o trazem, velho amigo?
         Ele sorriu brevemente, mas logo retomou a expresso sria, indicando, pelo olhar, que a
situao era crtica.
         -- Refiz seu rastro desde a Cidade das Sete Colinas e felizmente o encontrei a tempo.
Voc  difcil de achar, general.
         O tom grave empregado pelo Mais Puro me deixou apreensivo. Poucas vezes o vira to
sisudo.
         -- Ento suponho que o que tem a me dizer seja muito importante.
         --Talvez nunca tenha havido algo de tamanha importncia, e provavelmente
nunca mais haver -- afirmou Nathanael, em carter pico. -- Se no fosse assirn, no voaria
do Ocidente para alcan-lo. Mas, apesar de minha jornada ter sido rdua, preciso ser breve.
Estou correndo um risco enorme. Ningum deve saber que vim  sua presena. Todavia, nossa
amizade  duradoura, e achei que voc deveria saber o que se passa.
         Evidentemente havia um risco tremendo em Nathanael vir ao meu encontro, afinal eu
era um criminoso, e ningum desejava ser cmplice de um fugitivo.
         O Mais Puro me encarou profundamente com seus olhos de cobre, preparando-se para
proferir a mensagem que tanto se empenhara em trazer.
         -- A oeste, na Terra de Cana, o arcanjo Gabriel profetizou a vinda de uma criana
sagrada -- anunciou.
         -- Uma criana sagrada? -- eu ainda no percebera a gravidade do fato. -- O que ela ?
Algum tipo de santo?
         --  muito mais do que isso, general. Essa criana poder mudar o destino da
humanidade.  nessa alma que estamos depositando toda nossa esperana. Sem ela, a
civilizao humana dentro em pouco cair em desgraa.
         Que figura prometida seria aquela? Qual seria a extenso de seu poder?
         -- No compreendo, Nathanael. Como posso ajud-lo?
         -- O arcanjo Miguel anseia pela corrupo da humanidade. Ele deseja ver o dio
crescer no corao dos homens, para que possa justificar os prprios massacres. Por isso
sabemos que tentar matar a criana. Alguns anjos, como eu, se uniram para proteger a vida do
Salvador e dar-lhe a chance de espalhar sua mensagem ao mundo. Ainda somos poucos, mas
estamos crescendo em nmero. No sei se estou certo em meu julgamento, mas achei que esta
seria a oportunidade para voc retomar sua luta. Conheo uma legio que o seguiria.
         As palavras de Nathanael, e a maneira como ele falara, me fizeram, de antemo,
entender que a chegada daquela criana sagrada afetaria no s a histria humana, mas tambm
o balano de foras no cu. Se o ofanim viera at mim, ento havia, com certeza, outros anjos
dispostos a pegar em armas para defender a legitimidade do Iluminado, Mas por natureza eu era
precavido, e deixei escapar o comentrio:
         -- Como posso ter certeza de que esta no  uma cilada armada pelos arcanjos para
reunir e capturar os renegados? Talvez eles tenham induzido voc a vir at mim.
         Se na poca eu soubesse a grandiosidade do acontecimento que estava por vir, no teria
sido to pretensioso. Mas ameaas de traio viviam povoando minha mente. Era algo
inevitvel, uma cicatriz perptua deixada pela falsidade de Lcifer.
         -- Conheo bem a perspiccia dos arcanjos, Ablon, e posso lhe garantir que ningum
me mandou aqui. Vim sozinho. Alm do mais, vi a me e a criana iluminada no ventre dela. Se
voc tambm as tivesse visto, entenderia o que estou falando. Infelizmente, no h como pr em
palavras esse tipo de sensao. Voc deve prov-la por si mesmo. Por isso acho que deveria ir 
Terra Santa. Eu no mentiria para voc, meu amigo. Voc acredita em mim?
          claro que sim, claro que acreditava nele. Em quem mais poderia acreditar, se
desconfiasse de algum cuja principal misso fora, em uma poca longnqua, invalidar os
argumentos do Prncipe dos Anjos e tentar evitar o dilvio? Confesso que me senti
envergonhado por, ainda que por um momento, ter questionado as intenes do Mais Puro.
         -- Acredito em voc, Nathanael.
         Ele se permitiu um sorriso, e, naquele instante, eu o vi como realmente era: um anjo
alegre, confiante, caridoso, que agora carregava um tremendo fardo nos ombros, uma
responsabilidade que, supostamente, todos os celestiais deveriam assumir.
         -- Ento -- retomou o Mais Puro -- voc deve partir para Cana o mais rpido
possvel. O menino nascer no solstcio de inverno.
         -- E as sentinelas de Miguel que vasculham o mundo espiritual? Sei que h querubins
montando guarda no plano astral, por toda a regio. Voc conhece algum meio de evit-los?
         -- Enquanto o Salvador viver, os interesses celestiais estaro todos voltados para ele.
Os agentes de Miguel tentaro extermin-lo, e faremos de tudo para defend-lo. Isso no quer
dizer que as patrulhas sero suspensas, mas a presena do Iluminado na Terra Santa provocar
alvoroo. Voc poder se aproveitar dessa distrao para alcanar os portes de Jerusalm.
Ainda no sabemos ao certo onde o menino nascer, mas estamos concentrando nossas foras
na Cidade Sacra. Viaje como homem comum e caminhe nas sombras sempre que possvel.
         -- Mas desse jeito levarei anos para chegar ao Oriente Mdio. Como renegado, nunca
me arrisquei alm do mar Morto, e desconheo as rotas que cruzam aquela rea -- argumentei,
contando que o Mais Puro tivesse uma soluo. Sinceramente, no via meio algum de percorrer
mais de oito mil quilmetros em seis meses.
         Felizmente o ofanim j tinha pensando nisso.
         -- Voarei bem alto, acima das estrelas, em direo  Palestina, Siga minha luz e
encontrar o caminho.
         Viajar sob as estrelas. Era o que eu fazia melhor. Sabia guiar-me por elas e, se pudesse
contar com o auxlio de um astro prprio que me indicasse as coordenadas, alcanaria Cana em
tempo recorde. Calculei, no entanto, que, mesmo tomando os atalhos certos e no parando
durante a noite, seria impossvel chegar a meu objctivo antes de dezembro.
         -- Mesmo guiado por voc, no posso garantir que estarei l para o nascimento. Porm,
asseguro-lhe que caminharei sempre observando o cu. No o perderei de vista.
         -- Sua noo de compromisso  invejvel, meu amigo. Sim, eu entendo. Mas evite
atrasos. Como qualquer ser de carne e osso, um dia o Salvador morrer. No devemos permitir
que isso acontea antes que ele conclua sua obra -- declarou, orgulhoso, e concluiu:
         -- Contamos com voc. Precisamos do Primeiro General.
         Limitei-me a concordar, balanando lentamente a cabea para baixo. Respeitei o
silncio e vi o Mais Puro se afastar. Os cabelos dourados e os olhos de cobre foram se fundido 
luz crescente do corao, que se expandiu em um feixe excelso, transformando a noite em dia.
Em segundos, todo seu corpo havia se convertido em um imenso claro, que subiu aos cus e
tomou lugar entre as estrelas. Permaneceu ali, como o mais brilhante de todos os corpos celestes
e, quando atingiu a altitude mxima, iniciou sua trajetria ao oeste.
         Eu precisava acompanh-lo. Imediatamente.


                                       NA ARMADILHA

        A necessidade de viajar ligeiro me levou a tomar uma estrada de terra batida, que era a
rota oficial chinesa at a Muralha de Zhao. A dinastia Han, que ento sofria com ataques de
rebeldes, incentivou, desde o princpio, a abertura de estradas. Os imperadores Han eram, na
maioria, militaristas, mas tambm valorosos defensores do comrcio. Nunca antes a China
conhecera uma troca comercial to intensa com o Ocidente. Aos gregos e aos romanos vendia-
se de tudo, desde ouro e jade at pimenta e cavalos. Mas certamente o produto mais apreciado
pelos estrangeiros era. a seda, que por seu alto valor era comercializada s sacas e seguia em
caravanas at a Anatlia, atual Turquia, para depois embarcar em navios para a Europa. Com o
crescimento da demanda, o nmero de mercadores de seda que viajavam s provncias chinesas
aumentou, e o caminho por eles percorrido tornou-se famoso e recebeu o nome de Rota da Seda.
A estrada, que atravessava praticamente toda a sia, encontrava seu ponto final na cidade de
Antiquia, s margens do mar Mediterrneo.
        A muralha que se erguia diante de mim comeara a ser construda por volta de 300 a.C.,
durante a dinastia Qin. Os Han s fizeram ampli-la, e foi no reinado do imperador Wu que
essas defesas foram estendidas para oeste, adentrando o territrio tibetano. Imensos blocos de
pedra sobrepostos compunham sua estrutura, que atingia, em certos pontos, dezesseis metros de
altura. Ao longo de sua extenso, o paredo defensivo contava com torres de guarda a cada
cinco quilmetros, onde as tropas fronteirias acampavam e vigiavam as plancies que
terminavam no deserto de Gobi. Quando o nevoeiro se dissipou, a primeira coisa que vi foi
precisamente uma dessas torres. Sob ela havia um porto retangular, atravs do qual passavam
caravanas oriundas de vrias partes do mundo. Essa legio de comerciantes, juntamente com
suas carroas, animais e escravos, aglomerava-se  volta de uma estalagem solitria, nico
estabelecimento existente no largo em frente ao gigante de pedra.
        Durante o dia, no era possvel distinguir a luz estelar emanada por Nathanael em pleno
voo, mas eu memorizara sua direo e estava seguro de que no me perderia. Segundo suas
coordenadas, eu no me desviaria do caminho se descesse a colina e atravessasse a muralha.
Desejava tomar a rota pelo norte, adentrando o deserto, onde um andarilho podia caminhar em
Unha reta indefinidamente, sem ser surpreendido por barreiras naturais.
        O largo defronte  muralha estava lotado. Notei a presena de ocidentais no
acampamento, o que me deixou mais tranquilo. Ali, certamente, meu disfarce de viajante grego
cairia como uma luva, embora no houvesse ningum de pele to clara. Logo encontrei um
sapateiro e adquiri o melhor par de botas de couro que ele possua no estoque. Consegui
tambm, a um alto preo, um mapa de pergaminho da estrada que cortava o deserto de Gobi e
troquei boa parte de meu dinheiro romano por moeda chinesa. Eram peas de bronze furadas no
centro. O orifcio servia para que as moedas fossem presas umas s outras com um fio ou
barbante.
        Com isso estava, pois, pronto para partir.


        J eram quinze horas e andei mais cinquenta metros at o porto, que se fecharia em
poucos minutos. Foi nesse instante, quando j estava de costas para o largo da estalagem, que
novamente meu senso de perigo disparou. Imediatamente, o reflexo falou mais alto, e voltei a
ateno para a praa do comrcio, assumindo uma postura defensiva. Dali tinha uma viso clara
das pessoas que caminhavam pela rea pavimentada. E o que me deixou mais assustado foi que
no pude, mais uma vez, identificar o inimigo. Seria apenas parania de minha mente? Ou meu
senso de perigo teria finalmente entrado em colapso?
        Apreensivo, observei as pessoas que circulavam e conclu que eram todas mortais --
simples seres humanos que no faziam a menor idia de que eu era um anjo. Como poderiam
me ameaar?
        Andei at a passagem sob a muralha, estacando antes de atravess-la. Dali a cinco
minutos os guardas baixariam a grade de ferro, bloqueando a sada e abrindo-a novamente ao
nascer do sol do prximo dia. Alguma coisa, contudo, me impedia de prosseguir. O que seria?
        Um tipo de sensao desconhecida se apoderara de mm, confundindo minha mente. De
repente, a fabulosa idia de tomar a rota pelo deserto me pareceu totalmente absurda. Senti-me
estranhamente impelido a recuar para o sul, voltando ao vale do rio Amarelo. De l poderia
rumar a oeste at o ponto inicial da Rota da Seda em Chang'an, a capital chinesa, e caminhar
com as caravanas pelo corredor de Gansu at a sia Central. Sim,  uma boa alternativa, pensei.
        No, era pssima! Era o pior caminho que eu poderia tomar. Todavia, por algum
motivo, naquele momento, a trilha pelo sul me pareceu a melhor. Mais do que isso: eu tinha
uma necessidade inexplicvel de seguir aquele trajeto. De onde partira aquele desejo?
        O porto se fechou, e o barulho do metal despencando contra o cho de pedra ficou-me
gravado na memria.
        Eu cara na armadilha.


                                         CHANG'AN

         Um ms se passou desde que eu desistira de viajar pelo deserto de Gobi. Da Grande
Muralha, onde eu estava, segui para sudoeste at chegar  capital, Chang'an. Meu nico
objetivo ali era trocar o mapa do deserto que eu tinha por um que me indicasse as vias da Rota
da Seda pelo corredor de Gansu, que se espremia entre os montes Qilian e o paredo norte da
muralha.
          noite, a luz de Nathanael ainda piscava, o que me garantia certa segurana em relao
 direo que deveria tomar. Mas o brilho do ofanim no reluziria para sempre. E eu tinha a
terrvel sensao de que j me atrasara demais.
         No sculo I a.C., Chang'an era a sede do governo, onde moravam o imperador e todos
os seus funcionrios. Era uma enorme cidade murada, com trs portes principais na parede sul,
que se abriam para as avenidas internas. Os nobres e mandarins residiam perto do palcio, em
uma verdadeira cidadela ao norte da cidade, onde um exrcito protegia a integridade do
monarca e sua corte.
         Ao meio-dia cheguei  praa do mercado, bem na hora em que os comerciantes
iniciavam suas atividades. Ali perto havia uma casa de vinhos, um estabelecimento pblico
onde moradores e viajantes se reuniam para beber um pouco e conversar sobre qualquer
assunto. Tinha dois andares e ficava de p graas s resistentes vigas de madeira que
sustentavam sua estrutura. Uma soleira estreita levava  porta de entrada, uma ampla abertura
que podia ser fechada com uma frgil tela de correr. Escolhi um canto no primeiro andar e me
sentei no cho, com as pernas cruzadas, pois as mesas eram baixas, como quase todos os mveis
na China. Uma bela moa de roupo verde-claro e sapatilhas pretas aproximou-se de mim
carregando uma bandeja de tiras de bambu. Meus trajes eram simples, mas, pela minha
aparncia ocidental, todos achavam que eu era um mercador, e esse tipo de gente quase sempre
leva algum dinheiro consigo.
         Ela abaixou a cabea em sinal de respeito.
         -- Haur -- cumprimentou-me a chinesa, usando uma expresso j esquecida hoje em
dia, que significa algo do tipo "vida longa". --Aprecia algum tipo especial de vinho?
         -- Pode me trazer qualquer um deles -- respondi, modesto. -- Vocs aceitam prata?
         -- Naturalmente, meu senhor. Mais alguma coisa?
         -- No, obrigado -- agradeci, pronto para dispens-la, mas ento mudei de idia.
Resolvi me adiantar e buscar logo a informao que procurava. -- Na verdade, talvez voc
possa me ajudar. Procuro por um mapa da Rota da Seda, sabe onde posso conseguir?
         -- Na praa do comrcio. Mas acho que seria mais simples contratar um guia at Wu-
Wei. E no h lugar melhor para conseguir um guia do que aqui, na capital.
         Ponderei por um segundo. No era bem isso que eu tinha em mente.
         -- Est bem, eu agradeo -- repliquei, escondendo o desinteresse pela sugesto. A
moa fez uma vnia e se afastou, indo buscar a bebida.
         Fiquei ali parado, olhando atravs da janela e imaginando como trocaria o mapa. Antes
de o vinho chegar, escutei, atrs de mim, a discusso de dois homens, aos quais no dera muita
importncia ao entrar. Estavam bebendo ern uma mesa prxima e, graas  minha fluncia no
idioma local, logo entendi que se referiam a mim. Quando olhei para trs, um deles me chamou.
         -- E, estrangeiro! Venha at aqui. Sente-se conosco.
         Pelas vestes azul-claras, limpas e novas, supus que eram comerciantes. Podiam tambm
ser nobres ou mandarins, mas dificilmente um funcionrio imperial se juntaria ao povo em um
estabelecimento pblico. Um deles era mais wclho. O cabelo branco e a pele castigada
indicavam que j chegara aos 60 anos. O outro, que havia me chamado, era mais gordo e
gargalhava repetidamente enquanto bebia o vinho em uma tigela vermelha.
         Como precisava conhecer a rea e fazer contatos, aceitei o convite, juntando-me aos
dois alegres chineses. O gordo no esperou que eu me sentasse para se apresentar:
         -- Como est, forasteiro? Sou Shen, e este ao meu lado  Wang. Somos comerciantes
de Luoyang -- disse, sorridente. -- E voc, quem ?
         A pergunta de Shen me pegou meio de surpresa. Antes de meu encontro com Nathanael,
eu no planejara parar em cidades, por isso no havia pensado em um nome de viagem que
pudesse usar nas terras orientais.
         -- Sou um forasteiro, um viajante ocidental -- respondi apenas.
         O velho Wang disparou uma sonora risada,
         -- Isso  fcil de notar, meu jovem. Estamos querendo saber qual  seu nome. Meu
semblante se encrespou, e o mercador aparentemente entendeu minha hesitao.
         -- Ah, entendi -- exclamou Shen, olhando para o velho Wang. -- No quer dizer seu
nome. Tudo bem. O que importa isso, afinal?
         -- Venho de Roma -- despistei.
         -- Que interessante -- divertiu-se o mais gordo. -- Escute, estrangeiro, eu e meu scio
ouvimos voc falando com a moa dos vinhos. Ento precisa de um mapa da Rota da Seda?
         -- Vocs so scios? Que tipo de sociedade presidem? -- eu no estava muito
interessado, mas achei que deveria demonstrar um mnimo de desconfiana. Os negociadores
aproveitam-se de seus interlocutores quando percebem que so convencidos muito facilmente.
         -- Estamos  frente de uma caravana de seda. Alm do tecido, levamos tapetes e
porcelana. Mas estvamos falando dos seus negcios.
         -- Sim, estou disposto a comprar o mapa, se bem que preferia troc-lo por um que
tenho aqui. Indica as trilhas de camelos pelo deserto de Gobi.
         Os dois voltaram a rir, e Shen quase se engasgou com o vinho. Pelo hlito, no era
difcil perceber que estavam embriagados. No entanto, articulavam bem as palavras.
         -- Um mapa de Gobi? -- prosseguiu o gordo. --  peso morto por aqui. Nunca vai
conseguir trocar isso pelo que quer. A estrada pelo deserto  uma via alternativa. S  usada
pelos rabes.
         --  uma pena. Necessito seguir o quanto antes para o Ocidente.
         Os dois chineses se entreolharam, mas dessa vez s trocaram sorrisos. O velho adiantou
a proposta:
         -- Foi por isso que o chamamos aqui -- comeou Wang, -- Eu e Shen estamos de
partida para a cidade de Wu-Wei, no oeste. Se quiser, pode seguir conosco.
         Fiquei srio, mas tomei cuidado para no parecer arrogante. Viajar com uma caravana
seria o ideal, mas era lgico que aqueles mercadores no me levariam de graa.
         -- E o que querem em troca?
         O velho deu outra gargalhada e falou alto, para todos ouvirem:
         -- Isso  que  um romano de verdade! Est vendo, Shen, por que eles dominaram o
mundo?
         -- Dominaram coisa nenhuma -- devolveu o gordo, um pouco indignado, mas
conservando o bom humor. Depois olhou para mim e resumiu a misso que lideravam:
         -- Nosso comboio sair daqui ao pr do sol. Vamos deixar a carga em Wu-Wei e
depois voltamos. So trs carroas ao todo, oito mulas e cinco cavalos. O que me diz de nos
prestar escolta at l?
         -- Escolta? -- estranhei. No estava em meus planos trabalhar para ningum.
         -- Claro, rapaz -- disse Shen. -- Olhe s para voc. Tem duas vezes o tamanho de
qualquer chins. Precisamos de um guarda-costas, e at agora no conseguimos nenhum.
         -- Entendi agora. A estrada est cheia de ladres, no ?
         -- Mais do que nunca. No vou mentir para voc. No podemos pag-lo em dinheiro,
mas consigo o mapa que quer quando chegarmos a Wu-Wei. E de l pode continuar sua jornada
at Antiquia, se quiser.
         Eu no pretendia trabalhar para ningum, mas a proposta do gordo Shen e do velho
Wang era bastante interessante. O pagamento era insuficiente para os mercenrios comuns, que
s trabalhavam a troco de ouro. Para mim, contudo, o soldo era perfeito. Tudo o que eu viera
buscar em Chang'an era um mapa e uma caravana e, em menos de uma hora, conseguira os dois.
         Shen e Wang repararam em minha expresso de satisfao.
         -- Est feito, ento. Eu aceito o servio.
         A moa de robe verde trouxe enfim meu copo de vinho. Enquanto pousava o recipiente
na mesa, Shen e Wang engoliram de uma vez o que restava nas taas laqueadas.
         -- E voc tem alguma arma? -- quis saber o gordo, aps sorver todo o lquido.
         -- No, mas sei manusear qualquer uma delas.
         -- Um guerreiro e tanto -- brincou, divertido. -- Tenho uma espada e uma lana na
carruagem. Pertenciam a um homem que morreu. Voc poder us-las.
         -- Est bem -- concordei.
         Eles passaram por mim e me cumprimentaram, encerrando a entrevista. Caminharam
sem pressa at a porta e desceram a escadinha para a rua. J l fora, em meio aos ambulantes, o
velho deu meia-volta, olhou para mim e gritou:
         -- Ao pr do sol, no porto principal.
         Retribu o olhar e balancei a cabea para baixo, sinalizando uma resposta positiva.
Observei o trajeto dos dois, at que se perdessem na multido. O sol baixara, mas ainda
faltavam quatro horas para o crepsculo.
         Satisfeito, voltei ao meu vinho.


                                     O BOQUE TIN-SEN

        A caravana de Shen e Wang era menos luxuosa do que eu pensara a princpio. Pela
maneira ostensiva como se vestiam, achei que, ao me deparar com o comboio, encontraria
carruagens com toldos de seda, cavalos de raa e pelo menos uma dzia de criados. Mas no foi
bem isso que avistei ao atingir os portes da cidade. A maior parte da mercadoria seria levada
no lombo de mulas, provavelmente para dar mais mobilidade  caravana. As trs carroas, j
prontas para partir, estavam cobertas por tetos baixos de lona, e a madeira das rodas era rstica.
Dois cavalos, usados por meus contratantes, eram de boa qualidade, mas o resto no passava de
pangars carregadores. Havia cinco criados, todos homens. Trs deles conduziriam os carros, e
os outros dois guiariam os animais. Imaginei que o aspecto ordinrio do comboio fosse um
disfarce, uma tentativa de no despertar a cobia dos salteadores, que se organizavam em
bandos e atacavam os viajantes na estrada.
         Quando partimos, ainda era dia. O comboio viajava em ritmo acelerado, e quando a
noite chegou j estvamos em plena estrada. Aquele era o primeiro trecho da Rota da Seda, e
me senti aliviado por finalmente estar rumando para oeste. Avistei alto no cu a luz de
Nathanael e felicitei-me ao notar que estvamos correndo no mesmo caminho.
         A viagem, que duraria oito dias, transcorreu sem problemas, A Rota da Seda, naquele
trecho, atravessava plancies e arrozais, e a ausncia de barreiras naturais facilitava a deteco
de pessoas ou animais se aproximando a distncia.
         No fim do stimo dia de viagem, quando o sol comeava a se pr, Shen conduziu o
comboio por uma trilha que nos levaria ao topo de uma colina, e ao chegarmos l avistamos as
muralhas de Wu-Wei. A cidade tinha crescido durante a dinastia Han, por estar no decurso de
uma importante via comercial, mas ainda assim sua rea no chegava a um tero do tamanho de
Chang'an. Ao sul da cidade, um singular bosque de bambus cobria parte da plancie e invadia o
sop das montanhas. A viso daquela imensido verde me despertou uma sensao sinistra. Era
um sentimento no natural, obsessivo, que nunca provara anteriormente. Alguma coisa, ou
algum, me chamava quelas rvores. Um impulso irresistvel me assaltou, contra o qual no
pude lutar.
         O velho Wang, que aprendera a respeitar meu silncio, parou ao meu lado, Eu estava
to distante, to imerso naqueles pensamentos, que nem percebi sua chegada.
         -- Impressionado? Sua reao  justificvel. Esse  o bosque de Tin-Sen -- revelou,
com certo orgulho nacionalista --, lar de uma centena de espritos ancestrais.
         -- Que tipo de espritos?
         -- Espritos malignos de ladres e assassinos. Todos nesta provncia sabem que a
floresta  assombrada, e ningum vai at l. No h trilhas ou passagens cm seu interior.
         -- Voc acredita mesmo nessas supersties?
         Eu sabia que havia alguma coisa errada com aquele bosque, mas adicionei uma pitada
de ceticismo justamente para despertar o interesse do velho.
         -- Sou um comerciante, no um campons. J caminhei por todo este imprio e hoje sei
distinguir histrias de criana do verdadeiro sobrenatural. No sei como so os deuses de Roma,
mas os daqui so bastante presentes. Muitos so bons, mas h outros degenerados e vingativos.
No queira despertar a fria dessas entidades, estrangeiro -- advertiu, em carter alarmista.
         Ao concluir o discurso, o velho chins se calou, e por sua expresso imaginei que
estivesse mentalizando uma prece individual. Depois, conservou-se quieto, esperando que eu
dissesse alguma coisa. Mas, ao entender que minha mente flutuava distante dali, murmurou,
fazendo com que eu me libertasse do transe:
         -- Vamos, romano. Amanh estaremos em Wu-Wei -- desfechou, montando seu
cavalo.
         A caravana o acompanhou, tomando a trilha que descia a colina.
         Ainda fiquei longos minutos hipnotizado, encarando a floresta, e tive de usar de toda
minha fora de vontade para prosseguir. Uma fora mstica me atraa para l. Era a mesma fora
que me impedira de cruzar a Muralha de Zhao c de trilhar o caminho pelo deserto.


                               Os TRS ESPRITOS ANTIGOS

         medida que nos aproximvamos de Wu-Wei, a atrao inexplicvel que eu sentia por
aquela floresta aumentava. Ao pararmos nos portes da cidade, Shen e Wang me deram o mapa
que haviam me prometido, completando assim o pagamento por meu servio de mercenrio. J
tinham o documento com eles, mas por alguma razo inventaram que o conseguiriam somente
quando chegassem ao destino. Talvez temessem que eu os roubasse e fugisse com o mapa antes
da hora.
         A manh j estava no fim quando, sozinho, deixei a Rota da Seda e desviei meu
caminho para o sul, seguindo em direo  floresta, Tin-Sen no ficava muito longe, e achei que
poderia entrar no bosque, investigar a misteriosa forca que me chamava e voltar  estrada antes
do anoitecer. J a distncia, percebi que aquela no era uma floresta normal -- o tecido da
realidade era incrivelmente frgil l dentro.
         A grande maioria dos deuses pagos, bem como muitos espritos poderosos, habitam o
plano etreo. Com frequncia viajam ao plano astral para se comunicar com os seres humanos.
Essa comunicao pode ser feita de muitas formas. Pessoas mais sensitivas podem ver e ouvir
atravs do tecido. Outro mtodo usado para falar com as divindades  a possesso. O mdium
empresta seu corpo ao esprito e, por meio dele, a criatura conversa e interage com seus in-
terlocutores mortais.
         Em geral, os espritos no podem prejudicar muito os vivos. Eles no tm a capacidade
de se materializar, e tudo o que podem fazer  manipular energias. Assim, roubam ou
transferem energias para os seres humanos, enfraquecendo-os ou fortalecendo-os, segundo sua
vontade. Alguns espritos, especialmente na China, permanecem junto de seus descendentes
mortais, auxiliando-os com emisses de vibraes positivas.
         Feiticeiros e magos, ou qualquer um que domine a necromancia, utilizam-se de rituais e
encantos para abrir canais de comunicao com entidades etreas. Com os feitios, um
necromante pode falar com os mortos, pactuar com eles ou at mesmo escraviz-los. Espritos
muito fortes, bem como anjos e demnios, so imunes a esses encantamentos, a no ser que o
feiticeiro tenha um objeto pertencente  entidade -- como um pedao de unha ou um fio de
cabelo.
         Wang me dissera, no topo da colina, que no havia trilhas na mata. E de fato no havia.
Qualquer um se perderia l dentro. Mas, estranhamente, eu sabia perfeitamente para onde estava
rumando. A tal fora me guiava como um chamado, uma convocao diablica, e tive a horrvel
impresso de que aquele impulso me arrastava para o corao da floresta.
         Um nevoeiro apareceu de repente, meio que cercando a rea onde eu estava. Eu sabia
que isso confundiria minha orientao se pensasse em voltar, assim decidi ir em frente, j que
daquele ponto em diante no havia mesmo como recuar.
         Ao fim da caminhada avistei um templo pago de arquitetura tipicamente chinesa, ao
qual chamamos "pagode". O teto era de telhas vermelhas, e as paredes, de tbuas. Muitas
janelas, cobertas por telas, circundavam as laterais, tanto no primeiro quanto no segundo andar.
A porta dupla que dava acesso ao interior era trabalhada em bronze, e sobre ela havia smbolos
chineses que representavam a tempestade, o macaco c o escorpio.
         Ao chegar mais perto, o senso de perigo me alertou para o terror que me aguardava.
Mas no freei os movimentos, pois continuava sob o efeito daquele impulso irresistvel.
Cautelosamente, empurrei uma das sees da porta e me adiantei para dentro do templo.
         A primeira coisa que vi foi o cho, forrado com esteiras de palha. Observei tambm que
o segundo andar no era propriamente outro nvel de aposentos, mas um espao alto circundado
em todas as direes por uma sacada de madeira. O espao interno parecia vazio, desprovido de
mveis ou objetos avulsos. L, no fim da sala, encostada na parede, avistei uma bela chinesa, de
longos cabelos negros e tnica avermelhada. Tinha os olhos verdes como jade e afundava-se, da
cintura para baixo, em um amontoado de almofadas de seda. Ao meu ver, fez sinal para que eu
me aproximasse.
         -- Seja bem-vindo ao templo do bosque Tin-Sen. Meu nome  Mai Yun, o Escorpio de
Jade.
         -- Foi voc quem me chamou aqui? -- perguntei, pressentindo pelo olhar da anfitri
que o perigo aumentava.
         -- No exatamente. Voc foi convocado aqui por um feitio -- explicou, ainda enfiada
at a cintura no montculo de almofadas.
         Estranhei o argumento de Mai Yun. At ento, eu pensava que minha qualidade
angelical me conferisse certa imunidade  magia.
         -- Um feitio? Ento voc  uma feiticeira?
         -- Longe disso. Como voc, no sou humana. Estamos distantes do mundo dos homens
agora.
         Nunca tinha visto aquela mulher antes, mas no precisava ter intuio de guerreiro para
compreender que ela estava me ameaando. Minha natureza de querubim me impedia de fugir a
um duelo, mas no me obrigava a levar adiante uma luta sem sentido. Resolvi, ento, recuar
lentamente em direo  porta. Ao primeiro vacilo de Mai Yun, escaparia pela abertura.
Precisava aproveitar o brilho noturno de Nathanael, enquanto ele ainda reluzia.
         -- O que quer de mim, Mai Yun? Por que me chamou aqui? -- procurei distra-la
enquanto retrocedia rumo  sada.
         -- Pergunte isso a si mesmo, querubim. O que voc faz aqui? Esta no  uma terra para
seres alados. A China  o lar dos espritos antigos. No h espao para outras divindades entre
ns. Vocs, celestiais, s provocam devastao por onde quer que passem. Fazem o povo
esquecer de seus deuses antigos e o obrigam a venerar um Deus adormecido.
         No h espao para outras divindades entre ns. Seria Mal Yun algum tipo de deus ou
esprito? Mas como conseguira se materializar?
         Os deuses pagos nutrem pouca simpatia pelos celestes, principalmente por conta das
Guerras Etreas. Ainda que Miguel clamasse vitria, a verdade  que os arcanjos nunca tiveram
grande sucesso em suas ofensivas alm da sia Menor, porque a crena de muitos povos em
seus deuses tribais foi mais forte do que as legies de anjos invasoras. Por esse motivo, os
poderosos espritos da China no apreciavam a presena de nenhum anjo vagando por suas
terras.
         Sem tirar os olhos da enigmtica chinesa, caminhei de costas para a porta, e quando
senti que estava prximo  sada me preparei para saltar. Em minha mente de lutador, estava
claro que deveria me mover muito rpido, para no dar a Mai Yun nenhuma chance de ataque.
Esperei o momento certo e, na frao de segundo em que suas plpebras se fecharam, disparei.
Somente cinco metros me separavam do portal de sada, e j dava a fuga como certa quando al-
guma coisa terrvel bloqueou meu caminho. Uma criatura de pelos vermelhos, metade homem,
metade gorila, despencou das vigas do teto, fechando a passagem. Escondera-se nas sombras e
permanecera em silncio at aquele instante. Mesmo curvado, alcanava dois metros de altura, e
sua gentica smia garantia-lhe msculos avantajados. As mos eram desproporcionais, e
conclu que aquela era a ferramenta que usava para esmagar seus inimigos.
         O monstro grunhiu e tentou me capturar, mas rolei de costas, escapando de sua pegada.
Pus-me em guarda, mas a criatura no avanou. Ficou onde estava, guardando a porta para que
eu no tentasse fugir novamente. Levantei-me do cho e voltei a encarar o Escorpio de Jade.
         -- Quem so vocs? -- perguntei, ainda sem entender a real natureza daqueles
espritos.
         Antes que Mai Yun me respondesse, um torvelinho apareceu a seu lado. A esttica
provocada por correntes eltricas sacudiu o pequeno tornado, at que o vento tomou a forma de
um guerreiro chins. Vestia-se como um campons, com quimono de algodo cru e chapu
largo de palha, mas os olhos, como todo o corpo, reluziam em raios azuis. Empunhava uma
maa, arma com haste de madeira e cabea de ferro, que tambm tiritava com a eletricidade.
         -- Somos os trs espritos antigos -- disse Mai Yun. -- Este  minha direita  Hanki, o
Senhor das Tempestades, e atrs de voc est Grun-Kar, o Zelador. Juntos, governamos o
bosque Tin-Sen.
         -- Se so espritos ancestrais, como conseguiram se materializar?
         -- Estou surpresa em ver como sua percepo da realidade  insuficiente. Este templo 
um vrtice, um ponto no espao em que os mundos fsico e espiritual se cruzam. A porta de
bronze pela qual voc entrou  a passagem que liga as duas dimenses. Ela existe tanto na terra
dos vivos como no mundo dos mortos.
         Decidi jogar. No venceria trs espritos antigos utilizando apenas fora bruta. Precisava
valer-me de uma arma que era a preferida de Shamira: a inteligncia.
         -- Ento, Escorpio de Jade, o que est me dizendo  que s preciso ultrapassar aquela
porta -- e apontei para trs -- para que no possam mais me perseguir.
         -- Para isso, ter de derrotar Grun-Kar.
         -- E a mim tambm -- vociferou o guerreiro chins, libertando toda sua fria. Pensei
que ele correria ao meu encontro, mas, em vez disso, o Senhor das Tempestades desfez-se em
uma nuvem de vapor. No instante seguinte, a mesma nuvem apareceu  minha esquerda,
refazendo-se instantaneamente na forma do lutador campons. Se no fosse meu senso de
perigo, teria sido atingido pelo golpe da maa, mas fui salvo por meu instinto de combate. Pulei
para o lado, e o ataque atingiu o espao. Aquela criatura que tentava me ferir tinha habilidades
admirveis. Podia desaparecer no ar e tornar a aparecer em outro lugar em um dcimo de
segundo.
         Tomei uma distncia segura de Hanki, que era o mais agressivo dos espritos antigos, e
tentei desfazer o mal-en tendido. No desejava lutar com eles.
         -- Acho que est havendo um engano -- falei a Mai Yun, que parecia comandar os
outros. -- No sou exatamente quem vocs pensam que sou.
         -- No? -- indagou a mulher, cnica. -- Posso sentir o poder de sua aura pulsante, a
energia primordial caracterstica dos celestiais. Sabemos quem  e suas intenes. O Feiticeiro
do Deserto nos contou qual  seu plano. Ele nos disse que voc  o primeiro de um grupo de
batedores que pretende explorar em segredo nossas terras, abrindo caminho para uma ofensiva
de sua legio.
         -- Feiticeiro do Deserto? No sei quem  esse mgico, mas posso lhe garantir que
mentiu. No sou nenhum batedor. Sou um anjo renegado. Fui expulso do cu h muito tempo e
no tenho nada contra vocs.
         Em mais uma exploso de raiva, Hanki me atacou com a arma mstica. Experiente em
combates corpo a corpo, esquivei o primeiro, o segundo e o terceiro golpes, o que pareceu
deixar o lutador ainda mais irritado,
         -- Morra, maldito! -- gritou o guerreiro.
         Concentrado nos movimentos ofensivos do Senhor das Tempestades, no vi que Grun-
Kar, o gigante que guardava a porta, se aproximava. O monstro esticou o brao e moveu a pata
dianteira contra mim, acertando-me o rosto com um soco violento. Fui arremessado para trs, e
minhas costas se chocaram contra uma viga de madeira. Ao escorregar para o cho, tentei me
recompor, mas a viso embaara, e no pude evitar que o gorila me pisasse o peito,
pressionando-me contra o assoalho de palha. Senti suas mos enormes envolvendo minha nuca,
e quando dei por mim estava sendo erguido no ar, sem chance de defesa. Ele me agarrara por
trs, c nessa posio no tinha como atac-lo. Mesmo que lhe forasse os dedos, nunca
escaparia de sua pegada.
         -- Traga-o at mim -- ordenou Mai Yun.
         Corn uma srie de rosnados, a fera de pelos vermelhos me levou at a mulher, sem
aliviar o aperto. Voltei a encar-la.
         -- J disse que no quero lutar -- balbuciei. No conseguia faiar direito com Grun-Kar
me asfixiando.
         -- Um querubim implorando misericrdia? -- zombou o lutador campons. -- Nunca
pensei que fossem covardes. O que diria seu Deus diante desta vergonha? Esta batalha ter um
gosto especial para ns, Mai Yun.
         -- Sim, Hanki -- concordou a chinesa, com um sorriso insidioso.
         Pela primeira vez desde que eu entrara na sala, o Escorpio de Jade sacudiu seu ventre
feminino, jogando para longe as almofadas que lhe escondiam as pernas. Percebi, com certa
repugnncia, que o montculo de travesseiros ocultava sua metade corrompida. Da cintura para
baixo, Mai Yun no era mulher. Seu abdome dilatou-se, revelando uma barriga enorme, coberta
por uma casca escura, de onde partiam trs pares de patas inumanas. O corpo afunilava-se, ter-
minando em uma cauda igual  dos escorpies, com um ferro que se encurvava para frente. A
moa era, de forma semelhante ao Zelador, um ser hbrido, uma mistura bizarra de mulher e
aracndeo.
         Ao ver aquela imagem pavorosa, conclu que Mai Yun tentaria me furar com seu
aguilho envenenado. Esperei, mais uma vez, pela hora certa de contra-atacar.
         Ela chegou mais perto, com o ferro j pingando de veneno, e me golpeou com a cauda
txica. Agarrei os dedos de Grun-Kar, que ainda apertava meu pescoo, e arqueei a coluna,
jogando as pernas para trs. O movimento me tirou da linha de ataque, e a agulha do escorpio,
em vez de me ferir, espetou o peito do gorila, desprendendo um cheiro nauseante. Ao sentir a
dor da toxina, a feroz criatura me largou de imediato, e escorreguei para longe.
         O aguilho da mulher-aracndeo atingira o macaco no corao, e esse flagelo o mataria
dentro em pouco. Tomado pelo desespero, o monstro foi acometido pelo frenesi e comeou a
socar o ar com as mos gigantescas. O delrio o deixara incontrolvel e, em sua loucura,
avanou contra Mai Yun, que foi obrigada a recuar para no ser esmagada por seus golpes
desencontrados.
         Apesar da confuso, o guerreiro Hanki, que, como eu, se encontrava fora da zona de
alcance de Grun-Kar, no hesitou em lanar-se contra mim. Desta vez, porm, com Mai Yun e o
gorila distantes, eu poderia me dedicar inteiramente  luta contra o Senhor das Tempestades.
         Ele investiu, descrevendo um arco com a maa, de cima para baixo, mas escapei me
jogando para o lado. Contra-ataquei na hora, com um chute lateral no rosto, que quase destroou
a mandbula do chins. O impacto o deixou tonto, e ele se ajoelhou, com uma das mos sobre a
boca. Tentei golpe-lo em sequncia, mas novamente ele desapareceu, convertendo-se em
nvoa.
         No exato instante em que Hanki sumira, Mai Yun j preparava um novo ataque.
Enquanto se aproximava, vi que o macaco gigante, antes frentico, tombara em um ponto
sombrio da sala, tremendo em convulses e cuspindo um lquido esverdeado.
         O Escorpio de Jade manobrou com a cauda uma, duas, trs vezes. Deixei taticamente
que chegasse mais perto e, quando investiu uma quarta vez, cerrei os punhos e, invocando a Ira
de Deus, afundei-lhe um soco no rosto, esmagando-lhe o nariz humano. Mai Yun cambaleou,
mas no estava vencida. O sangue escuro a cegou, e essa era minha chance de derrot-la
definitivamente.
         Armei um segundo golpe, mas uma nuvem eltrica apareceu na minha frente, forando-
me a desistir. Era Hanki, o lutador campons, que voltava ao combate. Ele ergueu a maa e,
desta vez, no consegui me esquivar.  dor da pancada no ombro seguiu-se o calor de um
choque eltrico -- o ferro mstico estava imbudo com a energia de mil raios e troves. Meu
corpo tremeu, e parte da minha roupa pegou fogo. Ainda consciente, arrastei-me para trs,
evitando o avano do incansvel Senhor das Tempestades.
         Pela fora da arma de Hanki, deduzi que no resistiria a mais um impacto. Foquei,
portanto, todas as minhas energias na defesa, mas fazendo isso cometi um grave erro. Fiquei to
preocupado em no ser ferido pelo guerreiro chins que no fui astuto o bastante para notar que
estava de novo na mira do ferro de Mai Yun. Ao ver a agulha apontada para mim, s tive
tempo de bloque-la com o brao, mas fui incapaz de me esquivar. O aguilho perfurou-me a
pele dez centmetros acima do punho e jorrou o veneno para dentro do meu corpo. A dor
paralisou os msculos do brao, e a mo enrijeceu como pedra. Ao menos eu havia evitado que
a pina penetrasse o corao.
         Dali em diante, minha sobrevivncia dependeria unicamente da rapidez. Rolei para
frente e, uma vez distante de meus inimigos, pulei para a sacada de madeira que circulava o
segundo andar. L em cima, encostei-me  janela de telas e me recolhi  escurido. Precisava de
tempo. Se a toxina chegasse ao corao, eu sofreria o mesmo destino do monstro Grun-Kar.
Rasguei um pedao de roupa e amarrei o pano em volta do brao, improvisando um garrote.
         O veneno agia rpido. A fadiga aumentava, e a respirao tornou-se lenta e difcil. No
sei como ainda resistia.
         Ouvi o chamado de Hanki, vindo do andar de baixo.
         -- Desa j da! Voc est condenado  agonia. Ao menos morra com honra e faa jus 
sua reputao -- o insulto fez-se acompanhar de um rudo de esttica, proveniente das
descargas eltricas que danavam pelo seu corpo.
         Mai Yun completou a injria.
         -- No h salvao para voc, querubim. Nem o Zelador resistiu ao veneno. Voc
sucumbir em instantes, e o levaremos para o inferno dos pecadores, onde ser frito em leo
fervente. Sua pele cair, e deixaremos sua carne apodrecer na imundcie.
         Recuperando o flego, levantei-me, deixei a penumbra e caminhei at a mureta da
sacada. De l podia ver os dois espritos parados no nvel inferior da sala.
        -- Se vou morrer em breve, como diz, Escorpio de Jade, ento no tenho mais nada a
perder nesta vida. Se este templo  minha sepultura, no h mais razo para mentir ou para
engan-los.
        A mulher-aracndeo e o guerreiro chins me olharam, confusos. Eu dissera algo que fez
com que se calassem por um minuto.
        -- Desde que entrei aqui, tentei explicar-lhes quem realmente sou. Voc fala em
reputao, Hanki, mas  bvio que no sabe nada a meu respeito. Voc, Mai Yun, que comanda
os espritos do bosque, foi imprudente e tola -- ela me olhou com raiva, mas continuou estvel.
-- Em seu dio pelos celestiais, no se preocupou em averiguar a verdade e acabou sendo
ludibriada por esse Feiticeiro do Deserto, E o que conseguiu com isso? Um de seus espritos foi
morto e, como ele, vocs tero o mesmo destino.
        A expresso do Senhor das Tempestades, que antes denotava raiva e desprezo,
convertera-se em um misto de nervosismo e admirao.
        -- Como pode demonstrar tamanha ousadia diante da prpria morte? Como ainda
continua lcido depois de ter recebido o veneno do escorpio?
        -- Ns, os anjos renegados, no temos nada a que nos apegar. Vivemos no limite entre
os dois mundos. No podemos provar o amor humano nem a glria de Deus, portanto a amizade
 tudo o que nos resta. Quando eu morrer, morrer a esperana daqueles que confiaram em mim.
 por eles que luto, e talvez seja por isso que continuo de p. Sua emboscada, Mai Yun, tirou-
me de meu caminho. No tem idia da misso que me privou de completar. Agora, nada mais
faz sentido. No preciso mais viver. Prefiro acabar com vocs.
        O desafio reacendeu a ira na face de meus inimigos. Ao ouvir meu ultimo comentrio, a
mulher-aracndeo soltou um silvo animalesco. S ento notei que seus caninos eram
pontiagudos, como os das cobras.
        -- J chega! -- a voz assumiu um timbre demonaco. -- Estou farta da sua ladainha
infernal. Voc teve a chance de implorar perdo e continua a nos desafiar. Hanki, acabe com
esse moribundo por mim.
        -- Ser um prazer! -- replicou o guerreiro, sumindo em uma nuvem de vapor.
        O chins surgiu perto de mim, com os olhos ardendo em raios azuis. Mal a nvoa se
dispersou, ele j investiu. Manobrou a arma em um movimento lateral, buscando esmagar
minhas costelas. Mas, dessa vez, em vez de recuar, avancei. Colei meu corpo ao dele, antes que
o golpe fosse completado, evitando o choque com a bola de metal. Com uma das mos, agarrei
firme o cabo da maca, um pouco acima da empunhadura. Apertei a haste entre os dedos e puxei
o objeto com toda a fora, conseguindo arranc-lo de seu esgrimista.
        Desarmado, Hanki retrocedeu, ento girei nos calcanhares e, usando a arma dele, acertei
o esprito no peito. A pancada veio acompanhada por uma fantstica exploso eltrica, que
chamuscou a pele do chins e espalhou fascas pelo templo. Ferido e assustado, ele escorregou
da sacada, mas se desfez em nvoa antes de tocar o cho.
        Onde meu oponente reapareceria? Como poderia prever seu prximo ataque?
Raciocinei e conclu que s havia um jeito de saber -- meu movimento seguinte seria
premeditado.
        Arremessei a maa para um canto do templo, e a arma rolou sozinha, sobre o prprio
eixo, at parar em uma quina do primeiro andar. Certamente Hanki desejava recuperar seu
instrumento de luta, ento deduzi que ele ressurgiria no exato local onde a maa descansava.
        Antes que o tempestuoso campons se manifestasse novamente, corri sobre a mureta e
pulei para baixo. A poucos metros do assoalho, chutei o ar bem acima do ponto onde a arma
mstica jazia. No preciso instante em que desferi o golpe, o chins apareceu, sendo pego de
surpresa por meu pontap. Ao choque, seguiu-se um ensurdecedor barulho de esttica. Seus
raios tremelicaram, e em seguida se apagaram quando ele tombou desfalecido ao lado do
cadver do gigante smio.
        Mas ainda havia o Escorpio de Jade.
        Dobrei os joelhos e me agachei sobre o assoalho. Tateando a palha, retomei do cho a
maa do Senhor das Tempestades, agora intil ao seu antigo dono, Apertando a empunhadura,
busquei o ngulo correto-e atirei a ferramenta contra a mulher-aracndeo. A cabea de ferro
chocou-se ao encontrar o crnio de Mai Yun, quebrando seus ossos e ferindo-a mortalmente. As
pernas de escorpio, que suportavam o pesado abdome, inchado de veneno, tremeram, e ela
despencou para o lado.
         Mas, apesar da voracidade do ataque, eu no tinha certeza se realmente aniquilara Mai
Yun. Esgucirei-me para perto da carcaa insalubre e verifiquei, com minha audio afiada, que
seus batimentos cardacos diminuam. A fora esmagadora do metal, aliada ao calor escaldante
da corrente eltrica, derretera seus rgos internos, empurrando o sangue para fora do corpo. O
resultado foi a dilatao dos poros, que se rompiam  presso dos esguichos de plasma.
         -- Ento... -- balbuciou ela -- o Feiticeiro do Deserto mentiu. Ele mentiu para ns!
Voc no  o batedor que procuramos.
         -- No h nenhum batedor, Mai Yun. Receio que nunca tenha havido -- respondi,
austero, respeitando as ltimas palavras da senhora da floresta.
         Os olhos verdes foram perdendo o brilho, gradualmente. Antes de morrer, com a cabea
apoiada sobre o cho, ela inspirou fundo e tentou sussurrar alguma coisa, mas no conseguiu.
Levada por um ltimo reflexo vital, bateu com uma das patas no piso, rasgando a palha e
quebrando a madeira que havia por baixo. Quando terminou, sua pele humana empalideceu, as
plpebras se fecharam e a fora a abandonou.
         Mai Yun, o Escorpio de Jade, o mais poderoso dos espritos ancestrais de Tin-Sen,
estava morta.
         De incio, no entendi o que a entidade estava tentando me indicar, ento pulei para
perto da abertura no cho, esperando elucidar o enigma. Atravs da cavidade, vi que havia, sob
o templo, um pavimento inferior, entre o assoalho e o solo de terra. Tratava-se de um pequeno
poro -- era mido, ftido e sombrio.
         Com a viso apurada, observei o aposento e avistei, abaixo de mim, uma garrafa de
cermica marcada com smbolos mgicos, O objeto encontrava-se no centro de um crculo,
semelhante ao pentagrama, usado pelos feiticeiros para completar um ritual de bruxaria. Logo
me ocorreu que era isso que Mai Yun tentava me dizer. Fora l, naquela cmara, que o
Feiticeiro do Deserto executara sua diabrura -- o encantamento responsvel por me atrair
quele local. Depois, teria convencido os trs espritos de que eu era um inimigo, fechando as-
sim a emboscada. Mas como teria feito isso? Como teria me afetado com sua magia, uma vez
que eu era imune s feitiarias humanas?
         A garrafa! A garrafa de cermica!
         Deslizei pelo buraco e saltei para o poro, desfazendo com o p as inscries que
compunham o crculo. Profanei o selo mgico e ergui a garrafa, sacudindo o recipiente. Pelo
peso, calculei que a pea l dentro era muito leve, to leve quanto uma pena. Uma pena!
         Quebrei a garrafa, jogando-a contra o cho, e o que vi me apavorou. Em meio aos cacos
de argila, distingui o que parecia ser unia pena. Sim, era uma pena, mas no uma comum. Era
branca e, para minha surpresa, estava manchada de sangue. Era uma pena de anjo. No de um
anjo qualquer, mas de um anjo renegado.
         A pena era minha!
         As inscries mgicas! Como eu no percebera? Aquilo no era bruxaria chinesa, mas
um tipo muito mais antigo de misticismo. Era a magia de Enoque, herdada pelos magos
babilnicos havia muito tempo. Foi assim, munido de uma pena de minha asa, que o feiticeiro
conseguira me afetar com suas mgicas traioeiras. Sem aquela pluma, nunca teria tido sucesso.
Precisava dela para completar o ritual.
         De repente, uma macabra ligao formou-se em minha mente. A ltima vez que eu
expusera minhas asas fora mais de dois mil anos atrs, na cidade legendria de Babel. Fiz um
esforo de memria e lembrei-me de que o rei babilnico contava com o auxlio de um mago,
um homem alto, magro, de pele morena, nariz fino e barba pontuda. Era o invocador Zamir, um
feiticeiro inteligente, jue me implorara perdo e fugira depois que o ataquei no Mar de Rocha.
S poderia ser ele. Mas por que teria voltado? Eu poupara sua vida, ento que interesse teria em
acabar comigo?
         O encanto da convocao arrastara-me para longe de minha rota, conduzindo-me a uma
cilada. Eu deveria ser eliminado. Por qu? A resposta era mais bvia do que eu imaginava.
Zamir queria vingana, mas no contra mim. Eu era apenas um obstculo que ele precisava
eliminar para...
         Shamira! Era ela o objeto de sua vingana. Ele a odiava como uma rival nos assuntos
mgicos. E, acima de tudo, odiava a si mesmo por t-la deixado escapar das masmorras. De
certa forma, Shamira fora responsvel pelo ataque final a Babel, ao me contar, ainda que
tardiamente, a verdade sobre a renegada Ishtar. Ao se confrontar comigo, no Mar de Rocha,
Zamir j sabia, talvez por sua magnfica inteligncia, que a desgraa de sua nao era iminente.
No poderia me derrotar com seus encantos, por isso preferiu, bem ao estilo dos magos, aguar-
dar o momento certo para pr em prtica seus planos, e s ento destruir a Feiticeira de En-Dor,
a mulher que, com o anjo guerreiro, deixou a Babilnia em runas.
         De uma hora para outra, toda a minha misso deixara de existir. A Criana Sagrada, a
Terra Santa, meu compromisso com Nathanael... tudo isso passara a ser apenas um pensamento
distante, em face da grande demanda que me aguardava. No iria mais  Palestina. No seguiria
mais a luz noturna do ofanim. At esquecera onde era Canaa. Meu objetivo mudara.
         Roma. Roma tornara-se o meu destino -- o nico destino.
         Eu tinha que correr para chegar  Cidade Eterna antes do mago, antes que o cruel
feiticeiro atentasse contra a vida de Shamira.
         Com um chute forte, escancarei a porta de bronze e pulei para fora do templo. Disparei,
corri como nunca, mas minhas pernas no me obedeciam mais. Estavam contradas, rgidas,
inteis como carne morta. Perdi o equilbrio, tropecei e ca no meio das rvores. As pupilas se
retraram, e a presso sangunea despencou. Em minha pressa e desespero, havia me esquecido
de uma coisa: o veneno de Mai Yun continuava ativo em minhas veias.
         Que destino mais tenebroso, pensei. Um anjo renegado, morto por um esprito etreo,
dentro de uma floresta amaldioada, acusado de ser um agente do arcanjo Miguel. Terminaria
da pior maneira.
         No. No deveria ser assim -- no poderia ser assim. Eu resistiria, precisava resistir.
No deixaria Shamira sozinha no momento em que ela mais precisava de mim.
         Cambaleei por mais alguns metros e encontrei um riacho. Imagino que, quela altura, eu
j estava quase fora da selva. Arrastei-me at a margem do ribeiro e bebi um gole de gua.
Limpei a garganta e cuspi de volta um pouco de veneno, uma gosma verde que se agarrava 
goela. Pensei que assim pudesse expelir a toxina, mas ela j se dilura inteiramente em meu
sangue.
         Olhei por cima do ombro e vi que meu brao estava escuro, necrosado. Se sobrevivesse,
imaginei, teria de amput-lo.
         As contraes paralisaram os msculos, e o ltimo deles era o corao.
         A viso apagou-se. Tudo ficou escuro.


                                        DAS TREVAS

        Frio. Escurido. Uma ventania abismal, fantasmagrica.
        No completo e desolado vazio da inconscincia, uma voz se fez ouvir.
        -- Que porcaria  essa?
        -- No sei. Encontrei boiando no rio. Fui revistar para ver se tinha dinheiro e descobri
que estava vivo.
        Pelo timbre e pela entonao, conclu que eram dois homens, e conversavam em grego.
Tentei me mexer, fazer algum sinal, mas os msculos no responderam.
        -- E o dinheiro?
        -- O qu?
        -- O dinheiro. Ele carregava dinheiro, afinal?
        -- No. Nada. S a roupa do corpo.
        -- Ento por que o trouxe para c?
        -- Achei que pudssemos vend-lo em Alexandria. Seu pai...
        -- Vend-lo? Bom, talvez. Mas, por Apoio, olhe para o brao dele. Est quase podre.
        -- . Mas pensei que no faria mal traz-lo  ateno de seu pai. Como j temos a
menina chinesa, imaginei que poderamos carregar este brbaro tambm. Pode render uma boa
soma quando chegarmos ao Egito.
        -- Est bem, Tommaso. Voc fez o certo. Coloque-o na carroa. Vou falar com meu pai
antes de voltarmos  estrada. Ele decidir o que fazer.
        Escutei passos se afastando, e a mente retornou s trevas.


         Algum me tocou. Senti uma mo firme virando meu rosto. Meus tecidos j
reconheciam impulsos tteis, mas a paralisia ainda me obstrua os movimentos.
         --  este? -- perguntou uma voz grave.
         -- Sim. Tommaso o tirou do leito do rio esta manh. No carregava armas nem
dinheiro.
         -- Interessante. Um brbaro.
         -- Foi o que deduzimos. Curioso, no? O que um sujeito desses estaria fazendo aqui?
         --  um fugitivo, certamente. Para estar to longe de casa... A maioria deles no passa
de um bando de assassinos ou traidores de seu prprio povo.
         -- E de onde o senhor acha que ele ?
         -- Este a  germnico, tenho certeza. Sua constituio fsica  admirvel.
         -- Ser que podemos vend-lo?
         --  provvel. Conheo um mercador em Alexandria que costuma adquirir esses tipos.
         -- Devo embarc-lo, ento?
         -- Faa isso. Fez um bom trabalho, filho.
         -- E o brao? Devemos cort-lo?
         -- Pense, Plx. Como vamos vender um escravo sem brao? Silncio.
         -- Coloque-o na carroa com a menina. Ela conhece um tipo de medicina que talvez
possa cur-lo. Se no der certo, nos livramos dele na prxima parada. E no se esquea de
amarr-lo.
         Escutei as pegadas se afastando.
         -- Agora vou encontrarTommaso. Acho que ele merece pelo menos um sestrcio pelo
servio.
         Foi tudo o que ouvi. Depois, a audio extinguiu-se de novo, e voltei a adormecer.


                                         SETE MESES

         Uma leve picada atravessou-me a pele do brao. Depois outra, e outra, e mais uma
dezena delas. Era fina, indolor, como o toque de uma agulha. Tentei mover um dos dedos
paralisados e senti a puxada do tendo -- o membro necrosado estava, aos poucos, recuperando
a fora.
         Ouvi um barulho uniforme, de madeira amassando o cascalho, e experimentei uma
sensao de instabilidade e movimento. Havia tambm som de cavalo e um fraco aroma de
maquiagem. Pelas alteraes de calor captadas por meu corpo, conclu que algum estava
sentado ao meu lado; seu ritmo respiratrio era contnuo, disciplinado, tranquilo.
         Abri os olhos.
         A luz forte do dia, ainda que indireta, cegou-me. Tentei me levantar, mas uma sbita
tontura me ps de volta  posio anterior. Uma fria mo de mulher empurrou meu peito com
delicadeza, indicando a necessidade do prolongado repouso. Aceitei a imposio do toque sutil.
Fechei os olhos e tornei a abri-los, devagar, esperando at que a pupila se habituasse  claridade.
         A imagem  minha volta formou-se lentamente. Era dia, mas o sol escondia-se acima do
teto de lona. Uma carroa. Eu estava em uma carroa fechada, coberta por um tecido spero.
No era um carro luxuoso, mas um transporte rstico, sem melindres. Estava abarrotado de
objetos sem importncia: rodas, lonas para barraca, cordas de cnhamo e balaios de palha.
Enquanto admirava os detalhes, uma nova fincada perfurou-me a pele. Entorpecido, esquecera-
me de olhar para o lado.
         Uma jovem chinesa, sentada  minha esquerda, fixava, com a mxima concentrao,
mltiplas agulhas em meu brao escuro. Olhei para o lado e vi que j havia dezenas delas
espalhadas desde o ombro at a ponta dos dedos. As incises pareciam seguir um padro,
atingindo pontos especficos de estmulo  circulao. A moa, observei, era pequena e magra,
de olhos estreitos e pele branca. Calculei que tivesse entre 15 e 16 anos, pelo porte fsico e pela
consistncia da pele. As roupas que vestia eram comparveis s dos nobres chineses, mas
esravam sujas e gastas, como se fossem as nicas que possusse. Ela continuou a me olhar e, em
silncio, introduziu a ltima agulha.
Empurrei o ar para fora dos pulmes, reunindo foras para falar, mas tudo o que consegui emitir
foi um rosnado, que acabou em uma crise de tosse. A menina entendeu minha vontade e trouxe
ao colo um cesto de palha, retirando a tampa que fechava a abertura. Um cheiro familiar tomou
conta do carro, c experimentei uma necessidade que raramente me acometia: fome. Anjos e de-
mnios, mesmo em sua forma fsica, no precisam se alimentar como os humanos, a no ser que
estejam gravemente feridos.
         Instintivamente, enfiei a mo no balaio e agarrei dois suculentos bolos de atroz,
devorando-os rapidamente. Ao faz-lo, senti-me bem melhor. Ao contrrio do que pensara, a
garota no demonstrou repugnncia diante de minha voracidade. Ofereceu-me alguns legumes,
os quais comi sem hesitar. Depois, sorvi gua de uma cuia de cermica.
         -- Obrigado -- agradeci, falando em mandarim e indicando o brao ferido, em sincera
recuperao.
         Ela respondeu  gratido com um tmido movimento de cabea. Parecia ser muito
reservada, exatamente como mandavam os costumes chineses naquela poca.
         -- Sabe onde estamos? Sabe que caravana  esta?
         Mais uma vez ela no respondeu. Possivelmente no entendia mandarim, afinal a China
conservava uma srie de dialetos diferentes.
         De repente, uma voz surgiu do nada e veio esclarecer a confuso.
         -- No adianta. No adianta tentar falar com ela. A menina  muda.
         -- O qu? -- perguntei, ainda sem entender o que acontecia. A voz falara cm grego,
mas havia um leve sotaque latino na pronncia dos prefixos. Olhando para trs, notei a presena
do carroceiro, que at ento me passara despercebido. Os cabelos e os olhos eram escuros, e a
pele, morena e desgastada. O corpo era forte, revelando preponderncia de atividades braais.
         -- Ela no tem lngua -- respondeu o homem. -- Os nmades rebeldes a cortaram
quando foi capturada.
         -- Nmades rebeldes?
         -- Sim, homens ligados a um tal de Wang Mang, opositores do regime imperial. Sinto
muito no poder ser mais explcito, mas entendo pouco da poltica dessa gente.
         Aquela voz... j a ouvira antes.
         -- Voc  Tommaso. Foi voc quem me tirou do rio. Ele esboou um sorriso
desinteressado.
         -- No posso me vangloriar disso. Foi tudo em benefcio prprio.
         -- Por qu?
         -- Trabalho para um mercador grego, Tales, e para seu filho, Plix.
         -- Mas voc no  grego.
         -- Sou siciliano. Quando vi que voc estava vivo, resolvi traz-lo ao meu patro.
Vamos vend-lo em um mercado de escravos de Alexandria, voc e a menina. O velho me
prometeu um dcimo dos lucros.
         --  um preo baixo a pagar por sua ambio -- mas ele ignorou meu comentrio. --
Onde est esse tal mercador?
         -- No outro carro, logo atrs de ns. Esta  s uma carroa auxiliar, um transporte que
eles usam para carregar os entulhos -- Tommaso ficou meio sem graa -- e os criados. Mas
no tenha pressa. Voc vai conhec-lo  noite.  um homem justo, apesar de sua rigidez de
carter.
         -- Justo?Traficando escravos?
        -- No deixe que isso o aborrea. Ser escravo no  to ruim. Eu mesmo trabalhei nos
campos da Siclia at os 20 anos, depois consegui comprar minha liberdade. H uma dcada
trabalho como condutor, carregador e guarda-costas.
        Desde as Guerras Pnicas, entre Roma e Cartago, a Siclia era uma grande fazenda
escravista, produzindo gros que abasteciam toda a Itlia.
        -- Talvez um dia voc consiga fazer o mesmo. E sua sorte, pelo que vejo, ser melhor
que a minha. Sabe falar latim?
        -- Sim.
        -- Voc fala grego e latim. Com certeza vo quer-lo como tradutor, e voc no
precisar se arriscar nas arenas de gladiadores. Ser bem tratado e ter comida e vinho 
vontade. O que mais um homem pode querer?
        -- O que me diz da liberdade?
        Ele simulou uma expresso de desprezo.
        -- Isso no tem muita importncia quando se vive como um mendigo. Mendigo. Era
exatamente o que eu parecia, vestido com trapos velhos e rasgados, e com ferimentos e
queimaduras por todo o corpo.
        Minha misso! Como eu havia esquecido? Nathanael, Shamira, Cana, Roma, Zamir, a
Criana Sagrada,.. As palavras voltaram a me entupir a mente. O colapso da experincia de
quase morte obscurecera meu crebro, ocultando, no fundo da memria, esses objetivos to
importantes. Por quanto tempo eu permanecera desacordado? Em que parte do mundo estava?
Como faria para chegar a Roma?
        -- Pare o carro -- ordenei ao condutor, exaltado.
        -- De jeito nenhum. S pararemos ao cair da noite.
        -- Voc no entendeu -- e tentei, pela segunda vez, me levantar. Os ossos en-
fraquecidos, contudo, novamente me empurraram ao cho. A menina chinesa indicou, com um
movimento de mo, que eu deveria permanecer deitado. As agulhas finssimas que ela havia
aplicado ainda estavam fincadas em meu brao. Os resultados positivos de sua medicina
dependiam de meu descanso.
        Impossibilitado de caminhar, perguntei ao siciliano:
        -- Em que ms estamos? -- eu precisava saber por quanto tempo dormira. Ele
continuou guiando o veculo, calmamente.
        -- Estamos no quarto dia de antestrio.
        Antestrio era o perodo grego correspondente ao ms de maro no calendrio
gregoriano. Era chamado pelos helnicos de ms das flores, porque coincidia com o incio da
primavera.
        Maro. Nathanael me visitara em julho, e eu travara a luta com os espritos antigos no
fim do vero do ano l a.C. Teria permanecido inconsciente por sete meses? Ou por mais tempo?
        -- De que ano? Em que ano estamos?
        -- Voc no compreenderia a contagem ateniense dos anos; nem eu e, s vezes, nem
eles entendem. Mas posso dizer que estamos no 28 ano do reinado de Augusto de Roma.
        Isso correspondia ao exato ano l d.C., o primeiro aps o nascimento da Criana Sagrada.
        Sete meses. Ento eu desfalecera por sete meses! Nesse intervalo, Zamir j poderia ter
chegado  Itlia e aniquilado Shamira. Mas no o fizera. Com certeza no o fizera. Ainda no.
        Eu e Shamira estvamos ligados de forma inexplicvel. Um podia sentir, mesmo a
distncia, as mais latentes emoes do outro. Sim, a Feiticeira de En-Dor seguia com vida, e era
exatamente por isso que eu precisava retomar minha jornada. Ainda estava em tempo de alert-
la para a armadilha. Depois, s depois, eu avanaria  Palestina, onde supostamente Nathanael
me aguardava.
        Estiquei o corpo e deixei que a garota chinesa retirasse as agulhas. Com dificuldade,
pressionei o ligamento, e o polegar retraiu-se lentamente, um sinal de que as funes
circulatrias respondiam bem ao tratamento e que em breve eu recuperaria os movimentos, ou
assim esperava.
                                  MUDANA DE PLANOS

         Ao entardecer, a temperatura caiu drasticamente. O clima seco me fizera perceber,
desde minhas primeiras horas de conscincia, que percorramos reas desrticas. Mais tarde,
Tommaso confirmou minha suposio. Explicou-me que seguamos a Rota da Seda, ainda
dentro dos territrios da dinastia Han. Os colossais picos nevados dos montes Qilian, que eu
havia visto pela primeira vez ao chegar a Wu-Wei, iam vagarosamente ficando para trs.
Durante a maior parte de seu trajeto chins, a Rota da Seda permeava a encosta das altssimas
montanhas tibetanas, mas no meio do caminho desviava um pouco para o norte, penetrando na
chamada depresso Turfan, rumo  cidade de mesmo nome. Toda a regio  incrivelmente rida,
mas no inspita como um deserto de areia. O solo  acidentado e pedregoso, o que explicava a
sonoridade das rodas no cascalho.
         Finalmente, depois de um longo dia de dores e tonturas, a noite chegou, e o comboio de
dois carros parou, afastando-se alguns metros da estrada. Segundo o condutor, jantaramos e
depois dormiramos em barracas, pois s a lona de cnhamo, coberta por peles de carneiro,
afastaria a hostilidade do frio. Aproximava-se o momento em que conheceria o patro de
Tommaso -- que agora era tambm meu proprietrio.
         Fiquei um tempo sozinho na carroa, enquanto o siciliano e a menina chinesa
preparavam o acampamento. Aps montar as tendas e acender o fogo, Tommaso e a garota
voltaram para me levar para perto da fogueira. Preparavam, em uma resistente panela de bronze,
algum tipo de sopa, com arroz, legumes e lascas de carne de pssaro. Tambm me ofereceram
um manto de l, que, embora sujo, aceitei de bom grado.
         Tales e Plix, que se sentavam ao redor do fogo, eram dois gregos tpicos e se vestiam
como tal. O olhar denotava um grau de superioridade, comum dos homens ditos civilizados.
Tales era o mais velho, um homem na casa dos 50 anos. O nariz, a exemplo do de seu filho, era
triangular, descrevendo uma linha reta at a testa. Tinha pouco cabelo, e os fios escassos
aglomeravam-se nas laterais e na nuca. Plix, por outro lado, era um jovem forte, que se
considerava a prpria encarnao do deus Apoio.
         Tales serviu-se de sopa e depois caminhou ao meu encontro. A tnica pesada, ajustada
para o frio, ia dos ps ao pescoo, mas observei que sob ela o mercador usava sandlias, calado
padro adorado pelos povos mediterrneos.
         -- Coma quanto quiser -- avisou, com certa frieza, indicando-me um prato de
cermica. Eu precisava comer bastante para alavancar a recuperao.
         -- Muito bem -- agradeci com um cumprimento de cabea. Falei em grego, mas
simulando um sotaque germnico. O velho achava que eu era um brbaro, ento vesti o disfarce
que me fora previamente atribudo.
         Ele no deu importncia s formalidades.
         -- Tommaso j deve ter-lhe explicado. Sou o comandante desta caravana -- afirmou,
amargo. -- Salvamos sua vida e, por direito, voc  nosso escravo agora. Vamos comercializ-
lo quando chegarmos a Alexandria.
         -- Aprecio sua sinceridade.
         Plix se intrometeu.
         -- Este brbaro provavelmente no tem a menor idia de onde fica o Egito, pai.
         Eu o ignorei. O velho tambm.
         -- Sim -- emendei. -- Eu e a garota. Espera nos vender para os romanos.
         -- Exato. E a minha inteno.
         -- Pois ento devo adverti-lo de que perde seu tempo.
         -- Como disse? -- vociferou o velho. Plix levantou-se, buscando uma faca. Tommaso
sorriu, mas escondeu a fisionomia divertida no escuro. A menina encolheu-se.
         -- Origem civilizada, costumes brbaros.  assim que vejo a maioria dos gregos hoje
em dia -- atestei. -- No haver comrcio algum desse tipo.
         Plix avanou, com a faca em riste.
         -- Como se atreve? Deveria mat-lo agora mesmo.
         -- Seria imprudente tentar uma coisa dessas. Na verdade, no creio que pudesse me
matar realmente -- voltei-me para Tales. -- Tenho uma proposta melhor a fazer, vantajosa para
todos.
         Ao ver que seu pa no ultimava o comando de ataque, o jovem continuou a gritar.
         -- Voc  um brbaro! O que pode um brbaro contra um legtimo filho de Atenas?
No h disciplina em suas escaramuas. No h glria em suas guerras.
         -- No me venha com essa. A glria da Hlade findou-se aps as campanhas de
Alexandre.
         Alexandre, o Grande, da Macednia, fora um dos maiores monarcas da Antiguidade.
Durante seu reinado, entre 336 e 323 a.C., alongara as fronteiras de seu pas desde a Grcia at
o oeste da ndia.
         --  a que voc se engana -- interferiu Tales. -- Nossa cultura nunca antes alcanou
tamanha expanso.
         -- A cultura helnica, sim. Mas o que  a Grcia hoje seno uma inacabvel indstria
de escravos intelectuais, destinada a fornecer mo de obra qualificada aos aristocratas romanos?
Foi isso que sua gloriosa Atenas se tornou. Apenas mais uma provncia romana.
         Furioso, Plix armou o golpe com a faca, mas Tales o puxou pela camisa.
         -- No. Vamos ouvir o que ele tem a dizer. Talvez sua proposta seja mesmo
irrecusvel. Espero que seja.
         -- Acho que pode lucrar mais com nossos servios do que com nossa cabea. Vamos
ficar mais de quatrocentos dias juntos, viajando nesta rota interminvel -- esse era o tempo
estimado que levava uma caravana, naquela poca, para percorrer os seis mil quilmetros desde
os montes Qilan at a capital egpcia de Alexandria --, ento devemos nos ajudar. No  esse o
esprito democrtico grego?
         Ele se conservou inabalvel diante do comentrio.
         -- Continue.
         -- Quando deixarmos as fronteiras da China, entraremos nos territrios das tribos Yu-
chi e depois caminharemos rumo ao Imprio Parto, uma extensa regio administrada por
funcionrios que no possuem nenhum conhecimento da lngua grega e so estimulados a
cobrar taxas abusivas pela travessia.
         -- Sim, j percorri esta rota dezenas de vezes -- concordou Tales, neutro,
         -- Sou fluente em aramaco, o idioma dos mercadores do Oriente Mdio, alm de
conhecer alguns diaetos do deserto. Posso ajud-los na intermediao e conseguir um alvio nas
taxas.
         -- S isso?
         -- No. Sei como gui-los por uma trilha mais curta e segura at Alexandria,
         -- Sabe? -- indagou o velho, desconfiado. -- Tommaso! -- chamou, sem tirar os olhos
de mim. -- Traga o mapa. Est no meu transporte.
         O sicilano obedeceu.
         O planisfrio, desenhado sobre um pergaminho resistente, fora certamente elaborado
por um acadmico grego, tamanha era a preciso de detalhes. Mostrava cidades, vilas e estradas
que se espalhavam desde o extremo oeste do Mediterrneo at os confins do Oriente,
terminando na latitude que delimitava a capital chinesa, Chang'an.
         Tales esticou o mapa  luz da fogueira.
         -- Qual  a trilha que voc nos sugere? -- e apontou para a depresso onde estvamos.
-- Vamos ver se seu conhecimento  mesmo til.
         -- Deixaremos a Rota da Seda neste ponto -- indiquei um marco na rea central do
planalto do Ir -- e desceremos pelas terras da Partia at Perspolis. De l atravessaremos os
rios Tigre e Eufrates, cruzaremos o grande deserto da Arbia em direo ao Sinai e depois
seguiremos diretamente para Alexandria.
         O Imprio Parto, ou Prtia, ocupava, no sculo I d.C., as regies que hoje conhecemos
como Ir, parte da Armnia e o antigo reino da Mesopotmia. Naquele tempo, os conflitos com
os legionrios romanos tornaram-se comuns e acabaram por levar os dois lados ao confronto
direto. Romanos e partos viriam mais tarde a se enfrentar na famosa Batalha de Garras, que
culminou com uma humilhante derrota dos latinos.
         -- Este caminho que voc aponta -- argumentou Tales -- nos obriga a viajar pelo
corao da Arbia Deserta -- e usou o termo em latim. -- No me parece uma opo muito
inteligente.
         -- A outra opo, isto , a rota que vocs traaram inicialmente, passa pelo meio de
duas provncias romanas.
         -- E o que h de errado nisso?
         -- Quanto voc acha que vai gastar em taxas informais e suborno?
         -- Esse prejuzo j  calculado.
         -- Arrisco dizer que chega a um oitavo do valor total dos produtos. O grego fez uma
conta rpida de cabea. No respondeu  pergunta.
         -- Pelo que pude notar -- prossegui --, vocs levam objetos de bronze, metal
especialmente apreciado pelos romanos.
         Tales e Plix, ao mesmo tempo, fuzilaram Tommaso com olhares de rapina, julgando
ser ele o delator. Preferiam conservar a carga em segredo, por isso levavam tudo com eles em
seu prprio transporte. Mas eu sentira o cheiro do metal logo ao sair da carroa, e nunca me
enganava quanto  composio qumica desses minerais.
         -- Eu no disse nada -- defendeu-se o condutor, ao perceber a reprovao na
fisionomia de seus patres.
         --  verdade -- esclareci. -- Ele no me contou nada. Vi o brilho do metal refletindo 
luz das estrelas.
         Realmente havia, dentro da carroa dos gregos, uma pea de bronze que os helnicos
haviam esquecido de embrulhar. O segundo transporte, utilizado pelo mercador e seu filho, era
todo de madeira e mais parecia uma carruagem. As paredes e o teto formavam uma carroceria
slida, nica, bem diferente da conduo auxiliar, coberta apenas por um revestimento de lona.
         O velho deu de ombros e voltou a ateno para mim.
         -- A viagem pelo deserto poderia nos sair muito mais cara. A imensido de areia 
inspita, desolada e perigosa. Alm disso, estaramos vulnerveis aos ataques dos bedunos.
         Plix acrescentou:
         --Algumas tribos nmades vivem exclusivamente da bandidagem, e no temos uma
escolta armada para nos defender.
         -- Isso tudo  verdade, o deserto  traioeiro. Mas conheo muitas rotas confiveis,
desde as runas de Perspolis at as fronteiras do Egito. A via secreta que sugiro pode ser
tomada a oeste da antiga capital persa.
         -- Via secreta? -- estranhou Tales.
         -- No passado os espies babilnicos usavam estradas secretas para percorrer todo o
Oriente Mdio. So caminhos rpidos, ocultos e dotados de lenis subterrneos.
         -- Voc tem um mapa dessas estradas?
         -- Est tudo em minha cabea -- rebati, confiante.
         -- Humm... -- ponderou o velho. --  uma histria bastante fantstica. Mas se for
verdade ser de uma serventia inestimvel. Pelo traado que voc fez, eu diria que
economizaramos quase cem dias de viagem.
         -- A rota indicada funciona como um atalho. Alm disso, a totalidade de sua
mercadoria ser conservada. Os ladres desconhecem essa trilha.
         -- Sim, isso j estava entendido. Mas tem uma questo que permanece obscura. Por que
eu e meu filho deveramos acreditar em voc?
         Respirei fundo antes de responder e engoli um gemido seco. O frio comeava a contrair
os msculos, e meu brao tornou a doer. Tentei dobr-lo, mas os ossos danificados ainda no
estavam preparados para uma manobra completa.
         -- No h ningum nesta caravana que deseje viajar to rapidamente quanto eu. Preciso
chegar a Alexandria o quanto antes, e de l pegar um navio para Roma. Tenho negcios
urgentes na Cidade Eterna. Infelizmente, meu estado de sade me impede de prosseguir
sozinho. Preciso de vocs para alcanar meu destino.

       Tales fez silncio, cruzou os braos e olhou para as estrelas, parecendo procurar, no cu,
uma resposta  situao. Plix, desolado, afundou a cabea entre os joelhos, afetado pela
humilhao. Tommaso, mais uma vez, ocultou a fisionomia de satisfao -- o siciliano torcia a
meu favor.
        -- E se voc estiver mentindo? -- interpelou o velho, de repente. Era um teste.
        -- No vejo motivo para engan-los. Se tentasse, o que impediria seu filho de fincar a
adaga em meu corao? -- encarei o rapaz, mas ele desviou o olhar.
        O mercador moveu levemente a cabea para baixo,
        -- E a menina chinesa? Voc disse que encontraria utilidade para ela tambm.
        -- A garota conhece tcnicas de medicina incompreensveis aos ocidentais. Veja, meu
brao est retomando a vida -- retirei o manto de l para mostrar-lhes a evoluo do tratamento.
-- Nas cidades em que pararmos, poderemos oferecer os servios dela em troca de ouro. Muitos
pagariam por uma consulta.
        Tommaso arriscou uma constatao.
        --  verdade. O que a menina fez no brao dele  fantstico.
        O velho no se deu o trabalho de olhar para o criado. J tinha tomado sua deciso.
        -- Aceitaremos seu plano, mas esteja ciente dos riscos. Se for algum tipo de trapaa,
Plix e Tommaso tero ordem para execut-lo.
        -- Temos um trato, ento -- desfechei.
        -- Sim -- ele replicou, com a habitual seriedade que o caracterizava. --Agora, todos
para as barracas. Tommaso, deixe o fogo crepitando para afastar as cobras. Partiremos antes da
aurora.
        Tales deu a volta na fogueira, j em brasa, e dirigiu-se a seu abrigo sob lonas. Antes de
se recolher, deteve-se na entrada da cabana e me encarou.
        -- Como vamos cham-lo daqui para frente, forasteiro?
        Eu sempre era pego de surpresa por esse tipo de pergunta.
        -- Acho que "brbaro" seria apropriado.
        -- Est bem. Leve a chinesa para sua tenda. De agora em diante, voc  responsvel por
ela -- reparou no meu brao ferido --, e ela por voc, creio.
        Concordei com um sinal, desejando boa-noite ao mercador, mas ele no se mexeu.
Continuou parado na entrada da barraca, analisando-me dos ps  cabea.
        -- H alguma coisa estranha em voc -- comentou, um minuto depois. -- Ser que um
dia nos contar sua verdadeira histria?
        Devolvi-lhe a pergunta com um olhar sereno.
        -- Esse  o tipo de coisa que jamais saber -- fui sincero.
        -- Foi o que pensei -- ele sorriu brevemente Em seguida, desapareceu pela abertura.


                                       FLOR DO LESTE

         Mal o dia amanhecera, j estvamos de volta  estrada. Rumvamos para noroeste,
afastando-nos das colossais encostas tibetanas. A Rota da Seda, naquele ponto, afundava-se por
trilhas poeirentas e tomava um desvio para dentro de uma depresso montanhosa, chamada de
depresso Turfan. Assemelhava-se a um vale gigantesco, onde muitas lnguas-d'gua
descendentes das montanhas se encontravam e corriam para um lago, no corao da ravina. s
suas margens, erigia-se a cidade de Turfan, centro urbano por onde passavam nove em cada dez
mercadores que cruzavam aquelas cercanias.
         O lago e as fontes aliviavam a aridez do deserto. A vegetao florescia nas encostas de
pedra, mas no eram s os arbustos que compunham a imagem. Belas rvores exibiam suas
flores, pssaros cantarolavam, e o rudo agradvel de um riacho completava a sequncia de
maravilhas da estrada. A depresso Turfan era como um osis, uma magnfica jia incrustada no
seio de uma via estril.
         Enquanto descamos a alameda em direo  cidade, a menina chinesa, ao meu lado no
cargueiro, preparava a aplicao de mais uma de suas tcnicas especiais. Desta vez, deixou as
agulhas de lado e pegou na mochila um emaranhado de ervas. Com um graveto, amassou a
planta dentro de uma cuia de barro, e em outro pote preparou-se para acender o fogo. Ao mesmo
tempo, disps, a seu lado, cinco largas tiras de couro. Quando o fogo irrompeu, queimou as
ervas e ps as cinzas flamejantes sobre as ataduras. Em seguida, fixou as tiras em meu brao,
apertando forte as ervas ferventes, que provocaram queimaduras superficiais na pele. A tcnica,
apesar de dolorosa, empurrava os vapores medicinais da substncia para dentro do organismo,
que absorvia suas propriedades benficas. Esse tratamento, conhecido pela medicina moderna
como moxibus-to,  bastante eficaz no combate a vrias enfermidades, at mesmo s simples
dores de cabea, e j era usado pelos chineses desde tempos remotos.
         A menina manteve as tiras pressionadas por uma hora. No meio do processo, enquanto a
ardncia das ervas abrandava, tive uma idia.
         --Tommaso! -- chamei, enquanto o siciliano conduzia a carroa pela alameda.
         -- Estamos a uma hora da cidade -- devolveu.
         -- No, no se trata disso. Este  o carro onde vocs carregam os suprfluos, no ?
         -- Por qu? Precisa de alguma coisa?
         -- Tintas c pena. Sabe onde Tales guarda o material de anotao? Ele matutou por trs
segundos. Estava concentrado demais na estrada para dar uma resposta imediata.
         -- Os documentos esto todos com eles no segundo carro, mas h bastante tinta e pena
em uma pequena arca bem embaixo desse balaio -- e indicou um cesto de palha escondido em
um canto do cargueiro. -- Infelizmente creio que os pergaminhos acabaram. Foram todos
usados para discriminar os objetos de bronze.
         -- No acho que seja necessrio -- agradeci, pondo o balaio de lado. Na pequena arca
havia tinta para escrita, encerrada em dois potes de cobre, e dois pincis de pontas diferentes. O
material era chins, de qualidade superior, e provavelmente fora adquirido em alguma loja em
Chang'an.
         Abri o potinho e molhei a ponta do pincel no corante.
         -- Qual  o seu nome? -- perguntei  menina, oferecendo-lhe o pincel untado.
         Ela agarrou a haste do instrumento, ainda um pouco acanhada, e rabiscou
uns caracteres chineses no cho de madeira. Flor ao Leste. escreveu, no idioma mandarim.
         Flor do Leste. Que belo nome, pensei, e precisamente adequado. Era isso o que ela era,
de fato -- frgil como uma flor, e dotada de uma beleza inocente. Era o boto do Oriente:
tranquila, inabalvel como a planta que floresce na montanha e que sobrevive at s piores
tempestades.
         -- Flor do Leste -- murmurei, mais para mim mesmo do que para ela.
         -- O qu? -- indagou Tommaso, pensando que o sussurro fosse dirigido a ele.
         -- Flor do Leste -- repeti, em grego.
         -- Flor do Leste? -- ele se confundiu.
         -- Sim. Flor do Leste. E o nome dela. O nome da menina.
         O condutor torceu o pescoo e reparou nos ideogramas desenhados no cho.
         -- Ah, a mocinha sabe escrever. Vejo que finalmente estabeleceram uma forma de
comunicao. Por que voc no ensina a ela a gramtica grega? Ningum aqui sabe falar chins.
         -- No tinha pensado nisso. Mas at que  uma boa idia. O que acha, Flor do Leste?
         Ela deixou escapar um sorriso. Era uma menina comum, mas durante toda a infncia
fora repreendida por expressar suas emoes. As mulheres chinesas passavam por um rgido
treinamento durante a adolescncia, que as ensinava a ser esposas perfeitas -- submissas,
disciplinadas e condescendentes.
         A roda da carroa atropelou uma pedra, e o carro todo deu um pulo de embrulhar o
estmago. O pote de tinta virou e o corante borrou o nome escrito no cho.
         -- O seu mundo est ficando para trs, Flor do Leste. Esta  a ltima cidade dentro das
fronteiras da dinastia Han -- devaneei, observando os picos nevados desaparecerem no
horizonte. -- No precisa mais temer coisa alguma. Os nmades j se foram, e os gregos no
lhe faro mal.
         Ela me olhou um pouco envergonhada, enquanto retirava as tiras de couro amarradas ao
meu brao. A recuperao do membro era espetacular.
         --Voc vai comigo para Roma, menina. Conheo uma mulher que vai gostar de
conhec-la. Talvez ela possa ajud-la a localizar seus parentes vivos.
Shamira tinha contatos, era esperta, rica e sbia. Possivelmente saberia como embarcar Flor do
Leste de volta  China e devolv-la a seu cl familiar. Grandes caravanas partiam todos os dias
da Cidade Eterna, e ao menos uma delas aceitaria escoltar a jovem chinesa de volta  sua terra.
A tarefa no sairia de graa, mas as reservas monetrias da feiticeira seriam mais do que
suficientes para cobrir todas as despesas,
        A menina sinalizou uma afirmativa e ps-se a recolher o material. Guardou as ervas na
mochila e pousou a cuia num canto. Dobrou em rolos as tiras de couro e jogou fora as cinzas
das plantas.


                                          TURFAN

         A localidade de Turfan no era defendida por muros ou portes, mas um portal de
madeira, talhado com a forma de dois drages que se engoliam mutuamente, guardava a entrada
da cidade. O monumento, segundo os taostas, barrava o assalto dos espritos maus e protegia o
vale contra a fria dos deuses. No senti nenhum abalo mstico ao cruz-lo, mas meus sentidos
continuavam debilitados em decorrncia do meu precrio estado de sade.
         Apesar das belezas naturais, Turfan no reservava grandes luxos. As habitaes
padronizavam uma colorao homognea, entre o bege e o cinza, um tipo de edificao mais
tibetana do que chinesa. Observei que muitas casas eram de pedra e adobe, destoando
imensamente do tradicional projeto arquitetnico chins. Havia tambm, prxima ao lago, uma
quantidade excessiva de barracas, que abrigavam centenas de mercadores acampados.
         Tales abriu a cortina traseira da carroa com uma puxada violenta. Percebi, com isso,
que tnhamos estacionado em meio ao intenso comrcio de uma paragem fronteiria.
         -- Como se sente hoje, forasteiro? Acha que pode caminhar? -- seu interesse era
puramente profissional.
         -- Sim, posso andar. Ainda no estou completamente recuperado, mas as articulaes
da perna j se dobram com perfeio. Eu no arriscaria uma corrida, mas no vejo problema em
sair para um passeio.
         -- timo. Plix e eu pensamos que voc poderia nos ajudar com os suprimentos. Se vai
ser nosso guia daqui para frente, acho que deveria assumir parte da responsabilidade pelas
contas da caravana.
         -- Claro -- concordei, finalizando um sinal positivo. O velho deu meia-volta e seguiu
para a praa do mercado.
         Dentro do carro, cobri o corpo com o conjunto deplorvel de trapos que usava desde
que fora retirado do rio e tentei esconder o brao ferido jogando sobre ele o manto de l.
Lembrei-me de que tanto Flor do Leste quanto eu precisvamos de roupas novas. Infelizmente
no tnhamos um s dcnrio no bolso.
         Saltei para a rua e o brilho do sol irritou meus olhos. Flor do Leste me puxou pelo
brao, indicando o local onde Tales e Plix analisavam as carroas. O mercador tinha  mo
uma tbua recoberta de cera, onde fazia anotaes com um estilete de osso.
         Olhando para a caravana, calculei as despesas. O comboio era composto por dois carros.
O primeiro, onde viajavam os gregos, era puxado por dois cavalos, ambos de carga, imprprios
para uma corrida veloz. O segundo transporte, o carro dos criados e das quinquilharias, tinha
mulas  frente.
         Plix parou a meu lado, mas no disse coisa alguma. O velho palpitou:
         --Vi um homem vendendo camelos na entrada da cidade. O que me diz de trocarmos os
carros por uma dzia desses ruminantes? Doze animais saudveis devem ser o bastante para
levar toda a mercadoria atravs do deserto.
         -- No seria vantajoso -- devolvi. -- A areia fina pode danificar o bronze. Acho
melhor preservar o metal embrulhado e dentro do ambiente fechado do cargueiro. Vamos
continuar com os carros.
         -- Deve estar brincando -- depreciou Plix. -- No  possvel cruzarmos um deserto
de areia sobre rodas. Isso  absurdo. Os carros no conseguem subir as dunas. Precisamos dos
animais para levar a carga, caso contrrio ficaremos atolados.
         --  uma questo interessante, brbaro -- reforou o velho.
         -- Eu disse que conhecia uma rota auxiliar. Um lenol subterrneo corre por baixo
dessa trilha. O resultado  uma via de solo arenoso, porm rgido. As carroas no encontraro
dificuldades.
         O rapaz olhou para o pai, exigindo uma atitude.
         -- Voc est absolutamente certo da existncia dessa rota? -- intimou Tales.
         -- Tem a minha palavra, apesar de eu ter a impresso de que j discutimos isso antes.
         Ele analisou meu olhar.
         -- Confio em voc, forasteiro -- encerrou.
         Caminhei de volta ao carro dos suprimentos e contei as nforas e os cestos. Sacudi
alguns recipientes, para testar o contedo. Ainda havia bastante gua, mas a comida estava no
fim.
         -- Vamos ter que estocar muita comida, se quisermos seguir viagem sem paradas
longas -- propus. -- Felizmente nosso estoque de gua s precisa aguentar at as runas de
Perspolis.
         --Voc no acha que uma grande quantidade de alimento pode acabar apodrecendo
durante a viagem? -- cutucou o velho.
         -- Sim, acho. H alguns povoados no deserto onde poderemos reabastecei, mas para
isso teramos de nos distanciar demais de nossa rota. Sinceramente ainda no sei o que fazer.
Vou tentar pensar em alguma coisa.
         Plix alfinetou.
         -- Ento seu plano comea a apresentar falhas.
         -- Talvez voc possa me ajudar a resolv-las.
         O rapaz balbuciou alguma coisa, mas minha ateno foi desviada para a menina
chinesa, que me puxava insistentemente pelo brao. Como no podia falar, Flor do Leste
arriscou um sinal mmico, imitando o movimento circular de uma colher a mexer um caldeiro.
         -- Voc poderia elaborar um preparado -- chutei. Ela concordou com a cabea. -- Que
tipo de preparado?
         Ela levou a mo vazia  boca, reproduzindo o gesto de uma pessoa comendo. Depois,
deu duas palmadinhas na prpria barriga, simulando urna expresso de contentamento. Flor do
Leste soltou meu brao e correu de volta  carroa. Tales, Plix e eu a seguimos, intrigados, e
notamos que a menina se apressava a buscar seu livrinho de ervas na mochila. Satisfeita, ela me
indicou uma das pginas, rabiscadas com ideogramas e desenhos de plantas e razes. Apesar de
meu desconhecimento quanto  matria herbrea, li as primeiras palavras e rapidamente
compreendi a sugesto.


         -- Acho que encontramos a soluo para o impasse que o aborrece, Plx. Isto , Flor
do Leste encontrou.
         -- Flor do Leste? -- interpelou Tales. Esquecera-me completamente de que os gregos
ainda no conheciam o verdadeiro nome da pequena. Tommaso me ajudou:
         -- Flor do Leste  o nome da menina, senhor.
         -- Potico -- replicou o velho. -- Mas o que ela quer dizer com todos estes sinais?
         Mostrei-lhe os desenhos nas pginas do livro. Ao mesmo tempo, a menina puxou umas
ervas de dentro da bolsa e as sacudiu no ar.
         -- E um tipo de substncia, uma mistura de azeite, sal e ervas especiais. A menina
acredita que esse preparado pode conservar a comida por muito tempo. A receita contida neste
livro  bem especfica.
         -- E qual  sua opinio sobre isso? -- perguntou Tales, imparcial,
         -- Acho que devemos dar-lhe crdito. Seus conhecimentos j se mostraram bastante
teis. Se o preparado de ervas funcionar, poderemos reduzir ainda mais o tempo de viagem.
        -- Mas e se no funcionar? -- instigou o mercador. Como dono e responsvel pelo
comboio, ele tinha de pensar em tudo.
        -- A faremos como eu planejara anteriormente. Compraremos um cavalo forte e o
usaremos para buscar comida nas aldeias prximas  via.
        O velho marcou anotaes na tbua de cera. Quando terminou, virou-se para o criado.
        -- Tommaso, voc ser o responsvel por escolher o cavalo -- e entregou um saquinho
de dinheiro ao siciliano. -- Faa-o bem. Quero um animal jovem e saudvel. Se ele adoecer no
meio da viagem, deduziremos o valor de seu pagamento. Quero que compre tambm o par de
camelos que combinamos. Voc tem experincia com esse tipo de cmbio.
        -- Est bem -- concordou, um pouco decepcionado pela clusula acerca da
indenizao.
        -- Plix e eu vamos cuidar dos suprimentos, incluindo o sal e o azeite.
        -- Seria bom que tivssemos mais potes de cermica para guardar a comida --
intervim. --Trs crateras seriam perfeitas.
        Crateras eram grandes vasos em forma de taa. Os gregos e os romanos normalmente as
utilizavam para misturar gua e vinho.
        -- Voc ficar por aqui, brbaro, com a menina -- ultimou Tales. -- Tome conta da
caravana. Esta  a prova definitiva de que confio em seu julgamento. Quando Tommaso voltar,
pode andar pela cidade, se  que esse tipo de caminhada o agrada,
        -- No pretendo ir muito longe. S o bastante para encontrar uma roupa nova para Flor
do Leste. Acho que  o mnimo que devemos a ela.
        -- Voc deve muito mais a ela do que ns, forasteiro, por isso deveria ser o seu
mecenas, no eu -- argumentou, separando mais alguns denrios. -- Mas compreendo a
situao. A garota  importante para todos ns -- e atirou ao ar trs denrios e quatro sestrcios,
que agarrei prontamente. -- Compre vestimentas para ela e para voc tambm. Mas aguarde o
retorno de Tommaso. Cidades e ladres so substantivos que caminham juntos.


                                      FILHO DO PERIGO

        Tommaso retornou  caravana, montado em um magnfico corcel marrom-avermelhado.
Poucas vezes na vida eu apreciara um animal de tamanha beleza. Era rabe, e pelo porte altivo
deduzi que nascera selvagem e provavelmente fora retirado da manada ainda potro e amestrado
por habilidosos treinadores bedunos. Essa mistura de ousadia e disciplina fazia dele um
espcime nico, inestimvel.
        O siciliano no escondia a satisfao por ter encontrado, indiscutivelmente, o melhor
corcel da cidade.
        -- Hurra! -- gritou o criado, puxando as rdeas e desmontando. Uma nuvem de poeira
levantava-se cada vez que o equino afundava os cascos no cho,  batida de seu trote majestoso.
Aproximei-me do animal, sempre apoiado no cajado.
        -- E ento, o que achou? -- perguntou Tommaso, orgulhoso.
        --  lindo. Com certeza o cavalo mais belo que j vi -- respondi, acariciando o pelo
vermelho.
        --  tambm muito veloz. O antigo proprietrio deixou que eu o cavalgasse antes de
vend-lo. No vejo a hora de disparar pelo deserto em seu lombo,
        --  rabe, no ? H algo de selvagem nele.
        -- Sim, bem como seu dono anterior. O sujeito me vendeu mais barato porque lhe
garanti que seria bem tratado. Disse que o corcel era amestrado e atendia pelo nome de Ibn-
Hatar, que em rabe significa filho do perigo.
        -- Um corcel amestrado e que atende pelo nome. Deveria valer muito mais do que
catorze denrios. Como conseguiu adquiri-lo por esse preo?
        Ele sorriu.
         -- Paguei-lhe somente doze denrios e dez sestrcios. O homem precisava do dinheiro
para repor os camelos que morreram no deserto. Venha, suba nele, veja como  disciplinado e
atende aos comandos do cavaleiro.
         -- Eu adoraria, mas ainda no estou em condies de cavalgar. Preciso de descanso
urgentemente.
         -- Voc no come nada desde ontem  noite.
         --  verdade. Acho que nunca estive to fraco assim. Ento,  justificvel que eu esteja
um pouco confuso.
         -- Entendo. A inutilidade  uma condio pouco admirvel.
         Retornei ao cargueiro, onde Flor do Leste me ofereceu um pedao de peixe salgado.
Bebi um pouco d'gua e tossi algumas vezes. Limpando a boca com as costas da mo, vi que os
gregos voltavam. No mesmo instante, Tommaso desceu da carroa, pronto a ajudar o patro.
Tales e Plix vinham pela rua, seguidos por um chins magricelo, desdentado, que, com
dificuldade, puxava uma car-rocinha abarrotada de sacos, balaios e recipientes de cermica. Ali
estava toda a comida de que precisaramos para completar a jornada at Alexandria.
         O siciliano levou o que havia na carreta para dentro do carro dos criados e deu o sal e o
azeite para Flor do Leste, que os misturou s ervas especiais. Depois de aquecido, o preparado
estaria pronto, e chegaria o momento de untar com ele os alimentos. Por fim, poderamos
conservar a comida palatve por bastante tempo. A questo dos suprimentos fora
definitivamente resolvida.
         Estvamos na primavera, e a viagem era calculada em pelo menos dez meses. Com
sorte, completaramos o percurso em tempo recorde.


                                 PREDESTINADO EM DELFOS

          chegada do crepsculo, montamos acampamento s margens do lago. Esfriava rpido,
e os gregos acenderam uma fogueira, pronta para receber a deliciosa refeio de Flor do Leste.
Tommaso retornou com os camelos e as roupas, finalizando assim os itens discriminados na
lista de compras.
         Minhas novas vestimentas eram confortveis, resistentes e me serviram perfeitamente,
sem necessidade de ajustes. A cala era de um algodo rgido, bom para cavalgada, as botas
eram longas, de couro duro, e a camisa fora costurada em duas camadas -- uma de linho e outra
de algodo acolchoado. As cores eram neutras e combinavam bem com a paisagem do deserto
rochoso. Juntos vieram um par de braadeiras e luvas de cavaleiro, que deixavam os dedos 
mostra, justamente para facilitar o manuseio das rdeas.
         Flor do Leste ganhou um quimono simples, bege e cinza, sem desenhos ou ornamentos,
mas muito mais quente e limpo do que seu traje anterior.
         No incio da noite, j com o preparado borbulhando ao fogo, a menina chinesa fez sinal
para que eu descobrisse meu brao e aplicou-me uma nova sesso de moxibusto. Com alegria,
constatei que meus dedos j se dobravam  metade. Ao toque, a dor das ervas queimadas
aumentou, e isso era bom, pois significava que o tato e a sensibilidade voltavam, aos poucos, ao
normal.
         Depois do jantar, sentei-me no topo de uma pedra e cobri o corpo com uma manta de l.
Quando o silncio total caiu sobre o acampamento, percebi, com minha audio afiada, que
dentro da tenda Plix chamava o pai  discusso. Raras vezes utilizei-me dos sentidos para
escutar conversas alheias, mas ao entender que era o alvo dos comentrios, atentei ao dilogo.
         As duas silhuetas se moviam dentro da barraca, ao reflexo da luz do braseiro.
         Apurei os ouvidos.


        -- Pai, tem uma coisa que ainda no entendi. Sou seu filho e sei que lhe devo respeito,
mas penso que voc confia demais nesse brbaro. Estamos com ele s h dois dias, e o senhor
segue cegamente seus comandos.
         O velho sorriu, como se j aguardasse aquela reao.
         -- Compreendo sua preocupao. Em seu lugar, eu teria a mesma atitude. Cedo ou tarde
isso teria que ser discutido, e acho que chegou a hora.
         -- Isso o qu? -- assustou-se Plix. Eu mesmo fiquei confuso. Saberia ele algo a meu
respeito que eu prprio desconhecia?
         Tales fez uma pausa, levantou-se e tomou distncia do braseiro.
         -- J lhe contei que, quando tinha a sua idade, servi no exrcito. Isso foi h muito
tempo, e ao terminar o servio militar tive de escolher se continuava como oficial ou se pedia
dispensa, para viver como mercador. J havia viajado bastante, conhecia terras longnquas, e por
isso me sentia seguro para continuar viajando, mas como comerciante, ganhando meu prprio
dinheiro.
         -- Sim, conheo a histria.
         -- Mas voc no sabe que, para tomar essa deciso, recorri ao conselho do orculo.
         -- O Orculo de Delfos? -- exclamou o rapaz, -- A fala de Apoio! -- Achei que
deveria pedir auxlio dos deuses para concretizar a sentena que mudaria minha vida.
         O templo de Apoio em Delfos, na Grcia, era para os helnicos o centro do universo.
Reis e governantes de todo o mundo vinham de terras distantes para sacrificar cabras e ouvir os
conselhos do orculo, que era, em essncia, a voz sublime dos deuses. Uma sacerdotisa,
assaltada pelo xtase divino, escutava o sussurro que vinha das profundezas da terra e transmitia
a mensagem a um aclito, que a anotava e a repassava ao visitante. Para os gregos, Delfos era
mais do que uma localidade -- era tambm uma inspirao, um orgulho, uma representao
viva do poder superior.
         -- E o que foi que o orculo lhe disse? -- perguntou Plix, excitado diante de um relato
to fantstico. -- O que essa conversa tem a ver com o brbaro que retiramos do rio?
         -- Naquele dia, entre outras coisas, o deus profetizou minha morte.
         O jovem engoliu em seco, sem reao. Tales prosseguiu:
         -- A mensagem do orculo dizia que, em uma de minhas viagens de volta a Atenas, eu
seria assassinado por harpias.
         Minha viso aprimorada no me permitia enxergar atravs da lona da barraca, mas no
era difcil concluir, pelo gemido assustado, que Plix tremera  meno daquelas criaturas. As
harpias so figuras mitolgicas, espcie de mulheres aladas com patas de abutre, derivadas da
imaginao popular e retratadas em meia dzia de antigos poemas helnicos. Como conhecedor
da matria oculta, eu tinha certeza de que havia muita coisa estranha no mundo, mas harpias,
pgasos e medusas nunca existiram de fato.
         -- Harpias? Mas esses monstros so reais?
         -- Ora, pode estar certo disso. A voz de Apoio me alertou de que eu seria avisado da
proximidade desse dia, e o alarme vria na forma de um andarilho dos cus. Um homem que se
faria passar por gente, mas que na verdade seria um emissrio dos deuses.
         Plix respirou fundo, limpou o suor da testa e acalmou-se. Seu inconsciente o impeliu a
ironizar a situao, que de to absurda parecia engraada.
         -- O senhor est dizendo que aquele brbaro  um enviado dos deuses?
         -- Eu o encontrei no rio antes de Tommaso -- revelou o velho.
         -- Voc o qu? -- murmurou Plix, deixando de lado a disciplina familiar. -- Por que
no me disse antes?
         A resposta foi evasiva.
         -- Fiquei a observ-lo por meia hora e cheguei a me lembrar das palavras do orculo.
No tinha certeza, mas imaginei que ele poderia ser a figura mencionada na profecia. Temendo
por minha vida, dei as costas ao meu destino e voltei ao acampamento. Pouco depois voc me
avisou que Tommaso o havia retirado do rio. Ningum teria sobrevivido por tanto tempo na
gua. S um deus ou um heri teria essa capacidade.
         -- Ele no  um deus nem um heri,  somente um bandido.
         -- No, as evidncias so claras. Tambm resisti a acreditar, mas ouvindo-o falar
reparei que seus conhecimentos ultrapassam em muito as informaes comuns aos guias,
generais e filsofos. E finalmente me convenci de que no existe escapatria ao destino -- a voz
baixou uma oitava, -- E j alcancei idade e sabedoria suficientes para entender que no devo
questionar o que  escrito pelos deuses.
         Consternado, Plix desabou no cho e refugiou-se cm um canto frio da tenda, longe do
calor do fogo. Cobriu a face com ambas as mos e ali ficou, meio desolado, quase autista,
observando impassvel o crepitar do braseiro. Tales agachou-se ao lado do filho, ps a mo
direita em seu ombro e pediu-lhe que no sofresse, j que sua suposta morte era "inevitvel".
Explicou-lhe que todos os documentos j haviam sido passados para o nome do filho e que ele
deveria dar continuidade ao seu trabalho, guiando a caravana at Alexandria.
         De minha parte, estava certo de que no era o andarilho profetizado. No questionava a
capacidade fatdica do orculo, mas sabia que a sacerdotisa em Delfos sempre falava por
enigmas. Certa vez, o rei Creso, da Ldia, perguntou ao orculo se deveria lanar-se na guerra
contra os persas. A voz de Apoio respondeu que, se o fizesse, um imprio seria perdido. O
monarca acreditou que o orculo se referia ao Imprio Persa, mas enganou-se -- era o seu.
Portanto, a mensagem que chegara at Tales no queria dizer, literalmente, que ele seria atacado
por harpias, ou que morreria massacrado por elas. A meu ver, eram tudo alegorias, informaes
passveis de ser interpretadas. At mesmo a questo da morte poderia ser to somente uma
figura simblica.
         Alm disso, eu estava certo de que no era um enviado dos deuses. Poderia ter perdido
minha glria e meu exrcito, mas retinha a absoluta conscincia de rainha identidade.
E mais uma coisa: harpias no existem.


                                    PISTAS NA ESTRADA

         A caravana deixou a depresso de Turfan na manh seguinte e retomou o caminho pela
Rota da Seda. Dali at o Mediterrneo, o deserto seria uma companhia constante. Primeiro,
seguiramos por terreno rido, montanhoso, margeando a cadeia de montanhas Tian rumo a
sudoeste, at as terras que hoje pertencem ao Afeganisto, Depois, pretendamos adentrar o
Imprio Parto, atual Ir, e em certo ponto deixaramos a estrada para alcanar, ao sul, as runas
de Perspolis, onde comeava a trilha secreta traada pelos babilnicos.
         Por dois meses, viajamos por vales secos, desfiladeiros profundos e montanhas
rochosas, esbarrando com rabes, partos e chineses, O terreno era rido, mas no raro
encontrvamos arbustos no caminho, e eu recolhia as cascas e folhas para us-las como lousa.
Nelas, rabiscava caracteres gregos e, aos poucos, ensinava o idioma helnico  menina chinesa.
Flor do Leste tinha uma esplndida capacidade intelectual, mas o grau de dificuldade para
aprender uma linguagem ocidental era extremo. O alfabeto grego era totalmente diferente dos
ideogramas mandarins, e tive que explic-lo  pequena letra a letra, verbalizando os sons e
repetindo os significados.
         No ltimo ms do vero, estvamos a poucos quilmetros da fronteira com a Partia,
onde, pelo mapa, havia um povoado chamado Bactro, composto de um forte, um posto de
controle e meia dzia de casas de pastores e oleiros.
         Com o tratamento de agulhas de Flor do Leste e seus elixires de ervas, recuperara-me
quase totalmente, e o brao ferido j se movia com perfeio, restando apenas uma cicatriz
circular um palmo acima do punho, onde o ferro de Mai Yun penetrara. Restabelecido, passei a
atuar como batedor, viajando sempre  frente, montado no veloz Ibn-Hatar. Como guardio,
minha funo era observar as condies da estrada por onde passariam as carroas, averiguar a
possvel presena de ladres e retornar ao grupo com relatrios. Fiz isso tantas vezes que o
corcel se apegou mais a mim do que a qualquer outro, elegendo-me instintivamente seu
cavaleiro.
         Dizem os bedunos que, quando o tempo est calmo e o cu azul espelha a
magnificncia do cosmo,  sinal de que uma violenta tempestade se aproxima.
         E foi isso que aconteceu.
        Em uma manh quente e particularmente abafada, a um dia de viagem de Bactro, notei,
 margem da estrada, um montculo de terra que me chamou a ateno. Em um piscar de olhos
meu crebro captou na areia impresses humanas, como se o local tivesse sido remexido e
forjado para parecer uma obra natural do vento. Ora, no havia razes para um mercador, um
andarilho ou mesmo um militar esconder seu rastro, ainda mais em uma rota compartilhada por
tanta gente. Aproveitei, ento, meus dez minutos de vantagem em relao ao primeiro carro e
fui investigar a estranha elevao.
        Sob sol forte, desmontei e me agachei diante do stio, estendendo ao mximo a
capacidade sobre-humana de meus sentidos. Toquei o terreno com a ponta dos dedos, farejei o
ambiente e, pelo tato, percebi uma variao nas emisses de calor abaixo do solo, o que
significava que havia mais do que areia enterrada ali. Pensei em buscar urna p na carroa, mas
no quis perder tempo e comecei a cavar com as mos. Dois minutos depois, encontrei,
afundados em um buraco, uma caneca de argila e um graveto queimado. Deduzi que fossem
vestgios de um acampamento, mas por que teriam sido propositadamente ocultados?
        Tommaso, ao me ver ajoelhado no deserto, longe da trilha, puxou as rdeas das mulas e
o comboio estacou. Plix, que guiava o segundo transporte, tambm parou e gritou para o
criado:
        -- O que est havendo l na frente? Por que o brbaro saiu da estrada?
        -- No sei, o sol est contra ns -- ele respondeu em voz alta, para vencer a distncia e
a amplitude do espao. -- Acho que est procurando alguma coisa na areia.
        O helnico suspirou, impaciente.
        -- Pois corra at l e descubra que tipo de maluquice ele est aprontando. E tente traz-
lo de volta. Nesse ritmo nunca chegaremos a Bactro.
        -- Sim, senhor -- obedeceu o empregado, descendo da plataforma do carreteiro.
        Enfiando a mo ainda mais profundamente no cho, retirei da terra uma
pedra chamuscada, que certamente havia sido usada para delimitar uma fogueira. Ento vi
Tommaso se aproximando.
        -- Algum problema? Encontrou algum tesouro? -- brincou o siciliano, ao me ver
revirando a poeira.
        --Algum acampou neste lugar e depois forjou um montculo de areia e pedras para
ocultar sua passagem. Ajude-me a limpar o permetro.
        Ele no se mobilizou imediatamente, tentando entender a relevncia da investigao.
Sem chegar a concluso alguma, perguntou:
        -- Voc desencavou alguns utenslios singulares -- ele se referia  caneca de argila --,
mas que interesse temos em um ponto de parada abandonado?  possvel que esteja a h anos e
tenha sido soterrado pelas tempestades do deserto.
        -- No. Eles jogaram terra e pedras sobre a fogueira. Por que acha que fariam isso?
        -- Talvez no quisessem ser rastreados.
        -- Foi exatamente o que pensei.
        O italiano olhou-me passivo, mas por fim se agachou, separando algumas rochas.
Continuava curioso quanto  minha atitude e voltou a alimentar o dilogo:
        -- Est procurando por alguma coisa em especial?
        -- Uma pista -- eu disse, aproximando o rosto do solo, para captar melhor os aromas.
        Foi ento que tateei, no meio dos pedregulhos, um objeto em forma de disco. Era um
prato de porcelana quebrado, ordinrio, mas que guardava um cheiro caracterstico.
        -- Zamir! -- exclamei, reflexivo. As impresses olfativas que ainda se agarravam 
loua eram as mesmas contidas na garrafa de cermica do bosque Tn-Sen.
        -- Zamir? O que  isso? -- perguntou Tommaso.
        -- Um nome. O nome de um velho conhecido.
        -- Esse Zamir  amigvel?
        -- Nem um pouco. Foi ele quem tentou me matar da ltima vez.
        -- Foi o homem que perfurou seu brao?
        -- No. Ele enviou assassinos para dar cabo de minha vida -- confessei, observando o
horizonte deserto. -- E isso naturalmente o torna to hostil quanto seus contratados.
         Retirei a braadeira e a luva e, com a palma da mo, provei a consistncia e a
temperatura da areia. As pegadas deixadas pelos viajantes tinham sido cobertas pela poeira
havia muito tempo, mas, em certos pontos, havia variaes de calor no solo, um nvel abaixo da
camada de areia depositada pelo vento. Nesses lugares, os gros estavam mais unidos,
compactados, amassados -- era a evidncia de que haviam sido afundados sob a presso do
peso de um homem. Tratava-se de pegadas, sem dvida, e no s de um par delas, mas de cinco
ou seis pares, o que me levou a crer que Zamir contava com a ajuda de carregadores,
provavelmente escravos.
         No existiam indcios de animais, o que provava que o mago viajava a p, com cinco
acompanhantes que, pelo peso, eram todos homens. Segui o rastro por cinquenta metros at o
leito da estrada, quando as impresses se apagavam completamente, em meio ao cruzamento de
inmeras outras marcas de caravanas que passavam por ali todos os dias. O siciliano me
acompanhou gentilmente, trazendo Ibn-Hatar pelas rdeas.
         -- Eles esto somente seis semanas  nossa frente -- confidenciei a Tommaso. O vento
naquela parte da Rota da Seda levava um ms e meio para cobrir o solo com aquela quantidade
especfica de terra, que formava um nvel sobre a trilha de calor que eu encontrara.
         -- Quem? Esse tal Zamir?
         -- Ele e mas cinco homens. Viajam todos a p e caminham para oeste. Talvez ainda
possamos alcan-los, se continuarmos nesse ritmo acelerado.

         -- Voc quer se vingar dele, no ? Quer persegui-lo?
         -- No. S quero impedir que ele cumpra sua vingana. Preciso neutraliz-lo antes que
tente assassinar outros em sua lista.
         Observei mais uma vez o horizonte, onde a Rota da Seda encontrava o povoado de
Bactro.
         Seis semanas.
         Durante toda a jornada, o inimigo estava mais perto do que eu imaginara.


                                      O REI MENDIGO

         De longe, o povoado fronteirio de Bactro parecia abrigar somente uma fortaleza,
porque essa era a nica construo realmente imponente na paisagem adiante. A aproximao
posterior, porm, revelou-nos a existncia no de meia dzia, mas de dezenas de pequenas casas
de barro, que juntas formavam um tmido aglomerado urbano.
         A primeira impresso que tive ao avistar a fortaleza, aos raios ofuscantes da aurora, foi
de que tnhamos finalmente chegado ao Ocidente. Diferentemente dos templos chineses, feitos
de madeira, e das cabanas brbaras, de pedra e palha, o forte de Bactro havia sido construdo
com blocos de tijolo secos ao sol. Os portais de entrada eram largos, em forma de arco, e o
interior era ricamente decorado com mosaicos multicolores. No centro do edifcio, os
engenheiros projetaram um ptio interno, semelhante aos trios romanos, mas muito mais
amplo. O teto se fechava em abbada, imitando o firmamento celeste.
         Havia arbustos ao longo de todo o cenrio rido e pedregoso que margeava a Rota da
Seda, mas raramente se encontravam, no deserto, plantas grandes ou comestveis. Bactro,
contudo, contava com diversas fontes de gua, que alimentavam a vida de palmeiras, tamareiras
e junperos e permitiam o florescimento natural de um capim ralo, que servia como pastagem
para ovelhas. A temperatura, embora mais mida, continuava escaldante, e decidimos reabas-
tecer as crateras, para seguir com tranquilidade at o ponto onde deixaramos a estrada.
         Nenhum muro ou cerca delimitava a pequena comunidade, mas um batalho de
soldados montados vigiava seus limites, atento a qualquer movimentao irregular alm das
colinas. Carregavam arcos longos, lanas e cimitarras -- espadas curvas, normalmente usadas
com uma s mo pelos esgrimistas. As armaduras tinham a aparncia de roupas longas, de
linho, costuradas em vrias camadas para absorver o corte das lminas inimigas.
         Os guardas de fronteira exigiram um pagamento exorbitante pela travessia -- dez
denrios --, que, a pedido deles mesmos, foi feito em dracmas gregas. Essa seria, entretanto, a
ltima vez que seramos extorquidos, pois em breve deixaramos a estrada oficial.
         Alm da alameda de palmeiras, pudemos contemplar melhor a fortaleza e sua bela
arquitetura. Em suas escadas, um homem coberto de roupas pesadas, provavelmente leproso,
pedia comida aos transeuntes, quando um bando de crianas remelentas comeou a atirar-lhe
pedras. Ningum se importou, at que um soldado ordenou que os pequenos parassem e, com a
bainha de sua espada, aoitou o mendigo e o conduziu para longe do forte. Era uma figura
lamentvel. Com vestes longas e sujas, caminhava com dificuldade, escondendo o rosto em um
capuz escuro, A tnica velha parecia manchada de sangue fresco, que, calculei, escorria de uma
ferida aberta no ombro.
          tarde, antes de o sol se pr, caminhei at o centro da aldeia para investigar qualquer
pista acerca do mago Zamir. Flor do Leste me acompanhou at o meio do caminho, mas parou
em uma rea verde para recolher razes de um junpero.
         Parei em um local prximo  fortaleza, na sada da alameda de palmeiras, por onde,
obrigatoriamente, todas as caravanas passavam. Retirando a luva e a braadeira, ajoelhei-me
para rastear o solo. Olhei as pedrinhas no cho, a poeira e a areia dura do terreno, farejando,
tateando e escutando as mais delicadas vibraes. Analisei as impresses trmicas, mas havia
pegadas em todo o lugar, tornando impossvel uma concluso detalhada.
         Em determinado momento, pressenti que algum se aproximava  minha esquerda,
trazendo consigo um detestvel aroma de suor, sangue e imundice, Estiquei o pescoo, e l
estava o mendigo que, mais cedo, pedia esmolas  entrada do forte. Conservava a cabea baixa,
oculta por um capuz sombrio, e as mos enroladas em ataduras nojentas. Ao v-lo pela primeira
vez, supus que era leproso, mas agora j no tinha tanta certeza da natureza de sua enfermidade.
No cheirava como um doente, mas havia manchas de sangue em sua roupa. A princpio tenrei
ignor-lo, a fim de no interromper a concentrao, mas o moribundo me evocou.
         -- Sei o que est procurando -- murmurou. A voz era rouca, cansada.
         -- Sabe? -- devolvi, incrdulo.
         Ele se aproximou ainda mais.
         -- Procura pelo rastro do Feiticeiro do Deserto.
         Como aquele mendigo sabia sobre Zamir? E mesmo que tivesse visto seu comboio, que
tipo de conhecimento um pedinte teria sobre magia ou ocultismo? Surpreso, levantei-me e
caminhei ao seu encontro.
         -- Quem  voc?
         -- Por favor, no se aproxime. Quem sou ou quem fui no tem mais importncia.
Escolhi o anonimato, a mendicncia, a fome. Esta  minha maldio, assim como voc tem a
sua. Foi o meio que encontrei para me redimir dos meus pecados. Deve respeitar minha escolha.
         -- Mas voc ... -- estava sem palavras.
         -- Zamir, o Feiticeiro do Deserto -- continuou o pobreto --, vem vagando pelo
mundo e assassinando os mestres da magia, para roubar-lhes os segredos. Foi ele quem matou
Drakali-Toth, e agora, munido de suas artes msticas, dirige-se a Roma, para destruir a Feiticeira
de En-Dor.  uma poca negra para os magos, forasteiro, e voc deve correr para salvar sua
amiga.
         --  isso que venho tentando fazer -- retruquei, sem mais me importar com a
identidade do mendicante. -- Identifiquei o rastro do bruxo na manh passada.
         -- Eu sei. H seis semanas, o feiticeiro esteve neste povoado, carregado por escravos
em uma liteira de bano. Eles seguiro pela Rota da Seda e, na altura do deserto de Kavir,
descero para sul, onde pretendem encontrar as trilhas secretas babilnicas. Esse  tambm o
seu caminho, creio.
         --  a maneira mais rpida de chegar ao Egito.
         -- Decerto que , decerto que  -- sussurrou, quase se perdendo em lembranas
proibidas. -- Mas no se preocupe. Zamir viaja a p. Se a caravana dos gregos prosseguir nesse
ritmo, avanar um pouco a cada dia, reduzindo a vantagem do vingador babilnico. Se tudo
ocorrer conforme seus planos, voc chegar a Alexandria pouco depois do feiticeiro e aportar
na Itlia quase ao mesmo tempo que ele.
         -- Espero que esteja certo. Pelo bem de Shamira e de todos que esto na mira desse
assassino -- at ento, eu desconhecia o fato de Zamir ser o responsvel por aqueles crimes
pavorosos.
         -- Tem mais uma coisa. Talvez o invocador faa uma mgica para ocultar a entrada
para as rotas secretas. Se, quando ultrapassar as runas de Perspolis, tudo o que vir forem
dunas, aguarde o crepsculo e siga a estrela vespertina, sem dar ateno aos obstculos. Sem
demora ser lanado  trilha correia,
         Perplexo, olhei com fraternidade e compaixo para o sbio  minha frente, certo de que
minha piedade, no passado, assistida pelos conselhos de Shamira, havia enfim gerado um
soberano. No um soberano comum, detentor de um imprio magnfico, mas um mestre da
sabedoria, um profeta da verdade. O Rei Mendigo superara suas provaes e finalmente se
tornara to grande quanto um dia quisera ser.
         -- E voc, para onde vai agora? -- perguntei.
         Eu o ouvi sorrindo baixinho.
         -- Continuarei meu martrio, renegado. Continuarei a ser aoitado, apedrejado e
discriminado. Mas isso no me enfraquece. No tenho inveja dos ricos, dos generais, dos
imperadores, porque j estive no lugar deles, e esse foi o pior de meus castigos,
         Ao fim do discurso, o mendigo cabeceou um cumprimento, deu meia-volta e deixou o
povoado, para nunca mais regressar. Errou para o sul, sem sandlias, com os ps machucados,
raspando a sola contra a areia fervente. Enquanto sua figura caa no horizonte, sumindo em
carona com o sol poente, escutei o trotar de Ibn-Hatar, guiado pelo siciliano.
         -- No quis interromp-lo, companheiro, mas fiquei curioso para saber o que
conversava com aquele pedinte. Pelo modo como deliberavam, qualquer um diria que se
conhecem h anos.
         Achei a observao um tanto oportuna.
         --Tudo o que sei so lendas, Tommaso. Nas terras da Sumria, quando a civilizao era
jovem, contava-se que havia um rei imortal que governara o maior de todos os imprios da
terra. Era um reino degenerado, ptrido, odioso. O terrvel monarca obrigava seus escravos a
trabalhar at a morte, para erguer monumentos em seu nome. Um dia, um anjo renegado chegou
 capital procurando vingana e, com sua espada mstica, golpeou o soberano. O rei no morreu,
mas a ferida que carregava no podia mais ser curada, e ele foi condenado ao esquecimento.
Desde ento, o Rei Mendigo percorre o mundo como indigente, pagando pelo mal que fez a
seus sditos.
         -- Gostei da histria -- replicou o criado. -- Mas esse rei... Qual era o seu nome?
         -- Ele renegou o seu nome. Decidiu por vontade prpria abandon-lo, e com isso
deixou para trs toda a culpa que carregava.
         Tommaso suspirou e voltou a olhar na direo do mendigo, mas ele havia sumido.
         -- Venha -- convidou --, estamos comeando a preparar o jantar.
         Eu o acompanhei, com um pensamento a martelar o crebro. Isso acontece
frequentemente quando se vive demais -- no s ouvimos lendas, mas nos tornamos parte
delas.
         Eu sabia o nome do rei.
         Seu nome era Nimrod.


                           PERSPOLIS -- As DUNAS IRREAIS
        Com o fim do vero, o calor abrandou. Agora, mesmo nas horas mais quentes do dia, os
cavalos se cansavam menos, e nossa viagem seguiu calma, sem imprevistos.
        No incio do segundo ms do outono, a estrada estreitou-se entre duas esplndidas
manifestaes geogrficas. Ao sul, a cadeia de montanhas Kopet desenhava o horizonte, e ao
norte o terreno plano e arenoso acabava era um deserto de terra e sal -- o deserto de Kavir. As
montanhas Kopet so gigantescas elevaes rochosas, de pedras escuras e enrugadas, que
atualmente delimitam a fronteira entre o Ir e o Turcomenisto. Naquela poca, os picos
tambm traavam as bordas do reino -- povos nmades da estepe atuavam alm das
cordilheiras, estendendo seus territrios por todo o Cazaquisto, a Rssia e a Monglia. A partir
dali, o deserto nos aguardava. Sete meses aps termos partido de Turfan, deixaramos a Rota da
Seda, rumo ao sul. A trilha secreta comeava somente a oeste de Perspolis., e isso significava
que ainda teramos de vencer todo o planalto do Ir para alcan-la. Esse, portanto, seria o
perodo mais crtico da viagem, uma vez que no teramos picadas a seguir. Ns nos
movimentaramos tendo como guia apenas o mapa e as estrelas, mas felizmente eu conhecia
relativamente bem o caminho. Mesmo assim, as chances de nos perdermos eram considerveis.
         No foi o que aconteceu. Com a cooperao de todos, levamos dois meses para cruzar a
Partia. Evitamos bandidos, soldados, terrenos difceis e ainda tivemos tempo para contar
histrias ao p da fogueira e nos deliciar com jantares saborosos, preparados por Flor do Leste.
Nas horas vagas, continuei a dar aulas de grego  menina, que j conseguia escrever frases
completas. Concentrado na guarda, desisti de rastrear Zamir e sua comitiva -- o mendigo
revelara-me o caminho do bruxo, e conclu que cedo ou tarde passaramos  sua dianteira.
         Minha relao com os gregos melhorou, especialmente com Plix, que inicialmente
temia que eu os levasse para uma armadilha. Em vez disso, conduzi sabiamente o comboio pelas
plancies iranianas, e o rapaz passou a me respeitar como guia.
         Em uma fria manh de dezembro, no incio do inverno do ano l, divisamos ao leste o
triste e sombrio esqueleto da antiga capitai dos persas, Perspolis, devastada por Alexandre, o
Grande, no sculo IV a.C. Daquele ponto em diante, somente duas horas nos separavam da
entrada da via secreta babilnica.
         A oeste de Perspolis, o solo era plano e seco, e a vegetao de palmeiras completava o
cenrio. O mapa trazido pelos gregos era muito preciso e no indicava nenhuma mudana no
ambiente. Todavia, ao continuarmos rumo ao sul, deparamo-nos com um inesperado obstculo.
         -- Um deserto de dunas? -- estranhou Plix, protegendo os olhos com a mo sobre a
testa. -- O que fazem essas colinas no meio do planalto persa?
         Uma inoportuna faixa de areia fina formava uma meia-lua  nossa frente, cercando sul,
leste e oeste com quilmetros de terra fofa, intransponvel a qualquer veculo sobre rodas.
         Tales conferiu o mapa.
         -- Essa formao no consta em nossos registros, e nunca ouvi nada a respeito. No me
parece simplesmente uma rea de areia acumulada, trazida pelo vento, mas pela extenso eu
diria que  um verdadeiro deserto, vasto e perigoso.
         No era nem uma coisa nem outra. A imensido misteriosa no s era artificial, como
guardava em si algo de mstico. Os humanos podiam no notar, mas meus sentidos me
revelavam que todo aquele lugar estava sob efeito de um poderoso feitio. O barulho do vento
era irreal, o cheiro da areia no existia, e a imagem projetada no passava de um simulacro aos
olhos de um querubim.
         -- Voc j caminhou por estas terras, brbaro! -- exclamou o jovem grego. -- Onde
esto as trilhas secretas que nos prometeu?
         Voltei a ateno  caravana.
         --Aparecero no incio da noite. A estrela vespertina nos indicar o caminho.
         --  algum tipo de truque?
         -- No, nada de truques. Eu conheo a direo, ou pelo menos sei como identific-la.
         Tales interferiu:
         -- O brbaro nos guiou sabiamente at aqui, filho. Vamos confiar nele um pouco mais.
         O rapaz respondeu olhando para mim:
         -- Eu no disse que no confiava. S no consigo compreender a lgica dessa situao.
         -- No estamos perdidos -- expliquei. -- A apario das colinas de areia prova isso.
Elas escondem a entrada da via secreta. Mas teremos de esperar at o crepsculo para encontrar
a passagem.
         -- Se teremos que esperar, ento  melhor descansar e comer alguma coisa -- decidiu o
velho Tales, caminhando at o cargueiro.
         Plix ps de lado as rdeas da carroa e analisou os detalhes do mapa.
         -- No pode ser. No h nenhum deserto por aqui.
         Ele estava certo.
                                 No TNEL DOS MORTOS

        A estrela vespertina, tambm reconhecida como o planeta Vnus, despontou nos
primeiros minutos do crepsculo, reluzindo intensamente no leste.
        -- Vejam! -- apontou Plix. -- Ali est a estrela prateada, a mais brilhante do cu. Mas
ainda no vejo a entrada para a via secreta -- era uma indireta.
        -- Nem a ver, Plix -- endureci, oferecendo-lhe uma tira comprida de pano. Ele
segurou o objeto sem entender.
        -- Para que isso?
        -- Coloque-a sobre os olhos.
        -- Como espera que eu guie a caravana de olhos vendados, brbaro?
        Tales, Tommaso e Flor do Leste observavam, impassveis, a discusso.
        -- Amarraremos uma carroa  outra, e os camelos ao ltimo dos carros. Conduzirei o
primeiro transporte. Quanto a voc, no deve observar a passagem -- olhei para os outros. --
Nenhum de vocs deve.
        O jovem grego cabeceou uma negativa. Estava irredutvel, e de tudo faria para rechaar
um comando, a seu ver, to absurdo. Ao lado dele, o velho j ajustava a faixa, e Tommaso fazia
o mesmo na carroa dos criados. Flor do Leste, calada, organizava as ervas na mochila.
        -- Mas para que tudo isso, forasteiro? Para que esse mistrio? Pede para que confiemos
em voc, mas ao mesmo tempo nos aparece com uma idia estpida.
        -- H coisas neste mundo para as quais seus olhos no esto preparados. A razo, a
sanidade e a conscincia so riquezas inestimveis de um homem. No queira perd-las, rapaz.
        -- Por qu? -- interpelou, frentico. Ele no daria o brao a torcer. -- O que h de to
tenebroso que nossos olhos no podem suportar? O que o faz diferente de ns?
        Tales, com a pacincia j por um fio, explodiu em uma chuva de injrias:
        -- Faa o que ele manda! Basta de desobedincia!
        Plix estremeceu, assustado com a sbita inflamao do pai, mas no se intimidou por
completo.
        -- Desculpe-me, mas tudo que estou fazendo  zelar pela segurana da caravana. O
senhor mesmo me disse que...
        -- Cale-se! Se tivesse realmente entendido o que eu disse, no estaria se comportando
como uma criana. Ponha a venda e fique quieto.
        O rosto do velho inchara, um indicativo bvio de que perdera totalmente o controle.
No sei o que o levara a tanto. Talvez pensasse que as harpias estivessem alm das colinas,
esperando para mat-lo.
        Contrariado, o jovem grego enfim se dobrou  repreenso c cobriu os olhos com o
pedao de lona. No guardei nenhuma mgoa pelo acontecido. Em seu lugar, teria feito o
mesmo. De fato, Plix e eu ramos mais parecidos do que eu imaginara a princpio.
        Para mim estava claro, desde o incio, que o deserto adiante era uma iluso
fantasmagrica, lanada para confundir os passantes. A imagem fora produzida por um feitio.
O bruxo Zamir passara por ali, sem dvida, e, como o Rei Mendigo havia suposto, pusera uma
magia para ocultar a entrada da trilha. Assim, poucos se aventurariam pelo caminho, e mesmo
aqueles que o fizessem no encontrariam a passagem, a no ser que tomassem a direo correta
de Vsper.
        A deciso de vendar os humanos era calculada. Qual seria o impacto que aquelas
mentes despreparadas sofreriam ao contemplar um evento to inacreditvel? A simples viso da
passagem ilusria poderia causar um dano to profundo  razo deles que talvez fossem
acometidos pela loucura. E verdade que os magos e feiticeiros, que manipulam a magia
diariamente, tambm so humanos, porm exercitam suas habilidades gradualmente e aos
poucos aprendem a aceitar a realidade do impossvel. Mas para alguns, como Plix, que
estavam muito ligados ao mundo natural, uma revelao como aquela poderia inutilizar-lhes a
mente e roubar-lhes a sanidade.
         Quando avancei, juntamente com o comboio, por entre as colinas espectrais, a subida de
terra que levava ao topo da duna simplesmente desapareceu, e entramos no corao da imagem
ilusria criada por Zamir. Uma ventania fantasmagrica sacudiu as carroas, acompanhada por
uma srie de gritos e murmrios esganiados. Sombras tenebrosas surgiram  nossa volta,
danando em rodas frenticas. Eram espritos atormentados, que haviam sido capturados por um
ritual mgico.
         Alguns feitios, como esse magnfico encantamento de iluso, necessitam ser
constantemente alimentados por infuses de energia. Para obt-la, alguns bruxos capturam
espritos errantes, sugam suas foras e assim garantem a preservao de seus encantos. Os
fantasmas aprisionados so quase sempre criaturas confusas, o que os torna alvos fceis para os
necromantes.
         -- O que est acontecendo? -- demandou Plix, com um berro amedrontado. O rudo
das sombras era to intenso que quase no-consegui escut-lo.
         -- Sente-se, feche os olhos e tape os ouvidos -- ordenei. -- No se mova at escutar o
meu sinal.
         -- No! Quero saber o que se passa. Eu exijo saber!
         -- Faa o que mando, garoto, ou ento esta pode ser sua ltima noite de conscincia.
         -- No aceito isso! No aceito isso -- insurgiu-se o jovem. Quanto mais berrava, mais
sua voz ia se perdendo no frenesi espectral. Em sua excitao juvenil, Plix no se conteve e
arrancou a tira de lona que protegia seus olhos.
         No sei, e nunca procurei saber, o que se passou na mente do helnico naquela hora. A
viso de uma cena to macabra levou seu crebro a colapso e, inconscientemente, ele se atirou
ao cho, tremendo. Recolheu-se  posio fetal, gemendo e chorando. O corpo tambm
respondeu, relaxando o intestino e desprendendo fezes e urina em uma poa fedorenra.
         Puxando as rdeas de Ibn-Hatar e prendendo bem os ps nos estribos, retrocedi e
emparelhei o corcel aos flancos da segunda carroa, detendo-me ao adentrar o stio onde o
grego jazia. No poderamos ficar mais tempo ali, absolutamente. Precisvamos escapar logo
daquele furaco mstico, antes que Plix se afundasse para sempre no abismo da loucura.
         Com a mo esquerda segurei firme o pescoo do alazo, agachei-me e com a mo
direita agarrei com toda a fora o brao do rapaz, puxando-o para mim. Pressionando-lhe a nuca
para baixo e dedilhando um ponto-chave sobre o pescoo, afetei uma de suas zonas vitais,
acalmando assim as convulses, A manipulao dos pontos vitais era uma tcnica marcial
conhecida pelos querubins, mas que tambm poderia ser til  medicina. Um segundo depois,
Plix adormeceu, permitindo que eu retomasse o controle do comboio.
         Os fantasmas continuaram a danar e a silvar, mas a ventania foi aos poucos se
acalmando. Estvamos agora prximos  sada -- e prximos  entrada da trilha. A rea afetada
pelo encantamento era curta, mas o horror dos monstros espectrais alongava a percepo da
jornada.
         Enxerguei uma luz prateada, uma ponta de esperana no meio do caos. Era a lua que
brilhava no cu, sinal de que estvamos deixando o tnel dos mortos.
         De repente, a iluso terminou. Os fantasmas sumiram, levando consigo suas rajadas de
pavor. Ibn-Hatar bateu com os cascos no cho, e observei o espao ao meu redor. Estvamos em
um largo, uma rea circular de trinta metros de dimetro, de solo duro e seco, que se afunilava
em uma trilha rida, quase infinita. O caminho ia para o sul at onde a vista alcanava e depois
virava a oeste, na direo da Mesopotmia.
         Para conservar-se oculta em toda sua extenso, a rota secreta afundava-se a trs metros
do solo, de modo que os andarilhos e mercadores, ao longe, no perceberiam a passagem dos
viajantes. Dos dois lados da estrada, barrancos de barro rgido, que se encolhiam para dentro em
forma de muro, funcionavam como barreiras para impedir o escoamento da areia de fora para
dentro da via. Tratava-se, portanto, de um tipo de vala, larga e profunda.
         -- J chegamos? -- algum perguntou. Era Tommaso.
         -- J podem tirar a venda -- anunciei.
         Saltei do cavalo e estiquei no cho o corpo inerte de Plix, ainda adormecido. Analisei
seus batimentos cardacos, a consistncia da pele e a mobilidade dos ossos. Fisicamente, ele
nada sofrera.
         -- Ele est bem? -- perguntou o pai, correndo ao encontro do filho.
         -- Ele ficar bem, eu acho. Sofreu um impacto emocional muito forte, uma experincia
que pode marc-lo por toda a vida.
         Tales amparou a cabea do rapaz com uma das mos, e com a outra verificou sua
temperatura. Tristonho, projetou o olhar perdido em algum ponto da face juvenil. Flor do Leste
ajoelhou-se a seu lado e deitou um pano molhado na testa do jovem grego.
         O velho devolveu o filho ao cho, confiando-o aos indispensveis cuidados da menina
chinesa. Levantou-se e contemplou toda a rea, ao brilho noturno da lua.  esquerda,
desenhava-se um recuo no barranco, e dentro dele havia uma esttua de pedra. A obra, em
tamanho real, fora castigada pelo tempo, mas ainda era possvel distinguir as inconfundveis
feies do rei Nimrod.
         -- Voc  um enviado dos deuses, no ? -- perguntou Tales, austero, voltando-se a
mim. -- Tudo isso que est acontecendo... Voc  o arauto que veio anunciar minha morte.
         Eu sabia que seria difcil convenc-lo do contrrio, especialmente depois daquele
evento fantstico.
         -- No sou nada disso, Tales. Nada tenho a ver com deuses e no participo de nenhuma
profecia. Mas sei, e agora voc tambm sabe, que existem muitas verdades alm da realidade
mundana. Essas trilhas foram construdas h muito tempo, por homens sob as ordens de um
bruxo. E  de esperar que a mesma bruxaria esteja sendo usada para ocultar sua entrada.
         -- Bruxaria?
         -- No se impressione. A grande maioria das pessoas jamais entrar em contato com
esses fenmenos. A cada dia, os seres humanos se apegam mais ao mundo material, esquecendo
seus instintos. Foi por isso que os animais no se assustaram. Para eles, nada  impossvel. Mas
Plix no estava preparado para o que viu. No foi  toa que pedi que colocassem a venda.
         Ele no disse nada. Tommaso escutava a conversa em um canto.
         -- O caminho  seguro -- enfatizei --, e seu filho ficar bem. No sou adivinho, mas
arriscarei algumas previses. No veremos mais patrulhas, obstculos ou ladres. Em dois
meses chegaremos sos e salvos a Alexandria. Garanto que no teremos mais contratempos.
         -- Ento o orculo estava errado? Estava errado quanto  sua pessoa?
         Ao v-lo suplicar uma resposta direta, pensei em esclarec-lo sobre a inexistncia das
harpias. Mas, se fizesse isso, ele saberia que eu havia escutado sua conversa com Plix, na tenda
em Turfan, e comearia a se perguntar que tipo de poderes especiais eu tinha. Portanto, decidi
lanar uma resposta ambgua:
         --  possvel que voc o tenha interpretado erroneamente. As palavras do orculo no
devem ser levadas ao p da letra.
         --  possvel... -- murmurou, retornando  carroa. --  possvel.
         Depois disso, Tales no tocou mais no assunto e no fez mais perguntas sobre fantasmas
e feitiaria. No creio que se satisfizera com as respostas daquela noite, mas imagino que tenha,
por livre vontade, escolhido a ignorncia.
         E quanto a Flor do Leste? Ser que tambm havia optado pela ignorncia?
         A resposta ela soube por acidente naquela mesma noite. Em minha nsia de convencer
Plix a usar a venda, esquecera-me de entregar uma delas  menina.
         Quieta, ela observara tudo.


                                      A VIA SECRETA

       Como j haviam descansado  tarde, Tales e Tommaso aceitaram meu conselho e
seguimos viagem por mais uma hora, para chegarmos o quanto antes  fonte de gua adiante. J
totalmente recuperado dos ferimentos no brao, eu no necessitava mais de alimento ou
descanso e continuei a encabear a caravana. As chances de nos perdermos, entretanto, eram
praticamente nulas -- a rota era nica, seguia em uma s direo, e por um bom pedao no
veramos nenhuma bifurcao.
         No precisei nem mesmo desmontar para notar no cho as marcas da passagem de
Zamir e seu squito. No havia pegadas, porque o solo era muito duro, mas as impresses
trmicas indicavam com clareza o percurso do mago, que era, em sntese, o mesmo que o nosso.
Ele seguia na direo sul e depois viraria a oeste, adentrando os antigos territrios babilnicos.
Se os clculos do Rei Mendigo estivessem correios, eu no precisava mais me preocupar em
correr alm da conta para alcanar o feiticeiro. Mantendo o ritmo constante, acabaria por
alcanar o assassino em Roma, antes que ele pusesse em prtica seu plano diablico.
         Tranquilizei-me.
         O frio da noite engoliu o deserto, mas o vento cortante no nos molestava, justamente
porque a trilha fora construda abaixo do nvel do solo. Uma idia maravilhosa, sem dvida, que
s poderia ter sido idealizada por uma mente genial. Era triste pensar, porm, que o engenheiro
daquelas rotas, Zamir, era agora meu adversrio.
         Quando estvamos a poucos metros do marco da fonte de gua, a carroa dos gregos,
que vinha atrs, parou, e Tales anunciou em voz alta:
         -- Brbaro! Venha at aqui. Acho que Plix acordou.
         No interior da carroa dos proprietrios, Flor do Leste oferecia um copo com gua e
ervas ao rapaz. O jovem j abrira os olhos, mas parecia ainda imerso em um mundo distante.
Sentado, com as pernas cruzadas, encarava o cho, alheio a tudo  sua volta. No respondia aos
chamados, no aceitava nem recusava comandos, no reconhecia pessoas ou objetos. Estava
completamente caduco, e comecei a questionar meu diagnstico inicial. Tales o cutucou duas
vezes, mas depois desistiu, tentando no demonstrar nenhum sentimento ao ver o filho afundado
naquela maluquice,
         Como no podia falar, Flor do Leste escreveu um bilhete para mim em um pedao de
lona, dizendo que no sabia bem como ajud-lo, mas acreditava que tudo o que ele precisava era
de tempo e descanso. No tnhamos mais o que fazer em seu auxlio, a no ser obrig-lo a
comer e beber enquanto permanecesse em estado de apatia.
         -- E ento -- disse o velho --, voc arriscaria um palpite?
         Como no tinha muita certeza, preferi ser otimista.
         -- Ele despertou, e isso  um bom sinal. Sua mente deve estar lutando agora. Lutando
para entender o que viu, para digerir aquilo pelo que passou. Muitos dos que sobrevivem a essas
experincias costumam voltar logo  razo, porque simplesmente desistem de compreender os
eventos testemunhados. Mas sabemos que Plix no  do tipo que desiste fcil -- fiz soar como
um elogio, mas o pai no se impressionou.
         -- Esperemos que os deuses o ajudem nesta batalha.
         Ele depositava sua esperana nas foras supremas.
         -- Toda ajuda  bem-vinda -- concordei, retornando ao cavalo e retomando o comando
da caravana.
         Sob a luz brilhante da lua cheia, viajamos por mais dez ou quinze minutos, e ento
avistei uma concavidade no barranco -- uma espcie de lapa, que se ampliava em uma caverna
pequena. Dentro dela, uma fonte nascia do cho, desenhando um lago minsculo, quase uma
poa, onde tomamos banho -- apesar do frio -- e de onde recolhemos toda a gua necessria
at a prxima abertura. Paramos por ali, estacionamos os carros, prendemos os animais e
levantamos acampamento.
         A via fora abandonada aps a destruio de Babel, mas conservara-se preservada desde
ento. Alm das fontes em intervalos regulares, um tipo de erva rasteira, chamada pelos antigos
de p-da-estrada, crescia na base do barranco. Era uma planta muito resistente, e suas folhas
eram ricas em vitaminas e minerais. O gosto parecia detestvel, mas suas propriedades
nutritivas eram suficientes para garantir a sobrevivncia de um homem por um largo perodo de
tempo.
         Quando os gregos, Flor do Leste e Tommaso se recolheram, escalei o barranco de trs
metros e saltei para fora da trilha, para observar o deserto de perto. As plancies de rocha, bem
visveis ao reflexo prateado da lua, lembraram-me as terras brbaras dos Yu-chi, mas sem as
altas montanhas e as colinas rochosas que to bem caracterizavam o terreno afego.
Instintivamente, olhei para cima, e lembranas dolorosas me atacaram.
         Fogo no cu. O sangue que queimava como leo. Um clangor de metal. Espadas.
Lminas que se chocavam. Gritos de combate. Calor. dio. O corao que clamava por justia.
E o cho desmoronando sob nossos ps, uma fora terrvel que nos dragava para baixo, nos
puxava para fora, ferindo-nos.
         Em seguida, as estrelas. O espao. O frio. Uma exploso nebulosa.
         Caamos, despencvamos e no conseguamos mais voar.
         Abandonados. Expulsos. Renegados.
         A matria sucedeu-se ao abismo. A terra. A areia que grudava na pele. As asas
manchadas de sangue. A vergonha que se transformara em vingana.
         Era a expulso dos anjos renegados. Eram minhas lembranas, minhas ltimas e mais
profundas recordaes da insurreio e de nossa posterior chegada ao mundo dos homens.
         Acontecera ali, naquelas mesmas plancies, chamadas outrora de Terra de Nod, havia
2.500 anos. O deserto fora nosso ponto de partida. A Haled, nossa priso.
         Desconsolados e perseguidos, os anjos renegados caminharam juntos para oeste,
escapando de seus algozes, at encontrar a cidade devastada de Enoque, submersa nas entranhas
do mundo desde o dilvio que a liquidara.
         Rancorosos e vingativos, os espritos de seus habitantes, que ainda vagavam pelos
escombros da metrpole afundada, aceitaram-nos em seu refgio. Reconheceram-nos como
inimigos dos arcanjos e, com sua energia astral, levantaram uma cobertura mstica, que ocultou
as emanaes de nossa aura pulsante. Naquele lugar, naquela cidade perdida, no seramos
descobertos e teramos o tempo necessrio para planejar nossa entrada na sociedade mortal.
Aprendemos a ocultar nossas vibraes e decidimos no desprender mais as asas, a fim de nos
confundirmos com os humanos. As inscries, as obras de arte e os documentos antigos nos
ensinaram tudo de que precisvamos saber sobre a natureza terrena. Aprendemos a ler e a falar
o idioma de Enoque, que formou as bases para todas as lnguas da terra.
         Enoque foi nosso santurio, o primeiro e ltimo refugio da Irmandade dos Renegados, o
lugar onde aquele formidvel grupo de guerreiros se reuniu pela ltima vez. Foi no tmulo dos
homens que deixamos nossa divindade. Foi ali que abandonamos nossa glria.
         Enoque, a Primeira e Ultima.
         Em dois ou trs dias, a caravana passaria perto da gruta que conduzia  metrpole
subterrnea. A emoo e a nostalgia daqueles dias me chamavam de volta ao ponto onde tudo
comeara. Foram tempos difceis, mas ao menos estvamos juntos, os dezoito anjos renegados.
         Enoque, a Primeira e Ultima.


                                 VISITA  TERRA DE NOD

         A regio de Nod, cuja capital era Enoque, foi a maior das naes humanas antes do
dilvio, ao lado da memorvel Atlntida. O deserto que a circundava -- o mesmo em que
havamos acabado de entrar -- compunha-se de um solo rochoso, escuro, formado por um tipo
singular de rocha vulcnica. Esse terreno, que outrora se fazia uniforme, sofrera com a fora das
guas do cataclismo, acabando por se tornar uma vasta plancie de estilhaos de rocha. A areia,
trazida pelo vento ao longo de milhares de anos, acumulava-se em pequenas crateras,
concebendo curiosas "piscinas de terra", apelidadas pelos rabes de Hin-Kaban, Caldeiro de
Pedra. Os relatos dos cananeus, que se referiam a Nod como "um pas distante, assombrado, de
solo negro e devastado", podem ter se originado da. Certamente, se os cananeus alguma vez se
aventuraram por aquelas bandas, identificaram-nas como alvo de uma extraordinria
devastao.
         Logo no dia seguinte  entrada na via oculta, Plix melhorara sensivelmente, porm
continuava aptico. J comia, dormia e caminhava por iniciativa prpria, mas todas as nossas
tentativas de comunicao resultaram frustradas. O rapaz emudecera completamente e passava
as manhas na boleia da carroa, de olhos abertos, mas inexpressivos.  noite, fitava as estrelas
at adormecer.
         Ao entardecer, um alto morro de rocha negra despontou no leste, e pelo ngulo lateral
foi fcil divisar seu topo. Instintivamente, parei onde estava, apertando as rdeas de Ibn-Hatar.
Tommaso e o primeiro carro ainda estavam distantes, e ningum notou, a princpio, que eu
travara o corcel.
         Quando as guas do dilvio baixaram, Amael, o Senhor dos Vulces, fez surgir do solo
de Nod um terrvel jorro de magma, uma majestosa exploso de lava que desceu sobre as j
destronadas fundaes de Enoque. Os detritos da erupo soterraram os escombros, sepultando
a cidade para sempre sob uma colina funesta. O acaso, contudo, foi generoso em sua arquitetura.
Ainda havia oxignio nos nveis inferiores quando os dejetos vulcnicos encerraram o buraco.
Os gases das profundezas pularam para fora, abrindo caminho com velocidade e fora
devastadoras. Esses caminhos desenharam uma srie de passagens que, uma vez solidificado o
magma, formaram tneis entre as runas e o mundo exterior. O principal tnel para o ventre de
Enoque descansa abaixo do morro negro, ao fim de uma gruta onde os renegados, h muito
tempo, buscaram abrigo em uma noite de tempestade.
         O morro. A gruta. O tnel. Era como se os anos no tivessem passado.
         Enoque, a Primeira e Ultima.
         Eu precisava voltar  cidade amaldioada, nem que fosse somente para ter certeza de
que no precisaria ter voltado.


        -- Vou me ausentar do acampamento esta noite -- revelei.
        Tales me olhou confuso, sem saber o que dizer. A noite j tinha chegado, e Flor do
Leste preparava o jantar, enquanto Tommaso alimentava a fogueira.
        --Tem certeza de que isso  absolutamente necessrio? -- questionou o velho, fixando
no cho, com um martelo grande, os pregos que esticariam a tenda. -- Sabe que precisamos de
voc aqui.
        -- No precisam. No precisam mais -- retruquei, ao mesmo tempo em que ajustava os
estribos de Ibn-Hatar. -- A trilha continua segura e imutvel at a pennsula do Sinai. Tudo o
que h  frente so algumas bifurcaes e recuos de estrada, braos que partem da via principal.
No h como se perderem.
        -- Por que est me dizendo isso? -- perguntou, pondo o grande martelo de lado. -- H
algum risco que dificulte seu retorno?
        -- No creio. Na verdade, espero estar de volta antes do alvorecer -- e montei no
cavalo. -- Mesmo assim, no h mal algum que o chefe da caravana conhea as coordenadas.
No h erro -- reforcei. -- Basta seguir a rota na direco oeste. Se eu no voltar at o fim do
desjejum de amanha, vocs devem prosseguir viagem.
        -- E se voc sofrer algum atraso?
        Um vento encanado ameaou apagar a fogueira, mas Tommaso enfiou mais lenha por
baixo do fogo. A temperatura esfriara bastante, obrigando os viajantes a vestir grossas mantas
de l.
        -- A eu alcanarei vocs adiante. A cavalo ser fcil recuperar a dianteira. Mas no
acho que haver atraso algum.
        Tales sentou-se em uma pedra e esticou as costas. Sem a ajuda de Plx, o trabalho
braal de montar a barraca dobrara, e Tommaso no podia dar conta de tudo sozinho.
        -- Est bem. Vamos esper-lo por uma hora aps o nascer do sol.
        -- Mantenha um turno regular de guarda, embora eu duvide que algum venha
embosc-los. Mesmo assim, eu diria que a viglia  necessria -- completei, ao me recordar das
artimanhas perpetradas pelo odioso Zamir.
        -- Ser feita.
        Liberei as rdeas do corcel, entregando o animal ao trote. A trilha era ladeada por
barrancos eretos, fceis de escalar, mas intransponveis aos carros e animais. Por isso, os
babilnicos abriram, a cada cinco quilmetros, sulcos nos barrancos, por onde os animais
podiam deixar a estrada oculta. A fenda mais prxima ficava a duzentos metros -- subia
gradualmente por dentro da terra, fazia uma curva e terminava na plancie escura de Nod.
        -- Ibn-Hatar, est vendo aquele morro, a colina negra? -- soprei, inclinando-me ao
ouvido do animal, -- lemos de alcan-lo bem rpido, ou ento no estaremos de volta ao raiar
do dia. Corra, pule, avance. Invista. Hoje, o vento nos indicar o passado.
        Enoque, a Primeira e Ultima.
        Cavalgar por aquelas terras era como dar um salto de volta no tempo.


                              A CIDADE DOS AMALDIOADOS

         Enoque, a Primeira e ltima.
         A colina negra erguia-se diante de mim, silenciosa, aguardando meu assalto. Do lado de
fora, eu a encarava, austero, determinado e um pouco eufrico.
         Deixei Ibn-Hatar livre nas plancies. Assim, se eu no aparecesse at o nascer do dia,
ele poderia voltar sozinho  caravana.
         Furtivo, adentrei a Gruta dos Afogados, nome dado por ns, renegados,  caverna que
se abria em forma de tnel e conduzia s fundaes da terra. O grande salo natural, desenhado
pela fora da atividade vulcnica, era um lugar sufocante, apesar da amplitude. Um rudo
constante inundava a galeria, sob a forma de um nico lamento de desespero. Era o som
ofegante dos condenados, o eco dos fantasmas de Enoque, que pereceram afogados durante a
grande inundao e ainda tentavam, em vo, deixar as galerias submersas.
         O tnel ao fim da caverna estreitava-se ao dimetro de dois metros e descia em caracol
por alguns quilmetros, penetrando fiindo no corao da terra. No princpio, a luz da lua
continuava brilhando, mas,  medida que a passagem avanava, a penumbra ia sendo
sobrepujada pela escurido total -- era um tipo de negritude abissal, que s existe no interior do
mundo. Dali para frente eu confiaria apenas em meu tato apurado, que me permitiria perceber as
manchas de calor que emanavam  minha volta.
         Aps uma longa descida, o tnel abria-se no glorioso Caminho da Eternidade, um
corredor muito largo, ladeado por altos muros e separado em duas pistas por uma extensa fileira
de colunas, chamadas Pilares da Histria. Nelas, milhares de caracteres contavam a histria da
linhagem dos reis de Enoque, comeando por Caim e terminando em Lemk. A catstrofe
arquitetara um teto cavernoso no corredor, irregular e oblquo.
         Alm do Caminho da Eternidade estava a Porta do Sol, um porto de quinze metros, de
umbral inclinado para dentro e recortado na estrutura do muro principal da cidade. Sobre ele
ainda era visvel o desenho de uma rvore de folhas fartas -- a rvore do Conhecimento, uma
referncia simblica ao antecessor de toda a espcie humana, Ado.
         O rudo ofegante dos fantasmas aumentava naquele trecho, porque era para l que todos
os espectros se dirigiam -- para a sada da cidade. Todos que, como eu, podiam enxergar o
plano astral veriam, alm do tecido da realidade, uma nuvem espectral que se movia,
tremulante, pelo Caminho da Eternidade e em seguida rumava de volta  Porta do Sol.
         Atravs da grande porta, uma avenida larga, contornada por prdios de pedra em runas,
fora, quando Lemk ainda vivia, o acesso ao palcio real. Pisei com cuidado sobre o cho
instvel de rocha, cheio de buracos abertos no calamento. Algumas daquelas fossas eram to
profundas que chegavam ao ncleo fervente do planeta, e um homem levaria dias em queda
livre antes de ser detido. Resqucios quase indistinguveis de esqueletos humanos, reduzidos a
montculos de p grosso, figuravam em toda parte -- espalhados pelo cho, aglomerados nos
montes de entulhos e empilhados nos edifcios.
         A caminhada pela extensa avenida era o ponto mais obscuro de minha jornada. Tudo 
minha volta era composto do mesmo material, o que prejudicava a percepo dos diferentes
espectros de calor. As manchas acinzentadas, uniformes a cada passo, acusavam a existncia da
rocha vulcnica por todos os lados. Foi ento que,  metade da travessia, surgiram, no cho,
pontos alaranjados. Apressei-me a investigar, mas no foi preciso tocar o lquido para descobrir
que era uma trilha de sangue. Ainda frescos, os pingos seguiam rentes pela abertura, que ao fim
passava da escurido  penumbra, delatando a existncia de uma fonte de luz nos corredores
adiante.
         Espalhei uma gota de sangue na superfcie do indicador e o levei  ponta da lngua. Ao
paladar de qualquer fragmento de rgo, pele ou secreo, um anjo guerreiro  capaz de
descobrir a identidade da presa, contanto que j tenha memorizado seu cheiro, como fazem os
ces farejadores.
         Eu conhecia aquele sangue! Mas como era possvel?
         Minha mente estreitou-se, buscando um objetivo. A Sala dos Heris!
         O ponto final da passagem terminava em uma greta vertical, cuja fissura se abria 
parede de um dos muitos corredores do palcio real.


         A Sala dos Heris era uma cmara vasta, circular, de teto ogival, fracamente iluminada
por uma grande fogueira que ardia bem no meio do salo, ao centro de uma mesa redonda de
pedra, trabalhada para abrigar vinte assentos -- um para cada ancio das famlias antigas e mais
dois para o rei e a rainha. As paredes, tambm de pedra, no estavam divididas em sees ou
blocos, porque toda a sala fora esculpida a partir de um nico e colossal fragmento de rocha.
Suas paredes, por isso, eram indestrutveis e conservaram o recinto intacto mesmo durante os
horrores do dilvio. Encostadas nas paredes, havia dez grandes esttuas de vinte metros de
altura, retratando os famosos heris que pereceram durante as Guerras Mediterrneas, uma srie
de conflitos entre Enoque e Atlntida, que culminou com a vitria dessa ltima.
         Entrei na Sala dos Heris, e minhas pupilas se contraram  viso das chamas. Do outro
lado da mesa, sentada diante do fogo, uma sombra negra, corpulenta, apoiava-se, ferida, 
superfcie da tvola. Tinha asas de anjo, enormes asas brancas rajadas de sangue.
         Hazai -- esse era o seu nome --, o grande capito dos renegados. Um guerreiro forte,
habilidoso, de pele negra e longos cabelos crespos. Segundo em comando, Hazai ajudara-me a
organizar todas as fases da conjurao, que acabou com nossa expulso dos Sete Cus. Em seus
tempos ureos, fora ele que, por muitas vezes, comandara minha legio em batalha -- era o
nico a quem eu confiaria minhas tropas. Quando os renegados decidiram se separar, Hazai
errou para o Egito, ao passo que fui para a Babilnia, e Ishtar, para Ur, na Caldeia. Outros foram
para o Oriente, alguns preferiram atravessar o oceano, e tambm houve aqueles que seguiram
para as geleiras ao norte.
         O sangue que eu encontrara no tnel era mesmo dele, de um anjo renegado, e foi por
isso que no pude sentir sua presena ao me aproximar pelos escombros -- Hazai aprendera,
como eu, a ocultar as emanaes de sua aura pulsante. Mas, infelizmente, isso no fora
suficiente para salv-lo. O capito descansava  minha frente, ferido, s portas da morte, de
cabea baixa sobre a pedra, ainda segurando firme o cabo de sua espada mstica. As asas
dobravam-se para dentro, como que protegendo o corpo injuriado. Ele no percebera minha
entrada nem sequer se movera, mas eu podia ouvir sua respirao e as batidas lentas de seu
corao, por isso sabia que estava vivo.
         Aproximei-me devagar, meio tristonho, meio revoltado e tambm um pouco surpreso.
Nunca pensara que minha impulsiva visita a Enoque traria revelaes to surpreendentes. Que
tipo de fatalidade nos unira de novo, capito e general, justamente naquele lugar onde a morte e
o sofrimento estavam em todo canto?
         Ajoelhei-me a seu lado e deitei a mo sobre seu ombro largo. As asas marcadas se
expandiram, e Hazai levantou lentamente a cabea, desnorteado pela dor. Tinha inmeros cortes
no rosto e um dos olhos estava inchado, em virtude, certamente, de uma pancada muito forte.
         -- Hazai... -- sussurrei com delicadeza.
         Ele no tinha foras para reagir euforicamente  minha presena, ento esboou um
tmido sorriso. Era o mximo que podia fazer.
         -- General, voc voltou. Minha misso est cumprida.
         Eu no tinha noo do que ele estava falando, mas deduzi, em um primeiro momento,
que delirava.
         -- Hazai, o que aconteceu?
         -- O que vem acontecendo com todos ns, meu senhor. Eles me acharam. Pensei que
poderia... -- ele parou e cuspiu um pouco de sangue. -- Imaginei que seria capaz de viver para
sempre, escondido, mas eles sabem de tudo. Conseguiram descobrir meu rastro.
         -- Quem? Quem foi seu caador?
         -- As rapinas. Foram as rapinas, por ordem direta de Miguel.
         As rapinas. Eu as conhecia bem, pois sua fama era magnfica. Principais servidoras do
arcanjo Miguel para caa e assassinato, as rapinas eram duas poderosas guerreiras querubins,
to vis e cruis quanto seu mestre. Chamavam-se Zambil e Marilli e atacavam sempre em dupla.
Sua estratgia de combate era nica, covarde, o que as tornava praticamente imbatveis quando
amavam juntas. Empunhavam exuberantes lanas msticas, douradas, to temveis quanto as
usuais espadas das legies celestiais, e no raro as arremessavam contra seus inimigos, no lhes
dando chance de luta. Eu tinha certeza de que Hazai fora atingido de longe por uma daquelas
lanas, pois nem mesmo as rapinas teriam coragem de enfrent-lo de perto.
         As rapinas, repeti em pensamento, como se pudesse abreviar minha vingana.
         -- Dizem que os anjos no sonham, general -- esforou-se o capito. -- Ns nunca
dormimos. Mas ontem, quando cheguei a esta sala, arrastando-me pelo tnel, tive a impresso
de ter visto algo. No sei se foi uma alucinao ou uma profecia, ento decidi que no faria mal
algum acreditar nela.
         Ele tossiu, uma tosse spera, que lhe rasgava a garganta, e por um instante pensei que
perderia a razo e despencaria para sempre no precipcio da inconscincia. Mas Hazai tinha uma
demanda a cumprir, e foi ento que percebi que no morreria sem complet-la. Sem dizer
palavra, esperei que continuasse.
         -- Eu vi um campo extenso, um campo lotado de tropas de anjos. Sonhei com o Dia do
Ajuste de Contas. Muitos celestiais estavam l, muitos que no se uniram a ns no passado, mas
em cujo corao palpita o ideal da justia. Eles tero uma segunda chance, meu senhor -- ele
me encarou profundamente, e vi a antiga fora do capito emergir como uma exploso. -- E
voc os comandar. A virtude que semeamos se espalhar, e nosso squito se transformar em
uma legio.  a Legio dos Renegados, a herana que deixamos para o mundo.
         Ouvi sua voz minguar, reduzir-se a um murmrio abafado.
         -- No sou um malakim, general -- prosseguiu. -- No tenho poderes precgnitos.
Mas gosto de pensar que talvez Yahweh tenha me concedido esta ltima graa, trazendo-o de
volta  minha presena.
         Quando Hazai fez uma pausa para respirar, achei que aquilo era tudo o que tinha a
dizer, mas seu discurso mal comeara.
         -- Como sabia onde me encontrar, Hazai? Por que insistiu em me achar depois de ter
sido mortalmente ferido?
         Eu ainda no compreendera direito o sentido de tudo aquilo.
         -- Alguns espritos me disseram que voc estava voltando do Oriente. Disseram-me que
o Anjo Renegado havia deixado Roma e caminhava rumo  China. Isso j faz quase cinquenta
anos. Imaginei que voc tomaria este caminho e passaria perto da Terra de Nod. Sei que, para
ns,  muito difcil resistir a uma visita s runas. Enoque  nossa casa, o nico lugar do mundo
onde estamos completamente seguros.
         -- Por isso veio para c? Para fugir da morte?
         -- No, meu lder. Minha morte  inevitvel. Perdi muito sangue. Mas eu precisava
encontr-lo a qualquer custo. J tinha planejado isso antes de ter sido atacado. No caminho,
porm, viajei com pressa e fui descuidado. Foi assim que as rapinas me acharam.
         Apertei-lhe a mo, certo de que seu sacrifcio no fora em vo. Hazai pusera-se em risco
para me reencontrar, mas por qu?
         -- Por qu, Hazai? Com que objetivo? Por que era to importante para voc ter comigo
antes de... -- morrer. Engoli a palavra. No queria profetizar a partida do capito, embora
soubesse que no havia salvao para ele.
         -- Esta  a minha busca.  a misso que tenho carregado por tanto tempo: reencontrar
meu comandante e alert-lo sobre o inimigo.
        Aguardei em silncio at que ele retomasse a palavra. Daquele ponto em diante, ficou
bvio que alguma revelao estrondosa estava prestes a ser posta s claras. Senti o sangue
quente do renegado escorrer entre meus dedos.
        -- H algo que voc precisa saber, meu senhor. Uma coisa que aconteceu aps nossa
partida de Enoque.
        Isso fora cerca de trs mil anos antes, calculei. A capital de Nod alcanara o esplendor
entre 40.000 e 12.000 a. C., mais de dez mil anos antes da ascenso dos egpcios e dos
babilnicos, ambas civilizaes que floresceram aps o dilvio.
        -- Deixei este santurio e vagueei para o Egito, No esperava encontrar mais nenhum
anjo renegado antes do Dia do Juzo Final, mas pouco tempo depois, quando j havia me fixado
no Crescente Frtil, resolvi continuar viagem e segui o curso do Nilo em direo  Nbia. Foi
nesse percurso que encontrei Ishtar.
        -- Ishtar?
        -- Ela estava  sua procura, general. Voava com suas asas de anjo, cruzava os cus,
desesperada para rev-lo, sem dar importncia ao perigo que corria. Viajava como celestial por
uma terra vigiada pelos agentes do mal.
        -- Sim! Captei o pedido de socorro dela atravs do tecido. Segui seu rastro e fui ao seu
encontro na Babilnia, mas o inimigo a achou primeiro. Um anjo negro -- a lembrana dolorosa
voltou como uma punhalada no corao --, um anjo de asas negras. No sei que tipo de criatura
era ou para quem trabalhava. E no pude salv-la, Hazai. Falhei no intento de proteg-la.
        Eu nunca me perdoara realmente pela morte de Ishtar.
        Ele esboou um sorriso fraco, como que desaprovando meu martrio.
        -- Voc nos deu a liberdade, meu lder, e isso  uma coisa pela qual vale a pena morrer.
Somos querubins, e a morte nos acompanha onde quer que estejamos. Nossa natureza nos
empurra  luta e nos impede de recuar ao combate. Fomos criados para morrer, por isso no
deve chorar a morte de Ishtar nem a minha. Ela pereceu perseguindo um propsito e, agora que
o encontrei, poderei dar prosseguimento ao seu desejo.
        Ele me puxou para mais perto e sussurrou ao meu ouvido:
        -- Ishtar no foi caada como ns. Foi assassinada. Sua morte foi encomendada.
        -- No entendo -- argumentei. As palavras de Hazai me soavam desconexas.
        -- Pouco depois de deixar Enoque, Ishtar descobriu algo, coisa grande, uma
conspirao que aparentemente envolvia o cu e o inferno. Um plano que poderia afundar o
mundo no caos e ameaar a existncia do prprio Yahweh.
        Como assim? -- foi a primeira coisa que pensei. Ningum nem nada neste universo teria
poder para fazer frente ao Criador. Aquela era uma hiptese ridcula. Mas ento me lembrei de
Ishtar e de sua vontade inabalvel. Ela morrera por isso; morrera por mim e pelos renegados.
Morrera por algo em que acreditava. E foi por isso que resolvi acreditar tambm.
        -- Mas quem? Quem so os arquitetos dessa conspirao?
        -- Ela no me disse. Ishtar sabia que minha existncia estaria ameaada caso eu
tomasse conhecimento dos detalhes. Ela decidiu que s contaria esse segredo a voc, meu
senhor. Foi por esse motivo que eles a executaram.
        Ergui suavemente a cabea, e nossos olhares se encontraram, convergindo para o
mesmo pensamento, para a mesma concluso.
        -- Voc os ameaa, meu lder -- instigou o capito. -- No sei por que nem como, mas
seja quem for que est por trs desse conluio v em voc um perigoso obstculo. Eles
assassinaram Ishtar porque receavam que ela lhe contasse sobre essa trama.
        O aperto fraterno do capito afrouxou-se, e senti que a vida o abandonava.
        Foi ento que algo inesperado aconteceu. Um raio dourado, solitrio, irrompeu por uma
minscula rachadura no teto, e esse nico feixe iluminou toda a sala. A escurido que engolia os
sales curvou-se  imponncia do sol -- um novo dia estava nascendo na superfcie.
        Nesse momento, fui testemunha de um evento do qual jamais me esqueceria.
Subitamente, os gritos dos espectros, que j me acostumara a ignorar, silenciaram. Na cidade
afundada, os fantasmas estavam em todas as cmaras, berrando em desespero. Mas o sol
apareceu, banindo as trevas. Os espritos emudeceram. Por um breve instante, nada fizeram, e
ao olhar para eles entendi o porqu.
         -- Esperana -- gemeu Hazai. -- Eles so os condenados, general. Viram sua nao ser
devastada. Viram seus filhos serem mortos, sua terra ser destruda. Sobre eles, pesa a culpa de
toda a humanidade. Mas ainda lhes resta uma tnue vontade. Talvez um dia sejam libertos e
possam seguir finalmente para o paraso. L onde o sol brilha.
         Aos poucos, o raio comeou a perder fora, e a sala retrocedeu  penumbra. Percebi,
ento, que o alvorecer era a nica hora do dia em que o sol encontrava o ngulo certo sobre a
colina negra e penetrava o subterrneo.
         O capito observou os espritos, que tentavam abraar o jato de luz, mas ele se apagara.
         -- So os arcanjos -- sibilou Hazai, encarando a pira que ardia no centro da mesa. --
Enquanto eles governarem o cu, homens e anjos vivero atados s sombras -- alertou, e reuniu
foras para uma splica final:
         -- General... Quando o stimo dia chegar ao fim,  provvel que voc seja o ltimo anjo
renegado. No desista.
         Aquelas foram as ltimas palavras que ouvi de Hazai. Ele poderia ter sobrevivido por
mais dois ou trs dias, mas sua aflio seria tremenda. A energia de sua aura dispersou-se, e, no
mundo espiritual, sucedeu uma majestosa exploso luminosa, que lanou fascas e clareou a
sala, para depois ser absorvida pelo tecido da realidade e se incorporar ao contnuo do universo.
Antes de morrer, Hazai suspirou duas vezes, e durante esse tempo eu poderia ter replicado. Po-
deria ter proferido um discurso vigoroso, honrando assim seu tormento. Mas, ao v-lo
desfalecer, a oratria me abandonou. Ishtar e Hazai morreram perseguindo a mesma misso.
Eles no pretendiam, como eu, retornar aos Sete Cus e destituir os arcanjos. No queriam ser
mrtires ou heris. No se importavam de morrer, contanto que sua virtude fosse passada
adiante. Confiavam em mm, talvez mais do que eu mesmo, e por isso arriscaram a vida. Eu os
carregaria comigo se pudesse; levaria o corpo de ambos de volta ao paraso, para que fossem
aclamados. Mas isso era impossvel. Seus valores, porm, viveriam para sempre comigo, A
coragem, a honra, a verdade, a justia. Os renegados estariam sempre lutando a meu lado,
estivessem vivos ou mortos.


                                 O IMPOSSVEL ACONTECE
         Cavalgando contra o vento, alcancei a via secreta no fim da tarde. No lusco-fusco,
avistei as duas carroas estacionadas ao lado do barranco que delimitava o caminho. Tommaso
terminava de montar as tendas enquanto o velho Tales alimentava uma fogueira. Em um canto
mais afastado, Flor do Leste servia colheradas de uma sopa aguada a Plix, que as engolia sem
manifestar nenhuma expresso.
         Ao me ver, a chinesa veio ao meu encontro, surpreendendo-me ao fechar os braos em
volta da minha cintura, em um abrao fraterno. Era pequenina at mesmo para uma menina de
15 anos, e sua cabea no chegava  alura de meu peito. Sorri, meio encabulado. J tinha
enfrentado anjos, demnios e espritos, mas de repente no sabia como agir diante daquele rosto
imaculado. Por fim, todos se juntaram ao calor da fogueira. Tales tinha o mapa  mo e o abriu
 luz do fogo.
         -- A trilha contorna o golfo Prsico, onde as guas do rio Tigre se unem ao Eufrates --
expliquei. -- Em dez dias teremos cruzado todo o sul da Mesopotma, deixando
definitivamente as fronteiras do Imprio Parto para entrar no territrio dos nabateus.
         -- Em seguida vem o grande deserto -- completou Tommaso.
         -- Costuma ser a parte mais tranquila da viagem. A rota segue reta, e a vala retm a
umidade do lenol subterrneo, deixando o ar menos abafado. Com sorre, conseguiremos cruzar
o deserto em um ms.
         Tales consultou mais uma vez o mapa.
         -- H algum tipo de mgica envolvida nisso?
         -- Em que exatamente?
        --  difcil acreditar que cobriremos essa distncia em um ms. Viajo pelo mundo
desde bem jovem e sei que nem um exrcito em marcha forada levaria apenas rrinta dias para
transpor a Arbia. Deserta.
         natural que, como guia, eu tivesse a resposta para essa pergunta. Mas nunca havia
pensado nisso. E claro que a imagem ilusria atravs da qual passamos na entrada da via fora
produzida por um feitio, mas no havia evidncias de que Zamir tivesse lanado um encanto
sobre o caminho em si. No entanto, a pergunta do velho levantava uma questo bvia.
        -- Realmente, a idia de atravessar um deserto vasto em to pouco tempo  estranha --
e era, at mesmo para mm. -- Mas no creio que haja feitiaria por perto. As tcnicas de
engenharia utilizadas pelos babilnicos eram fantsticas.
        Nem eu as entendo. De qualquer maneira, se houvesse um encantamento em curso, eu
no saberia dizer como funciona.
        --  possvel que tenha alguma coisa a ver com os deuses? -- insistiu o mercador.
        --  provvel que no -- ultimei, mas logo depois j no estava to certo do que falara.
        O grego fechou o mapa e retomou o planejamento da trajetria.
        -- E este nosso caminho secreto termina onde?
        -- Perto do porto de Eilath.
        Eilath era uma cidade porturia s margens do golfo de Acaba. Mercadores do mundo
todo, inclusive os gregos, conheciam bem a localidade, ou pelo menos j tinham ouvido falar
dela.
        -- L, teremos que trocar as carroas por camelos, porque no poderemos mais contar
com o solo firme da trilha oculta. A nos restaro vinte dias para vencer o deserto do Sinai e
chegar finalmente a Alexandria. Ento, nossos rumos se separam.
        Tales fez um sinal afirmativo e depois se levantou. Pegou Plix pelo brao e os dois se
recolheram  tenda. O velho parecia ligeiramente mais sisudo aquela noite. No sou telepata,
mas era fcil perceber que as insinuaes do orculo ainda o perturbavam.


                                    O LARGO DE PEDRA

        Entre 23 e 26 de dezembro, perto do solstcio de inverno, deixamos a Partia e cruzamos
a fronteira rumo  Nabateia. Esse era o pas dos grandes desertos, que se alongava por toda a
Arbia e leste da Sria,
        Ao fim do caminho, a via secreta convertia-se em um tnel, que se inclinava para dentro
da terra em um ngulo suave, atravessando uma passagem larga e cavernosa. Alm dela via-se
um arco natural, que se abria  encosta de um morro baixo, e ao fim enxergava-se a luz do sol.
Esse era o marco final da estrada babilnica, o ltimo trecho idealizado e construdo pelos
homens de antigamente. Poucos quilmetros a oeste estava o golfo de Acaba e, alm dele, o
Sinai.
        Na cidade de Eilath, Tales conseguiu vender 20% de sua mercadoria. Com o dinheiro,
comprou mais oito camelos, totalizando dez. Vendemos as duas carroas e os cavalos de carga e
dispusemos todas as peas restantes no lombo dos animais, j que, adiante, veculos sobre rodas
s nos atrasariam.
        No quinto dia do ms de fevereiro do ano 2 d.C., tomamos uma balsa e atravessamos o
recncavo, pisando enfim nas terras quentes e pedregosas do deserto do Sinai.


        Por trs semanas vagamos por caminhos tortuosos, at que descemos as montanhas e
nos deparamos com um campo seco, de solo plano, mas pedregoso. A terra sob nossos ps era
dura, e fragmentos gigantescos de rocha espalhados pela plancie tornavam a trilha sinuosa, o
que no chegava a ser um entrave para os camelos nem para o habilidoso Ibn-Hatar. As
marcaes de estrada indicavam a existncia de um posto de abastecimento de gua ao sul, o
conhecido osis de Feiran, que no podia estar a mais de trs ou quatro quilmetros de
distncia. Decidimos continuar a marcha para oeste, porque a noite se aproximava, e acampar
assim que encontrssemos um stio apropriado. Sugeri que um de ns cavalgasse at o osis
antes do nascer do sol, para buscar a gua de que precisvamos para completar a viagem.
         No muito depois do crepsculo, a caravana, ento reduzida a dez camelos e um corcel,
chegou a um largo natural, bastante amplo, cercado por altas paredes de rocha clara. A oeste, a
fissura continuava em uma passagem que desembocaria em um campo de areia fofa.
         -- No poderamos encontrar lugar melhor para acampar -- disse Tales ao adentrar o
largo de pedra. Seu comentrio no soara otimista. Na verdade, poucas vezes seu tom era
agradvel.
         -- O lugar perfeito para uma emboscada -- eu disse, mais para mim mesmo do que
para os outros. No podia negar o que meus olhos de guerreiro me indicavam. S havia duas
sadas do largo, ambas longas e delgadas.
         -- O que disse? -- perguntou o velho. O vento fraco confundira minhas palavras.
         -- Nada. Aqui estaremos protegidos do frio da noite. E, se houver tempestade, estas
paredes de pedra devem reter a areia atirada pelo vento.
         Tommaso fez um movimento com a rdea e o camelo agachou-se, para que pudesse
desmontar.
         -- Vou fixar as barracas naquele lugar -- avisou o siciliano, apontando para um ponto
onde o paredo se curvava para dentro, desenhando uma espcie de lapa.
         Tales virou-se para mim.
         -- Se pensa em manter seu habitual turno de guarda noturno, brbaro, recomendo
ateno redobrada esta noite. Desta vez eu mesmo me arriscaria a substitu-lo. No quero ser
assaltado no trecho final de nossa jornada. Depois dessa epopeia pela qual passamos, eu ficaria
muito desapontado se, logo agora, perdesse todo o meu bronze.
         -- No se incomode. No vou tirar os olhos destes morros at o amanhecer. H alguma
coisa que no me agrada neste lugar. No sei bem o que .
         Desci do dorso de Ibn-Hatar, sempre com o olhar fixo no topo do paredo. Havia uma
nuance malfica no tecido da realidade.
         -- Vai cavalgar at o osis amanh? -- perguntou Tales, sem dar importncia ao meu
agouro.
         Comecei a afrouxar as tiras que prendiam a sela do corcel, liberando o animal do aperto
no abdome.
         -- Sim, logo ao alvorecer. Pretendo estar de volta antes do pico do sol.


                                     MAUS PRESSGIOS

         As cabanas foram armadas uma ao lado da outra, de costas para a rocha, sob a proteo
da concavidade da parede sul. Quando todos dormiam, escalei o paredo e cheguei ao cume da
colina. Ali fiquei por toda a noite, atento. Encontrei um bom lugar de viglia e me encolhi s
sombras, apostando que nem mesmo o mais esperto dos querubins me encontraria. At onde a
vista alcanava, a regio estava mergulhada em profundo silncio. As aves noturnas no apare-
ceram naquela noite, e as serpentes preferiram ficar em seus covis. At o eco dos fantasmas
errantes, que s vezes vagam pelos ermos, foi suprimido na escurido.
         Antes de o dia amanhecer, desci a colina e selei Ibn-Hatar. Um resto de fumaa ainda
escapava da fogueira, e apaguei o resqucio com um punhado de areia. Tommaso acordaria em
breve para preparar os camelos, e eu deveria partir o quanto antes, para que pudesse estar de
volta ao meio-dia. Apesar dos maus pressgios da noite anterior, a caravana estava alojada em
local seguro. Observara as imediaes por horas com minha viso apurada e estava certo de que
ningum espreitava nos campos. Se algum ladro pretendesse cavalgar naquela direo,
certamente ainda estaria atrs das montanhas -- e eu duvidava que qualquer um, mesmo
guiando um cavalo veloz, fosse capaz de alcanar aquelas colinas antes do meu regresso.
         No leste, o horizonte reluziu em carmesim, anunciando a chegada do sol. Amarrei duas
crateras grandes ao lombo do cavalo, com as quais deveria recolher a gua no osis Feiran.
Vesti um manto com capuz e montei no alazo. Antes de partir, porm, vi que Flor do Leste
estava acordada. Em uma atitude inesperada, ela deixou a tenda, j vestida com roupas de
viagem, e caminhou at mim.
         -- O que foi, Flor do Leste? Voltarei logo.
         Ela no podia falar, mas suas feies eram claras. A pequena no queria ficar ali, no
sem mim, naquele acampamento entre as pedras.
         -- Est tudo bem -- confortei-a. -- J esteve sozinha outras vezes, voc se lembra?
Tommaso cuidar de voc. Os gregos no lhe faro mal.
         Mas meus argumentos no tiveram nenhum efeito sobre a garota. Ento conclu o
lgico.
         -- Sim, eu sei, h uma sensao ruim aqui, mas no h nada a temer. As trilhas para c
esto vazias. No h bandidos no caminho.
         Ela no cedeu s minhas palavras e ergueu uma das mos para que eu a puxasse para a
sela e a levasse comigo.
         -- Muito bem. Se quer vir, ento suba -- e a coloquei na garupa, no atrs de mim, mas
na frente, onde poderia segur-la no caso de queda.
         Ofereci-lhe um leno grande.
         -- Ponha isto em volta da cabea, em forma de vu. Deixe s os olhos descobertos. Vai
proteg-la do sol. Alm disso, temos de ser rpidos e discretos. No acho que os bedunos j
tenham visto algum chins, ento  melhor que no despertemos a curiosidade deles. O tempo
tornou-se um fator crucial em nossa viagem.
         Ela concordou com um aceno, e iniciamos nossa corrida ao posto de abastecimento de
gua. Enquanto cavalgava, fiquei pensando sobre o que exatamente Flor do Leste havia sentido
aquela noite. Teria ela somente notado uma aura maligna a sacudir o tecido, ou teria
prenunciado algo muito pior, algum acontecimento pavoroso que escapara aos meus sentidos?
         De qualquer maneira, eu no tardaria a voltar.


        Diferentemente do que muitos estrangeiros poderiam pensar, o osis Feiran no era um
local cercado de palmeiras, com uma fonte natural no centro. Era, e ainda , o maior dos osis
do Sinai. Segundo os escritos hebreus, fora ao impacto do cajado de Moiss que a gua surgira
do rochedo, para saciar o povo sedento que, sob sua liderana, havia escapado do Egito.
        Feiran assemelhava-se mais a uma pequena aldeia, e os homens que ali viviam no eram
muito receptivos a viajantes de pele clara, que associavam aos arrogantes legionrios romanos.
Chegamos a ser abordados por supostos guardas, que mais pareciam bandidos, e senti alvio ao
entender que tudo o que queriam era uma msera taxa para que utilizssemos a fonte.
        Pensando na vida dura daqueles pobres coitados, acabei pagando mais do que deveria
-- nada que me fizesse falta. Enchi os recipientes com bastante gua e em instantes Flor do
Leste e eu j estvamos voltando ao largo de pedra. Cavalgamos sob sol alto, com o vento
quente no rosto, contemplando paisagens to lindas que era difcil imaginar que poderiam ser
maculadas.
        Meu caminho estava livre, e eu o trilhei em paz.
        Ento, veio a tempestade.


                                        As HARPIAS

        Ventava forte na plancie quando avistamos as colinas de arenito, e a greta estreita que
conduzia ao largo natural entre os dois morros. O sol ia alto, e imaginei que os gregos j
tivessem levantado o acampamento. Vesti o capuz, mas o calor, a areia e a ventania
continuavam a castigar-me o rosto, ento cobri a face com um pano grosso em forma de
tringulo. Ibn-Hatar j demonstrava sinais de cansao, tinha fome e sede, e eu no via a hora de
alcanar a garganta de pedra, onde estaramos protegidos das vicissitudes do clima.
        Quando adentramos a fenda, o vendaval parou. L fora, ele soprava no mesmo sentido
em que cavalgvamos. Isso anulara em parte meu olfato, porque os aromas no ar so, em geral,
trazidos pelo vento e dispersados por ele. Foi s ento, quando j caminhava pela senda, que
senti o cheiro salgado que  sinnimo de morte.
         -- Sangue! -- sussurrei em mandarim, para que Flor do Leste entendesse o aviso.
         Desmontei do cavalo e desviei o animal do caminho.
         -- Fuja para os campos, corra, e me espere l -- exclamei, desferindo um tapa no
lombo do corcel. A menina pouco sabia cavalgar, mas o corcel, alm de hbil, era inteligente e
compreendeu meu comando somtico. A pequena agarrou-se s rdeas, apertou as pernas contra
a sela e deixou-se levar pela fora do alazo.
         Senti um abalo no tecido da realidade e tive certeza da presena maligna que me
aguardava. Andei furtivo pela senda, encostado ao paredo, at que escutei o ruminar dos
camelos. Quando a vereda se abriu no largo de rocha, tomei conscincia da destruio que me
precedera.  sada da garganta, quase a meu lado, jazia um cadver humano, coberto de sangue
da cabea aos ps. O rosto, virado para cima em expresso de horror, tivera a lngua e os olhos
arrancados. As costas estavam rasgadas em mltiplos cortes, e o corao, perfurado por um
objeto penetrante. Era Tales, o mercador grego.
         Uma pavorosa orgia de sangue e carne se espalhava pelo passo. Uma figura voluptuosa,
com corpo de mulher e asas de anjo, estava parada no centro do ptio natural, apoiada em uma
lana de ouro. Sua pele era clara, os seios, fartos, e os cabelos, ruivos e ondulados. Vestia-se
somente com leves tiras de seda, amarradas em uma tnica pequena, que lhe tapava o sexo e os
mamilos. A seus ps, um segundo corpo tombava inerte, trespassado por sua arma nefasta. Era
Tommaso.
         Enquanto a caadora arrancava a ponta dourada das costas de sua vtima, uma segunda
mulher alada flutuava, mantendo uma posio esttica trinta metros acima da parceira. Era uma
disposio de viglia -- enquanto uma atacava, a outra dava cobertura, atenta a qualquer ataque
surpresa. A exemplo de sua comparsa, empunhava tambm uma lana metlica. Os olhos azuis
vasculhavam tudo ao redor, e os ouvidos afiados captavam a menor das vibraes.
         Aquelas eram as rapinas, duas perversas querubins, assassinas cruis, servidoras cegas
do arcanjo Miguel. Foram elas que molestaram Hazai, prolongando-lhe o sofrimento antes da
morte. Mesmo incapacitado, ele conseguira escapar das lutadoras, mas certamente elas haviam
seguido seu rastro, e este as levou ao Sinai. Era provvel que as rapinas estivessem  procura do
capito, e no de seu lder. Pretendiam assim terminar o trabalho que comearam e levar a
cabea do renegado ao Prncipe dos Anjos.
         A primeira delas, que pisoteava o cadver de Tommaso, era Zambil, e a que a protegia
do cu chamava-se Marilli. No usavam armadura ou qualquer outra proteo que limitasse os
movimentos, e isso as tornava rpidas e silenciosas. As asas assumiam uma colorao neutra,
entre o bege e o caqui, para que melhor pudessem se confundir ao cenrio desrtico.
         E mesmo elas, prontas para a emboscada, no perceberam minha chegada. At que me
revelei.
         Incrdula, Zambil deixou escapar um sorriso nervoso.
         -- Finalmente o encontramos! Pena que tenha demorado a aparecer.
         Marilli compartilhou a crueldade.
         -- Dizem que os renegados no gostam de ver humanos ser mortos. Poderamos t-los
poupado, mas essas porcarias de barro no quiseram ceder.
         -- De fato -- replicou Zambil, apontando para mim. -- No fosse por sua postura, eu
diria que  um deles. Voc cheira a pelo de macaco, capito -- caoou, com uma risada
maldosa. -- E ento, pronto para uma nova peleja?
         Capito, Foi como eu pensara. As rapinas julgavam que eu fosse Hazai.
         No queria ludibri-las por mais tempo. Com uma mo, arranquei o pano do rosto, e
com a outra deitei fora a tnica e o capuz.
         A reao delas foi imediata. Zambil manteve-se firme, mas sua expresso satisfeita
encrespou-se. No ar, Marilli bateu as asas, recuando alguns metros. A manobra revolveu o
vento, levantando areia no campo do passo.
         -- Este no  o capito Hazai!  Ablon, o Primeiro General -- resmungou, surpresa, a
guerreira de olhos azuis.
         -- Ablon, o Anjo Renegado, voc quer dizer -- corrigiu Zambil, recuperando o sorriso
perverso. -- Nossa recompensa vir em dobro.
         Insolente, a lutadora armou a lana, mas a outra, que a protegia de cima, no parecia to
confiante. Talvez tivesse ouvido histrias a meu respeito.
         -- Onde est sua espada, general? -- perguntou a assassina ruiva.
         -- Eu dispenso minha arma.
         Ela estranhou minha frieza.
         -- Nesse caso, o cdigo dos querubins me impede de usar minha lana -- era um blefe.
Ela a usaria de qualquer forma.
         -- A no ser que eu, como seu oponente, a dispense dessa obrigao.
         Ela rosnou e expandiu as asas, preparando-se para o ataque. As rapinas eram
perspicazes, e eu no as derrotaria se no soubesse como engan-las. Desde que jogara a
Vingadora Sagrada no abismo, tive de aprender a lutar desarmado, mesmo contra inimigos
armados. Logo, entendi que aqueles que portam armas acreditam que esses instrumentos os
tornam superiores em combate. Isso os faz totalmente dependentes delas. Toda vez que algum
utiliza uma espada, uma lana ou mesmo um punhal, faz de tudo para acertar o adversrio com
aquela arma. E cada arma tem um nmero limitado de golpes. J um guerreiro desarmado no
sofre tais restries, estando livre, assim, para usar o corpo todo para atacar. Socos, pontaps,
cotoveladas, encontres e joelhadas so apenas algumas alternativas. Alm disso, as rapinas
padeciam de outra fraqueza. Eu sabia que, sempre que podiam, atiravam suas lanas a distncia,
mas contra um oponente desarmado, como eu, Zambil, arrogante e certa da vitria, arriscaria o
corpo a corpo. Se eu pudesse traz-la para dentro de meu raio de ao, talvez conseguisse
venc-la.
         A ruiva levantou a lana dourada.
         -- Saiba, renegado, que foi com esta arma que perfurei seu oficial mais graduado,
         -- Em instantes desejar nunca t-la usado -- retruquei, aguardando a investida.
         A mulher-anjo inclinou as asas para trs e preciptou-se ao meu encontro, com os olhos
vermelhos de fria. Imersa na fervura do combate, no suspeitou de minha estratgia, at que
sua comparsa, Marilli, esbravejou:
         -- Espere, Zambil, no se aproxime dele!
         Mas era tarde demais para a audaciosa querubim. Ela j estava ao meu alcance quando
desferiu o golpe. Conforme eu suspeitava, ela tentou um ataque frontal, perfurante, reto.
Conhecendo o assalto, no foi difcil sair da linha de perigo, desviando para o lado e ao mesmo
tempo me movendo para dentro da rea de combate. Do cu, a segunda rapina entendeu o
objetivo da manobra e brandiu a lana para arremessar, mas Zambil e eu estvamos j quase
engalfinhados, e um arrojo daqueles poderia atingir sua parceira. Indecisa, ela esperou,
acompanhando, nervosa, o duelo.
         As lanas so quase imbatveis  primeira investida da batalha, mas depois, quando o
adversrio chega mais perto, elas praticamente perdem a utilidade, porque so objetos grandes,
e seus movimentos so longos, demorados e demandam espao. Aproveitando um vacilo da
lutadora, agarrei a haste abaixo da lmina e puxei-a para mim. Para no ter que disputar fora
com Zambil, rodei o cabo da arma para fora, descrevendo um arco horizontal e quebrando assim
sua dura pegada. O artefato escapou instantaneamente das mos da celestial, como leo a
deslizar na pele. Por uma frao de segundo, ela no soube que ao tomar, to condicionada
estava a manobrar o instrumento fatal. Ao ver a assassina vulnervel, de um passo para trs e
prossegui o movimento em um arco contnuo. Girei a lana sobre a cabea, e a ponta afiada
cortou o ar, chiou e desceu em direo ao seu pescoo. Para evitar a inesperada ofensiva, ela
recuou, mas a preciso do ataque foi suficiente para atingi-la na garganta, rasgando-lhe a pele e
degolando-a de ponta a ponta.
         O sangue da rapina esguichou em minha roupa. Em uma ao quase involuntria,
preventiva, soltei a arma mstica e, com a mo nua, perfurei-lhe o peito. Os dedos rijos
atravessaram a carne e fecharam-se em volta do corao. Com uma puxada enrgica, revolvi o
msculo cardaco, atirando o rgo ensanguentado para longe. Os olhos murcharam, e o gemido
calou-se, Zambil estava morta.
         Mas Marilli seguia com vida.
        Assustada, a celestial manejou a lana de ouro, mirando meu corao. Restava-me,
portanto, tomar a arma da finada e arremess-la antes que a guardi fizesse o mesmo. A
velocidade, compreendi, seria o fator crtico nessa disputa. Marilli tinha a vantagem de j estar
preparada, mas o avatar intil de Zambil ainda no tombara, e seu corpo me serviu de cobertura.
Enquanto a assassina procurava o melhor ngulo para atirar, peguei a lana do cho e a
arremessei.
        A arma chispou contra o vento, soltando fascas em seu trajeto. O espeto atingiu em
cheio a celeste, em um impacto que a matou de imediato. As asas se recolheram, e o corpo
despencou do cu, rolou pela encosta ngreme da colina e deslizou para dentro da garganta, indo
chocar-se contra o solo da greta.
        As rapinas, as mais severas assassinas de Miguel, estavam vencidas.


         Com as guerreiras derrotadas, relaxei a guarda e recuei dois passos, assimilando a
brutalidade da carnificina que ali ocorrera. Fui tomado por uma fadiga dispensvel, ncomum, e
tive que respirar fundo antes de avanar. No era, contudo, o cansao que me abalava.
         Voltei  entrada do largo e lamentei a morte horrvel de Tales. Depois, caminhei at o
centro do passo e ajoelhei-me diante do corpo sem vida de Tommaso. Seu trax fora destrudo,
mas ao menos no sofrera como o velho grego.
         Mortos. Estavam todos mortos. Inocentes, infelizes, lanados em uma guerra que nada
tinha a ver com seus interesses mundanos. Vtimas da mais terrvel maldio imposta aos
renegados -- a solido. Era assim que devia ser, para todos os exilados. Tudo e todos  nossa
volta sucumbiriam um dia, at que fosse anunciada nossa prpria destruio. Era esta minha
fortuna: suportar o extermnio de meus amigos e nada poder fazer diante disso.
         Mas nem toda vida fora apagada.
         -- Tive medo de ajud-los -- sibilou uma voz, que se achegava ao meu lado.
          minha esquerda, um rapaz forte, alto e de rosto calmo fitava o cadver
do criado. Vestia-se com uma tnica branca, cortada em detalhes vermelhos, e pela postura
altiva era fcil identificar sua origem. No semblante, a imagem da razo; nos olhos, o brilho da
sobriedade. Era Plix.
         -- Eu me escondi -- continuou o rapaz -- em uma concavidade na rocha. As harpias
chegaram com o vento, apareceram no meio de ns, e ento entendi a natureza dos dois mundos.
Elas no existiam, no ? Mas isso no quer dizer que no viessem a existir.
         Perplexo, digeri a sbita recuperao de Plix. No esperava que, to bruscamente, ele
recobrasse a lucidez. Infelizmente, porm, no havia outra maneira de voltar  razo a no ser
testemunhando outro evento mstico. A viso dos fantasmas na entrada da trilha secreta
confundira sua mente. Fora uma situao to fantstica que o levara s fronteiras mais
profundas da loucura, enquanto ele tentava encontrar a nica resposta ao enigma que o
massacrava: o que realmente acontecera aquela noite? A busca pela iluminao o deixara
catatnico, mas, ao presenciar a materializao das rapinas, o rapaz enfim compreendeu que no
existia apenas uma realidade, mas vrias. Foi justamente isso que ele quis me dizer aquela tarde.
Durante toda sua vida ele no acreditara na existncia das harpias -- que acabaram por revelar-
se na figura das rapinas -- porque isso no fazia parte de sua realidade palpvel. E, nesse
contexto, elas realmente no existiam. Mas o fato de que, para ele, elas no existiam no queria
dizer que no pudessem vir a existir. Acreditar no impossvel  a chave para entender os
segredos do universo.
         O som de cascos nos trouxe  realidade. Atravs da senda, vimos a silhueta
avermelhada de Ibn-Hatar e de Flor do Leste. Eu tinha ordenado que fugisse para os campos,
mas, ao escutar o silncio que se seguiu  escaramua, a menina decidira voltar ao
acampamento. Olhou com pesar para os corpos estendidos, mas no se desesperou. J devia ter
assistido a atrocidades semelhantes na China, um pas onde os opositores do imperador eram
condenados s execues mais atrozes.
         -- E agora? -- perguntei a Plix. -- O que pretende fazer?
         -- Era desejo de meu pai que eu continuasse a sua empresa. A caravana est intacta.
Vamos continuar pelo deserto at Alexandria e ento nos separamos. Voc vai para Roma, e eu
para Antiquia. De l tomarei um navio para Atenas.
          Eu... -- uma dor inesperada silenciou minhas palavras, e a frase distorceu-se em um
gemido gutural. Senti que meu corpo se contorcia, e ento uma forte pontada no estmago me
atirou ao cho. A pele latejou, como o ataque impiedoso de uma febre ter.
         Plix afastou-se. Flor do Leste saltou do cavalo e correu em meu socorro.
          O que aconteceu? -- perguntou o rapaz. -- Voc parece doente.
           A aflio contraiu meus msculos, tornando a fala impossvel. Com suas nos
delicadas, a menina pressionou meu abdome e, devagar, empurrou minha cabea para baixo.
         -- Mas voc no foi sequer ferido. Est inclume... -- protestou o helnico.
         Tossindo sem parar, senti que um lquido viscoso me subia pela garganta,
queimando tudo por dentro. Engasguei com o refluxo, e depois o fluido letal chegou  minha
boca. Uma gosma esverdeada espirrou por entre os dentes, desenhando uma mancha indigesta
na terra.
         --  veneno -- compreendeu Plix.
         Sim, era um veneno mortal, que havia muito adormecera em minha carne. Era a
peonha assassina de Mai Yun, o Escorpio de Jade. Eu pensava que todas as cicatrizes daquela
batalha infernal tivessem sarado, mas estava errado. O legado diablico da mulher-aracndeo
ainda clamava por minha morte.
         A habilidade curativa de Flor do Leste e suas maravilhosas tcnicas medicinais haviam
recuperado a necrose em meu brao, impedindo que o tecido apodrecesse, mas o veneno no
fora expelido. No fosse meu perodo de hibernao no leito do rio, a toxina j teria me matado,
mas a atividade de meu corpo reduzira-se a quase zero enquanto dormia, e aparentemente isso
manteve a peonha estagnada. Ao lutar com as rapinas, porm, o sangue voltou a aquecer,
despertando os efeitos mortferos da substncia.
         Agora era s uma questo de tempo at que o veneno chegasse ao corao. No sabia
quanto de vida ainda me restava, mas no estava disposto a tombar antes de avisar Shamira
sobre o perigo que corria. Saudvel ou moribundo, continuaria minha misso. Navegaria at
Roma e afastaria a Feiticeira de En-Dor da vingana do impiedoso bruxo Zamir.
         E depois morreria.


                                    O VENENO AVANA

         Atacado pela fora renovada do veneno, minha energia celestial feneceu. O poder
espiritual da aura, que  a sublime ligao dos anjos com a potncia divina, comeava a
esmorecer em meu avatar, consumindo lentamente a vitalidade de meu corpo. A toxina me
pusera doente, atacando impiedosamente os msculos e nervos e dificultando meus
movimentos. Os sentidos aguados apagaram-se, e minha aparente invulnerabilidade s
fraquezas humanas reduziu-se aos nveis comuns a qualquer mortal.
         Julguei, contudo, que a sorte estava a meu lado, pois a surpreendente recuperao de
Plix me permitiria completar a viagem e chegar a Roma em relativa segurana -- pelo menos
eu assim esperava.
         Lentamente, os dias converteram-se em semanas, at que toda a noo de tempo foi
eclipsada de minha mente. Experimentei um pouco da breve existncia humana, to efmera, e
por isso to intensa. Preso ao lombo do corcel, tudo o que me restava era fitar o horizonte, o
deserto, as montanhas, sem poder alcan-los.
         No incio da primavera, a caravana deixou o Sinai, contornou por terra o golfo de Suez
e chegou a uma estrada imperial, que cortava o rio Nilo e seguia para Mnfis e Alexandria.
Aquele era o perodo em que comeavam as secas, a poca em que os agricultores colhiam os
vveres plantados em janeiro, aps o recuo das guas da inundao. Pouco pude ver as
maravilhas da travessia, e no cheguei a divisar os portes de Mnfis. Alguns quilmetros ao
norte da cidade, a estrada se bifurcava, e tomamos o caminho que conduzia  capital.
        Foi em uma noite de lua nova, quando apenas as estrelas decoravam a negritude do cu,
que um brilho reluziu a noroeste. Tentei erguer o corpo, desabado sobre o corcel, mas, ainda
aturdido ao despertar, tudo o que consegui foi levantar minimamente a cabea e fitar o ponto
luminoso que sinalizava ao longe.
        -- So as luzes da ilha de Faros -- avisou Plix, emparelhando ao meu lado sobre a
corcova do camelo. -- Em uma noite escura,  possvel enxerg-las no mar a quilmetros de
distncia.
        -- O Farol de Alexandria! -- exclamei, arriscando um sorriso. -- J no era sem
tempo.


                                 O FAROL DE ALEXANDRIA

         Ao nascer do dia, o terreno sob a estrada declinou suavemente, descendo em direo 
cidade ao nvel do mar. O aroma salgado do porto me despertou e recobrei os sentidos,
confiando na fora que poupara por toda a jornada.
         A cidade de Alexandria fora construda em uma faixa estreita de terra, comprimida
entre o mar Mediterrneo, ao norte, e o esplendoroso lago Mareotis, ao sul. A capital outrora
fora o lar de uma pacata vila de pescadores, at que, em um dia de vero do ano 332 a.C.,
Alexandre, o Grande, que acabara de conquistar o Egito, viajava com sua comitiva ao osis
Siwa, na Lbia, quando avistou uma aldeia e a deslumbrante ilha rochosa que protegia o
ancoradouro. Maravilhado com a beleza e o potencial daquele recanto buclico, decidiu que ali
fundaria sua capital regional, uma localidade que mais tarde seria batizada em sua homenagem
-- Alexandria. A metrpole se tornaria parte fundamental da rota martima que ligava a Grcia
ao Egito, servindo tambm como ponto de sada para a via navegvel que percorria o Nilo,
atravessava o mar Vermelho e desembocava no oceano Indico.
         Embora fosse macednio, Alexandre era apaixonado pela cultura grega, considerando-
se um helnico. Todos os seus palcios obedeciam em detalhes ao modelo arquitetnico grego,
com fachadas triangulares, altas colunas que sustenta-n o teto e longas escadarias de mrmore
que conduziam  entrada principal. Alexandria no era diferente. Portanto, em vrios aspectos, a
cidade se parecia muito com Atenas, mas a dinastia dos Ptolomeus, que passou a governar o
Egito alguns anos depois da morte de Alexandre, reformou parte da metrpole e deu a ela uma
aparncia mais faranica. Ptolomeu II, que reinou por volta de 280 a.C., espalhou obeliscos
egpcios peia capital, ergueu colunas decoradas com antigos hierglifos e erigiu inmeros
monumentos imortais, como o palcio real, o Templo de Serapis e o famoso Farol de
Alexandria. Para fazer frente a Atenas no domnio intelectual, a dinastia construiu o Mouseion,
a grandiosa biblioteca que abrigava, em seu tempo, mais de quinhentos mil volumes, entre eles
os manuscritos de Aristteles, os comentrios de Plato e incontveis textos profticos judaicos.
         Com a claridade machucando-me os olhos, avistei a enseada, abraada e defendida por
uma muralha que se precipitava mar adentro, protegendo os navios atracados. Uma faixa
artificial de terra, com base de cascalho e superfcie de pedra, ligava o continente  ilha de
Faros, onde fora edificada uma das sete maravilhas de antigamente. O Farol de Alexandria era
uma torre larga, de 150 metros de altura, toda construda de pedra calcria e encimada por uma
magnfica esttua de bronze representando o deus Poseidon, com seu inseparvel tridente. Mas
o atrativo mais impressionante do edifcio estava no ltimo de seus seis andares, onde uma
mirade de espelhos fitava o horizonte como uma luneta, refletindo o mar e detectando a
aproximao de navios invisveis a olho nu.  noite, esses mesmos espelhos giratrios
multiplicavam a luz do fogo que ardia no andar de baixo, emitindo um majestoso claro que
guiava os barcos no escuro.
         -- Veja, h fumaa no farol -- indicou Plix, enquanto dois legionrios romanos, com
armaduras segmentadas e gldios polidos, passavam ao nosso lado sem dar ateno  conversa.
         -- Os escravos devem ter acabado de despejar no mar o resto de leo que queimou
durante a noite, alimentando a luz que vimos ontem na estrada -- comentei.
         O jovem grego olhou-me surpreso, mas no incrdulo.
         -- Eu j reconhecera sua sabedoria nas reas selvagens, mas no sabia que tambm era
letrado nos mistrios do mundo civilizado.
         --Ainda conhece pouco sobre mim, Plix. E pena que esta seja a ltima etapa da nossa
viagem. Receio que no nos vejamos de novo.
         -- Pelo jeito j conhece a cidade.
         -- Estive aqui h quarenta anos, antes que os romanos tomassem a capital -- respondi,
apontando com o indicador trs galeras romanas atracadas ao ancoradouro real.
         O helnico j no se assustava quando eu contava histrias ancestrais, a despeito de
minha aparncia humana.
         -- J sabe como chegar a Roma?
         -- Tenho uma idia.
         -- Eu tambm -- precipitou-se o rapaz. -- Acho que posso vender boa parte de minha
mercadoria de bronze aqui, antes de seguir para Antiquia. Alm disso, quero me livrar dos
camelos e troc-los por uma carroa grande, afinal h boas estradas por toda a costa do mar
Interior. Com o dinheiro posso comprar sua passagem em um barco decente, e a nos
separamos.
         -- Sua gentileza  admirvel, mas no h tempo. Minha misso  urgente. Pensei em
uma maneira rpida e barata de tomar um navio.
         -- No consigo imaginar outra opo. Para mim, a alternativa era bvia.
-- Quando vocs me tiraram do rio, ouvi seu pai dizer que conhecia um mercador de escravos
em Alexandria, um homem que tinha clientes fixos entre os romanos.
         O jovem vasculhou a memria, avivando suas lembranas mais remotas, at que o nome
que procurava apareceu em sua mente.
         -- Alexius! Sim, eu me lembro vagamente dele. Meu pai costumava beber com esses
tipos em uma taverna no Brucheium.
         O Brucheium era um dos distritos mais belos e movimentados de Alexandria. Ficava na
ala leste da cidade, encostado s muralhas e recortado por um canal, aberto para ligar o lago
Mariotis ao porto martimo.
         -- Mas como acha que esse traficante pode nos ser til?
         -- Ele vai me prestar o servio essencial. Voc me vender a ele como escravo.
         -- Como escravo? -- estranhou Plix, sem entender minha inteno. Flor do Leste
arregalou os olhos.
         -- Infelizmente,  a maneira mais rpida de eu chegar a Roma, direto e sem escalas. Um
navio comercial a vela pode vencer o mar Interior em vinte dias. E essa rapidez que procuro.
         Ele se recuperou depressa do susto, ao compreender a lgica do meu plano.
         -- Voc deve estar mesmo com muita pressa, mas o que lhe garante que vai estar
seguro? Em seu estado, qualquer esforo poder lev-lo  morte.
         -- Eu sei,  arriscado. Mas os traficantes romanos costumam tratar bem seus escravos,
para que estejam em forma ao ser vendidos. Duvido que me recusem comida e descanso, pelos
menos at chegarmos a Ostia.
         O rapaz fez silncio por um longo minuto, observando a cidade mais abaixo e a
movimentao dos barcos que chegavam ao ancoradouro.  minha direita, vi que os olhos da
menina chinesa se enchiam de lgrimas, lembrando minsculas prolas reveladas em uma
concha.
         -- Ento  esse seu plano? -- perguntou Plix pela ltima vez.
         --  o nico que consegui conceber.
         Ele desceu do camelo.
         -- Est bem. Vou lev-lo a Alexius, ento. Acho que sei onde posso encontr-lo.
Ademais, acabei de me lembrar de uma coisa.
         -- Do qu?
         -- Meu pai certa vez pagou suborno aos legionrios, que no queriam deixar esse
Alexius entrar na cidade. No sei qual era o impedimento e no tenho noo de quanto ele deu
aos soldados, mas isso nos d uma vantagem. Aquele homem me deve um favor!
                                         BRUCHEIUM

         Ao trote altivo de Ibn-Hatar, segui a caravana, que continuou estrada abaixo,
contornando o lago Mareotis e se aproximando das muralhas da cidade. Aos poucos, Alexandria
acordava, e a temperatura esquentava nas cercanias externas.
         O comboio, com Plix  dianteira, atravessou o Porto do Sol, uma passagem larga e
bem guardada, aberta na muralha norte. Essa era a principal porta de acesso para os viajantes
que ali chegavam por terra.
         Passamos perto de um teatro romano, semelhante a um anfiteatro grego, recentemente
construdo, e continuamos pela avenida at o centro da cidade, onde a Via Canopica encontrava
sua mais famosa transversal, a Via Soma. Na praa entre as ruas, um batalho de comerciantes
negociava seus produtos ao ar livre. Muitos eram judeus, mas havia tambm nabateus e fencios
na feira popular. Os animadores aproveitavam a multido, e vi, em uma esquina distante, um
grupo de atores, provavelmente gregos, que improvisavam uma tragdia vestindo mscaras de
linho enrijecido.
         Plix, que caminhava  frente da caravana, veio andando at o corcel.
         -- Voc est bem?
         -- No posso dizer que sim. Nossa conversa na entrada da cidade me deixou esgotado.
Qualquer esforo enfraquece meus msculos, at mesmo um breve dilogo.
         -- Voc tem piorado -- o helnico buscou um cantil e um pedao de po na sacola de
alimentos e os ofertou a mim. -- Beba um pouco e coma este po. Tambm estou cansado, mas
precisamos procurar Alexius, j que sua misso no pode esperar. Os navios escravistas partem
todos os dias para Roma, e o traficante pode estar de sada.
         Demos a volta em uma esquina superlotada, onde um co vira-lata comia restos de
peixe na calada. Continuamos por uma rua mais calma, at que chegamos a um novo distrito.
Minha cabea girou sob o sol, e a mente ameaou apagar. Algum tempo se passou, at que
voltei a mim.
         -- Onde estamos? -- indaguei, zonzo.
         -- No Brucheium, perto do palcio -- respondeu Plix. Ele amarrou as rdeas dos
camelos a um descanso de madeira, que mais parecia uma cerca rstica, onde outros cavalos
bebiam gua de uma tina. -- Fique aqui. Vou tentar falar com Alexius, Se estiver em
Alexandria, este  o lugar certo para encontr-lo.
         Reparei, ento, que estvamos  frente de um edifcio baixo, mas largo, que ocupava
quase todo o quarteiro. Esttuas de bronze decoravam a fachada, recortada em todo o seu
comprimento por arcos de pedra em sequncia. Era uma construo romana, pois no existia
antes da invaso. Homens tagarelando em latim entravam e saam do prdio, desciam e subiam
as escadas, e conclu que aquele era um banho pblico, um espao de diverso muito popular
entre os estrangeiros, onde eles se lavavam com leo, conversavam e praticavam esportes.
         -- Se eu demorar,  porque encontrei o mercador. A caravana estar a salvo aqui. Esta 
uma das reas mais seguras da cidade -- garantiu o rapaz.
         Sem aguardar uma rplica, Plix deu meia-volta e galgou a escadaria, transpondo um
arco que levava aos jardins interiores, e depois s piscinas aquecidas. Nauseado, desmontei do
corcel e me arrastei at os degraus de mrmore, procurando me sentar. Flor do Leste se agachou
ao meu lado. A presena da pequena e o apreo que sentia por mim me ajudavam a suportar as
terrveis dores.
         -- Afinal, o que seria de mim sem voc, Flor do Leste? -- murmurei, abenoando sua
cordialidade.
         A menina me encarou com aqueles olhos midos e sorriu.


                       ALEXIUS    FLOR DO LESTE FAZ SUA ESCOLHA
        Duas longas horas se passaram, e o sol ascendeu no cu. Flor do Leste cutucou minhas
costas, indicando que Plix retornava pela escada. Estava acompanhado por um homem de
meia-idade, gordo, calvo e sem barba, que vestia uma toga prpura e comprida, feita de linho,
imitando a roupa dos senadores de Roma. Os olhos esbugalhados e a boca exageradamente larga
lembravam o rosto de um sapo, e a pele rosada sugeria a ascendncia europeia. Os dedos re-
dondos estavam preenchidos por anis, do polegar ao mnimo; no brao, exibia um bracelete
dourado. Ambos, Plix e o estrangeiro, exalavam um aroma de oliva, e conclu que o helnico
tinha tambm se lavado nos banhos, provavelmente para simular um encontro casual.
          Ao reconhecer meu comprador, levantei-me, mas meu estado precrio era visvel.
          -- Este  o brbaro de que lhe falei, Alexius -- disse Plix. -- Como v, ele est um
pouco enfraquecido, mas vai se recuperar rpido. J me foi muito til ao longo de minha
viagem.
          O mercador, um tipo cnico e devasso, olhou-me bem de perto, apertou-me os msculos
do brao e examinou meus dentes. No esboou nenhum interesse, ou pelo menos no o
demonstrou, mas notei que, malicioso, lanava um olhar sedento  menina.
          -- Enfraquecido? -- zombou Alexius. Sua fala era morosa, como o som dos anfbios a
coaxar nos pntanos. -- Ele mais parece um defunto!
          -- Est doente.  febre da Nbia. Em dez dias estar como novo.
          A febre da Nbia era uma enfermidade benigna, hoje extinta, causada por um
protozorio e transmitida pelos mosquitos. Afligia a vtima por trs semanas e depois,
subitamente, desaparecia. No era letal, e o repouso era o nico tratamento conhecido.
          -- Compreendo, compreendo -- replicou, sarcstico. -- E como encontrou um brbaro
germnico no meio do deserto? Ele  germnico, no ?
          -- Foi o que ele me disse -- explicou Plix, evasivo, e depois respondeu  primeira
pergunta. -- Comprei este escravo de um sacerdote em Mentis -- inventou. -- O clrigo me
garantiu que era letrado em latim, grego e aramaico. No princpio nem eu acreditei, mas depois
veio a provar suas capacidades.
          O romano explodiu em uma gargalhada.
          -- Um brbaro poliglota? Mas isso  um ultraje! O jovem no gostou da brincadeira.
          -- Voc pode comprovar isso pessoalmente, Alexius. O escravo est fraco, mas ainda
pode falar.
          O traficante suprimiu lentamente a risada,
          -- Muito bem, muito bem -- rouquejou, tomando as palavras do helnico a srio. --
Vamos ver se este traste serve mesmo para alguma coisa -- exclamou, voltando-se  minha
presena. -- De onde voc , forasteiro? -- falou em aramaico.
          -- Isso no  de sua conta, seu porco romano -- devolvi no mesmo idioma, simulando
uma reao agressiva. O gordo voltou a rir.
          -- Muito bom, Plix, muito bom! Gostei bastante deste seu amigo. E quanto supe que
eu deva pagar por ele?
          Plix coou o queixo, como se estivesse calculando um preo justo, mas eu sabia que
ele j tinha planejado tudo.
          -- Eu pediria cinquenta denrios,
          -- Cinquenta denrios! -- praguejou o mercador. -- Cinquenta moedas de prata
romanas? Voc  doido, meu jovem. Ele no vale nem dez!
          -- Mas  claro que vale -- contestou o grego. -- Mesmo que no tivesse as pernas,
ainda teria serventia como intrprete.
          -- Mas, por Jpiter, por que eu precisaria de um intrprete? Recebi um bom lote de
escravos da Numdia ontem, e meu carregamento est fechado. Vamos fazer o seguinte: eu
compro o brbaro por cem denrios. Seu pai e eu ramos amigos, e no vou deix-lo na mo.
          Plix franziu o cenho, parecendo no acreditar em sua sorte.
          -- Mas voc acabou de dizer que ele no vale nem dez -- resmungou, confuso. O
traficante sorriu. Tinha levado o vendedor ao ponto que queria.
          -- Eu pago o dobro pelo selvagem, mas quero levar a menina tambm -- afirmou,
apontando um dedo inchado para Flor do Leste.
          -- Ela no est  venda -- rosnei, em latim, e dessa vez minha fria era real. O
mercador me ignorou, esperando a resposta de Plix.
         Por um instante, o helnico ficou esttico, sem saber o que dizer. Olhou para mim,
como que suplicando uma salvao. Foi a que a pequena se agarrou ao meu brao, como que
avisando que no queria me deixar. O rapaz simplesmente no sabia o que fazer.
         -- E ento, garoto, o que me diz? Negcio fechado? -- exigiu o romano, triunfante.
         -- No sei -- vacilou. -- Ainda no sei se quero me desfazer dela.
         Uma liteira vazia, de cedro e marfim, carregada por quatro escravos morenos, vinha
cruzando a esquina.
         -- Pense nisso, menino. Pense bem. Meu navio partir amanh de manh. Encontre-me
na rea leste das docas se resolver fechar negcio.
         A liteira parou em frente ao gordo, e compreendi que aquela era sua conduo
particular.
         -- E no se esquea, fao isso em memria de seu pai -- sorriu, dissimulado.
         Os escravos agacharam-se, e o traficante meteu-se com dificuldade no aconchego.
Levou um tempo se revirando, at acomodar o corpo pesado entre as dobras de um coxim.
Depois, gritou uma ordem em latim, e os carregadores avanaram pela rua. Plix, Flor do Leste
e eu ficamos a observ-lo, at que seu squito fosse engolido pela multido.
         -- Aquele descarado me enganou direitinho -- reclamou o rapaz, -- Dez denrios foi o
que eu paguei s por este banho.
         --  o trabalho dele -- ponderei, j conformado. -- Infelizmente vou ter que pensar em
outro jeito de completar a viagem.
         Plix percebeu uma coisa que eu no havia notado.
         -- Voc sabe que ela no vai querer deix-lo, no ? -- sua expresso era dbia, um
misto de tristeza e alvio. Temia pelo destino da menina, mas consolava-sc ao lembrar que eu
poderia, assim, cumprir minha misso.
         Flor do Leste agarrou-se ainda mais forte ao meu brao, reforando as palavras do
grego. Comovido, ajoelhei-me e enfrentei seu rosto extico.
         -- No, Flor do Leste. Um navio escravo no  lugar para mulheres. Muito menos para
meninas. Voc vai para a Grcia com Plix.
         Ela aparentemente no se curvou  minha censura, recusando-se a soltar meu corpo. O
jovem grego no queria, mas sentiu-se na obrigao de esclarecer a verdade,
         -- Sem ela voc no vai sobreviver ao percurso pelo mar -- alertou, e se afastou em
silncio.


                                SABEDORIA E INTELIGNCIA

        Era incio de tarde e ainda nos restava um dia inteiro em Alexandria. Todos estavam
cansados e com fome, e procuramos uma boa estalagem para passar a noite. Plix, que conhecia
bem a cidade, foi ao comrcio. Pretendia trocar os camelos por uma carroa grande, de
preferncia puxada por quatro cavalos fortes. Com esse novo transporte, o jovem grego
planejava percorrer as estradas costeiras, atravessando o Egito, a Palestina e a Sria, para ento
alcanar a Antiquia.
        Assistido por Flor do Leste, no demorei a cair no sono. Durante o torpor, fui acometido
por pesadelos terrveis, que envolviam Zamir, Shamira, a Criana Sagrada e a minha misso. Os
sonhos persistiram por todo o perodo de sonolncia, at que Plix me despertou do delrio.
        --Acorde -- a voz continuava essencialmente a mesma, mas o timbre mudara desde
que ele emergira da catatonia.
        Abri os olhos e vi que a luz do sol entrava pela janela do quarto, aquecendo o aposento
quadrado. Pela posio e pela intensidade do raio, deduzi que ainda era de manh.
        -- Ainda  dia?
        --  dia de novo. Voc dormiu quase vinte horas.
        -- Perdi completamente a noo do tempo.
        -- Agora precisa se levantar. O navio de Alexius partir em uma hora.
         O porto de Alexandria era a real essncia da cidade. Tratava-se, de fato, de um dos mais
movimentados do mundo, e era impossvel no perder o flego ao ver os grandes navios
atracados no ancoradouro. Muitos deles eram naus romanas de comrcio, largas e fundas,
movidas avela. Mas havia tambm as galeras, com longas fileiras de remos, acionadas pek fora
de escravos. As embarcaes maiores e mais pesadas estavam estacionadas ao longe, ao fim de
compridos fundeadouros de madeira ou pedra.
         Plix me disse que conseguira a carroa, mas ainda no havia negociado a contratao
dos empregados. Por isso, ficaria mais trs dias em Alexandria, depois da nossa partida. Em
meio  confuso da rua, o jovem grego parou, e o inteligente alazo suprimiu o trote.
         -- Aquele  o navio de Alexius -- o rapaz indicou um imenso veleiro, com dois remos
de segurana na popa. -- J esto embarcando a carga.
         A carga era uma centena de escravos numdicos, homens fortes, de pele negra,
capturados na frica pelos legionrios romanos. A Numdia fora subjugada por Roma ainda nos
tempos da Repblica, mas os ferozes guerrilheiros continuavam a ameaar as legies, e assim
continuariam at os ltimos anos do Imprio.
         --  um navio a vela -- constatei, forando a vista para enxergar. -- Insula Major -- li
as letras grandes, escritas no casco. -- Quer dizer ilha maior em latim. No sei por qu, mas
esperava encontrar uma galera.
         -- Na certa preferem preservar a mercadoria, por isso no pem os escravos para remar.
Voc mesmo previu esse procedimento.
         Concordei com um gesto e desmontei do cavalo, esforando-me para me sustentar de
p. Esticando o corpo, vi a beleza do mar que delineava o cais e observei, com deleite, as vrias
tonalidades de azul, que indicavam as diferentes profundidades da costa. Mais distantes,
abraando a enseada, estavam a ilha de Faros e a altssima torre do farol.
         Um homem gordo, de aparncia anfbia, acabara de deixar a plataforma e enfiava-se na
confuso da rua. Estava acompanhado por um segundo homem, um tipo carrancudo, cuja pele
clara fora duramente castigada pela exposio diria ao sol. Tinha a barba por fazer, portava um
gldio na cinta e levava na mo um porrete de madeira. O cabelo negro era curto e espetado,
combinando com os fios ralos da barba.
         --  Alexius! -- reparou Plix. -- Est vindo para c, acompanhado de um capanga.
         O aroma de oliva, que o romano exalava ao deixar os banhos, no dia anterior, sumira
por completo, e agora cheirava a carne de porco e vinho barato. O estrangeiro estampou um
sorriso cobioso ao ver o rapaz e a pequena chinesa.
         -- Ento, garoto de Atenas, decidiu-se? -- perguntou o traficante, irnico, como se
estivesse contando uma anedota.
         -- Cem denrios -- lembrou Plix. -- Foi o nosso acordo.
         O gordo olhou para o homem carrancudo atrs dele e sorriu, cnico. Tivemos a
impresso de que os dois trocavam expresses combinadas, e fiquei atento ao imprevisvel.
Houve um curto instante de tenso, ento o romano falou:
         --  lgico! Cem moedas de prata -- abriu a mo, e de pronto o guarda-costas lhe
entregou um saco de couro surrado, supostamente cheio de dinheiro. -- Aqui est -- Alexius
passou a algibeira a Plix. -- Voc ouvir falar muito de mim, menino, mas nunca que sou
desonesto.
         Era, obviamente, uma piada de mau gosto. O rapaz conferiu o pagamento, verificou que
estava completo e sinalizou uma afirmativa com a cabea.
         -- Muito bem. Est tudo aqui. Eu j levo os dois escravos para o barco.
         -- No se d ao incmodo. Cassius da Calbria cuida disso para voc -- com o polegar,
o traficante indicou o segurana. O homem adiantou-se, erguendo o porrete, mas Plix o fez
parar com um comando enrgico.
         -- No! Eu disse que eu mesmo os levarei.
         Alexius quase se assustou com o protesto, mas sentia-se seguro  guarda do
brutamontes. Sorriu, um pouco nervoso, e enfim cedeu.
         -- No demore. Vou comprar uma nfora de vinho e depois o barco vai zarpar. Se fugir
com o dinheiro, eu o encontrarei nem que tenha que subornar cada legionrio nesta cidade.
        --Voc ouvir falar muito de mim, mas nunca que sou desonesto -- rebateu, ironizando
as palavras levianas do traficante.
        Alexius no respondeu. Deu as costas e embrenhou-se no mercado.
        --  possvel que voc tenha problemas no navio -- advertiu-me Plix.
        -- Posso imaginar.
        Ele olhou para mim e depois para a menina chinesa, enrolada em seu quimono
descolorado. Ps a mo em meu ombro, em um gesto de afeio.
        -- Obrigado -- disse apenas. -- Obrigado por tudo.
        Apertei-lhe a mo.
        -- Eu  que tenho a agradecer, meu amigo. Sua sabedoria me trouxe at aqui. Sua
sabedoria e a inteligncia de Flor do Leste. E tambm a fora de Ibn-Hatar -- creditei,
acariciando com leveza os pelos vermelhos do animal. -- Todos ns tivemos nossas provaes
e as superamos. At mesmo aqueles que morreram na viagem.
        -- Eles cumpriram seu destino -- completou o rapaz, fatalista.
        -- Prefiro dizer que cumpriram sua misso. S a minha continua pendente.
        -- Em breve estar na Cidade Eterna, e sua demanda ser encerrada.
        Com um giro de corpo e um impulso no estribo, o rapaz montou o corcel,
como poucas vezes o fizera. Acomodou-se na sela e tomou as rdeas. O sol caminhava para
oeste. Era hora de partir,
        -- Voc conhece o caminho at o navio -- apontou o undeadouro de madeira. -- No
creio que precise escolt-lo.
        -- O traficante no vai gostar de nos ver sozinhos, chegando ao barco como turistas.
        -- Esse escravocrata precisa aprender que nem sempre est no comando de tudo --
decidiu. -- Adeus, meu bom brbaro. Pedirei aos deuses que olhem por voc.
        -- Eu no exigiria tanto -- agradeci.
        -- Espero que um dia volte a encontr-lo.
        -- Acho pouco provvel, mas nem por isso impossvel -- eu conhecia a ameaa que
perseguia os renegados e preferi no alimentar reencontros.
        -- Farei uma oferenda a Atena para que o abenoe com uma longa e gloriosa vida.
        As palavras de esperana do helnico me contaminaram, e por um momento, em meu
corao, a vontade de viver superou o desprezo pela morte.
        -- Tomara que sim -- repliquei, satisfeito.
        Com um aceno, Plix deixou o porto, e vi a sombra rubra do alazo pela ltima vez.
Apertei firme a mo de Flor do Leste e caminhei para a plataforma.
        -- Agora somos s ns dois, pequenina.


                                       INSULA MAJOR

        O Insula Major era um navio poderoso para a poca, mas minsculo para os padres
modernos. Tinha trinta metros de comprimento e oito de largura, com o casco profundo,
deixando espao para um amplo poro. Tinha um mastro principal, alto, e outro menor, fixo 
proa. As velas haviam sido tingidas de vermelho, mas a cor j desgastara. Na parte de trs havia
um pequeno tombadilho, sobre uma cabine modesta, e na popa os marceneiros prenderam uma
figura de cedro, que imitava o pescoo de um cisne.
        Quando Flor do Leste e eu subimos a ponte que levava ao convs, pudemos ver a
tripulao e os marinheiros. Eram morenos e geis, e supus que fossem fencios. Os fencios
eram comerciantes espertos, famosos por navegar com destreza por todo o Mediterrneo. No
havia, em todo o mundo civilizado, marujos de igual percia. Dentre eles, distingui cinco
homens de semblante europeu, fortes e mal-encarados, que chutavam os numdicos e os
empurravam de encontro  mureta. Um deles era o guarda-costas de Alexius, o tal Cassius da
Calbria. Percebi, ento, que no eram realmente marinheiros, e sim feitores, que preparavam os
grilhes para prender os escravos.
         Minha chegada despertou pouco interesse. Ningum imaginava que a pequena chinesa e
eu fssemos escravos, at que ouvi os passos do feitor se aproximando por trs e senti que um
ataque se aproximava. Agachei o corpo, e um porrete de bano zumbiu sobre minha cabea. No
instante seguinte, o brutamontes passou a meu lado, desequilibrado pelo golpe perdido -- era
Cassius, o chefe dos capangas. Virei-me de frente para ele, protegendo Flor do Leste com o
corpo. Ele tentou uma nova investida, mirando um soco no estmago, e dessa vez no me
esquivei. Sabia que isso o deixaria ainda mais agressivo.
         O impacto atingiu o abdome, e desabei de joelhos. Em circunstncias normais, um
murro daqueles no me afetaria, mas a ao do veneno reduzira por completo minha resistncia.
Antes que pudesse me levantar, Cassius desferiu-me uma joelhada no rosto, e ca a nocaute.
Senti que dois outros feitores me levantaram pelos braos, e o brutamontes afundou-me mais
duas pancadas nas costelas.
         -- Quero que saiba, de antemo, que meu irmo era um legionrio romano, que morreu
emboscado por uma horda de brbaros na Glia -- Alexius devia ter-lhe avisado que eu era
germnico, conforme Plix o dissera. A Glia e a Germnia eram regies distintas, mas os
italianos consideravam brbaros todos os estrangeiros. -- Esteja certo de que farei de tudo para
que esta seja a pior viagem de sua vida.
         Ele fez um sinal aos outros capangas, que me atiraram aos ps dos numdicos. Com a
viso embaada, tentei procurar Flor do Leste e logo senti sua mo pequena agarrando meu
brao. O navio comeou a vacilar, e o toque de um sino anunciou a partida.
         No meio da tarde, o Insula Major atingiu mar aberto, deslizando sublime sobre o manto
nutico, e finalmente os marujos tiveram descanso. Alexius saiu da cabine e subiu ao
tombadilho. Sentou-se em uma cadeira de cedro e olhou com firmeza para os escravos,
preparando-se para proferir seu discurso. Aguardou, porm, um outro homem chegar, um
marinheiro de meia-idade, robusto, de expresso sria, provavelmente fencio. No vestia
camisa, apenas um espesso colar de ouro, uma cala larga tingida de verde e um leno vermelho
na cabea.
         -- Muito bem -- vociferou Alexius aos escravos, em latim --, no sei se todos falam a
minha lngua, mas pelo menos alguns entendero o que digo. Levaremos trinta dias para chegar
a Roma, onde sero vendidos. Alguns trabalharo na lavoura, outros passaro a vida na calmaria
domstica, e os mais fortes sero encaminhados aos jogos. Vocs so a minha mercadoria, mas
no hesitarei em me livrar de todos, se for preciso. Portanto, se souberem se comportar, em
trinta dias podero ver a Cidade Eterna e tero uma nova vida de paz e trabalho. A outra opo 
a morte -- e enfatizou essa ultima palavra. -- Ficaro confinados no poro por toda a viagem e
tero gua e comida. O capito Epidicus de Tiro -- e apontou para o fencio mais velho, que
permanecera calado no tombadilho -- talvez precise treinar alguns de vocs para ajudar na
navegao. Os voluntrios tero privilgios.
         Quando Alexius terminou, os fencios abriram um grande alapo, bem no meio do
convs, e os feitores comearam a empurrar os escravos l para dentro, com violncia inumana.
O buraco levava ao poro e tinha dois metros de altura. Alguns caam de mau jeito e
machucavam as pernas. Eu j me preparava para pular, com Flor do Leste nos braos, quando
escutei a voz morosa do traficante:
         -- Voc desce, brbaro. A menina ficar em minha cabine.
         Cassius tentou tomar a garota dos meus braos, mas me esquivei e a pus no cho, em
segurana. O brutamontes se animou, porque aquilo justificaria uma nova sesso de pancadas.
         -- A coragem dos brbaros  ultrajante -- desdenhou o gordo, enquanto o grandalho
erguia o cassetete. A dureza do bano atingiu minha testa. Cambaleei para o lado, mas
permaneci de p.
         -- Ele  persistente -- constatou o calabrs, e com um chute acertou-me o joelho. Um
outro golpe alcanou-me a nuca, e tombei. Uma vez no cho, fui alvo de muitos pontaps,
desferidos por mais de um inimigo.
         Quando pararam, vi que Cassius puxava Flor do Leste pelo brao. A brutalidade do
capataz fez ferver meu sangue, e minha natureza de querubim empurrou-me ao ataque.
Reunindo a pouca energia que ainda me restava, levantei-me cruzei a rea ameaada pelos
feitores e investi contra Cassius com um soco. O murro estourou em seu peito, e o grandalho
foi atirado para longe. O corpanzil chegou a elevar-se do piso, e caiu rolando nas tbuas do
convs, para ser detido pela amurada do barco.
         Fez-se um silncio medonho, e Alexius deu um passo para trs, com os olhos
esbugalhados quase saltando para fora. Um marinheiro ajudou Cassius a se levantar, e ele se
escorou em um cabo de sustentao das velas, tossindo para recuperar o flego.
         O susto se extinguiu como um raio, e os homens do mar superaram o espanto. O
traficante, ainda alarmado, apontou-me um dedo inquisidor:
         -- Cela dos rebeldes! -- ordenou aos feitores. -- Os dois!
         No me opus quando trs capangas e quatro marujos me arrastaram para a proa. Um
quarto homem conduziu Flor do Leste. Na parte superior da proa, um metro antes do bico, dois
marinheiros abriram no cho um alapo gradeado, que dava acesso a um compartimento
minsculo. Fora feito, imaginei, para conservar a ncora quando o navio estivesse em curso,
mas seu propsito mudara, passando a ser utilizado como solitria para os escravos mais
perigosos.
         -- J que querem ficar juntos, a ficaro -- sentenciou o mercador --, e que apodream
neste poo imundo.
         Os capatazes nos empurraram para o buraco e fecharam a grade sobre nossa cabea,
com um espesso trinco de ferro. L de dentro, abaixo da linha do piso, vi Alexius no convs,
cuspindo no cho e dando uma ordem inflamada aos se-guranas:
         -- Trs dias sem gua e comida. Depois disso, se estiverem vivos, vamos ver o que
faremos com eles. Se o brbaro morrer, quero que me tragam a garota.
         -- O brbaro deve morrer antes dela, patro. Est nas ltimas -- comentou um homem
qualquer.
         -- Nessas condies ele perece em dois dias -- devolveu Alexius. -- Conheo bem a
resistncia desses selvagens, e no  infinita -- coaxou e deixou o castelo de proa.
         Desanimado, abracei Flor do Leste. Sentado, minha cabea roava na grade, e me sentia
espremido como massa de po. No havia como me levantar.
         -- Trs dias sem comida... -- lamentei em voz baixa, para s a chinesa escutar.
         Ela fez um sinal de silncio, como se ocultasse um segredo. Esperou alguns segundos e,
quando viu que no ramos mais observados, abriu a mochila, mostrando-me algumas sementes
de rom que guardara enroladas num pano. Tambm tinha um pouco de gua em um cantil,
alm das ervas e dos aparatos me dicos que comumente levava.
         -- No sei se isto vai dar para ns dois, pequenina, mas obrigado -- sorri. Ela fez uma
expresso otimista, e assenti. Em meio ao balanar do navio,
abracei-a ainda mais forte, porque a tarde ia caindo, e um vento gelado castigava o navio.


                                  MORTE EM ALTO-MAR

         Trs longos dias se passaram, durante os quais fomos espiados de perto por um homem
armado de porrete e espada. No vi mais o rosto de Cassius, embora tivesse pensado,
inicialmente, que ele prprio nos vigiaria.
         As noites se tornavam mais frias  medida que nos afastvamos do continente c nos
embrenhvamos na isolao marinha. Presos no compartimento da proa, Flor do Leste e eu
recebamos as lufadas mais geladas da madrugada primaveril, e meu vigor renovado, restaurado
pelo tratamento de ervas, minguou-se novamente.
         No terceiro dia, a despeito das sementes de rom, desfaleci duas vezes. Passei a noite
imvel, to esgotado estava meu corpo. Foi ento que, na manh do quarto dia, ouvi os
capangas conversando. Apostavam uns contra os outros que eu j estava morto e, conforme
ordenado, abriram a cela para retirar Flor do Leste. Ouvi o trinco correndo, mas no pude reagir
de imediato. O guarda que nos vigiava era mais jovem que Cassius, mas dotado de igual
crueldade. Forte c alto, rinha cabelos loiros e curtos, e a barba malfeita lembrava a de seu dire-
tor. Os marinheiros o chamavam de Titus e, apesar de esse nome ser tipicamente romano, eu
no tinha certeza se era mesmo de Roma. O feitor levantou o alapo e puxou a menina pelo
brao. Ela procurou reagir, mas estava fraca. Ttus a arrastou para o convs, sem muita
dificuldade. Mais uma vez, tentei me erguer, mas ainda no conseguia uma resposta dos
msculos.
        -- Ela se debate como um inseto -- ouvi o guarda dizer, com uma gargalhada to
sonora quanto perversa.
        Um sujeito estufado, apelidado de Olho de Peixe, perguntou em latim:
        -- E o brbaro? Morreu, afinal?
        Titus, ainda imobilizando a garota, espiou novamente o buraco, bem no instante em que
eu levantava a cabea. No fui capaz de distingui-lo de pronto, em meio  desordem que me
nublava a mente.
        -- Quase, Olho de Peixe, quase. Vou dar cabo do miservel de uma vez. Depois
podemos nos divertir com a menina.
        Enquanto me erguia, escorando-me sem rumo nas paredes sujas da cela, Titus passou a
pequena  guarda de um segundo feitor, que a travou com os braos possantes. Meu esforo foi
poupado quando o capanga me arrancou para fora, com um puxo. Um golpe de basto explodiu
em minhas costelas. Olhei ao redor, mas nada avistei, apenas um borro vacilante. Escutei,
porm, os gritos dos marujos, excitados por assistir  peleja.
        Um outro impacto assaltou-me a cabea, perto do ouvido, e segurei-me  amurada, para
no esmorecer outra vez.
        -- Esse brbaro no sangra? -- berrou algum, sedento pelo linchamento.
        -- No o poupe, Titus! -- incentivou outro.
        -- Queremos o sangue do selvagem! -- esbravejou um terceiro.
        Estimulado por to inflamada torcida, o capanga apertou-me o pescoo e sacou o gldio
da bainha. Notei que a espada tinha o escudo do exrcito, ento deduzi que fora roubada de um
soldado cado.
        Titus julgou que eu estava indefeso e preparou o golpe de misericrdia, planejando
cortar minha garganta. Quando desferiu o ataque, porm, inclinei a cabea para trs, e a lmina
rasgou-me o queixo, provocando um ferimento superficial abaixo da boca. O sangue pulou para
fora, manchando de vermelho a face e o peito do guarda. Nunca uma arma ordinria tinha me
causado tamanho flagelo, e entendi, com irnico desgosto, que minha vida estava prestes a ser
ceifada por um mortal, cuja espcie sempre jurei defender.
        Mas um fato inesperado ocorreu. Um segundo aps o assalto, Titus largou o gldio e,
apavorado, comeou a esfregar o prprio rosto. Forando a vista, vi que ele se afastava,
respirando com extrema dificuldade. A face fervia e a tez borbulhava, deixando escapar uma
fumaa esverdeada, no natural. Os marujos e feitores abriram um crculo em volta dele,
impressionados demais para tocar o ferido.
        Quando Titus se ajoelhou, plido e ofegante, com os olhos virados e o nariz deformado,
compreendi o que se passava. O sangue que esguichara em seu rosto, o meu sangue, no era
normal. Outrora tivera a propriedade da longevidade eterna, mas agora estava contaminado. A
peonha de Mai Yun se agitava em minhas entranhas, e era isso que me tornava to fraco. O
veneno j causara a runa de muitas entidades e acabara de atingir a pele de um ser humano.
        O capanga que segurava a menina a liberou, meio abstruso, e ela, esperta, valeu-se da
apatia dos guardas para se agachar e encher o cantil em um balde de gua doce, ainda intocado,
que seria usado para lavar o convs.
        Quando Titus tombou com a cabea no cho, a pele da face esfacelara-se em sangue,
expelindo uma mistura nojenta de pus, carne e ossos. Ele parou de gemer, e a agonia cessou.
        O italiano estava morto.
        O terror dos homens converteu-se em averso destrutiva, e eles tomaram todas as armas
que podiam -- varas, correntes, ganchos -- e ameaaram avanar. Imediatamente, peguei do
cho um pedao de pano e o pressionei contra o ferimento, tencionando deter a hemorragia.
Seria inconcebvel que Flor do Leste, ou qualquer outro, tivesse contato com meu sangue
mortal.
        Diante da ferocidade dos tripulantes, que fechavam um cerco  minha volta, decidi que
a opo mais segura seria voltar para a cela.
        -- Venha, Flor do Leste -- gritei em mandarim, com a mo direita estendida, enquanto
a esquerda segurava o curativo.
        Ela tampou o cantil de pele e correu para junto de mim. Por fim, retrocedi ao buraco,
fechando eu mesmo a grade do alapo. Um marinheiro cerrou o trinco e no vi mais ningum
pelo resto do dia.


                                ROMA, A CIDADE ETERNA

         O dia seguinte  morte de Titus amanheceu chuvoso, e ouvi os supersticiosos culparem
o mau humor de Netuno, o deus dos mares, a quem os navegantes prestavam sacrifcios.
         -- Netuno deve ter tido uma indigesto com o presente de ontem -- murmurou algum,
referindo-se  carcaa do morto, que fora lanada s guas.
         Encerrado na cela, eu j comeava a planejar um meio de conseguir comida, uma vez
que nossas provises -- as sementes de rom -- tinham acabado. Considerei a possibilidade de
negociar com Alexius, mas era improvvel que ele me recebesse -- e, se o fizesse, o que pediria
em troca? Flor do Leste, por sua vez, deixara claro, por sinais, que prefereria morrer a ser
entregue quele homem depravado.
         Nossa situao, contudo, se inverteria rapidamente.  hora do almoo, algum
empurrou duas vasilhas para perto da boca do alapo. Era um escravo africano que
provavelmente se oferecera para trabalhar. Entendi, ao ver o condenado, que os feitores
italianos e os marujos fencios preferiam manter uma distncia segura de ns,
         O numdico abriu o trinco e tomei as vasilhas. Nelas havia gua, peixe e um pedao de
po. Uma refeio modesta, mas veio em boa hora. Dividi a poro com a menina e depois
devolvi os recipientes de barro, colocando-os para fora da grade. Dali em diante,
surpreendentemente, todos os dias seguiriam a mesma rotina.
         No sei muito bem quem tomara a deciso de nos alimentar, mas talvez tenha sido uma
ordem de Alexius, procurando evitar um novo escarcu. Os marinheiros e capangas, aps o
tumulto, espiavam-nos com um respeito odioso e um medo colrico. Talvez o traficante ainda
pensasse em nos vender; talvez o capito tenha conversado com ele; talvez os marujos no
quisessem nos entregar a Netuno... E impossvel dizer. No sei at hoje por que fomos
poupados,
         O ferimento no queixo sarou rpido, e me sentei sobre o pano, deixando o pedao sujo
de sangue bem longe de Flor do Leste. Os dias correram, e assim a primavera avanou.


        Foi em uma manh quente de abril, quando todas as nuvens se dissiparam, que o Insula
Major aportou em Ostia, o principal porto romano daqueles dias. No vi quando o navio
atracou, mas despertei ao ser retirado da cela por escravos numdicos, que j se vestiam  moda
romana, com togas curtas e desgastadas, Alexius estava de p, no convs, mais arrogante do que
nunca, uma vez acolhido por sua ptria natal.
        --  melhor andar na linha, brbaro -- grasnou o escravista. -- No vai conseguir
enganar mais ningum com esses seus truques de fuga, ento no se faca de esperto -- e fez um
sinal para os carregadores. -- Levem-no para a barcaa -- ordenou, e murmurou para um
guarda que o escoltava:
        -- Vou tentar pass-lo adiante, O grego que me vendeu esse selvagem disse que ele
tinha febre da Nbia. Febre da Nbia... Devo ter cara de idiota.
        Ainda s escuras, percebi que era carregado pelos negros para outro barco,
supostament menor, que subiria o rio Tibre e chegaria a Roma. Havia perdido quase
completamente a viso, o olfato e a audio, e minha barba estava to grande e suja quanto a
dos pedintes na sarjeta. Mas restava-me o sentido do tato, e a presena de Flor do Leste provou-
se constante por todo o percurso, o que me deixou mais confiante e tranquilo.
        Roma, a Cidade das Sete Colinas. No pude t-la  vista ao ser levado pelo rio, pois o
veneno enegrecera-me os olhos, ento tentei formar uma imagem em minha mente, A Cidade
Eterna havia se expandido incrivelmente desde o dia em que eu a deixara, nos ltimos anos da
antiga Repblica. Roma agora tinha um imperador, Csar Augusto, que erguera grandes
monumentos e sales suntuosos. Augusto, segundo suas prprias palavras, encontrara uma
cidade de pedra e a convertera em uma cidade de mrmore. Sob sua administrao, a capital
alcanou inigualvel esplendor
         Ao morrer, em 14 d.C., o soberano deixaria um legado espetacukr  posteridade.
Construra novos templos, bibliotecas, teatros, banhos pblicos e aquedutos, essenciais para
trazer a gua das montanhas  cidade, e para abastecer o sistema de esgoto. Mas no foi s no
campo da engenharia que ele se destacou. Augusto foi, de fato, o primeiro imperador romano, e
governou com inteligncia e prudncia. Desenvolveu um aparato burocrtico que o permitiu
controlar e organizar todos os aspectos da vida pblica, na capital e nas provncias conquistadas,
na frica, na Europa e no Oriente Mdio. Estabeleceu, por fim, a paz, e com isso pde dedicar-
se ao povo de Roma. Criou uma brigada para combater os incndios, que eram um srio
problema em uma cidade to populosa. Montou uma fora metropolitana para conter focos de
crime e desordem e instituiu uma tropa pessoal, a famosa guarda pretoriana, um peloto militar
de elite que guardava a misso de defender o imperador e os interesses do Estado. Facilitou o
comrcio, fundando mercados prticos e bem localizados, e idealizou um sistema de
distribuio de gros para alimentar os mais de dois milhes de habitantes que viviam na
metrpole.
         Alguma coisa bloqueou os raios do sol, e conclu que estvamos passando, de barco,
sob um arco de pedra, atravs de um tnel curto e largo que cruzava o Muro de Srvio, a
muralha principal que delimitava a cidade nos tempos de Augusto. O muro era recortado por
dezessete portes, e todos eles levavam a um emaranhado confuso de ruas, a maioria muito
estreita. Um estrangeiro facilmente se perderia sem o auxlio de um guia, especialmente  noite.
         No muito longe do arco sobre o Tibre, situava-se o Emporium, o maior porto fluvial da
cidade, Outrora um modesto entreposto comercial, a rea se desenvolvera durante a Repblica,
e cem anos depois seus agitados complexos de armazns j se espalhavam por um quilmetro 
volta do cais. O Emporium era frequentado por compradores abastados, e ancorar por ali
significava lucro rpido. Todavia, como em todo lugar em que h dinheiro, havia ladres ali, e
por isso os mercadores se cercavam de uma comitiva de brutos, munidos de porretes, facas e
armas improvisadas -- os cidados comuns eram proibidos de trafegar armados pelas ruas de
Roma, de acordo com uma lei que datava dos tempos de Jlio Csar.
         Quando dei por mim, j estava novamente de p, sobre um tablado, ao lado de dezenas
de escravos que esperavam por seus lances. Algum amarrara meus punhos a um mouro
rstico, quase um tronco, imobilizando-me tambm pelas pernas e a cintura. Flor do Leste
estava presa no mesmo esteio, mas apenas seus braos foram atados.
         L de cima, vi que havamos sido levados para um mercado aberto, uma praa de
comrcio ampla e movimentada no meio do complexo de armazns. J passava das quatro da
tarde, hora em que as lojas reabriam aps o descanso que se seguia ao almoo.
         Eu conseguira. Enfim estava de volta a Roma, e ainda vivo. A primeira parte de minha
misso fora cumprida. A casa de Shamira no ficava muito longe, e tudo o que eu precisava
fazer era ir at l e encontr-la. Mas, depois de toda aquela jornada, depois de atravessar meio
mundo e enfrentar espritos e anjos, eu no tinha mais foras para caminhar um metro sequer.
S me mantinha erguido graas  corda que me colava  estaca. O veneno, agora, cercava o
corao, e meu tempo de vida reduzira-se a poucas horas.
         Eu cruzara selvas, montanhas, desertos e mares, mas no podia atravessar a cidade.
         Os planos de Zamir se fechariam em breve. E eu no podia mais alter-los.


                                     NEGCIO FECHADO

      A tarde avanou.
      Sobre o tablado, Alexius comeou a negociar a venda dos escravos, um por um, com os
compradores na calada. Os lances geravam discusses acaloradas, que em muitos outros
lugares terminariam em pancadaria. Em Roma, porm, a gritaria era parte do negcio, e
ningum se importava de ser insultado se no final sasse no lucro.
         Os numdicos foram sendo arrematados, at que um homem berrou:
         -- E aquela menina ali, ao lado do louro... Quanto est pedindo por ela?
         Olhei a praa lotada e vi um sujeito de barba preta, peludo, muito gordo, escoltado por
um escravo de tez negra. Vestia um manto branco, solto e pregueado, sobre a tnica de linho.
Puxava, por uma corrente, um pequeno animal saltitante, que  primeira vista me pareceu um
macaco.
         -- Esta pequena foi capturada de uma companhia itinerante do Oriente -- mentiu
Alexius. --  a melhor danarina do leste e muito versada em orgias. O preo que peo por ela
 1.500 denrios.
         Para minha surpresa, o comprador no se assustou com a exorbitncia da oferta. Em vez
disso, a expresso enrugou-se em um sorriso blas.
         --  justo, o preo  justo -- acedeu o barbudo. -- Mas no d para confiar em voc,
Alexius. Uma vez me vendeu um grego que mal sabia escrever.
         Alexius fingiu irritar-se. Continuava controlado por dentro, mas no era agradvel ser
difamado na frente de outros clientes, ainda mais no Emporium.
         -- Voc me devia dois cavalos na ocasio -- defendeu-se.
         -- O que no justificava sua perfdia. Voc sabia que eu o pagaria cedo ou tarde... --
rebateu, indiferente. -- Mas voltemos  barganha. Pago oitocentos denrios pela garota, nada
mais.
         -- Assim voc me leva  falncia, Merula -- o traficante chamou o comprador pelo
nome e, somando isso  contenda sobre os cavalos, deduzi que j se conheciam de longa data.
-- No posso vend-la por menos de 1.300.
         -- Ora, abra os olhos, gorducho! Ningum vai pagar tudo isso por uma rapariga
imunda. S eu daria um lance alto por ela, ento aceite os meus oitocentos denrios e d-se por
satisfeito. Voc j est com o bolso cheio de moedas -- e apontou para o tablado quase vazio,
antes repleto de escravos.
         Alexius sentiu-se impelido a ceder, mas preferiu arriscar um ltimo golpe de lbia:
         -- Fechemos assim: voc me paga mil denrios e leva o brbaro junto.
         Um terceiro comprador, que at ento se mantivera calado, meteu-se na transao:
         -- O brbaro ento vale duzentos? -- a pergunta sbita atrapalhou o raciocnio de
Alexius, que se complicou ao replicar.
         -- Sim... Duzentos denrios.
         O terceiro homem chegou mais perto, apalpando uma algibeira de moedas. Apesar do
cabelo grisalho, era forte, vigoroso e tinha porte de soldado, o que me fez crer que era um
oficial aposentado. Estava acompanhado por dois escravos gregos, rapazes entre 18 e 20 anos.
         -- Eu compro o selvagem -- decidiu o militar, apesar do alto preo por um homem
enfermo.
         O tal Merula esbaldou-se. Voltou-se para Alexius com um ar de jbilo.
         -- Pelo que vejo, a matemtica  minha aliada -- zombou, pressionando o escravista a
aceitar seu lance.
         O mercador no perdeu a pose, embora derrotado.
         -- Novecentos denrios! -- insistiu. -- E nossa ciznia estar resolvida.
         O barbudo j preparava o dinheiro, quando uma voz feminina se precipitou sobre todas
as outras, pondo fim  permuta.
         -- Esperem. Interrompam a venda! Pago dois mil denrios pelos dois. Tenho o valor
aqui em espcie.
         Nem sempre a compra era feita em moedas. Contratos de comrcio estabeleciam uma
dvida, a ser liquidada ao longo de meses ou anos. Muitos escravos em Roma eram, ou haviam
sido, devedores inadimplentes, condenados a saldar o dbito com a prpria liberdade.
         -- Viva o lucro! -- regozijou-se Alexius, invocando um mote clssico do comrcio
romano, frequentemente gravado em placas e afixado nas paredes das lojas.
         Quando a mulher se achegou ao tablado, a multido abriu caminho, tamanha era sua
presena. Sem a ajuda de homem ou escravo, subiu os degraus do estrado e entregou uma bolsa
de dinheiro ao escravista. Os compradores se calaram, parados a admirar sua beleza. A pele
clara e os cabelos negros davam um formidvel contraste  aparncia sensual, O caminhar era
decidido, e cada passo realava suas curvas perfeitas. Trajava uma stola, uma tnica comprida,
usada pelas mulheres ricas, sobreposta por um manto negro de linho.
        A moa encostou-se ao mouro e com uma faca rompeu a corda que me segurava 
estaca. De soslaio, notei que aquela no era uma faca ordinria, mas uma adaga ritual, usada
pelos feiticeiros cm suas cerimnias. Desabei ao ser liberto, e teria me estatelado no piso se a
mulher no tivesse me amparado. Cautelosa, ela envolveu minha cabea nos braos delicados, e
pude sentir o doce aroma de sua pele. Foi ento que a reconheci.
        -- Shamira! -- balbuciei, com a voz se acabando em um gemido.
        Era ela, a Feiticeira de En-Dor. De incio, no acreditei que a sorte novamente me
brindara. Sozinho, eu no conseguiria caminhar at sua casa, do outro lado. da cidade, muito
menos fugir dos feitores, ento abenoei a feliz coincidncia, que depois vim a saber que no
fora casual.
        -- Shamira... Como me encontrou? Nesta cidade to grande...
        -- De alguma forma, pressenti que voc corria perigo. Enviei espritos espies em seu
encalo, mas eles no podiam atravessar o mar, ento deixei alguns em viglia no porto de Ostia
c cm outros lugares da Itlia. Eu tinha a esperana de que voc voltasse a Roma, porque sabia
que ainda estava vivo. Hoje cedo, um dos espectros me avisou que o Anjo Renegado havia
desembarcado de um navio escravo c era trazido para a Cidade Eterna.
        Flor do Leste esfregou os punhos para aliviar a dor do cabo que a prendia, e a feiticeira
reparou na pequena. No era difcil concluir que a menina e eu havamos estado juntos por toda
a viagem. Alm disso, os espritos deviam ter alertado sobre a jornada rio acima.
        -- Seus olhos so poderosos, menina -- afirmou Shamira, reconhecendo o valor da
garota. --  uma das filhas de Shang?
        Esse cl chins, eu soube depois, foi o primeiro a governar a China, at ser derrotado
pelos guerreiros de Zhou, em 1122 a.C. Os reis Shang desenvolveram a escrita ideogrfica e,
segundo os antigos, tinham o poder de falar com seus antepassados por meio dos ossos-
orculos, um conjunto de varinhas marcadas por inscries msticas. Eram dotados de
mediunidade mpar e de inteligncia avantajada.
        Flor do Leste respondeu  pergunta de Shamira com um aceno de cabea, e a feiticeira
entendeu que ela no podia falar, por causa da lngua cortada.
        Subitamente, minha cabea tombou para frente, e explodi em uma tosse hemorrgica.
Gotculas de sangue precipitavam-se pela garganta, e cuspi uma mistura de saliva e plasma no
assoalho do estrado. Em uma ao instintiva, Shamira sacou um leno de pano e fez meno de
pression-lo contra minha boca, mas eu a impedi.
        -- Este sangue  mortal -- murmurei, lembrando-me do triste fim do capanga no barco.
        -- Eu sei -- ele devolveu, fitando a ndoa vermelha que manchava o tablado. -- Mas
no h perigo; estou sob um encantamento de proteo -- explicou.
        Dito isso, limpou o filete que escorria pelo canto da minha boca e analisou o sangue
com os dedos. Sua expresso encrespou-se, e ela se deu conta da gravidade da situao,
        --  veneno! Veneno de esprito. Voc no resistir por muito mais tempo. Tenho que
lev-lo  minha casa. Talvez ainda possa salv-lo.
        -- No! -- protestei, recordando-me do motivo que me trouxera a Roma. -- No,
Shamira. No devemos voltar... Escute... -- eu mal podia falar. -- Zamir, o velho mago de
Babel, Ele no morreu no Mar de Rocha, continua ativo. Foi ele quem armou essa cilada para
mim, e agora est atrs de voc. Pelo que soube, foi esse maldito invocador que assassinou
Drakali-Toth e os outros mestres feiticeiros.  arriscado voltar ao seu domus. Ele pode estar 
espreita.
        -- Supus que fosse ele o assassino, mas agora voc me traz a certeza. Zamir era o maior
adversrio de meu antigo tutor--retrucou, pensativa, provavelmente imaginando o que faria a
seguir. -- Mas no posso deix-lo aqui, ou voc morrer.
        -- Se prosseguirmos, ns dois morreremos. Voc deve fugir, Shamira, enquanto h
tempo.
        Ela apertou forte meu brao e me ps sentado.
        -- No, Ablon. Se eu tiver que enfrentar Zamir sozinha, vou enfrent-lo. J estou
preparada para isso. No permitirei que voc morra. H muito tempo me salvou do buscador, e
agora  minha vez de ajud-lo.
        Vi que havia felicidade e doura em seus olhos, mas seu corao estava apertado por me
ver naquele estado de debilidade.
        A praa do comrcio comeava a esvaziar, mas Alexius continuava sobre o tablado,
deliciando-se ao contar as moedas de prata. Ao longe, um grandalho fez cara feia ao me ver
nos braos de uma bela mulher. Era Cassius da Calbria, que havia me espancado no primeiro
dia de viagem. Estava acompanhado de um time de broncos, e Shamira, inteligente, percebeu
que fora ele um de meus agressores. Por um instante, achei que a ira da feiticeira desceria sobre
os escravistas, mas em uma atitude sensata ela engoliu toda a raiva e concentrou-se em me tirar
daquele antro de abutres.
        --Vamos embora, Ablon. Essas ratazanas no so dignas de nossa vingana.
        A mulher ergueu-se em um movimento gracioso e escolheu a esmo um passante na rua,
um tipo plebeu, provavelmente arteso ou estivador. Ofereceu ao sujeito cinco sestrcios, peas
de cobre romanas, s para que me colocasse sobre um cavalo. A moa, sozinha, no aguentaria
meu peso nem desejava pedir ajuda aos rudes capatazes de Alexius.
        Como j sabia que eu estaria no Emporium antes mesmo de sair de casa, a necromante
trouxera consigo dois cavalos selados -- um garanho cinzento e uma gua alva -- ,ambos de
tima raa. O plebeu me empurrou para o lombo de um deles, com Flor do Leste, e Shamira
acomodou-se no dorso da gua. Depois, dispensou o carregador.
Eram cinco da tarde, e faltava menos de meia hora para o veneno findar minha vida.


                                  EMBOSCADA NO DOMUS

         A casa de Shamira ficava em uma rua tranquila, quase colada ao sop do monte
Capitolino, uma das sete colinas romanas. O Capitlio, como tambm era chamado, era como
uma grande pedra redonda e ainda conservava suas encostas escarpadas, tal como era no tempo
das aldeias latinas. No passado, os sete povoados sobre as sete colinas reuniram-se em uma
federao e comearam a construir um muro que delimitaria a futura cidade. Oito sculos
depois, nenhum resqucio dos latinos restara. Nos primeiros anos do sculo I,  poca deste
relato, um complexo de templos dominava o topo do morro, que em muito fazia lembrar a
acrpole de Atenas. O mais grandioso desses santurios era o Templo de Jpiter, cuja parede
posterior, sustentada por colunas de mrmore, projetava, ao fim daquela tarde de abril, uma
sombra opressiva sobre o terreno ocupado pelo domus da Feiticeira de En-Dor.
         O sol estava se pondo quando contornamos o Frum de Augusto. O movimento urbano,
quela hora, comeava a declinar. Durante o dia, nenhum veculo sobre rodas podia trafegar
pelas ruas. Roma tinha, ento, dois milhes de habitantes, e um vaivm to intenso de carros
transformark as avenidas em um pandemnio. Com isso, os pobres eram obrigados a andar a p,
enquanto os ricos eram transportados em liteiras ou no lombo de cavalos.
         Era quase noite quando paramos em frente ao domus. As casas nobres romanas tinham
fachadas altas, com vigas de madeira e paredes de tijolos, recobertas por urna argamassa
resistente. O teto era de telhas sobrepostas em escamas, e o cho, decorado com mosaicos que
retratavam seres mitolgicos e heris legendrios. Uma porta dupla e grossa levava a um
corredor coberto, que conduzia ao trio, o aposento central, geralmente caracterizado por uma
abertura no teto, til para ventilar o ambiente. No cho, abaixo do interstcio de ventilao,
havia uma piscina pequena, adornada por esttuas, que armazenava a gua da chuva. Nos dias
quentes, os romanos a usavam para se refrescar. Ao redor do trio ficavam os quartos, uma
escada que conduzia ao segundo andar e a passagem para o tablinium, uma sala de recepo,
muitas vezes usada como estdio. A seguir, a manso avanava, abrindo-se novamente em um
ptio em volta de uma passagem coberta, ou peristilo. No corao do ptio havia, em quase
todas as residncias romanas, um suntuoso canteiro que abrigava um santurio dedicado aos
deuses domsticos.  direita do peristilo situavam-se a sala de jantar e a cozinha, e  esquerda
mais quartos, s vezes adaptados em oficinas ou escritrios.
          Quando os cavalos pararam em frente ao domus Shamira me despertou.
          -- Ablon, voc precisa fazer um ltimo esforo para caminhar. Temos que entrar na
manso.
          Ao ouvir suas palavras, joguei-me para fora da sela e, no sei como, consegui ficar de
p. Reconhecendo minha fragilidade crescente, ela me amparou com um brao, e com o outro
empurrou a pesada porta de madeira. Foi nesse instante que meu senso de perigo, que eu julgava
perdido, deu o ltimo sinal de ameaa.
          -- Shamra, h alguma coisa errada -- insisti. -- No podemos entrar. O inimigo nos
espera.
          Calma e confiante, a mulher no se importou com o alarme. Fitou-me profundamente e,
com um ar de ternura, beijou-me suavemente a face.
          -- Guerreiro, voc precisa confiar em mim. No h nada o que temer -- replicou, e me
encaminhou para o corredor. Flor do Leste veio atrs.
          A manso estava envolta em uma penumbra sinistra, pois o crepsculo chegara, e no
havia criados para acender as lamparinas. Cruzamos o corredor e penetramos no trio, o
aposento principal. Ento, meus temores se concretizaram, e o pior aconteceu.
          Uma figura esguia saiu das sombras como um rato na escurido. Estava encostada 
parede no outro extremo do trio, bloqueando a passagem para o ptio do peristilo. No pude
v-la com clareza, mas entendi que se aproximava devagar, ao mesmo tempo em que entoava
uma frmula mgica. Dando-se conta do perigo, a feiticeira tomou a frente, na inteno de usar
o prprio corpo como escudo. Destra, Flor do Leste recuou, procurando amparo no corredor de
entrada.
          De repente, o trio se iluminou com uma luz mstica tremulante, e vi que as mos do
inimigo queimavam em chamas verdes. A um comando do atacante, uma bola de fogo
precipitou-se da ponta de seus dedos e cruzou o aposento com velocidade espantosa, explodindo
violentamente ao encontrar a necromante. Em face de to impetuoso ataque, a roupa de Shamira
reduziu-se a p e, desnuda, ela perdeu o equilbrio e foi atirada ao cho. Mas no parecia ferida.
O punhal cerimonial que carregava sob o manto no chegou a se partire foi lanado a distncia
com a violncia do choque.
          A figura achegou-se, mas a mulher escapou. Ainda aturdida, a Feiticeira de En-Dor
rastejou na direo de uma das portas laterais, que levava, provavelmente, a um quarto comum.
Sem o apoio da mulher, cedi  fraqueza. A sombra se aproximou de mim, emergindo da
negritude. Ergui o olhar e vi o inimigo, um homem de meia-idade, magro, alto, de pele
bronzeada e nariz fino. Conservara, talvez por todos aqueles anos, o cavanhaque pontudo. Os
olhos amendoados estavam levemente pintados com a mesma maquiagem usada pelos
babilnicos. S a roupa mudara, e agora o mstico trajava uma tnica comprida, negra, sobre
uma veste de algodo.
          Era Zamir, o Feiticeiro do Deserto!
          Seu rosto tornou-se mais claro ao encontrar os ltimos raios da tarde.
          -- Voc, aqui? -- ele estranhou. -- Pensei que o tivesse liquidado com a emboscada do
bosque Tin-Sen.
          No pude responder. Os msculos entravam em convulso pela ao do veneno.
          -- Felizmente -- continuou -- tomei alguns cuidados para que sua inesperada presena
no comprometesse meu cronograma. Se bem que no vejo como poderia me estorvar -- disse,
percebendo minha situao terminal. Reparei que no havia nenhuma expresso de arrogncia
ou jbilo em seus olhos. Para ele, era como se aquele assassinato fosse uma tarefa comum, uma
atividade diria, -- Vou resolver minha pendncia com a feiticeira, e enquanto isso decidirei o
que fazer com voc.  lamentvel que seu sangue esteja contaminado. Seria um ingrediente
formidvel em minhas cerimnias.
          Sem temer uma reao, o mago deu de ombros e caminhou para a porta atravs da qual
Shamira havia entrado. Reuni energia e avancei, mas uma fora imprevista me travou.
          Uma parede mstica e invisvel barrava meu progresso, encerrando-me cm uma rea
restrita. Observei ento, ao olhar para o cho, que eu estava, com efeito, dentro de um crculo
mgico de aprisionamento, usado pelos bruxos para capturar espritos, mas que tambm
funcionava com seres carnais. O anel fora desenhado com carvo e adornado por inscries que
eu no sabia decifrar. O curioso, pensei, era que tanto Shamira quanto Flor do Leste haviam
pisado naquele selo e no foram retidas pela potncia da magia. E logo eu, que sou um celestial,
supostamente imune a esses encantos, fui pego pelo feitio. Presumi, ento, que aquele era um
ritual direconado, executado para afetar uma entidade especfica. De incio, no entendi como o
invocador alcanara aquele efeito, mas depois me lembrei de sua atuao no bosque Tin-Sen,
quando se valeu de uma de minhas penas perdidas para concretizar o feitio da convocao e
me arrastar quela mata infernal.
         O Feiticeiro do Deserto no perdeu tempo discursando sobre sua trica. Abriu a porta do
quarto e se meteu nas trevas, perseguindo o rastro da necromante.


                                COMO UM PEIXE NO ANZOL

         O que se deu a seguir no foi presenciado por mim, e tudo o que sei foi relatado por
Shamira, quando de minha segunda volta a Roma, anos depois. Naquele momento, enquanto
Zamr perseguia seu plano, eu jazia agonizante dentro do selo mgico, que me aprisionava em
um crculo invisvel.
         Ao ter certeza de que eu no poderia mais enfrent-lo, o invocador penetrou pela porta
do quarto, mas em vez de encontrar um dormitrio pequeno, com uma mulher acuada e
medrosa, o que viu foi uma escada estreita e rochosa, de paredes midas, que descia para um
suposto poro. Construes abaixo do solo em casas nobres romanas eram incomuns, mas o
bruxo no viu nenhum absurdo naquilo e prosseguiu sua marcha.
         -- Como um peixe no anzol -- disse o mago para si mesmo, sem entender a atitude da
mulher, que correra para um lugar de onde, seguramente, no havia sada.
         A escada terminava em um aposento quadrado, de teto alto, aparentemente vazio. Era
espaoso, pois a escurido recobria suas alcovas, e o bruxo no pde enxergar a totalidade da
sala. Encontrou, porm, aquilo que procurava: Shamira, de corpo nu, deitada de costas no cho
de pedra, ainda aturdida pelo impacto do fogo verde. Este, tambm chamado de fogo de Xahra,
no  produto da combusto terrena, como so as chamas normais. Ele queima e existe to
somente no plano astral, no no mundo fsico. Significa, portanto, que as labaredas no podem
ser extintas por gua, vento ou quaisquer mtodos mundanos. O resultado desse feitio  no
mnimo hediondo -- a alma, e no o corpo da vtima,  afetada. Com o esprito destrudo, toda a
essncia da pessoa  apagada, encontrando assim a morte final -- no apenas a morte carnal,
mas a concluso terminal de sua existncia.
         A mulher desnuda levantou-se, com a ateno fixa em Zamir, que parara no umbral da
escada, impossibilitando-lhe qualquer tentativa de fuga,
         -- Finalmente, minha empreitada aproxima-se de seu desfecho -- disse o bruxo,
reconhecendo a vitria.
         -- Ento foi voc quem assassinou Drakali-Toth? -- perguntou a mulher, j sabendo a
resposta.
         -- Assassinato no  bem a palavra. Eu, por assim dizer, o superei e me vi no direito de
mat-lo. Depois usei o ritual do conhecimento em seu esprito e absorvi seus poderes. No foi
assim to difcil,  verdade.
         -- E quanto aos outros mestres feiticeiros?
         -- Padeceram, devo admitir, do mesmo destino. No eram realmente preos para mim,
mas no os recrimino. Afinal, quem ? Eu sou e sempre fui o maior mago da terra, mas sua
atuao e a do Anjo Renegado em Babel sepultaram minha nao e tudo o que ela representava
-- ele pareceu saudoso por um instante. -- Ah, feiticeira, se voc soubesse o que eu tinha
arquitetado para o futuro do meu pas, do meu povo, naquele tempo alm do mundo, alm da
histria... Mas no entenda isso como uma vingana. No quero parecer taxativo. Voc agiu
sabiamente e mereceu o triunfo.
         -- Voc  to perturbado quanto seu antigo rei, Zamir.
         Shamira pensou ter visto um sorriso de escrnio na face do bruxo.
         -- Nimrod nunca foi rei de coisa alguma. Era um perdido. Eu o manipulava desde a
infncia. Eu era o verdadeiro governante de Babel. Quando voc morrer, consumida pelo fogo
verde, meu caminho estar livre novamente, e erguerei uma nova nao, sobre as runas da
antiga. Quando minha empreitada estiver encerrada, no serei mais Zamir, o Invocador, muito
menos Zamir, o Necromante, e sim Zamir, o Arquimago, ou o Grande Mago, o nico mestre de
todos os ramos da mgica.
         A feiticeira guardou silncio, e o bruxo continuou:
         -- Sei que o que vou pedir  meio estranho, mas rogo-lhe que no me julgue mal. No
sou m pessoa. Sou apenas produto da inevitvel evoluo humana. Afinal, somos humanos, eu
e voc, com a graa do Deus Yahweh.
         Cansada daquelas palavras pedantes, Shamira disparou:
         --Vejo que est muito convicto em seu desejo. A persistncia  uma qualidade
valorosa. Mas no posso dizer que lamento estragar seus planos.
         O buscador franziu o cenho em uma expresso confusa. O que aquela moa indefesa
queria dizer com tal exploso de bravura? Estava acabada, vencida!
         -- E o que vai fazer? Vai convocar seus espritos? Vai traar um selo no cho e esperar
que eu tropece dentro? No h mais tempo para essas coisas, garota. Sua breve aventura como
feiticeira termina agora.
         Em uma nova corrente de berros, o invocador cuspiu suas frmulas mgicas, e o fogo de
Xahra voltou a iluminar suas mos, em preparao para o golpe final.
         Mas, antes que desse forma  bola de fogo, as chamas que brotavam de seus dedos
iluminaram o recinto, e a luz reluziu nas alcovas. Dentro de cada uma daquelas entradas na
parede repousavam esttuas antigas, de ferro enegrecido, que representavam dolos antigos,
dolos babilnicos. Eram cones tribais, figuras de pobres e escravos, e no da alta aristocracia
que governava a cidade,
         S ento, ao mirar aquelas esttuas, Zamir entendeu que aquele era um santurio
especialmente preparado, e que o tecido da realidade ali embaixo era incrivelmente fino. E
recordou-se tambm da origem daqueles dolos, inferindo, com uma pontada de terror, sua real
utilidade.
         -- So figuras de Babel... Mas como  possvel? A cidade foi engolida pela areia.
         -- Desde que eu soube do primeiro assassinato dos magos, h cerca de um sculo,
suspeitei que voc pudesse estar envolvido. Antes de vir para Roma, fiz uma longa viagem 
sia e encontrei esses objetos no deserto. Eles no tm grande representatividade divina, mas
tudo o que eu precisava era de alguns fragmentos da antiga cidade. Com eles, montei este
santurio.
         -- Mas para qu? Com que objetivo? -- a voz do bruxo j soava agitada.
         Shamira no respondeu. No era preciso.
         Figuras astrais surgiram no ar, rodopiando como fumaa, at tomar forma. Eram
fantasmas, de corpos translcidos, intangveis, que se sentiam muito  vontade naquele stio
recluso, onde a membrana era frgil e delgada, O santurio fora feito para eles.
         O rosto do mago encheu-se de terror, e ele distinguiu os espectros. Aqueles eram os
espritos dos escravos que, 2.300 anos antes, ergueram a Torre de Babel. Desde sua morte fsica,
aquelas almas estiveram presas  terra, impedidas de seguir para o cu, e assim seria enquanto
vivesse o arquiteto daquela infausta construo. Os primeiros escravos de Babel, que morreram
trabalhando na Pirmide de Prata, durante o reinado de Cush, tiveram o esprito liberto quando
os Filhos de Jaf capturaram o monarca e o condenaram  morte. Mas o segundo corpo de
escravos, aqueles que se rebelaram durante meu ataque  capital, pereceram sem julgar seu
malfeitor. No podiam seguir ao paraso at que essa pendncia fosse resolvida, o que seria feito
em instantes.
         -- Estes fantasmas um dia foram escravos, que morreram sob os chicotes de seus
homens -- explicou a necromante.
         -- Mas eu? -- gaguejou. -- Que mal eu poderia fazer a essa gente?
         -- Voc governava Babel na poca, e estes so os antigos operrios da torre. Ser que
no os reconhece? -- a simples viso dos fantasmas era dantesca. Assim como os espritos de
Enoque, esses tambm se contorciam, em uma eterna expresso de horror.
         -- Operrios? Escravos? -- Zamir parecia ter ficado louco. -- Mas no conheo essas
pessoas...
         Um dos espritos formou-se  sua frente, e ao ver a fumaa o bruxo recuou. A nvoa
mstica revolveu, delineando o semblante de uma mulher muito velha. A bruma retraiu-se, e o
rosto da idosa deu lugar  imagem de uma menina bem jovem, de pele escura, traos finos e
cabelos lisos. Uma voz, que mais parecia um rudo, ressoou no poro.
         -- No se lembra de mim, feiticeiro? -- indagou o espectro da garotinha. Sua fala era
macabra, e o sangue do mago gelou. -- Sou Adnari, uma das escravas do palcio.
         Era realmente possvel que Zamir no se lembrasse dela, sobretudo naquele estado de
estresse. Tentando refazer-se do assombro, o mago vociferou, encarando os corpos astrais:
         --Vocs so apenas espritos atormentados! No podem me ferir, no podem me
ameaar.
         A resposta de Adnari foi impiedosa:
         -- No, Zamir. Aqui, neste santurio, nossos poderes so supremos!
         E de fato eram. Zamir, pelo conhecimento de necromancia que assimilara ao matar
Drakali-Toth, soubera disso desde o instante em que vira os fantasmas, mas custava a aceitar
sua sina. Admitir aquilo era admitir a derrota e reconhecer que, pela segunda vez, fora superado
pela Feiticeira de En-Dor. No podia ser destrudo! Era o maior mago do mundo. Fora o nico
que tivera contato, ainda em Babel, com a magia antiga, com os resqucios da magia de Enoque,
com os segredos do mundo ancestral. Quem, em s conscincia, ousaria desafi-lo? Enfrentara
os grandes magos, e a todos vencera. Como poderia ser superado por uma mulher, por uma
garota?
         -- Como um peixe no anzol -- disse Shamira, replicando as palavras do buscado.
         Encurralado, o bruxo tremeu. A exemplo de como agira no Mar de Rocha, ao presenciar
meu ataque ao peloto babilnico, foi completamente tomado pelo desespero. Estava perdido, e
tudo o que podia fazer era fugir, correr como uma criana apavorada -- no que isso fosse
salv-lo. Deu meia-volta e armou os msculos para uma disparada, tencionando galgar a escada
e deixar o santurio. Se pudesse sair do poro, estaria livre! Os fantasmas no poderiam mo-
lest-lo l fora, onde o tecido era espesso.
         Mas, antes que iniciasse a corrida, os espectros atacaram.
         As formas translcidas se uniram e fecharam um anel de brumas, que o envolveu.
Outros bloquearam a sada, formando um muro de nvoas. Uma terceira massa o agarrou. Os
braos espectrais atravessaram-lhe a carne e encontraram o esprito do feiticeiro. Os dedos
astrais afiaram-se em garras e puxaram a alma do inimigo para fora do corpo. A cabea
espiritual saiu primeiro, mas o invocador resistia, segurando-se como podia  sua carcaa
mundana. Os olhos reviravam de dor, e a boca abriu-se em um grito medonho, at que toda sua
alma foi sugada. As brumas a engoliram, e o esprito do bruxo desapareceu na fumaa.
         No plano fsico, o corpo tremulento parou e retraiu-se no cho. Inciou-se ento um
espetculo horrfico, monstruoso. A pele do defunto comeou a se enrugar com rapidez incrvel,
e o cadver murchou. Os globos oculares se desfizeram, e os fios de cabelo cresceram. No
momento seguinte, os tecidos cederam, e os rgos atrofiaram. A epiderme colou-se aos ossos,
at secar. Depois, o crnio, os dentes e os ossos se esfarelaram, e por fim tudo foi reduzido a p.
Ao beber o sangue da renegada Ishtar, Zamir prolongara sua vida alm do limite, de maneira
no natural. Ao morrer, os sculos vieram reclamar seu legado e cobraram, em segundos, tudo o
que lhes era devido.
         Ao fim desse episdio aterrador, os fantasmas sumiram. Estavam livres para sempre.
         Assim morreu Zamir, o Buscador, e com ele o que restava da Babel legendria, aquela
cidade maldita.
         Alm do mundo, alm da histria...


                          UMA ESTRADA MARCADA DE SANGUE
        Shamira no perdeu tempo. Subiu a escada aos tropees e voltou correndo ao trio. E
l estava eu, estirado no cho, ainda preso pela parede invisvel.
        A noite chegara fria, trazendo em seu manto a anunciao derradeira. Aos poucos, a
vida se apagava. O corao, cansado, batia lentamente, afogado na peonha assassina. No
conseguia me mexer. Todos os msculos faleceram, mas ainda me restavam os dbeis sentidos.
        O veneno vencera.
        A necromante surgiu no trio, e pensei que aquele fosse um ltimo delrio. No
imaginava que ela pudesse enfrentar Zamir, muito menos venc-lo, mas ela podia. Ela pde.
Talvez sempre tivesse podido. A feiticeira estava viva, ilesa, e aquele era meu desejo final.
Minha misso havia sido concluda.
        Shamira atravessou o crculo mgico, ao qual era imune, e me abraou. Flor do Leste e
Shamira estavam salvas. Quanto a mim, sempre soube, desde o combate com as rapinas, que a
toxina me perseguiria at a morte -- ento por que insistia em me agarrar  vida? Por que
relutava em me entregar ao vazio?
        Tentei abrir um dos olhos e vi o rosto alvo da necromante. Ela chorava. Mais atrs, uma
silhueta pequena soluava no escuro. Era Flor do Leste.
        -- Ablon, resista -- implorou a mulher. -- Voc no pode morrer. Voc no vai
morrer.
        -- Cumpri minha misso, feiticeira, ou pelo menos parte dela. E estou orgulhoso por
isso. Ns, anjos guerreiros, somos assim. A morte  s o fim da demanda.
        Uma nova torrente de lgrimas desceu pela face macia.
        -- Como vou viver sem voc, renegado? Voc salvou minha vida. Deu-me uma nova
chance. E agora, o que vai acontecer?
        -- Agora voc seguir sozinha, Shamira. Minha estrada est coberta de sangue.
        No!-- ela dizia com o olhar. No queria me deixar partir, no queria que eu a deixasse.
Sua fora de vida era extrema, sublime. Sem ela, teria me deixado levar pela noite, para o eterno
vazio da existncia. A unidade do cosmo clamava por mim. Mas o universo podia esperar.
        Em uma atitude inesperada, a feiticeira esticou o brao, e em um canto escuro encontrou
sua adaga mgica, que cara do manto quando a bola de fogo a sacudira. Com um movimento de
punho, que mais parecia uma dana, aproximou o punhal de meu corpo. Por um momento, no
entendi o que pretendia fazer.
        --Voc tem que resistir, guerreiro. No pode morrer -- repetiu, decidida, engolindo as
lamrias que derramara havia instantes.
        Com a mo direita, ergueu a faca, preparando um ataque. Com a outra, esfregou os
dedos acima das costelas, e entendi o que procurava: meu corao.
        -- Ablon, aguente! Voc no vai morrer -- ela disse por fim. -- Eu o amo.
        Antes que eu pudesse reagir, senti uma estocada perfurar-me o peito. A lmina
atravessou minha pele e rasgou a veia cava um centmetro abaixo do msculo cardaco -- a
preciso da inciso fora perfeita. Ouviu-se um rudo abafado, do metal a penetrar a carne. Por
um longo e inesquecvel segundo, nada aconteceu. No momento seguinte, o jorro de sangue.
        Um esguicho intermitente de plasma e veneno espirrou para cima, manchando o cho
do ptio e cobrindo de rubro os mosaicos do ladrho. Uma poa grande avanou pelo solo,
inundando os desenhos de carvo que demarcavam o selo mgico.
        No me lembro de ter visto mais nada depois disso.
        A conscincia apagou-se.


                                        TRINTA ANOS

        A sensao era a de ser dragado, puxado para baixo com velocidade assombrosa. Uma
fora no inferior  divina levou-me ao poo mais fundo do abismo, e ento fui solto. Senti meu
corpo flutuar, depois subi, subi sozinho, leve, at emergir, rasgando com o rosto a membrana
aquosa.
         Uma nova mirade de impresses, j esquecidas, despertou-me  vida. O cheiro gostoso
do ar encheu meus pulmes, trazendo um turbilho de aromas intensos. Senti, novamente, a
fragrncia das flores que coloriam a primavera, o gosto da chuva, o perfume da terra. Estava
vivo de novo, ou essa era a zona alm da escurido, o caminho depois do crepsculo?
         A luz era fraca, indireta, mas era fcil enxergar -- meus sentidos apurados haviam
retornado, e podia ouvir murmrios atravs das paredes. Abri os braos e entendi que estava
comprimido em um espao lateral, como que confinado em um caixo destampado. S o teto
figurava distante, e era alto, escuro, todo de rocha calcria. Dobrei a coluna, procurando me
sentar.
         Ao divisar o ambiente, percebi que estivera deitado em um sarcfago, ou assim parecia,
coberto at a borda com um lquido incolor, misturado a ndoas vermelhas de sangue. Na
superfcie da gua flutuavam fragmentos picotados de plantas, ou melhor, ervas, ervas de odor
penetrante. O caixo estava pousado no cho, ao centro de uma sala vazia, cingida por alcovas
onde repousavam estranhas esttuas de ferro. Em um dos cantos havia uma passagem em arco e
uma escada que subia reta. No era uma sala, e sim uma cmara subterrnea. Era mida, e pela
presso da atmosfera eu sabia que estava poucos metros abaixo do solo. Imaginei que
permanecera imerso naquele lquido aromtico por um dia inteiro, porque j era de manh.
Raios de sol invadiam a passagem, desenhando imagens de luz no soalho da sala.
         Mas eu no era o nico a ocupar aquele enigmtico recinto. Uma mulher estava de
guarda, encostada  parede, como uma das figuras de ferro, quase imvel. Com passos midos,
chegou mais perto ao me ver levantar. O andar e o cheiro da pele no deixavam dvidas -- no
era Shamira, mas ento quem seria? Com minha viso aguada, reparei que era baixa, magra e
tinha belas feies orientais, a despeito de sua stola romana. A marca da idade j pesava sobre
ela, e calculei que passara dos 40 anos, apesar dos modos delicados e do olhar de menina. S
uma pessoa me fitava daquele jeito.
         -- Flor do Leste? -- exclamei, ainda rouco pelo despertar.
         Eu no me enganara, e como poderia? Aquela era Flor do Leste, a pequena chinesa que
conhecera no Extremo Oriente, ao ser levado pela caravana dos gregos. Mas o que acontecera
com ela? No era mais uma menininha, e sim uma mulher.
         -- Aguardvamos pela sua recuperao, general -- disse algum que descia as escadas.
         -- Shamira -- murmurei, agarrando-me s laterais do sarcfago. -- O que aconteceu
por aqui?
         A feiticeira encarou Flor do Leste e depois voltou-se para mim.
         -- A magia ancestral e a medicina chinesa o trouxeram de volta -- explicou. -- Mas o
verdadeiro mrito no  nosso. Eu disse que voc no morreria.  muito forte para sucumbir ao
ataque de qualquer esprito.
         -- Mas e o veneno?
         -- Foi expulso de seu corpo, absorvido pelas ervas que flutuam na gua -- ela apontou
para o caixo, e s ento notei que meu peito estava coberto por pequenos talhos, cortes
superficiais atravs dos quais a toxina devia ter sado. -- Voc foi purificado durante o tempo
em que esteve dormindo -- e ento a necromante olhou para a chinesa, reparando em sua
aparncia madura. -- E esse perodo, devo dizer, no foi curto.
         -- Ento est explicado. Foi por isso que achei que Flor do Leste tinha envelhecido.
Mas fui eu que estive em letargo, suspenso enquanto meu organismo se recompunha.
         -- Qualquer vestgio da peonha poderia vitim-lo mais tarde, assim todo seu sangue
teve de ser renovado. Uma recada seria fatal. Estudei esses espritos e investiguei a trama de
Zamir. Descobri que o veneno do escorpio pode ser contido, mas dificilmente  expelido. Ele
permanece latente at que um novo episdio o desperte. Os efeitos voltam de repente e so
ainda mais devastadores.
         Hibernando. Eu entrara em um tipo de hibernao natural, pela segunda vez. Talvez
aquela fosse uma defesa inerente, um jeito de meu corpo responder ao perigo. Mas por quanto
tempo dormira? No havia de ser dias nem meses, mas anos, muitos anos. O que teria
acontecido naquele perodo? A quantas andava o mundo?
         Ainda levemente tonto, levantei e sa do sarcfago, enquanto os ltimos resqucios de
sangue contaminado escorriam pela pele. J podia sentir a potncia dos msculos voltando e o
palpitar ritmado do corao -- definitivamente, a debilidade sumira. Eu estava vivo, forte,
curado, graas quelas duas mulheres, que dedicaram tudo o que tinham para me salvar do
vazio. Nada que eu fizesse poderia compensar aquele ato de amor. Em vez disso, dediquei um
olhar de agradecimento  chinesa e depois a Shamira. E a, ao reparar em sua pele macia,
recordei-me daquele ltimo instante, antes do golpe da faca, e do que ela havia me dito.
        -- Shamira, antes que eu entrasse em torpor, voc me disse...
        Ela interrompeu minha frase:
        -- Ablon, no h tempo para isso agora. Voc precisa completar sua misso.
        Minha misso! Nathanael, Jerusalm, a Criana Sagrada! Eu deveria ter ido ao encontro
do ofanim e de seus anjos, depois de avisar Shamira sobre Zamir. Ser que ainda havia chance
de perseguir minha demanda?
        -- Flor do Leste me contou tudo o que sabia sobre sua empreitada -- explicou a
necromante. -- Ainda h tempo, mas voc precisa correr. Os legionrios que servem na
Palestina chegam ao porto de Ostia com notcias sobre esse homem, que se diz rei dos judeus.
Suponho que seja esse o Salvador que procura. Mas voc tem que partir imediatamente, pois ele
corre perigo.


        Sim, mas ser que eu poderia ajud-lo? Sozinho, certamente no. Imaginei como seria
algum com poder celestial e dotado de livre vontade. Que ente magnfico devia ser. Estaramos
o coro de Nathanael e eu  altura de defend-lo?
        -- Por quanto tempo dormi?
        -- Trinta anos se passaram.
        -- Ento no h um minuto sequer a perder -- retruquei, prontamente recomposto.
        As duas mulheres me conduziram ao trio, ao fim da escada que deixava o poro. Era
primavera de novo, e o sol refletia nas telhas. Ouvi o som do comrcio a distncia e conclu que
as lojas em Roma acabavam de abrir. No devia passar das sete horas da manh. Dali eu as
acompanhei ao tablinium, a sala de recepo, um aposento de portas largas nos dois extremos.
Uma delas abria-se ao trio, e a outra dava passagem ao ptio adiante.
        Quatro divs decoravam a sala, e sobre um deles jazia uma pea de roupa. Flor do Leste
ofereceu-me o tecido, e compreendi que era um presente, feito por ela. Parecia um quimono
chins, mas fora confeccionado em linho e depois tingido de preto. A camisa era fechada at a
gola por pequenos botes de barbante, com comprimento que descia  altura das coxas. As
calas escuras eram da mesma fazenda, e um par de botas de couro dava um aspecto atemporal
 singular vestimenta. Ao lado do traje descansavam duas braadeiras de cavaleiro, semelhantes
quelas que eu adquirira na cidade deTurfan, nos limites da China. No era uma roupa soberba,
mas era prtica e resistente. A chinesa conhecia minhas preferncias.
        Lavei-me em uma tina comum e aparei a barba antes de me vestir.
        -- Os cortes em meu corpo sararam -- reparei, antes de fechar o quimono.
        -- Suas habilidades regenerativas esto agindo de novo. Esto agora no auge de seu
poder -- explicou Shamira.
        Pouco antes das oito horas, a feiticeira me levou para fora, e ao lado de uma das paredes
externas do domus havia um aposento anexo, que dava para a rua. Muitos proprietrios romanos
alugavam o espao para lojistas, mas a necroman-te o usava como estbulo e depsito. Ali
descansavam cinco cavalos, todos selados, e Shamira me ofereceu um deles, uma gua marrom.
        -- Chama-se Selene e  adestrada. Siga por terra at Ostia, depois deixe-a solta no
campo. Ela conhece o caminho de volta. H um navio que parte para o Oriente ao entardecer, e
voc ainda poder tom-lo -- ela me ofereceu uma algibeira de moedas. -- Voc no precisa
mais de comida, mas leve dinheiro. A passagem  cara, mas a h o bastante para toda a jornada.
        -- Voc pensou em tudo, no foi?
        -- Tive um bocado de tempo para isso -- respondeu, com um sorriso agradvel.
        Aceitei a oferta e montei no cavalo. Mas, antes de sair em disparada, Shamira me
chamou. Tinha um pequeno embrulho nas mos, um pedao mnimo de veludo descolorado.
        -- Pegue isso, Ablon -- desenrolei o pano e ali havia uma pena manchada de sangue.
--  sua. Zamir a usou para preparar o encanto que o aprisionou no crculo mgico, naquela
noite do ataque  minha casa.
        Devolvi o objeto com certa repugnncia. Um pedao de mim utilizado como ingrediente
em rituais profanos... Aquela idia me deixava enojado.
        -- Destrua isso para mim. E vamos torcer para que no haja mais delas perdidas por a.
        -- No acho que existam. Se houvesse, Zamir as teria usado. Comandei o animal, e ele
ganhou a calada. Mas, antes de acelerar o trote,
dei-me conta de que dekava minhas duas salvadoras sern ao menos lhes dizer uma palavra de
adeus.
        -- Shamira, Flor do Leste, sinto ter que deix-las assim.
        -- No h o que sentir, guerreiro. Voc tem uma misso a cumprir. Uma legio o espera
-- replicou Shamira, em tom pico.
        Assenti com a cabea.
        -- Mando notcias quando chegar a Jerusalm, nem que tenha que enviar um
mensageiro pelo mar.
        Ela concordou e, com um aceno de mo, despediu-se de mim. Sabia, talvez melhor do
que eu, a urgncia de minha viagem.
        Soltei a rdea da gua, e a montaria disparou pelas ruas.


                                     STIA E CESAREIA

          A cavalo, cruzei a Porta Latina, uma das principais sadas da cidade, e tomei o rumo
pela Via pia, a maior das estradas romanas. Prossegui pelo campo o mais rpido que pude,
observando os gigantescos aquedutos sobre os arcos de pedra, que cortavam as fazendas e
convergiam como viadutos em direo  metrpole. Antes do meio-dia, a Cidade Eterna j
figurava distante.
          Tomei um navio que saa de stia e embarquei em uma viagem tranquila, dessa vez
como passageiro, e no como escravo.
          A cidade porturia central da Palestina era Cesareia, onde aportamos dias depois. A Jia
do Mediterrneo, como era chamada, fora construda por Herodes, o Grande, rei da Judeia, em
homenagem ao imperador Csar Augusto, e rapidamente se tornou o maior centro romano da
regio. O porto de Cesareia era provavelmente a obra de engenharia mais magnfica de Israel,
com suas muralhas que avanavam mar adentro, formando uma piscina natural e segura para os
navios atracarem. O porto martimo por onde entravam os barcos era ladeado por grandes
esttuas de mrmore, e mais adiante avistava-se a torre do farol, muito menor e mais modesta
que a de Alexandria.
          Era o ms de abril, certamente o mais agradvel de todos, quando a estao das chuvas
j tinha terminado, e o calor ainda no era to forte. As vias, que se enchiam de lama no fim do
inverno, estavam secas de novo, e, apesar do clima rido, caracterstico naquela parte do mundo,
a grama rala crescia.
          Em vez de prosseguir pela estrada mais curta, que me levaria diretamente  parte alta de
Jerusalm, achei melhor me desviar para o sul, porque a passagem era vigiada por sentinelas
astrais, invisveis aos olhos humanos. Eu no tinha certeza de que lado eles estavam, ento achei
prudente adentrar os portes, procurar Nathanael e s ento revelar minha presena. Assim,
optei por contornar o monte das Oliveiras e penetrar na cidade pelo outro lado, pela entrada
principal.
          Ao amanhecer daquela sexta-feira, 7 de abril, cheguei  Betnia, uma aldeia situada no
sop do monte, e ao meio-dia j dominava o cume do morro. Era um dia claro de primavera,
sem nuvens no cu, e a temperatura esquentara. Do alto podiam-se ver as guas do mar a
distncia, terminando em uma curvatura que s o horizonte alcanava. Abaixo, prosseguindo a
estrada, o vale do Cdron formava uma falda profunda, como o leito seco de um rio, e alm dele
meu objetivo final: Jerusalm.
         Altos muros cercavam a cidade, que ento se dividia em quatro partes: a cidade baixa, a
cidade alta, os subrbios e a rea do templo, cuja principal construo era o Templo de Herodes,
sede do conselho de sacerdotes e ponto fundamental da f judaica. Para l convergiam as preces
de todos os israelitas do mundo, um santurio que, em outros tempos, abrigara a maior relquia
de seu povo: a Arca da Aliana. O templo era um edifcio alto, imponente, de umbrais
adornados por placas de ouro e prata. Ficava ao centro de uma srie de ptios, circundados por
um muro de treze metros de altura. A Casa de Deus, assim referida pelos fiis em seu tempo,
estava sob o controle do sumo sacerdote, que era tambm o oficial que presidia o Sindrio, um
conclio de figuras ilustres, de especial destaque na cidade.
         Uma lngua de fumaa subia do ptio interno, onde uma pira ritualstica queimava
objetos de oferenda. Ao norte, as torres da Fortaleza Antnia -- residncia do procurador
romano -- apontavam para o cu, e a oeste, encostado s muralhas da cidade alta, destacava-se
o Palcio de Herodes, ento habitado por seu filho, Herodes Antipas.
         Tomei o caminho que levava  ponte de pedra sobre o vale, certo de que estaria no
interior da metrpole antes do cair da noite. Um fato inesperado, porm, frustraria meus planos,
e eu seria protagonista de um evento no qual s encontraria lgica dois mil anos depois.


                                 No MONTE DAS OLIVEIRAS

         Eram cinco horas da tarde e o sol estava morrendo. A lua em quarto minguante j
despontava no leste, quase imperceptvel, desafiando o brilho da tarde. Continuei pela estrada
principal, at que pressenti novamente a presena das sentinelas -- com meus olhos de anjo eu
podia v-las atravs do tecido. Querubins armados com espadas e armaduras estavam em toda
parte, preparados para defender o permetro. Guardavam o topo das muralhas, os portes, os
arredores do templo, os tanques e aquedutos. Muitos voavam em esquadrilha, protegendo a
cidade de cima. As legies aladas desciam por vezes, formando um cinturo de defesa e
bloqueando o acesso  metrpole.
         -- No pensei que fossem tantos! -- sussurrei para mim mesmo, estonteado com o
contingente.
         O caminho regular que descia o monte -- uma estrada romana bem conservada -- era
intransponvel, tamanha a quantidade de soldados celestiais que a vigiavam do mundo
espiritual. Optei por deixar a via e seguir por uma trilha sem marcaes, que cortava as
plantaes de oliveiras. Essa era uma rea rural, embora colada  cidade, e ficava deserta
quando a noite caa.
         Permaneci oculto entre as sombras das rvores at o sol se pr e depois prossegui pela
vereda. Mas antes de descer o vale do Cdron, que era uma depresso escarpada na poca, notei
que estava sendo observado e que fora enfim descoberto. Meu andar sorrateiro era apurado, mas
no o bastante para enganar vigias treinados.
         No adiantava mais me esconder, e no era de meu feitio fugir. Ademais, por que
fugiria? E se aqueles anjos fossem amigos de Nathanael? Poderiam me prestar assistncia e me
levar at ele. E, se fossem inimigos, eu no tinha receio de combat-los. Afinal, no era para
isso que estava ali?
         O tecido da realidade tremeu com um abalo estrondoso, indicando que alguma criatura
de poder desmedido acabara de se materializar. Eu estava cercado por rvores, e a vegetao
impedia a viso, por isso fiquei alerta, esperando por um ataque furtivo ou por uma saudao
amigvel.
         Um anjo guerreiro, forte em sua couraa de ouro, apareceu no caminho. A espada estava
embainhada, e no se mostrava agressivo. No materializara as asas, o que demandava um
esforo tremendo, e naquelas condies qualquer transeunte o tomaria por homem comum,
assim como eu costumava ser confundido.  luz prateada da lua, eu o reconheci e identifiquei,
na armadura, o smbolo da legio que, havia milnios, eu chefiara.
         Baturiel era, assim como eu, um querubim, um lutador implacvel, que servira sob
minhas ordens na Legio das Espadas, diviso que eu comandava antes da conjurao. Mas de
que lado ele estava? Teria simpatizado com a causa de Nathanael ou preferido se juntar a
Miguel, para matar o Iluminado? O que mais me intrigava, porm, no era isso. O poder
incomensurvel que eu sentira havia poucos minutos no provinha do lutador adiante -- era
muito mais sublime e possante.
         Cheguei mais perto, ainda cauteloso, mas a expresso do guerreiro era impassvel.
Estava rijo, como que montando guarda, e no arredava p do caminho. Compreendi que seria
eu a tomar a iniciativa.
         -- Procuro por Nathanael, o Mais Puro -- anunciei. O semblante do guarda no se
alterou.
         -- No posso deix-lo passar. Tenho ordens extremas de defender o morro. Diante
daquilo, conclu que no era meu aliado.
         -- No quero ter que lutar com voc, Baturiel. Mas tambm tenho uma misso a
cumprir.
         -- No lutar comigo, general -- ele rebateu, e vi que apontava para o lado, indicando
um segundo anjo que chegava.
         O novo soldado portava um arco dourado e com ele preparava uma flecha, uma seta
mortal, dirigida ao meu corao. Era Varna, general da Legio dos Arcos, uma mulher-anjo,
como eram todas as arqueiras querubins. Vestia uma camisa de malha metlica, ajustada ao
tamanho dos seios. Seus cabelos eram longos, castanhos, e os olhos, afiados como os das guias
em caa. Seu ar era srio, compenetrado, e no vacilava um instante sequer. Rpida como uma
cobra, apontou o dardo, mas aguardou o comando.
         -- Varna nunca errou uma flecha -- ameaou Baturiel. -- Voc  um anjo renegado,
est preso ao mundo fsico. Se seu corao for destrudo aqui, no plano material, estar acabado.
         Estaquei e analisei o impasse. Li, no rosto do guerreiro, que ele no estava seguro. No
queria me ferir, no queria dar o comando de ataque. Na verdade, havia um brilho em seus
olhos. Algo dentro dele ainda admirava meus feitos. Eu ainda era, mesmo distante, seu lder em
armas.
         A situao chegara a um ponto crtico. Os dedos de Varna comeavam a sangrar em
contato com as cordas tensas do arco. Ela precisava disparar, ou pr abaixo a arma. Estvamos,
os trs, imveis, e eu aguardava uma oportunidade para avanar. Mas ali se encontravam anjos
de grande poder, entre eles dois generais, e nenhum de ns estava disposto a ceder. A crise,
contudo, seria resolvida em instantes.


        Um quarto anjo, tambm travestido de homem, apareceu no meio dos dois. No
materializara as asas -- no via necessidade de faz-lo. Vestia-se discretamente, com uma
tnica longa, cinzenta, mas sua presena era sublime. Os cabelos cor de mel, normalmente
presos em trana, estavam soltos e desciam pelo corpo magro e forte. A aparncia era serena, e
o poder de sua aura, magnnimo. Aquele no era um anjo comum.
        Diante de mim encontrava-se um arcanjo -- Gabriel, o Mestre do Fogo. Nada mais era
preciso dizer. Aquele era o meu fim, terminaria ali. Um anjo renegado, descoberto por um
arcanjo, seria rapidamente eliminado. No teria nenhuma chance contra aquele gigante, uma das
entidades de maior poder no universo, superado apenas por Miguel, Lcifer e pelo prprio
Yahweh. No trazia sua armadura de ouro nem sua espada mstica, mas tambm no era
preciso. Mesmo confinado  carne de um avatar, era invencvel, praticamente indestrutvel.
Mas, em vez de me atacar, ele avisou:
        -- V embora, Ablon. Estamos resolvendo um problema de famlia aqui -- sua voz era
quase uma msica, uma melodia suave, que a qualquer momento poderia estourar em acordes
violentos.
        -- No posso recuar, Gabriel, no agora -- conservei minha honra. -- No depois de
tudo o que passei para chegar at aqui. No depois da palavra que dei.
        O arcanjo moveu a cabea, j sabendo que eu no desistiria to fcil. Cedendo  minha
teimosia, fez um sinal, e Varna recolheu a seta.
        -- Deixe-nos. Eu resolvo isso.
        E, ao seu comando, os dois anjos saram. Quando os oficiais deram as costas, alertei
Baturiel para o erro que eu acreditava que estivesse cometendo.
        -- Baturiel, nunca pensei que estivesse no meio dessa sujeira -- disparei.
        -- No  o que parece, general.
        Uma vez sozinhos, na negritude da noite, em meio s oliveiras do morro, julguei ter
chegado a hora de meu extermnio, mas o Mestre do Fogo me surpreendeu novamente.
        -- Sei do seu encontro com Nathanael, da casta dos ofanins -- revelou o arcanjo.
        -- O que fez com ele, Gabriel? -- endureci.
        -- O Mais Puro est em uma misso delegada por mim, se  o que deseja saber.
        -- Nathanael jamais lhe obedeceria.
        O Mestre do Fogo sorriu, reparando que meu sangue fervia e que eu me segurava para
manter o controle.
        -- Nathanael j me obedeceu uma vez, na poca do dilvio. No  a primeira vez que o
Mais Puro participa de uma misso ordenada pelos grandes. Voc, que  to amigo dele, devia
conhecer melhor os seus louros. Pensei que soubesse de toda a histria, mas agora entendo o
que se passa. Seu dio pelos arcanjos o impede de enxergar a verdade.
        Eu j havia me lanado em misses suicidas antes, por minha prpria vontade. Daquela
vez, todavia, no tinha escolha. Seria liquidado, ento por que no morrer lutando? Haveria
honra maior para um anjo renegado do que perecer em combate com um dos arcanjos?
        -- Est mentindo, Gabriel! -- acusei. --Tenho uma demanda a cumprir e entrarei nessa
cidade, ou morrerei tentando.
        --  imprudente, meu jovem -- no havia muitos que pudessem me chamar assim.
Gabriel era um deles. Os arcanjos so anteriores  luz; foram criados alguns bilhes de anos
antes dos anjos comuns.
        Concentrado, ajoelhei-me sobre a grama macia do monte e vali-me de meu poder
mximo para invocar a Ira de Deus. No sabia se minha tcnica de combate poderia prostrar um
arcanjo, mas era a hora de tentar tudo de que dispunha.
        -- Gabriel, Mestre do Fogo, j travei inmeros duelos e no me envergonho de dizer
que, em alguns deles, conheci a derrota. Na maioria das vezes, porm, sa vencedor. No sei
qual ser o desfecho deste combate. Tudo o que sei  que, esta noite, serei seu oponente, sob
essa lua que nos espia do leste.
        Tomei uma distncia segura do Mestre do Fogo e avancei em carga, com toda a
potncia a queimar meu sangue. Mas, ao perigo do ataque, o arcanjo no se mexeu. Com o
punho direito, preparei-lhe um soco no rosto, e executei um golpe perfeito, brilhante. A preciso
do assalto poria qualquer um a nocaute, mas meu embate foi interrompido por um tipo de
telecinesia. Um campo de energia mstica frustrara a trajetria do murro, e eu agora tentava
venc-lo, sem sucesso. Gabriel no precisava tocar em nada para projetar sua fora, que era
descomunal, muito maior do que eu poderia imaginar. Era como se eu estivesse enfrentando um
deus, e a diferena de poder entre ns revelou-se abissal.
        -- O que h com voc, general? Sua potente Ira de Deus, ou seja l como os querubins
chamam essa tcnica, no  to grande quanto pensava, no ? Seus inimigos devem fraquejar
diante de to inofensivo ataque -- ele falava como um mentor, e no como um inimigo.
        -- O que est fazendo, Gabriel? -- rosnei, empregando toda a fora para vencer o
magnetismo que circundava o inimigo.
        -- Recue, guerreiro. Meu objetivo no  machuc-lo -- advertiu.
        -- Nunca -- insisti, e com um novo empurro tentei afront-lo.
        Quanto mais eu arremetia, mais a fora invisvel me empurrava para trs, e, quando
investi com novo estalar de fria, a barreira mstica reagiu, e fui lanado para longe com
violncia implacvel. Meu corpo foi arrojado como projtil, abrindo uma vala em sua trajetria,
destruindo rvores e espalhando estilhaos de rocha por centenas de metros. Nunca, em toda
minha vida, fora vtima de uma ofensiva to brutal.
        Aturdido, escorei-me nas laterais da cratera para me levantar, em meio  poeira que
dominava o buraco.
        Tentei olhar adiante e vi a silhueta de Gabriel ereta sobre um pedao de rocha. Se
pudesse peg-lo naquele segundo, desprevenido, talvez conseguisse acert-lo.
         Com a habilidade de um querubim, saltei para fora da cratera como um gato na noite e
desci com a mo fechada para assaltar o arcanjo. Mas minha destreza e rapidez superiores de
nada serviram. O Mestre do Fogo executou um curto movimento de punho, e eu, ainda no ar, fui
paralisado por sua telecinesia. Imobilizado, como que flutuando em uma esfera energtica, eu
estava totalmente sibmisso, sem poder mexer um msculo que fosse. No conseguia nem
mesmo falar.
         Gabriel demonstrou que sua pacincia acabava. Ao esticar de um brao, a esfera me
projetou novamente, mas dessa vez estabilizei o empuxo e aterrissei rolando sobre um stio de
pedra. No ltimo instante, porm, um tropeo me jogou ao solo, e ca prostrado a centmetros
de um precipcio. A queda dali era assustadora, mesmo para algum como eu, que pulava e
escalava com perfeio superior  humana.
         O arcanjo, observei, movia-se  velocidade de seus golpes. Quando o procurei com o
olhar, enxerguei o Mestre do Fogo j em meus calcanhares, flutuand mesmo sem asas a um
metro do cho. Devia ser sustentado pela mesma forcai magntica que o envolvia.
         -- Est derrotado -- proferiu. -- No tem a mnima chance de me vencer em combate.
Basta um simples movimento meu, e ser jogado ravina abaixo. Agora, aceite seu destino e faa
o que digo. V embora enquanto h tempo.
         Recompus-me devagar, porque conhecia a periculosidade de suas ameaas.
Encurralado, preferi lev-lo ao dilogo.
         -- Se sabe que Nathanael veio at mim, ento conhece o valor de minha misso -- ele
se mostrou impassvel. -- Por que faz isso, Gabriel? Por que me impede de zelar pelo
Iluminado?
         Flutuando, o Mestre do Fogo recuou uns dois metros, possivelmente para demonstrar
uma disposio pouco agressiva.
         -- Voc no entende, general -- havia angstia em suas palavras. -- Sua demanda no
tem mais serventia.
         Minha misso, arruinada? O que poderia lev-la ao fracasso, seno minha morte? Ser
que eu chegara atrasado para encontrar o Sagrado com vida? Ou teriam os arcanjos destronado
os defensores do Menino?
         -- Ento, o Salvador est morto? -- sibilei, perdido em devaneios.
         -- No, ainda no. Ele foi condenado. No por mim, nem por Miguel, nem por qualquer
um dos celestiais, mas por sua prpria gente. O Salvador foi condenado pelos homens, e contra
isso nada podemos fazer.
         Fiquei em silncio, avaliando a idia. Ser que o Mestre do Fogo mentia? No, no
precisava... Poderia me matar com um piscar de olhos, ento por que sustentar uma farsa? Como
que adivinhando meus pensamentos, o arcanjo completou:
         -- No  voc mesmo que sempre diz que no devemos interferir no arbtrio dos
mortais? No foi por isso que se insurgiu contra ns? No foi por esse motivo que levantou
armas contra os arcanjos?
         -- Mas isso  diferente, Gabriel... -- articulei, sem calcular bem as palavras.
         -- O Iluminado, apesar de seu poder e sabedoria,  homem tambm. Diferentemente de
ns, foi agraciado com o livre-arbtrio, como todos os seres humanos. O Salvador escolheu seu
prprio martrio. O fato est consumado. Agora, s eu posso ajud-lo, mais ningum.
         Seguiu-se  revelao do arcanjo uma profunda tristeza, e senti que ambos
compartilhvamos de igual amargura. Por um minuto, enquanto o vento do deserto soprava
sobre a ravina, nada foi dito. As casas e fortalezas de pedra, na cidade de Jerusalm, resistiam s
trevas corno pontinhos de luz, imitando as estrelas no cu.
         Foi ento que Baturiel, o querubim de couraa dourada, retornou, quebrando o silncio.
O oficial chegou caminhando, e sobre os ombros de seu lder lanou a notcia:
         -- Mestre, nosso mensageiro no Calvrio acaba de chegar -- ele abaixou a cabea em
sinal de respeito. -- O Salvador morreu.
         -- Esse problema ser contornado -- devolveu Gabriel, como se j tivesse calculado
todas as sadas possveis. Detinha, seguramente, controle total da situao, e imaginei que o
Mestre do Fogo previra cada instante daquela odisseia.
         Baturiel recuou, e o arcanjo voltou-se  minha presena.
         -- Como percebe, h muito que fazer, general, Deve partir agora -- determinou, em um
comando final. -- E intil tentar furar o bloqueio. A cidade est cercada, no mundo fsico e no
espiritual -- e, confiando na dignidade de um guerreiro vencido, deu de ombros e preparou-se
para deixar a cena de batalha.
         Eu estava estupefato. Tivera um encontro com Gabriel Arcanjo, fora derrotado e seguia
com vida. Alguma coisa no se encaixava.
         -- Espere, Gabriel -- trepliquei. -- Por que me deixa livre? Sou um renegado, um
proscrito, e voc, um arcanjo, um executor, um gigante.
         Ele respondeu  minha pergunta com uma resposta proftica:
         -- Antes que o stimo dia alcance seu fim, ns nos encontraremos mais uma vez. Por
ora, siga em paz seu caminho -- concluiu, evocando a frase emblemtica do Mensageiro.
         Tudo o que queria saber era o paradeiro de Nathanael e o destino do Salvador. Mas, se o
Mestre do Fogo dissera a verdade, o Iluminado estava morto, e com isso minha demanda
desfazia-se ali. No tinha certeza se as palavras do arcanjo eram verdadeiras ou no, mas
minhas opes se esgotaram.
         Gabriel flutuou sobre o rochedo at o fundo da ravina e l desmaterializou seu corpo
fsico, passando como esprito ao plano astral. Mais uma vez, a transferncia planar abalou o
tecido, dissipando uma onda colossal de energia. Depois, eu o vi atravs da membrana, voando
em direo  cidade.


                                     UM LTIMO BEIJO

         Trs meses depois do meu fatdico encontro com o arcanjo Gabriel no monte das
Oliveiras, regressei a Roma, levando pessoalmente a Shamira as notcias que prometera ao
partir. Nem ela, nem Flor do Leste, nem eu mesmo espervamos que eu retornasse to cedo,
mas, devo admitir, foi aprazvel voltar  casa da feiticeira, um recanto seguro, um mundo  parte
dos perigos que me espreitavam em viagem.
         Em julho, o calor na Cidade Eterna atingia nveis insuportveis, e muitos aristocratas da
poca deixavam suas manses na capital para passar uma temporada na villa, a propriedade
rural fora dos muros da metrpole. Mas Shamira no tinha terrenos no campo, s o domus na
capital, e l permaneceu por todo o vero, estudando frmulas mgicas e esperando por meu
relato.
         Por uma semana inteira, descansei no aconchego daquela casa arejada, meditando no
ptio do peristilo, banhando-me s vezes no lago artificial do centro do trio e travando com a
necromante discusses que varavam a noite, sobre toda sorte de acontecimentos, celestiais e
mundanos. Era agradvel conversar com ela, no s pela variedade de assuntos que
partilhvamos, mas porque simplesmente sabamos ouvir um ao outro. Por muitas vezes, desejei
ficar para sempre na companhia da moa, quis que o mundo parasse para que tivssemos nosso
tempo, um eterno momento de paz.
         Mas o mundo no para.
         Enquanto eu estivesse ali, junto delas, Shamira e Flor do Leste correriam perigo, assim
como correram Tales, Tommaso e todos os humanos e anjos que eu trouxe para o seio de minha
vida fugaz.
         Em um de nossos infatigveis dilogos, a feiticeira me contou o que acontecera no
mundo dos homens enquanto eu estivera dormindo. Contou-me tambm sobre seu duelo com
Zamir, antes de eu cair em torpor. Eu, por minha vez, relatei minha viagem  China e meu
encontro com Nathanael perto da muralha. Discorri sobre minha visita a Enoque e sobre o
reencontro com o capito Hazai. Por fim, detalhei meu embate com Gabriel.
         -- Mas ento voc no encontrou o anjo Nathanael? -- perguntou Shamira, no ptio do
domus.
         -- Essa histria ainda me instiga. Gabriel disse-me que o Mais Puro estava em uma
misso delegada por ele, mas no falou qual era essa misso. Estou certo de que Nathanael no
mentiu para mim quando disse, ainda na China, que integrava um grupo que pretendia salvar o
Iluminado. Ento como poderia estar no mesmo partido de Gabriel? Gabriel  um arcanjo. Os
arcanjos odeiam os humanos, acima de tudo.
         -- E voc acha que Gabriel estava dizendo a verdade? -- questionou a mulher.
         -- No sei. Se no estivesse, ento por que no me matou? Por que no me atirou do
rochedo?
         Ela cortou um dos galhos de uma roseira do ptio, aparando a irregularidade da planta.
         -- Sei pouco, quase nada, sobre a poltica celestial, mas, se ela for igual  humana, eu
diria que, para voc encontrar a resposta, precisa antes analisar os interesses.
         -- Como assim?
         -- H interesses por trs de cada movimento no mundo. Que benefcio Gabriel teria em
deix-lo vivo? Por que mentiria? Por que esconderia Nathanael de voc? Tanto os justos quanto
os perversos so movidos por vontades implcitas.
         -- Implcitas demais para eu inferir.
         -- Por enquanto, talvez, mas um dia a verdade aparecer. Basta estar preparado para
encar-la -- e olhou para mim em um sutil elogio. -- E voc sempre est preparado para tudo.
         Permiti-me uma autocrtica:
         -- Eu no estava preparado para enfrentar Gabriel...
         --  claro que estava, caso contrrio no estaria aqui. Derrotar algum no significa
necessariamente venc-lo em combate.
         Sorri, zombando da natureza que me era inerente.
         -- Meu carter guerreiro no me permite essa multiplicidade de opes -- retruquei,
bem-humorado.
         Ela aparou mais um galho da roseira, retirando os espinhos com uma tesoura de ferro.
Flor do Leste estava ali perto, no estdio, escrevendo alguma coisa em pergaminhos de pele. Ao
v-la sentada em um diva, apoiando uma prancheta de madeira sobre as coxas, meus olhos se
recusaram a reconhec-la como mulher. Para mim era uma eterna menina, a pequena chinesa
que se agarrava a mim nas noites de frio, que me salvara da morte duas vezes seguidas.
         Enquanto observava os graciosos movimentos da oriental, meus pensamentos se
perderam nas aventuras pelos escombros de Enoque.
         -- O que foi, Ablon? Voc no costuma se deixar levar por devaneios -- percebeu a
mulher, reparando que eu cortara, por um instante, minha ligao com o mundo.
         -- Essa jornada foi permeada por fatos intrigantes, Shamira, que no consigo
desvendar. Fico pensando qual seria a ligao entre eles. Se  que h uma ligao...
         -- Voc se refere ao assassinato de Ishtar -- sups a feiticeira, j a par de meu encontro
com o capito renegado nas runas da Bela Gigante.
         -- A simples morte dela no diz muita coisa, afinal todos os renegados so perseguidos.
Mas Hazai me disse que Ishtar estava sendo caada no s por ser uma pria, mas porque
descobrira uma suposta conspirao, que aparentemente envolvia o cu e o inferno e ameaava
a existncia do prprio Yahweh.
         -- Se Ishtar estava certa em sua investigao, ento pode contar que esse  o segredo
mais bem guardado do universo. Seja quem for que esteja, ou estivesse, por trs desse conluio,
vai tranc-lo a sete chaves. Mas no imagino quem tenha poder para tanto. At mesmo o mais
forte dos arcanjos no seria adversrio para o Reluzente, como voc mesmo me disse uma vez.
         -- Yahweh est dormindo -- ponderei.
         -- E ainda assim voc acha que algum poderia molest-lo? -- perguntou a
necromante, que sabia muito menos do que eu sobre a conjuntura celeste.
         Fiquei um tempo calado e depois respondi, convicto:
         --  claro que no -- declarei, aliviado. -- Nem acho que devia estar pensando nessas
coisas agora. No h fatos com os quais trabalhar. Remoer isso s vai me levar ao desnimo.
         Conformado, preferi deixar a suspeita de lado e me contentei em gozar da quietude e da
tranquilidade que desfrutava na manso romana, com aquela mulher admirvel. Mas houve um
dia em que, como de hbito, meu tempo se esgotou. No poderia ficar ali e ser egosta a ponto
de atrair mais inimigos para a vida daqueles que eu amava. Era iluso pensar que tinha acabado.
Mesmo tendo destrudo as rapinas, mais caadores viriam me buscar, e eu esperava estar bem
longe de Shamira e de Flor do Leste quando isso acontecesse.
       Minha temporada em Roma havia acabado.


         Em uma calma manh de vero, quando o sol nascia nas montanhas, anunciei minha
partida. A feiticeira e a chinesa me acompanharam at a calada, em frente ao domus, ainda
vazia aos primeiros raios do dia. Aquela era uma rea residencial, abastada, e por isso tomada
por um silncio quase rural, s quebrado pelo barulho do vento nas rvores e pelo canto dos
pssaros que piavam ao sol.
         -- Ento, esta  mais uma daquelas habituais despedidas -- brincou Shamira. -- J
comea a parecer chavo.
         Eu sorri. Era sempre difcil deix-la.
         -- Por quanto tempo pretende continuar por aqui? -- perguntei, referindo-me  casa
romana.
         -- No muito. Esta casa est maculada. Nunca ser a mesma depois da passagem de
Zamir.
         -- E por qual estrada pensa em seguir?
         -- Vou escoltar Flor do Leste de volta ao seu pas. Por muitas vezes ela manifestou a
vontade de morrer na China, e, embora eu ache que ela ainda viver por muitos anos, um dia seu
corpo se curvar ao apelo da morte.
         Encarei a chinesa, que a tudo ouvira calada. A morte humana pode ser um sofrimento
para os que ficam, mas  uma ddiva para os que vo. Libertar-se das limitaes da carne  o
presente final para aqueles que enfrentaram a dureza da vida, e eu era testemunha de como Flor
do Leste sofrera na infncia.
         -- Sei que  perda de tempo perguntar para onde voc vai -- antecipou-se Shamira.
         -- Nem eu mesmo sei. Talvez siga para o norte, para as terras geladas alm da
Germnia. Os romanos costumam me confundir com os brbaros que habitam essas partes.
Seria instigante conhec-las.
         A feiticeira concordou com um movimento de cabea e me agradou com um sorriso.
         Caminhei at Flor do Leste, em sua postura rgida, disciplinada, e abracei-lhe o corpo
pequeno, que mesmo depois de trinta anos se conservava mido. O cheiro da pele tambm era o
mesmo, inconfundvel ao olfato de um anjo guerreiro.
         -- No importa quantos anos se passem, Flor do Leste, voc sempre ser minha
pequena chinesa. E quando tiver partido para junto de seus ancestrais, continuarei a me lembrar
de seu rosto quando vir uma flor, o mar ou as montanhas nevadas. Sua herana agora mora em
mim, pequena, e eu a levarei at o fim do mundo.
         Ela se agarrou a mim com a afeio costumeira, mas no chorou como das outras vezes.
Ao me ver vivo e forte, teria cumprido a demanda que escolhera para sua vida. E, para aquela
pequena gigante, isso bastava.
         Voltei-me para Shamira, pronto para um ltimo adeus. Ao longe, nas ruas do centro, o
barulho do comrcio anunciava o despertar da cidade.
         -- Voc parte junto com uma era, renegado -- prenunciou a mulher. -- A partir de
agora, o mundo mudar para sempre. A mensagem deixada pelo Salvador jamais ser
esquecida. Em breve, Roma cair, e uma nova comunidade mundial seguir. Assim
profetizaram os espritos, sou apenas sua porta-voz.
         -- Ento talvez minha misso no tenha sido totalmente perdida -- confortei-me.
         Ns nos olhamos, tentando adiar, nem que fosse por segundos, a dolorosa despedida.
Nossos corpos se aproximaram, meio que involuntariamente, terminando em um abrao
carinhoso. Ao solt-la, Shamira levantou o rosto, antes deitado sobre meu ombro, e seus lbios
se aproximaram dos meus. Senti o aroma doce de sua boca, e um turbilho de emoes
apoderou-se de mim. Sensaes novas e desconhecidas dominaram meu ser, levando-me
prximo ao xtase. Quando, porm, nossos lbios estavam a ponto de se tocar, ela se desviou e
me beijou no canto da face.
         Encabulado, eu a olhei com um misto de confuso inocente e desejo apaixonando.
         -- Quando quiser um beijo de verdade, dever toma-lo -- disse a mulher, sedutora. Seu
charme era ardente, irresistvel.
         Naquele momento, tudo o que eu mais queria era possu-la, t-la eternamente junto de
mim, entregar-me ao seu fascnio. Mas era justamente por am-la tanto, por querer proteg-la de
todos os males, que eu no podia toma-la. Foi assim, e s por isso, que resisti ao desejo.
         -- Haver um dia em que as trevas se dissiparo, feiticeira. E a teremos nosso tempo.
         Ela sorriu, orgulhosa, e por um instante, apesar do beijo sedutor, tive a impresso de que
era por isso que esperara desde o incio.
         Foi assim que deixei a Cidade das Sete Colinas e todas as minhas melhores lembranas
da poca dos csares. Eu ainda voltaria a Roma algumas vezes depois disso, mas ela nunca seria
a mesma. Nunca seria a mesma sem Shamira.
         No outono daquele ano, a feiticeira deixou a grande metrpole, viajou para a China e l
ficou at Flor do Leste morrer, to velha quanto pode um ser humano. Durante esse tempo, a
necromante estudou a mgica chinesa, aperfeioando-se ainda mais nos estudos msticos. Sem
querer, ao assassinar os mestres feiticeiros, Zamir havia lhe coroado com uma honra nefasta,
porm respeitosa.
         Shamira era agora a maior feiticeira da terra.




                                    QUASE UM ASSASSINO
NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, NA COSTA SUL do Atlntico, uma nuvem negra de chuva encobria o
topo da montanha, encimada pela gigantesca esttua do Cristo Redentor. A manh ia morrendo,
e com ela o sol que coloria de azul as guas do mar e alvejava a areia das praias.
         No apartamento de Ablon, Sieme, a Mestre da Mente, olhava atravs da janela, fitando
a tempestade que se aproximava. Aziel, a Chama Sagrada, vigiava a porta, enquanto o Anjo
Renegado vasculhava as prateleiras destrudas, tentando encontrar o passaporte falso que
guardava para o caso de emergncia, agora perdido na baguna deixada pela passagem do Anjo
Negro.
         -- Aqui est! -- exclamou Ablon, sacando o documento de uma pilha de entulhos.
         -- O comrcio est fechando as portas -- reparou Sieme, atenta ao movimento nas ruas.
-- H uma sensao coletiva de medo na mente das pessoas.
         --  a guerra. A guerra mundial deve ter sido oficialmente declarada -- calculou o
general.
         -- Pelo que vi nos jornais -- palpitou a serafim --, este pas no faz parte de nenhum
dos dois blocos em conflito.
         -- A guerra afeta o mundo todo, Sieme. A potncia de destruio dessas armas
humanas no conhece fronteiras -- explicou Ablon, referindo-se  artilharia nuclear --, e uma
hora ou outra seu eco alcanar toda a terra. Os locais afetados so contaminados por uma
energia destrutiva, e os sobreviventes acabaram perecendo mais tarde.
         -- Que perspectiva terrvel! -- assustou-se Aziel. -- Os homens parecem imitar as
catstrofes arquitetadas pelos arcanjos nos dias antigos. A que ponto chegaram!
         -- No foi  toa que minha esperana na humanidade acabou. Por muitos anos pensei
que todo o dio fosse reversvel, at que vi o cogumelo atmico levantar-se sobre os cus do
Japo. Mas o que Lcifer disse  em parte verdade. A civilizao humana sucumbir nesta
guerra, mas nem todos morrero. Ainda  possvel erguer um novo mundo dos escombros, mas
no com Miguel perseguindo os mortais.
         Apertou as amarras que prendiam o longo embrulho de pano, no qual enfiara a
Vingadora Sagrada. No pretendia caminhar pela cidade com uma lmina de um metro em
punho. Trespassou uma corda pelo meio do invlucro, improvisando uma ala, e lanou o
embrulho s costas. Ainda no sabia como fazer a arma passar pela alfndega.
         --  verdade, general -- concordou Sieme. -- Ns, anjos, j vimos os homens se
recuperarem de cataclismos ainda maiores. Quem, na poca, pensaria que resistiriam ao dilvio?
         Involuntariamente, os olhares do Anjo Renegado e da Mestre da Mente se voltaram para
Aziel. Por pouco, ele no se tornara o mais cruel dos assassinos, durante os dias da grande
inundao. "No vou participar desta destruio intil", dissera a Chama Sagrada a seu mestre,
Amael, que, por ter recebido uma ordem direta dos arcanjos, no podia dar-se ao luxo de recus-
la.
         Fez-se um silncio embaraoso, at que Ablon assumiu o comando.
         -- Vamos embora. J tenho o que procurava -- avisou, guardando o passaporte no
bolso.
         Os trs caminharam rumo  porta, mas Sieme pisou em um objeto no centro da sala e
parou para observ-lo. Era a pistola de Shamira, a potente Desert Eagle que usara para manter a
distncia Euzin e Ankarel, na noite anterior. Estava jogada no piso, perto de uma trilha de
sangue e miolos.
         -- O que  isto? -- perguntou, curiosa. Pouco conhecia sobre a tecnologia humana,
ento tudo com que se deparava era novo, interessante.
         -- Uma arma, a pistola de Shamira -- explicou Ablon.
         --  um objeto ordinrio, de metal. Como ela esperava enfrentar celestiais com isto?
         -- O chumbo dos projteis estava encantado, o que os converteu em artefatos mgicos.
         A serafim, mesmo com toda sua inteligncia celeste, ainda no compreendia muito bem
como era possvel combinar o conhecimento da mgica  ftil tecnologia dos homens
modernos. Parecia-lhe um tanto absurda a ttica dos magos.
         -- Esquea isto, Sieme -- determinou o Anjo Renegado. -- Nosso tempo  curto.
         Ao mesmo tempo fascinada e indignada com a ousadia terrena, Sieme perseguiu seu
lder, deixando o quarto exatamente como o encontrara. Juntos, tomaram o caminho da rua.


                                      A RUNA DA PAZ

        O sol havia sado por completo, mas a umidade s fazia aumentar. A nuvem de chuva
agora enegrecia todo o cu, e um trovo que mais parecia um rugido fez a cidade tremer. Um
raio precipitou-se sobre o mar, anunciando a chegada de uma tormenta eltrica.
        -- Mas ser que nunca para de chover nesta cidade? -- reclamou Sieme, recolocando a
parca de couro que deixara de lado por causa do calor. Os serafins so obcecados pela perfeio;
no gostam quando alguma coisa est fora de lugar.
        -- Essa tempestade no  natural -- constatou Aziel. Os ishins entendiam como
ningum os fascinantes mistrios da natureza. -- Realmente, no devia chover tanto assim.
        -- So os efeitos da mudana climtica -- explicou Ablon.
        -- E no que consistem essas mudanas? -- perguntou a Chama Sagrada.
        -- Destruio da camada de oznio, efeito estufa, aumento da poluio... Tudo isso tem
desestabilizado o clima no mundo. reas quentes esfriam, territrios polares esquentam. H um
completo caos no meio ambiente global.
        Aziel, especialmente sensvel ao problema climtico, ficou introspectivo. Os ishins
lutavam constantemente para manter o fluxo da natureza, para preservar as energias elementais,
e de repente todo seu trabalho se revelava impotente diante da ganncia humana.
        O coro passou reto pelo beco onde a motocicleta de Ablon estava estacionada. O
veculo de duas rodas era imprprio para trs, e o renegado optou por tomar o metro. Quando
desciam as escadas sujas que davam acesso ao terminal, o general atentou ao som que s ele,
com sentidos de predador, poderia escutar.
        -- O que foi? -- indagou Sieme.
        O querubim levantou a mo em sinal de silncio, e os dois se calaram. Milhares de
trabalhadores haviam deixado o trabalho mais cedo, conforme a Mestre da Mente observara
pela janela da penso, e estavam voltando para casa, lotando as escadarias que desciam aos
guichs e s plataformas do trem.
        -- O barulho da Segunda Trombeta que ouvimos mais cedo foi mesmo provocado por
um novo bombardeio -- revelou Ablon, ao escutar a transmisso de uma pequena TV instalada
na barraca de um vendedor ambulante. -- A guerra foi oficialmente declarada.
        -- O que aconteceu? -- quis saber Aziel.
        -- A reportagem diz que a Aliana Oriental respondeu  ofensiva nuclear a Pequim
lanando uma bomba sobre Nova York -- a Chama Sagrada conhecia a cidade, mas Sieme
nunca ouvira falar dela. -- O segundo anjo tocou a trombeta, e uma grande montanha abrasada
foi lanada ao mar -- murmurou o general, recordando-se das palavras de Joo no livro bblico.
        -- No entendi a ligao -- confessou a Mestre da Mente.
        -- Nova York  uma ilha -- esclareceu Aziel.
        A mulher-anjo entendeu o comentrio, mas no tinha certeza se preferia ter entendido
ou no.


         As linhas de metro, antes insuficientes para atender toda a cidade, haviam sido
ampliadas oito anos antes, quando o Rio de Janeiro sediara os jogos olmpicos. De l para c, a
verba de manuteno acabara, e os vages bem iluminados e plataformas limpas deram lugar a
terminais imundos e vages escuros, depredados por gangues de arruaceiros que passavam a
madrugada destruindo os bancos e roubando fios de luz. Sieme reagiu com espanto, mas Aziel
j tinha uma idia do que encontraria. O cheiro da sujeira era insalubre, e os trs anjos tiveram
que se embrenhar na multido para conseguir embarcar.
         No meio do caminho, antes de chegar ao aeroporto, Ablon desembarcou em uma
estao perto da praia e pediu que os dois celestiais o acompanhassem.
         -- No vou demorar muito. S preciso fazer uma coisa.
Subiram as escadas e viram-se diante da avenida  beira-mar. Aquela no era a mesma praia a
que o renegado levara Shamira havia dois dias. Estavam defronte  enseada de Botafogo,
abraada ao longe pelo famoso Po de Acar, um morro alto que parecia nascer do mar,
delimitando o recncavo marinho. Suas encostas rochosas e inacessveis culminavam em um
mirante belssimo, s alcanado por um sistema telefrico denominado bondinho.
         Aziel e Sieme no compreenderam a atitude de seu general nem entenderam o porqu
da parada. Atravessaram a avenida e pisaram na areia, chegando bem perto do mar. Era s o
incio da tarde, mas o cu estava negro com a iminncia da tempestade. Correntes de raios
danavam de uma nuvem para outra e depois explodiam no morro.
         -- Sinto trazer-lhes aqui. Nunca acreditei muito em sorte ou destino, mas achei que
deveria prestar uma homenagem -- avisou o guerreiro.
         -- Uma homenagem a quem? -- perguntou Aziel, com o cuidado de no parecer
ofensivo.
         Ablon ps a mo no bolso do sobretudo emborrachado, prprio para dias chuvosos, e
tateou o fragmento de basalto, dado a ele recentemente por Orion, quando de seu encontro no
topo da esttua do Cristo Redentor.
         --  primeira grande nao. Ao povo que fez de tudo para exaltar as leis celestes,
julgando serem as diretrizes do prprio Yahweh, e que recebeu em troca a devastao de suas
terras e a aniquilao total de sua cultura.
         -- Atlntida -- desvendou Sieme.
         Quando o Primeiro General abriu a mo, os dois celestiais notaram que ele segurava um
pedao de rocha preta. Uma das superfcies era lisa, lustrosa, como se outrora tivesse feito parte
de um objeto maior. Sobre o lado polido era visvel um caractere antigo, que os anjos
identificaram como um dos pictogramas atlnticos.
         -- E uma runa atlntica -- reconheceu Aziel. -- O que quer dizer?
         --  o ideograma da paz. Este fragmento era parte do monlito que existia na capital de
Atlntida h muito tempo e que foi posto abaixo pela grande inundao -- o renegado fez uma
longa pausa antes de retomar a explanao. -- Os adantes tinham o costume milenar de escrever
seus desejos em pedras e depois lan-las ao mar. Contavam que as ondas sempre devolviam
aquilo que o oceano havia engolido. No sei por qu, mas algo me impulsionou a isto.
         O general arremessou com toda a fora a pedra ao mar, que quase sumiu s vistas em
sua trajetria. As guas envolveram a runa, sugando-a para o fundo da enseada. No outro bolso
do casaco, Ablon sentiu o peso do objeto de barro, a chave mstica dada a ele por Lcifer. O
renegado sabia que no a usaria e pensou em jog-la, mas no fim preferiu manter a pea
consigo, s por precauo.
         Um relmpago iluminou a tarde.
         Comeou a chover.


                                A TORRE DAS MIL JANELAS
         O terrfico Anjo Negro, com suas distinguveis asas de penas pretas e o elmo fechado a
cobrir todo o rosto, voava pelo plano etreo, levando a mulher desacordada nos braos. Era
Shamira, a Feiticeira de En-Dor, que fora raptada no mundo fsico e levada para l. Apesar de
toda sua habilidade mgica, ela era humana, era carne, e no podia atravessar o tecido da
realidade sem o recurso de um portal. Mas o Anjo Negro tinha habilidades magnficas, e uma
delas era a propriedade de "abrir todas as portas". Podia, portanto, se mover  vontade pelos
planos, cruzar a membrana, atravessar o astral e invadir o etreo.
         Dentre todas as edificaes do etreo, a Fortaleza de Sion  a mais magnfica. Suas
propores superam em todos os aspectos as estruturas humanas -- mais parece uma torre,
edificada em cem anis decrescentes, um sobre o outro, terminando em um pequenino ptio
circular, onde est fixado o maior dos arte-fatos do mundo, a Roda do Tempo, o crculo mstico
criado por Deus para marcar a continuidade do stimo dia.
         A magnitude da fortaleza  tamanha que o primeiro anel, a base, chega a superar trs
mil metros em dimetro. De suas paredes externas, assentadas por uma rocha avermelhada,
nascem dezenas de milhares de sacadas, janelas e umbrais, cautelosamente vigiados pelas
poderosas legies de querubins que guardam e cercam o permetro. Em seu interior, um nmero
incalculvel de cmaras e salas d abrigo aos partidrios do arcanjo Miguel, anjos vis,
invejosos, que deixaram suas moradias no paraso para lutar a grande Batalha do Armagedon. A
fortaleza  chamada tambm de Torre das Mil Janelas, embora tenha muito mais do que um
milhar de passagens.
         O Anjo Negro voou por cima do crculo de montanhas que protegia Sion e se
aproximou da torre. Adiante, quase no horizonte, era possvel enxergar as guas rubras do rio
Styx.
         Nenhum dos querubins que patrulhavam a regio, nem mesmo os capites e
comandantes, ousou deter aquela estranha entidade, que ningum sabia de onde viera e que
respondia apenas ao Prncipe dos Anjos. Aterrissou firme em uma das plataformas do penltimo
andar e penetrou por um tnel escuro, para desaparecer nas entranhas da torre. Ainda carregada,
Shamira acordou, mas deixou-se levar sem reao. Sentia-se intil, mas tambm era fascinante,
para uma estudante do oculto, estar na Fortaleza de Sion, onde nenhum ser humano jamais
entrara e que nem sequer contemplara.
         Ao fim do corredor, diante de uma enorme porta metlica, uma figura aguardava a
chegada do Anjo Negro e de sua presa. Vestia uma armadura completa, de ao brilhante, com
detalhes dourados, e levava na cinta uma espada de cabo adornado. O elmo de queixada pontuda
tinha uma crina vermelha, e as asas brancas pareciam afiadas nas pontas, a reluzir como
navalhas. Shamira nunca tinha visto aquele ser fabuloso, mas estava certa de que era o arcanjo
Miguel, dada sua aura poderosa.
         -- Encontrou problemas em proceder a meu comando? -- perguntou o Prncipe dos
Anjos.
         -- Foi to simples quanto derrotar a renegada Ishtar -- respondeu o Anjo Negro.
         -- Bom... -- murmurou Miguel, analisando a mulher. -- Acompanhe-me.
         A porta metlica abriu-se sem precisar ser tocada, revelando um aposento
curioso ao trmino de uma escada ascendente. Era uma grande sala redonda, revestida com as
mesmas pedras vermelhas que compunham a fortaleza. Em suas paredes, a necromante contou
duas dzias de portas de ferro, todas fechadas. As dobradias pareciam seladas, e nas portas no
havia maanetas, mas cada uma delas tinha no centro um recuo anelado, decorado com
smbolos anglicos. Shamira sups que aqueles nichos fossem um tipo de fechadura mstica,
onde seria encaixada uma chave redonda. No meio da sala fixava-se um pedestal em formato de
meia coluna, sobre o qual jazia um livro de aparncia antiga, escrito por dentro e por fora. A
feiticeira no sabia, mas aquele era o Livro da Vida, um tomo dado por Deus a Miguel antes de
seu adormecimento. O aposento que cruzavam era, a propsito, a famosa Sala dos Portais, o
lugar para onde Lcifer queria enviar Ablon na tentativa de abrir o acesso ao inferno.
         Na cmara havia uma nica porta aberta, diferente das outras, mais larga. Sua passagem
levava a uma segunda escada, bem mais estreita, e os dois celestiais se dirigiram para l. No
percurso, a necromante notou que Miguel tomou o Livro da Vida do pedestal e o guardou
consigo.
         Os degraus culminavam em um alapo aberto, que saa para um pequeno ptio
redondo. No meio descansava uma grande roda, como uma mesa de pedra, presa ao cho por
um eixo. As extremidades da roda eram marcadas por uma sucesso de caracteres, como os
nmeros de um relgio. As inscries, que Shamira no podia entender, derivavam do cdigo
sagrado dos malakins, um idioma anterior  aurora do mundo. Haviam chegado, portanto, ao
topo da fortaleza, e aquele terrao estreito era seu ltimo nvel.
         Foi ento que a feiticeira viu que sobre um dos lados da mureta do ptio fixava-se uma
pilastra de mrmore negro, com correntes para amarrar prisioneiros. Foi ali que o Anjo Negro a
prendeu, de frente para a roda, no deixando chance de fuga.
         -- Pode ir agora -- disse Miguel ao raptor. -- Voc sabe o que fazer. A criatura voltou-
se ao alapo e deixou o terrao.
        Shamira estava agora sozinha com o Prncipe dos Anjos. Jamais imaginara terminar
naquela situao, diante do grande tirano do universo. No sabia como proceder, o que falar ou
como agir. Fora tomada pelo medo, o mesmo receio que a acometera havia milnios, quando
fora capturada pelo rei Nimrod. Pensava que depois de tudo se tornara capaz de enfrentar
qualquer desafio. Mas sempre h mais um que nos pe  prova.
        Abriu os olhos, compreendendo a inutilidade de simular o desmaio.
        -- Shamira, a Feiticeira de En-Dor -- proferiu Miguel, orgulhoso. -- No sabe quanto
 valiosa para ns.
        Ela no tinha certeza do que o arcanjo estava falando, mas formulara uma hiptese em
sua mente.
        -- Se pensa em me usar como isca para atrair Ablon, no ter sucesso em seu intento. O
Anjo Renegado no tem como alcanar o plano etreo.
        O Prncipe dos Anjos tirou o elmo, e a mulher viu seu rosto. Tinha o cabelo negro
cortado por uma mecha branca, que comeava na testa e terminava na nuca. A face era dura,
cheia de cicatrizes, marcas adquiridas nas Batalhas Primevas, durante a criao do universo.
        -- Sei bem disso, feiticeira, como no saberia? Eu mesmo o bani para a Haled muito
antes de voc nascer. Se hoje Ablon  um fugitivo,  porque eu o expulsei de minha casa.
        Desbancada, a necromante limitou-se a encarar o arcanjo, neutra.
        -- Mas voc conhece a histria -- continuou o prncipe. -- Pouca coisa deve ter-lhe
escapado. Estudou por sculos os mistrios csmicos, lendo tomos antigos, decifrando mosaicos
em runas, ouvindo o sussurro dos mortos... Sobreviveu roubando a energia dos espritos
malficos para se manter jovem para sempre. E por que fez isso, mulher, com que objetivo?
        Miguel era inteligente e astuto, e havia tocando no ponto fraco da moa. Ela no
conseguiu responder.
        -- Foi por causa dele, daquele anjo guerreiro. Voc escolheu no morrer na esperana
de que um dia o mundo mudasse e vocs pudessem ter seu momento de paz -- Shamira estava
assustada. Como aquele tirano sabia de tanta coisa? -- Mas esse dia jamais chegar. O prprio
Anjo Renegado j perdeu as esperanas. E voc deveria aceitar a verdade.
        -- A sua verdade no  a mesma que a minha, arcanjo -- ousou a humana.
        -- Est errada, feiticeira. Acha mesmo que a capturaramos apenas para armar uma
emboscada para um anjo proscrito? No... Nossas intenes para com voc so ainda mais
grandiosas.
        -- No foi isso o que seu capanga disse ao me raptar.
        -- Voc no devia confiar tanto em seus inimigos. Honra, glria, virtude... so
convenes humanas. Ns, arcanjos, no somos limitados por elas.
        A necromante preferiu no question-lo e guardou silncio. Tranquilo, Miguel
caminhou pelo ptio, fitando a roda de pedra.
        -- Sabe o que  isso? -- perguntou, correndo o dedo sobre a superfcie do ar-tefato
rochoso.
        -- A Roda do Tempo. Ablon me contou sobre ela.
        O arcanjo satisfez-se com a resposta. A conversa, ao que parecia, tomava o rumo que
queria. Uma brisa gelada soprou no terrao, esvoaando as melenas escuras da prisioneira.
        -- Observe as marcaes na rocha. Sei que no pode entend-las, mas  fcil
compreender o trajeto da roda. Como percebe, em breve ela completar seu ciclo -- afirmou,
indicando os caracteres e mostrando que o ltimo deles j avanara. Para Shamira, contudo, o
objeto parecia esttico. -- A Roda do Tempo continua girando lentamente, embora voc no
possa perceber com sua viso humana. Ser que no entende, mulher? No h nada que seu
amigo renegado possa fazer. Nem mesmo eu tenho o poder de parar o percurso do mundo. So-
mente o Altssimo poderia faz-lo.
        --Voc  um assassino, Miguel. Ceifou milhes de vidas humanas e justificou seus
crimes com a palavra de Deus. Ningum mais do que voc desrespeitou as ordens do Criador.
Por que acha que ele o poupar de seu julgamento, quando acordar de seu sono?
        -- Voc me chama de assassino, mas no v o que sua espcie fez ao planeta. Guerras,
morte, fome, destruio. Agora, as armas terrenas so to potentes quanto a fora divina, e o
conflito dos homens acabar com o mundo. Os humanos roubaram o poder de Deus, e o usaro
contra eles mesmos. Desde sua criao, os mortais vm cultivando o dio, o egosmo e a
violncia.
         -- Isso no o isenta de sua responsabilidade.
         -- Suas palavras so levianas, feiticeira. Tudo o que fiz foi lutar para resguardar este
mundo, desde o incio. Sempre soube que terminaria assim, e de tudo tentei para preservar a
criao de meu Pai -- ele parecia sincero. -- Se pensa que falhei, est enganada. Tudo agora
converge para que minha vontade se cumpra. A humanidade ser aniquilada. Os sobreviventes
sero sacrificados, e enfim terei o trono que me foi reservado.
         -- Levianas so as suas palavras, arcanjo. Como poderia saber que a humanidade
caminharia para o abismo? Pelo que sei, os nicos anjos que tm o dom da previso so os
malakins, e mesmo eles nada previram sobre a guerra dos homens.
         Ele sorriu, pois estava prestes a exibir suas cartas.
         -- O que  o poder de um malakim se comparado  fora de Deus? Se o Anjo Renegado
lhe contou tanto, talvez tenha lhe falado a respeito disto.
         Miguel tomou  mo um livro de folhas amareladas, escrito por dentro e por fora com
caracteres anglicos, e o ergueu s vistas da moa.
         -- Este  o Livro da Vida, uma relquia sagrada. Foi-me entregue pelo prprio Yahweh
antes de ele buscar seu repouso e contm toda a histria do stimo dia. Est tudo marcado aqui:
o passado, o presente, o futuro. O destino de cada um de ns est traado, foi escrito por ele.
         hamira engoliu em seco. Ablon havia, mais de uma vez, comentado sobre aquele tomo
mstico, e, se fosse verdade que ele continha o trajeto do mundo, ento talvez o tirano estivesse
mesmo certo. Apesar de todas as suas atrocidades, seu impulso teria sido legtimo, segundo sua
natureza celeste. Mas a necro-mante preferiu no acreditar nisso. No poderia jamais aceitar que
as idias e os valores do Primeiro General fossem mutilados. Ser que, por tanto tempo, Ablon
lutara por causas errneas?
          arcanjo afastou o livro. Deu as costas para a prisioneira e achegou-se  mureta do ptio.
De l, vislumbrou o horizonte e a cadeia de montanhas que circundava a fortaleza. Olhou para o
cu, para o cho l embaixo e para os anjos que patrulhavam a torre. Por fim, fitou o curso
vermelho do rio Styx. Em seus olhos, a moa identificou a sombra do passado.
          Houve um tempo, feiticeira, em que os arcanjos governaram o mundo -- a voz do
prncipe soou mais suave. -- Foi um breve momento, um instante fugaz entre a partida de Deus
e o despertar da conscincia humana, e a consequente confeco do tecido da realidade.
Naqueles dias, a terra era um paraso, at que sua raa comeou a depred-la. Com Yahweh
ausente, tive que tomar a deciso de preservar sua obra. E foi assim que os massacres
comearam. Eu pretendia aniquilar todos de uma vez, porque achava que podia mudar meu
destino, que podia me esquivar do que estava escrito no Livro da Vida. Mas no pude. E, enfim,
entreguei-me a meu propsito.
         A necromante examinou o discurso e encontrou uma falha nos argumentos do prncipe.
         -- Mas e quando o Criador acordar? Acha que ele permitir que voc assassine os
sobreviventes humanos e instaure seu mundo perfeito? -- tentou ironizar.
         Foi ento que o jbilo dominou a face do tirano.
         -- Vejo que no entendeu absolutamente nada do que eu disse, mulher -- e aproximou-
se da prisioneira. -- Saiba que mais cedo ou mais tarde os filhos superam os pais. O tempo de
Yahweh terminou.  hora de estabelecermos uma nova ordem no universo.
         Enfim, Shamira entendeu as pretenses de Miguel, e o simples pensamento do que
poderia acontecer a estarreceu. No teve coragem de falar, mas o arcanjo explicitou seu plano:
         -- Quando a Roda do Tempo findar, eu me proclamarei divindade. A maneira pela qual
farei isso voc saber a seu tempo, mas de qualquer forma no compreenderia o processo.
Agora consegue imaginar por que a trouxemos aqui?
         -- Voc precisa da minha alma. Por isso ainda no me matou.
         -- Eu sou um arcanjo. Ns, assim como os anjos, estamos presos  nossa natureza. No
temos o livre-arbtrio. Esse  um atributo da alma, a alma que nos falta, a alma que nos foi
negada -- e um toque de melancolia, misturado a um impulso de ira, acompanhou sua ltima
frase.
        A necromante estava assombrada. Nunca se sentira assim, to intil e ao mesmo tempo
to cobiada. Nem em seu crcere em Babel suportou tamanho horror. Se pudesse, poria fim 
prpria vida, mas estava imobilizada na pilastra de mrmore.
        -- Sua alma  poderosa -- prosseguiu o malfeitor --, talvez a mais poderosa de todas.
O Apocalipse iniciou-se e caminha para a concluso. No tempo exato, usarei a energia de sua
alma para fazer a minha prpria, completando assim meu destino. Yahweh no despertar e os
homens sero arrasados. Com a desintegrao do tecido, nada me impedir de povoar o mundo
com os anjos leais  minha autoridade, e a terra finalmente ser ocupada por seres iluminados,
no pela matria decrpita que hoje a habita.
        Shamira reuniu vontade suficiente para encarar o tirano.
        --  curioso, no acha? Para alcanar o que sempre almejou, precisa daquilo que mais
odeia. Se o destino realmente existe,  possvel que esteja a lhe pregar uma pea, arcanjo.
        -- Est errada mais uma vez, necromante. O prprio Yahweh arquitetou tudo isso e
delineou seus anseios no Livro da Vida. Toda a nossa jornada est gravada, e minha fortuna 
assumir o lugar dele.
        -- Diga-me ento, Prncipe dos Anjos... Voc acha que minha alma apenas  suficiente
para elev-lo ao trono supremo? Acredita que, sozinho, tem poder para governar o universo?
        -- No, Shamira. Ainda h um elemento essencial ao meu plano, que no cabe ser
revelado.  minha pea final.
        A feiticeira teve medo de pensar qual era essa pea.
        -- Voc esquece que tem inimigos igualmente poderosos, Miguel -- atacou a mulher.
-- Acha que eles permitiro que leve adiante esse projeto macabro?
        O prncipe sorriu com desdm.
        -- Deve estar pensando em meus irmos. Nenhum deles me preocupa, realmente.
Gabriel no teria coragem de me enfrentar. Sua bondade pedante o levar  derrota. E quanto a
Lcifer... Eu j cuidei dele. H um bom tempo ele no oferece mais ameaa.
        E j farto de ter com aquela humana, tola e insignificante em sua concepo, Miguel
reps o elmo, agarrou o Livro da Vida e desceu os degraus do alapo, deixando-a sozinha no
ptio. Por enquanto estava segura, mas quando seu fim chegasse experimentaria a pior de todas
as mortes. Achou-se egosta por ter-se deixado levar pela luxria c decidido viver para sempre,
pretendendo, no futuro, tomar o corao do heri renegado. Mas a entendeu que o que a
manteve erguida fora justamente essa esperana, esse desejo por um tempo de paz, ao lado do
anjo que amava.
        Assim como Ablon resolvera uma vez, Shamira decidiu conservar a esperana, a mesma
que j havia fenecido no olhar do lutador fugitivo.


                                  NA SALA DE CONTROLE

         Chovia torrencialmente na cidade do Rio de Janeiro.
         O dia parecia noite quando Ablon, Aziel e Sieme subiram as escadas do metro,
finalmente diante do aeroporto. No espao areo, o general percebeu que muitos avies
aterrissavam e poucos partiam.
         O Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro  um complexo de concreto e vidro,
cortado por pistas e viadutos e composto por duas alas -- uma antiga, construda na dcada de
70, e outra mais nova, feita nos anos 90. O setor comercial divide espao com a Base Area do
Galeo, um aerdromo militar que raramente abriga jatos de guerra. Logo na chegada, entre
dois viadutos que levam s vias de embarque, uma grande edificao se destaca -- a torre de
comando --, onde uma dezena de tcnicos organiza voos, autoriza partidas e direciona
aterrissagens.
         Os trs anjos andaram debaixo de chuva pela via de automveis, estranhamente
engarrafada para um dia daqueles. nibus, txis e carros circulavam na pista, parando em fila
dupla e atravancando o trnsito. Ablon estivera ali havia poucos dias, antes de a guerra estourar,
e no presenciara tamanho caos de pessoas.
         Quando entraram pela porta automtica, que se abria ao saguo de embarque,
entenderam o que se passava. Os voos estavam lotados. Uma multido se espremia na rea de
espera, alguns sentados no cho, outros de p, atentos ao painel de controle das aeronaves.
Avies vindos da Europa, dos Estados Unidos, do Oriente e dos demais pases no eixo de
combate aterrissavam no Rio, ocupando todas as pistas e atrasando os poucos voos de sada. O
renegado percebeu que aquelas pessoas no esperavam parentes, mas eram estrangeiros, recm-
chegados ao pas  procura de abrigo.
         -- Estamos recebendo refugiados -- disse o Primeiro General, examinando o painel de
chegada e sada de aeronaves. -- Os voos de ida esto sendo cancelados para liberar a pista para
os avies.
         -- No h nenhum voo para Jerusalm? -- perguntou Aziel, sem compreender muito
bem a confuso do painel, que girava a cada instante.
         Pelo menos nenhum voo comercial.
         E o que fazemos agora? -- indagou Sieme.
         Temos que saber se h avies cargueiros, fretados ou militares que estejam partindo
para o Oriente Mdio.
         Sieme olhou para o mostrador de embarque e desembarque, j entendendo melhor como
funcionava,
           Esse painel no nos diz nada sobre esses voos aos quais se refere. S indica a
movimentao das aeronaves de passageiros. Sabe onde poderamos conseguir essas
informaes?
         Ablon aproximou-se da parede envidraada do salo e olhou para fora, fitando o
edifcio alongado com uma cpula no cimo, entre os dois viadutos de concreto.
         -- Na torre de comando.


         A torre de comando  um setor fundamental para qualquer aeroporto. L, todos os voos
so organizados. Uma equipe de profissionais bem treinados, tcnicos e ex-pilotos, indica aos
comandantes de bordo seus trajetos, que pista tomar e quando descer ou partir. Ablon no sabia
pilotar avies, mas conhecia o bsico do funcionamento das instalaes aeronuticas,
conhecimento acumulado por meio de livros e da observao dos procedimentos areos.
         A entrada para a torre, no aeroporto do Rio, fica perto do estacionamento de carros,
logo abaixo do viaduto que leva s vias de embarque. Ablon, Azil e Sieme caminharam at l
e, de longe, notaram que o elevador estava guardado por dois soldados do exrcito.
         -- Posso entrar l sem ser visto -- sussurrou o general, confiando em suas habilidades
furtivas. -- Mas e quanto a vocs?
         -- Ns todos podemos entrar, general -- retrucou Sieme. -- No se preocupe com isso.
         Ablon lembrou-se, ento, que a serafim era telepata e podia manipular as mentes mais
fracas.
         Foi uma experincia curiosa para o Anjo Renegado e para a Chama Sagrada prosseguir
pelos militares sem ser barrados. A Mestre da Mente, de alguma forma, agiu sobre os sentidos
dos guardas, e o coro entrou no elevador como se fosse invisvel. Ao ver a porta do ascensor se
fechando, uma das sentinelas exclamou:
         -- Que estranho! Voc tocou em alguma coisa?
         E a outra respondeu:
         -- No mexi em nada. Deve ser mau contato.


        -- Espero que saiba lidar to bem assim com os tcnicos da sala de controle -- elogiou
Ablon, j no elevador.
        A porta do ascensor se abriu, revelando uma sala circular, envidraada, cheia de
computadores, radares e aparelhos eletrnicos, com ampla vista para toda a rea da pista de voo.
Silvos apitavam e transmisses de rdio chamavam, mas ningum escutava. Os funcionrios,
todos eles, estavam dormindo sobre as mesas.
         -- Acho que exagerei -- criticou-se Sieme, que nunca antes tinha submetido
mentalmente um humano. Havia pensado em deix-los cansados, desatentos por um minuto,
enquanto seu grupo buscava informaes na sala, mas fora longe demais.
         -- No tem importncia -- determinou o renegado. -- Vamos encontrar os dados de
que precisamos e sair logo daqui.
         Ablon sentou-se ento defronte ao computador central e comeou a pesquisar a pasta
eletrnica. Enquanto isso, sentindo-se horrivelmente intil por nada entender daquela
parafernlia e depois de ter errado na dose de um de seus poderes, a Mestre da Mente tomou
uma atitude. Aproximou-se de um dos tcnicos adormecidos e levantou a mo direita sobre sua
cabea.
         Valendo-se de suas habilidades mentais, a serafim concentrou-se e, em um segundo,
vasculhou a memria do homem, examinando e adquirindo seus conhecimentos, acumulados ao
longo da vida. J tinha tentado essa tcnica muitas vezes com outros celestiais, o que costumava
ser mais difcil. Ler a mente humana, percebeu ela, era bem fcil, mas tambm muito mais
doloroso. Ao sugar-lhe as lembranas, a despreparada Sieme foi acometida por um turbilho de
emoes e pensamentos humanos, ausentes nos anjos em geral. Amor, dio, medo, raiva,
apreenso, desejo. Era como uma torrente que a empurrava para longe. Desnorteada, viu a luz
do nascimento e sentiu o frio do mundo fora do ventre. Experimentou o medo irracional das
crianas pequenas, o aconchego dos pais e o calor do primeiro beijo. Provou a dor de um
relacionamento despedaado e encontrou vitalidade ao gerar um filho. Eram lembranas
roubadas, memrias que nunca pensara em guardar e que nem sabia que de fato existiam.
         Cambaleou, e teria cado no cho se Aziel no a tivesse amparado.
         -- Estou bem -- agradeceu, tentando esconder suas fraquezas.
         Do outro lado da sala, o Anjo Renegado exclamou:
         -- No hangar militar h um avio que pode nos servir.  um Boeing pequeno da Fora
Area, mas o tanque est cheio.
         --  um 737. No tem autonomia de voo para nos levar a Jerusalm -- contestou a
serafim, agora totalmente entendida na matria aeronutica.
         -- Tem tanque triplo -- mostrou o general. --  o bastante.
         Os tanques de combustvel duplos e triplos foram desenvolvidos pela Liga de Berlim,
com o objetivo de estabelecer uma ponte area sem escalas entre os Estados Unidos e os pases
mais distantes da Europa. Com isso, o espao de carga e passageiros era reduzido, mas os
viajantes desses aparelhos preferiam rapidez a volume.
         -- Parece perfeito -- reconheceu Aziel. -- Mas no temos piloto.
         Os dois anjos se entreolharam diante daquele novo obstculo. Tiveram a sorte de
conseguir uma aeronave oficial, com grande autonomia e com o tanque cheio, mas infelizmente
no tinham como p-la em ao.
         -- Eu sei pilotar -- revelou Sieme, ainda meio confusa com as lembranas que
adquirira instantes atrs.
         Nem todos os tcnicos que trabalhavam na sala de controle eram pilotos, mas um deles
era. Por sorte, ou por destino, era o mesmo cuja memria a serafim vasculhara.
         -- Ento vamos -- ordenou Ablon, sem aguardar uma explicao detalhada. Esperou os
outros, entrou no elevador e desceu.
         Segundos depois, os funcionrios da torre acordaram, sem saber o que se passava.
Rdios chamavam, apitos eletrnicos soavam e computadores chiavam. Retomaram o trabalho
normalmente e continuaram a ordenar voos, aterrissagens e trnsito de aeronaves na pista.
         Mas no sabiam que, antes de sair da sala, a mulher-anjo lhes deixara uma sugesto na
mente. O voo do 737 militar teria prioridade mxima para decolar.
         J caminhando pelo estacionamento, em direo  base area, Ablon compreendeu a
ttica de Sieme e mais uma vez abenoou Gabriel por t-la enviado em misso.


                               O ACAMPAMENTO REBELDE
          No plano etreo, o acampamento rebelde fora montado a 350 quilmetros da Fortaleza
de Sion, em uma plancie de onde se enxergava o crculo de montanhas que defendia a torre
inimiga e os ltimos trs anis concntricos que, a distncia, quase pareciam tocar o cu.
Milhares de celestiais, liderados pelo arcanjo Gabriel, haviam deixado a Cidadela do Fogo, no
Primeiro Cu, e se estabelecido ali, para aguardar o incio da Batalha do Armagedon.
          Do topo de um rochedo, o prprio Gabriel, com sua armadura de ouro e sua espada de
fogo, observava a esplanada a seus ps. Nos olhos, a mesma harmonia de sempre, a serenidade
inabalvel do Mensageiro, convicto de suas aes.
          Gabriel, pensativo, solitrio sobre o rochedo, esticou as majestosas asas brancas, que
saam das costas recortando a couraa, e observou os estandartes orgulhosamente carregados
por seus guerreiros querubins.
          A general Varna, lder das arqueiras, galgou o penhasco e ajoelhou-se diante de seu
comandante. Sempre fiel ao Mestre do Fogo, portava um arco dourado, e nas costas levava,
entre as penas alvas da asa, uma aljava abarrotada de flechas. Uma malha metlica, tambm
dourada, protegia-lhe o dorso. Os cabelos longos eram castanhos, e os olhos, verdes. A
expresso era de total seriedade, sempre disposta a lanar-se em combate mortal.
          -- Sim, Varna -- permitiu Gabriel. Ele no a havia chamado.
          -- Aziel e Sieme ainda no retornaram, meu senhor -- ela costumava ser direta. --
Peo permisso para enviar um destacamento para resgat-los.
          -- No h tempo. O mundo fsico est em alvoroo. As duas primeiras trombetas j
foram soadas. Agora  apenas uma questo de horas at que a Batalha do Armagedon comece.
O inimigo  numericamente superior. Precisamos de todos os anjos em suas posies.
          -- Como queira, meu mestre, mas devo alertar que o ishim e a serafim podem estar em
perigo.
          O Mensageiro respirou fundo e maquinou algo na mente.
          -- Eles concluram com sucesso a viagem ao plano fsico?
          -- Sim, diretamente ao encontro do Anjo Renegado.
          O arcanjo pareceu aliviado.
          -- Ento, esto mais seguros do que ns, neste acampamento.
          Gabriel fez uma pausa e sublinhou as tropas com o olhar. Varna sabia que por trs da
segurana do arcanjo estava a extrema confiana no Anjo Renegado, o qual considerava o
verdadeiro lder da rebelio, aquele que deixara a herana que semeara tudo aquilo. Varna
reconhecia todo o mrito do anjo guerreiro e sabia que ele seria imprescindvel em um momento
difcil, porque era um cone, um smbolo. Mas, como todo querubim, era desconfiada. Desde o
encontro que tivera com Ablon, no monte das Oliveiras, no estava to certa de suas habilidades
em combate. Vira o renegado ser derrotado pelo Mestre do Fogo, ento ainda tinha dvidas
sobre sua capacidade de comandar um exrcito to grande.
          -- Farei sua vontade, meu senhor -- conformou-se a arqueira,
          -- Tenha f, Varna -- retrucou o arcanjo. -- Teremos em breve o Primeiro General de
volta. Prepare nossas tropas para o embate. A Sexta Trombeta ser o chamado para o incio do
ataque.
          A mulher-anjo curvou-se e deixou o rochedo, voltando ao campo.
          Gabriel regressou  solido.


                                 Os DUQUES DO INFERNO

        Os nove duques do inferno -- Asmodeus, Molloch, Mephistopheles, Alastor, Mammon,
Orion, Apollyon, Baalzebul e Bael --, os seres de maior poder e influncia na hierarquia
satnica, haviam sido convocados  caverna de Lcifer, no Vale dos Condenados, para
conferenciar com o mestre. Estavam apreensivos e indignados com a situao presente. At
ento, a Estrela da Manh ainda no havia se pronunciado sobre o papel dos infernais no
Apocalipse e muito menos na Batalha do Armagedon, e os duques ficaram confusos. Desejavam
cobrar uma atitude de seu lder, queriam o aval dele para posicionar suas hordas e atacar os
celestes, revanche pela qual esperavam desde a derrota dos cados. Mas, at ali, Lcifer nada
dissera e nada comunicara. Muitos fomentaram intrigas, idealizaram rebelies, mas a verdade 
que ningum tinha coragem de se levantar contra a liderana do Arcanjo Sombrio.
         Em uma das salas do interior da caverna, de paredes chamuscadas e nichos de fogo,
havia nove cadeiras feitas de ossos humanos, oito delas ocupadas pelos terrveis demnios. Uma
estava vazia, e aquele era o assento de Apollyon. Acima, em uma plataforma de pedra, jazia o
trono de Lcifer, ainda desocupado, mas guardado por seu fiel bajulador, Samael, a Serpente do
den.
         Ao longe, um tmido observador escondia-se nas sombras. Era Amael, o Senhor dos
Vulces, que s vezes tambm ficava na companhia de Lcifer.
         -- O altssimo vir em instantes -- anunciou Samael, com aquela voz sibilante. Era
assim que o servial gostava de chamar seu mestre, para igual-lo ao Deus adormecido.
         Um murmurinho propagou-se na gruta. Os duques estavam fartos de esperar, de tolerar
os caprichos do Diabo. Mammon, um ser abominvel, com corpo de hipoptamo, cabea de
porco e chifres imensos, sussurrou a Orion, que estava a seu lado:
         -- O que esse maldito ex-arcanjo acha que ? Somos duques, e no um de seus
capachos.
         Logo nesse momento, para aflio de Mammon, Lcifer apareceu por uma passagem e
adentrou o salo. Sua maravilhosa aparncia contrastava com o conclio de monstros. Era belo,
de feies delicadas, e teria o corpo perfeito no fossem as asas de morcego que lhe marcavam
as costas.
         -- Estava falando de mim, Mammon? -- perguntou Lcifer, e o duque tremeu.
         -- No, amo, perdoe-me -- implorou. -- Perdoe-me por qualquer mal-entendido -- fez
meno de se ajoelhar, mas a Estrela da Manh j estava satisfeita.
         -- J chega, meu caro duque -- cortou. -- Por enquanto me contentarei com seu
silncio.
         O Arcanjo Sombrio sentou-se no trono e levou um tempo para se acomodar, de
propsito, para enraivecer o conselho. Quando, enfim, se cansou do ritual, exclamou:
         -- Ento, meus queridos, vocs esto aqui.  para mim uma felicidade que tenham
respondido ao meu chamado.
         Molloch, o Carrasco, tinha o corpo de um homem forte, mas a cabea muito grande,
com chifres pequenos e uma cauda comprida. Os olhos eram enormes e as pupilas, cortadas
como as dos gatos. Levava sempre um chicote de muitas pontas, que usava para flagelar seus
escravos. A criatura, quase explodindo em raiva, iniciou o debate:
         -- Meu amo -- esforou-se --, Sua Majestade exigiu nossa presena, mas o que o faz
tolerar a ausncia de Apollyon? Por que ele pode faltar quase sempre, e ns no?
         Uma onda de aprovao silenciosa inundou a gruta, ameaando anular o controle de
Lcifer, mas o infernal retomou a palavra:
         -- Porque se voc faltasse, Molloch, eu o sufocaria com sua bolsa escrotal. A sala
calou-se.
         -- Seria uma cena engraada -- divertiu-se o Filho do Alvorecer.
         E enfim, uma palavra de ordem:
         -- No adianta ficarmos trocando injrias -- apaziguou Orion. Em sua forma espiritual,
o Rei Cado de Atlntida tambm mancava, tal qual seu corpo fsico, mas agora estava sentado.
As asas despenadas, que apesar disso eram eficientes em voo, deixavam-no desconfortvel
naquela posio. --  hora de os duques deixarem de lado as diferenas e juntarem-se contra
um inimigo comum.
         -- As palavras de Orion so sbias -- concordou Asmodeus, um dos duques mais
elegantes, conhecido por seus galanteios e por seu harm de escravas sexuais, lotado de
espritos de mulheres malficas, que cometeram assassinatos e torturas em vida. -- O arcanjo
Miguel, nosso grande inimigo, ameaa controlar toda a terra. Correm rumores de que descobriu
um meio de evitar o despertar de Yahweh, ento devemos agir sem demora.
         -- Miguel tambm tem inimigos -- argumentou Alastor, uma figura grossa, de pele
vermelha e patas de cabra, que agarrava um tridente. -- Gabriel est contra ele, e seus exrcitos,
prontos para a batalha. Se os...
         -- Isso no  novidade para ningum -- interrompeu Lcifer, esticando-se no trono,
com ar de tdio. -- At o demnio mais podre e o anjo mais fraco sabem dessa guerra civil e
desse escarcu que meus irmos armaram l no poleiro. Agora, os bastardos esto levando essa
zona toda para o etreo, e acham que vo dominar o mundo quando o tecido da realidade cair.
         Enfim, o Anjo Cado era coerente em suas palavras, e os duques ficaram quietos a
ouvir.
         -- Foi por isso que os chamei aqui. No sou tolo. Se fosse, no teria organizado este
reino. No se esqueam de que, mesmo sozinho, ainda tenho poder suficiente para comer o rabo
de vocs e fritar seus testculos.
         Os presentes engoliram em seco. A afirmao do Diabo era infelizmente verdadeira.
         -- Escutem agora. Para ganharmos essa guerra, precisamos agir certo e na hora exata.
Cada um de vocs vai convocar seus servos e comandantes, preparar suas hordas e lev-los
todos ao porto do Styx,  sada desta caverna, ao soar da Quinta Trombeta. A partir de ento,
seguiro as instrues de Samael -- e apontou para a criatura reptiliana que estava a seu lado
direito. -- Minhas ordens s sero reveladas a ele, porque o sigilo  essencial para nosso
sucesso. Quem desobedec-lo responder a mim. E no serei generoso com os insurgentes. H
muito venho querendo reduzir a quantidade de duques; talvez esta seja uma boa oportunidade.
         Os oito presentes achavam-se no direito de obter mais informaes sobre o plano de
ataque, at para poder preparar suas hostes. Alguns estavam a ponto de estourar, mas alguma
coisa os fez aceitar o comando. O pior daquilo tudo, sem dvida, seria ter que obedecer a
Samael, um bajulador pedante, que todos odiavam por ser o primeiro na escala de favores do
Arcanjo Sombrio. No havia um s duque que no quisesse degol-lo, mas Satans estava nas
graas do amo.
         Lcifer no se levantou. Em um gesto cansado, de tremendo desprezo, fez sinal para
que os outros se fossem. Por fim, ficou sozinho na caverna com o ser escamoso e com o
melanclico Amael, o Senhor dos Vulces.
         -- Tenho nojo desses pobres-diabos, Amael, mas com vocs dois  diferente. So meus
amigos -- confidenciou o demnio,  sombra de suas escuras asas de morcego.

                                        CHUVA CIDA

        Com as habilidades mentais de Sieme, Ablon e Aziel no tiveram problemas para
driblar a segurana da base, entrar no hangar, subir no avio, taxiar e decolar o aparelho. J
sabiam que aquele era um veculo oficial, mas tiveram uma tima surpresa ao compreender que
a aeronave tinha visto especial dos pases neutros, o grupo de naes no envolvidas na guerra,
e que por isso teriam facilidade de aterrissar em praticamente qualquer aeroporto do mundo.
Esses vistos haviam sido recentemente emitidos e permitiam o transporte de refugiados dos
pases em conflito para os territrios neutros.
        Sieme guiava o avio e ainda teria de ficar na cabine por mais alguns minutos, at
alcanar a altura mxima de cruzeiro, quando ento passaria ao piloto automtico. Sentia-se
realmente estranha ao comando daqueles botes. Algumas horas atrs, quando chegara  Haled,
mal sabia o que era um carro, e agora pilotava uma mquina area. Ficou impressionada com a
tecnologia humana e com a esperteza dos mortais, que podiam se adaptar s mais difceis
situaes. Divagou sobre isso tudo, sobre a fascinante adaptabilidade dos homens. Eram
sobreviventes, com certeza. Haviam resistido ao dilvio e s inmeras catstrofes perpetradas
contra sua espcie. Ao compreender isso, passou a respeit-los ainda mais, mesmo
reconhecendo seus numerosos defeitos, que no eram, em verdade, muito maiores do que os
pecados dos anjos.
        Ablon e Aziel estavam no compartimento de passageiros, uma rea pequena para um
Boeing 737 regular, justamente por causa do tanque triplo com o qual era equipado. Havia
pouco mais de trinta poltronas e mais um espao livre destinado  carga.
         -- Isto no  gua pura -- percebeu Aziel, tocando a roupa branca, ainda encharcada
pelas gotas de chuva.
         -- Est misturada a vrios compostos qumicos -- esclareceu Ablon.
         A Chama Sagrada espantou-se.
         -- Mas a gua da chuva deveria ser a substncia mais intocada de todas.
         -- A atmosfera est tomada pela poluio. Quando as indstrias queimam combustveis
fsseis para produzir eletricidade, os dejetos so lanados ao ar e se fundem s molculas de
gua. Depois, voltam  superfcie da terra por meio de precipitaes, que podem ser carregadas
a grandes distncias. Os cientistas humanos chamam esse fenmeno de "chuva cida".
         Aziel manipulava a provncia do fogo, mas nem por isso tinha menos apreo pela gua,
a terra e o ar.
         -- Ento, no h regresso para a guerra dos homens, general, e para a destruio do
planeta?
         -- No ponto a que chegamos, no vejo mais volta -- pausou e encarou, atravs da
janela, o horizonte azul acima das nuvens. -- Recordo-me do dia em que vi a primeira exploso
nuclear. Aquele brilho sinistro copiando os raios do sol, o calor radioativo, e depois a fumaa
negra encobrindo a abbada celeste.
         -- Isso me lembra a destruio de Sodoma.
         -- At agora s ouvimos o soar de duas trombetas. Mas seu poder aumentar. Cada vez
os terrenos usaro armas mais potentes. Sabe-se da existncia de uma bomba to forte que sua
exploso queimar a atmosfera, lanando o planeta na escurido nuclear. Suspeito que essa seja
a arma final dos humanos.
         O ishim ouvia atentamente e buscava compreender a realidade das coisas. No estivera
tanto tempo afastado da Haled quanto Sieme, mas seus conhecimentos tecnolgicos eram
deficientes. Por isso lanou a pergunta:
         -- Voc acha que a desintegrao do tecido da realidade tem alguma coisa a ver com a
ao dessas armas humanas?
         -- No diretamente. O tecido da realidade  feito da coletividade da conscincia terrena.
Representa a capacidade dos homens de acreditar no que  real e negar o impossvel.  a grande
defesa que, mesmo inconscientemente, eles levantaram para se proteger das criaturas msticas,
que os superam em longevidade e poder. Mas o fim do mundo representar tambm o fim de
todas as instituies, da civilizao como a conhecemos. Todos os valores humanos sero truci-
dados, e o impossvel passar a existir. No haver mais uma barreira entre o real e o
questionvel. Os governos e as organizaes religiosas cairo por terra. Tudo em que o homem
sempre acreditou ser desmentido. Voc viu o caos no aeroporto. Aqueles refugiados deixaram
tudo para trs e no tm mais nada a perder. Muitos morrero, e os que viverem aceitaro uma
nova percepo do universo.
         Aziel comeava a entender o foco da coisa.
         -- Os sobreviventes passaro a admitir novas concepes. Se tudo em que acreditam
desabar, que garantia tero de que realmente no existe o que antes achavam impossvel?
         --  a melhor teoria que posso pensar. Mas no sou um malakim para pr minha
hiptese  prova. Talvez ela esteja totalmente equivocada.
         -- No acho que esteja. Faz muito sentido.
         Diferentemente de Sieme, Aziel era amigo ntimo de Ablon desde os dias passados e
ficara contente em rev-lo. Reconheceu sua crescente sabedoria e ficou a imaginar como seria
se os outros renegados ainda vivessem.
         -- Dezoito renegados -- reletiu em voz alta. -- Voc tem certeza de que  o nico
ainda vivo?
         -- Pude sentir a morte de cada um deles. Desde o assassinato de Ishtar, os fugitivos
vinham sucumbindo aos seus caadores. E os tempos se tornaram mais negros com a queda de
Lcifer.
         -- O Arcanjo Sombrio culpou a Irmandade dos Renegados pela prpria queda e pela
derrota na batalha contra o arcanjo Miguel -- o ishim sabia a histria, ou parte dela.
         -- Ele alegou aos demnios vencidos que toda sua runa comeara ao delatar os
renegados. Foi s ao trair a nossa conjurao que ele acumulou a influncia e o prestgio
necessrios para dar corpo  sua revoluo, que a meu ver foi uma grande mentira. Pelo que
Orion me contou, o Filho do Alvorecer se dizia defensor da liberdade, de um paraso livre da
tirania, mas o que realmente queria era superar seu irmo e tomar o trono. Ao ver sua rebelio
destronada, no quis admitir o fracasso e responsabilizou os proscritos. Enviou o terrvel
Apollyon  Haled, para nos perseguir, e passamos a ter inimigos no cu e no inferno. Pelo
menos nisso, os esforos de Miguel e Lcifer convergiam.
         -- Que ironia! Lembro-me de Apollyon,  poca em que era um querubim. Chamavam-
no de Anjo Destruidor, por sua tcnica especial, chamada de Destruio Total.
         -- Diferentemente de Orion e Amael, Apollyon no se juntou a Lcifer por discordar da
poltica celeste. O Destruidor sabia que, se a Estrela da Manh vencesse, ele assumiria lugar de
destaque na casta e poderia prosseguir com sua carnificina. Na verdade, Lcifer nunca levantou
uma palavra em defesa dos homens, a no ser para contrariar o irmo.
         -- Foi esse o motivo pelo qual voc recusou a aliana com o Diabo?
         -- Lcifer j me traiu uma vez. Nada do que ele diz  verdade. Meu senso de perigo me
alertou contra sua hipocrisia. No sei ao certo o que planeja, mas certamente no  confivel.
         -- Concordo com voc. Conheo a ambio do Diabo e sempre soube de sua maldade.
Por isso no me juntei a ele na guerra, mesmo consciente de que Miguel era igualmente
perverso. Mas devo admitir que a proposta que o Arcanjo Sombrio lhe fez  coerente. Vocs
dois pretendem derrubar o Prncipe dos Anjos. Nada mais bvio do que juntarem foras.
         -- Seria muito fcil, Aziel. Alm disso, por que Lcifer teria me dado a tal chave do
Sheol, mesmo eu tendo recuado a seu chamado?
         Em um gesto ilustrativo, Ablon tirou do bolso o crculo rstico de barro. A Chama
Sagrada analisou a chave pela segunda vez e reparou em seus contornos. Inscries ancestrais
marcavam a superfcie do anel, recortado por uma cruz no centro.
         -- O Arcanjo Sombrio e Apollyon mataram muitos de meus aliados -- continuou o
guerreiro. -- O Filho do Alvorecer j sabia qual seria minha resposta.  a que a coerncia
desanda.
         -- E por que voc no aproveitou o convite para desafi-lo de vez e levar a cabo sua
vingana?
         -- Mesmo que eu conseguisse venc-lo, jamais sairia vivo de sua caverna. Seria loucura
e idiotice. No... Lcifer e Apollyon tero o seu tempo, mas primeiro tenho que acertar as
contas com o Prncipe dos Anjos.
         -- At para mim, que sempre estive nos Sete Cus, essa tripla contenda entre Miguel,
Gabriel e Lcifer  um tanto confusa.
         -- Quando h mais de dois lados envolvidos numa disputa, o terceiro deve procurar
aliar-se. Mas quem aceitaria a ajuda do Diabo? Miguel sempre foi seu maior oponente, e
Gabriel, pelo que voc diz, tornou-se uma figura bondosa, repudiando qualquer ao infernal.
         -- Nessa guerra, s lamento por aqueles que no tiveram a chance de escolher seu
partido, aqueles que tomaram as decises erradas.
         Ao escutar Aziel, Ablon lembrou-se de Orion, que nunca pretendeu ser um demnio, e
do pobre Amael, o melanclico executor do dilvio.
         -- Usei as rotas do rio Styx para viajar ao inferno. Orion veio me buscar, e Amael
estava com ele.
         -- Amael, meu velho e sofrido mestre Amael -- a expresso do ishim enrugou-se. --
No  fcil esquecer o dia em que nos separamos. Nunca me perdoarei por ter-lhe dado as
costas.
         Ablon preferiu ficar calado. Sentia-se comovido por Amael e concordava com a idia de
que ele no queria mesmo matar toda aquela gente, mas o Senhor dos Vulces tivera sim, a seu
ver, uma escolha. Teve, contudo, receio de assumi-la, teve medo de enfrentar os arcanjos, e
talvez por isso se sentisse to mal. Para o Anjo Renegado, Amael era uma vtima, mas de sua
prpria fraqueza. Vivia atormentado pelo mesmo temor que, no passado, o impedira de fazer
sua eleio, de escolher entre obedecer aos grandes ou reneg-los.
         Ablon sabia que a segunda opo acarretaria consequncias terrveis, mas o general
dispusera-se a encar-las. Amael no.
         Longe dali, sob as guas geladas do mar de Barens, ao norte da Rssia, um submarino
americano navegava. Conseguira enganar o radar inimigo e agora se aproximava da costa.
         A embarcao estadunidense, com as insgnias da Liga de Berlim, j estava preparada
havia dias para uma situao como essa. Com a ofensiva nuclear a Nova York, no seria seguro
utilizar bases fixas, da a importncia do transporte marinho. A equipe sabia o que fazer, e o
almirante ordenou que o torpedo fosse posto a ponto de tiro. Quando disparou, o projtil saiu do
mar e voou como um mssil em direo a Moscou. Pequim j fora arrasada, e com ela parte da
China. Agora, a Rssia era o segundo alvo prioritrio.
         Pouco depois, do solo, os moscovitas viram a morte chegar,  semelhana de "uma
estrela ardente a cair do cu, como uma tocha". A exploso abateu-se sobre a capital, e seu raio
de extenso arrasou tambm pases vizinhos. A oeste, partes da Bielorrssia, Ucrnia e Letnia
foram destroadas; a leste, a devastao varreu o Cazaquisto e sacudiu o mar Cspio.
         No avio, sobre o Atlntico Sul, Ablon, Aziel e Sieme puderam ouvir o barulho
estridente da Terceira Trombeta. O Anjo Renegado e a Chama Sagrada cambalearam, mas se
recuperaram de pronto. O zumbido, mais forte do que o anterior, levou-os a pensar que Sieme,
sozinha na cabine, poderia sofrer dores horrveis, afinal era, dentre eles, a mais sensvel aos
abalos no tecido.
         Ao abrirem a porta, notaram a Mestre da Mente estirada no cho e correram para
ampar-la. Ela se recuperaria em breve. Mas e os controles? Sieme era a nica que sabia pilotar
a aeronave.
         Felizmente, ela acabara de passar o comando ao piloto automtico.




Algum lugar ao sul do mar Morto, cerca de quatro mil anos antes de Cristo



O QUE VEM A SEGUIR ACONTECEU SEIS MIL ANOS depois do dilvio e imediatamente aps a expulso
da Irmandade dos Renegados dos Sete Cus.
        Seguiu-se  revolta um sentimento estranho, de desconfiana geral dos anjos em relao
ao arcanjo Miguel. Por isso ele, que j havia decidido devastar Sodoma, bem como outras
cidades da plancie, decidiu, para forjar a imagem de justo, repetir o que fizera no dilvio e
permitir que dois anjos fossem  terra verificar se na cidade condenada havia humanos
bondosos. Se houvesse, seriam poupados. Para reforar ainda mais sua "boa vontade", excluiu
da tarefa o representante dos hashmalins, uma casta de anjos tida como perversa, que controla a
Gehenna.
        Foram enviados  Haled um ofanim e um querubim -- um anjo da guarda e um anjo
guerreiro. Esses dois celestes chegaram a Sodoma em uma tarde de maio, para cumprir sua
misso. Ora, os sodomitas eram um povo justo, comum, como todos os outros, mas tinham
governantes implacveis. Um reduzido nmero de homens governava a cidade, e seus pecados
eram tremendos. A terra de Sodoma era extremamente rica, mas, em vez de seus lderes
compartilharem os frutos, fomentavam a ganncia. Os soberanos tinham incrvel repdio por
estrangeiros, que julgavam querer tomar o seu ouro. Mesmo a cidade estando segura contra
ataques, seus juizes votaram uma lei pela qual todo habitante que fosse flagrado alimentando
um forasteiro seria jogado  fogueira. Os viajantes que ali chegavam por engano eram
torturados em camas que lhes esticavam os membros at se partirem. Certa vez, uma jovem
ofereceu gua a um andarilho. Sabendo desse ato criminoso, os chefes a untaram com mel e a
puseram diante de uma colmeia de abelhas selvagens. Mas os trabalhadores livres, os servos e
os escravos, que representavam o grosso do povo, eram pobres de bens e fracos de mente, e
sofriam horrores nas mos dos senhores maldosos.
        Aconteceu, ento, que um tal de Lot, que descansava nos portes de Sodoma, avistou os
dois anjos em forma de homem e os confundiu com viajantes. Lot no era um rico privilegiado,
mas um trabalhador honesto. Mesmo sabendo das leis, teve pena daqueles forasteiros e os
chamou  sua casa, oferecendo-lhes po e abrigo.  noite, os guardas dos juizes estavam  sua
porta, armados com estacas de bronze. Queriam prender e matar os visitantes, mas o querubim
os cegou. Os celestes deixaram o local, no sem antes avisar a Lot:
        -- Deve pegar sua mulher e filhas e partir de Sodoma, pois somos anjos de Deus e lhe
dizemos que, quando o dia raiar, a cidade ser destruda. Corra para alm das montanhas e no
olhe para trs.
        Antes do nascer do sol, portanto, o mortal deixou a plancie e se escondeu nas colinas. E
foi cumprida a vontade dos arcanjos.


         A legio de anjos materializou-se nos cus e voou por quilmetros sobre o mar, at
alcanar o terreno montanhoso de Moab e depois a plancie perto de Zoar. O tecido da
realidade, naqueles dias antigos, era frgil, e isso permitia que os celestiais atuassem no plano
fsico sem muita dificuldade, desprendendo as asas e utilizando suas armas msticas para matar,
mutilar e torturar os seres humanos.  frente do grupo, comandando a tropa, estava Apollyon, o
Anjo Destruidor, ento um celeste, prestes a executar mais um terrvel massacre. Tinha, nesses
tempos ancestrais, asas brancas e uma armadura dourada. A pele era morena como areia
queimada, e levava nas mos uma espada. A seu lado planava Euzin, o segundo em comando,
um anjo que j fora heri de guerra, mas que com o triunfo se tornara cnico e perigosamente
ambicioso. Sua espada era chamada Raio de Ao.
         A cidade de Sodoma, pequenina a distncia, aumentava aos olhos daqueles predadores
alados. Quando viram o coro de anjos voando como um enxame de abelhas, os juizes nada
entenderam. At que um deles gritou:
         -- So os soldados de Deus que vm nos matar. Ai de ns, que vivemos no pecado!
         O povo nas ruas entendeu seu destino e percebeu que pagaria pelo erro de seus chefes.
Muitos tentaram correr, mas a legio j sobrevoava a cidade, cercando o terreno.
         -- Espalhem-se! -- ordenou Apollyon aos oficiais querubins. -- Matem, destruam,
queimem tudo. No poupem ningum, nem as mulheres nem as crianas.
         E ao seu comando a tropa mergulhou, trespassando as nuvens e avanando em assalto.
         -- Dariel, Asson, Ankarel! -- chamou Euzin. -- Venham comigo. Vamos invadir a
casa dos juizes e queimar sua famlia.
         Os querubins, divididos em grupos, de espada em punho, tomavam as vias, as casas, as
praas. Por onde passavam deixavam um rastro de sangue. Os que tentavam fugir eram pegos
por trs, cortados ao meio ou decapitados. As lminas msticas venciam a carne com facilidade
incrvel, como as facas comuns dividem a manteiga. Apollyon liberou os soldados para violar as
virgens humanas, se assim o desejassem, e atirou as crianas no poo central, um buraco
profundo de onde os sodomitas tiravam gua. Um pequeno agarrou-se  mureta e pulou para
fora, mas com uma pancada o general o fez cm pedaos.
         Na sacada da casa dos chefes, Euzin e seu squito apareceram, portando as cabeas dos
governantes. Lanaram-nas dali para as caladas e sobre os tetos das habitaes. Os corpos eles
haviam amassado e jogado a massa disforme em uma piscina do ptio, onde os juizes criavam
crocodilos.
         Mesmo tomados pelo pavor, alguns poucos civis tentaram lutar, mas perceberam,
assustados, que suas armas no feriam os celestes. Curioso foi que os guardas humanos, que
tinham por tarefa defender a cidade, foram os primeiros a tentar fugir, e consequentemente os
primeiros a morrer. Uma diviso bem alerta manteve-se distante, com a nica misso de vigiar
os limites da localidade e impedir que os mortais escapassem. Um ou outro se esquivou para as
cavernas, mas as sentinelas voaram para dentro e arrancaram os medrosos dos tneis, levando-
os acima das nuvens e largando-os no cho.
         Quando todos os cidados de Sodoma haviam enfim perecido, os anjos puseram fogo
em suas moradas. Os predadores assassinaram os rebanhos, empurraram as cercas c estragaram
as plantaes. Ento, o Anjo Destruidor reuniu a legio no quarteiro principal e ordenou ao seu
imediato:
         -- Bom trabalho, capito. Agora tire seus anjos daqui. Terminarei a misso, conforme
me foi ordenado.
         Euzin no entendeu.
         -- Mas, senhor, a misso est terminada -- olhou ao redor, viu o sangue nas ruas, a
fumaa das casas e os corpos espalhados nas praas. Teria feito algo errado?
         -- Ainda no, capito -- replicou o cruel general. -- A cidade deve ser inteiramente
arrasada. Daqui a um ano, quando os viajantes tomarem o caminho do deserto, jamais sabero
que um dia existiu um lugar chamado Sodoma.
         E acrescentou, com a costumeira arrogncia:
         --  a vontade dos arcanjos.
         O subalterno no ousou questionar, e por que o faria? Queria, tambm, ver aquelas
pessoas desintegradas, reduzidas a p, aniquiladas da face da terra. Levantou a Raio de Ao e a
legio aceitou seu comando. Os querubins voltaram aos cus c voaram para longe. Muitos se
questionaram por que o general no tinha ido com eles, e teriam a resposta em breve.
         Sozinho nos escombros, Apollyon ficou a observar, orgulhoso, sua obra. Como Yahweh
poderia ter criado os anjos para servir aos seres humanos, aquelas criaturas tolas, fracas e
insignificantes? No passavam de animais, esculturas grosseiras de barro que so esmagadas
com um apertar de punho. Ele sim era forte, poderoso, digno da herana de Deus. Na sua
opinio, a criao dos homens fora um erro, o nico equvoco do Altssimo. Mas ele, bem como
muitos outros celestes, estava disposto a inverter os papis. O Anjo Destruidor era o preferido
de Lcifer, mas era tambm um admirvel agente de Miguel, o primeiro a ser convocado para
liderar aquelas carnificinas dantescas.
         A legio perderia tempo demais atacando cidade por cidade da plancie. Mas Apollyon
tinha outros planos para findar aquela campanha. Guardava consigo um segredo, uma divindade
terrvel, destrutiva e voraz. No podia us-la sempre, porque a execuo do poder o deixava
exausto e vulnervel aos inimigos. Ali, porm, estava s, seguro, e farig o desejo dos arcanjos,
que era igualmente seu.
         Concentrou-se, por fim, e traou um crculo no cho de areia. Respirou fundo e focou
toda a energia da aura em seu prprio avatar. Depois de segundos de extrema agonia, o
Destruidor liberou toda a fora contida, e aquele alento converteu-se em uma exploso de luz e
calor de potncia titnica, jamais vista naquelas terras do sul.
         Uma onda de fogo e fulgor varreu a plancie, exterminando Sodoma, Gomorra e outras
cidades. A fumaa elevou-se  altura das nuvens, como a de uma grande fornalha, c de longe os
outros anjos assistiram boquiabertos ao espetculo.
         De Sodoma e Gomorra restou apenas a lembrana, perpetuada pelas filhas de Lot, a
nica famlia a sobreviver quele horror inumano.
         Quando o vapor negro baixou, Apollyon estava esticado no cho, fatigado, dentro do
crculo de areia delimitado por ele, o nico ponto em quilmetros a resistir aos efeitos da
devastao.
                                   PESADELOS HUMANOS

ABLON AJUDOU SIEME A AJUSTAR A MSCARA de oxignio no rosto, puxando-a de um nicho ao lado
da poltrona do piloto. A mulher-anjo abriu os olhos lentamente, os fios de cabelo prateados
cados sobre a face. O Anjo Renegado a pegou no colo.
         -- Vou lev-la l para trs e deit-la no cho -- comunicou a Aziel. -- Fique aqui e
atente ao espao areo. Nunca se sabe o que ainda pode acontecer.
         A serafim comeou a tossir quando o general a ps no cho, sinal de que recobrava a
conscincia. Aos poucos, melhorou e se encostou  parede do jato. Ablon foi at a pequena
cozinha, atrs da cabine, e encheu um copo de gua com acar.
         -- Beba isto. No precisamos,  claro, mas nossos avatares s vezes apreciam esses
pequenos caprichos. Vai se sentir melhor.
         Ela engoliu o contedo como se fosse remdio. Depois, ficou quieta, e o guerreiro notou
que estava triste, quase chorava.
         -- O que foi, Sieme?
         Ela relutou em responder, mas no fim entregou-se  ajuda.
         -- Aquelas imagens... No consigo tir-las de minha mente.
         O renegado imaginou o que fosse.
-- So as lembranas do homem da sala de controle, no so? Ao ler a mente dele, voc
incorporou tambm suas emoes.
         -- No sei como lidar com elas, general. Sinto a dor pela morte de pessoas que nunca
conheci, ouo o choro de crianas de jamais pari, me apaixono e odeio a cada momento.
         Ele sorriu, condescendente.
         -- A maioria das pessoas leva muito tempo para aceitar essas coisas, e voc reteve
todas de uma vez. E natural que fique confusa.
         -- Sou uma celestial, uma serafim, a mais nobre das castas. Nunca havia provado essas
sensaes. E tambm no achei que ns, anjos, fssemos suscetveis a elas.
         --  a carne, Sieme. Este corpo que materializamos nos faz como eles, como os
humanos. Em nossos avatares, somos receptivos s mais profundas emoes. Todos os seres,
fsicos e espirituais, so capazes de sentir amor e dio, mas a paixo, o desejo e a dor so
propriedades carnais -- e ao dizer isso, o renegado lembrou-se de Shamira e de como ela o
fizera se sentir to humano. -- E essas emoes no so todas ruins.  instintivo. E como seguir
nossa natureza de casta. s vezes nada podemos fazer para evitar o apelo do corao.
         Sieme ouvia o querubim, e com seus conselhos se sentia melhor.
         -- Com o tempo -- continuou Ablon --, voc saber lidar com as impresses que
registrou. E conhecer outras, se ficar na Haled.  a Mestre da Mente. Vai conseguir.
         -- A mente  lgica, general -- contestou. -- O corao  irracional.
         Ele pensou bem no que ela dissera e entendeu seu ponto de vista. Inteligncia prtica e
percepo emocional so duas coisas bem diferentes.
-- Tem razo, Sieme -- concordou. -- Tem razo.


                                       ATERRISSANDO
         Vrias horas se passaram na mais completa tranquilidade. Se fossem humanos, teriam
dormido, mas, como no precisavam, Ablon, Aziel e Sieme passaram o tempo conversando. O
Anjo Renegado lhes contou sobre suas aventuras na terra, e a Chama Sagrada e a Mestre da
Mente falaram tudo o que podiam a respeito da poltica celeste. Narraram a luta pela soberania
do Castelo da Luz, a pica fortaleza dos querubins no Quarto Cu, que foi tomada pelas foras
do Mensageiro.
         Desde o soar da Terceira Trombeta, nada mais fora ouvido. A julgar pelo intervalo entre
as duas ltimas bombas, Ablon imaginou o perigo do ataque que estava por vir. Os adversrios,
certamente, estavam ganhando tempo para analisar posies, preparar seus msseis e lanar uma
ofensiva fulminante e decisiva contra o alvo inimigo. O lutador temia que o estourar da Quarta
Trombeta levasse consigo parte do mundo.
         Um boto da cabine apitou, e Sieme sabia que era hora de retornar ao assento do piloto,
pois estavam chegando e precisava assumir o controle da aeronave. O general acomodou-se a
seu lado, na poltrona do copiloto, embora no entendesse muito bem o painel. Aziel sentou-se
logo atrs, em uma cadeira re-trtil. J seria quase meia-noite no Brasil, mas em Israel os
relgios marcavam cinco horas da manh, com horrio ajustado ao fuso.
         Sieme ps o fone de ouvido e ligou a comunicao com o rdio. Minutos depois, a torre
de comando a chamou:
         -- Aeronave prefixo PR-PJI -- contatou o controle de terra, e a voz falava em ingls.
-- Estamos com vocs em nossos radares. Prossiga com as instrues de jornada.
         A mulher-anjo olhou para Ablon, em busca de apoio moral. Teria de convencer o
controlador a deix-los pousar, e talvez isso no fosse to fcil. Estava muito longe para
influenciar sua mente, mas felizmente os serafins so diplomatas natos, o que conviria ao
momento. O renegado confiava em Sieme, sabia que ela conseguiria persuadir o operador, ento
a motivou com um breve sorriso.
         -- Controle de terra -- comeou a Mestre da Mente, mais bem-humorada. As emoes
impessoais que a castigavam j no eram to latentes --, pedimos permisso para aterrissagem
de urgncia.
         -- Estamos recebendo apenas avies militares. Nossa sugesto  que desvie para a
Jordnia... -- o resto da transmisso se perdeu na esttica.
         A celestial teve que pensar rpido.
         -- Temos um visto especial dos pases neutros para transporte de refugiados. Estou
enviando os cdigos agora.
         A comunicao ficou muda durante a transferncia, mas continuou logo em seguida:
         -- Proceda  aterrissagem na pista 2, PR-PJI. Qual  sua tripulao? -- Apenas dois
pilotos e um engenheiro de bordo -- respondeu. Ablon sussurrou no ouvido da serafim:
         -- Diga a ele que o voo seguir para a frica -- a maioria dos pases africanos era
neutra na guerra, bem como quase toda a Amrica Latina.
         -- Controle de terra -- Sieme voltou a chamar --, peo a convocao de um
comandante e um copiloto. Minha tripulao precisa descansar, e queremos passar o avio para
algum que possa gui-lo. Temos ordem de levar refugiados  frica.
         -- Aguarde um momento, comandante -- pediu o operador.
         Uns dois minutos correram.
         -- A solicitao foi autorizada. H pilotos voluntrios aqui, e um grupo  espera de
exlio.
         -- Obrigado, controle -- ela finalizou e retirou o fone.
         Ablon encarou orgulhoso sua oficial em ao. Aziel ps a mo sobre o ombro da
companheira, condecorando seu esforo e sua astcia.
         -- Saiu-se bem, Sieme. Sabe como dobrar as pessoas.
         --  minha natureza.
         -- Os avies militares devem estar levando centenas de pessoas  frica -- comentou o
ishim.
        -- Alguns,  verdade -- concordou o general --, mas nem tantos. rabes e judeus so
por demais persistentes. Aposto que a maioria deles prefere continuar em suas terras at a morte
chegar.
        A aeronave iniciou a descida, e a presso apertou os ouvidos. Sieme liberou o trem de
pouso e as rodas do aparelho baixaram. Em questo de minutos, amanheceria em Jerusalm. O
Anjo Renegado entraria, enfim, na Cidade Sagrada.
        Desta vez, quem poderia impedi-lo?


                               UM ASSASSINO NAS SOMBRAS

         O avio aterrissou no Aeroporto Internacional Ben Gurion, em Israel, s 5h28. A
instalao do aerdromo fica em uma localidade chamada Lod, no meio do caminho entre
Jerusalm e Tel Aviv, a uns 45 quilmetros da Cidade Sagrada. Ainda era noite quando Sieme
taxiou o aparelho e o levou  plataforma de desembarque. Ablon olhou para fora e reparou na
mobilizao militar. Soldados em tanques e jipes defendiam a rea; helicpteros e caas
vigiavam o ar.
         -- Como se isso fosse ajudar alguma coisa -- comentou.
         -- Sabe para onde devemos seguir depois daqui? -- perguntou Sieme, antecipando a
prxima etapa.
         -- Vamos para Jerusalm. De l tentaremos alugar um carro com o qual tomaremos a
estrada para a pennsula do Sinai. Tambm temos que conseguir um mapa do deserto. Conheo
as trilhas antigas, mas precisamos ter o plano das rodovias modernas. Vocs sabem exatamente
onde ficam a montanha e o portal para o etreo?
         -- Seria fcil encontr-la no mapa -- explicou Aziel. -- O arcanjo Gabriel me indicou
a entrada. Ele me disse tambm que os religiosos mortais frequentemente confundem o Horeb
com o monte Sinai. Mas a verdadeira montanha que procuramos fica um pouco mais ao norte.
Sei localizar a caverna, s no sei direito como chegaremos l.
         -- Esta parte  comigo -- replicou o general.
         A aeronave estacionou na plataforma, e os funcionrios trouxeram a escada. Sieme
desligou os motores e despressurizou a cabine.
         Quando abriram a porta, o frio cortante da madrugada enrijeceu-lhes os msculos. Era o
ms de maro, incio de primavera, mas a estao ainda trazia o legado do inverno. Ablon
fechou o sobretudo, e a serafim recolocou a parca, mas Aziel no se preocupou, pois podia
produzir calor ele mesmo. Era um ishim, e sua provncia mestra era o elemento fogo.
         Com seus sentidos apurados, Ablon explorou o cheiro da terra. Lembrou-se do dia exato
em que estivera ali, havia milhares de anos, para afrontar Gabriel. H aromas prprios a cada
canto do mundo, para aqueles que sabem e conseguem perceb-los. O vento gelado levou-o de
volta no tempo, aos dias da caravana dos gregos, com a qual cruzou as desoladas plancies
orientais e a imensido da Arbia. A imagem saudosa da menina chinesa invadiu-lhe a mente,
assim como a lembrana de seus amigos, Tommaso, Plix e Tales.
         Sieme, mais uma vez, ludibriou mentalmente os guardas, e o coro esquivou-se para fora
do aeroporto. J na estrada, esperavam o primeiro nibus do dia quando o Anjo Renegado
farejou o ar. Seu senso de perigo, que nunca o deixara na mo, estava a alert-lo freneticamente.
         -- Algum problema, general? -- perguntou a Mestre da Mente.
         Ele no respondeu imediatamente e ficou quieto, examinando com suas habilidades o
ambiente em volta e o deserto que se estendia abaixo.
         -- Por enquanto, acho que no.
         Aziel ia se oferecer para vasculhar o distrito, mas o nibus chegou, e o assunto morreu.


        Trepado sobre um dos prdios do aeroporto, uma figura se escondia nas sombras. Era
um caador e, assim como Ablon, sabia ocultar sua aura. Alis, no era apenas um caador, mas
o maior de todos os assassinos do inferno.
         No mundo espiritual, Apollyon tinha rosto de monstro, com olhos negros como o
abismo e dentes pontiagudos que saltavam da boca. No plano fsico, porm, parecia um mortal,
porque essa  a aparncia dos avatares dos anjos e demnios quando materializados. Na Haled,
portanto, fazia-se passar por homem, um sujeito carrancudo, bronco, de cabelos escuros e corpo
fortssimo. Tal qual seu inimigo renegado, Apollyon era um lutador implacvel e tinha ha-
bilidades furtivas. Era mais forte que Ablon, porm muito mais lento. Os malikis, a casta de
demnios guerreiros, eram bravos, indisciplinados e incontrolveis, exatamente o inverso de
seus adversrios celestes, os querubins.
         Mas o que pretendia Apollyon ao espionar o general? Queria ele levar a cabo uma
vingana pessoal, ou estaria a servio do Arcanjo Sombrio em pessoa? Teria Lcifer decidido
eliminar o Anjo Renegado, em resposta  sua recusa ao acordo, ou era o Exterminador que
queria enfrentar o guerreiro e terminar o duelo que haviam comeado quinze mil anos antes?
         Na ltima vez em que se encontraram, na entrada da caverna do Diabo, Ablon o
desafiara ao combate.
         O caador no esquecera o chamado.


                         UM GUIA TERICO  SHAMIRA EM SION

         J era dia quando, do nibus, Ablon avistou ao longe alguns prdios modernos, fora dos
muros da Cidade Velha. Era a parte nova de Jerusalm, ocupada principalmente depois de 1860,
com o superpovoamento do centro histrico. Naquela poca, foram planejados distritos para os
imigrantes, e a periferia tornou-se um lugar ecltico, multicultural, que reflete a arquitetura e os
costumes de seus fundadores.
         A estrada, ladeada por colinas e plantaes de oliveiras, estava bloqueada por uma
cancela, defendida por uma guarita e por vrios soldados do exrcito, em jipes e tanques.
Aquele era um posto de controle, um dos muitos que obstruam as rodovias por toda Israel. O
renegado sabia que muitos israelenses e palestinos, que moravam distante, trabalhavam na
Cidade Sagrada, e imaginou que as vias estariam lotadas quela hora do dia, mas se enganara. A
autopista encontrava-se praticamente vazia. Sups que, a exemplo do Rio de Janeiro, o
comrcio estivesse parado e todas as atenes estivessem voltadas para a guerra mundial que
assolava o planeta.
         Escutando uma senhora em trajes islmicos conversando a seu lado, o querubim
entendeu que a maioria dos forasteiros no nibus no era composta por trabalhadores, mas por
fiis, que se dirigiam aos templos em Jerusalm para rezar e esperar o fim do conflito. Os
santurios sagrados muulmanos, cristos e judeus estavam abarrotados de gente. Poucas lojas
continuavam abertas ao pblico, s os armazns de comida e os pequenos supermercados.
         Um soldado, armado de pistola e fuzil, entrou pela porta do nibus e comeou a
verificar documentos. Sieme disfarou seu semblante e o de seus amigos com truques mentais, e
os vigilantes no detiveram ningum.
         O militar fez sinal para a sentinela levantar a cancela e comentou com seu parceiro:
         -- Lembro-me de ter visto um homem loiro, alto, e uma mulher de cabelos prateados.
         O colega achou graa na curiosa iluso.
         -- ... -- zombou. -- Eles devem ter se escondido na bolsa das velhas.


        O nibus em que Ablon, Aziel e Sieme viajavam deu a volta na Cidade Nova, passando
pelos principais bairros da Jerusalm moderna, cruzou o monte Sion, atravessou o vale do
Cdron, contornou o centro histrico pelo sul e subiu o monte das Oliveiras, parando finalmente
na Rua Jeric. Atrs deles, morro acima, estava o cemitrio judeu, com seus tmulos
centenrios, incluindo as sepulturas dos profetas Zacarias e Malaquias e o jazigo de Absalo, o
rebelde filho do rei David.  frente, o vale de Josaf, uma depresso hoje pouco escarpada,
separava-os dos muros da Cidade Velha.
         Depois de milnios, o Anjo Renegado regressava ao seu ponto de duelo, ao lugar onde
travara o pico combate com o arcanjo Gabriel. Dali, de cima do morro, os trs anjos
contemplaram a Cidade Velha, com suas casas antigas e ruas estreitas, dando cor a uma
paisagem de tonalidade uniforme, meio marrom, meio cinzenta. A rea colada ao monte das
Oliveiras, delimitada pelo muro ancestral, abrigara, havia anos, o Templo de Salomo e depois
o Templo de Herodes.
         Por mais de meio sculo, a esplanada descansou em runas, at que os muulmanos
recuperaram o local em 691, construindo o Domo da Rocha, uma magnfica mesquita de cpula
dourada, que at hoje  o principal carto-postal de Jerusalm. A rea toda  considerada
sagrada e conta com outras edificaes clebres, como a Mesquita de El-Aqsa e o Museu de
Arte Islmica. A oeste, uma seo do muro separa a esplanada do templo do bairro judeu. Essa
muralha, conhecida como Muro das Lamentaes,  atualmente a referncia mais adorada do
judasmo, porque  a nica parte que resistiu ao incndio que devastou o Segundo Templo.
Adiante, o general avistou o bairro muulmano e, alm dele, o bairro cristo e o armnio,
repletos de igrejas, patriarcados e albergues das vrias denominaes crists da cidade.
         Ablon pde notar, com seus olhos de guia, que o centro histrico estava curiosamente
lotado. Ao redor do Domo da Rocha e em frente  Mesquita de El-Aqsa, milhares de
muulmanos rezavam ao ar livre, enquanto judeus ortodoxos oravam diante do Muro das
Lamentaes. No bairro cristo, uma procisso seguia a Via Dolorosa -- as ruas percorridas por
Cristo em seu martrio -- e se dirigia  Igreja do Santo Sepulcro. As dezenas de templos da
Cidade Velha estavam apinhadas de gente, que se reunia naquele feriado no programado. E
havia soldados, centenas de soldados do exrcito e da polcia israelense, espalhados por todos os
cantos. Dois helicpteros de combate deslizavam no cu.
         Sieme constatou o que j esperava: o tecido da realidade, na parte antiga de Jerusalm,
era extraordinariamente fino. A Mestre da Mente observou, tambm, que o plano astral estava
desabitado de anjos. A Cidade Sagrada, por estar prxima  sua equivalente etrea, a Fortaleza
de Sion, fora ocupada pelas legies de Miguel depois da ressurreio do Salvador, quando
Gabriel e seus querubins a deixaram. Desde ento, o centro antigo vinha sendo vigiado pelos
agentes do Prncipe dos Anjos, mas naquela manh de maro, s vsperas do Dia do Ajuste de
Contas, nenhum celestial rondava o permetro.
         -- Na ltima vez em que estive aqui -- confidenciou Ablon -- incansveis patrulhas
celestes guardavam o plano astral, e as tropas de Gabriel cercavam a cidade, esperando pela
investida dos soldados de Miguel, na primeira grande ofensiva que, pelo que vocs me
disseram, deu incio  guerra civil.
         -- Foi um dia santo -- acrescentou Aziel. -- O Salvador pereceu na cruz, e as legies
dos dois arcanjos entraram em confronto. Lutamos para defender a alma do Iluminado. Dois
dias depois, ele ressuscitou. Nossa misso estava cumprida. Rechaamos o exrcito inimigo e
deixamos a Haled, refugiando-nos no Primeiro Cu, onde tnhamos bases mais seguras.
         -- Realmente, general -- concordou Sieme. --Tudo agora parece to desolado.
Jerusalm sempre foi um poo de fantasmas, e continua sendo -- reparou --, mas no h um
celestial sequer vagando pela regio. Nem parece que a Fortaleza de Sion fica to prxima
daqui, no plano etreo. No acha um pouco estranha toda essa apatia?
         O guerreiro ponderou:
         -- Se Miguel est se preparando para a maior das batalhas, certamente precisa de todos
os seus anjos alertas. Felizmente eles no podem nos enxergar do etreo. Mas sempre pode
haver um desgarrado -- alertou, lembrando-se da sensao de perigo que experimentara ao sair
do aeroporto.
         O coro desceu o caminho na direo do Porto de So Estevo, recortado na muralha
antiga, que acessava o bairro muulmano. A passagem mais prxima seria o Porto Dourado,
que levava ao complexo de templos e ao Domo da Rocha, mas o umbral fora fechado pelos
islmicos no sculo VII.
         -- Acha que vamos conseguir um transporte aqui? -- perguntou Aziel.
         -- Tenho certeza -- respondeu Ablon. -- Trouxe algum dinheiro comigo, talvez o
suficiente para alugarmos um carro.
        J eram quase oito horas quando os trs chegaram ao porto, construdo pelo sulto
Suleiman, o Magnfico, em 1538. Ao transpor o arco de pedra, o Primeiro General sentiu o
aroma indito de uma nova cidade. Olhou para o cho, para os muros, para as casas e vielas e
para o povo nas ruas. Em Jerusalm, as marcas da histria esto em todo lugar, em cada canto,
em cada esquina. As impresses de uma localidade milenar, para um anjo com sentidos
apurados, eram to incrveis quanto saudosas. E ele percebeu tambm a tenuidade do tecido.
        -- A membrana aqui ... ... -- murmurou.
        --  como se toda a Cidade Velha fosse um enorme santurio -- completou Sieme.
        Exatamente por isso, no era difcil para os celestiais enxergarem os espectros dos
mortos de muitas eras passadas, que se escondiam nas alcovas e erravam pelas caladas, sem
que os mortais os notassem. Eram inofensivos e melanclicos, como todos os fantasmas.
Continuavam presos ao plano astral, mas sempre observando o mundo fsico, em busca de
solues para as questes que os impediam de rumar para o cu.
        -- Enfim, estamos aqui -- felicitou-se Aziel. -- E agora?
        -- Agora vamos precisar de um automvel, de preferncia resistente, para cruzar o
deserto. E ainda temos que conseguir um mapa rodovirio.
        -- Tem idia de onde podemos conseguir tudo isso? -- perguntou a serafim.
        -- O comrcio est fechado, mas talvez haja alguma venda aberta no souk central, um
mercado livre na interseo entre os trs bairros.
        Aziel apreciou a deciso de seu general.
        -- Para quem nunca veio  cidade, at que voc no  um mau guia -- brincou.
        Ablon sorriu. Era verdade -- jamais estivera em Jerusalm. Mas havia lido tudo a
respeito. E a memria do renegado era o que ele tinha de mais rico, alm de suas virtudes. As
habilidades marciais vinham em segundo lugar.
        No ptio mais extremo da Fortaleza de Sion, sobre os cem nveis da torre, a Feiticeira
de En-Dor continuava presa por correntes  negra pilastra de mrmore. O vento gelado
castigava-lhe a pele, e os fios de cabelo chicoteavam-lhe o rosto. Mesmo atada  coluna pelas
amarras de ferro, podia ver o cho sob o parapeito, milhares de metros abaixo, e as cordilheiras
que, ao longe, defendiam a fortaleza, como um anel a cercar a plancie. Atrs dela, tambm a
distncia, alm das montanhas, ficava o inquietante rio Styx, com suas turvas guas vermelhas.
Todas as divises do exrcito de Miguel estavam prontas e posicionadas, esperando o assalto da
legio rebelde de Gabriel, acampada a 350 quilmetros dali.
        Shamira sabia que, mesmo a ss no terrao, estava sendo vigiada por espies invisveis.
De qualquer maneira, no havia muita sada para seu sofrimento. Seus encantamentos, mesmo
que pudesse invoc-los, seriam inteis contra seus raptores, a menos que tivesse um objeto ou
uma pena da vtima -- e ela no tinha.
        Tentou racionalizar o que faria a seguir. Poderia simplesmente relaxar e esperar a morte,
mas ainda guardava esperana. J estivera em situaes difceis e conseguira se livrar de todas,
na maioria das vezes por mrito prprio. No sabia o que acontecera a Ablon. Queria acreditar
que ele estava a caminho, mas no devia contar com isso. De certa forma, uma parte dela no
queria que ele viesse em seu resgate, pois agora, ao ver de perto a Torre das Mil Janelas, reco-
nhecia a qualidade das patrulhas e a voracidade de seus guardies. Confiava no renegado e em
sua percia com a espada, mas temia que ele no superasse os inimigos que habitavam as salas
escuras, incluindo o sinistro Anjo Negro e o impiedoso Miguel.
        Em meio aos pensamentos desencontrados, a feiticeira concentrou-se em suas
potencialidades. Sentia-se pssima. Sempre fora ativa, esperta e enrgica. Mas encontrou
consolo ao entender que muitos que admirava tambm haviam passado por isso. Voltou a
lembrar-se de Ablon e de como ele, certa vez, escapara do inferno, aps ser capturado e levado
ao mais terrvel dos calabouos.
        Na ocasio, o Anjo Renegado obteve auxlio, caso contrrio teria morrido. Foi a
amizade de um antigo confrade que o salvou da condenao certa nas mos do Senhor do Sheol.
        Teria ela a mesma sorte?
Condado de Exmoor, sul da Inglaterra, 1231 d.C.


                                   O VELHO CARVALHO

ACONTECEU   NAQUELES DIAS SOMBRIOS, DURANTE a chamada Idade das Trevas. Tempos sangrentos
eram aqueles, quando homens de honra partiam para a guerra com suas armaduras polidas,
enquanto os camponeses, famintos, trabalhavam a terra, subjugados por ociosos tiranos. Era a
poca dos grandes castelos e cavaleiros, dos senhores feudais, do apogeu da Igreja e tambm
das Cruzadas, gigantescas jornadas militares postas em curso para expulsar os muulmanos da
Terra Santa,
        Foi em uma manh gelada de inverno, quando a neve se acumulava nos galhos e
encobria a relva macia, que o Anjo Renegado, cambaleante e ferido, cruzou a floresta, chamada
de bosque dos Cones, por seus pinheiros de copa pontuda. Parou, apoiado em um tronco, e
respirou duas vezes. Nas costas, sob a roupa grossa, um talho imenso castigava-lhe o corpo.
Mais parecia um golpe de espada, mas a hemorragia era mnima, porque o ferimento fora
cauterizado, como que fustigado com um objeto fervente. A fora vacilava e as pernas tremiam,
mas ele no podia parar. Faltava pouco, muito pouco. J podia ver a fronteira dos ermos e os
limites de um povoado alm. Talvez tivessem gua, comida e uma cama quente, tudo de que
precisava para recompor seu avatar.
        Ablon estava esfomeado e cansado, mas no desistiu e continuou a correr sobre a neve,
tropeando e caindo s vezes, mas nunca se deixando vencer. Subiu e desceu uma colina,
atravessou um corredor de pinheiros, contornou a margem de um lago e chegou a uma alameda.
Ao fim dela, encontrou o que procurava.


        A trilha florestal abria-se em um campo coberto de neve, cuja rea central abrigava um
complexo monstico, com uma srie de prdios de arquitetura tipicamente normanda, de pedra
clara e marrom, passagens em arco e janelas altas a uma distncia segura do solo. Alm do
mosteiro, o bosque sumia, e uma estrada de terra continuava reta at um vilarejo, a um
quilmetro de distncia, ao redor do qual se cultivavam trigo e cevada. Ablon no enxergou
muito bem o povoado, mas o monastrio estava  sua frente, ao seu alcance. Reparou que o
terreno era cercado por muros, mas na portaria, sob uma torre pequena, no havia viglia. E,
colada ao prprio muro, havia uma casa longa, que o general sabia ser a ala de caridade, onde os
monges alimentavam e medicavam os pobres. A seguir, depois do largo frontal, estava a igreja
da abadia, flanqueada por duas torres dianteiras e decorada com vitrais coloridos. Ao lado,
erguiam-se outros edifcios, entre eles o claustro, os dormitrios, a casa do abade e o captulo,
uma cmara onde os monges se reuniam diariamente para deliberar sobre diversos assuntos.
        O renegado avanou pelo portal arqueado e penetrou no ptio, ocupado por homens de
batina escura. Uma dezena deles cercava um grande carvalho, enquanto outros dois, de
machado em punho, tentavam cumprir a tarefa de pr a rvore abaixo. Ablon no se preocupou
com eles, quando seu olfato de predador captou o cheiro de gua potvel. Virou-se e avistou um
poo, com um balde cheio descansando na neve. Correu e engoliu tudo o que pde, toda a gua
da qual se privara. Estava seguro agora. Se tombasse, seria ajudado.
         Quatro monges, jovens novios, aproximaram-se do estranho andarilho, mas nada
fizeram.
         -- A cada dia uma surpresa -- comentou o mais novo, indiferente.
         -- De onde ser que  esse? -- perguntou um segundo.
         -- Pode ser um campons enlouquecido de Seaport -- arriscou urn baixinho, de cabea
raspada.
         --  forte demais para ser um campons, sua mula -- retrucou o mais velho, com certa
malcia.
         Os outros trs, intimidados, ficaram calados. Tinham olhos curiosos e pouco amigveis.
O anjo guerreiro largou o balde e tentou articular um pedido de ajuda, mas a garganta doa.
Cambaleou para frente, pisou em uma pedra e, j tonto, caiu.
         -- Ele devia estar pedindo comida -- inferiu o cabea-raspada.
         -- , mas a caridade s comea daqui a meia hora. Ainda nem esquentaram os pes --
explicou a voz dominante.
         -- Devemos carreg-lo para dentro? -- indagou algum.
         -- No, o prior disse para cortarmos a rvore. Sempre uma coisa de cada vez. Sem
protestar, os outros concordaram.


         Ablon foi vtima de um pequeno desmaio. Estava ferido, cansado e faminto, mas no
iria morrer. Aquele talho no corpo no configurava um ferimento mortal, apenas um
contratempo, que o enfraquecia terrivelmente e o atrasava em sua empreitada.
         Acordou com o agradvel calor do ambiente, ao ser esticado em um leito de palha.
Tossiu muitas vezes e expeliu um pouco de sangue. Os dedos estavam congelados, as costas
ardiam e a cabea latejava.
         Sentou-se na cama e dali viu muitas outras, algumas com camponeses doentes, ao longo
de uma sala comprida, de janelas estreitas, atravs das quais brilhavam os raios dourados do sol
de inverno. Dois homens idosos, um magro e outro muito gordo, ofereciam aos infelizes
pedaos de po, distribuindo o alimento juntamente com uma tigela de gua. Eram beneditinos,
seguramente, uma ordem monstica devota dos ensinamentos de so Bento de Nrsia, o "pa-
triarca dos monges ocidentais". Os preceitos beneditinos foram levados  Inglaterra por santo
Agostinho, um italiano que, no sculo VI, veio a se tornar arcebispo de Canturia, o centro
religioso mais importante do pas. Sustentavam a alcunha de "monges negros", por causa de
suas vestes escuras.
         Um velho de corpo delgado, olhos azuis e expresso gentil estendeu a comida ao
renegado, que a tomou vorazmente. O monge, longe de se impressionar, conhecia a atitude dos
esfomeados e limitou-se a demonstrar um sorriso bondoso. Apesar da idade avanada, o irmo
Thomas era s um enfermeiro, uma das posies mais tmidas da hierarquia monstica. No era
e nunca fora padre. Com efeito, as regras de so Bento propem que a maioria dos monges seja
composta de leigos, e que s uns poucos sejam ordenados.
         Ocupado em saciar a fome, Ablon nem deu ateno ao filantropo, que ficou parado a
observ-lo durante todo o curso da refeio. Parecia querer falar-lhe com calma, por isso o
aguardava sem pressa. O celestial s entendeu isso quando terminou seu pedao de po.
         -- Contei ao prior que estava aqui -- surpreendeu o ancio, com certo peso de culpa.
         -- Contou? -- estranhou o renegado. -- Sou hspede de honra? -- brincou. O monge,
encabulado, percebeu que o paciente no tinha sotaque e logo implorou desculpas, como se
tivesse cometido um pecado mortal.
         -- Eu... eu suplico seu perdo, bom cavaleiro. Pensei que fosse francs.
         O renegado achou graa no comentrio, especialmente no ttulo pelo qual fora chamado.
         -- No  o nico. Esto sempre me confundindo, em toda parte que vou.
         -- Mesmo assim seria bom que conversasse com o prior -- insistiu. Ablon gostou da
idia. O prior era o segundo em comando do mosteiro,
abaixo somente do abade. Talvez pudesse ajud-lo a encontrar a pessoa que fora procurar
naquelas terras do sul. Havia alguns meses, o querubim reencontrara um de seus oficiais
renegados, Yarion, Asa de Vento, nas cercanias altas da Esccia. Decidiram, a partir de ento,
vagar juntos pelo mundo, e estabeleceram uma misso: reagrupar a Irmandade. Para organizar o
plano de ao, refugiaram-se na Abadia de Saint Luke, ao norte, disfarados de clrigos, e l
encontraram a paz de que precisavam para estabelecer a jornada de busca. Mas a tranquilidade
fora subitamente interrompida pela chegada de um assassino infernal. Vagando na noite, o
demnio Apollyon invadira o monastrio e, com sua espada de fogo negro, golpeara o general
pelas costas. Moribundo, Ablon presenciou o Exterminador derrotar Yarion e lev-lo ainda vivo
para as profundezas do inferno. O querubim ainda no sabia muito bem como o malikis
conseguira carregar seu amigo renegado para alm do tecido da realidade, mas esperava que
Shamira o iluminasse.
        Ablon conhecia, por alto, o paradeiro da Feiticeira de En-Dor. Sabia que ela tinha se
estabelecido em Exmoor, ento foi seguindo seu rastro desde Bristol, passando por Bath,
Glastonbury e Ilchester, para enfim chegar ao condado.
        -- Estou  disposio de seu superior, a hora que ele quiser -- ofereceu-se.
        -- Ele vai cham-lo mais tarde. Temos que cumprir os ofcios.
        Para os beneditinos, a estrutura do dia  determinada pelas horas do culto, a que so
Bento deu o nome de opus dei, as oito missas dirias cantadas no oratrio monstico. So elas: o
ofcio divino da noite, ou viglias; o ofcio das primeiras horas do dia, ou matinas; as horas
cannicas que se seguem s matinas, as laudes; e as sete horas cannicas seguintes, prima, tera,
sexta, nona, vsperas e completas.
        -- Posso esperar -- colaborou o renegado.
        O ancio recolheu a tigela vazia de gua e declarou, antes de sair:
        -- Durma um pouco, ento. E sobre o que disse, saiba que, para os membros de nossa
ordem, a hospitalidade  uma obrigao solene. Aqui, os visitantes so acolhidos como o
prprio Cristo.
        Ablon assentiu com a cabea, mas logo se lembrou da recepo impassvel dos novios
no ptio. Contanto que no o crucificassem, estava tudo bem.




                                   No VINHO A VERDADE

         No mosteiro, cercado pela rea rural, era tudo muito silencioso. Os mais introvertidos
passavam grande parte do tempo calados, na calmaria do claustro, a no ser durante os ofcios,
quando declamavam oraes em estilo gregoriano. A igreja em que rezavam ficava do outro
lado do ptio, mas Ablon podia ouvi-los entoando salmos e proferindo louvores ao Senhor. A
melodia suave o despertou por completo, e ele teve um vislumbre saudoso ao recordar-se da
Bancada da Paz, um dos muitos pavilhes do Sexto Cu, onde trezentos celestes teciam
sinfonias honrosas em tributo ao Deus adormecido.
         Era quase hora do almoo, e l fora a neve caa sem parar, alvejando o campo e os
bosques. O renegado se levantou, j se sentindo melhor. Ficou circulando pela sala enquanto os
outros doentes dormiam e arriscou uma subida na cama, para espiar o largo interno pela janela.
O carvalho central havia mesmo sido cortado, mas o tronco ainda repousava no cho. Era to
belo, to antigo, to forte. Era uma rvore cheia de vida, mesmo com os galhos desfolhados pelo
inverno. Agora, mais parecia um cadver tombado, que em breve regressaria  terra. Para os
antigos celtas, o carvalho era uma planta sagrada, mas muitos cristos no davam importncia
aos cultos ancestrais.
         Ouviu passos no assoalho e sentou-se no leito de palha. O velho magrelo entrou pela
porta.
         -- No conseguiu dormir? -- arriscou uma deduo.
        -- Consegui sim, mas j despertei. O calor da fogueira e os flocos de neve batendo na
janela so o melhor sonfero para um homem cansado.
        O monge pareceu satisfeito.
        -- Pode vir comigo agora?
        Era exatamente o que Ablon esperava.
        -- Perfeitamente -- acedeu, levantando-se da cama.
        Seguiu o ancio por prticos obscuros e vastos sales. O frio era assombr e os dois
caminhavam afastados das janelas. Cruzaram uma passagem em arco que levava a um trio e
depois  casa do abade. A neve fofa grudava nas botas.
        Chegaram a um corredor de pedra que terminava em uma porta de madeira com duas
sees. O irmo Thomas bateu trs vezes com a argola na tbua.
        -- Nosso abade est em viagem a Canturia, mas o prior John Marc vai receb-lo.  um
homem jovem e inteligente. Foi ordenado padre em Westminster.
        Em geral, a regra beneditina estipulava que os monges ficassem sempre na mesma
comunidade, mas s vezes havia intercmbios, pouco comuns. A abadia de Westminster ficava
-- e ainda fica -- em Londres, a leste, bem longe dali. A vontade de Ablon era conferenciar
com um homem local, que conhecesse a regio e seus habitantes. Ser que o prior aliviaria suas
dvidas?


         A porta de madeira se abriu, e um homem distinto, com menos de 40 anos, de corpo
saudvel e altura superior, convocou o visitante. Trajava o regular hbito negro, mas por cima
usava uma segunda veste, de algodo e veludo, luxuosa para os padres rsticos do monastrio.
De dentro da sala, emanava um aprazvel calor, misturado ao cheiro de diversas comidas.
         -- Pode entrar -- convidou. Tinha voz firme, e pela expresso Ablon soube que era
sujeito instrudo. O velho irmo Thomas deu meia-volta, e o querubim avanou pela porta.
         A casa do abade, ento ocupada pelo prior, era a maior rea particular do mosteiro.
Tinha pelo menos trs quartos e um espao comum, onde se destacava uma mesa extensa, sobre
a qual fora posta uma deliciosa refeio vespertina. No havia carne, mas o almoo inclua po
preto, ovos cozidos e uma suculenta sopa de cebola e ervilhas. Duas jarras decoravam a mesa,
uma com gua e outra com vinho. Na extremidade mais funda, uma lareira ardia, aquecendo os
presentes.
         O prior se sentou e, com um aceno, incitou o visitante a imit-lo.
         -- Esteja  vontade, meu jovem -- comeou, indicando a comida sobre a mesa.
         Ablon aceitou a oferta e agradeceu a gentileza com uma vnia silenciosa.
Relaxou as costas contra o assento e acompanhou o padre em seu repasto. Separou para si um
pedao de po, enquanto o anfitrio se servia do caldo de cebola.
         -- Po  vida,  carne -- teceu o hospedeiro, contente ao ver que o viajante tinha
hbitos modestos e aproveitando para, ao mesmo tempo, emendar uma metfora religiosa.
         Deve ser soldado, pensou, e era exatamente de um soldado que precisava.
         -- Pelo menos para mim, a simbologia  coerente, padre -- retrucou o renegado,
analisando a ironia. Ele precisava comer, beber e dormir para refazer seu corpo fsico.
         O homem se animou com a resposta.
         --  cristo?
         -- Devo admitir que no tenho ido muito  igreja -- Ablon j estava se saindo melhor
com essas perguntas sbitas.
         A expresso do proco no se alterou. Estava exultante por ter encontrado seu homem, e
o usaria mesmo que no fosse cristo.
         -- Perdoe-me a falha de etiqueta -- repreendeu-se, quando o assunto morreu. -- Sou o
prior John Marc, responsvel pelo monastrio at o retorno do abade. E voc, de onde vem?
         -- No sou seu inimigo, muito menos francs.
         O clrigo reparou que o hspede no o tratava por "irmo" ou "senhor", sinal de que no
era campons. Os servos, em geral, respeitavam mais as formalidades feudais. Sups que fosse
nobre, cavaleiro ou mercenrio, mas sua postura evasiva o irritava por dentro. Determinado a
arrancar a verdade do convidado, o prior encheu o copo do celestial com vinho at o topo,
simulando um ato gentil.
        -- Mas  um guerreiro, imagino -- pressionou, e ento Ablon entendeu a malcia da
coisa.
        -- In vino ventas -- ironizou o general, em latim, e a partir da Marc viu que no estava
lidando com um homem qualquer. O provrbio "No vinho a verdade" faz aluso  prtica de
embriagar um terceiro para deix-lo mais propenso a articular confisses. Apenas os eruditos
conheciam o ditado.
        Mesmo assim, o anjo sorveu a bebida da taa -- no ficaria embriagado, seguramente.
Voltou-se ao seu inquisidor:
        -- O que quer de mim, padre? -- perguntou, encerrando os subterfgios.
        O semblante do sacerdote endireitou-se, regressando  postura sisuda. A oratria com a
qual ludibriava os fidalgos na corte de Londres falhara.
        -- Antes de tudo, preciso saber se tem vivncia de guerra e um mnimo conhecimento
da mata. Quero ter certeza de que est disposto a cumprir uma tarefa especfica.
        Ablon viu a inteno nos olhos do homem.
        -- Voc procura um mercenrio.
        O prior encabulou-se. Tal atitude, a de contratar soldados da fortuna, no era um
costume muito cristo. Confiou, talvez inocentemente, no sigilo do hspede, mas dali em diante
no havia mais volta.
        -- Temos tido alguns problemas polticos aqui no mosteiro -- confidenciou.
        O Anjo Renegado no disse nada, esperando que o monge fizesse seu relatrio.
        -- Quem sustenta a abadia  o baro Peter Madog -- cedeu --, que  tambm o senhor
de Redmill, o povoado que fica adiante, alm dos campos de trigo. Deve t-lo avistado em
algum momento.
        -- Vi os campos, mas no a aldeia.
        -- A nevasca provavelmente encobriu a paisagem. H muito tempo Madog quer
construir uma estrada que ligaria Exmoor a Glastonbury, mas a rota passa pelo meio de uma
velha floresta, a floresta Vermelha, a leste.
        -- Por que no ordena que seus monges derrubem as rvores? Acho que eles tm uma
certa experincia no assunto -- zombou, lembrando-se da desagradvel viso do carvalho
tombado.
        -- Monges no so lenhadores. Alis, a floresta  grande. Precisaramos de mais
homens para isso.
        -- E o tal baro? No tem dinheiro para financiar operrios?
        O anfitrio esboou um sorriso nervoso. Nem ele, esclarecido e letrado, gostava de tocar
naquele assunto.
        --  claro que tem. O baro tem muito dinheiro, mas o problema  que nem os
camponeses famintos querem entrar naquelas partes selvagens. Desde os romanos o povo conta
que a mata  assombrada por duendes e fadas.
        O renegado deixou escapar uma risada ctica:
        -- No vai me dizer que acredita nessas coisas...
        -- Creio apenas em Deus, e s nele, forasteiro -- o padre foi mais agressivo --, mas os
pobres ainda so muito supersticiosos, uma herana profana deixada pelos feiticeiros brbaros
-- ele se referia aos druidas, antigos sacerdotes que habitavam a Inglaterra na poca dos celtas.
-- Os lenhadores disseram ao baro que s entrariam na floresta se antes ela fosse percorrida
por um grupo cristo. H um ano, convenci uma comitiva monstica a visitar aqueles ermos.
Fomos a p at as rvores, mas alguns homens ouviram barulhos estranhos, escutaram risadas e
avistaram uma mulher de cabelos negros e pele alva, a quem deram o nome de Bruxa da
Floresta Vermelha.
        O general parou de comer. A Bruxa da Floresta Vermelha s podia ser Shamira, a quem
Ablon tanto procurava. Ele conhecia bem os hbitos da feiticeira e sabia que ela apreciava as
regies selvagens. A necromante nunca foi de se misturar a ordens ou a conselhos de bruxos,
preferindo a vida solitria. Talvez por essa razo continuasse viva.
         -- Ao ouvir aqueles sons horrveis -- prosseguiu o padre --, o horror se apoderou da
comitiva, e minha misso fracassou. Desde ento, os leigos esto convencidos de que aquele
lugar  o lar do Diabo e se recusam a voltar l. E, com isso, tambm os lenhadores.
         -- Que histria mais delirante -- exclamou Ablon, incrdulo quanto  crena nas fadas.
Era possvel, contudo, que Shamira tivesse usado encantos bsicos para afugentar os invasores.
E o querubim estava convencido de que era realmente ela a tal bruxa da floresta. A descrio
no dava margem a dvidas.
         -- O abade Paul, chefe da nossa parquia, foi a Canturia tentar ganhar tempo com os
bispos. Enquanto isso, tenho que pensar em um jeito de desacreditar meus homens sobre essa
fbula irritante, a fim de lev-los a visitar a floresta. Se a comitiva cruzar o bosque, os operrios
ficaro encorajados a entrar. E, se a estrada no for construda, Redmill e este monastrio
estaro condenados.
         --  curioso que tenham resistido at agora.
         -- A abadia foi financiada pelos pais do baro, assim como o povoamento da aldeia. Na
poca, as necessidades eram menores, mas agora a demanda de cereais aumentou. As sacas de
trigo e cevada precisam ser vendidas fora daqui, para que a propriedade continue sendo
rentvel.
         -- O que o baro quer  engordar ainda mais seus cofres.
         O clrigo no desmentiu a afirmao, mas tambm no a encorajou.
         -- Ainda assim, lorde Peter Madog  nosso patrono.
         Ablon terminou o po, bebeu um copo de gua e pegou uma concha de sopa.
         -- E por que exatamente voc precisa de um mercenrio?
         -- Tudo o que eu quero  um homem de coragem, que seja livre dessas crendices que
perturbam o povo. Se um cavaleiro honrado passar uma noite na floresta Vermelha e de l
retornar com vida e sanidade, os monges entendero que toda a mstica em torno do bosque no
passa de um folclore pattico. E a poderei organizar uma nova comitiva, abenoar a rea e abrir
caminho para os lenhadores.
         --  s isso? -- estranhou o renegado.
         O hospedeiro levantou-se e foi at um canto da sala. Pegou uma pequena arca de
madeira e a ps sobre a mesa. Tinha reforo de ferro e estava fechada por um cadeado macio.
         --  claro que o pagamento  satisfatrio -- sussurrou e, abrindo o tampo da caixa,
revelou uma pilha de moedas de prata. No meio do tesouro, destacavam-se objetos de ouro e
artefatos incrustados de pedras preciosas, como cruzes c colares. O celestial desprezou a
futilidade dos homens e nem quis imaginar como os objetos haviam sido adquiridos.
         -- Guarde seu dinheiro, prior. Felizmente para voc, nossos objetivos se cruzam. A
floresta Vermelha era meu destino desde que cheguei ao condado, embora no soubesse muito
bem disso. Vou me aventurar pela mata, mas talvez demore mais do que um dia l dentro.
         -- Suas palavras so incongruentes.
         -- Eu tambm quero encontrar essa bruxa. Mas no se assuste, no sou um feiticeiro.
         O sacerdote fechou a arca e examinou o celeste dos ps  cabea. Lentamente, foi se
afastando e recolocou a caixa no cho. Por um momento, arrependeu-se terrivelmente de ter-lhe
confiado a situao do mosteiro, mas estava desesperado.
         -- Faa como quiser -- determinou, sem sada. -- Mas tente no demorar. Podemos
pag-lo muito bem.
         -- Eu j disse que dinheiro no  a questo -- repetiu, sorvendo a ltima colherada de
sopa.
         O padre virou o rosto e fez uma anotao mental, repetindo para si mesmo que no
deveria mais tocar em assunto financeiro. No podia deixar escapar a boa oportunidade que
tinha arrumado -- um soldado disposto a entrar na floresta Vermelha e nada cobrar por isso. Era
como um daqueles heris da mitolgica Bretanha, como os cavaleiros dos tempos de Artur.
Imaginou a propaganda que poderia fazer sobre suas picas faanhas e separou na mente alguns
ttulos para ele, como Matador de Drages e Cavaleiro Sagrado. Talvez, no futuro, ainda
pudesse transform-lo em santo.
         -- Quando acha que podemos partir? -- o proco tinha pressa. -- O enfermeiro da ala
de caridade disse que estava ferido.
         -- J estou quase bom -- e era verdade. Em um dia de repouso estaria em tima forma.
Os anjos guerreiros saram rpido, mesmo quando os ferimentos so provocados por armas
msticas. -- Podemos viajar amanh, mas no conheo o caminho para os ermos.
         Dali em diante, John Marc j tinha todo o planejamento delineado, com etapas bem
definidas. Trabalhara nele por muito tempo antes de o querubim aparecer  sua porta. Era s
nisso que vinha pensando por meses a fio.
         -- Hoje, mais tarde, antes das vsperas, convocarei uma procisso. Deixarei s alguns
novios para guardar a abadia, e os outros iro acompanh-lo, inclusive eu. Acamparemos nos
arredores do bosque e aguardaremos seu retorno.
         Ablon no queria frustrar o prior, mesmo no concordando com suas intenes
progressistas. No que fosse contrrio  expanso da civilizao humana, mas a destruio da
floresta responderia  ganncia dos nobres feudais. Havia outras rotas para a construo da
estrada, mas estas eram mais longas e comprometeriam o comrcio e o lucro.
         -- Quanto a isso, no posso prometer nada, padre. J disse que nossos objetivos se
cruzam,  s.
         O baro tinha, logicamente, um corpo de guerreiros, mas s obedeciam a ele. O que o
clrigo precisava era de um heri solitrio, um cavaleiro bravo e esperto. Preferia que fosse
cristo, mas estava consciente de que nem tudo  perfeito. Alis, nem tinha certeza do que ele
era ou de onde vinha. Mas, verdadeiramente, que diferena fazia?
         A identidade de seu heri seria montada, criada, reinventada. Se tudo desse certo, a
estrada poderia estar pronta no fim do vero. O condado e a aldeia prosperariam, e com eles a
igreja e o mosteiro. Com o tempo, John Marc assumiria o lugar do abade. Quem no apoiaria
um homem que ajudara um cavaleiro a derrotar o Diabo?
         E o Diabo era precisamente quem Ablon pretendia enfrentar.


                                 A FLORESTA VERMELHA

         No dia seguinte, Ablon acordou da ltima noite de sono necessria  sua recuperao, j
praticamente so. A neve, que cara por toda a madrugada, havia parado, mas o frio aumentara.
Mesmo assim, o prior John Marc conseguira convocar a comitiva, uma procisso de cinquenta
monges, equipados com barracas, suprimentos, agasalhos e todo tipo de cones cristos, como
rosrios, cruzes e incenses. Levavam, em uma liteira protegida por vidro, uma imagem de so
Bento de Nrsia e o estandarte da famlia Anjou,  qual pertencia o ento rei da Inglaterra,
Henrique III. Alguns peregrinos estavam empolgados, mas a maioria, especialmente os mais
novos, pareciam incrivelmente entediados e tremiam de frio.
         J planejando tal romaria, o prior separara um traje militar para seu heri. Sugeriu ao
guerreiro que deitasse fora os trapos que usava e vestisse uma cota de malha belssima, por
baixo de um camiso de algodo acolchoado, que ia at a altura das coxas. O tecido era tambm
de qualidade excepcional, tingido de preto e com uma cruz vermelha estampada. O uniforme
fazia-se completo com um par de manoplas de ao, mas o padre no tivera tempo de comprar
uma espada, ento embrulhou um pedao de madeira em uma lona e pediu que Ablon a levasse
consigo. O renegado no firmara nenhum contrato com o sacerdote, muito menos havia
garantido que completaria a misso indicada, mas achou que devia alguma coisa ao homem, por
ele t-lo alimentado e acolhido -- ainda que tenha sido por interesse prprio.
         Os monges no tinham cavalos, s quatro mulas de carga. Com isso, caminharam para
leste por todo o dia, seguindo uma antiga estrada de terra, coberta de neve. Chegaram s
cercanias da floresta Vermelha ao entardecer e l montaram acampamento nas colinas geladas, a
uma distncia segura das rvores. Muitos deixaram transparecer o terror, intimidados pelas
diablicas histrias que envolviam o bosque. Mas Marc e os homens mais velhos animavam os
temerosos, recitando versculos bblicos e proferindo sermes.
         A floresta Vermelha era chamada assim por causa de suas rvores, singulares carvalhos
de casca rubra, que no se desfolhavam mesmo no frio do inverno. Essas plantas no existem
mais, e os cientistas modernos no as conhecem porque j eram raras nos tempos antigos.
Foram completamente extintas na Idade Mdia, e aquele talvez fosse o ltimo bosque.
         A rea da mata era extensa, percebeu o celeste, maior do que imaginara a princpio.
Calculou que os lenhadores teriam um rigoroso trabalho para abrir caminho por entre as rvores,
porque os troncos eram rijos e largos. Alm disso, reparando bem na floresta, Ablon teve uma
impresso sinistra, semelhante quela que sentira ao avistar os bambus do bosque Tin-Sen.
         Antes do pr do sol, o querubim seguiu para a floresta Vermelha, ao som da morosa
cantoria dos monges. O prior ofereceu-lhe uma tocha para as horas vindouras, mas o renegado
no precisava dela. Carregou o objeto at o limiar da mata e, quando j estava distante, largou o
basto em um canto.
         Ainda era dia quando alcanou a linha das rvores. Em minutos, o crepsculo dominaria
a paisagem e depois a noite engoliria o cenrio. Ablon julgou sensato aproveitar a claridade para
investigar as folhagens -- ainda que pudesse enxergar no escuro -- e quem sabe encontrar uma
trilha. Buscava por um rastro especfico, por um aroma especial que reconheceria de pronto: o
da Feiticeira de En-Dor.


         Por todo o tempo at o crepsculo, Ablon vasculhou a mata, investigou as rvores e
farejou o ar, mas nada encontrou. Comeou a imaginar que suas suposies acerca da
necromante estavam erradas. A floresta era grande, mas, com seu olfato apurado, j teria,
seguramente, captado um cheiro to familiar.
         Cansado de procurar, o renegado fez uma pausa e sentou-se sobre a raiz protuberante de
um grande roble de casca vermelha. Foi ento que, subitamente, um fenmeno fabuloso teve
incio. Quando o ltimo raio de sol se ps, o tecido da realidade afinou, esticando-se como
borracha ao fogo. Imediatamente, o Anjo Renegado entrou em alerta e examinou o terreno.
Percebeu que, logo  frente, a membrana se rasgava, ao fim de um caminho atravs do qual as
copas das rvores se encontravam, dando forma a um tnel de galhos. Sem hesitar, o querubim
caminhou at l, alerta aos perigos que poderiam estar  espreita na penumbra.
         Mesmo com toda sua experincia nas questes espirituais e mundanas, Ablon nunca
tinha presenciado um evento de igual natureza. No sabia se aquele caminho levava a uma
armadilha, se era um convite, ou se a passagem se abria independentemente de sua presena.
No tinha idia para onde estava seguindo nem a sorte de criaturas que l encontraria. J no
tinha certeza se a feiticeira habitava aquela floresta.
         A cada passo, a esquisitice aflorava. Ainda meio confuso, o renegado seguiu pelo tnel
e, de repente, notou que as rvores do inverno se tornavam mais vivas, e suas folhas congeladas
ganhavam o calor do vero. Uma nvoa fina encheu o ar, trazendo o aroma das flores silvestres.
Sob seus ps, a neve derretera, e agora o anjo pisava em relva macia. Era quase noite, mas havia
luz, um fulgor azulado que emanava de cima, clareando o corredor florestal. Os animais, antes
escondidos, voavam, corriam e pulavam, indiferentes  passagem do andarilho. Uma cotovia
piou, e as cigarras cantaram.
         Uma lebre saltou no meio da passagem e, com olhos astutos, fitou o visitante. Ainda
deslumbrado com o espetculo fantstico, o querubim no se deu conta de que, naquela
expresso inocente, havia intenes resolutas. O animal disparou e desapareceu nas folhagens.
         Quando Ablon chegou ao fim da passagem, deparou-se com uma ampla clareira, muito
bela, flanqueada por carvalhos enormes. O cho era como um magnfico jardim, cheio de flores
coloridas e cogumelos vermelhos. Partculas de plen danavam no ar, e em um nicho uma poa
profunda guardava a gua que descia de um riacho. Uma abelha zumbiu, rondou o espao e
voou para cima.
         As brumas que enchiam a clareira se dissiparam, e foi com espanto que o renegado se
viu cercado. Por todos os lados, um grupo de seres incrveis o analisava, com faces mais hostis
que curiosas. Lembravam seres humanos, mas estavam longe de s-lo. Eram mais baixos e mais
delgados do que os homens comuns; as orelhas pontudas tudo captavam, e os olhos amendoados
desafiavam a mais profunda das trevas. A pele era delicada e alva, e o semblante, frio e in-
sensvel. Trajavam roupas e capas multicolores, de tecido finssimo. A maioria portava
esplndidos arcos de prata, com setas na corda, mas um deles segurava uma espada longa, de
um s gume. O celeste reparou ainda que as fmeas tinham dois pares de asas translcidas, tal
qual as liblulas.
         Quem eram aquelas criaturas? De onde saram? Como teriam surpreendido um lutador
to sagaz? Ablon no foi capaz de deduzir as respostas, mas compreendeu um fato chocante. O
tecido da realidade, de uma hora para outra, no mais existia. Mas como isso era possvel, se ele
estava preso ao mundo fsico?
         Lembrou-se de seu combate no bosque Tin-Sen. Recordou-se do momento em que
entrara no templo pago, deparando-se com os trs espritos antigos. O encontro s fora vivel
porque aquele ponto era um vrtice, onde os mundos fsico e espiritual se intersecionam. Esses
lugares, esses vrtices, vm sumindo a cada dia. So uma herana dos dias remotos, quando o
tecido no existia e os dois mundos eram unos. Em alguns raros locais, cheios de misticismo e
magia, os vrtices continuam a existir --  a banalidade dos homens que os destri.
         Aqueles humanoides eram figuras etreas, e Ablon concluiu que s podiam ser...
         -- Meu nome  Mercurion, do povo das fadas -- anunciou o portador da espada,
arrogante. -- O que o traz aqui, celestial? Sabe que sua gente no  bem-vinda em nossos
domnios.
         O duende que o abordara era uma entidade espiritual e podia sentir a aura de Ablon, a
energia caracterstica dos anjos. No seria enganado nem persuadido. Mas o guerreiro no
procurava confronto.
         -- Minha gente? No sou bem um celeste, Mercurion, sou um anjo renegado. Procuro
pela mulher que assustou os monges, a Feiticeira de En-Dor -- arriscou. Talvez a bruxa no
fosse Shamira, e a ele teria problemas. Como provaria que no era um espio?
         A figura de espada na mo fez um sinal para que os outros relaxassem os arcos.
         -- Voc afirma ser um celestial renegado -- quis confirmar, ainda cauteloso.
         -- Sou um velho amigo da feiticeira.
         Uma criaturinha, que de incio Ablon pensou ser um inseto, veio por trs e pousou em
sua cabea. Antes que pudesse afugentar o intrometido, o estranho animal decolou e levou
consigo dois fios dourados de cabelo do general.
         A figura pousou no ombro de Mercurion, e Ablon entendeu que no era um bicho
silvestre. Como nas lendas, aquela era uma fada pequenina, de asas azuis e vermelhas,
semelhantes s das borboletas. O corpo minsculo brilhava com luz prpria, como o ventre dos
vaga-lumes. Em uma atitude bizarra, a luminosa mastigou e engoliu o cabelo do intruso,
arregalando depois os olhos midos.
         -- O que acha de nosso visitante, Serena? -- indagou o chefe dos duendes.
         --  bonito -- retrucou a fadinha. No havia malcia em seu corao nem em suas
aes.
         -- E o que mais, alm disso?
         -- Tem um cabelo gostoso -- falou, deglutindo o ltimo fio.
         Com isso, estranhamente, os elfos se sentiram mais seguros e confortveis. O general
no entendia como aquela figurinha nanica podia ter tamanha influncia sobre as fadas maiores,
mas o fato  que Mercurion embainhou a espada.
         --  meu convidado, Anjo Renegado -- decidiu o duende, abrindo um sorriso. --
Como se chama?
         -- Ablon, dos querubins -- replicou, em meio  recepo surreal.
         -- Ablon, dos querubins... -- o outro repetiu, considerando a sonoridade do nome. -- A
Feiticeira de En-Dor  nossa hspede. Vou lev-lo at ela.
         Os guardas quimricos desmancharam o crculo e formaram uma fila.
         -- Hspede... -- Ablon pensou alto. --  como eu tinha imaginado.
         O anjo guerreiro perseguiu a trilha dos elfos atravs da floresta,  luz azulada das
rvores. O frio congelante do inverno no penetrava naquelas partes, s o calor do vero.
         -- Ela nos contou de voc, mas apenas superficialmente -- comentou o duende. -- 
uma das poucas humanas que nos conhecem de perto. A maioria dos homens vem destruir
nossas casas.
         -- Suas casas? -- estranhou. At ali, s vira mata fechada, e nenhuma choupana.
         Foi nesse exato instante que chegaram a uma segunda clareira, mais espaada, onde as
razes davam vida a robles ainda maiores. Buracos no tronco simulavam portas e janelas, por
onde saam e entravam seres fericos. Alguns voavam com suas asas de insetos, outros
escalavam o caule, e um grupo brincava e saltitava na grama. No meio da miscelnea de seres,
havia aqueles que se pareciam com os animais da floresta, mas a maioria das fadas era como os
seres humanos, porm em miniatura, e dotadas de caractersticas fantsticas. O Anjo Renegado
caiu em contemplao.
         -- Seu domnio  fascinante, Mercurion -- no encontrara tal beleza nem nos campos
do paraso. E existia tambm um tipo de sensao quente no ar, uma energia nica, revigorante.
         -- Em todo carvalho mora uma fada. Sempre que uma rvore morre, a fada morre
tambm. Por isso estamos indo embora deste mundo.
         Ablon continuou observando a clareira e, por um segundo, esqueceu-se de seus
compromissos, absorto em fantasia.
         -- Vamos -- chamou Mercurion, puxando o lutador pelo brao. -- O camir para a
feiticeira  por aqui.


                                    O LAGO DOS PUROS

         Anjo e duende rumaram por uma picada estreita, orlada por amoras, framboesas e
cogumelos pintados, e alcanaram um stio em que, fixada ao cho, havia uma tenda de seda,
com uma das lonas aberta. No interior, uma mulher, sentada a uma mesa natural de razes,
estudava pergaminhos e objetos mgicos,  luz amarelada dos vagalumes. E a seu lado, como
guardio do lugar, descansava um ser extraordinrio, de corpo longo e reptiliano, olhos de fogo
e dentes enormes. Era to grande quanto um leo, e a cauda duplicava a silhueta assustadora. A
pele estava protegida por escamas de cobra, e das costas nasciam duas asas escuras. O monstro
parecia os drages mitolgicos, to bem retratados nas esculturas vikings e nos desenhos dos
brbaros do norte.
         -- Feiticeira -- chamou Mercurion, e Shamira virou-se na hora. As pupilas da moa
brilharam ao perceber a presena de seu amigo celeste. Deixou tudo de lado e correu para
abra-lo.
         -- Ablon! -- exclamou, comovida. -- Nem vou perguntar como me encontrou --
brincou.
         -- Tive sorte desta vez. Os homens do mosteiro me ajudaram, e depois os duendes.
Posso me considerar um viajante afortunado -- sorriu.
         Shamira era uma bela mulher, mas ao crepsculo, naquela terra das fadas, o guerreiro a
achou ainda mais encantadora.
         -- E que roupas so essas? -- perguntou, reparando na cota de malha e no camiso que
usava, com a cruz da Igreja bordada no peito.
         -- S quis retribuir o favor ao sujeito que me guiou at estas matas.
         Entendendo que havia total cumplicidade entre os dois, o elfo resolveu ir embora.
Estava convencido de que Ablon no era ameaa.
         -- Vou deix-los  vontade -- e dirigiu-se ao general. -- A feiticeira conhece as trilhas
do bosque. Ela vai orient-lo.
         Quando Mercurion j se afastava, Ablon, ainda fascinado com a maravilhosa floresta
Vermelha e seus habitantes, achegou-se  amiga.
         -- Quem so essas criaturas? Que lugar  este, Shamira? Tudo  to belo, to rico, to
farto. Parece um sonho, embora eu raramente sonhe.
         Ela tambm estava encantada com o cenrio sublime.
         -- Voc j deve ter notado que estamos no centro de um vrtice. Com o adensamento
do tecido, essas reas sobrevivem como bolses, alheios ao mundo dos homens. J faz alguns
meses que venho estudando o povo das fadas. Mercurion e os duendes altos fazem parte da
corte dos elfos, e so os mais solenes. So os ltimos de sua espcie que continuam na terra. As
fadas e as criaturas quimricas so entidades espirituais.  medida que a membrana engrossa,
elas ficam mais fracas.
         A necromante apontou para o drago que repousava de olhos abertos dentro da tenda.
Estava atento, apesar de imvel. Muitos drages tm a habilidade de se conservar inativos por
dias, anos ou sculos. Por vezes, usam feitiaria para assumir a forma de blocos de pedra ou de
troncos de rvores, para que os seres humanos no os possam identificar.
         -- Gorigath foi designado como meu guardio durante o tempo em que estou no reino
das fadas -- continuou a mulher. -- Ele tambm  o ltimo de sua raa,  a cria caula de
Margath, um dos drages ancios, que morava nesta regio antes da chegada dos usurpadores
romanos.
         -- Ele no me parece muito ameaador, apesar de suas presas e garras.
         -- Os drages so como as fadas. So seres da natureza, de essncia etrea. Alguns
conseguem se materializar onde o tecido  muito fino, mas tais lugares so uma raridade hoje
em dia. Venha -- ela o puxou pela mo. -- Venha comigo. Vou lev-lo ao lago dos Puros.
         Sozinhos, Ablon e Shamira caminharam pelas rvores vermelhas, e toda a noo do
tempo lhes foi apagada da mente. De repente, o general sentiu o aprazvel aroma das framboesas
fantsticas, o cheiro mais gostoso que j provara. A fragrncia despertou seu paladar, e ele
identificou, no canto da trilha, um ramo da fruta. Separou o pomo do galho, na inteno de lev-
lo  boca, mas a feiticeira o impediu.
         -- No coma isso, a no ser que queira ficar aqui para sempre.
         -- Como assim? -- estranhou, largando a framboesa.
         -- O lampejo do pas das fadas fascina todos os sentidos, mas no  nada comparvel ao
paladar. Se voc foi preso  viso dos carvalhos, imagine o que aconteceria se experimentasse
os gostos fericos. Dizem que aqueles que provam as iguarias quimricas ficam eternamente
atados a este mundo.
         --  melhor no arriscar -- concordou.
         Terminaram o passeio  beira de um lago pequeno, sobre o qual flutuava a mesma
bruma gelada que cobria a primeira clareira, na entrada do bosque. Plantas aquticas se
levantavam da gua como dedos gigantes, e os sapos coaxavam sobre as vitrias-rgias.
         -- O lago dos Puros , assim como o corredor de rvores, uma passagem para dentro do
vrtice -- esclareceu a mulher. --Alm dele h uma sada da flor ta Vermelha, que s se abre
no crepsculo.
         -- E esta bruma?  to estranha, to fria.
         --  uma manifestao etrea. Marca os limites da rea compartilhada pele dois
mundos. Em breve, acredito, este vrtice desaparecer, e as fadas ficaro limitadas ao plano
etreo. Foi assim com a ilha de Avalon, que um dia podia! alcanada tanto por homens quanto
por elfos. Agora, s existe alm do tecido. Em uma tarde clara de vero, quando a membrana se
estica, os sensitivos aindal podem avistar o brilho de seus faris. Logo, at mesmo as luzes se
apagaro.
         -- E o que acontecer aos duendes?
         -- No sei. Provavelmente alguns, como Mercurion, ficaro aqui para sempre, vagando
pelo etreo, para ver as plantas morrerem, os rios secarem e a relva queimar. Mas a maioria
deles j regressou  Arcdia, que  sua dimenso de origem. L  sempre vero, e o calor nunca
fenece.
         --  uma histria triste -- admitiu o anjo. -- Foi por isso que veio para c? Para marcar
o curso final desta saga?
         -- Provavelmente sou a nica humana com quem eles ainda mantm contato direto. Sou
uma ponte entre o reino quimrico e o plano material. Os sacerdotes druidas, que adoravam os
elfos, foram exterminados pelos legionrios de Roma. E hoje a Igreja condena os ritos pagos.
Como as tradies clticas eram quase todas orais, no sobraram relatos sobre as fadas e sua
ligao com o povo primitivo.
         Ablon lamentou a tragdia daqueles pequenos, mas nem que quisesse poderia ajud-los.
Tinha tambm sua prpria misso a cumprir, e os querubins so obcecados pela concluso de
suas demandas.
         Shamira sentou-se  margem do lago, e seu semblante entristeceu-se ao encarar o
espelho noturno. O contentamento de receber o amigo se foi, e, em seu ntimo, lembrou que
ainda no sabia o porqu daquela visita.
         -- O que foi, feiticeira?
         -- Estou feliz em t-lo comigo, Ablon, mas tambm pressinto um grande vazio. Sempre
que voc vem at mim  para me alertar de um perigo, ou para me pedir algo absurdo. Qual ser
minha sina desta vez?
         O querubim entendeu a aflio da mulher, e ela estava certa em seus sentimentos.
Preferiu, ento, ir direto ao assunto, porque a espera s fazia prolongar a dor.
         -- Ao incio do outono, reencontrei um dos renegados, Yarion, Asa de Vento, nas terras
altas da Esccia. Juntos, achamos refgio e paz no Mosteiro de Saint Luke e l decidimos
iniciar uma busca ao redor do mundo, para reagrupar os renegados sobreviventes. Mas nosso
plano foi frustrado. Apollyon veio em nosso rastro e capturou Yarion. A seguir,
desmaterializou-se, com o renegado derrotado nos braos.
         -- Como ele fez isso? Pensei que os renegados estivessem presos ao mundo fsico.
Ainda que o malikis pudesse dispersar seu avatar, no poderia ter carregado um fugitivo com
ele.
         -- Tambm fiquei impressionado. No sei como ele fez aquilo, s sei que o
Exterminador levou Asa de Vento, certamente, para as masmorras do inferno, e estou
determinado a salv-lo. Mas no tenho meios de viajar ao Sheol, a no ser com o auxlio de um
portal.
         Shamira entendeu a vontade do amigo e por um momento no acreditou no que
pretendia.
         -- Voc tem idia do que est me pedindo?
         --  a nica que conheo que sabe manipular a magia e que tem conhecimento para
abrir a conexo espiritual. Meus poderes celestes no me permitem efetuar rituais mgicos.
Preciso de sua ajuda, Shamira.
         -- E o que tem em mente? Invadir o inferno, derrotar Apollyon, Lcifer e suas hostes e
em seguida libertar seu amigo? Mesmo que eu abra a passagem mstica, Yarion est fora de seu
alcance agora. Voc mesmo me disse certa vez que o Arcanjo Sombrio  onisciente em seus
domnios. Ele saber assim que voc puser os ps em seu reino. E vir afront-lo.
         -- Voc subestima meus poderes.
         -- No. Mais do que ningum, conheo seu valor e seus poderes. Mas nem voc nem
ningum poderia enfrentar tantos demnios. Alm disso, Lcifer  to forte quanto qualquer
arcanjo, e praticamente invencvel em seu territrio. Nem Miguel tentaria uma loucura dessas.
         -- Porque Miguel no tem amigos com os quais se preocupar.
         -- Isso no tem nada a ver com amizade. Nunca lhe ocorreu que talvez seja exatamente
isso que a Estrela da Manh quer? Atra-lo para seu territrio? Yarion pode ter sido s uma isca,
uma tentativa do Diabo e de Apollyon de arrast-lo para o inferno.
         O general olhou para baixo, com a mesma altivez que o tornaria, mais tarde, o cone de
um exrcito. Ele no acreditava na hiptese da feiticeira. No achava que o Exterminador
estivesse armando uma cilada para assassin-lo. Mas, por outro lado, a necromante tinha razo.
Seria improvvel que ele conseguisse sucesso em sua misso.
         Ablon aproximou-se com carinho da mulher, indignada com sua deciso suicida.
         -- Shamira, lembro-me de quando a conheci -- comeou, acariciando o rosto da moa.
-- Voc era apenas uma garota, mas nem por isso desacreditei de sua sabedoria. Vocs, mortais,
so divinos, talvez mais do que os anjos. Naqueles dias, quando a Torre de Babel penetrava nas
nuvens, revelei-lhe um segredo. No topo da montanha, contei-lhe sobre a maior ddiva dos
homens.
         Ela se emocionou ao reviver, em sua mente, as imagens e sensaes daquele tempo
remoto.
         -- O livre-arbtrio.  a grande ddiva da humanidade.
         -- Ainda que eu tente negar, sou um querubim, um anjo guerreiro. Minha casta
persegue a justia e no teme a morte. Se no completar minha misso, se der as costas aos
meus companheiros, morrerei lentamente. Minha aura continuar pulsando, mas toda minha
fora se apagar, e acabar tambm meu estmulo de vida. O que sobraria?
         -- Talvez a essncia humana que voc tanto procura -- rebateu.
         -- No devo repudiar o que sou, Shamira.  o mnimo que devo a meu Criador. Posso
ter sido renegado pelos arcanjos, mas no por Yahweh.
         Ela j havia tentado convencer o amigo de desistir de atitudes to insanas como aquela,
mas no conseguira. E no conseguiria, mais uma vez. A feiticeira era mortal e nunca
compreenderia a natureza celeste. S lhe restava aceit-la, sem jamais entender por qu.
         -- J prosseguimos com esperanas menores do que esta, no ? -- cedeu a mulher.
         E o guerreiro a abraou.


         No interior do vrtice da floresta Vermelha, ainda dentro do domnio das fadas, havia
uma ciranda de pedras que os antigos druidas usavam como palco de cerimnias. Ali, eles se
encontravam com os elfos e prestavam homenagem aos espritos. O crculo era um ponto
energtico, um lugar-chave para a passagem entre as dimenses. O tecido no existia, o que
facilitava aos sacerdotes a abertura de conexes msticas  Arcdia. Naquele templo ao ar livre,
Shamira no precisaria de rituais demorados para abrir o portal, mas s de uma palavra de poder
e de um desenho no solo.
         -- Necessito de uma mecha de seu cabelo -- explicou a mulher, oferecendo ao
guerreiro uma adaga ritualstica. -- Alguns fios bastam.
         Com a faca mgica, o querubim cortou a ponta do rabo de cavalo e a entregou 
necromante.
         O Anjo Renegado viu que a feiticeira traava no cho de terra, com o dedo, um crculo
mstico, decorado por runas antigas. No precisou de nenhum componente material que
comumente utilizava para abrir portais fora da zona das fadas, s do cabelo do anjo.
         -- Este  o Portal de Shammash -- avisou a moa. -- Ele vai acessar uma conexo aos
Campos da Morte, o mais desolado dos nove reinos do inferno.
Em seguida, proferiu as palavras secretas:
         -- Ia Uddu-Ya! Ia Russuluxi! Saggtamarania! Ia! Ia! Atzarachi-ya! Atzarele-chi-yu!
Bartalakatamani-ya kanpalZi Dingir uddu-ya kanpalZi Dingir ushtu-ya kanpalZi shtalZi
Daraku! Zi belurduk! Kanpa! Ia shta kanpa! Ia!
         Um segundo depois, o solo da rea ao centro da ciranda de pedras comeou a mudar. A
terra deu lugar a uma poa mgica, cuja superfcie ondulava como a gua dos lagos, ao ser
agitada pelo impacto de uma pedra. Os fios dourados do cabelo de Ablon foram engolidos e se
dissiparam no infinito. Alm do portal, o querubim divisou a imagem de um cu vermelho como
sangue, rasgado por nuvens negras e cinzentas.
         -- Agora o portal est ligado a voc -- esclareceu a mulher. -- No momento em que o
cruzar, ele se fechar daqui para l, mas o caminho de volta continuar ativo at que voc
retorne, quando ento a passagem desaparecer para sempre. Portanto, no aconselho que
demore. Os Campos da Morte so um lugar deserto, mas algum demnio errante poderia achar a
passagem e us-la como uma porta para a terra.
         Ablon fitou a amiga e agradeceu-lhe a ajuda com um sorriso amvel. Depois, caminhou
para a poa, ansioso por completar sua vingana e salvar o comparsa.
         -- Eis que o envio para a morte certa, general.
         -- No, Shamira. Uma vez, sob os ventos da aurora romana, eu lhe fiz uma promessa.
Nunca se esquea de minhas palavras.
         O calor da lembrana daquele beijo no rosto encheu o corao do casal, mas, no fundo,
a mulher estava triste, porque no acreditava no retorno de seu amado. Sempre esperou, um dia,
t-lo junto de si, mas agora o lanava  extino.
         O Anjo Renegado atravessou o portal, e a poa desapareceu.
         Shamira no o veria mais por um bom tempo.


                                  Os CAMPOS DA MORTE
         O Sheol, ou inferno,  uma das dimenses inferiores, localizada no recanto mais
obscuro do cosmo. H muitas outras dimenses como essa, mas nenhuma tem igual importncia
ao interesse da terra. Por milhares de anos, o Sheol foi to somente um buraco, um lugar vazio e
abandonado, at a chegada de Lcifer e de seus anjos cados. Desde ento, foi dividido em nove
reinos, controlados por nove duques, que preferem ser chamados de prncipes. No topo da
pirmide est o onipotente Arcanjo Sombrio, que a todos vigia e comanda. Ele  auxiliado de
perto por Samael, a Serpente do Paraso, que  tambm seu lugar-tenente.
         Os duques tm poder sobre seus domnios, que so, por sua vez, secionados em
inmeras provncias governadas por senhores demnios. Os combates entre as provncias e at
mesmo entre os reinos so constantes. No Sheol sempre h guerra, embora uma palavra de
Lcifer seja o bastante para paralisar qualquer conflito e estagnar os movimentos de tropas.
Esses embates so a principal causa do extermnio de demnios, o que, teoricamente, reduziria a
populao do inferno, no fosse o turbilho de almas malficas que chega s mos do Diabo
todos os dias. Em um lugar to terrvel, s os fortes resistem, e os poucos sobreviventes
ascendem na hierarquia infernal. Diferentemente do cu, onde os anjos so separados dos santos
e dos mortais que morreram como justos, no Sheol at mesmo o esprito mais insignificante 
aceito nas hostes malignas e, se for dotado de crueldade e malcia suficientes, pode galgar o
comando, chegando ao controle de uma provncia. Os duques, entretanto, so muito poderosos
para ser subjugados. So todos anjos cados, celestiais que lutaram, um dia, ao lado da Estrela
da Manh em sua legendria batalha contra o arcanjo Miguel.
         O portal abriu-se no cho, tal qual uma poa, sobre o solo cinzento de um vale srdido e
escuro. Dois paredes de pedra erguiam-se ao lado de Ablon, como uma passagem estreita. O
cu continuava rubro, sem sol ou estrelas. As cores, que eram to abundantes na terra das fadas,
ali variavam entre o preto e o cinza, dando um tom depressivo  paisagem. At o ar era pesado,
opressivo e ftido. Havia, em toda parte, um assustador cheiro de morte, e ao longe o renegado
escutou o lamento dos condenados.
         Escalou o paredo e chegou ao topo da pedra, para de l enxergar uma plancie imensa,
que se alongava at o horizonte. Ao centro da esplanada, o anjo avistou um abismo circular,
como um redemoinho no cho. Seu eixo afunilava-se at cair em uma negritude grutesca, em
um ponto onde nada havia, a no ser a solido infinita. Centenas de milhares de almas sem rosto
caminhavam em fila indiana e se jogavam, sem vontade, no poo abissal. No tinham energia
ou fora para reagir. Simplesmente aceitavam o destino que lhes fora imposto, de cabea baixa e
olhos passivos. Nem uma amarra os prendia, mas grupos de demnios com cara de caveira e
chifres de cabra chicoteavam os passantes. Do abismo, levantava uma fumaa que impregnava
todo o planalto.
         -- Os Campos da Morte -- exclamou o celeste para si mesmo. --  para onde vm as
almas dos inteis, dos suicidas, daqueles que desistiram da vida. Nem mesmo os demnios os
aceitam.
         Como no sabia que caminho tomar, o general seguiu em direo ao abismo.


         Aquele era o Abismo de Nimbye, uma passagem para o limbo, o vazio supremo entre as
dimenses, o territrio do nada csmico. Uma vez lanada ao limbo, a alma se perde para
sempre na completa e total desolao do universo e no pode ser resgatada. Passa a eternidade
boiando nas lufadas dos ventos msticos, consciente o bastante para no se abster do terror, mas
incapaz de resistir aos tormentos.
         Ablon subiu e desceu uma colina cinzenta, para no escapar  vista dos guardas, que,
com chicotes, flagelavam os condenados. Um deles percebeu a presena do renegado e logo
compreendeu que era um anjo, pelas emanaes de sua aura celeste. Mas o querubim no tinha
a inteno de fugir.
         -- Perdeu o caminho de casa? -- caoou o demnio, chamando a ateno de seus
companheiros. Tinham o corpo e o rosto cadavricos, mas olhos humanos. Da cabea brotavam
chifres contorcidos, e um fogo infernal ardia no interior da cavidade torcica.
         -- Senhores -- ele falou aos seus iguais --, temos aqui um camarada que vem l de
cima -- e apontou na direo do cu, fazendo aluso  morada de Deus.
         Cinco carrascos sinistros cingiram o forasteiro e empunharam seus chicotes em sinal de
ameaa.
         -- Quero que me levem ao castelo de Lcifer -- disse Ablon.
         -- Ao castelo de Lcifer? -- zombou. -- Mas voc nem nos conhece! Acho que temos
a obrigao de, antes, ensinar-lhe o protocolo, se quer visitar a corte do mestre -- e com isso
brandiu o aoite e o moveu na direo do querubim. Os outros tambm agitaram as armas,
excitados com a possibilidade de massacrar uma entidade divina, mas foi o tagarela quem
atacou primeiro.
         O flagelo assobiou e desceu sobre o renegado, mas com habilidade notvel ele agarrou a
ponta do chicote e o puxou para si. O demnio, relutante em largar a arma, foi lanado ao cho
com fora brutal. A mandbula esqueltica se partiu em dois ao encontrar uma pedra no solo. Os
guardas desistiram do assalto e recuaram, assustados. Projetavam uma aparncia imponente e
temvel, mas eram fracos e incapazes, por isso haviam sido delegados para castigar um bando de
almas apticas, que no reagiriam nem com mil golpes de espada.
         Chocadas com a determinao do anjo guerreiro, as entidades se preparavam para fugir,
mas o lutador se lanou sobre uma delas, prendendo-a sob a mira de um soco.
         -- No nos machuque -- implorou. -- Somos servos cumprindo ordens, s isso.
         -- Vocs so monstros covardes -- insultou, depois libertou a caveira. -- V embora
daqui! Avise ao Arcanjo Sombrio que Ablon o chama ao duelo, e que ele traga consigo
Apollyon, aquele assassino maldito.
         -- O Anjo Renegado, aqui? -- reconheceu o esqueleto. -- Tenha piedade, general,
piedade -- suplicou. O demnio estava sufocado de medo, embora o guerreiro nem tivesse sido
to violento.
         -- Est livre, baal.
         A casta dos baals  composta por adoradores da morte e da tortura. So anlogos aos
celestiais hashmalins, a ordem de anjos que controla a Gehenna.
         Os cinco diabos deram ao s pernas descarnadas e correram para alm das plancies,
deixando os espritos ao lu. No obstante, as almas dos mortos no desfizeram a marcha e
continuaram a se atirar no abismo, condenando a si prprios  solido infinita.


                             LILITH, A RAINHA DAS SUCCUBUS


         Ablon continuou a errar pelas plancies cinzentas e, de repente, no sabia mais quanto
tempo havia se passado. Um dia? Um ano? Cem anos? Ouviu um grunhido agudo ecoar na
esplanada e divisou no cu um animal de asas largas e compridas, como a dos pteranodontes,
um dos rpteis alados da era jurssica. O corpo era como lava esfriada -- negro, com veios
flamejantes delimitando sees na casca. No lombo sustentava uma mulher-demnio, de longos
cabelos ruivos e olhos azuis. A silhueta era perfeita, e a expresso, sedutora. O cheiro que
exalava era como o das fmeas no cio, que incitam os machos  fornicao. Guiava a montaria
com apenas uma das mos, e com a outra carregava um tridente afiado. No usava roupa
alguma, e a cauda pontuda era a nica coisa que a distinguia como um ser infernal.
         O monstro aterrissou a cinco metros do anjo guerreiro, e a demnia o abordou.
         -- Voc  Ablon, o Anjo Renegado -- afirmou.
         -- Sim. E voc, quem ? -- o querubim no a conhecia dos tempos em que era general
celeste, ento concluiu que no podia ser uma celestial cada. Todavia, sua aura era muito
poderosa para pertencer ao esprito de um humano mortal.
         -- Sou Lilith, a Rainha das Succubus -- apresentou-se.
         As succubus so mulheres-demnio que tentam os homens por meio da atrao sexual e
dos prazeres carnais. Habitam especialmente os domnios de As-modeus, o mais pervertido dos
duques do inferno. Lcifer tambm as usava para satisfazer seus caprichos e, dentre elas, Lilith
era sua principal cortes.
         -- Meu amo j sabe que est aqui e me ordenou que o escoltasse  sua presena. Disse
que aceita participar do duelo.
         -- E quanto a Yarion, o anjo renegado trazido para c antes de mim? -- perguntou o
general, preocupado com seu companheiro de armas. Teria chegado a tempo de salv-lo?
         -- A Estrela da Manh concordou em libertar seu amigo, se for o vencedor da disputa.
Mas se perder ser condenado ao crcere nos Tneis de Zandrak e  posterior execuo pelas
mos do Exterminador.
         Ablon sabia que no podia confiar no Diabo, mas, de todas as possibilidades terrveis,
aquela era a melhor. Se havia algum senso de honra em Lcifer, ele o estava pondo em prtica.
         -- Suba -- convidou a mulher, estendendo a mo. Mesmo desconfiado, o renegado
montou no ser voador, assumindo lugar no assento duplo da sela, logo atrs da sensual
condutora.
         -- Voc no  um anjo cado -- constatou o Primeiro General, ainda sem entender a
verdadeira origem de Lilith.
         A succubus apertou as rdeas, e o monstro esticou as asas, erguendo-se no ar. Uma
nuvem de poeira levantou-se no campo.
         -- No. No sou um anjo cado nem um esprito mortal, porque nunca morri realmente.
Sou uma entidade nica -- contou a rainha. -- Fui a primeira esposa de Ado, mas me recusei a
me submeter s suas vontades. Por isso ele me expulsou de sua casa, e passei a vagar pelo
mundo, at conhecer o arcanjo Lcifer, por quem me apaixonei. Entreguei-me quele belo
celeste, e em troca ele me concedeu a vida e a fertilidade eternas. Durante incontveis sculos,
fui seus olhos e ouvidos na Haled, e ento, depois da queda dos anjos rebeldes, o Filho do
Alvorecer me trouxe ao seu reino e fez de mim uma lder de casta.
         Ablon nunca tinha ouvido falar a respeito daquela figura demonaca e ficou perplexo ao
entender quanto ainda desconhecia dos infindveis mistrios do universo.
         -- E quanto a seu amor pelo Arcanjo Sombrio?
         -- O amor  uma tolice. Ele nos torna fracos, vulnerveis. O amor  uma iluso
passageira, fadada a terminar um dia. S os imbecis se rendem a tais sentimentos. O amor por si
 o nico amor verdadeiro, porque no fundo todos ns, homens, anjos ou demnios, somos
egostas ao extremo. Quando amamos algum,  porque assim nos sentimos felizes, e no o
contrrio.
         -- Sua viso  prpria de quem nunca conheceu de fato o amor, ou foi desprezado por
ele.
         O comentrio soou como uma injria aos ouvidos de Lilith, talvez porque nunca antes
algum lhe tivesse falado to sinceramente. Quem teria coragem de disparar a verdade  cortes
preferida de Lcifer? Por tal ousadia, ela teria esfolado qualquer um vivo, mas a naturalidade
com que o guerreiro se expressara a deixou sem ao. Os infernais a temiam e estavam sempre
bajulando-a, calculando as palavras e forjando mentiras para agrad-la. Na negritude de seu
corao, a monarca ainda guardava, escondida, a esperana de encontrar um amor duradouro.
         -- A busca pelo prazer individual  o verdadeiro sentido da vida. Pense nisso, renegado
-- retrucou. No estava disposta a dividir suas fraquezas. -- Quando voc brande a espada,
sente-se feliz, porque essa  sua natureza. Alguns encontram volpia no sexo, outros no poder,
outros na guerra. No fim das contas,  s isso o que importa: encontrar o prazer e a felicidade,
seja como for. As consequncias so secundrias.
         -- Discordo de voc, Lilith -- insistiu o lutador. -- O amor essencial reconhece o
respeito, no s por si mesmo, mas por todos aqueles que esto envolvidos. Por isso as
consequncias de nossos atos devem ser medidas.
         -- Um anjo renegado falando em medir consequncias -- ela riu com desdm. -- Se
voc agisse como fala, querubim, jamais estaria aqui -- replicou a satnica mulher, e Ablon
pensou que talvez ela estivesse certa. Se tivesse considerado mais longamente os sentimentos de
Shamira, no teria viajado ao inferno e posto a prpria vida em jogo.
         O general ficou um instante a pensar em tudo aquilo e preferiu no prolongar a
discusso. Suas idias divergiam dos argumentos de Lilith, e com aquela conversa ele s
conseguiria arranjar um novo inimigo. Fixou-se ento na paisagem, e do dorso do animal
avistou uma cordilheira de vulces, e depois dela um mar de lava. Acabavam de cruzar a
fronteira dos Campos da Morte, governados pelo duque Bael, o Infeliz, e adentravam o territrio
do odioso Alastor.
        -- Este  o caminho para o castelo de Lcifer? -- indagou o guerreiro.
        -- No. A Estrela da Manh o aguarda no vale dos Condenados, cujos lamentos das
almas ressoam por todos os reinos do inferno. L h campo aberto e espao suficiente para um
duelo to esperado.
        Ablon sentiu uma pontada de apreenso. S agora se dera conta do que estava por vir e
da magnitude do evento que convocara.
        Sem planejar, tomado pela raiva e pela sede de justia, havia desafiado o Arcanjo
Sombrio para um confronto. E no podia mais recuar.


                                 ABLON CONTRA LCIFER

         Lcifer tinha inmeros castelos e fortalezas no inferno, e mudava de residncia de
acordo com sua vontade e segundo suas necessidades polticas. Mais recentemente, a Estrela da
Manh havia se fixado em uma caverna sob o solo, no Vale dos Condenados, onde passaria a
maior parte do resto de sua longa existncia. A gruta, cheia de tneis e passagens, no era um
lugar luxuoso como seus outros palcios, mas estava de acordo com a magnificncia do grande
senhor infernal.
         O vale dos Condenados era uma plancie de propores colossais, delimitada, ao longe,
por dois paredes montanhosos. Ao sul da chapada, o enigmtico rio Styx, o mais clebre dos
corredores espirituais, passava defronte  caverna do Diabo e prosseguia seu curso,
desaparecendo logo depois. Embora o Arcanjo Sombrio nunca tivesse usado as trilhas fluviais
para cruzar dimenses, habitar  margem de uma via to importante era motivo de respeito e
admirao entre os nobres satnicos.
         O vale era o campo de punio mais central do Sheol, o grande terror para as almas dos
injustos. O solo estava coberto por vrias camadas de corpos humanos que, mesmo feridos, sem
braos nem pernas, ou atingidos por chagas, ainda se contorciam. O sofrimento desses
desgraados  longo e terrvel. Esto fadados a viver em dor e tortura por anos, at que se
cumpra seu perodo de condenao. S ento talvez tenham a chance de servir a algum demnio
menor e com o tempo galgar a hierarquia, tornando-se eles prprios demnios. A grande
maioria desses infelizes, contudo,  prontamente eliminada, ou retorna ao vale, para mais alguns
milnios de aflio.
         Montado no monstro alado, s costas de Lilith, Ablon avistou o vale dos Condenados.
Ao redor da caverna, notou uma multido de demnios, de todos os tamanhos e tipos, que para
l fora assistir ao duelo. Mas no encontrou seus principais inimigos: Lcifer, a Estrela da
Manh, e Apollyon, o Exterminador.
         -- Chegamos -- indicou a succubus.
         -- Sim, mas onde est o Arcanjo Sombrio? E seu capanga?
         -- Esto a caminho -- ela no chegou a aterrissar a fera voadora, mas desceu em
rasante. -- Pode saltar agora.
         Ablon preparou-se para pular, mas antes a rainha avisou:
         -- Tenha cuidado! O Filho do Alvorecer  traioeiro at mesmo em suas tcnicas de
combate. Esteja pronto para o pior.
         E, sem responder, o general saltou para o campo. Naquele oceano de mentiras e
mentirosos, no sabia em quem confiar, e preferiu no dar ateno s palavras da succubus.
Independentemente do que acontecesse, o lutador agiria por seus prprios mtodos. Lilith, por
sua parte, dizia a verdade. Era uma entidade sdica e maldosa, mas, no percurso daquela curta
viagem, sentira pelo anjo guerreiro algo que nunca antes havia provado. Era um sentimento
inebriante, muito mais forte que o fogo do prazer e do sexo e muito maior que a paixo que uma
vez cultivara pelo Arcanjo Sombrio. Com uma nica frase sincera, o querubim exercera sobre a
mulher-demnio um formidvel deslumbre, que ela no esqueceria jamais. Sempre estivera
cercada por inimigos e criaturas vis. Seus aliados a usavam, ou a agradavam em prol de seus
interesses pessoais.
         A montaria voadora subiu novamente, e a sombra do monstro se perdeu nas nuvens
negras, levando consigo a sensual condutora. Com a agilidade de um gato, Ablon rolou sobre o
solo e recobrou a postura a poucos metros da hoste que o aguardava, ansiosa. A esplanada
estava lotada de espectadores dali at a caverna, mas o celestial sabia onde encontrar o seu
verdadeiro oponente.  medida que caminhava rumo  gruta de seu traidor, a turba abria
caminho, espantada com a coragem do anjo guerreiro. Os infernais tinham ouvido histrias,
relatos sobre um general querubim que desafiara o arcanjo Miguel. Quem, seno o Senhor do
Sheol, poderia det-lo?
         Foi ento que,  sua frente, abriu-se um longo corredor animado, ladeado por demnios
de todas as castas. Ao fim da trilha, Ablon visualizou, finalmente, seu adversrio.


        Lcifer no carregava espada ou armadura e vestia apenas uma tnica clara, como a dos
serafins. O rosto limpo e jovem simulava sua antiga aparncia, de olhos azuis e loiras melenas
tranadas. A seu lado, armado com a Fogo Negro, estava Apollyon, fora da linha de combate.
Este, por sua vez, tambm tinha asas, mas no as exibia, como seu chefe.
        Ao longe, sobre uma pedra, dois duques, Asmodeus e Orion, os mais razoveis dos
prncipes macabros, observavam impassveis o encontro, com diablica elegncia.
        -- Vai ser um massacre -- exclamou Asmodeus, confiante na vitria de seu amo. Mas o
Rei Cado de Atlntida ficou em silncio, apenas observando os movimentos do desafiante, que
concentrava nos punhos a Ira de Deus, enquanto os observadores se afastavam.
        No campo, Ablon ergueu-se como um predador. Lcifer, contudo, nem sequer tomava
posio de batalha. Que trapaa estaria aprontando?
        -- Ablon, o que est fazendo  uma loucura -- surpreendeu a Estrela da Manh,
iniciando um dilogo. -- Espera mesmo poder me vencer?
        Mas, em vez de replicar uma resposta, o glorioso general retrucou com um sorriso
determinado, que fez at mesmo os duques congelarem de medo,  exceo de Apollyon. Com
aquela expresso resolvida, ficava claro que ele no retrocederia. Se morresse, morreria feliz,
porque aquela era sua natureza. Se sobrevivesse, ainda que derrotado, guardaria consigo a
experincia de enfrentar um arcanjo, ou algum com similares poderes. No era para isso que
vivia -- para lutar?
        -- Peo que reconsidere -- insistiu Lcifer, com falso ar de preocupao paterna. --
Desista deste duelo.
        -- Eu o farei, se me entregar Yarion, Asa de Vento.
        -- Voc me pede o impossvel, general.
        Ablon no estava mais disposto a deliberar. Sem mais delongas, acelerou em carreira,
vencendo os cinquenta metros que o separavam do Anjo Cado. Saltou alto, com a Ira de Deus
incendiando-lhe os punhos, e desceu para espancar o inimigo.
        Mas, enquanto mergulhava no ar, um evento inesperado tomou forma. O corpo delgado
de Lcifer foi objeto de uma transformao instantnea e assaz assombrosa. Em uma frao de
segundo, o Arcanjo Sombrio cresceu em tamanho, convertendo-se em um ser monstruoso. A
pele engrossou e os msculos saltaram, enquanto as pernas se moldavam em patas de cabra. Das
mos brotaram garras, e uma cauda enorme apareceu, no mesmo momento em que o rosto
macio se convertia em uma carranca satnica, com chifres negros e presas vermelhas.
        Surpreendido pela dantesca metamorfose, o renegado perdeu a preciso do soco, que
reduzidos instantes atrs mirava o rosto pequeno de Lcifer.
        Aproveitando-se da hesitao do querubim, a Estrela da Manha, agora um demnio de
trs metros, baixou a cabea, levantando o traseiro para empreender uma manobra ousada.
Chicoteou com o rabo, e a cauda peluda enroscou-se em volta do corpo do general, que descia
de seu pulo. No assalto seguinte, Lcifer contraiu o membro crescido, de tal forma que o Anjo
Renegado no podia mais se soltar. Com fora espantosa, a fera arrojou o inimigo, que se
espatifou com as costas no cho, ferido e atordoado. Depois, mais uma rabada o imprensou
contra o solo, e as investidas seguintes arrancaram-lhe sangue e esfolaram-lhe a pele, deixando
a carne  mostra. A dor era tanta que mesmo o vigoroso general no pde mais se mover. A
energia dos msculos sumira com a perda de sangue, e a potncia da aura fenecia. Ainda assim,
teve foras para virar o rosto, s para arrostar o agressor.
         -- O Diabo tem muitas faces -- rosnou a fera gigante, justificando a amarga surpresa.
Falava com uma voz nada suave, to grossa quanto o rugido de um leo. -- Seus sonhos de
triunfo so to efmeros quanto a concluso deste duelo, general.
         Semiconsciente, o celestial lembrou-se do que Lilith dissera, sobre as tticas insidiosas
de Lcifer. A triste verdade era que, por mais habilidoso que fosse, Ablon no era preo para a
Estrela da Manh. No chegara, pelo menos ainda, aos ps dos arcanjos, figuras supremas e
admirveis, que justamente por isso governavam o universo.
         Em poucos segundos, o Anjo Renegado estava inteiramente derrotado.
         Nesse momento, o maldoso Apollyon aproximou-se de seu mestre, com a Fogo Negro
nas mos. Os olhos de Orion estremeceram ao ver que o Exterminador erguia a lmina e a
dirigia ao pescoo de Ablon, pronto para execut-lo com uma s espadada.
         Quando desceu a arma em sua trajetria mortal, Lcifer deteve-lhe o pulso.
         -- No! -- ordenou. -- O Anjo Renegado no morrer como mrtir. A sentena j foi
determinada -- e ento cravou as garras nos braos de Ablon e o ergueu para a multido
agitada. -- O lder dos renegados ser levado aos Tneis de Zandrak, onde ser torturado por
duzentos anos seguidos -- e dirigiu-se ao Exter-minador, em particular. -- Depois disso, ter
permisso para execut-lo.
         Assim, o Primeiro General, que mal podia falar, foi arrastado por um bando de inteis
esqueletos-demnios para um tnel malcheiroso, sob o clamor ensurdecedor dos espectadores,
que ovacionavam o triunfante Senhor Infernal.
Um dos esqueletos chifrudos, o mesmo que Ablon submetera nos Campos da Morte, comentou
com um dos comparsas:
         -- Devamos ter acabado ns mesmos com ele no Abismo de Nimbye -- disse, como se
pudesse enganar a si prprio.
         -- No -- retrucou o outro, dando continuidade  farsa. -- Foi prudente deixar a glria
para nosso adorado senhor, embora eu deva concordar que no teramos problema em derrotar
este rato.
         -- De fato -- concordou um terceiro, enfiando o celeste para dentro do tnel.


                                 PRISIONEIRO EM ZANDRAK

         Abaixo do vale dos Condenados, sob o solo, havia um descomunal emaranhado de
tneis, que se estendia para muito alm das montanhas, superando em mil vezes o territrio do
vale e alcanando uma profundidade incalculvel. Esse lugar subterrneo -- os Tneis de
Zandrak -- era o lar dos baals, a casta infernal dedicada  tortura e ao tormento. Quem reinava
em Zandrak era o demnio Balor, um abominvel carrasco e executor, cuja mente perversa era
capaz de formular interminveis tticas de sofrimento.
         Apesar de seu grande poder, Balor no era um anjo cado, e a histria de sua ascenso 
um exemplo de sucesso entre os espritos corrompidos. Sua trajetria  uma mistura de
crueldade insana e sorte titnica.
         Balor uma vez fora um homem mortal, que vivera na Irlanda durante o sculo VIII a.C.
Guerreiro respeitado e feroz, era o chefe de uma das primeiras tribos celtas, um povo que
habitava a Europa Ocidental antes das invases romanas. Mas uma profecia marcaria seu
destino. Certa vez, um druida lhe contou que ele seria morto pelo prprio neto, por isso Balor
trancafiou sua nica filha, Ethlinn, em uma torre de pedra, para impedir que a moa se casasse e
desse  luz seu assassino. Nesse meio-tempo, envolveu-se em incontveis batalhas, sempre
cercadas de fereza e barbrie. Em combate, perdeu um dos olhos, o que aumentou ainda mais
sua presena e carisma.
         Os conflitos prosseguiram, at que o heri Cian libertou Ethlinn do crcere e desposou a
donzela. Dessa unio nasceu o menino Edan. Quinze anos depois, pai e filho partiram para a
guerra das tribos. No calor da peleja, Edan matou seu av Balor com uma lana que lhe
perfurou o olho saudvel, vingando assim o aprisionamento da me. A fria no corao do chefe
persistiu mesmo aps sua morte e, acredita-se, foi essa raiva que o consagrou no Sheol.
Rpidamente ascendeu na rgida ordem dos baals, tornando-se um modelo para seus iguais e
depois um lder admirado, superando seus rivais por meio de violncia e intrigas. Para acalmar
seu dio enlouquecido, Balor passou a torturar e a mortificar todos os condenados lanados aos
tneis, em suas cmaras de dor nos calabouos de Zandrak.
         A aparncia desse furioso infernal  como a de um gigante, alto como dois homens
comuns e gordo como trs ursos selvagens. O abdome dilatado, sempre  mostra, vive sendo
acariciado pelas enormes mos. No centro da fronte sustenta apenas um olho, grande e negro, e
a boca imensa est sempre babando fluidos gosmentos. Uma cabeleira ftida, suja como lodo,
escorre at a altura dos ombros.
         Balor recebeu Ablon com satisfao especial e garantiu a Lcifer que se dedicaria
inteiramente  rotina de punio. O Anjo Renegado foi carregado s masmorras e preso por
correntes  parede de uma cela escura e gelada, no poro mais profundo do inferno. A cada dia,
Balor o chicoteava mil vezes, at a pele rasgar, e depois deixava o corpo sarar, para uma nova
sesso de torturas.
         E assim prosseguiu o tormento, por duzentos longos anos, durante os quais o querubim
no teve descanso e s conheceu dor e humilhao.
         Dias antes da data marcada para a execuo, Apollyon enviou um presente a Ablon, e
Balor permitiu que o prisioneiro manuseasse o pacote. Quando o celestial abriu o saco, um
objeto rolou pelo cho.
         Era a cabea de Yarion, Asa de Vento.


        Na vspera do dia da execuo, Ablon foi deixado em repouso por um dia inteiro, para
que conseguisse se recuperar e andar a caminho do cadafalso. Sua alta resistncia fez com que
os msculos sarassem depressa, embora as costas continuassem lanhadas e sangrentas. As
correntes que o prendiam  parede eram muito resistentes para ser partidas e s se abriam com a
chave certa, que era guardada pelo prprio Balor.
        O baal largou o renegado sozinho por um instante, mas voltaria em breve  cela. A
partir daquele ponto, no alimentava mais esperanas de salvao, mas um outro algum lhe
emprestaria a esperana, no momento mais negro.
        Ablon conhecia o itinerrio de Balor e estranhou sua demora. J devia ter voltado,
porque ficava sempre a vigi-lo, mesmo quando no o torturava com o chicote afiado. Por isso,
quando a grande porta da cela se abriu, deixando entrar a luz das piras de fogo, o celeste
estranhou ao ver que o recm-chegado no era o gigante caolho. Enxergou a silhueta de um
demnio s um pouco mais baixo que ele, de corpo atarracado e olhos vermelhos. Quando se
aproximou da claridade, percebeu que tinha asas despenadas, garras retradas e mancava de uma
perna, situao que o obrigava a se apoiar em uma bengala. A pele era de um moreno claro, e o
cabelo e a barba, de um preto profundo.
        Aquela era a aparncia espiritual de Orion, o Rei Cado de Atlntida.
        -- Voc no est nada bem -- exclamou o atlante, reparando nas costas rasgadas de seu
amigo. A visita era um presente agradvel, independentemente das repercusses futuras.
        -- J estive muito pior que isso -- respondeu o guerreiro, que no era dado a lamentos.
        -- Eu sei.  por isso que estou aqui.
        -- Sei que veio se despedir de mim e talvez prestar um ltimo adeus ao nosso glorioso
passado, mas nossos sonhos acabaram, velho amigo.
        -- Despedir? -- o satanis sorriu, indiferente ao fatalismo.
        Lentamente, Orion deslizou pela cmara fria e estacou bem perto do prisioneiro,
esticado por correntes que lhe encerravam os punhos.
        -- Quem voc pensa que , Anjo Renegado? Acha que  uma entidade comum, mais
um celestial a vagar pelo universo criado por Deus? -- e cabeceou uma negativa. -- No...
        Voc  o lder dos renegados,  um smbolo, um cone.
        O demnio virou o rosto, e Ablon percebeu que seus olhos se enchiam de lgrimas.
        -- Em Atlntida -- continuou Orion -- o povo contava histrias sobre picos lutadores.
A maioria dessas histrias foi inventada por mim e no passava de poemas onricos. Mas eu lhe
digo que, em meus sonhos mais grandiosos, tinha um modelo que guiava minhas legendas.
        O renegado levantou o olhar, comeando a entender do que se tratava.
        -- No sei bem o que voc se tornou, general -- concluiu o atlante. -- No sei o que 
realmente, anjo ou homem. Se fosse humano, terreno, andarilho carnal sobre a terra, eu diria
que  um heri. E, definitivamente, estou certo de uma s coisa: no  assim que morrem os
heris.
        Dito isso, para a completa surpresa do condenado, Orion sacou uma chave e com ela
libertou o querubim das amarras de ferro. Estava livre!
        -- Fuja enquanto pode, general! -- avisou o falido monarca. -- Seu tempo de escape 
limitado.
        -- E onde est Balor? -- quis saber o guerreiro.
        -- Eu no poderia me esgueirar pelos tneis e invadir esta cmara com um baal a
guard-la, por isso precisei de uma breve distrao.
        -- Distrao?
        -- Lilith, a Rainha das Succubus. Ela se disps a "entreter" o carrasco enquanto eu
descia ao calabouo. Somos ambos responsveis por esta pequena j conspirao.
        Lilith... a terrvel senhora das mulheres-demnio. Ablon nunca pensou que receberia o
auxlio de to vil criatura, nem sequer percebeu quo encantada ela havia ficado com ele. A
succubus, com efeito, apaixonara-se pelo anjo guerreiro e teria feito qualquer coisa para salv-
lo.
        --Vocs sero severamente punidos quando Lcifer souber o que planejaram -- alertou
Ablon. -- A Estrela da Manh  onisciente em seus domnios.
        -- Nem tudo ele pode enxergar, querubim -- rebateu, com sincera convico. -- Agora
corra! Lilith no segurar Balor eternamente.
        Mas Balor no era o nico obstculo que separava o general de sua completa libertao.
        -- No conheo o caminho para os Campos da Morte -- Ablon no era experto na
geografia do inferno. -- Como posso alcanar o portal e voltar  terra?
        A soluo estava na ponta da lngua:
        -- A fera alada de Lilith est estacionada fora dos tneis. Siga o cheiro da lava e
encontrar a sada de Zandrak. Ande pelas sombras, para que os inteis baals no consigam
perceb-lo. Cavalgue o monstro. Ele conhece o caminho para os Campos da Morte. Rpido! O
tempo se esgota.
        Sem demora, o renegado, mesmo ferido, correu pelos tneis -- passagens tortuosas,
lotadas de espritos-escravos, que mineravam enquanto recebiam o aoite dos demnios-
caveiras. Nenhum deles chegou a notar a furtiva passagem do prisioneiro celeste, que com
coragem de ferro errou pelas grutas, at encontrar o buraco que conduzia  superfcie.
        Uma passagem estreita, cavada na rocha, terminava em uma grande caverna, cuja
abertura acessava um stio ao norte do vale dos Condenados, j fora do territrio particular de
Lcifer, o Senhor do Sheol. O salo pedregoso estava repleto de sentinelas, atentas a cada
movimento no escuro. Ablon poderia enfrent-las, mas no queria alert-las de sua presena e
pr a perder sua fuga fantstica. Assim, enganou a todos, e com o caminhar sorrateiro deixou as
masmorras. L fora, encontrou a besta voadora e a dominou.
        Dois malikis que guardavam a passagem enxergaram, minutos depois, o monstro alado
cortando o horizonte.
        -- No  a montaria da rainha? -- comentou um deles.
        -- No h dvida, mas no me lembro de t-la visto regressando do subterrneo --
constatou o segundo. Lilith arrancava suspiros por onde quer que passasse e tomava a ateno
de todos os machos.
        Um terceiro demnio, mais poderoso, responsvel pela guarda geral da caverna,
aproximou-se dos soldados. O rosto parecia o de um leo negro, e segurava uma espada
curvada.
        -- No  a rainha, seus porcos imprestveis! -- vociferou, e os vigias se retraram de
medo. -- Aquele  o Anjo Renegado, que escapa de Zandrak no dia de sua execuo. O Filho
do Alvorecer vai querer minha cabea por isso. E, por enquanto, eu vou querer a sua.
        Com brutalidade animal, o cabea-de-leo brandiu a cimitarra e com um nico golpe
cortou o pescoo dos dois malikis. Em seguida, disparou o alarme.
        -- O Anjo Renegado fugiu! -- gritou, com todo o vigor.
        Uma centena de demnios partiu em perseguio, mas j era tarde demais.


                            LPIDES DE UM MUNDO PERDIDO

        No lombo da fera voadora, Ablon cruzou o mar de lava, as montanhas, e avistou o
Abismo de Nimbye, j nos Campos da Morte. Aterrissou perto da senda de rocha negra, onde se
escondia o portal. Felizmente, constatou o renegado, a passagem jazia intocada.
        Ainda sangrando, mergulhou na poa mstica, e no instante seguinte a esplanada
cinzenta havia sumido. Como num piscar de olhos, o ambiente transmutou-se em uma floresta
de carvalhos ressecados. Quando vislumbrou o cenrio, viu-se deitado no centro da ciranda de
pedras, um crculo de velhos menires, especialmente sagrados aos antigos druidas. Com os
pulsos inchados e o corpo ferido, percebeu aonde tinha chegado.
        Estava de volta  floresta Vermelha.


         Havia pelo menos cem anos que a floresta Vermelha perdera sua caracterstica
fantstica. Por muito tempo, suas rvores foram cortadas, e o mundo das fadas regrediu, at que
o vrtice que havia no corao do bosque desapareceu totalmente. A maioria dos duendes fugiu
para a Arcdia quando da construo da estrada, e os poucos que ficavam, por sua natureza
espiritual, no podiam mais se manifestar no plano fsico. Aos poucos, o esplendor do eterno
vero se extinguiu, e os carvalhos apodreceram por dentro. Os troncos sem vida agora se
levantavam aqui e ali, como lpides de um mundo perdido. A relva secara, e os animais
procuraram outros recantos para a procriao.
         Era incio de primavera, o ms que se segue ao degelo, quando a neve d lugar  lama e
a chuva inunda os rinces. Ablon no sabia a data correta, mas ao reparar nas estrelas concluiu
que haviam se passado exatamente 222 anos desde o dia em que Shamira abrira o portal.
         A passagem mstica se fechara finalmente, e ele estava, por enquanto, a salvo. Exausto,
entregou-se ao descanso, repousando entre as razes de um velho roble, que pareciam abra-lo
como a uma criana. Ficou a encarar as estrelas, at que o sol despontou no horizonte.
         Um vento frio soprou na floresta, trazendo o calor da manh, e um raio dourado refletiu
estranhas inscries na superfcie de um menir coberto de musgo. No eram desenhos celtas,
mas caracteres babilnicos, que de forma alguma poderiam ter sido gravados em uma rocha
britnica. Quando os celtas floresceram, Babel j tinha cado havia pelo menos mil anos!
         Ao examinar a pedra, decifrou o mistrio e no pde conter um sorriso. Aquelas
gravaes eram recentes -- no tinham mais de duzentos anos. No foram marcadas pelos
celtas ou por qualquer outro povo primitivo, mas pela Feiticeira de En-Dor, talvez por saber que
s eles dois entenderiam o significado. A mensagem registrada na rocha provava que a
necromante estava viva e inclume e que no perdera a confiana em sua promessa. Assim
estava escrito:


              "Meu querido amigo, tive que deixar a floresta. Por fim, os homens
                ganharam e iniciaram a construo da estrada. Despeo-me do
               mundo das fadas e me lano de volta  civilizao humana. Se um
              dia chegar a ler este aviso, estarei  sua espera no ltimo bastio do
                        Imprio Romano do Oriente: Constantinopla."
         Constantinopla, a Rainha das Cidades, a capital do Imprio Bizantino no ponto mais
oriental da Europa. Se alguma coisa ainda restara da glria dos csares, era Constantinopla que
a detinha. Centro da Igreja Ortodoxa e cerne da cultura grega, a cidade guardava, ao fim da
Idade Mdia, o saudosismo de uma poca de patrcios e imperadores, gravada em mrmore e
ouro.
         Mas o passado logo terminaria em cinzas, sob o testemunho do anjo guerreiro.


                         CONSTANTINOPLA  O FIM DE UMA ERA
         Depois de mil anos de trevas, a Idade Mdia chegava ao fim. Um novo poder
muulmano se levantava no leste e avanava para o Ocidente como um tigre faminto a caar sua
presa. Os turcos otomanos, sob o comando do sulto, ameaavam a Europa. Primeiro, invadiram
a pennsula Balcnica e derrotaram os cristos europeus que vieram libert-la. Depois de um
curto perodo de estagnao, durante o qual os islmicos combateram uma ofensiva mongol, as
guerras recomearam no oeste. Em pouco tempo, todo o Imprio Bizantino estava sob o jugo
turco,  exceo de sua capital, Constantinopla.
         Constantinopla, outrora chamada Bizncio, era uma cidade grega encravada no estreito
de Bsforo, at que, em 330 d.C., o imperador romano Constantino, o Grande, a transformou na
capital do Imprio Romano do Oriente, a segunda metrpole dos csares. Sua cultura era uma
ecltica congregao das artes grega, romana e crist. Seus cidados, cristos ortodoxos, no
respondiam ao papa e tinham seu prprio patriarcado. Consideravam brbaros os homens do
Vaticano. No apogeu, esse reino oriental estendia-se do sul da Itlia at a Sria e a Armnia,
quando ento os muulmanos apareceram no teatro da histria.
         Em 1439, o imperador de Bizncio, Constantino XI, reconheceu que a capital no
resistiria ao assalto dos otomanos. Em uma ltima tentativa desesperada, engoliu o orgulho e foi
a Roma propor a unio das Igrejas do Oriente e do Ocidente, esperando, assim, receber o auxlio
de que precisava para expulsar os invasores. Mas, apesar da unio, o monarca encontrou um
duplo fracasso. O povo, mesmo sofrido, no aceitou bem o acordo, e assim nenhum soldado foi
enviado para o leste. Depois, os turcos se acotovelavam nas muralhas, e dali em diante a queda
de Constantinopla era s uma questo de tempo. Em janeiro de 1453, o imperador recebeu novo
alento, com a chegada de dois navios genoveses sob o comando do clebre guerreiro Giovanni
Giustiniani, um general que assumiu o comando das tropas e lutaria at a ltima gota de sangue
pela cidade castigada. Mas o exrcito otomano era imenso. Calcula-se que o sulto Maom II
dispunha de trezentos mil homens contra nove mil defensores. Ademais, os agressores
contavam com artilharia, que aos poucos minava a resistncia das muralhas.
         Um tiro de canho foi disparado na noite, e Shamira despertou de seu sono. Era dona de
uma casa luxuosa, uma construo de trs andares, adquirida havia cinquenta anos de um
comerciante florentino. No incio, a manso contava com um squito de criados, mas agora
estava vazia. Alguns empregados fugiram da cidade sitiada, outros foram chamados ao exrcito
imperial.
         A necromante levantou-se e subiu as escadas em direo ao terrao, de onde tinha uma
viso ampla de toda a capital. De l, avistou a fumaa do lado de fora da cidade, e as rachaduras
que a artilharia turca abrira nas muralhas. Milhares de homens -- soldados profissionais e
pessoas comuns -- agrupavam-se em batalhes, com espadas na mo, aguardando o assalto. Os
tambores otomanos rufavam ao longe, enquanto seus guerreiros se preparavam para a batalha
final. Em meio  confuso, uma missa solene era celebrada na fabulosa Igreja de Santa Sofia,
com suas cpulas colossais e seus ngulos curvilneos.
         Na mureta do terrao, uma figura to silenciosa quanto o vento emergiu da penumbra.
Lentamente, aproximou-se da mulher e estacou a seu lado. Antes de se fazer notar, ficou uns
instantes a admir-la e a contemplar sua beleza. Reparou que a moa trajava um longo vestido
de veludo verde-musgo e tinha os cabelos negros penteados em trana. L embaixo, nas ruas da
metrpole, um cortejo deixava a baslica, e nele tomavam parte todos os habitantes civis de
Constantinopla.  frente, os sacerdotes entoavam salmos e carregavam imagens de santos que,
achavam, protegeriam a cidade contra a ofensiva noturna.
         -- A cruz e o crescente -- murmurou a figura. -- Um mesmo Deus, dois inimigos
distintos.
         Surpresa, Shamira virou-se de lado e quase no acreditou no que viu. Ali, diante dela,
erguia-se um homem alto, forte, de cabelos dourados e olhos cinzentos. A barba rala
engrossava-se em um cavanhaque inconfundvel, e ela no teve dvidas sobre a identidade do
visitante.
         --Voc... -- emocionou-se. -- O que aconteceu? Por todos os deuses, por que no
regressou  floresta? -- perguntou, com a preocupao tpica dos amigos sinceros. J comeava
a se acostumar com a idia de que ele tinha morrido, de que nunca mais o veria, mas no ntimo
de sua alma sabia a verdade.
         Enquanto a mulher se recuperava do choque, Ablon a envolveu com os braos, e ela
pousou a cabea sobre seu peito largo, feliz por sentir o calor de seu corpo e por escutar
novamente as batidas de seu corao.
         -- Ento, encontrou o meu recado gravado na pedra? -- sussurrou a necromante.
         -- Eu disse que voltaria -- ele sorriu, acariciando-lhe os fios escuros da trana. -- Mas
talvez tenha demorado um pouco -- olhou a cidade sitiada e espantou-se ao ver como o mundo
havia mudado em duzentos anos. Dois povos, devotos de uma mesma divindade, estavam
prestes a se matar em uma campanha nefasta.
         -- E a sua misso? Conseguiu resgatar seu amigo?
         Ablon abaixou a cabea, lembrando-se de seu fracasso, mas engolindo com glria a
amarga derrota.
         -- Fui vencido por Lcifer e aprisionado nos calabouos do inferno. Yarion morreu,
mas Orion, o Rei Cado de Atlntida, me salvou das masmorras.
         -- Orion  o seu anjo da guarda -- brincou. -- Mas como ele escapar da fria de seu
senhor infernal? Quando o Arcanjo Sombrio descobrir que o atlante o libertou, seu salvador
cair em desgraa.
         -- Espero que isso nunca acontea. Orion me pareceu bastante seguro, embora os
demnios comentem que a Estrela da Manh enxerga tudo o que acontece em seu reino. Mas
isso no muda nada. Mesmo se ele for punido, devo honrar seu sacrifcio e seguir minha vida.
         Uma segunda exploso, muito maior que a primeira, tomou a ateno do casal. Os
portes de Constantinopla cederam, e cinquenta mil turcos avanaram para as ruas. Ouviram-se
sucessivos tiros de canho, que encheram o ar com o cheiro de plvora. Nas avenidas, homens
de armadura completa cruzavam espadas contra as cimitarras de seus invasores. O clangor do
metal inundou os becos, como uma triste sinfonia de morte. Comeava a ofensiva otomana, que
prosseguiria por toda a madrugada.
         Por duas vezes os muulmanos foram repelidos, at que uma flecha perdida atravessou
a couraa de um italiano moreno. Para o infortnio dos defensores, era Giovanni Giustiniani, o
general do exrcito. O moral dos homens caiu, e Ablon e Shamira viram, do terrao, quando um
guerreiro de armadura reluzente tomou seu gldio e avanou pessoalmente ao comando. O
bravo no era ningum menos do que o prprio imperador.
         O soberano foi cercado e, depois de vencer cinco homens, uma lana perfurou-lhe o
pulmo. Constantino XI estava morto, e os turcos ocupavam a cidade.
         Percebendo a derrota, o pnico apoderou-se dos moradores, que fugiam aos milhares.
Uma multido correu para o porto, tentando embarcar nos navios ancorados. Outros procuraram
refgio no interior da Igreja de Santa Sofia, acreditando que seu carter sagrado os pouparia de
uma morte violenta.
         Nas praas e nas ruas, a carnificina comeava. Todos que fossem encontrados com
armas nas mos eram abatidos, fossem homens ou mulheres, ricos ou pobres. Enquanto isso, os
atacantes esquadrinhavam sistematicamente todos os bairros em busca de esplios.
         Um grupo de militares forou a porta da casa de Shamira, no primeiro andar.
         -- Vamos embora, Ablon -- disse a mulher, descendo as escadas. -- No vai sobrar
muito de Bizncio.
         Com um movimento calculado, Shamira apertou a mo do amigo, e juntos correram
para o poro. L havia uma passagem secreta que se abria na parede da adega.
         -- Espere -- o Anjo Renegado parou. --Voc vai abandonar tudo o que guardou nesta
casa?
         -- J transferi o que me interessava para uma manso em Veneza -- o teto tremeu com
um estrondo, e o general entendeu que a parede externa fora atingida por uma bala de artilharia.
-- O edifcio vai desmoronar! -- a feiticeira explicou, puxando o querubim para dentro do
tnel.
         Quando os dois se meteram no tnel, as fundaes do edifcio cederam, esmagando os
soldados que o haviam invadido. O caminho desceu e continuou para o norte, como um duto de
esgoto. No muito longe dali, a passagem subterrnea terminava em um alapo, que saa no
interior de uma gruta pequena, sob uma colina ao sul da cidade.
         Quando Ablon e Shamira deixaram a caverna, era quase dia. Antes de o sol nascer,
assistiram ao incndio que consumia os bairros mais altos. Os prisioneiros foram feitos escravos
e, pela manh, o sulto Maom II recitou a prece muulmana de quarta-feira no altar-mor da
Igreja de Santa Sofia. A cruz que encimava a cpula da baslica foi substituda pelo crescente
islmico, e os mosaicos cristos foram cobertos com cal.
         -- Eis que morre a ltima cidade romana -- murmurou o celeste, fitando as runas
fumegantes.
         -- Somos testemunhas da histria, meu amigo. Somos os observadores do mundo.
         E assim teve fim a Idade das Trevas, afogada na chacina do tempo.
         O anjo e a feiticeira ficaram juntos por mais alguns dias e, depois, como sempre, ele
partiu para longe. Shamira assumiu sua manso em Veneza, e Ablon caminhou para a Espanha.
         Era o princpio da Idade das Luzes.


                           A RESPOSTA DO ARCANJO SOMBRIO

        A fuga de Ablon dos calabouos de Zandrak deixou o inferno em polvorosa. Lcifer
ficou to irritado com o ocorrido que mandou executar todos os baals que vagavam por aquele
nvel da masmorra no dia do escape. Prendeu Balor e Lilith e ficou a pensar no que faria com
eles. Para um grande lder infernal, um deslize poderia gerar uma revolta dos duques, ento suas
aes tinham que ser calculadas, para que mantivesse o prestgio mesmo depois do fiasco.
        O que mais o intrigava era a nebulosa identidade do cmplice da mulher-demnio.
Algum certamente tinha aberto as amarras do renegado enquanto a succubus fornicava com o
carcereiro. Mas quem? Mesmo em sua oniscincia satnica, a Estrela da Manh no conseguia
enxergar o culpado. Como isso seria possvel, se ele era capaz de avistar mentalmente todos os
cantos de seu reino, at mesmo os mais obscuros? Tal situao, que punha em xeque no s sua
posio como lder, mas tambm sua confiana pessoal, o deixou arrasado.
        Com todos esses receios em mente, o Diabo estava desolado, mas manteve-se firme.
Mandou que Apollyon buscasse Lilith na priso e a levasse  sua presena, na caverna do vale
dos Condenados. Pretendia interrog-la, como uma ltima tentativa de descobrir o segundo
responsvel por aquele plano de fuga, que tanta complicao lhe trouxera.
        O Exterminador tirou as algemas da ruiva e a deixou de frente para Lcifer, em seu
trono de ossos. Recuou dois passos e conservou-se em alerta, com a Fogo Negro nas mos. A
espada do impiedoso infernal ardia em chamas negras, um tipo de flama mstica, distinta das
flamas normais, que consome no s materiais inflamveis, mas todo tipo de substncia,
orgnica ou inorgnica. O fogo negro leva  combusto pedra, metal, carne, concreto e qualquer
outro objeto que for posto em seu caminho. O fogo comum, conhecido pelos homens,  s um
tipo de ardncia universal -- h muitas outras, como o fogo verde, ou fogo de Xahra, e o fogo
azul, ou fogo das fadas, que s produz luminescncia.
        -- Lilith -- sibilou o Diabo, encarando a prisioneira com seus inquietantes olhos azuis
--, minha preciosa princesa-demnio... -- sussurrou, com doura malfica. -- Voc me causou
diversos problemas, garota.
         -- No so nada perto dos que j causou, Lcifer -- ela rebateu, sem remorso. O
fascnio que sentira pelo Arcanjo Sombrio, ao v-lo pela primeira vez aps ser abandonada por
Ado, murchara como uma planta ao sol. Agora ele era o tirano, o vilo, o ser mais deplorvel
de um reino decadente.
         Em resposta, o senhor infernal sorriu, mas em seu ntimo se contorcia. Aquele que fora
to belo quanto o sol, o preferido de Deus, acabava de levar uma estocada mortal.
         -- No era assim que voc me tratava, rainha, at bem pouco tempo -- ele olhou para o
lado, c sua mirada alcanou uma alcova escura, que fora palco de incontveis encontros erticos
entre o demnio e sua cortes. -- Quantas vezes j se deitou em minha cama? Quantas vezes j
a possu sob este teto? Quantas vezes j a levei aos prazeres supremos?
         -- E, apesar disso, continua a ter-me como escrava, Estrela da Manh.
         O rosto do Arcanjo Sombrio transmutou-se em uma mscara indignada. Com a
arrogncia e a malcia caractersticas de seu corao corrompido, ergueu-se de seu trono e
achegou-se  ruiva como se a devorasse por dentro. Sua presena era nica, sufocante, e a
energia de sua aura, assustadora.
         -- Escrava? E o que dizer de sua corja de servidores sexuais? Eu a acolhi quando foi
expulsa por aquele homem mortal. Eu lhe dei poderes incrveis e a vitalidade eterna. Eu a
presenteei com um reino no inferno. Sempre a recebi e a respeitei como a uma verdadeira
duquesa, coisa que voc nunca foi. E, em troca, o que recebo por minha generosidade  uma
punhalada pelas costas. Eu deveria saber que algum de origem to podre no poderia ser
confivel. Voc foi humana, Lilith. Nem se quisesse alcanaria a glria dos grandes.
         Ao relembrar a atitude de Ablon, ela recuperou a vontade e achou que aquele era o
momento de falar sinceramente. No se iludia, contudo, em pensar que o demnio a ouviria.
         -- At hoje, tudo o que voc me deu foi poder, influncia, riqueza e promessas vazias,
s isso. Nem se quisesse -- replicou, imitando as palavras do Diabo -- seria capaz de me
conceder aquilo que realmente desejo.  por isso que jamais saber quem abriu as portas de
Zandrak. O sentimento que nos motivou est alm de sua estreita percepo.
         Lilith chegara  gota-d'gua que fez o Arcanjo Sombrio explodir.
         -- Como ousa nivelar-se acima de minha cincia? Voc nasceu com a humanidade, e
em que se resume a breve existncia da espcie mortal? Quinze mil? Vinte mil anos? A histria
dos homens nada mais  do que um piscar de olhos se comparada  vivncia do universo, 
vivncia dos arcanjos,  minha vivncia. Fomos criados com a luz divina, na aurora dos tempos,
mas vocs... o que so? Pobres animais moldados do barro -- afirmou, e, com temor sem igual,
Lilith viu na face da Estrela da Manh um trao de nojo. Nunca, em todos aqueles milnios de
ntimo contato, ouvira seu amo cuspir aquele discurso desvairado, que nada tinha a ver com sua
propaganda humanista. Por certo, Lcifer havia expressado, sem calcular, uma emoo secreta,
e pela primeira vez a monarca soube que seu mestre dizia a verdade.
         Ao compreender sua falha, j era tarde demais. O Arcanjo Sombrio escorregara em suas
prprias injrias e agora s tinha uma coisa a fazer.
         Com um sutil movimento, inclinou a cabea, dando a Apollyon o sinal que tanto
esperava. Um golpe preciso foi lanado, e a Fogo Negro reluziu no ar, para encontrar em
seguida o pescoo de Lilith. A cabea da meretriz rolou para o lado, e o corpo tombou para trs.
To rpida foi a execuo que a cortes nada sentiu, nem teve chance de gritar ou arriscar um
ltimo suspiro. Seus restos mortais poluram o cho da caverna, enquanto chamas negras
consumiam pele, tecido e ossos. Em um minuto, o cadver da rainha reduzira-se a uma pilha de
cinzas.
         -- Infelizmente, como seu ex-marido, ela foi longe demais -- resmungou o Diabo,
esmagando com o p o montculo de carvo. -- Eis que Ado se tornou como um de ns,
conhecendo o bem e o mal; agora vamos expuls-lo do paraso, para que no tome tambm a
rvore da vida, e coma, e viva eternamente -- declamou, narrando um trecho do Gnesis. -- Eu
deveria obrigar todos os meus demnios a ler a Bblia.
         Introspectivo, Lcifer deu de ombros e recolheu-se ao trono de crnios.
         -- Poderamos ter feito muito pior do que execut-la com um golpe -- instigou
Apollyon.
         -- Em tais circunstncias, mante-la viva seria muito arriscado, mesmo sob tortura.
Fizemos a coisa certa, e agora este episdio est encerrado.
         -- Mas e quanto a Balor? O que faremos com ele?
         -- Enforque-o com seu prprio chicote, no mesmo cadafalso em que Ablon seria
executado. E faa questo de que todos os duques estejam presentes. Se preferir, voc mesmo
pode assassinar o maldito.
         -- O que eu quero  a cabea do renegado!
         -- Isso todos ns queremos, Apollyon, mas ser que seremos capazes de t-la?
         -- Do que est falando? -- rosnou o malikis, estranhando o comportamento evasivo de
Lcifer.
         -- Ablon me enfrentou em duelo, e h mil anos confrontou Gabriel. Embora tenha
perdido nas duas vezes, ele se manteve vivo. A cada batalha, o Anjo Renegado torna-se mais
experiente e mais poderoso. Brevemente, nem voc estar em condies de venc-lo. Se no o
matarmos logo... -- o senhor infernal deteve-se, imaginando a possibilidade de ascenso de to
persistente inimigo.
         -- Nunca serei vencido por um celestial adorador de animais -- grunhiu o
Exterminador.
         -- Assim espero, meu caro -- retrucou o Diabo, sem muita certeza. -- Assim espero.
         Embainhando a espada, Apollyon deixou a caverna, sem prestar nenhum cumprimento.
O Filho do Alvorecer retrocedeu  penumbra e ficou esttico, observando o que sobrara do
defunto de Lilith. Por horas divagou, tentando entender o que a impulsionara a cometer um ato
to absurdo, que a levaria  runa.




                              UM ESPIO NA LANCHONETE

ABLON,   AZIEL E SIEME CONSEGUIRAM ACERTAR a compra de uma caminhonete Chevrolet de trs
lugares com um taxista israelense, e combinaram de receber o veculo ao fim da tarde, em uma
praa no monte Sion, fora dos limites da Cidade Velha. S para prevenir, pediram ao vendedor
que pusesse dois tanques extras de gasolina no compartimento de carga, embora o renegado
soubesse que s precisariam de um para chegar ao Sinai. Enquanto esperavam, adquiriram, em
uma banca de jornal, um mapa rodovirio, e se prepararam para estudar o percurso.
         Pouco depois da hora do almoo, os trs anjos entraram em uma lanchonete perto do
souk central, o mercado ao ar livre na interseo entre os bairros rabe, judeu e cristo, em
Jerusalm. Apesar do feriado espontneo, durante o qual o centro histrico se transformara em
um campo de oraes, o souk continuava em atividade, embora reduzida. Alguns poucos
estabelecimentos abriram as portas, como restaurantes e farmcias, mas a maioria dos
comerciantes estava nas ruas, nas procisses, ou acolhida no interior dos templos, rezando pela
paz. No obstante as demonstraes de f, a cidade estava repleta de agentes de segurana,
policiais e soldados, preocupados com o curso da guerra e atentos a um possvel ataque das
milcias islmicas.
         Uma hora atrs, a pequena lanchonete rabe estava lotada, porque muitos peregrinos
vieram de longe para meditar em seus santurios sagrados. Encontravam-se na Cidade Sagrada
pessoas de Hebron, Gaza e Ramallah, e tambm de Tel Aviv, Eilat e Haifa. Agora, porm, o
movimento no restaurante cara, restando apenas alguns fregueses locais, que bebiam caf de
seus bules de bronze e fumavam narguils, os famosos cachimbos aromticos, compostos por
um fornilho, um tubo e um vaso cheio de gua, por onde o fumo atravessa antes de chegar 
boca.
         Os celestiais se recolheram  mesa mais reservada do salo, poludo por prateleiras,
tapearias, lustres e bugigangas que pendiam do teto. A fumaa obstrua a viso da sada, e os
fortes odores que vinham do souk confundiam o olfato.
         Ablon acomodou a seu lado o embrulho longo de pano, que escondia a Vingadora
Sagrada, e abriu o mapa sobre a mesa. Alm das estradas, o planisfrio mostrava tambm as
localidades, os acidentes geogrficos e as elevaes de terreno desde a Galileia at o Egito.
         --  aqui! -- reparou Aziel. -- E esta a montanha.
         -- A montanha de Horeb -- verificou o general. --  onde encontraremos a entrada
para a caverna.
         -- E o portal que procuramos -- completou o ishim. -- O Horeb fica ao norte do monte
Sinai, embora hoje os mortais acreditem que as duas montanhas so o mesmo lugar.
         Ablon traou, com o dedo, uma linha imaginria sobre o papel, analisando o trajeto.
         -- Partindo de Jerusalm, dirigiremos para o leste e depois dobraremos ao sul, seguindo
a Rodovia 90, que corta o deserto do Negev at Eilat, a ltima cidade israelense antes da
fronteira com o Egito. A partir de ento j estaremos na pennsula do Sinai e prosseguiremos
pela Estrada 66, que margeia o golfo de Acaba. Continuaremos por essa rota at os arredores de
Nuweiba, uma localidade costeira, e ento nos desviaremos para oeste, diretamente para o inte-
rior do deserto. A via asfaltada termina perto de um complexo monstico, o Mosteiro de Santa
Catarina. De l, avanaremos a p.
         -- Um monastrio foi construdo na base da montanha -- notou Aziel, de olho nas
indicaes.
         --  um stio de peregrinao, mas no deve ter mais do que uma dzia de monges e
talvez uma patrulha do exrcito egpcio.
         Sieme atentou para a variedade de cores no mapa. No sabia o que significavam.
         -- O que  isso? -- perguntou, apontando para uma faixa escura atrs do ponto que
indicava o mosteiro.
         -- Uma cordilheira -- explicou Ablon. -- Toda essa regio  extremamente
montanhosa, e o marrom forte indica os picos mais altos. H uma espcie de corredor rochoso,
uma garganta de pedra que teremos que transpor para chegar  trilha, que sobe rumo  caverna.
         -- Acha que teremos problemas na estrada? -- perguntou a serafim.
         --A julgar pelo contingente militar que vemos aqui, as rodovias devem estar
bloqueadas. Se for preciso, teremos que contorn-las. Agora que conheo a di-reo correta, no
vou me perder. S temo pelo atraso na jornada. Mas talvez voc possa nos ajudar com suas
habilidades psquicas.
         -- Se necessrio... Mas at meus poderes tm limites. No posso enganar um exrcito,
mesmo um exrcito de seres humanos, que em geral tm a vontade mais fraca do que os
celestiais.
         -- No acho que vamos encontrar grandes tropas, s postos de viglia. Se bem que a
fronteira sempre  uma zona conturbada, ento tudo  possvel.
         Aziel, que estava de frente para a porta, pressentiu uma estranha energia, uma emanao
confusa. Sem vacilar, levantou-se e avistou, do lado de fora, um homem grande e moreno, que
certamente, por sua aura malfica, no era um simples mortal. No conseguiu enxergar seu rosto
em virtude da intensa fumaa dos narguils e das quinquilharias penduradas.
         O instinto de sobrevivncia o dominou, e suas mos irromperam em chamas, que
percorreram todo o antebrao, prontas para ser lanadas. Aziel era um anjo do fogo e, embora
no soubesse lutar como os querubins, tinha as prprias alternativas de defesa -- e de ataque.
         Preocupado primeiramente com a segurana das pessoas sentadas s mesas, Aziel
preferiu no disparar uma rajada de flamas, que fulminaria o inimigo, porque a intensidade das
labaredas poderia provocar um incndio e destruir todo o prdio. Correu na direo da nebulosa
figura, preparado para estorric-la com suas divindades pirotcnicas.
         Mas, quando se encontrava a um passo de alcanar o espio e identificar seu rosto, um
barulho insuportvel o fez parar, e o baque repentino o obrigou a se apoiar em um poste. Ablon
e Sieme, ainda sentados, tambm escutaram o impacto e ficaram tontos, sem conseguir se
mexer.
         Era o soar da Quarta Trombeta!
         -- Ele se foi... -- murmurou Aziel, ainda sozinho, quando o rudo acalmou. Olhou ao
redor, procurou, vasculhou, mas no havia mais nenhuma entidade por perto.
         Um instante depois, o Anjo Renegado e a serafim atravessaram a porta, deixaram a
lanchonete e se apressaram em auxlio do amigo. Mas ele j estava novamente a postos.
         -- Estamos sendo seguidos, general -- advertiu o ishim, ofegante. -- Havia algum
aqui. Infelizmente no consegui perceber seu rosto nem sua real natureza.
         -- Eu sei. Senti a presena desse observador ao sair do aeroporto.
         -- Ento vamos encontr-lo! Temos que impedir que o espio se reporte a seus aliados.
Anjo ou demnio, ele  nosso inimigo.
         -- No, Aziel. No h tempo para persegui-lo. A trombeta que acabamos de ouvir s
encurta nossa misso. Veja -- ele mostrou aos colegas um curioso fenmeno, que s os seres
msticos e os sensitivos podiam visualizar. O tecido da realidade estava picotado por rasgos,
reconhecidos por sees translcidas na membrana, que oscilavam como a viso de uma
miragem.
         -- O tecido est se desintegrando -- entendeu Sieme.
         -- Temos at o alvorecer de amanh para atravessar o portal, porque s restam trs
trombetas para o Juzo Final, e pouco menos do que isso para a Batalha do Armagedon. Gabriel
j deve estar movendo suas legies.
         -- Mas se esse observador avisar seus comparsas sobre o nosso percurso, ns trs
poderemos estar caminhando para uma emboscada.
         O Anjo Renegado j tinha considerado tal ameaa.
         -- No temos escolha.


                                    A ESCOLHA DE SIEME

         A uma curta distncia a p a partir do Porto de Sion, que corta as muralhas do centro
histrico pelo sul, situa-se a colina que simboliza a Jerusalm bblica e a Terra Prometida. O
monte Sion, sagrado para cristos, judeus e muulmanos, mais parece uma ilha de tranquilidade
fora dos limites da Cidade Velha, com suas praas arborizadas e construes aprazveis. A
principal dessas edificaes  a Igreja da Dormio, coroada por uma torre alta e um domo com
quatro pequenos torrees. Planejada em estilo neorromntico, domina o topo do morro e ocupa
o local onde, supostamente, morreu a Virgem Maria. Foi no largo da igreja que Ablon
combinou de se encontrar com o taxista israelense, de quem comprara a caminhonete com a
qual pretendia vencer o deserto.
         Ainda reservada, Sieme observava a Cidade Velha do alto do monte, com uma sensao
de terror a agitar-lhe o esprito. J eram quase cinco horas da tarde, e o frio do deserto comeava
a subir a colina.
         -- Sinto uma presena sombria vagando pela Cidade Velha -- avisou a Mestre da
Mente, fitando o emaranhado de ruas no interior das muralhas. -- Algum ser de grande poder
est rastreando nossos passos, pronto para interferir em nossa viagem.
         --  aquele maldito espio que avistei mais cedo, perto do mercado -- exclamou Aziel,
ainda perturbado com o episdio no souk.
         -- No  s um espio -- corrigiu a serafim. -- Sua aura  to forte quanto a do nosso
general. Ningum com tamanho poder seria um mero enviado. Deve estar aguardando o melhor
momento para nos atacar.
         -- Ento vamos esperar que ele nos alcance, Sieme -- decidiu Ablon. -- Assim ao
menos poderemos combat-lo. Talvez o que ele queira seja justamente nos atrair para longe de
nossa jornada.
         A conversa foi interrompida pelo roncar de um motor. Um homem de meia-idade, pele
clara e cabelos pretos, um tanto flcido nos quadris, guiava um automvel de carga e estacionou
o transporte ao avistar os trs anjos. J tinha sido pago previamente, mas era um sujeito honesto
e no fugiria com o dinheiro, conforme Sieme havia constatado ao vasculhar-lhe a mente.
         O motorista saiu da boleia com muita pressa. Mostrou onde guardara os tanques de
combustvel e indicou os controles bsicos da caminhonete, explicando como dirigir a picape.
Depois foi embora, to rpido como chegou.
         Ablon assumiu o volante e chamou os outros a entrar. Girou a chave e deu a partida na
mquina, pousando a Vingadora Sagrada em um compartimento na parte de trs. Aziel
acomodou-se no assento, mas a serafim no se moveu. Permaneceu parada do lado de fora,
exposta aos raios poentes do sol.
         -- Vou ficar, general. Vou continuar em Jerusalm. No seguirei com vocs.
         -- O qu? -- reagiu Aziel, surpreso, mas Ablon apenas assentiu levemente com a
cabea. J havia previsto aquela atitude e sabia que no poderia impedi-la.
         -- Algum nos persegue, e essa entidade pode pr em risco nossa misso -- explicou
Sieme. -- Nenhum de vocs dois poderia ficar para ca-la, mas eu posso. Os rebeldes precisam
do Primeiro General, e s voc, Aziel, conhece a trilha para a caverna em Horeb.
         -- Est ciente dos perigos que correr? -- perguntou o general, mesmo sabendo que ela
j calculara o grau da ameaa.
         A mulher-anjo se aproximou do renegado e tocou-lhe o rosto. Deslizou o dedo pela face
sofrida, como os fiis fazem com a imagem dos santos. Tinha os olhos marejados e o corao
disparado. Nunca antes nenhum serafim, anjos calculistas e crticos, fora tocado to
intensamente pela emoo da despedida.
         -- Quando o encontrei h dois dias, naquele apartamento em runas, disse que estava
disposta a morrer por uma causa e dar a vida para proteger meu lder. Foi sabendo disso que vim
para a Haled, mesmo no conhecendo bem a humanidade e seus avanos histricos. Sei que os
serafins so conhecidos por sua retrica ardilosa, mas eu disse a verdade desde o princpio.
Jamais duvidei de seus ideais.
         Ao escutar o discurso, Aziel sentiu uma profunda dor no corao, por um dia ter
questionado a dignidade de sua parceira. Saiu instantaneamente do carro e a abraou forte,
puxando-a para junto do peito. Suas castas tinham nature-zas e personalidades distintas, mas,
por um minuto, pareciam to unos quanto gmeos de sangue.
         -- Voltarei  Cidade Velha -- ela explicou -- e procurarei por esse agente perverso. Se
no for capaz de det-lo, ao menos poderei atras-lo.
         Ablon pensou em proibi-la de ficar, em ordenar que continuasse com eles at o portal,
em obrig-la a esquecer aquele empreendimento arriscado. Mas devia, acima de tudo, respeitar
sua deciso e honrar sua escolha. Quantos sacrifcios ele mesmo j no tinha feito, e quantas
vezes terminara por superar desafios supostamente insuperveis? No... no podia censur-la.
Alm disso, sua ajuda seria preciosa. Qualquer contratempo que transtornasse o inimigo, ainda
que pequeno, seria valioso.
         -- Apesar de pertencermos a castas opostas, reconheo que nunca vi tamanha coragem
em um serafim -- admitiu o renegado. -- Desejo-lhe toda a sorte, Sieme, Mestre da Mente.
Lute com toda a vontade e com todo o corao, porque eu no esperaria menos de uma aclita
de Gabriel.
         -- Sou sua aclita, general. Ns, os novos rebeldes, vivemos para servi-lo, porque ainda
acreditamos na palavra de Deus -- disse, afastando-se do carro. -- Mesmo que os homens
tenham degradado o mundo, continuaremos a louvar a criao. Somos anjos, e esse  nosso
dever. At que o sol se apague e o brilho das estrelas fenea, at o ltimo fulgor do universo.
         E com isso Sieme gravou sua bravura nos registros infinitos da histria. Com um aperto
na garganta, Aziel retornou  cabine, e a caminhonete partiu. Por longos instantes, a Chama
Sagrada ficou vislumbrando a amiga,  medida que sua silhueta diminua  distncia.
         -- Eu a julguei mal, Ablon -- martirizou-se. --Algumas vezes, pensei que ela no se
empenhava totalmente para promover nossa causa. Agora, me perturba imaginar que tenha
resolvido ficar s para pr  prova suas virtudes.
        -- Sieme tomou a deciso dela, e no nos cabe inferir o motivo. Ningum pode culpar
os outros por suas escolhas. Se ela fez o que fez, foi por opo prpria. A Mestre da Mente
encontrou a maneira que lhe pareceu melhor para completar a demanda.
        Entristecido, o ishim deixou que seu olhar navegasse suavemente pela paisagem.
Dirigiam ento pelos bairros modernos da Cidade Sagrada, j longe do centro histrico, e quase
na entrada para a Rodovia 90.
        -- Quando nos reencontrarmos, no acampamento rebelde, espero poder desfazer nossas
antigas contendas -- murmurou o anjo do fogo.
        Como lder de guerra e veterano no campo de batalha, Ablon preferiu ser realista.
Embora no quisesse magoar o amigo, tambm no desejava alimentar falsas esperanas.
        -- No creio que a veremos de novo, Aziel -- retrucou, tomando a bifurcao que
levava  estrada costeira.
        Um silncio mortal imperou na boleia, e a Chama Sagrada divisou o monte Sion pela
ltima vez, enquanto o sol se punha no oeste.


                            MASADA, FORTALEZA DAS ALMAS

         -- A Europa morreu! -- dizia o locutor de uma rdio jordaniana. Havia algumas horas,
a Aliana Oriental, encabeada pela China, Rssia e Coreia do Norte, respondera  ofensiva
atmica que devastara Moscou lanando um mssil nuclear que arrasara o oeste da Europa. O
alvo primrio fora simblico -- Berlim, a cidade alem que sediara, havia dois anos, a
conferncia que fundara a Liga de Berlim, grupo de pases ocidentais liderados pelos Estados
Unidos e pela Europa, que fazia frente aos interesses da Aliana. O raio da destruio, todavia,
no se limitou  Germnia. Desde o extremo norte da Noruega at o sul da Siclia, nenhuma
nao se salvou.
         O aparente clima de tenso que se sucedera  detonao das primeiras bombas
convertera-se em completa histeria. No Canad e na costa oeste americana, ainda preservada, o
caos dominava as ruas. Milhares de pessoas se aglomeravam nos aeroportos, buscando refugio
nos pases neutros, e outras fugiam para o campo, s vezes a p, porque as estradas estavam
lotadas. Mas at mesmo nos pases de exlio, fora da linha de combate, a situao era perigosa.
Em muitas repblicas da Amrica Latina, o poder paralelo de faces criminosas e dos trafican-
tes de drogas aproveitara-se da desordem para efetuar saques em grande escala e atacar
instituies pblicas, rgos governamentais, delegacias de polcia e quartis do exrcito. Um
embate civil estourou, mergulhando as cidades em sangue e barbrie. Na frica, um maremoto
varreu as praias, afogando as localidades porturias e arruinando centros importantes como
Casablanca, Luanda e Cidade do Cabo -- uma trgica consequncia da onda de choque que
sacudira o Atlntico, provocada pela segunda grande exploso, que extinguira Nova York.
         Ablon desligou o rdio no instante em que a rodovia dobrava para o sul. Sob o anil do
crepsculo, Aziel pde contemplar a aridez do cenrio e a beleza estril do mar Morto, com
suas exuberantes salinas, que se alongava por dezenas de quilmetros a leste. A paisagem, um
tanto acidentada e infrtil,  recortada pela orla do mar -- que , na verdade, um grande lago, no
qual desemboca o rio Jordo.
         Uma grande lua cheia ilustrava o firmamento, iluminando a superfcie do mar. O aroma
inconfundvel do sal marinho chegava da praia, e Ablon viu, ao longe, uma grande montanha,
encimada por um cume amplo e reto. No topo, fazia-se visvel uma incrvel cidadela em runas.
         -- Aquela  Masada -- indicou o renegado --, a capital de uma seita judaica ameaada
pelo poderio romano. Em 73 d.C., quando a cidade finalmente caiu, depois de dois anos de
cerco, os defensores cometeram suicdio, para no entregar a vida aos invasores estrangeiros.
Hoje o pinculo  uma fortaleza de espritos.
         Em Masada, restavam os fantasmas, remanescentes de um grupo que jamais admitiu a
derrota e por isso continuava preso ao astral, incapaz de seguir para o cu. Como Masada, havia,
s margens do mar Morto, dezenas de outras cidades que pereceram da mesma maneira, ao
longo de milnios de guerras e catstrofes.
        E a mais clebre delas ainda estava por vir.


                                   O PORTADOR DA Luz

         No Sheol, os demnios e seus duques estavam perigosamente agitados. Apesar de
Lcifer ter garantido que todos tomariam parte na guerra e de ter ordenado que os nobres
infernais levassem suas hordas para o porto do Styx, ao soar da Quinta Trombeta, ningum
sabia ao certo o que aconteceria depois. Samael, o brao direito do Arcanjo Sombrio, ficaria
responsvel por revelar, na ltima hora, a ttica final da Estrela da Manh. A esse cronograma, a
reao dos senhores escuros no foi nem um pouco suave. Todos eles, sem exceo, odiavam
Samael, a quem consideravam um bajulador incapaz. E havia tambm a questo da enigmtica
ausncia de Lcifer, que aparentemente no participaria do combate direto -- caso contrrio,
por que delegaria um comissrio to detestado para falar em seu nome?
         Os exrcitos diablicos preocupavam-se, ainda, com a batalha propriamente dita. Aps
reunirem-se s margens do Styx, para onde iriam? Todos sabiam que as duas faces anglicas
-- a de Miguel e a de Gabriel -- se enfrentariam no plano etreo e lutariam pelo domnio da
Fortaleza de Sion. Mas como os demnios chegariam at o campo de peleja? O rio Styx  uma
via espiritual, que atravessa dimenses, mas s os misteriosos barqueiros conhecem suas rotas, e
suas embarcaes so, em geral, pequenas demais para transportar batalhes. Alm disso, quem
poderia pagar o preo pela viagem das tropas, que  sempre cobrado em forma de energia vital?
Se at o poderoso Amael, o Senhor dos Vulces, ficara arrasado ao entregar parte de sua aura
aos barqueiros, quem teria essncia suficiente para satisfazer os exigentes condutores? E se,
mesmo assim, fossem superadas as complicaes logsticas e as hordas conseguissem chegar ao
etreo, o que fariam em seguida? Esperariam que os dois lados se matassem ou se aliariam a um
dos partidos celestiais? Tal perspectiva, para os duques, era abominvel! Combater em
concordncia com qualquer uma das faces celestes seria um ultraje, j que eram inimigos
ferrenhos de ambas. Miguel expulsara os cados do cu, e Gabriel fundamentava seu cdigo nos
ideais semeados pela Irmandade dos Renegados, cujo lder, Ablon, era um dos maiores
oponentes do Arcanjo Sombrio.
         No obstante, os senhores escuros preferiram, por medo ou respeito, no contrariar seu
amo. Em seus reinos macabros, finalizavam os preparativos para o confronto, organizando e
movimentando as foras satnicas, agora que j havia ecoado a Quarta Trombeta.
         No vale dos Condenados, na caverna do Diabo, Lcifer esfregava as mos e aguardava
a concluso de seu plano. Auxiliado por seu lugar-tenente, Samael, ele vestia com averso sua
couraa dourada, uma armadura peitoral cujos contornos simulavam msculos bem definidos,
apropriados a um corpo delgado. Na cinta, fixava a bainha de uma espada de fogo, uma arma
comum aos arcanjos, mas proibida aos anjos normais.
         -- No to apertado nas costelas, Samael -- orientou o Filho do Alvorecer, enquanto o
ser reptiliano amarrava as tiras de couro que fechavam a couraa.
         -- Mil perdes, meu altssimo -- suplicou o rastejante, afrouxando as amarras. Lcifer
fez um movimento com as asas, desfraldando a tez de morcego que
compunha seus membros areos, deixando-as livres, fora do colete metlico.
         -- Confesso que me sinto pssimo nesta armadura, mas estou pronto a empreender uma
viagem solene.  uma boa ocasio para resgatar do ba este traje de gala.
         -- Vossa Majestade est lindssima! -- exaltou o auxiliar.
         -- Obrigado, Samael. Seus elogios engrandecem meu ego e animam meu esprito.
         Sozinho, Lcifer tomou sua espada de fogo e a retirou da bainha. Ergueu-a s vistas e
ficou a observar o magnfico instrumento. Tentou simular algumas manobras, mas golpeava
aptico, sem muita percia, ento recolheu a lmina, desinteressado pela arte da esgrima.
         -- E quanto a esta espada... -- comentou o Senhor do Sheol -- nunca a usei realmente
nem nunca a batizei, como fizeram meus irmos. Esta lmina conserva-se intacta desde o dia da
criao, quando meu Pai a forjou. Acha que eu deveria nome-la agora, na etapa final do
universo?
         -- Se assim decidir o meu amo adorado... -- replicou a Serpente do den.
         -- Vou cham-la de Raio da Aurora, um tanto condizente com seu esgrimista, a Estrela
da Manh. O que acha, Samael? Faamos com isso uma homenagem aos novos tempos, aos
novos dias de glria que nascero  concluso da Batalha do Armagedon, ao alvorecer de um
mundo de puro deleite e prazer. Um tributo ao retorno e ao princpio do cosmo!
         -- Suas palavras so to maravilhosas quanto sua aparncia,  Filho do Alvorecer! --
consagrou o miservel adulador.
         E a conversa seguiria morosa, no fosse a chegada de um terceiro personagem. Surgiu
das trevas o demnio Amael, figura estimada por Lcifer, por sua lealdade e dedicao. Em sua
forma espiritual, o Senhor dos Vulces tinha asas de fogo to reluzentes quanto a lava profunda
da terra. Vestia uma armadura completa, um tanto sensacional e faustosa, embora carcomida
pela ferrugem. O metal avermelhado dava forma a uma couraa gtica, de extremidades afiadas
e manoplas pesadas. No rosto moreno, muito parecido com os semblantes humanos, lgrimas de
fogo escorriam dos olhos e nunca paravam -- uma marca permanente de sua vergonha, do
remorso que ainda sentia por ter afogado Atlntida e Enoque.
         Amael ajoelhou-se na base do tablado do trono, sobre o qual o Arcanjo Sombrio
terminava de ajustar a placa de ouro.
         -- Meu fiel Amael -- felicitou-o o Diabo --, levante-se! Voc chega em momento
oportuno.
         Ainda sem encarar diretamente seu amo, o zanathus ergueu-se em postura pomposa.
         -- Trouxe-lhe isto, meu senhor -- disse o recm-chegado, estendendo ao mestre um
pergaminho enrolado. --  uma mensagem do duque Mammon, em nome de todos os outros
duques e senhores do inferno.
         A Estrela da Manh abriu o documento e o estudou com cuidado. Enquanto lia, seu
emissrio adiantou:
         -- Eles esto impacientes. Ainda no sabem se o tero  frente de seus exrcitos, nem o
que faro ao chegar ao porto do Styx.
         -- Eu disse claramente queles imbecis que seguissem as instrues de Samael, e eles
sabem disso! -- reagiu, ateando fogo  carta com a fora do pensamento. -- Mas tanto melhor.
O tormento da espera torna os guerreiros mais vidos pela batalha.
         E, com isso, terminou de assentar a armadura e dirigiu-se  Serpente do den:
         -- Samael... -- chamou.
         -- Sim, meu altssimo!
         -- Sua tarefa agora tem incio. V e faa como foi combinado. Eu e Amael cuidaremos
do resto.
         -- Seja feita a sua vontade, meu amo.
         E, com movimentos serpentinos, o demnio, metade homem, metade cobra, deslizou
por um buraco umbroso, deixando a presena do mestre. Um instante depois, o Arcanjo
Sombrio desabou no trono e fitou o melanclico Senhor dos Vulces.
         -- H tanto que fazer, meu nobre Amael.
         -- Se for de minha competncia ajudar...
         -- Ah, voc sempre foi to prestativo!  claro que sua fidelidade ser considerada, mas
h coisas que s eu posso fazer.
         A expresso de Lcifer mudou, desenhando um rosto entristecido e frustrado. Amael,
por sua vez, assustou-se, porque nunca -- nem ningum -- havia sido testemunha de to
aparente fraqueza.
         -- s vezes sinto falta de meu Pai -- confidenciou o Filho do Alvorecer. -- Tudo o que
eu queria era t-lo ao meu lado, era poder am-lo e ador-lo.
         -- Compreendo, meu amo -- murmurou o Senhor dos Vulces, estupefato ao notar um
fio de lgrima escorrendo pela face do Prncipe das Trevas.
         -- Voc sabe o que  ser Deus, Amael? Tem noo de que tipo de poder  esse?
Entende o que significa criar o universo com um piscar de olhos?
         -- No sei se estou  altura de respond-lo, meu senhor.
         -- Infelizmente toda criao exige um sacrifcio -- concluiu, enxugando as lgrimas e
retomando sua habitual atitude segura. -- E seu auxlio ser inestimvel, grande zanathus.
         -- Diga-me como posso ampar-lo, Estrela da Manha.
         O Arcanjo Sombrio levantou-se do trono e desceu do tablado.
         -- Voc conhece os barqueiros do Styx. Sabe como encontr-los -- no era uma
pergunta.
         -- Sim, j os contratei anteriormente, quando da ltima visita do Anjo Renegado ao
Sheol.
         -- Imagino ento que tais entidades sejam confiveis.
         -- Perfeitamente, meu amo, contanto que sejam bem pagas. Para as viagens, exigem
energia vital, o que me foi extremamente estafante. S h pouco recuperei a exata condio de
minha aura.
         O Senhor do Sheol encarou seu servo, com a mesma malcia que o caracterizava no
inferno.
         -- Como eu disse... Toda criao exige um sacrifcio -- declarou, e foi caminhando
para os tneis de sada da gruta. Amael o acompanhou. -- Mas no se aflija, meu amigo. J
demonstrou seu martrio. Tudo de que preciso  que me conduza a essas criaturas do rio.
         -- Vamos lutar contra as legies celestes, meu amo? -- indagou, tentando no parecer
curioso.
         -- Deixarei para divulgar minha deciso na ltima hora. De fato, muita coisa est
prestes a mudar com o Armagedon. Quando isso acontecer, aqueles que estiverem ao meu lado
sero privilegiados.
         -- Entendo, meu mestre.
         Juntos, os dois infernais ultrapassaram o umbral da caverna e tomaram o caminho de
ossos que terminava no porto de crnios, s margens do Styx.
         -- Eu sou o Portador da Luz, o Filho do Alvorecer, a Estrela da Manh. Sou o Eterno, o
herdeiro do Criador. Sou o brilho do sol e o fulgor infinito -- declamou o Diabo. -- Sou o mais
puro, o mais belo, o mais reto. Mas hei de subir ainda mais e consagrar meu nome.
         Quieto, o Senhor dos Vulces temeu pela sanidade de seu amo e pensou que talvez ele
no estivesse gozando de perfeito juzo, possivelmente pela carga de responsabilidade que
pesava em seus ombros, em um momento to crtico quanto aquele.
         Mas Amael estava errado.
         Lcifer no enlouquecera. Na verdade, esse era seu estado normal.


                           FRIA, MALDADE E SEDE DE MORTE

         J era quase noite quando Sieme desceu o monte Sion e regressou  Cidade Velha. Na
mente, guardava uma nica misso: encontrar e derrotar a fora sombria que vagava pelas ruas
estreitas e ameaava a segurana de seus companheiros, j a caminho do deserto. A serafim
tinha, portanto, a vantagem da surpresa, e sabia que deveria agir rpido, antes que o indecifrvel
agente descobrisse que Ablon e Aziel no estavam mais na cidade e decidisse segui-los. Para
tal, pretendia usar a si prpria como isca para atrair a enigmtica figura, afastando-a, assim, de
seus amigos e tentando venc-la em combate singular.
         Cruzando o Porto de Sion, ao sul do centro histrico, a Mestre da Mente penetrou no
bairro armnio e seguiu pela Rua Ararat em direo ao bairro cristo. Enquanto caminhava,
espantava-se ao ver que, mesmo ao cair do crepsculo, os fiis no deixavam os templos.
Notou, ento, que os habitantes locais punham velas acesas nas janelas, em um silencioso
protesto de paz e de repdio  guerra global.
         Ouviu uma melodia distante, um coro que recitava msicas crists, e perseguiu sua
origem at avistar a Catedral de So Tiago, uma das igrejas mais belas da Terra Santa. As
grandes portas de acesso estavam abertas e, no interior, iluminado por lamparinas de leo e
decorado com azulejos azuis, a serafim vislumbrou centenas de pessoas comuns que, de p,
dedicavam louvores a Deus. Percebeu, finalmente, que semelhante atitude se repetia em cada
santurio da velha cidade, sem distino de culto, e entendeu que aquela seria, para todos, uma
noite de viglia, seguida por uma madrugada de oraes em prol do fim do conflito, que j
devastara metade do mundo. Pouco letrada na histria humana, Sieme no compreendeu a ironia
da situao. Jerusalm sempre fora um barril de plvora, uma localidade em permanente
confronto, palco de episdios sangrentos e assaltos mortais, disputada por partidos rivais. Mas
agora, enquanto o planeta lutava, ela acolhia seus filhos, em honra dos mrtires e em defesa de
seus marcos sagrados. Muulmanos e judeus se abraavam e rezavam unidos pela paz mundial.
Deixavam as diferenas de lado, porque no eram mais inimigos, mas igualmente vtimas da
mesma catstrofe, que ameaava destruir no s sua vida, mas seus sonhos e crenas.
         A temperatura cara um bocado  sada do sol, e no cessava de esfriar,  medida que a
lua subia. Embora o movimento de pedestres tivesse se reduzido, os soldados do exrcito e os
guardas da polcia israelense continuavam patrulhando vias, alamedas e travessas, em seus jipes
blindados e carros militares. Volta e meia, um helicptero sobrevoava as muralhas, rondava at
o Domo da Rocha e depois retornava  base.
         Um dos pontos mais altos da Cidade Velha  a cpula alta da Igreja do Santo Sepulcro,
o magnfico templo erguido ao redor do suposto local do martrio, sepultamento e ressurreio
de Cristo. A construo  composta por um complexo de capelas, torres e ptios, administrado
por seis faces crists -- armnios, gregos, coptas, catlicos romanos, etopes e srios. Dentre
as edificaes, destacam-se duas abbadas principais: uma maior, sobre a rotunda que guarda o
tmulo de Cristo, e uma menor, o Domo de Catholikon, que desponta no nvel mais baixo do
telhado e cobre a nave central da igreja. A torre do campanrio, colada  entrada principal da
baslica, fica diante da Capela dos Francos, por onde ingressavam os cavaleiros cruzados nos
tempos medievais.
         Prosseguindo pela rua fundamental do bairro cristo, Sieme atravessou um arco de
pedra, passou ao lado da Mesquita de Ornar e parou no ptio, em frente  porta sul da Igreja do
Santo Sepulcro. No largo, umas quinhentas pessoas de vela na mo rezavam baixinho, fazendo
fila para entrar no salo e visitar o mausolu, excepcionalmente aberto quela hora da noite.
Preferindo no se misturar  multido, a Mestre da Mente deu a volta no edifcio, pulou um
muro e subiu no telhado, caracterizado por trs nveis de amplo terrao, cada qual com seu
domo, e por um outro ainda menor, que coroava a Capela de Santa Helena. Habitualmente
guardada por um zelador muulmano, toda a rea encontrava-se estranhamente vazia, e a
serafim aproveitou a oportunidade para galgar at o ltimo nvel. L, debruada sobre o
parapeito de pedra, ao lado da cpula sobre a rotunda, visualizou toda a cidade, procurando,
atravs do tecido, a fonte da presena maligna que a surpreendera no souk. Mas, ao contemplar
o astral, tudo o que enxergou foi um bando de espritos perdidos -- fantasmas de todas as eras,
largados na borda do mundo.
         Desanimada, imaginou por um instante ter fracassado. Possivelmente, o inimigo que
procurava j tinha partido e, se isso fosse verdade, de nada teria adiantado permanecer em
Jerusalm, enquanto seus companheiros seguiam viagem.
Ficou por um longo tempo observando a paisagem, escutando a corrente de preces que escapava
dos santurios. Assim correu boa parte da noite, e aquele foi um perodo de paz.
         Um breve perodo de paz...


          meia-noite, Sieme foi testemunha de um acontecimento assombroso. No plano astral,
uma sombra negra elevou-se na ala norte das muralhas, encobrindo o astro noturno. Do
obscurecimento emanavam as vibraes msticas de uma aura malfica, corrompida e possante.
A apario, basicamente espiritual, no podia ser vista pelos vivos, mas incitou pnico entre os
fantasmas. As almas perdidas, dominadas pelo pavor instintivo, fugiram como estocadas por
brasa, comprimindo-se contra os muros do centro antigo, porque muitas delas no podiam, por
suas pendncias vitais, deixar a Cidade Sagrada. At mesmo a serafim, to confiante e
disciplinada, sentiu o corao disparar. Ainda assim, no recuou. Agora tinha certeza, mais do
que nunca, de que aquela entidade seria sua oponente e de que deveria enfrent-la, em nome de
seus amigos e em honra de sua causa.
         Apurando o olhar, identificou a fonte do mal. Uma criatura de corpo humano e rosto
disforme corria pelo cu como um bfalo em assalto, apressando-se em espetacular ofensiva. Se
tinha asas, as escondia, mas a ausncia de gravidade no plano astral permitia que caminhasse no
ar.
         O adversrio era rpido e bruto, e a face apresentava uma boca enorme, apinhada de
presas pontudas. Os olhos eram grandes e negros, e uma cicatriz oblqua cortava o rosto
deformado. Sieme no tinha mais dvidas de que era um demnio e, a julgar pela potncia de
sua aura, talvez fosse confrade de Lcifer, integrando o time dos anjos cados.
         Apesar de seu desespero, a serafim preparava-se para a luta. Lembrou-se, com certo
alvio, de que estava na Haled, e o inimigo, no plano espiritual. O tecido da realidade, ainda que
frgil, limitaria o duelo, porque o agressor no poderia atac-la enquanto no trespassasse a
membrana e se materializasse. O processo de materializao nunca  imediato, demandando um
mnimo de energia e concentrao. Assim, seu oponente, por mais impetuoso que fosse, no a
golpearia de primeira, apesar de sua sede de sangue.
         Sieme afastou-se da base da mureta e encarou a vil criatura, que chegava em velocidade
titnica. Arrostou de perto seu olhar abissal, quando a figura escorregou pela cpula, preparando
o punho para um soco infalvel.
         Foi a que teve incio o horror.
         Subitamente, o tecido rasgou-se como placenta materna, e o monstro eclodiu do astral.
O rosto horrendo transmutou-se em uma carranca humana, e seu corpo espiritual foi revestido
de carne. Saltando ferozmente sobre Sieme, o recm-formado avatar atingiu-a com um soco no
peito, e a indefesa mulher-anjo foi arremessada contra o apoio da segunda cpula, danificando
parte da parede de rocha e despedaando os vitrais de uma janela em arco.
         Estendida no ptio, a celestial verteu fluidos de sangue, que subiam aos litros pelos
pulmes.
         Mas o que era aquilo? Um demnio atravessando o tecido sem ao menos desprender sua
essncia? Como teria rompido a membrana assim, to fcil e rpido? O que lhe dava a incrvel
habilidade de ir e voltar entre mundos? Que tipo de poder era aquele?
         Quando, debilitada, Sieme ergueu a cabea e viu a face do assassino, notou que, em sua
carcaa fsica, ele guardava os antigos traos anglicos, porque os anjos, normalmente, so
parecidos com homens. Dotada de memria invejvel, ela mentalizou a imagem de um passado
longnquo e recordou-se de um belicoso oficial querubim, que havia se unido a Lcifer em sua
revoluo.
         -- Apollyon... -- decifrou, com os lbios vermelhos de sangue -- o Anjo Destruidor --
ajoelhou-se, tentando se levantar. -- Era voc que nos perseguia no souk.
         -- Sou Apollyon, o Exterminador -- corrigiu, apresentando-se com a alcunha que
recebera no inferno. -- E voc, suponho,  Sieme, a quem chamam Mestre da Mente --
desdenhou. -- Que tipo de truques sabe fazer, garota-anjo?
         -- O tipo certo para arruinar malfeitores -- respondeu, precisa.
         Indiferente  ameaa, o malikis avanou e a agarrou pelos cabelos. Enfraquecida e
desnorteada pela pancada no trax, a celestial no teve foras para se libertar. Ento, ele a
arrastou at o parapeito e a ergueu do cho, de frente para a paisagem anoitecida da Cidade
Velha.
         -- Veja esta terra amaldioada, serafim -- comeou o demnio. -- Ela  o exemplo da
vergonha dos homens. Observe o corao dessas almas perdidas e saber quantas vezes esta
cidade foi regada com sangue. Vocs, que adoram animais e defendem a integridade desses
porcos de barro, deveriam entender o que eles fizeram ao mundo.
         -- Suas opinies so incoerentes com a oratria de Lcifer -- gemeu a Mestre da
Mente, paralisada pela dor que esticava os cabelos.
         -- Respeito somente minha prpria coerncia -- rosnou o diabo guerreiro, e com um
movimento de brao a jogou novamente contra a cpula mdia. A estrutura de pedra rachou,
abrindo um grande buraco na armao de alvenaria. Pelo menos cinco grandes blocos de rocha
despencaram na rotunda, levando alarme s pessoas que, l embaixo, rezavam ao redor de um
recipiente de pedra, em uma cmara considerada pelos antigos o centro do mundo.
         Com dificuldade, Sieme segurou-se na borda do domo e rolou novamente para o
terrao, evitando uma queda de mais de dez metros. Ao ver uma mulher pendendo do teto, os
fiis, no interior do santurio, se espalharam, e alguns deixaram o templo para avisar os
soldados. Ao impacto, o brao da serafim se deslocou, e um corte longo foi aberto na testa.
         Ao ver que Apollyon preparava uma nova acometida, a Mestre da Mente valeu-se da
nica arma que possua: suas divindades psquicas. Enquanto o assassino se preparava, Sieme
foi mais rpida e fez jus a seu ttulo. Apontou a mo na direo do agressor, e uma rajada
invisvel invadiu-lhe a mente. O Choque Mental, uma tcnica conhecida pelos serafins,
rastreava as fraquezas da vtima, selecionava suas piores lembranas e as trazia  tona como
uma nica torrente de sensaes dolorosas. A conscincia quase nunca aguentava o impacto, e a
mente apagava. Os fortes de vontade se recuperavam horas ou dias depois, mas os fracos
morriam ou eram lanados indefinidamente ao abismo da loucura.
         Tocado pelo baque mental, o poderoso Apollyon desmoronou, e seus olhos fecharam.
No estava morto, mas um simples desmaio era suficiente para que a mulher-anjo lhe arrancasse
o corao e desse fim  sua carreira homicida.
         Com o brao quebrado e a testa sangrando, Sieme ps-se de p, abenoando suas
valiosas percias. Graas a um esforo tremendo, tinha derrotado o Exter-minador e cumprido
sua preciosa misso. Em breve, poderia voltar  companhia de seus amigos.
         Agachou-se ao lado do avatar estirado, enrijeceu os msculos do brao saudvel e abriu
a mo que penetraria a carcaa. Mas, quando atacou com o punho para trespassar-lhe a carne, o
insidioso demnio virou-se de frente e bloqueou o golpe. Estava acordado o tempo todo, mas,
por algum motivo, preferiu engan-la!
         Assustada, a serafim tentou se afastar, mas Apollyon saltou como um tigre e apertou-lhe
o pescoo, sufocando-a com os dedos gigantes.
         --  agradvel a iluso da vitria, no ? -- rosnou o sdico assassino. --  essa iluso
que os estimula, a esses novos rebeldes, que veneram um general derrotado.  o que os faz
combater. E o caminho para a morte, para o vazio do cosmo.
         -- Mas como  possvel? -- gemeu a Mestre da Mente. -- Ningum jamais resistiu ao
meu Choque Mental.
         O criminoso deixou escapar um sorriso perverso.
         -- Sua tcnica baseia-se no embate de emoes conflitantes: valentia e medo, segurana
e fraqueza, amor e dio, bem e mal. Eu, que j matei homens, anjos e deuses, no conheo a
bondade, a justia, a amizade nem os sentimentos pacficos. Tudo o que h dentro de mim 
fria, maldade e sede de morte. Portanto, meu esprito no pode ser afetado, no pode ser
destrudo por seus artifcios psquicos. Eu sou a personificao do que h de mais terrvel e
atroz neste mundo. Sou o mal verdadeiro, o injusto e o cruel. Nunca fui derrotado e nunca o
serei.
         O Exterminador pressionou os dedos, at que Sieme no pde mais respirar. Acometida
pela tontura, ela quase desfaleceu, mas uma distrao prolongou sua vida.
         Um estalo de tiro ressoou no telhado, seguido por uma rajada de balas. S ento, o
malikis percebeu que cinco policiais, armados com metralhadoras compactas, tinham subido ao
terrao por uma escada lateral e estavam a alvej-lo. Os guardas haviam sido chamados havia
dois minutos pelos cristos que presenciaram o desabamento de parte do domo.
Irritado com a interrupo, Apollyon largou Sieme, liberando-a de sua pegada.
         -- Mas o que so esses insetos? -- enojou-se, no centro da linha de fogo. Os disparos
simplesmente no o feriam, to forte era seu poder e vigor. Suas imu-nidades encontravam
estreita semelhana com as de Ablon, que no podia ser machucado por uma arma mundana
qualquer.
         Enquanto os projteis furavam-lhe a roupa, Apollyon concentrou-se nos homens. Alm
de exmio combatente, contava com capacidades ocultas, entre elas uma aptido inata para a
destruio. Para quem devastara Sodoma com uma nuvem de fogo, aqueles atacantes no
passavam de mosquitos, prontos para ser esmagados. Ao seu comando mental, uma fincada
cardaca paralisou os soldados, que soltaram os rifles e engasgaram com sangue. Gritando de
dor, os inermes vigias sentiram uma pontada perfurar-lhes o peito, enquanto o corpo todo
formigava e as pernas tremiam. O corao, j inchado de sangue, finalmente estourou, rasgando
o pulmo e espalhando dejetos aquosos por todo o alpendre.
        Uma mancha vermelha, misturada aos trapos de roupa, foi o que restou dos seguranas
armados.
        Apollyon voltou-se  sua vtima central. Com brutalidade terrvel, pisoteou o rosto de
Sieme, at que o crnio fosse amassado. Mas, em vez de mat-la, preferiu prolongar a tortura.
Com a fora de dez touros selvagens, o malikis levantou um volumoso fragmento de rocha e o
largou sobre a Mestre da Mente, imobilizando-a.
        -- Eu j volto, garota. Voc no vai sair da, vai? -- zombou, certificando-se de que o
bloco era suficientemente pesado para que ningum o movesse.
        Ao mesmo tempo em que as sirenes de bombeiro acordavam os moradores incautos, o
agente das trevas escalou o domo maior da Igreja do Santo Sepulcro. No cimo, pendia uma bela
cruz prateada, larga como uma espada e de extremidades pontiagudas. Era o smbolo mximo
da f crist, o cone que caracterizava o eterno tmulo do Salvador. Levando a mo ao sagrado
objeto, o demnio o arrancou de sua base e o carregou como arma de volta ao ponto onde jazia
Sieme.
        Afastando o bloco de pedra, o duque novamente a tomou pelos cabelos e a estocou com
a ponta da cruz. A haste de prata, coberta de sangue, atravessou a barriga, despedaou a coluna
e despontou nas costas, perfurando os pulmes.
        -- Morra agora, Sieme! E antecipe o destino de seus companheiros.
        Antes de perecer, toda sua vida regrediu em cenas corridas, e ela reviu suas lembranas,
seus ideais. Relembrou-se da guerra, das duas faces celestes e da posio de Lcifer, que
nunca manifestara interesse em participar da batalha.
        -- Por que nos persegue, Exterminador? Esta guerra no  sua nem de seu senhor
diablico.
        Com expresso odiosa, Apollyon respondeu:
        --Voc  inocente, serafim. No tem a menor idia do que est se passando.
        E, com isso, executou o golpe final. Afundou a mo no peito j ferido da Mestre da
Mente, destruindo seu corao. Depois, jogou longe o avatar destroado.
        -- Voc  o prximo, renegado -- disse baixinho, para no esquecer seu alvo primrio.


         No exato momento em que a vida de Sieme se extinguiu, Ablon, j distante no deserto,
apertou os freios do carro e respirou profundamente  parada do automvel.
         -- Sieme est morta -- afirmou, categrico.
         -- Eu tambm senti -- retrucou Aziel, sensivelmente abalado. -- A energia de sua aura
apagou-se.
         Esticando a cabea atravs da janela, o Anjo Renegado fitou as estrelas.
         -- J passa da meia-noite, e estamos bem avanados em nosso percurso -- afirmou,
para logo retomar a jornada.
         De incio, Aziel no aprovou a austeridade do general, que repentinamente mudara de
assunto, parecendo esquecer os feitos e a valentia da honorvel Mestre da Mente. Minutos
depois, contudo, entendeu a coerncia do comentrio. Com suas breves palavras, o Primeiro
General havia somente explicitado o bvio.
         Ao atrasar o caador, Sieme deixara livre o caminho para que seus amigos alcanassem
o portal.
         Sua misso estava cumprida.


                               UMA PENA COMO VINGANA
         Por mais alguns quilmetros, Ablon e Aziel continuaram pelo percurso da Rodovia 90,
sempre costeando o mar Morto. Era uma daquelas noites claras e frias, tpicas da primavera
oriental.  exceo do forte brilho da lua, nada iluminava a estrada, e nenhum farol piscava no
asfalto. A partir de Masada, a pista mais parecia uma trilha fantasma. s vezes, os viajantes
avistavam as luzes das habitaes praieiras, das salinas e dos spas instalados na orla, agora
vazios. No lado oposto da via, o cenrio era rido e montanhoso, mas o terreno ficava mais
plano  medida que penetravam no Negev.
         O deserto comea onde termina o mar Morto, uma regio de solo pedregoso, repleta de
colinas baixas e grutas ocultas, um tanto sombrias apesar de sua beleza. As elevaes na
paisagem lembram um cemitrio de rochas, fragmentos destroados de uma era to antiga
quanto o tempo das grandes catstrofes.
         Finalmente, na cabine da picape, os celestiais avistaram um holofote  margem da
estrada, em um ponto fixo ainda distante. Ao comando do operador, o feixe de luz danava na
pista,  procura dos veculos que chegavam pela rodovia.
         -- Ser um bloqueio? -- perguntou Aziel, tentando enxergar na penumbra noturna.
         --  um posto de controle, improvisado pelos soldados do exrcito -- explicou o
general, identificando os elementos no escuro. -- H um peloto militar, com pelo menos
cinquenta homens. Alguns esto acampados, outros conduzem jipes e tanques -- descreveu,
reduzindo a velocidade do carro. -- Montaram um projetor no alto de uma armao de metal e
esto vasculhando o asfalto.
         O carro ainda se encontrava fora do alcance da luz.
         -- Acha que devemos contornar pela plancie e evitar a patrulha?
         -- Seria o melhor a fazer, mas perderamos muito tempo. Alm disso, provavelmente
notariam nossa passagem pelo barulho do motor e nos descobririam com seus holofotes.
         --  uma pena no termos Sieme conosco -- lamentou o ishim, ainda magoado pela
perda da amiga.
         --  verdade. Ela enganaria rapidamente os guardas. Mas tambm no vejo por que eles
impediriam nosso acesso. No levamos armas de fogo ou explosivos e estamos saindo de Israel,
no entrando -- pelo caminho que tomavam, brevemente estariam no Egito. -- Em ltimo caso,
voc pode se desmaterializar e passar ao astral, enquanto eu tento convenc-los de que no sou
ofensivo. Ainda tenho aquele passaporte, que nunca cheguei a usar.
         Aziel assentiu, confortado com o otimismo do lder. Lentamente, o Anjo Renegado
acelerou o veculo e dirigiu rumo ao bloqueio. Sem perceber, eles entravam em uma rea de
especial importncia, que guardava inimaginveis perigos.
         Estavam no extremo sul do mar Morto.


        Ablon passou  segunda marcha quando o feixe de luz bombardeou a cabine. Ele e
Aziel viram que um jipe militar bloqueava um dos lados da estrada, reduzindo a pista  metade
e inibindo, assim, fugas ousadas. Dois espetaculares tanques de guerra, com seus canhes de
120 milmetros, figuravam em cada margem da via, e mais cinco carros blindados RAM V-1
circulavam por perto.  direita, na plancie, algumas tendas haviam sido montadas, certamente
para abrigar os oficiais graduados. Pelo menos vinte homens a p rondavam o permetro,
portando fuzis e granadas de mo. O restante estava nos veculos, no interior das barracas ou
mais atrs, defendendo o outro extremo da rodovia. Quatro observadores vigiavam tudo do alto
da plataforma de observao, controlando a direo do holofote.
        -- H algo de estranho com esses soldados -- sussurrou Aziel. -- No parecem
humanos.
        -- No parecem, mas so -- os militares, definitivamente, eram homens comuns. Se
fossem anjos ou demnios disfarados, os dois celestes j teriam sentido as emanaes de sua
aura pulsante.
        Ablon parou o automvel a dez metros do cerco. Cinco recrutas, imveis, os
ameaavam sob a mira de rifles. Um deles fez sinal para que o motorista deixasse a cabine,
balanando o cano da arma.
        -- Fique aqui -- ordenou o renegado ao ishim. -- Esteja pronto, mas, acontea o que
acontecer, no os machuque. Tenho a impresso de que esses mortais so mais vtimas do que
agressores.
        E ainda sem saber ao certo o risco que corria, o general apresentou-se diante dos
atiradores, que o aguardavam com o dedo no gatilho. Todos os militares -- na torre, nas tendas
e nos blindados -- encaravam o querubim com especial cinismo e perversidade, e foi a que o
lutador entendeu que haviam sido alvo de alguma transformao -- no corprea, mas psquica.
Decididamente, no gozavam de perfeito juzo.
        Um silncio tumular tomou o deserto, at que o Anjo Renegado falou.
        -- Quem so vocs? -- perguntou, convencido de que as intenes dos vigilantes no
eram nada amistosas. A alma deles tremulava no corpo, fenmeno estranho aos entes viventes.
        -- Devia nos conhecer -- respondeu um dos pees na linha de frente. A voz era
monstruosa, como dragada de alguma dimenso irreal. --  um anjo, e nossa relao com os
alados no foi e nunca ser esquecida.
        Com isso, os oficiais dispararam, sem esperar uma rplica do alvo. Sonoras rajadas
criaram pontos de fogo e levantaram fumaa na pista. Ouviu-se o som dos projteis se chocando
contra o solo durssimo e, mais atrs, contra o radiador da picape.
        Enquanto isso, no observatrio, um atirador alvejou Aziel, mas ele, j concentrado,
desmaterializou-se no instante preciso, e a bala perfurou o vidro do carro, para alojar-se na parte
posterior do assento. Seu avatar dissipou-se em tons azulados, e ele mergulhou para dentro do
tecido. No plano astral, o ishim expandiu as asas e flutuou, atravessando a capota do carro como
se ela no existisse.
        No asfalto, quando a fumaa baixou, os agressores no encontraram resqucios de
Ablon. Esperavam v-lo desmoronado no cho, perfurado pelos pedaos de chumbo.
Entreolharam-se, intrigados, e vasculharam os arredores,  procura do inimigo.
        Escutaram, ento, um barulho que vinha do cu. Surpresos, avistaram o general, que
caa em ataque, aps um salto que eles nem sequer enxergaram. Antes que fosse atingido, o
querubim pulara bem alto, acima do alcance do projetor, e mesclara-se  noite. Agora,
regressava como um raio em tempestade.
        Com a leveza dos mais destros felinos, Ablon aterrissou nas costas de um atacante e o
agarrou pela cintura. Correu para frente, com velocidade espantosa, carregando o guarda nos
ombros e levando-o para longe de seus companheiros. Teve o cuidado de no feri-lo, pois no
sabia exatamente quem era e que motivao perseguia.
        Ao se darem conta do rapto, os militares novamente esquentaram suas armas. Dessa
vez, no s os cinco pees dispararam, mas outros tambm pegaram suas pistolas e espingardas
de guerra. Sob o arrojo de centenas de tiros, que no acertavam seu corpo, o general pulou sobre
a boleia da caminhonete e depois desceu  carroceria, procurando abrigo atrs da cabine. Era to
clere que os agressores quase no conseguiam mir-lo, ainda mais na escurido do deserto.
Uma vez no cargueiro, o anjo largou o refm contra o piso de ferro.
        Mas os tiros no paravam e estavam destruindo o vidro e o motor da picape. Os
espessos canhes dos tanques de combate comeavam a rodar, e os recrutas preparavam as
granadas. Na torre, um sujeito enfiava a cpsula explosiva em um lana-msseis.
        Ablon precisava de tempo, ento teve uma idia. Trouxe para junto de si um dos tonis
de combustvel, cheios at a boca, que transportava para reabastecer na viagem. Rasgou um
pedao de pano e o enfiou por um buraco na tampa, simulando um coquetel molotov. Depois,
com dois fragmentos de metal, produziu fasca, acendeu o estopim e arremessou o barril no
meio da pista, entre a picape e a rea cercada. O recipiente despedaou-se ao encontrar o asfalto,
e seu impacto teve efeito de bomba, levantando uma nuvem preta de calor e fumaa e criando
um momento de caos. Ameaados pelo fogo, os oficiais recuaram, mas os condutores dos
blindados j estavam para avanar.
        Aproveitando a distrao, o renegado interrogou o refm:
        -- O que vocs querem? Por que nos atacam sem motivo aparente? -- repetiu,
pressionando o soldado contra o assoalho da viatura.
        -- Com seus poderes celestes pode at me agredir, assassino de Deus, mas tudo o que
conseguir ser ferir este corpo -- articulou, com aquele timbre gutural. -- Ainda que me esfole
com sua espada mstica, ou que amasse meus ossos com sua fora inumana, s conseguir
danificar a carcaa. Este invlucro fsico no me pertence; ele  apenas um transporte.
        Mas a determinao do prisioneiro murcharia em segundos. No plano astral, surgiu o
inestimvel Aziel, que acabara de se desmaterializar na cabine. Planando como uma sombra
branca, de cabelos negros esvoaando no ar, ele voou sobre o automvel, desfraldando as asas
em majestosa pose e intimidando a entidade que habitava o invlucro. Descendo como guia em
rapina, segurou o esprito que habitava aquele corpo e o arrancou para fora com um empuxo si-
nistro. Desprendeu-se da carne um avejo, uma criatura j morta, que possura o pobre soldado.
         Ao ver a imagem translcida do fantasma, Ablon compreendeu a natureza dos fatos. Os
patrulheiros estavam todos sob a influncia de espectros, que haviam tomado seus corpos e
assumido suas funes. No raro, os espritos possuem a carne dos vivos, mas  muito difcil
isso acontecer quando o receptor no  voluntrio -- usualmente, s os sensitivos podem servir
de canal para os desencarnados. s vezes, um fantasma muito poderoso consegue assaltar um
corpo humano, mas apenas sob condies especficas. Os espectros do deserto eram,
logicamente, antigos e fortes, mas a chave do sucesso para aquela possesso em massa estava na
fragmentao do tecido -- s uma membrana prestes a se desintegrar permitiria tal ousadia.
         No astral, Aziel arrastou o avejo para fora do carro. Estando ambos no mundo
espiritual, o ishim poderia feri-lo e at dissipar sua essncia, o que representa a morte para os
vagantes astrais.
         O espectro sacudia-se, tentando libertar-se da pegada do anjo. Ablon reparou que, em
sua forma original, a criatura se vestia  semelhana dos cananeus, um povo ancestral que
habitava a Palestina havia milhares de anos. Transtornada, a criatura cuspia palavras em uma
lngua igualmente remota, mas que os presentes podiam interpretar facilmente.
         -- Diga logo quem  e por que dominou os soldados -- exigiu Aziel. Com uma das
mos segurava o prisioneiro, e com a outra o enfrentava com seu fogo sagrado.
         Temeroso, o desencarnado cedeu:
         -- Por sculos estivemos escondidos no centro da terra, com medo, esperando
impassveis o Dia do Juzo Final -- rosnou. -- Mas agora, finalmente, a fronteira entre o mundo
dos mortos e o plano dos vivos comea a cair. Nosso tempo chegou.  hora de concluirmos
nossa vingana.
         -- E como vocs ainda no podem se manifestar na Haled, resolveram possuir corpos
humanos -- concluiu o ishim, indignado com a petulncia da entidade. Muitos anjos
consideram a possesso uma coisa terrvel, empreendida apenas por demnios nojentos. De fato,
dominar a carne humana significa privar o mortal de sua nica arma: o livre-arbtrio.
         Aziel teve vontade de incinerar o espectro, mas lembrou-se do comando de seu general.
Antes que seu ltimo fio de pacincia se rompesse, o Anjo Renegado ordenou, conclusivo:
         -- Solte-o, Aziel. No vamos lutar contra esses fantasmas. Na verdade, acho que nunca
poderamos faz-lo.
         Livre, o avejo afastou-se, atordoado apesar de sua condio espectral. Ablon
visualizava-o imaterial, envolto por uma luminosidade azulada, e ligeiramente disforme pela
oscilao do tecido. Enquanto isso, os blindados atravessaram a onda de calor, mas, ao ver que
os inimigos pouparam um dos seus, detiveram os disparos. Jamais haviam tido contato com
celestiais piedosos. Para eles, os alados eram fundamentalmente homicidas, carniceiros e vis,
porque foi assim que, anteriormente, apareceram na cena da histria.
         Aos poucos, a cortina ardente desceu, e mais artilheiros se aproximaram da picape,
cercando os celestes a distncia segura. Analisando os adversrios de perto, os dois anjos
repararam nas almas que ocupavam os corpos e tiveram certeza de que no pertenciam
originalmente quelas carcaas.
         -- Eles so os espectros da tal fortaleza de Masada? -- perguntou Aziel, ainda
preparado para lanar labaredas. Ablon podia ouvi-lo atravs da membrana.
         -- No. Masada fica muito longe daqui, e os fantasmas no podem deixar sua rea
assombrada. Estes so espritos igualmente sofridos, mas muito mais antigos e rancorosos. Veja
-- ele apontou para o norte, mostrando a linha marinh que sublinhava o horizonte --, estamos
ao sul do mar Morto. Um dia, bem aqui, existiu uma cidade chamada Sodoma, uma terra
habitada por homens justos, mas governada por juizes tiranos.
         -- Sodoma... -- refletiu Aziel. -- Foi contra sua condenao que a Irmandade dos
Renegados se insurgiu. Foi por ela que os dezoito caram.
         O Primeiro General concordou. Sentia-se estranhamente completo e tranquilo, pois
havia encontrado aqueles pelos quais se rebelara e no admitiria que estivessem em posies
adversas. Em nobre postura, dirigiu-se aos desencarnados que o cercavam. Ergueu a mo em
sinal de armistcio e aproximou-se do ave-jo que julgava mais poderoso, incorporado na pessoa
fardada de um coronel.
         -- O que desejam, filhos de Sodoma? O que podemos fazer para acalmar sua fria?
         Os seres astrais, com a alma aflita, ainda no pareciam totalmente certos do altrusmo
do renegado, mas j no o consideravam um inimigo. Ficara claro que, se Aziel quisesse,
poderia fulmin-los com uma chuva de brasas sagradas, o que por certo os expulsaria de dentro
dos homens e poria fim s suas atrevidas incurses  superfcie da terra.
         -- Se so anjos, nada podem fazer -- disse o porta-voz dos espritos. -- Os celestiais
so o objeto de nosso dio e o motivo de nosso retorno.
         Embora Ablon no fosse instrudo na boa retrica, tal qual os serafins, nem possusse a
sabedoria dos malakins, tentaria fazer o seu melhor para apaziguar as criaturas sofridas sem
iniciar um combate. Como aliada, s tinha a pureza de seu corao, j reconhecida pelos
fantasmas que agora o fitavam.
         -- Compreendo sua ira. Foram os anjos que liquidaram seu povo. Antes de vocs,
conheci outros amaldioados, vtimas da mesma tortura. Mas nem todos os celestiais so
impiedosos e cruis. Assim como havia em Sodoma pessoas perversas e justas, h, entre ns,
um grupo de virtuosos celestes que lutam em defesa dos homens. Como lder exilado, eu sei o
que sentem. S no entendo o que pretendem ao deixar as entranhas do mundo.
         Como muitas cidades derrubadas pelas catstrofes, a exemplo de Enoque e Atlntida, o
pouco que ainda restava de Sodoma descansava nas profundezas, em meio aos pedregulhos
enrijecidos e ao magma fervente.
         O espectro enlaado ao corpo do coronel respondeu:
         -- Se permanecemos aqui e no seguimos para o paraso celeste,  porque algo nos
prende  nossa lembrana passada. Acometemos os vivos para provar a fora da matria, a
potncia que necessitamos para executar nossa vingana. E o que queremos. Vingana contra
quem nos destruiu. Vingana contra Deus.
         -- Pois saibam, ento, que o Altssimo nada tem a ver com seu sofrimento -- explicou
o querubim. -- Por todo esse tempo vocs mentalizaram erroneamente seu dio. O grande
Yahweh jaz adormecido desde o fim do sexto dia. A partir de ento, os arcanjos assumiram seu
trono, e foram eles que determinaram a devastao de Sodoma. Tendo iniciado uma revolta
contra seus preceitos tirnicos,  meu dever, agora, confrontar Miguel, o Prncipe dos Anjos, e
ento trarei a vocs a justia que tanto desejam. Peo-lhes, portanto, que libertem essas pessoas,
pois no ser assim que conseguiro sua vingana.
         Impactados por to novos e surpreendentes conceitos, os espritos no deliberaram.
Estavam ligados por laos emocionais e mentais, por sensaes e vontades muito fortes, e agiam
e pensavam como um nico organismo. Mas poderiam confiar naquele anjo que se dizia
amigvel? Seria ele um vilo, como todos os outros, ou um heri, libertador das raas mortal e
celeste?
         -- No sabemos quem  esse arcanjo de quem fala, mas conhecemos bem nosso
assassino -- argumentou o desencarnado. -- Se prometer vingar nossa gente, ento voltaremos
ao subterrneo e esperaremos quietos o Dia do Ajuste de Contas. Mas, antes, exigimos que
conhea aquele que nos matou.
         Ablon aguardou ao lado de Aziel, at que dois soldados, ainda possudos, trouxeram at
ele um objeto antiqussimo, uma espcie de estojo cilndrico, lapidado em pedra, mas j
deformado pelo castigo dos sculos. Os motivos de marfim haviam sido apagados pela
fossilizao, e nesse estado o tubo mais parecia um fragmento de rocha. Quando os recrutas lhe
entregaram a pea, o general esticou a mo, tornando visveis as runas mgicas gravadas por
Shamira em seu antebrao direito.
         Examinando o objeto com peculiar interesse, o guerreiro percebeu que era oco e que,
pelo endurecimento da crosta, no poderia ser aberto com um giro de tampa, ento o jeito seria
parti-lo. Jogou o estojo ao cho, e o envoltrio quebrou-se com um estrondo terrfico,
comparvel aos troves em noite calada. Quando o artefato ruiu, um suspiro de treva escapou-
lhe do ventre e uma pena de anjo rolou pelo asfalto. Outrora alva, a pluma enegrecera-se pela
passagem do tempo.
         O Anjo Renegado acocorou-se no meio da via e segurou o objeto com ambas as mos.
         -- Apollyon -- decifrou, inspirando o aroma impregnado na pluma. Aquela era,
decerto, a pena do Exterminador. Os fantasmas teriam, ento, preservado a pea por milnios,
desde aquele dia fatdico, quando o Anjo Destruidor usara suas habilidades para destronar a
cidade.
         -- Carregue esta pena consigo, justiceiro. Ela o guiar at nosso algoz -- suplicou o
esprito.
         Guardando o objeto escurecido, o general garantiu:
         -- Estejam certos de que no me esquecerei de confrontar seu carrasco, porque sua
vingana  minha tambm.
         Ablon no acreditava em destino, mas estava convencido da importncia daquele
auspicioso episdio. Justamente agora, quando a esperana falhava, ele encontrara novos
estmulos para continuar combatendo. Primeiro, queria batalhar pelos homens, mas desistira ao
ver a corrupo do planeta. Depois, o rapto de Shamira o empurrara  ao e o lanara mais uma
vez ao teatro da guerra. Agora, por fim, recebera o apoio daqueles por quem decidira
inicialmente lutar. Comeava a enxergar, novamente, quo importante seria o resultado da
batalha que estava por vir e quantos dependiam da vitria das tropas rebeldes.
         Com isso, os espectros se convenceram, finalmente, da absoluta honestidade do
Primeiro General e cumpriram sua promessa, deixando a matria humana e voltando aos
escombros na fundura do mundo.
         Os dois anjos abandonaram a caminhonete e passaram  direo de um jipe do exrcito.
Aziel recomps seu avatar, refez-se em carne, e Ablon acelerou o veculo. Prosseguiram a
jornada penetrando no Negev e dali para a fronteira do Egito.
         Minutos depois, no acampamento, os militares retomaram a conscincia, inteiramente
confusos pelo lapso de tempo, durante o qual a memria permanecera apagada. Realizaram
inmeras patrulhas para tentar descobrir como uma picape cravejada de tiros aparecera no meio
da rodovia sem que ningum a notasse, mas nada encontraram.




                                As BATALHAS PRIMEVAS
NA FORTALEZA DE SION, EM UMA DE SUAS muitas janelas, o arcanjo Miguel observava seu exrcito,
que defendia a torre como vespas ao ninho. Centenas de milhes de celestes guardavam o
bastio, esperando a investida dos novos rebeldes, assim distinguidos dos antigos
revolucionrios que acompanharam Lcifer em sua queda. Os soldados anglicos estavam em
toda parte, no s enfileirados no solo, como tropas humanas, mas tambm pelos cus, voando,
planando e cercando o baluarte com suas flmulas vermelhas. Eram tantos os defensores que
suas patrulhas formavam uma parede animada, obstruindo a viso dos inimigos.
        Da sacada, Miguel contemplou o Styx alm das montanhas. Retirou o elmo de queixada
pontuda, deixando aparente um rosto castigado, picotado por cicatrizes. Aqueles estigmas,
gravados na face e no corpo, eram as marcas das Batalhas Primevas, uma campanha fantstica,
travada antes mesmo da aurora do mundo.
         Poucos celestiais conhecem os relatos das Batalhas Primevas, e s os arcanjos se
recordam de seus verdadeiros anais. Os arcanjos, como todos sabem, so anteriores  luz, mas
os anjos foram criados depois, no segundo dia, juntamente com o alvorecer do universo. Para
que o fulgor csmico tivesse incio, Yahweh teve, antes, que vencer um squito de
poderosssimas entidades, os chamados deuses das trevas, figuras to fortes e antigas quanto ele,
que dominavam o lado escuro do espao. Esses deuses nada tm a ver com os deuses pagos ou
com as entidades etreas, deificadas pela adorao dos fiis em seus templos humanos. Os
deuses das trevas, liderados pela sinistra Tehom, eram ferozes inimigos do bem, e por isso
Yahweh teve de subjug-los  sua vontade e aprision-los em alguma dimenso paralela, para s
ento criar o universo. Assim como Tehom tinha seu cortejo de entidades menores, Yahweh
contava com os cinco arcanjos, dentre os quais Miguel era o mais valoroso. Os arcanjos
batalharam ao lado do Altssimo pela aniquilao dessas terrveis foras ancestrais, e, quando o
mal foi derrotado, Deus encontrou-se nico e pleno no vazio infindvel. Com isso, obteve a paz
necessria para iniciar sua obra.
          s compreendendo as Batalhas Primevas que se entende a majestade dos arcanjos e
sua superioridade em relao a todos os outros celestes.
         De dentro da fortaleza, o Anjo Negro, brao direito de Miguel, avanou para a sacada e
aguardou a ateno do chefe. Tinha a face oculta pelo elmo e penas escuras como a noite
profunda.
         -- Ento? -- permitiu Miguel, em sua armadura de placas brilhantes.
         -- O Anjo Renegado escapou para o deserto -- anunciou,
         -- Danao! -- explodiu o monarca. Respirou fundo, apertou os dedos contra o cabo da
Chama da Morte, sua espada mstica, e se recuperou logo em seguida, suprimindo sua ira. --
No podemos permitir que o proscrito alcance o portaL Liquide-o, no importa o esforo! Se
Ablon e Gabriel se encontrarem, as tropas rebeldes ficaro muito mais confiantes.
         -- E o que sugere? Devo eu mesmo aniquilar o maldito?
         Miguel pausou, reflexivo. Isso no constava em seus planos. Mas por que aquele pria
nunca morria? Era inacreditvel como resistira ao expurgo, s perseguies e ao crcere no
inferno.
         -- No devemos correr mais riscos. Chame Euzin e sua Legio Formidvel. Lance
todos os anjos possveis  caa do renegado.
         O Anjo Negro maneou o pescoo, inconformado com a ttica adotada. Era de
compleio musculosa e, embora parecesse mais forte que seu lder supremo, estava muito
aqum da imensido dos arcanjos.
         -- Isso no vai adiantar. Seria prefervel que o deixssemos vir e preparssemos uma
emboscada para ele aqui, na Fortaleza de Sion. Parece-me bvio que, uma vez no etreo, o
falido general correr para c, para tentar resgatar a Feiticeira de En-Dor.
         Miguel no desviava o foco do Styx por um instante que fosse.
         -- No  um plano ruim, mas o perigo de execut-lo  enorme. Se perdermos a mulher,
tudo estar acabado -- explicou, vociferando uma ordem. -- Faa o que eu mando! Envie Euzin
e seus querubins  Haled e triplique o nmero de anjos no ltimo andar, onde a necromante est
aprisionada. Se Ablon vier busc-la na torre, faamos com que ele entre por outro caminho.
Nossos soldados formaro uma abbada vivente, bloqueando a viso do ptio.
         O lugar-tenente no disse nada e saiu, insatisfeito com a deciso do tirano. J tivera a
chance de confrontar-se com Ablon, na ocasio do assassinato de Ishtar, e conhecia suas
potencialidades. Mas mesmo no concordando com a viso de seu prncipe, cumpriria o
comando. Mandaria um esquadro ao combate e, se o Primeiro General sobrevivesse, a sim
poria em prtica sua idia de atra-lo para a Torre das Mil Janelas e de l para o monte Megiddo.
         Megiddo, a Montanha no Extremo do Mundo,  o marco bblico para a extino do
planeta, profetizado como o local do embate final entre as foras do bem e do mal.


                                  FORMAO EM ESTRELA
         Durante toda a noite, Ablon e Aziel viajaram com o corpo ao vento, acomodados no
assento do jipe. Cruzaram o Negev at o pontal do golfo de Acaba, perto de Eilat, e de l
ingressaram finalmente no Egito. Ali, a estrada continuava descendo, mas mudava de nmero,
sendo assinalada nos mapas como Rodovia 66. Quando o dia ia raiando, dobraram para o
interior, para enfrentar rotas mais duras, e tomar um sinuoso caminho por entre as montanhas do
Sinai, onde o tecido era frgil como no alvorecer deste mundo.
         No deserto, mesmo  sombra das montanhas, o calor aumentou, e Ablon retirou o
sobretudo que o aquecera  noite. Enquanto guiava o automvel, Aziel conferia o trajeto,
analisando as rotas no mapa.
         -- Estamos muito prximos ao Mosteiro de Santa Catarina, no sop do monte Sinai --
avisou, enquanto o general tomava um dos caminhos da bifurcao que os levaria ao
monastrio. -- Agora que chegamos aqui, reconheo perfeitamente as indicaes de Gabriel.
Mais ao norte fica a montanha de Horeb, e em seu topo a caverna com o portal para o etreo.
         Continuaram a rumar por uma via menor, cheia de buracos no asfalto, e por ali seguiram
por mais meia hora, sob o castigo do sol. Em determinado momento, viraram  direita e
ingressaram num mundo extico, de estonteante beleza e macabras surpresas.
         Diante deles nascia uma colossal cordilheira de granito vermelho, com um amplo vale
cortando seu ventre. No meio, erguia-se o mosteiro, um gigantesco complexo de capelas,
baslicas e torres, cercado por altos muros de pedra, que, no entanto, parecia uma construo de
brinquedo, uma pea menor perante a imensido das montanhas.
         A membrana, naquele rinco isolado, quase no existia, o que fazia do stio um
santurio natural, preservado e mantido desde a criao do planeta.
         De repente, Ablon brecou o veculo e sentiu um odor adverso no ar.
         -- O que foi? -- perguntou Aziel, no silncio da vastido desolada.
         -- Sinto o cheiro da morte -- respondeu o renegado, tomando nas mos a Vingadora
Sagrada.


         O Mosteiro de Santa Catarina, encravado como uma jia no imo da pennsula do Sinai,
 um dos primeiros monastrios do mundo, fundado em 527 pelo imperador Justiniano. Desde
ento, tornou-se um remoto posto avanado da ortodoxia bizantina, e continua at hoje a receber
milhares de peregrinos por ano, curiosos por conhecer o local onde Moiss teria recebido os
mandamentos de Deus. Em seus prdios, monges e eruditos trabalham para conservar o lugar e
estudam centenas de manuscritos sagrados, guardados em seus preciosos acervos, s
comparveis  Biblioteca do Vaticano.
         Cercado por imponentes muralhas, o mosteiro posteriormente recebeu o nome da santa
Catarina, por seu corpo ter sido encontrado ali, no sculo IX, por sacerdotes gregos.
         Algumas partes do complexo so originais, mas outras foram destrudas por um
terremoto na Idade Mdia, e refeitas depois. O porto de acesso  pequeno, e figura quase
escondido atravs dos jardins e pomares que antecedem os muros, onde se situa tambm o
cemitrio monstico. Dentro da cidadela h muitos edifcios clebres por sua histria e beleza.
A baslica central data da poca da construo e conta com trs naves laterais em tpico estilo
bizantino. Uma porta de madeira entalhada leva ao acervo dos cones, nicos exemplares das
pinturas orientais romanas que sobreviveram ao perodo iconoclasta, quando milhares de
imagens foram quebradas. H tambm a Capela da Sara Ardente, a biblioteca, uma hospedaria,
o campanrio -- com nove sinos, doados em 1871 pelo ento czar Alexandre II da Rssia -- e o
sagrado Poo de Moiss, principal fonte de gua do mosteiro, que marca o ponto onde o profeta
teria encontrado sua futura esposa. Existe, ainda, uma mesquita ao lado do solar do depsito,
levantada pelos bedunos que ali trabalhavam no sculo XII.
         Ablon estacionou o jipe a exatos cem metros do jardim e a duzentos metros do porto
recortado na muralha. Deixou o carro de espada na mo e fitou seriamente o complexo.
         -- Os monges esto mortos. Seus corpos esto empilhados na baslica central. Dois
deles foram despojados na biblioteca.
         -- Como sabe? -- indagou Aziel. -- Quase no vemos a baslica oculta alm das
muralhas...
         -- Posso sentir o cheiro dos cadveres. Se querem nos levar para uma armadilha,
acabam de ter seu plano frustrado.
         E, de fato, era essa a inteno de seus inimigos.
         O farol do automvel, que o renegado acendera  noite e esquecera de desligar  aurora,
comeou a falhar, e o sistema eltrico do veculo apagou.
         -- Eis a cilada pela qual voc tanto esperava, Aziel -- disse o general.
         -- No, general, nada de cilada -- retrucou o ishim, abenoando a percepo sobre-
humana de seu lder rebelde. -- Pelo menos sabemos de onde vem o ataque.
         Entendendo que seu planejamento gorara, os agressores abortaram a emboscada e
resolveram lanar-se em aberto conflito. Nos largos do mosteiro, protegidos pelos muros de
pedra, materializaram-se ento duas centenas de querubins. Raramente os anjos formam
avatares dotados de asas ou carregam consigo armas atravs do tecido, porque o gasto de
essncia  enorme. Mas, naquele recanto santificado, a membrana era delgada, o que permitiu
que uma legio emergisse do mundo espiritual.
         Uma vez na Haled, o temerrio esquadro alou voo e subiu s muralhas. Seus soldados
anglicos l ficaram, parados, como abutres ao sol, acocorados no passadio, no alto dos prdios
e no telhado das torres. Vestiam-se como os anjos bblicos, tantas vezes descritos nas escrituras,
com placas douradas revestindo o arcabouo e braadeiras reluzentes presas ao punho. As asas
branqussimas, quando abertas, inspiravam respeito, ainda mais se combinadas com o empunhar
dos sabres -- flagelos msticos de inigualvel valor.
         No topo do campanrio aterrissou o lder: Euzin. Carregava na cintura a pesada Raio de
Ao, uma espada famosa por ser o terror das entidades etreas. Encarando-o com olhos de
guia, Ablon reparou que parte da cabea dela estava marcada por uma grave queimadura, um
dano recente, ainda no inteiramente cicatrizado. Ao captar-lhe o odor caracterstico, o general
lembrou-se dos miolos espalhados pelo cho de seu apartamento, no Rio de Janeiro.
         -- Ablon! -- gritou Euzin, e sua voz ecoou pelo vale. -- Ser que se recorda de mim?
         O Primeiro General sorriu e replicou com desdm:
         -- Como poderia esquec-lo, ainda mais depois de saber que foi vtima dos projteis
mgicos da Feiticeira de En-Dor.
         A expresso de Euzin engrossou-se em uma mscara de dio. Tal notcia, posta s
claras, o desonrava profundamente.
         -- Estamos aqui para defender o portal! Entregue-se agora, ou provar a ira da Legio
Formidvel. Este  apenas um pequeno esquadro. Outros esto chegando, e voc no resistir
s nossas espadas.
         Certa vez Euzin fora reconhecido como heri de guerra, e de fato era um bom lutador.
Mas o prestgio afetou-lhe a razo. Inseguro, temia perder sua glria. Estava sempre querendo
demonstrar fora e exibir-se perante os arcanjos.
         -- Pois diga ao seu prncipe -- replicou o renegado -- que no trato com facnoras!
Que venha ele mesmo me confrontar, se tiver coragem para isso.
         As asas dos querubins se agitaram -- os soldados queriam peleja. Nas mos de Ablon, a
Vingadora brilhava, como se tivesse vontade prpria e clamasse por sangue.
         -- Ora, proscrito, ento ainda resiste? Todos os seus companheiros esto mortos, e os
rebeldes so fracos. Vou arrebentar seu orgulho e acabar com sua esperana de vencer esta
guerra.
         -- Ameaas! E tudo o que sabem fazer. Balberith tambm me ameaou e agora est
morto. Se acha que pode me derrotar, ento traga sua Raio de Ao ao duelo, e veremos se ela 
preo para a Vingadora Sagrada.
         Cansado da petulncia do adversrio, Euzin ordenou:
         -- Peguem-no e tragam-me sua cabea!
         Esttico, o perverso comandante observou seus guerreiros decolarem em caada.
Deixaria que muitos morressem, e, quando o Anjo Renegado no pudesse mais lutar, ele
avanaria e lhe deceparia o pescoo.
         Como falces famintos, os anjos se aproximaram voando, e Ablon deu um passo 
frente, pronto para enfrent-los, mas sentiu que Aziel apertava seu brao.
         -- Ainda no, general -- disse e, sem mais explicaes, o renegado entendeu sua
inteno. Percebeu, pela viso e pelo olfato, que o ishim tinha o punho esquerdo fechado,
suprimindo a deflagrao de um poder colossal.
         Os atacantes no notaram a suprema concentrao daquele pequeno celeste, que se
escondia atrs do musculoso anjo guerreiro. Em um primeiro momento, nem pensavam em
agredi-lo, deixando que algum alado de compleio inferior o derrubasse depois. O que poderia
um ishim fazer a um querubim? Os querubins eram guerreiros, soldados, instrumentos de
matana. Nenhuma casta se comparava  sua habilidade em batalha.
         Quando o esquadro venceu os cem metros e se afastou dos jardins, uma fora divina
paralisou o deserto. De repente, no cu, formou-se uma assustadora coluna de fogo, uma pilastra
de chamas, que desceu ao solo como um trovo, imitando o brilho e a ardncia do sol. Em um
passe instantneo, formou-se entre os dois anjos e a legio uma monstruosa parede de flamas,
cuja largura tocava as montanhas e cuja altura atingia o firmamento.
         O susto provocado pela apario foi tamanho que, estarrecidos, os celestiais no
conseguiram parar. Juntos, penetraram com mpeto pelo muro de fogo.
         Terrveis gritos de dor ressoaram por todos os cantos do vale, elevaram-se aos cus e
tremeram a crosta da terra quando o batalho penetrou no calor das labaredas mortais.
         Igualmente impressionado, Ablon viu os alados cruzarem a flamejante pilastra e
surgirem do outro lado com a pele queimada e as armaduras escurecidas pelo fulgor assassino.
As armas msticas, to rgidas e fortes, entortaram-se em varas quebradias, fracas como carvo.
         Este  o verdadeiro poder dos ishins do fogo, quando usado na potncia mxima.
         -- V, Ablon -- disse Aziel. -- Minhas flamas no vo machuc-lo.
         E, convicto da palavra do amigo, o Anjo Renegado atravessou a coluna incandescente e
surgiu do fogo como um pesadelo  mirada de Euzin, que, trepidante, observava a espetacular
ao dos inimigos.
         O Primeiro General correu como um furaco pelos jardins, pulou sobre as muralhas e de
l saltou para o campanrio, de lmina em riste. Chocado, o temeroso lacaio de Miguel s teve
tempo para levantar a guarda e defender o poderoso golpe da Vingadora Sagrada. Quando as
duas armas enfim se chocaram, um claro acendeu e brilhou com um milhar de fascas.
         To forte foi a pancada que Euzin no susteve o impulso. Atrapalhado, despencou do
pinculo da torre, e teria se estatelado contra o solo se no ltimo momento no tivesse
conseguido minimizar o impacto com uma batida de asas. Sobre ele, veloz e insacivel, o
general golpeava sem parar, mesmo durante os mnimos segundos de queda, e no dava
descanso ao adversrio.
         Sem dificuldade aparente, Ablon atacou uma, duas, trs vezes, e na quarta girada o
metal enfim acertou o ombro do oponente, abrindo-lhe um corte fundo acima do brao.
Desnorteado, Euzin no tinha mais chance, e o renegado preparou a investida final, mas o
assalto foi aparado por outro celeste, e de repente o general viu-se cercado por mais anjos, que
protegiam seu chefe. Euzin no era de todo ignorante e reservara um grupo de pelo menos cem
indivduos para proteg-lo no interior da cidadela.
         Acometido por todos os lados, o renegado batalhava contra oito, dez, doze querubins
que mergulhavam em conjunto. Esquivou-se, bloqueou, rasgou o ar, e em cada contra-ataque
derrubava ao menos quatro de uma s vez. Mas eles eram muitos, e para cada um que caa, dois
o substituam. Ento, Ablon viu-se encurralado contra o muro e pensou como escaparia dali. O
mosteiro era compacto, cheio de prdios e becos, e no dispunha de uma via larga ou de grandes
espaos para combate.
         Com uma manobra perfeita, agrediu dois celestes, dividindo seus corpos como faca em
manteiga. Abriu uma passagem por entre eles e disparou, circulando ao redor das muralhas. Sua
celeridade, combinada aos poderes anglicos, permitiu que corresse com os ps na parede,
transformando os muros em um percurso de morte. Os inimigos que se interpunham eram
derrubados s dezenas, aniquilados antes que pudessem descer suas espadas.
         Quando s restavam alguns, o bando recuou, mas o renegado no os deixava fugir.
        -- Ele  muito rpido -- gritava um, que supostamente era o capito de batalha. --
Debandar! Vamos fugir daqui!
        Ao ouvir a ordem de evaso, Euzin, que voltara ao campanrio, esbravejou do alto da
torre:
        -- No retrocedam! Continuem lutando, seus inteis! O reforo j est a caminho --
estimulou, com um rio de sangue a escorrer pelo ombro.
        Mas nem o clamor foi capaz de impedir a escapada. Os querubins, desatentos  ordem
do chefe, voejaram para longe, galgando as alturas, onde o renegado, sem asas, no poderia
alcan-los.
        Vitorioso, Ablon pisou contra o firme cho do monastrio e parou sozinho em uma
praa central. Dali, divisou o cruel comandante, que continuava esttico no topo do prdio.
        Fulminado pelo olhar, Euzin engoliu em seco, tremeu e quase fugiu, mas um fenmeno
previsto o fez ficar para uma nova rodada.
        O Anjo Renegado sentiu, seguidamente, a expanso do tecido, o que anunciava a
materializao de um novo esquadro. Imediatamente, ao ver o enxame de anjos em formao
no astral, prontos a cruzar a membrana, Ablon preocupou-se com Aziel. Mesmo dotado de
poderes admirveis, o ishim no resistiria a mais um assalto. A elevao da coluna de fogo o
deixara arrasado, porque essas demonstraes de poder eram por demais cansativas. Ademais, j
tinha usado essncia para dissipar e recompor seu avatar, ao se livrar dos tiros na noite passada.
Por isso, em vez de partir ao confronto com Euzin, o general preferiu retornar ao vale, onde
poderia lutar mais livremente, e ainda defender o amigo.
        Escalou habilmente as muralhas, saltou para o jardim e volveu ao stio onde estacionara
o jipe de guerra. Aziel alegrou-se ao v-lo inteiro e saudvel.
        -- O que fazemos agora? -- indagou o ishim. -- Fugimos?
        -- Ainda no -- retrucou o guerreiro, contemplando a numerosa legio que se
materializava nos cus.


        Euzin decolou como um foguete para encontrar o reforo que chegava. Mais de
quinhentos celestiais, armados e trajados para o combate, tomaram forma, copiando na terra
seus corpos astrais.
        -- Vamos ser trucidados! -- protestou Aziel, ao ver o esquadro que sobrevoava o vale.
Unido-se em um grupo coeso, os soldados desenharam a formao de um V, imitando uma
ponta de flecha. -- Temos que alcanar a trilha que nos levar  caverna. Se corrermos, ainda
poderemos chegar  passagem antes que nos peguem -- sugeriu, apontando para a fissura na
rocha, que subia, estreita, e atingia o topo do monte Horeb.
        --  justamente isso o que eles querem: nos encurralar nas montanhas -- explicou o
Anjo Renegado, experto nas tticas anglicas. --Antes de avanarmos, temos que desfazer a
formao. Se no tivermos espao para agir, eles atacaro s pela frente, e a fora do assalto
ser multiplicada mil vezes. Esse  o objetivo de se posicionarem como um bico de seta.
        Ao ouvir a explanao, o ishim aceitou o comando, entendendo o estratagema inimigo.
Enquanto as mos de Aziel irrompiam em chamas, Ablon levantou a espada, e os dois
esperaram de costas coladas. Entrementes, no cu, o confuso comandante Euzin viu sua
estratgia ser abalada. Nunca esperaria que dois anjos, por mais poderosos que fossem,
permanecessem ali, no centro do vale, para enfrentar meio milhar de combatentes. Imaginou
que correriam e se meteriam pela garganta rochosa, onde poderiam ser rapidamente aniquilados.
        Desprovido de alternativa melhor, o arrogante celeste gritou:
        -- Preparem o assalto em estrela! Concentrem todos os golpes no renegado, pelos
quatro lados e por cima.
        O ataque em estrela consistia em um embate quntuplo. De cima, cinco colunas de
querubins mergulhavam. Ao chegarem prximas ao solo, quatro delas davam rasante e se
lanavam contra o oponente pelos quatro lados. A quinta coluna vinha reta, em queda sobre a
cabea do inimigo, impedindo que ele saltasse para o cu.
        Entendendo a mudana nos planos, Ablon falou:
        -- Afaste-se, Aziel.
         -- Vai ficar sozinho no ncleo da estrela?
         -- No sei se serei rpido o bastante para acert-los, mas posso bloquear os golpes. A
cada investida frustrada, eles ficaro atordoados e sero jogados para o lado, e a talvez voc
possa incendi-los com suas flamas divinas.
         Sem intervalo para discusso, a Chama Sagrada acatou a idia e recuou para perto do
morro, buscando refgio no sop da montanha. Acima, Euzin berrava:
         -- Pelo arcanjo Miguel, vamos matar esses malditos rebeldes!
         E os soldados responderam com um nico urro exaltado:
         -- Pelo arcanjo Miguel!
         Desceram rodopiando, com as espadas afiadas, para perfurar o renegado como projteis
de arma de fogo. Determinado a matar o general a qualquer custo, o comandante no se
preocupou em acertar Aziel.
         Quando a multido bem alinhada de anjos, vinda do cu, se chocou contra o alvo no
centro da estrela, uma mirade de fagulhas ascendeu do corao da batalha. Com velocidade e
percia admirveis mesmo para os maiores celestiais, o Anjo Renegado defendia cada acometida
e contra-atacava pelos cinco cantos, despedaando o metal das armaduras e a carne dos
avatares. Os olhos de Aziel eram incapazes de acompanhar a ligeireza das manobras, e daquele
nicho afastado a Chama Sagrada s distinguia as mltiplas centelhas do ao em choque. Em
poucos segundos, acumulava-se aos ps do general uma montanha de corpos mutilados,
destroados, cobertos de sangue e penas rasgadas.
         A formao em estrela tinha fracassado, mas a legio no estava derrotada. Pelo menos
metade dela continuava intacta, e Euzin mais uma vez mudou a estratgia.
         -- Cerquem-nos em abbada! -- estourou, fremindo de dio. -- E tragam o ishim para
dentro do crculo.
         Cercar em abbada significava cingir normalmente o inimigo, aprisionando-o no
interior de uma roda de soldados, mas tambm posicionando combatentes sobre sua cabea,
fechando uma abbada vivente. Provavelmente, o objetivo do comandante era criar um
ambiente de opresso, dando a falsa sensao de que o inimigo estava completamente
subjugado.
         A estrela desfez-se, e os anjos declinaram ao solo em espiral, prontos para rodear os
rebeldes. Na base da montanha, um querubim muito destro agarrou Aziel pelos braos, alou
voo e o largou ao lado do renegado.
         Os dois celestes viram-se juntos, no meio de uma sufocante redoma de guerreiros
alados, que lhes apontavam lminas terrveis.
         Uma fileira abriu-se pelo meio dos lutadores, e dela surgiu o petulante Euzin, ferido
criticamente no ombro, mas ainda pretensioso e audaz. Ablon tomou flego e aguardou, porque
agora Aziel estava na linha de confronto.
         -- No pode vencer a todos ns, renegado -- afirmou o inimigo, desfraldando as asas
como fazem as aves para impressionar suas presas. -- Recebi permisso para deslocar quantos
soldados quisesse. Mais querubins chegaro, e voc ser torturado -- e empunhou sua Raio de
Ao. -- Em honra de seu passado herico, ofereo-lhe uma morte digna. Largue a espada e
ajoelhe-se. Prometo que nem sentir o fio do metal dividindo-lhe a testa.
         Ablon olhou ao redor e compreendeu que estava absolutamente cercado. Aziel tocou-
lhe o brao, incitando-o a no se entregar.
         -- No h sada -- reforou o desagradvel Euzin, vendo a sombra da dvida no
semblante do anjo guerreiro. -- Se for capturado, nossos serafins arrancaro informaes
preciosas de sua mente. O que estou lhe propondo  uma execuo gloriosa e indolor, que lhe
devolver o renome dos tempos antigos.
         O Anjo Renegado desceu a guarda, pensativo, e tirou o sobretudo, imundo de sangue.
Olhou para as prprias mos, observou o cabo da espada e encarou Aziel, que tanto o ajudara
naquela tortuosa viagem. Trocou com o amigo um ltimo olhar de agradecimento e depois
jogou ao cho a Vingadora Sagrada.
         -- No! -- sussurrou Aziel. A face de Euzin desenhou um sorriso malicioso. Sempre,
desde os dias no Castelo da Luz, Euzin almejara vencer o Primeiro General, mas nunca tivera
habilidade para cham-lo ao duelo. Agora, de uma maneira ou de outra, cumpriria sua demanda
vital e com isso se firmaria como o grande oficial de Miguel.
          O Anjo Renegado ajoelhou-se perante Euzin. Uma quietude abissal encheu a paisagem.
          Agachado, Ablon fechou os olhos em meditao, e o comandante ergueu a espada, que
j desceria para rasgar o crnio do irredutvel rebelde.
          Mas, no momento em que a lmina desceu, o punho energizado de Ablon subiu para
defrontar-se com o fio da Raio de Ao. E to incrvel era a potncia da Ira de Deus que um
estrondo sacudiu o deserto, partindo em dois a arma mstica. Como se no bastasse, o soco
continuou seu trajeto, atingindo em cheio o rosto de Euzin, que foi arremessado para alm das
fileiras.
          Ningum -- nem Aziel, nem os anjos no cu, nem os celestes na terra -- conseguiu se
mover ante o espetculo de inigualvel grandeza. O que no sabiam os espectadores era que, por
milhares de anos, o renegado combatera sozinho na terra, desprovido de espada. Nessas
condies, desenvolvera ao mximo a habilidade de lutar desarmado e aprimorara a Ira de Deus
ao mais alto grau. Em luta, suas mos eram to letais quanto o metal afiado.
          Em um movimento esperto, Aziel agiu, fulminando os desprevenidos soldados na
retaguarda com uma rajada de fogo. Em atitude concatenada, Ablon saltou para frente,
golpeando os alados com chutes e socos.
          Mesmo numerosos e armados, os soldados do grupamento sucumbiram ao caos. Alguns
celestiais recuaram, amedrontados, e outros atacaram, irados, sem nenhuma disciplina ou
planejamento marcial. Experiente e ligeiro, o Primeiro General se desviava dos sabres dos
agressores e respondia com golpes que os punham em nocaute. Em certas ocasies se
esquivava, e em outras bloqueava as espadas com a dureza das mos. Depois de muitos assaltos,
Ablon gritou a Aziel, que se protegia no meio de um crculo de fogo:
          -- Agora, Aziel! Abra caminho! -- ordenou, e o ishim fez queimar o ar com uma
torrente de lava, liberando espao para a evaso. --Vamos para a trilha, enquanto a legio est
consternada -- avisou, recuperando do solo a Vingadora Sagrada.
          Dispararam os dois pelo vale e correram como nunca at uma fissura no sop da
montanha, que subia em uma trilha estreita para o topo do monte. Antes de entrar pela vereda,
Aziel olhou para trs e divisou centenas de anjos mortos, estirados na terra.
          A subida, extenuante e lenta para pessoas comuns, no fadigou os heris, que a
galgavam com vontade e ardor sobre-humanos.
          Progrediram pelo caminho, e perto do fim a garganta se abriu.
          Adiante, avistaram a caverna.


                              ASSIM MORREM os INJUSTOS

        A montanha de Horeb, um dos pontos extremos do Egito, fica ao sul do monte Sinai, e
talvez por isso os dois picos tenham sido relacionados nas lendas como um mesmo lugar, e
tomados como unos pelos estudiosos hebreus. O terreno, nessa parte do deserto,  rido,
pedregoso e irregular, com incrveis morros de granito, completando assim uma longa
cordilheira de rocha vermelha, cujo cume mais elevado  o monte Katharina, com 2.637 metros
de altura.
        Aproximadamente ao meio-dia, Ablon e Aziel deixaram a vereda,  medida que o
caminho se abria em um extenso plat, de onde facilmente se enxergava a entrada para uma
pequena caverna, uma gruta comum e pouco atraente.
        A passagem que conduzia  caverna era baixa e escura. Mas, antes de atravessarem o
umbral, Ablon escutou batidas regulares de asas ao vento e imediatamente olhou para trs.
Descia do cu o insistente Euzin, ferido no ombro e no rosto. Segurava um sabre qualquer,
provavelmente pego de um soldado cado.
        O comandante aterrissou no plat, mas Ablon no tinha mais tempo para confront-lo.
Perdera minutos preciosos lutando contra a Legio Formidvel e agora precisava correr e chegar
ao plano etreo antes que a Batalha do Armage-don comeasse.
         -- Alto l, fugitivo! -- chamou o indesejado inimigo. -- No pense que escapar de
mim to facilmente. Ainda no nos batemos em apropriado confronto.
         -- No tenho mais tempo a perder com voc, Euzin. Conforme-se com sua meia derrota
e felicite-se por no estar entre a montanha de mortos.
         -- Uma vez, proscrito, voc foi o maior de todos os generais -- admitiu. -- Sempre
quis super-lo, mas nunca tive oportunidade. E ento, quando eu planejava desafi-lo, voc e
sua irmandade foram expulsos do cu. Mas sempre soube que chegaria o dia em que nos
veramos de novo e eu cumpriria minha misso. Agora, este dia chegou! -- exclamou, em pica
eloquncia. -- Foi pensando nisso que ascendi e me tornei um general. Este  o momento de
lutarmos at a morte, enquanto o mundo se acaba.
         -- Sua atitude em nada me surpreende, Euzin. Todos que dizem me odiar apresentam a
mesma impulsividade hipcrita. Muitos de vocs me proferiram injrias, mas por que no
vieram em meu encalo quando eu estava sozinho na terra? Em vez disso, tenta me surpreender
numa emboscada, escoltado por uma legio de centenas de anjos.
         Em curiosa resposta, o perverso Euzin relaxou a defesa e imergiu em pensamentos
profundos. Maneou a cabea, reflexivo, e olhou para o cho. No final, reconheceu, era s um
heri fracassado, frustrado por nunca mais ter recuperado a glria das batalhas antigas.
         -- Seu maior inimigo no sou eu, Euzin -- concluiu o general. -- Seu grande inimigo 
o medo.
         Indefeso contra a verdade que lhe carcomia o esprito, Euzin decidiu finalmente que,
diante do drama, preferia morrer. Via-se como o grande oficial do paraso, o forte, o primeiro!
Agora, era matar ou morrer. Com um brado colrico, disparou ao combate, e o renegado
analisou o impasse. O que faria? No podia perder nem um minuto que fosse, mas tambm no
podia ignorar o desafio.
         -- Entre na caverna, general -- sugeriu Aziel. -- Ele  um forte oponente, e levar
tempo at voc derrub-lo. Gabriel e os rebeldes o esperam. Dessa vez, eu serei o adversrio de
Euzin.
         Ablon sentiu um aperto sensvel no peito, o mesmo que sentira ao se separar de Sieme.
Aziel era um ishim influente, sbio e poderoso, mas grande parte de sua energia havia sido
consumida na batalha campal e no confronto da noite passada. Por outro lado, Euzin, embora
no fosse o melhor, era um exmio combatente, e os querubins so mestres na ao corpo a
corpo. O Anjo Renegado concluiu, desolado, que dificilmente a Chama Sagrada dominaria o
duelo.
         -- Depressa -- reforou Aziel, com labaredas danando nos braos. -- Muitos
dependem de voc.
         Os dois celestes eram amigos havia sculos, e o general relutou em deix-lo. Mas, como
lutador acostumado  guerra, estava sujeito a esse tipo de coisa. s vezes achava-se por demais
impassvel nos assuntos do corao, mas no poderia ser diferente. Era um predador, habituado
 matana, e tambm um soldado. Por criao, era um agente da morte.
         Mas, ento, antes que se enfiasse na lapa, ouviu o som agudo de uma seta em trajetria
certeira. Uma flecha dourada rasgou o ar como uma cusparada divina e trespassou a couraa de
Euzin, perfurando-lhe o peito. Paralisado, o vil comandante sibilou um insulto e depois tombou
para sempre, desmoronando sobre as pedras rubras do monte Horeb.
         No limiar da caverna, os celestiais enxergaram, aliviados, a autora do disparo, que to
afortunadamente pusera fim ao impasse. Uma arqueira alada, de rosto srio e grande beleza,
fitava os celestes. Portava um arco de ouro e carregava uma aljava de setas msticas no espao
entre as asas. Os longos cabelos castanhos desciam soltos at os quadris e brilhavam ao reflexo
da cota de malha. Aquela era Varna, lugar-tenente de Gabriel e lder suprema do regimento das
arqueiras.
         -- General, o Mestre do Fogo o aguarda -- convocou a mulher-anjo, sempre austera.
Aliviado, Aziel permitiu-se um sorriso, enquanto Ablon recolhia a Vingadora Sagrada.
Lembrava-se muito bem de Varna e de sua frieza no olhar. Estava feliz em t-la como aliada.
         Guiados por Varna, o Anjo Renegado e a Chama Sagrada caminharam para o interior da
caverna. O ishim ainda encontrou um instante para olhar, num ltimo segundo, o corpo de
Euzin prostrado nas rochas.
        -- Tudo o que ele queria era confrontar o Primeiro General. E nem isso conseguiu.
Euzin falhou em sua demanda vital.
        Ablon encarou o avatar derrubado e replicou, sem muita lamria:
        --  assim que morrem os injustos.


        A caverna ampliou-se em uma galeria comum, no muito grande, com um salo rochoso
que terminava em uma passagem no lado posterior  entrada. Era quente e escura, e Ablon se
deslumbrou ao ver que, em suas paredes, continuavam marcadas inscries ancestrais,
mundanas, gravadas pelos profetas de ou-trora.
        Varna cruzou o umbral, e os dois anjos acompanharam seus passos. Pela primeira vez
em sculos, desde seu expurgo do cu, o Primeiro General sentiu-se atravessando a membrana e
entendeu que aquele limiar era o famoso portal, atravs do qual o Mestre do Fogo falara a
Moiss.
        Dentro em pouco, dois antigos inimigos, Ablon e Gabriel, se encontrariam novamente.
        E disso dependeria o destino do mundo.


                         "LUTAREMOS AT o LTIMO SOLDADO"

          Uma emanao mstica de indescritvel potncia surgiu adiante, ao centro da caverna
que se alargava com o fim da passagem. Do lado de l, atravs do portal, a gruta se expandiu em
um amplo salo natural, to escuro que seus nichos mais negros escapavam  percepo
aguada do general. Um ponto de luz, ao norte, indicava a sada. Os trs anjos j no estavam
mais na Haled. Acabavam de ingressar no etreo, a camada espiritual mais profunda alm do
tecido.
          Os celestiais se voltaram ao foco da vibrao, a mesma energia suprema que dominava
toda a galeria. Sentada, uma figura de impenetrvel tranquilidade meditava, e no peito residia o
ncleo de sua fora. Trajava uma armadura completa, de um dourado brilhoso, e carregava uma
espada embainhada no colo. Os olhos fechados eram a imagem da perfeita harmonia, reunindo
em si o cheio e o vazio, a lei e o caos, a luz e as trevas eternas. O Anjo Renegado reconheceu a
austeridade daquele magnfico semblante e logo identificou sua essncia.
          Ali,  distncia de um toque, descansava aquele que fora, antigamente, um de seus mais
clebres adversrios: Gabriel, o Mestre do Fogo. Teria transmutado sua ndole e passado de frio
assassino a fiel defensor das causas humanas? O que estimulara to repentina transformao? O
nascimento da Criana Sagrada iluminara-o de fato, ou o arcanjo, a exemplo de Lcifer, usava o
ideal da liberdade para incitar uma rebelio egosta?
          Um fragor mudo no espao, que ecoava e sacudia o esprito, imitou a exploso de um
milhar de vulces -- Gabriel abria os olhos. De repente, o universo pareceu ter ficado menor,
tamanhas eram a presena e a sabedoria daquele gigante e a majestade que transmitia.
          Varna ergueu a mo em aceno. Ela e Aziel deixaram a caverna.
          -- Sieme no regressou -- reparou o Mestre do Fogo. -- H um desequilbrio na
fluncia do cosmo.
          -- Sieme est morta -- anunciou Ablon. -- Decidiu ficar em Jerusalm e defender sua
causa.
          --  a mesma causa que nos une, general, que nos completa e nos fortalece --
aproveitou, enxergando o relmpago das eras. -- Eis que agora um ciclo se cumpre. Encontro-
me de novo contigo, antes do fim e na vspera do crepsculo dos tempos.
          -- O crepsculo dos tempos... -- refletiu o querubim, recordando as palavras de
Korrigan. -- Foi esse o motivo de ter me poupado? Tinha previsto meu retorno s legies que
viria a treinar?
          O Mensageiro descruzou as pernas e levantou-se do cho. Sua bela armadura era uma
relquia incrvel, e tambm sua arma, a perigosa Flagelo de Fogo.
         -- Ao longo da histria, previ muitas coisas -- explicou. -- Sou o Anjo da Revelao e
ganhei de meu Pai o dom da viso. No incio, achei que minha onis-cincia estivesse  altura de
Deus, mas o livre-arbtrio dos homens me surpreendeu e ludibriou meus instintos. Certo dia,
enfiado na depresso do infinito, percebi meu engano. Ningum, nem mesmo o Altssimo, pode
prever o futuro. Tudo o que vislumbramos so caminhos, trajetrias abertas. Cabe a cada um,
homem ou anjo, deus ou demnio, escolher seu destino -- ele discursava como o maior sbio da
terra. -- De minha parte, sempre guardei a esperana e cultuei seu regresso. A certeza no
existe, nem a perfeita verdade. Mas sempre nos resta a f, que nos faz confiar no impossvel. E
o impossvel, com frequncia, se torna concreto.
         Absorto pela impressionante orao, Ablon queria, realmente, acreditar no arcanjo, mas
ainda era forte o ressentimento. Se Gabriel queria tanto t-lo consigo, por que no o aceitara
anteriormente? Milnios antes os dois haviam duelado, e durante o confronto o Mestre do Fogo
nada falara sobre seu exrcito ou sobre sua inteno pura. Preferira, em vez disso, manter
segredo, expuls-lo de Jerusalm e tir-lo do rumo de sua misso.
         -- E por que no me incorporou s suas legies quando me viu na Cidade Sagrada?
Como nico sobrevivente da conjurao, eu represento os renegados. Por que no me permitiu
integrar suas tropas, se afirma que seu propsito  honrar os ideais da irmandade?
         O Mensageiro sorriu e o encarou como a uma criana. Em ocasies muito raras sorria,
porque as emoes, boas ou ruins, abalam a harmonia do mundo. No h bem sem mal, amor
sem dio ou alegria sem tristeza.
         -- Desde o dia em que foi expurgado, vi a vontade pulsante em seu corao. Sua misso
derradeira e seu maior desejo so despojar o arcanjo Miguel. Mas o Prncipe dos Anjos nunca
foi derrotado, nem pelos deuses das trevas que habitavam a sombra do espao. Nenhum anjo
est apto a derrub-lo, talvez nem eu conseguisse venc-lo. Aquele que me enfrentou na colina
no era o Ablon de hoje. Era um general hbil, valoroso e justo, mas incapaz de derrotar um
arcanjo. Agora escute-me, celeste. S o maior dos alados vencer o tirano. Seus fracassos de
outrora o transformaram em objeto de lendas. Suas batalhas comigo e com a Estrela da Manh
lhe deram a esperteza para desbancar o monarca. Se o tivesse aceitado em momento passado,
sua fora seria desperdiada. E ento no passaria de um cone largado, desmistificado e inerte.
         -- Inerte?
         -- Por sua maldio, no poderia voltar ao paraso e liderar a guerra civil. As portas do
cu lhe foram fechadas, e nenhum portal o levaria  morada de Deus. Assumiria o posto de
comandante no exlio, visitado por anjos, e por isso muito mais susceptvel a ser encontrado por
seus caadores. Como tal, poderia ser achado, perseguido e morto. Mas, em vez disso, o que se
sucedeu? Continuou renegado, excluso, caminhando pela escurido do planeta. Combateu
contra os melhores e desenvolveu uma tcnica nica, quase secreta. E, agora, chega a mim em
ocasio oportuna, quando os esquadres o esperam para a maior das empreitadas.
         -- A Batalha do Armagedon.
         -- Nosso efetivo  trs vezes menor que o do inimigo. Nossos soldados so destros, mas
a simples destreza no  suficiente para vencer esta guerra.
         -- E do que mais precisam, se j tm a coragem?
         O Mestre do Fogo caminhou  volta da gruta. Afagou o cabo da espada, com a lmina
oculta por uma bainha de ouro.
         -- A coragem deles converte em voc, como o ltimo dos renegados. A irmandade 
uma idia, um conceito, um smbolo, e voc carrega a marca desses heris, a bravura perdida de
uma era remota.
         Ablon encravou a Vingadora Sagrada no cho e sentou-se sobre uma pedra.
         -- Quase posso ler seus pensamentos -- continuou o Anjo da Revelao. -- No fundo,
ainda odeia os arcanjos, todos eles, e compreendo sua clera. Sofreu deveras com a
perversidade de Miguel e com o cinismo de Lcifer. E o que os motiva? Cime, luxria, ira e
ganncia. No foram essas as razes que me incitaram  revolta.
         -- O Salvador! -- exclamou o renegado. -- Miguel estava determinado a matar a
Criana Sagrada, e voc no aprovou o assassinato. Mas por qu, Gabriel? Depois de todo o
sangue que derramou, depois de tantos massacres que promoveu. Como um menino mortal pde
convert-lo ao ideal de justia?
         O arcanjo caminhou para um canto escuro e esquivou o olhar do ponto de luz, mas
Ablon reparou em sua tristeza. Entendeu, finalmente, que alguma dor perptua o feria, uma
cicatriz que no se fecharia jamais.
         -- Por que voc veio  batalha? -- Gabriel desafiou. -- H uma semana, repudiaria
qualquer ao de campanha. Estava resolvido a ficar fora do teatro da guerra, at a Feiticeira de
En-Dor ser raptada -- a expresso do Primeiro General endureceu ao se lembrar do sofrimento
da amiga. -- Seu corao  sincero, mas no estaria aqui no fosse a captura da necromante. Na
profundeza de seu esprito,  por ela que luta.  o seu amor que o impulsiona ao combate. Nesse
ponto, ns dois somos iguais.
         -- Nunca pensei que estivesse atrelado a tal sentimento.
         -- Igualmente surpreso, descobri que no era imune ao ardor da matria. Miguel sempre
teve averso  raa mortal, e, como mensageiro, era minha funo executar, na Haled, suas
tarefas macabras. Mas, ao formar um avatar, estava sujeito aos atributos da carne.
         -- A paixo. Tambm foi tocado por ela?
         -- Assim como voc, certa vez conheci uma mulher, uma moa comum, humana,
simples e pura como as gotas de orvalho. At ento, pensava ter visto de tudo e experimentado o
xtase que deriva da grandeza do cosmo. Vi a criao do universo, o princpio da luz e a feitura
do mundo. Lancei poeira estelar  negritude do abismo e presenciei a confeco do tecido.
Antes do primevo fulgor, lutei contra os deuses das trevas e derrotei divindades to antigas
quanto meu Pai Reluzente. Mas, em sua sinceridade humana, a mulher me mostrou o
significado das coisas pequenas, que eu no enxergava l do alto do cu. Ps-me em contato
com a terra, levou-me paia tomar banho de rio, mostrou-me o prazer de deitar sob as estrelas e
de procurar o nascimento de vsper no leste. Em sua singela percepo, ela me aclarou a
felicidade da vida.
         Digerindo lentamente o longo discurso, o general foi assaltado por uma antiga
lembrana. Recordou-se de uma frase proferida por Gabriel, quando se encontraram no monte
das Oliveiras: "Estamos resolvendo um problema de famlia aqui".
         -- Voc concebeu o Iluminado! -- desvendou o querubim. --  o verdadeiro pai da
Criana Sagrada.
         -- Imagine a distino desse ser -- o arcanjo prosseguiu, e a emoo consumiu sua
aura. -- Agraciado com o brio celestial e dotado do arbtrio dos homens.
         -- No podia deixar que Miguel o matasse.
         -- Por meio da mulher e do Menino, conheci o amor. Compreendi, finalmente, o que
meu Pai sentia por mim, e toda a obscuridade se dissipou. Foi esse amor que me afastou da
maldade e me fez reconhecer a humanidade como legado do Criador.
         E ento, sentado na rocha, o general encontrou, na euforia de imemoriais revelaes, um
autntico sentido para todas as coisas. Se o Salvador era um legtimo descendente celeste,
estavam certas as escrituras, que ilustram suas proezas divinas. Da me, herdara a doura da
alma, a humildade e a bondade que no demarcava fronteiras.
         Mas, a despeito de toda lisura, Ablon ainda no se entregara  candura do Mestre do
Fogo, e no se entregaria rapidamente.
         -- A dvida coroa seu rosto -- constatou Gabriel. -- E natural a confuso. Como
poderia me creditar, se nunca lhe dei provas de minha boa vontade? Nunca fui seu amigo.
Nunca lhe estendi a mo nos perodos de crise. Nunca o recebi em um abrao aprazvel. Mas
entre os que o aguardam h velhos parceiros, companheiros de eras, que no esquecem sua
energia. E neles que deve confiar, porque a amizade  o suporte do mundo.
         Nesse momento, uma luz maravilhosa quebrou o breu da caverna. Mais parecia um
astro dourado cado na terra, e seu claro era intenso e delirante. Uma aura de sublime beleza o
rodeava, como uma exploso csmica de extraordinrio fulgor. Quando avanou, suas feies se
fizeram aparentes.
         Era Nathanael, o Mais Puro, desde milnios sumido.


       O anjo de cabelos de ouro e olhos de bronze trazia a esperana com seu brilho eviterno.
Nathanael era um ofanim, um anjo da guarda, leal e caridoso, agradvel e belo, forte de esprito.
Era tambm firme de carter e determinado na defesa dos homens. Na poca do dilvio, seus
preciosos esforos salvaram No e ajudaram na preservao da espcie humana. Depois, o Mais
Puro visitara o renegado nas montanhas da China e o convocara  proteo da Criana Sagrada.
Mas, desde que Ablon perdera seu rastro, ao desfalecer no bosque Tin-Sen, o ofanim
desaparecera.
        -- Paz, meu amigo adorado! -- tranquilizou o luminoso celeste. -- Suplico-lhe perdo,
pela desiluso que causei. Sei que fui glido e insensato, mas minha demanda acabou por
tornar-se o ministrio do mundo.
        Ablon ainda se sentia triste pelo abandono do amigo; custava a acreditar em traio ou
descaso, mas a prudncia era sua marca, e no se contentou com a rogativa. Seria aquele o
verdadeiro Nathanael, emergindo da negritude, ou tudo no passava de um ardil do arcanjo para
confundir-lhe os sentidos?
        --  voc mesmo, ofanim, que se esconde por trs dessa mscara brilhosa? --
perguntou, desconfiado. -- Percorri meio mundo para honrar nosso acordo. Cruzei desertos e
mares, venci bosques e rios, caminhei por plancies e escalei montanhas. E onde voc estava,
quando finalmente alcancei a Judeia?
        O Mais Puro inclinou a cabea, em um lamento sincero. Em eras passadas, Nathanael
fora um amigo leal, to prximo do Primeiro General quanto Orion, Aziel e Ishtar.
        -- Eu estava ali mesmo, na Cidade Sagrada.
        -- E por que no veio  minha presena?
        -- Eu continuava em misso -- insistiu. -- Por tudo o que j havia feito pela raa
mortal, fui designado pelo Mestre do Fogo para, do astral, acompanhar cada passo do Salvador
e salvaguardar sua vida. Antes de o Menino nascer, voei ao seu encontro no leste, para avis-lo.
Mas, na euforia de t-lo conosco, fui tolo e imprudente e no consultei o Mensageiro.
        -- E eu -- interpelou Gabriel, com sua voz sempre meldica -- no permiti que voc
viesse a ns, pelos mesmos motivos pelos quais agora o trouxemos aqui. Nathanael foi
imprudente ao procur-lo sem me avisar, mas sua inteno era boa. Certamente ele confia em
voc, mas tomou uma atitude emocional, tpica dos ofanins. Se deseja julgar algum, julgue a
mim, general, que um dia o expulsei da Terra Santa e o lancei aos perigos terrenos.
        O Anjo Renegado encarou Gabriel com seus inesquecveis olhos cinzentos, e neles no
havia mais ira, dor ou desgosto. Conhecia os prprios limites e imperfeies. No se
considerava realmente um heri nem um comandante pico, muito menos um mrtir.
        -- No devo julg-lo -- acrescentou Ablon. -- Quem sou eu para faz-lo? Confiei na
honestidade de Lcifer, e em que resultou meu julgamento? Depois, preferi lutar com voc em
vez de escut-lo, repudiando suas boas palavras. Como celestes, no somos perfeitos. No
somos deuses e nunca seremos. Aqueles que buscam superar o Altssimo cairo, e assim ser
com o arcanjo Miguel. Mas no serei eu a conden-lo. Como fugitivo, j estive  beira do dio.
Foi o amor de Shamira que preservou meus valores. Ns dois encontramos quem nos mostrasse
o caminho, mas e quanto a ele? E quanto a Miguel? No fosse nosso corao tocado pela
ternura, talvez estivssemos como ele, cheios de clera e demncia.  por isso que no o
recrimino. Contudo, h coisas que precisam ser feitas. No tenho o direito de julg-lo, mas
detenho a legitimidade para desafi-lo. Sou um guerreiro. Essa  minha natureza.
        -- Ento conclua sua misso, general -- incitou Gabriel, em timbre suave. -- Chegou o
Dia do Ajuste de Contas.
        E assim, sem que ningum precisasse gui-lo, o Anjo Renegado rumou ao ponto de luz,
que indicava a sada da gruta. A passagem esticou-se em uma abertura, encravada perto do
cume do morro.
        Sob o despenhadeiro estendia-se uma vasta plancie, que dominava todo o deserto. Dali
o general vislumbrou o acampamento rebelde, pontilhado por tendas brancas e negras que
ocupavam a imensido da esplanada. Milhes de celestiais, equipados com espadas, lanas e
arcos, treinavam no solo e se exercitavam no ar, mergulhando e investindo, rapinando e
esquivando, praticando manobras para o combate. Outros voavam em patrulha, vigiando o
planalto, enquanto, em suas barracas, os comandantes traavam planos e definiam tticas. Ablon
provou novamente o cheiro do metal, a excitao dos lutadores e o ardor que antecede o
confronto. Ao todo, contou pouco mais de dez mil legies, cada uma com cinco mil soldados
alados. Eram to numerosos que lotavam o cu e a terra e superavam em milhes qualquer
exrcito humano j registrado no decurso da histria.
         Ao longe, uns 350 quilmetros ao norte, a plancie terminava em um crculo de
montanhas de aspecto sombrio, que guardava no centro a sinistra Fortaleza de Sion. A torre
inimiga despontava alm das cordilheiras, como uma lana fnebre encravada no ventre do
mundo.
         Exaltado pela emoo, Ablon lembrou-se da cidade afundada de Enoque e da proftica
viso de Hazai, o capito dos renegados, que fizera da metrpole seu tmulo. E assim,
visualizando as legies que cortavam a paisagem, Ablon entendeu que, antes do expurgo, era
exatamente como aqueles celestes, cheios de esperana, fora e vontade. Por um golpe do acaso,
convertera-se em smbolo, elevado  alteza pelo dio do prprio inimigo. Agora no podia mais
recuar. O Prncipe dos Anjos havia capturado Shamira, matado seus melhores amigos e
fulminado cidades inteiras, aniquilando milhes de inocentes. Para aquelas pessoas, o general
traria a vingana, mas por si buscaria a justia.
         Em p,  sua esquerda, tinha o bondoso e luminescente Nathanael, que o incentivava 
gentileza, e,  sua direita, escoltava-o o dourado Mestre do Fogo, invencvel em sua armadura
sagrada.
         -- Foram necessrios mais de dois mil anos para que eu organizasse e treinasse esse
exrcito -- sussurrou Gabriel, contemplando o cenrio. -- So os mais valentes, e s se
curvariam ao maior dos comandantes. Agora, essas legies so suas. Lidere-as como quiser.
Esses anjos nasceram de sua decncia e por ela o seguiro.
         Mas Ablon sabia que no fora o nico a inspirar aqueles rebeldes. Se ali estava, so e
salvo, de espada na mo, era porque levava consigo a confiana de seus velhos amigos e a
determinao da irmandade.
         -- Rebeldes! -- gritou o general, tomando uma rocha como parlatrio, no topo do
morro. -- Escutem-me agora os que tm bravura no corao e fidelidade no esprito. Escutem-
me os que so honrosos e sbios, e os que acreditam no poder da justia -- e com isso calaram-
se as asas, os apitos e at o sopro do vento. Na Fortaleza de Sion, tambm o arcanjo Miguel
escutou o clamor e, transtornado, correu  sacada para ouvir o espetculo. -- Vocs so um
exrcito do bem, e tenho o prazer de lider-los na derradeira batalha. Daqueles que aqui esto,
sigam-me s os que no temem a morte, os guerreiros arrojados, os fortes e os temerrios.
Quando a peleja estalar e todos os seus companheiros tiverem tombado, vencer o persistente, o
corajoso, o que carrega a causa mais gloriosa. Que me acompanhem os que adoram o Altssimo,
os que respeitam a legalidade de sua obra e os que esto contra o assassinato dos homens. Esta
noite, lutaremos at o ltimo soldado!
         To maravilhoso foi o breve discurso, somado  prodigiosa e emblemtica presena,
que ao fim da orao os combatentes explodiram em vivas, e seus brados sacudiram desertos e
montanhas, abalando o moral dos alados que defendiam Sion. No bastio inimigo, os perversos
tremeram, assustados com o frenesi do exrcito que os atacaria ao cair do crepsculo.
         A vitria estava nas mos dos rebeldes.
         Na Torre das Mil Janelas, cercada por uma multido de soldados, o Prncipe dos Anjos
subia as escadas, frentico. Com um pensamento agressivo, escancarou as sees metlicas da
porta dupla e ingressou na Sala dos Portais, um aposento circular, orlado por duas dzias de
passagens lacradas. Ali, o Anjo Negro estacara, guardando a subida para o alapo, que levava
ao terrao da Roda do Tempo, onde Shamira estava aprisionada.
         -- O renegado est vivo! -- esbravejou o arcanjo, irado. -- No  absolutamente
possvel que tenha escapado da Legio Formidvel!
         -- Eu disse que seria intil -- retrucou o Anjo de Asas Negras. -- Euzin era um
incompetente, e para ns  uma sorte que tenha falhado. Assim no nos levar a mais uma
burrada.
         Miguel arrancou da bainha a Chama da Morte, e a espada flamejante esquentou o ar
frio. Embora em cmara fechada, estavam a quase trs mil metros de altitude, onde os ventos
so fortes, e o clima, gelado.
         -- E o reforo no terrao? -- mudou de assunto.
         -- Ordenei que dez esquadres criassem uma esfera vivente ao redor do ptio no
pinculo da torre. Se Ablon vier at ns, ter que penetrar em Sion por outro caminho.
         Ento, ainda inquieto, o Prncipe dos Anjos sacou o Livro da Vida, que escondia preso
ao cinto, sob as asas enormes. Ps a relquia sobre o pedestal no centro da sala e comeou a ler
em voz baixa as ltimas pginas, impaciente como uma criana a procurar o fim de uma
histria. Em certo ponto, quando alcanou o versculo desejado, acalmou-se e recuperou a
presena arrogante.
         -- Vamos prosseguir com seu plano. Temos a isca e a armadilha. Ento, que venha o
maldito. Eu mesmo enterrarei o ideal da irmandade, enquanto nosso exrcito destrona os
rebeldes.  o que farei -- decidiu, fechando o tomo com uma violenta batida. -Assim
prescreveu o Altssimo.
         O Anjo Negro engrossou o semblante, na profundeza de seu elmo cerrado. O capacete
ocultava-lhe a face, e nem o Monarca Celestial conseguia penetr-la. Era o Anjo do Abismo
Sem Fundo, aquele que abria todas as portas. Era a luz e as trevas. O comeo e o fim.
         --A noite se aproxima.  o ltimo dia dos humanos na terra. Nenhum mortal jamais
voltar a ver a luz do sol.




                                        Os LEVIATS

NO SHEOL, O MOMENTO DA DECISO HAVIA CHEGADO. No vale dos Condenados, s margens do Styx,
milhes de demnios, de todas as castas e tamanhos, aglomeravam-se em turba desordenada,
aguardando o comando de seus duques. Diferentemente dos anjos, nem todos voavam. Suas
hordas se agrupavam no chio, como formigas nervosas ao estourar do formigueiro. Outros,
dotados de asas, enchiam o cu, babando em colrica agitao, com os tridentes em riste.
Alguns no passavam de diabretes, de aparncia indefesa, mas havia tambm aqueles de enorme
constituio, hbridos, de corpo animal, com chifres e cauda. Diversos possuam presas
aguadas, olhos de fogo, garras escuras e pele escamosa. Um grupo cavalgava monstros alados,
semelhantes  fera de Lilith, e outro montava cavalos esquelticos, como terrveis cavaleiros do
inferno. E existiam tambm os escravos, que mais pareciam bestas ferozes, fazendo lembrar
lees e chacais, uivando em crueldade assombrosa.
        No ancoradouro, os oito duques --  exceo de Apollyon, ausente havia dias --
esperavam pelas instrues de Samael, indignados e enfurecidos.  frente deles, a odiada
Serpente do den, uma figura reptiliana e asquerosa, que se arrastava em vez de andar,
anunciou aos nobres nefastos:
        -- Reunam suas hordas. Os navios no tardaro a chegar.
        -- Navios? -- bufou Molloch, o Carrasco, um demnio musculoso, de cabea grande,
chifres pequenos e pupilas estreitas corno os olhos de gato. -- Nem um milho de barcos
transportaria toda esta multido. O calor da caverna do Diabo estorricou sua razo, Satans.
        -- Essas foram as instrues de nosso lder? -- emendou Asmodeus, um personagem
perverso e elegante, que portava um cetro vermelho. As palavras polidas eram sua arma para
desacreditar Samael.
        -- Quem duvida de mim desafia o meu mestre -- ameaou, no assoviar de sua lngua
pontuda. Incitava o terror, pois sabia quo frgil era sua liderana.
         Molloch parou, sem palavras para reagir, e foi amparado por Orion, enquanto os outros
prncipes se contorciam de raiva.
         -- Pacincia, camaradas! -- tranquilizou o Rei Cado de Atlntida. -- Ainda  cedo, e a
batalha no etreo nem comeou. No creio que a Estrela da Manh dispensaria nossos esforos.
         Orion no costumava portar armaduras, mas para o embate final vestira uma extica
couraa prateada, antiga vestimenta dos guerreiros de Atlntida, adornada com o smbolo da
Jia do Mar. No levava espada, s uma vara pontuda, mas suas garras eram to letais quanto
qualquer lmina.
         -- Que se dane! -- rosnou Mammon, um demnio gordo, de corpo de hipoptamo,
cabea de porco e chifres imensos. -- No vou me curvar a um bajulador desprezvel! -- gritou,
e Alastor, Baalzebul e Molloch se juntaram a ele, levantando as armas.
         Mas, quando os quatro se adiantaram para atacar Samael, as hordas em campo fizeram
silncio, e do porto os duques avistaram o que, para eles, era impossvel.
         Centenas de navios nasciam ao longe, onde brotava o Styx, na entrada do vale, e se
aproximavam como gigantes, afundando o leito do rio e esgarando suas bordas. As guas
rubras transbordavam ao fluxo das naus, afogando e atropelando os mais prximos  borda. No
eram, de fato, navios comuns. Longilneos como os flutuadores egpcios, somavam mil metros
da proa  popa, e  sua passagem as margens do Styx se alongavam para suportar o trajeto e
depois regressavam  dimenso original. No passadio, cada embarcao transportava trs
condutores de sinistra presena, cada qual com sua tnica negra. Aqueles capites eram os
apavorantes barqueiros, criaturas fantasmagricas, desprovidas de alma ou essncia e carentes
de natureza ou moral.
         Sem vacilar, os duques recuaram ante a viso daqueles transportes incrveis. Eram to
compridos, largos e altos que s um deles sustentaria, em seus cargueiros, aproximadamente
quinhentos mil combatentes -- e havia perto de dez centenas de barcos como esses navegando e
correndo ao cais.
         -- Definitivamente, o Filho do Alvorecer no olvidou seu exrcito -- murmurou Bael,
o Infeliz, o prncipe do desespero, magricelo e horrendo, de rosto cadavrico e carne
decomposta.
         -- So leviats, os navios gigantes -- Orion recordou-se. J ouvira lendas sobre eles,
mas nunca as tomara a srio.
         -- Ento vamos  guerra -- concordou Mammon, desistindo de agredir Samael. --
Escapou desta vez, sua cobra nojenta.
         -- E contra quem lutaremos, afinal? -- pressionou Mephistopheles, um aristocrata de
pele de fogo, asas de morcego e rosto de homem. -- Qual dos dois partidos anglicos ser nosso
alvo?
         -- Sabero a seu tempo -- respondeu Samael, no instante em que o gigantesco navio
atracava no fundeadouro. -- Agora, acompanhem-me a bordo -- convidou-os, arrastando-se
para dentro quando a ponte baixou.
         -- Ainda me intriga toda essa histria -- sussurrou Asmodeus para Orion, a seu lado.
-- Qual ser a verdadeira inteno do Arcanjo Sombrio?
         --Ainda hoje saberemos -- replicou o satanis, marchando para a plataforma.


                                     O DEUS DO AMOR

        Por toda a tarde, Ablon percorreu a plancie em revista s tropas. Continuamente
aclamado por todos os celestes, no encontrou tempo para conversar com cada soldado, mas
entrevistou os generais, recolheu informaes e se preparou para formular a ttica final de
batalha. Esteve com Varna, do regimento das arqueiras, e reencontrou o inesquecvel Baturiel.
        Como muitos combatentes ali espalhados, Baturiel, o Honrado, fora subordinado ao
Primeiro General antes do expurgo e chegara a rev-lo no monte das Oliveiras, quando Gabriel
ordenara que defendesse o morro contra qualquer invaso. Os dois quase se meteram em
combate, mas a chegada de Varna, e depois do Mestre do Fogo, interrompera o confronto. Na
ocasio, o Anjo Renegado julgara-o mal, acreditando que estivesse do lado ruim, e por isso logo
se justificou pelo engano.
         -- Eu teria feito o mesmo -- confortou o amigo. Trajava uma couraa dourada, comum
aos oficiais, estampada com a antiga herldica da Legio das Espadas.
         Depois, o prprio Baturiel o conduziu ao ishim Elohai, o Ferreiro, famoso por forjar as
mais resistentes armaduras do cu. O celestial tomou as medidas de Ablon e prometeu que ao
fim do dia ele teria a melhor placa j feita.
         Quando o dia j ia findando, o querubim subiu o rochedo e voltou  presena de
Gabriel, que montara sua tenda no topo do monte, de onde vigiava toda a extenso do deserto e
as montanhas ao redor de Sion. Solitrio, o arcanjo satisfazia-se apenas com a companhia de
Varna, a fria querubim que vivia a escolt-lo, em cega obedincia a seu lder rebelde.
         Dali, sobre um relevo no cume do morro, o Mestre do Fogo vislumbrava o maravilhoso
exrcito dourado, que por longos sculos aprimorara, no transcurso da guerra civil. Sua face era
tenra como a planta do ltus, cuja raiz toca a profuso fecunda da terra e cujas ptalas saltam
para o vazio do cu. Seus movimentos serenos respeitavam o fluxo do cosmo e acompanhavam
a palpitao do infinito.
         Assaltado de repente pela radiao do universo, Ablon sentiu-se pequeno diante da
enormidade das legies e da massa gigante que completava o exrcito imbatvel. Lamentou por
sua delongada ausncia e por sua incapacidade de t-los liderado anteriormente em revoluo
produtiva.
         Gabriel apreciou o calor do sol que se deitava no oeste, dourando com seus raios a
esplanada de guerra. Agachou-se de pernas cruzadas, para louvar o astro de fogo.
         -- Assisto hoje ao ltimo pr do sol, com o mesmo fascnio com que contemplei o
primeiro -- confessou, melanclico. -- Sou um vigilante do mundo, general, lanceado pela
saudade e castigado pela lembrana. Posso sentir a passagem das eras e tocar as marcas do
tempo, como as pegadas na areia, que vo sumindo a cada lambida do mar.
         -- Eu entendo sua amargura.  o revs da imortalidade.  o difcil fardo dos
invencveis. Tambm tenho o esprito ferido, mas sou jovem, apesar da idade. Sofro pelas aes
que deixei de fazer e pelas batalhas que deixei de lutar. Queria ter sido mais competente na
defesa da criao e livrado os homens da decadncia.
         --Todos ns aspiramos ao inalcanvel, e essa angstia  a centelha que acende o calor
da existncia. Quando todas as questes so respondidas, perde-se tambm o estmulo da vida.
         O general acedeu e virou-se para encarar o arcanjo.
         -- Conte-me o que aconteceu, Gabriel. O que aconteceu depois que a irmandade foi
renegada? H uma sensao de deficincia em meu corao, que me aflige pelos anos perdidos.
         O Mestre do Fogo exalou um suspiro e envolveu os ombros com a dobra das asas.
         -- O paraso nunca mais foi o mesmo. A expulso dos renegados veio pr  prova a
unidade dos arcanjos, j desgastada pela maledicncia. Depois da conjurao, muitos celestiais,
incluindo o prprio Lcifer, comearam a acreditar que a revoluo seria possvel, e ento os
oportunistas apareceram para corromper os desesperados.
         -- Quando deixei os escombros da cidade amaldioada de Enoque, soube que o Arcanjo
Sombrio havia arquitetado sua prpria revolta e atrado um tero dos anjos  sua causa, enlaada
por mentiras e promessas vazias.
         -- Sim. Lcifer, o Filho do Alvorecer. Ele e seus conselheiros distorceram os ideais da
irmandade. Juraram livrar os celestes da tirania, mas na beleza de seus discursos o Diabo
ocultava seu verdadeiro objetivo, que era assumir o lugar do Prncipe Anglico. Infelizmente, os
descontentes cresciam, e esses desgostosos, fracos de carter, foram ludibriados por sua
fascinante retrica, como frequentemente acontece nos perodos de crise.
         -- E como foi essa guerra?
         -- Sangrenta, voraz e terrvel. Muitos bons espritos foram perdidos, em meio ao caos
da batalha. No campo de guerra, enquanto as espadas acendiam relmpagos no cu, Lcifer e
Miguel se evitavam, tomando seus tronos nos limites opostos do firmamento. E assim
prosseguiu a matana, at que o sangue dos anjos fecundou Cana, e a Estrela da Manh
rendeu-se em humilhante derrota. Como sentena, os perdedores foram isolados e condenados
ao exlio na escurido do Sheol.
          -- O Sheol.  curioso que Miguel no tenha imposto aos cados uma punio mais
severa.
         -- Antes da chegada do Arcanjo Sombrio ao inferno, o Sheol era to somente uma
dimenso-cemitrio, um lugar de absoluta negritude e desolao, para onde Yahweh enviara os
restos mortais de Tehom e dos deuses das trevas, destrudos nas Batalhas Primevas. O Abismo
de Nimbye, nos Campos da Morte, representaria o suposto ventre de Tehom, uma passagem
para o limbo, cheio de horror, agonia e desesperana.
         -- O Portador da Luz... -- murmurou o general, desvendando a chave para um dos
muitos ttulos atribudos a Lcifer.
         Ablon fincou a espada no cho endurecido, como s vezes costumava fazer, porque no
tinha bainha para carreg-la nem cinto para sustentar o estojo. A lmina endireitou-se sobre uma
pedra vermelha.
         -- Por que voc acha que Miguel capturou a Feiticeira de En-Dor? -- perguntou o
guerreiro. -- O anjo que a levou disse que ela ficaria bem se eu no me juntasse ao Diabo.
Supostamente queria impedir minha aliana com Lcifer.
         Gabriel ergueu-se em postura esticada e desceu da pedra em direo  ravina.
         --  um blefe, uma distrao para desvi-lo do percurso central. Miguel conhece sua
ndole, seu passado, e sabe que jamais firmaria acordo com um traidor. Ademais, os soldados do
inferno nunca teriam capacidade para invadir Sion. As hostes diablicas so numerosas, mas
fracas. A maioria das unidades satnicas  composta por espritos-escravos, que tombam ao
primeiro golpe de espada. S os cados so realmente ferozes, mas no somam um contingente
temvel. Se o Prncipe dos Anjos esperava por uma ofensiva militar, deveria impedir que voc
se unisse a ns -- o arcanjo apontou para suas linhas voadoras, treinando em perfeita disciplina,
e para as tropas no cho, espetando o ar como se fosse o inimigo. -- Nosso exrcito sim tem o
vigor e o treinamento necessrios para derrubar as defesas da torre, mesmo em desvantagem
numrica.
         -- Ento Miguel podia estar querendo justamente me atrair para a fortaleza?
         -- Eu no disse isso. No  fcil compreender as ambies de meu irmo, nem seus
delrios de majestade. Seus anseios so um enigma at para mim, que por tanto tempo
compartilhei de seu egosmo colrico.
         -- Mas por que ele raptaria a necromante? No vejo sentido algum para um sequestro
to inusitado. Como uma mortal poderia ser til ao seu projeto insano, seja ele qual for?
Gabriel achegou-se  ponta do precipcio.
         --  possvel que ele esteja tentando us-la para alguma finalidade macabra -- arriscou,
sem mais opes. -- Eu no duvidaria de que Miguel tenha descoberto um jeito de usar a alma
da mulher para ascender  divindade. Para tal, ele necessitaria de um esprito humano, agraciado
com a ddiva da livre vontade.
         Ablon coou o queixo, pensativo.
         -- Foi exatamente o que Lcifer me disse, quando fui encontr-lo no vale dos
Condenados. Segundo ele, Miguel pretende atingir a majestade do Criador com a concluso do
Apocalipse. Mas com isso ele se esquece do elemento fundamental, que encerrar o
Armagedon: o despertar do Altssimo.
         O Mensageiro inclinou o olhar, tristonho, e tornou a mirada ao carmesim do horizonte.
         -- Yahweh no adormeceu, general -- anunciou, em surpreendente revelao. -- Ele
dissipou sua essncia no cosmo, ao fim do sexto dia da criao.
         O Anjo Renegado maneou levemente a cabea, em assustada reao negativa.
         -- Isso no pode ser! -- protestou. -- Ento o Reluzente est morto?
         -- No, meu amigo -- tranquilizou o arcanjo. -- Deus nunca esteve to vivo. Por
bilhes de anos, o Senhor moldou o universo, e um dia seu trabalho acabou. Orgulhoso por sua
obra, o Altssimo desejou a onipresena. Queria estar em todos os lugares, ver todas as coisas e
provar as belezas do mundo. De seus frutos mais estimados, adorava a raa humana, uma
espcie selvagem que vivia na podrido das cavernas. Cansado de admirar sua cria, Yahweh
queria toc-la, viver entre ela, am-la. Assim, dispersou seu esprito, e dessa energia divina
nasceu a alma humana, abenoada com o livre-arbtrio e agraciada pela seiva do amor. Com
isso, a energia do Criador prosperou, sobreviveu e se multiplicou sobre a superfcie da terra.
Pois saiba,  valoroso guerreiro, que em cada corao mortal bate a potncia do Pai, e essa
graa  infinita, indestrutvel e imortal.
        O Primeiro General respondeu ao baque com um prolongado silncio, durante o qual
rememorou sua trajetria de vida, sua jornada celeste e terrena, atentando aos indcios sutis que
explicitavam a ausncia do Altssimo
        -- De alguma forma, acho que sempre suspeitei da verdade. Coma poucos, preferi viver
meu prprio caminho, mas a busca pelo Onipotente se tornou um motivo, um propsito. Mas e
quanto a voc, Mestre do Fogo? Por que no compartilhou seu conhecimento com os alados
nem alertou os homens para sua capacidade celeste?
        O gigante voltou a sorrir, mas havia tambm frustrao em seu rosto.
        -- Assim eu tentei, mas ningum quis escutar. A existncia palpvel de Deus  um
alimento para homens e anjos. Muitos dele dependem para justificar seus fracassos, suplicar
perdo, ou para animar uma vida miservel. E no os condeno. No  fcil admitir que estamos
sozinhos, que nosso sucesso depende apenas de nossos prprios esforos e de ningum mais.
Entenda agora, general, a obviedade do paraso. O poder de Deus reside no amor incondicional.
Quando amamos verdadeiramente, alcanamos o divino. Foi esse calor que nos atraiu  fonte e
nos acendeu a paixo por mulheres humanas. Estar prximos a elas nos transporta  Presena
Sublime, quele que nos deu a vida e nos amou intensamente. Foi o amor por Shamira que o
livrou da maldade. Foi o amor dela que deteve sua espada, pronta a executar Nimrod.  na
ternura que reside o esprito de Deus, e por meio dela o acessamos.
        Nesse momento, Ablon avistou, como em sonho, a legendria Babel, o Mar de Rocha e
a torre em construo, que se perdia nas nuvens. Recordou-se da feiticeira, perseguida pelos
viles babilnicos e encurralada pelo bruxo de barba pontuda. Depois, sumiu o pesadelo, e ele
sentiu o calor da fogueira na caverna sobre a montanha, a mesma gruta em que os dois se
abraaram pela primeira vez e que mais tarde abrigaria o tmulo de Ishtar. A caverna, tal qual
conservara na mente, era um lugar mgico, especial, um desses espaos congelados no tempo,
um recanto seguro, para onde sua fantasia vagava nos momentos de desencanto e solido.
        -- Tambm o Salvador trouxe ao mundo a mensagem do amor -- continuou Gabriel --
e discorreu seguidamente sobre a natureza do Pai. Mas nem todos tm a capacidade de enxergar
o que perpassa a realidade, o solucionvel segredo da existncia, que est alm de cones, rituais
e oraes. Para mim, confesso,  duro pensar que nem mesmo Uziel, nosso irmo caula, soube
contemplar a verdade. Nem mesmo ele, que era um arcanjo e viu a disperso do Altssimo,
soube aceitar sua escolha. Como muitos anjos, Uziel cultivou, por anos, a iluso de que Yahweh
estava dormindo em Tsafon, at o dia em que subiu ao monte e foi morto por Miguel. Mas
talvez tenha vivido melhor assim, na ignorncia. J Rafael, sempre lcido, engoliu a ausncia
com amargura, e em determinado momento desistiu de tudo, optando pelo exlio.
        A realidade, definida pelo Mensageiro, era absolutamente clara e singela. Deus  a
totalidade do universo, e a compreenso do infinito. Ele  a pura bondade, o amor irrestrito e a
aceitao do desigual. Na ciranda dos sentimentos, o amor  o mais grandioso, porque rene
uma mistura de sensaes convergentes, tais como a paixo, a amizade e o respeito. Assim,
Ablon entendeu finalmente a razo da empatia que o ligava  necromante. Ele era um anjo,
nascido para servir ao Divino, e sempre estaria atrelado  energia suprema, o poder criador que
a mulher carregava na alma fervente.
        No mesmo instante em que o general refletia sobre os extraordinrios mistrios do
mundo, o Mestre do Fogo retirou sua espada mstica do cinto e a ergueu contra o halo solar.
        -- Esta  a Flagelo de Fogo -- divagou o arcanjo --, a mais temida das armas celestes.
Como ela derrubei os deuses das trevas e venci os cados. As chamas que crepitam em sua folha
no se apagaro enquanto houver um heri para empunh-la. Eu, que por tantas vezes a
carreguei, agora a entrego a voc, formidvel guerreiro, que me superou em pureza e sabedoria.
Use-a hoje, com retido e destreza, para desbancar as foras do mal -- presenteou o Anjo da
Revelao, estendendo ao lutador o punho da espada.
        Mesmo lisonjeado, o renegado no podia aceitar.
        -- Agradeo sua oferta, Gabriel, mas no devo tomar sua arma. Sou um querubim e
tenho minha prpria espada, a Vingadora Sagrada -- ele puxou a ponta de ao, at ento
encravada no solo.
         Diante da negativa, nada disse o Mensageiro. Em vez disso, agiu como estouro de
tempestade, brandindo a espada sobre a cabea, em extravagante atitude. Atnito, o general
defendeu-se em reflexo, e a Flagelo de Fogo desceu com um rudo de incndio, para rasg-lo ao
meio. Por sorte, a Vingadora Sagrada bloqueou o avano da folha mortal, e ali ficaram os dois
duelistas, estticos, de armas cruzadas, enquanto o sabre ardente do arcanjo derretia a lmina
gelada do renegado.
         -- Por que est fazendo isso, Gabriel? -- gritou o general, resistindo  presso da
investida. -- Por que est me atacando?
         Inabalvel, o gigante aplicou ao golpe fora tremenda, at que a Vingadora comeou a
ceder. O metal entortou, e as extremidades racharam. Em segundos, a empunhadura fervia, e
Ablon foi obrigado a solt-la, ou teria a palma inflamada pela terrvel superioridade do
instrumento oponente. Esperto, saltou para o lado, antes que a Flagelo o tocasse, mas o Anjo da
Revelao interrompeu o ataque e recolheu o sabre  bainha. A espada do general desfez-se em
pedaos, e seus fragmentos abrasados se reduziram a p, aps resfriados pela brisa da tarde.
         -- Perceba -- retomou o Mensageiro, aos ofegos ruidosos do admirado guerreiro. -- A
Vingadora Sagrada no resistiria ao confronto com a Chama da Morte, a lmina mstica do
arcanjo Miguel -- esclareceu, entregando sua espada flamejante ao querubim. -- Mas no se
entristea por isso. E um soldado e sabe que no h vergonha no regresso s cinzas, quando
completamos nossa misso. A Vingadora o trouxe de volta, reacendeu em voc o vigor da
batalha e cumpriu o propsito pelo qual foi construda. Assim como ela, tambm eu terminei
minha demanda.
         -- Suas palavras so confusas, arcanjo.
         -- Organizei este exrcito para voc e o preparei para o maior dos embates. Agora cabe
ao Primeiro General a tarefa de guiar as legies ao conflito. Queria poder ajud-lo, meu honrado
comandante, mas no posso. Esta guerra nunca foi minha, apenas a tomei emprestada. Miguel
ainda  meu irmo, e no poderia enfrent-lo, muito menos mat-lo.
         -- Seja ento nosso parceiro na paz -- Ablon no queria perd-lo. -- Precisaremos de
voc para levantar o planeta dos escombros da guerra.
         -- O universo estreitou-se aos meus sentidos, general. Estou velho, letrgico e cansado.
J vi muito, e de tudo provei. Agora,  meu dever seguir os passos do Pai, dissipar minha
essncia e retornar  escurido.
         E assim, subitamente, um barulho estridente rematou o dilogo. No campo e na
fortaleza, atacantes e defensores se retraram ao ecoar do rudo. Era o sinal da Quinta Trombeta.
Seu som, embora perturbador, era filtrado pelo tecido, tornando-se assim bem mais tolervel ali,
nas profundezas do etreo.
         -- S faltam mais duas para o Juzo Final -- observou Gabriel. -- O Armagedon se
anuncia. Retiro meu esprito da esfera vivente e o entrego  eternidade, mas deixo-lhe um
legado. Em suas mos repousam o destino do mundo e a obra da reconstruo. Quando estiver
desanimado e aflito, puxe a Flagelo de Fogo e escute minha voz. Lembre-se das coisas que lhe
falei. Enquanto houver um s homem no mundo, h esperana, porque os mortais carregam no
peito o brio de Deus.
         Emudecido, mas inchado de grandeza e louvor, Ablon viu o arcanjo subir aos cus,
trespassar o branco das nuvens e se desfazer como uma estrela radiante no anil do crepsculo.
Sua aura sumiu, e a conscincia se apagou.
         Gabriel alcanara o infinito e ascendera ao estgio final. Estava vivo, mais do que
nunca! Sua energia era agora o contnuo do cosmo.
         E, nas mos do general, a Flagelo de Fogo continuava ardendo.


       Quase no mesmo instante em que Gabriel ascendeu, trs anjos chegaram voando ao
rochedo. Um deles, Elohai, o Ferreiro, trazia uma placa dourada, adornada com o smbolo da
Legio das Espadas. Estava acompanhado por Ba-turiel, o Honrado, e Aziel, a Chama Sagrada.
       -- Trouxemos sua armadura -- disse Elohai, pousando a couraa no cho.
         Ablon notou que a placa era idntica  sua antiga. Podia ser aberta do lado, para depois
se fechar contra o peito. Nas costas, duas frinchas paralelas deixavam espao para as asas de
anjo, facilitando as manobras de voo.
         Era hora de o querubim despir as vestes mundanas. Tirou a camisa e, pela primeira vez
desde a Babilnia, libertou as asas rajadas de sangue. Encaixou a couraa no tronco e fixou a
bainha no cinto.
         No parlatrio, retirou do couro a Flagelo de Fogo e a apontou para o cu, como um
desafio ao bastio inimigo, encravado alm das montanhas. J era quase noite, e a lua se
esgueirava no leste. Na plancie, o exrcito rebelde enxergou o general no topo do morro, com a
armadura de ouro, que reluzia ao brilho da lmina ardente. Os combatentes avistaram suas
penas marcadas, que eram o smbolo e o orgulho dos renegados, e reiteraram seu amor pela
justia.
         Na Fortaleza de Sion, o arcanjo Miguel e o Anjo Negro divisaram, ao longe, o fulgor da
espada, e souberam quem a empunhava.
         -- Amaldioado seja Gabriel! -- bradou o Prncipe Anglico. -- Ele passou ao
expurgado a Flagelo de Fogo.
         No alto do monte, Ablon recolheu sua arma e se preparou para descer a ravina. Mas
Varna continuava a seu lado, tal qual estivera desde o princpio da tarde, e se aproximou do
comandante rebelde, com o fascnio a lhe esquentar o frio semblante.
         -- General! -- chamou a guerreira. --  um privilgio estar sob seu comando --
rendeu-se, reconhecendo finalmente o encanto do lder.


                                      PONTA DE LANA

        No campo, ao centro de um crculo de tendas, havia uma mesa de pedra, sobre a qual os
generais pousaram um mapa em pergaminho, que delineava todo o deserto. O planisfrio
mostrava a plancie, as cordilheiras ao redor de Sion, o rio Styx, e mais adiante o monte
Megiddo. Outros documentos, enrolados em couro e papiro, descansavam ao p do encosto,
com diagramas, plantas e informaes acerca dos fortes, das tticas e dos capites inimigos.
        A lua j tinha subido quando os comandantes se reuniram para ouvir a estratgia final.
Entre os dez generais, veteranos de vrias campanhas, estavam querubins poderosos, muitos dos
quais haviam servido na Legio das Espadas, antes da expulso da irmandade. Varna e Baturiel
figuravam como os mais louvados e juntos formavam uma dupla excelente, cada qual com sua
arma de ataque. Prximo ao grupo, Aziel acompanhava o conclio. A Chama Sagrada e seus
ishins da Cidadela do Fogo teriam participao decisiva na batalha, segundo a ttica imaginada
por Ablon. Sobre eles, um peloto voava em espiral, subindo e descendo em viglia.
        O Primeiro General tocou um ponto no mapa, indicando o baluarte inimigo.
        -- Quantos anjos voc calcula que estejam defendendo Sion? -- perguntou a Varna.
        -- Cem milhes, s do lado de fora -- ela respondeu, lacnica. Tinha os nmeros na
ponta da lngua.
        -- Pelo menos cinco mil legies a protegem pelo interior, conforme reportam os espies
-- acrescentou Baturiel.
        --  trs vezes o contingente rebelde -- constatou Aziel, coberto por vestes brancas de
seda e cinto dourado, em traje tipicamente anglico.
        -- Cada um dos nossos pode abater cinco deles -- garantiu o renegado. -- A lgica nos
pe em vantagem, mas a prtica nos esmaga. Eles esto bem alinhados, arranjados, e guardaro
posies. Temos que desfazer suas linhas, antes de nos atirar ao choque de armas.
        -- E qual seria a estratgia? -- indagou Eblis, a segunda mulher-anjo no conselho dos
chefes. Era magra e esguia, mas portava uma maa, arma de impacto mais apreciada pelos
brutamontes.
        Ablon elevou o olhar ao acampamento e percebeu quo dispostos estavam seus
lutadores, sempre alertas, sempre treinando, excitados pela batalha e sedentos para brandir suas
lminas.  frente de cada destacamento, subia um estandarte bordado com a insgnia das tropas
rebeldes, em preto e vermelho.
         -- Eu avanarei primeiro, ao comando de um grupo ttico de elite, para quebrar o
cinturo de defesa que cerca o permetro e desorganizar os esquadres. Preciso de mil
voluntrios, prontos a lutar at a ltima gota de sangue.
         -- Essa parte  fcil -- garantiu Varna, conhecendo o nimo dos combatentes.
         -- Enquanto lutamos, o regimento das arqueiras deve percorrer o deserto em rasante e
subir as montanhas que cercam a torre -- e mostrou o desenho da cordilheira no mapa. --Ali
ficaro escondidas, at o incio da ofensiva. Em certo momento, deixarei a vanguarda e me
infiltrarei em Sion, para salvar a Feiticeira de En-Dor e confrontar o arcanjo Miguel.
         -- E quanto s legies no interior da fortaleza? -- lembrou Shenial, um celeste que
liderara a defesa da Cidade Sagrada de Jerusalm, na noite da execuo do Iluminado. -- Elas
percebero seu assalto.
         -- A prtica da vida na terra me ensinou a suprimir as emanaes de minha aura
pulsante e assim escapar de meus caadores. Voarei pelas sombras e usarei de furtividade para
me esgueirar pelos corredores do forte e encontrar o Prncipe dos Anjos.
         -- A Fortaleza de Sion  um labirinto de sales, cmaras e tneis vazios -- insistiu
Shenial, que era conhecido pela cautela. -- Poderia explor-la por anos e nem assim alcanaria
os aposentos de Miguel.
         O Anjo Renegado recordou-se, no ato, das remotas campanhas das Guerras Etreas,
quando sua legio chegou primeiro ao castelo do deus Rahab, o Prncipe dos Mares, e venceu as
divindades que ali viviam, destruindo o palcio e queimando suas sacadas. Mais tarde, naquele
mesmo lugar, seria erguida a Torre das Mil Janelas, um marco da vitria dos alados sobre as
entidades pags.
         --Vi Sion ser construda e participei de sua arquitetura. Eu estava l quando Miguel
fincou no topo a Roda do Tempo, roubando-a dos malakins no Sexto Cu. No ser a primeira
vez que cruzarei suas defesas de espada na mo, para desafiar os sitiados.
         -- E quando devemos lanar o ataque? -- indagou Ebriel, um dos generais armados de
lana em vez de espada.
         -- Ao soar da Sexta Trombeta, as arqueiras dispararo suas setas contra os soldados
destacados da torre, desorganizados pela ao do grupo de elite. A seguir, todas as unidades
arrancaro para o calor do combate -- Ablon abriu um segundo pergaminho, que mostrava em
detalhes o forte inimigo e seus arredores.
-- Nosso objetivo central  concentrar a ofensiva em um nico ponto e abrir uma ponta de
lana, para que os ishins penetrem na torre e incendeiem a fortaleza por dentro.
         -- Mais de cinco mil metros separam as montanhas do bastio -- alertou Eblis.
         -- A distncia pode ser uma adversria para as flechas.
         -- Isso  queima-roupa para minhas guerreiras -- rebateu Varna, precisa.
         -- E se voc no retornar? -- quis saber Aziel, visivelmente preocupado com o destino
do amigo. -- Devemos queimar a bastilha mesmo assim?
         -- Se at ento eu no tiver regressado, sabero que estou morto. Varna assume o
comando em minha ausncia, seguida por Baturiel e Shenial. Acontea o que acontecer, no
abandonem a luta. Continuem a tarefa at que Sion seja posta abaixo. No se esqueam de que o
tecido da realidade ter cado ao fim da batalha, e os dois mundos sero unos. Caso eu no
resista, agrupem os sobreviventes e prossigam com os valores da irmandade, preservando os
homens que escaparem  guerra do mundo mortal. Ajudem-nos e glorifiquem-nos, mas no
esqueam quem so. Foram o cime e o egosmo que nos trouxeram a isso -- e recolheu os
mapas. -- Varna, recrute os melhores alados para o batalho de vanguarda.
         Ela ajustou a cota de malha e voltou os olhos verdes ao lutador.
         -- Ter os soldados em uma hora, general.
         O conclio se dispersou.


                                  A CHAVE DO INFERNO
         Enquanto as tropas se preparavam, Ablon refugiou-se sozinho no topo do morro,
prximo  pedra de onde Gabriel subira aos cus. Ali ficou, parado, concentrando-se para a
batalha final. Viu as flmulas esvoaantes, os guerreiros em suas armaduras e o grupo misto de
anjos, composto por mulheres e homens alados, conforme concebidos por Deus. Com olhos de
guia, observou ao longe a Fortaleza de Sion e mirou o pinculo, obstrudo por uma redoma de
anjos que o defendiam em esfera, impedindo assim que qualquer um enxergasse o terrao.
         Sentou-se em um pedregulho e buscou no cho seu antigo sobretudo. Vasculhou os
bolsos e deles recuperou dois objetos de especial importncia. Um era a chave do inferno, um
artefato mstico dado a ele por Lcifer, que supostamente abriria, na Sala dos Portais de Sion, a
passagem para o Sheol.
         O outro objeto era a pena alva de Apollyon, enegrecida pelo tempo. Ao reaver a pluma,
Ablon meditou sobre como encontraria o Exterminador, uma vez que desconhecia a vinda dos
infernais ao etreo. Resolveu que terminaria, antes, sua contenda com o arcanjo Miguel, para s
depois procurar um meio de caar o assassino. Com isso vingaria no s os espectros do
deserto, mas tambm seus amigos renegados.
         Ablon prendeu firme a pena ao cinto, com um fio entrelaado de seda, e tateou mais
uma vez a superfcie de barro da chave, uma relquia estranha, d aparncia rstica, menor do
que a palma da mo, e em forma de anel recortado em cruz.
         Aziel, a Chama Sagrada, aterrissou no parlatrio e desceu para falar com o amigo. Mas,
quando viu o general absorto em devaneios, adiou o assunto central.
         -- A chave do inferno -- comentou o ishim, lembrando-se da primeira vez em que vira
a relquia, em um aprazvel caf no centro da cidade do Rio de Janeiro. Isso fora havia uma
semana, mas pareciam sculos desde que ele, Ablon e Sieme deixaram o Brasil rumo a Israel,
em meio  confuso que se seguiu  exploso das primeiras bombas, reconhecidas pelos anjos
como o incio das Sete Trombetas.
         -- A participao de Lcifer nesta guerra ainda continua velada -- desabafou o
renegado, correndo o olhar pelo objeto de barro. -- Ele se conformou muito rapidamente com
minha recusa em aderir a seu plano, mas estava determinado a entrar em batalha.
         -- O Arcanjo Sombrio est de mos atadas -- sustentou Aziel. -- Suas hostes no so
preo para nenhum dos dois exrcitos celestes. Provavelmente tomar a trilha mais curta e
aguardar o fim do combate, para s depois tentar um acordo com os vencedores. Quem, mais
do que ele, apreciaria ver os partidos anglicos se matarem em batalha?
         Ablon maneou a cabea em sinal negativo.
         -- Ento por que ele teria me dado esta chave? Seria uma manobra para despistar minha
mente, ou h realmente uma inteno oculta, previamente acertada?
         Aziel guardou silncio, porque tambm no fazia idia das aspiraes do Filho do
Alvorecer. Ficou quieto enquanto assistia ao general amassar com a mo o artefato sagrado.
         -- No acho que isso v fazer muita diferena -- disse Ablon --, mas  melhor que seja
destruda de vez -- ele apertou o punho, e a chave se reduziu a farelo. Sua energia mstica
sucumbiu  presso e se dispersou no espao. -- Que Lcifer continue afundado no Poo Sem
Fundo.
         Esticou os dedos, e os restos de argila se precipitaram para o cho da montanha. Os
flocos mais finos foram carregados pelo vento noturno.
         -- O grupo de elite est pronto -- anunciou finalmente Aziel, depois que a poeira
sumiu.
         Esfregando as mos, o renegado subiu novamente  rocha no topo do morro, para seu
ltimo e definitivo discurso.
         Assim tinha incio o Armagedon.


        Do parlatrio sobre a montanha, Ablon enxergou a plancie. J era noite, e uma sombra
estranha cobria Sion, como uma nuvem negra de tempestade. O deserto era pequeno para tantos
rebeldes, e muitos alados adejavam, pairavam no ar e se alinhavam para a batalha que
comearia em breve.
         O general subiu  rocha e puxou a espada de fogo, e ento todos pararam para observar
o seu lder. No campo, mil anjos guerreiros, vestidos com armaduras de prata e elmos brilhosos,
compunham a fora de elite, o grupo que acompanharia o renegado no primeiro assalto  torre
inimiga.
         -- Ateno! -- bradou o Primeiro General, e sua voz poderosa alcanou o infinito. Ao
longe, Baturiel apertou sua lana, Varna recolheu seu arco e Nathanael levitou para o topo do
Horeb. -- Chegou o Dia do Juzo Final, o Tempo do Ajuste de Contas. De todas as guerras,
celestiais ou terrenas, esta  a maior, a disputa que encerrar a direo do universo. As lgrimas
que vertemos por nossos irmos renegados agora cobraremos com o fio da espada. Somos o
instrumento de Deus, a mo da justia, a herana do Pai Criador. Hoje nos lanaremos ao
combate em honra do Altssimo e em defesa da humanidade. Queimem suas auras e incendeiem
seus coraes, porque esta  a Batalha do Armagedon, e ningum sair impune. Sangue ser
derramado at engolir as fundaes do mundo, e os justos alcanaro o triunfo. Aos probos, os
louros; aos perversos, a morte -- concluiu, e os soldados responderam com um clamor
estrondoso, que ecoou pelo espao infindvel e ficou gravado na fluncia do cosmo.
         Sob fervorosa consagrao, Ablon desfraldou as asas rajadas e desceu voando ao campo
para encontrar seu batalho de vanguarda. De espada em punho, os querubins o saudaram,
hasteando lminas e estandartes e provando a enormidade de sua presena. Depois, o Anjo
Renegado e seus guerreiros prateados decolaram e juntos se lanaram rumo a Sion.
         No terrao da Torre das Mil Janelas, mesmo sem poder avistar a paisagem, interrompida
pela redoma de anjos, Shamira escutou o bramido dos combatentes rebeldes e avisou aos
celestes que a cercavam:
         -- O Primeiro General regressar a Sion. Ai daqueles que estiverem em seu caminho --
profetizou e fez fraquejar o moral dos injustos.


                                     ORION E ASMODEUS

         A frota dos leviats, os navios gigantes, percorria o Styx, com a horda satnica a lotar
seus pores. No convs da nau principal, conduzida do tombadilho por trs nebulosos
barqueiros, Orion e os outros duques observavam a estranha dimenso por onde passavam. O
rio entrava e saa de universos bizarros, cruzando cidades de luz, espaos de sombras, florestas,
desertos, terras de fogo e fortalezas de gelo. Agora, seguiam por um plano vazio, fincado de
estrelas como o vcuo sideral, e onde o leito do Styx era o nico caminho palpvel, flutuando na
imensido do infinito.
         Samael fitava os astros distantes, com olhos de cobra. Na mesma embarcao, vinham
tambm as tropas especiais, que tomariam a linha de frente do combate. Eram a cavalaria
infernal, que varreria o solo, e os ginetes ao controle das feras aladas, que tomariam os cus e
avanariam em nveis sobrepostos, armados de lanas enormes. Essas feras voadoras no eram
espritos-escravos, ao contrrio do que se pensaria de incio. Eram monstros sem vontade ou
instinto, nascidos do dio e da maldade. Foram criados pelos poderes sombrios do Senhor do
Sheol, que s vezes gostava de imitar o Altssimo, e em sua incapacidade de formular vida
decente dava forma a essas bestas dantescas.
         Asmodeus baixou seu cetro vermelho e se aproximou do Rei Cado de Atlntida.
         -- Conta-se que os barqueiros no so generosos. O preo por chamar os leviats deve
ter sido oneroso a quem os convocou.
         -- Sem dvida -- concordou Orion, lembrando de quo arrasado ficara Amael, o
Senhor dos Vulces, ao pagar a viagem do Anjo Renegado ao inferno. -- O contratante deve
estar arrasado, vazio. Mas quem, seno os duques, teria essncia para invocar os condutores?
         Asmodeus mirou as estrelas, sempre calculando as palavras.
         -- E por onde anda Apollyon? -- sussurrou, sugerindo, em uma glosa sutil, a
participao do assassino na trama dos barcos. --  estranho pensar que o mais feroz dos
malikis tenha desaparecido s vsperas da batalha final.
         -- Lcifer o enviou  Haled, em misso especial.  tudo o que sei.
        -- Talvez tenha sido morto -- sugeriu o nobre diablico.
        Orion encarou Asmodeus e demonstrou um sorriso incrdulo.
        -- Seria fcil demais.
        No fundo, preferia que o Exterminador estivesse morto.
        Mas ele no estava.


        No campo rebelde, o honrado Baturiel esperava. Sua principal arma era a lana, mas
carregava tambm uma espada, como todos os querubins. At as arqueiras portavam lminas na
cinta, embora curtas, para o caso de combate fechado.
        O Honrado traou um golpe no vazio do ar, s para testar a eficincia da ponta. Varna
estava ali perto, com seu arco de ouro. Sua aljava era uma relquia sagrada, porque as setas
nunca acabavam, mesmo que um milho de tiros fossem lanados. Era um artefato divino, mas
a competncia da general estava na preciso de sua mira e na retido de seu carter metdico.
        -- Dizem que voc nunca errou uma flecha -- comentou Baturiel, reparando nos
profundos olhos verdes da comandante.
        -- E como poderia? Sou um anjo, e essa  minha funo. Para isso fui concebida.
        -- Mas no somos perfeitos. Cometemos erros, tal qual os seres humanos.
        -- Sim -- concordou. -- No somos infalveis.
        -- E quantas flechas acha que vai ainda perder? -- ele instigou, quando a arqueira
admitiu ser passvel de deficincia.
        -- S uma -- respondeu, incisiva.
        -- Uma?
        -- Porque, no dia em que eu errar uma seta, minha demanda estar concluda. Minha
funo neste mundo ter terminado. E esse ser o dia em que morrerei.
        Baturiel assentiu, impressionado com a determinao da celeste. Ele se afastou e
regressou ao seu regimento.


                               TRIUNFO DE ASAS VERMELHAS

        O Anjo Negro, aterrador em sua armadura escura e seu elmo fechado, descera a uma
plataforma no antepenltimo andar da fortaleza, de onde podia ter uma ampla viso das legies
e do cinturo de defesa que protegia a torre. Milhes de soldados alados, organizados em
companhias, voavam em linha, formando mltiplos anis ao redor de Sion.
        Enquanto isso, no outro extremo do firmamento, um clebre esquadro se aproximava,
preparado para a mais pica ofensiva da histria. Mil anjos, hbeis e corajosos, avanavam em
seta, prontos para perfurar o bloqueio inimigo. Embora subordinados aos generais, que
usualmente vestiam apenas placas sobre o peito, esses mirmides trajavam armaduras
completas, banhadas em prata, que refletiam como espelho ao brilho da lua.  frente desses
bravos celestes vinha um guerreiro dourado, em sua couraa recm-forjada, com os cabelos
loiros es-voaantes e os olhos cinzentos fixos no alvo. Era Ablon, o Anjo Renegado, que
liderava o time de elite, tal qual fizera havia milhares de anos, quando invadira o castelo do deus
Rahab, o Prncipe dos Mares, durante as Guerras Etreas.
        E quando esses anjos, mesmo valentes, sobrevoaram as montanhas, um suspiro assaltou
todos eles, ante a viso da tarefa que os aguardava. No longe dali, a Torre das Mil Janelas se
elevava imponente, ao longo de seus trs mil metros de altura. A distncia, mais parecia uma
colmeia de abelhas venenosas, cercada por tantos soldados que quase no era possvel enxergar
seu eixo. Em cada uma das pequeninas sacadas pairava um lutador, armado para resistir ao
ataque. E no topo do forte um batalho adejava em redoma, circundando o terrao e res-
guardando o que o general julgava ser a Roda do Tempo.
        Uma nuvem de trevas cobria a bastilha. Ablon no sabia de onde viera ou quem a
invocara, mas suas vibraes eram terrveis -- estava cheia de dio e crueldade, como uma
onda funesta a servio do mal.
        Ao perceberem os invasores prateados, comandados pelo Primeiro General, os anjos
perversos sobressaltaram assustados, apesar de sua superioridade em contingente. Enxergaram o
mpeto dos invasores, sua f na vitria e a sede de sangue em seus austeros semblantes. Alguns
pensaram em recuar, mas o Anjo Negro, na borda do pontilho, abriu as asas escuras e gritou
uma ordem. Sua voz era como um rugido, e seus compatriotas endureceram nas linhas -- no
por bravura, mas por medo de seu capito.
        -- Guardem os anis, seus covardes! Mantenham as defesas seguras.
        Nesse instante, os atacantes de prata tambm fraquejaram, mas Ablon sacou sua espada
e as chamas eternas fizeram os sitiados tremer. Um novo flego estimulou os rebeldes e, na
plataforma, o Anjo de Asas Negras recuou para dentro dos tneis, repudiando a Flagelo de
Fogo, como se fosse essa a nica arma que pudesse feri-lo.
        -- Fechar em agulha! -- ordenou o Anjo Renegado, e os prateados alinharam a posio
em forma de seta. -- E agora!
        Foi assim que o esquadro penetrou o cinturo, como uma lana, rasgando a formao e
desfazendo o anel de querubins que cingia a fortaleza. Espadas se chocaram e armaduras
estalaram, quando os temerrios guerreiros furaram o bloqueio inimigo.
        Na ponta, Ablon usou a Flagelo de Fogo para perfurar. Seu calor era to intenso que a
agulha mais parecia uma flecha abrasada, voando em velocidade mxima ao redor de Sion. Os
soldados inimigos eram carbonizados ao toque, e aqueles que saam da frente acabavam
rasgados aos flancos, pelos prateados que compunham a lateral da formao.
        Em poucos segundos, pedaos destroados de armadura zuniam no ar, membros
decepados caam como meteoros, sangue jorrava pela rea de guerra. Mais que tudo, os
defensores de Miguel sofreram com a ttica surpresa. Nunca esperavam que um grupo to
pequeno os atacasse daquela maneira. Seus generais estavam corretos de certa forma. O sucesso
da formao em agulha s foi possvel graas a Ablon e sua Flagelo de Fogo.
        Disciplinados, os prateados foram rodeando os anis da torre, matando e mutilando com
suas lminas afiadas. Ningum podia bat-los, nem os oficiais premiados, e nos nveis abaixo
uma chuva de corpos despencava sobre os outros perversos, cada vez mais abismados.


         No acampamento rebelde, Varna e suas arqueiras assistiram de longe ao primeiro
embate e ao triunfo inicial da tropa de elite, que continuava lutando como um leo feroz. Suas
guerreiras estavam alinhadas no solo, aguardando o sinal. As armaduras eram malhas de ouro,
tranadas, mais leves que as dos soldados infantes. Portavam, alm do arco, espadas curtas,
provando que estavam aptas tambm para a ao corpo a corpo.
         Ao lado da mulher-anjo, Baturiel apreciava o espetculo do ataque.
         -- Queria eu estar l com eles -- confidenciou o Honrado.
         -- Estaremos em breve -- retrucou a lutadora, ajeitando a corda da aljava.
         Baturiel recuou, e ela, percebendo o momento, levantou o arco, pronta para iniciar a
corrida. As arqueiras a imitaram, e a general disparou, seguida por seu regimento. Avanaram
em rasante, quase coladas ao cho, para que seus adversrios em Sion no as enxergassem.
         Assim percorreram o deserto como cobras na noite, ocultas pela poeira do solo. Subiram
as montanhas e ali ficaram, escondidas, esperando pela Sexta Trombeta, de setas no fio.
         Na Fortaleza de Sion, prosseguia a batalha.
         Organizados em ponta, os rebeldes eram quase invencveis, mas seus esforos como um
corpo compacto s agiam em uma nica direo, derrubando uma linha de defesa por vez,
enquanto o resto do bloqueio continuava intocado. Era preciso, agora, atingir os mltiplos
pontos da torre. Investindo em alvos estratgicos, eles poderiam provocar a desordem em cada
um dos anis de soldados, aumentando assim a gravidade da ofensiva -- ainda que no
pudessem derrot-los todos. Era uma ttica suicida, porque um s atacante, separado do grupo,
no resistiria por muito tempo ao assdio dos inimigos, por mais vigoroso que fosse.
         Mas para isso existem os picos heris, decididos a morrer em combate.
         -- Desfazer formao! -- gritou o Primeiro General. -- Espalhem-se. Procurem os
lderes de companhia. Matem os chefes. Morram por seus ideais!
         Ao comando, parte do esquadro mergulhou, e outra parte subiu, dispersando sua fora.
Sozinhos, lutavam com bravura, abrindo caminho com suas espadas, at alcanar o destino. Os
mais espertos j acossavam os capites, certos de que, uma vez derrubados, as companhias
perderiam um tanto de seu entusiasmo.
         Desligado de seus querubins, Ablon virara o alvo central, e dezenas de milhares de
anjos vieram buscar sua cabea. No ar, cercaram o general, mas seus ataques resultavam em
nada. gil e rpido, o renegado aparava todos os golpes. A cada bloqueio, a Flagelo de Fogo
derretia as lminas adversrias e continuava a trajetria, destruindo espada, armadura, e
ceifando a vida de quem a desafiava. S a aproximao da arma de Ablon j amolecia o metal
dos inimigos, que no encontravam meios de lutar contra o instrumento sagrado do arcanjo
Gabriel, agora empunhado pelo ltimo anjo renegado. Os caadores passaram a caados, e uma
nica investida do guerreiro mutilava dez ou vinte assassinos.
         O chefe da companhia que o Primeiro General assaltava era Asson, um comandante
maldoso, que estivera presente ao massacre de Sodoma. Desde l, era subordinado de Euzin,
que na poca respondia a Apollyon, ento um celeste, general de legies.
         Ablon identificou seu objetivo, ao avistar o capito que controlava os alados. Voou
direto em sua perseguio, dilacerando os soldados que entre eles se interpunham. Um baque
solitrio, pelas costas, conseguiu atingir o renegado, mas sua armadura dourada absorveu toda a
violncia do chofre.
         Asson no sabia ao certo o que acontecera a Euzin, mas ouvira dizer que ele fora
enviado  Haled, com a misso de matar o proscrito. Ento, quando notou o Primeiro General
vindo at ele, com fria no olhar e sangue no metal da couraa, descobriu a sina de seu superior,
e da Legio Formidvel.
         -- Ataquem! Ataquem! Ataquem! -- repetia Asson a seus oficiais, quase sem voz.
         Uma linha de cinquenta querubins, ajustados em fila, chegou para destronar o renegado,
esperando que assim pudessem venc-lo. Pretendiam acometer perfurando, com o prximo na
ala substituindo imediatamente os combatentes cados. Isso, supostamente, levaria a vtima 
fadiga, at que cedesse ao embate mortal.
         Mas a estratgia fracassou.
         Esquivando-se para o lado, Ablon desviou da fileira e avanou, passando a Flagelo de
Fogo pelo centro da linha. A espada ardente dividiu os corpos sem a menor resistncia e
retomou o movimento, para procurar Asson, o objeto fundamental da agresso.
         Mais por sorte que por destreza, o capito evadiu-se, e o golpe do renegado falhou. Sua
pancada resvalou na estrutura da torre, fazendo-a estremecer, igual ao sacudir de um terremoto.
Dentro da fortaleza, os batalhes que a guardavam sentiram-se como no ventre de um grande
tambor, ao escutar o rudo abafado da possante pancada.
         Revivificado pelo erro do oponente, o desagradvel Asson provocou o guerreiro:
         -- Ento,  voc o assassino de Euzin?
         -- No -- respondeu Ablon. E era verdade. Euzin fora morto pela flecha certeira de
Varna. -- Mas gostaria de ter sido eu a derrotar o covarde.
         -- Acabarei com voc agora, em nome do arcanjo Miguel!
         Cheio de raiva, o vil adversrio arrancou para a morte. E antes que descrevesse a
manobra, resolvido a esfacelar o querubim, a ponta da espada de Ablon fincou-lhe o corao. O
inimigo soltou um berro estridente, que ps fim  sua carreira maldita. Espetado pela Flagelo de
Fogo, o cadver comeou a estorricar. O Anjo Renegado levantou o defunto e depois o
arremessou. O corpo foi caindo, carregando um odor nauseante aos andares inferiores.
         Os sitiados acompanharam o despencar do capito e em seguida se viraram para encarar
o carrasco -- mas ele havia desaparecido!
         Recolhido s sombras, Ablon suprimiu o pulsar de sua aura. Os soldados, de fracos
instintos e pouca inteligncia, no poderiam mais encontr-lo.
         Na penumbra da noite e em meio ao clangor da batalha, o Primeiro General se infiltrava
em Sion.
         Enquanto isso, no interior da Fortaleza de Sion, o Anjo Negro chegou a um enorme
salo, de paredes largas e teto ogival. Ao centro da cmara, bem no eixo da torre, um vo
amplo, de incalculvel profundidade, descia  fundura dos calabouos, e nesse vcuo
empoleiravam-se dezenas de milhares de anjos, devidamente armados para o combate. Eram
parte das legies internas, designadas para guardar o bojo do forte, caso ali chegassem os
invasores rebeldes.
        O Anjo de Asas Negras desceu voando pelo buraco e destacou cinquenta dos melhores
soldados dali, capites e generais na maioria, para acompanh-lo aos nveis acima. Muitos
detestaram a convocao, porque eram lderes de companhia e no podiam deixar sozinhos seus
combatentes. Mesmo assim, engoliram o orgulho e nada disseram, cientes de quem os
comandava.
        -- Vamos aos andares superiores -- ordenou o Anjo Negro, tomando um caminho que
at os oficiais desconheciam. -- Vocs sero a ltima linha de defesa do arcanjo Miguel.
        Esses lutadores eram os mais possantes entre as legies, a nata do exrcito do Prncipe
Celeste. Suas armaduras eram como bronze, e portavam espadas to afiadas que as lminas
dividiam as partculas atmicas no espao.
        E todos eles temiam o Anjo Negro.


                           FACE A FACE COM o ANJO NEGRO

         Escondido pelo manto noturno, Ablon se esgueirava pelos umbrosos corredores da
Fortaleza de Sion. Pulando de alcova em alcova, enganava a percepo dos anjos que montavam
guarda nas cmaras vazias, atravessando passagens e subindo escadas, sem ser percebido.
Mantinha a Flagelo de Fogo recolhida  bainha, para que os vigias no avistassem seu brilho ou
alertassem para o crepitar de sua lmina ardente. A armadura no atrapalhava seus movimentos
nem provocava rudos, mas seu reflexo dourado podia denunci-lo, caso no se afundasse
suficientemente nas sombras. Assim, driblou incontveis patrulhas e batalhes inteiros, que
vagavam por dentro da torre.
         O renegado conhecia bem os caminhos e labirintos de Sion, mas muitas sees haviam
sido modificadas ou ampliadas, o que atrasou seu percurso at o acesso ao penltimo andar e de
l para a Sala dos Portais. Lembrou-se do dia da edificao da bastilha e da noite em que Miguel
veio ao plano etreo para fundar a Torre das Mil Janelas, marco fundamental da soberania
celestial sobre a regio etrea de Cana e Sinai.
         Com os dedos firmes agarrados  parede irregular, Ablon subiu e grudou-se ao teto.
Prosseguiu como uma aranha caadora e passou sorrateiro por dois soldados que guardavam
uma escada ascendente. Esse tnel em degraus terminava em uma antessala circular, em
formato de meia-lua, orlada por sacadas que se abriam para a altitude. O extremo sul do
aposento continuava em um corredor longo, amplo, sustentado por colunas delicadamente
trabalhadas com motivos anglicos. Ao fundo figurava uma porta dupla, guardada por um nico
querubim vigilante. Esse guardio chamava-se Dariel, e o general o reconheceu de primeira.
Assim como o tal Asson, que acabara de derrotar no lado de fora da torre, Dariel tambm fora
subordinado a Euzin e participara da carnificina em Sodoma. Era um anjo poderoso, gil e forte,
e a percepo era sua maior qualidade -- no  toa fora designado para defender o ingresso aos
nveis superiores.
         Dariel estava protegido por uma armadura completa e portava uma alabarda, espcie de
haste comprida, rematada por uma ponta de ao e cortada por uma lmina semelhante  do
machado. Estacava srio diante da porta -- uma pea de ferro ancestral, moldada com imagens
hbridas, tendo ao centro a figura do deus Rahab, o Prncipe dos Mares. Na verdade, esse objeto
fora o nico preservado do castelo da entidade etrea, posto em Sion como um trofeu pela
vitria dos celestes sobre os deuses pagos.
         Ablon teria que usar de toda sua rapidez para alcanar seu destino sem que Dariel o
notasse. Se fosse descoberto, o guardio soaria o alarme, e sua tentativa de chegar inclume 
Sala dos Portais resultaria frustrada. Sua grande habilidade em combate no o fazia invencvel,
e ele no gostaria de ser surpreendido por mais legies, embora estivesse preparado para isso.
         Como o renegado, o vigilante tambm enxergava no escuro, ento no seria eficiente
deslizar pelas trevas. Assim, quando Dariel piscou, o general, em inacreditvel velocidade,
saltou para trs de uma alta pilastra -- a ltima de uma extensa fileira que suportava o teto. Ali
ficou, esttico, at que o guarda piscasse de novo. E, a cada piscadela, Ablon se aproximava da
porta, pulando de coluna em coluna.
         No instante preciso, correu para um pilar muito prximo ao cauteloso vigia, e
finalmente o soldado atentou para o vulto.
         Mas, antes que ele brandisse sua arma, o Primeiro General apareceu como um tigre e
sacou a Flagelo de Fogo. A espada refulgiu em chamas vermelhas e cortou o inimigo ao meio,
sem chance de contra-ataque.
         Nenhum som foi ouvido.
         Ablon reps a folha ardente  bainha.
         Depois, empurrou a porta de ferro.
         A porta cedeu facilmente ao empurro e deu acesso a um segundo corredor, bem maior
que o primeiro, flanqueado por muitos umbrais nebulosos, que levavam a outras passagens, e
assim por diante. Eram to escuros esses umbrais, e seus afluentes to sinuosos, que ficava
impossvel enxergar alm deles ou ter certeza para onde corriam.
         No extremo oposto do corredor, uma outra porta, tambm metlica, mas de ouro, era o
que separava o Primeiro General da Sala dos Portais e de seu derradeiro inimigo: o arcanjo
Miguel.
         Silencioso, caminhou ao seu objetivo, mas parou ao pressentir o perigo.
         Das portinholas escuras, ento, emergiram cinquenta guerreiros alados -- 25 de cada
lado. Em suas armaduras de bronze, formaram um bloqueio, uma barreira de quatro alas,
fechando o caminho e impedindo que o invasor prosseguisse.
         Daqueles celestiais, Ablon conhecia todos. Diferentemente de Euzin, Asson ou Dariel,
esses eram bons guerreiros, de esprito recupervel, mas que talvez no tivessem tido a coragem
de repudiar o Prncipe Celeste e se juntar aos rebeldes. O renegado sabia que no eram
perversos, mas temiam o tirano, por isso acatavam seus comandos. Uma centelha de pureza
vivia-lhes no corao, e, quando levantaram as armas para atacar, um argumento de Ablon fez
com que atrasassem os golpes.
         -- Muitos de vocs me reconhecem e j combateram a meu lado -- falou, empunhando
a Flagelo de Fogo. -- Sou Ablon, o Primeiro General, e volto a Sion para novamente perseguir
a vitria. No importa quanto tenham se enfiado nas trevas, ainda lhes resta escolha, mesmo
agora, to perto do fim. Abram o cerco e recuem, e vejam-se libertos da opresso que os cerca.
         Os capites que ali estavam, ao escutar a oratria do anjo guerreiro, inter romperam a
investida, mas, ainda confusos, no se despojaram das espadas.
Nesse momento, um elemento crtico abalou o cenrio.
         O Anjo Negro, terrvel e imponente, saiu voando de um tnel escondido e aterrissou
bem  frente da porta dourada, guardando ele mesmo a entrada. Ao avistar o pavoroso agente,
os oficiais congelaram, indecisos. A quem deveriam seguir?
         -- A lealdade deles  para com o arcanjo Miguel -- gritou o Anjo de Asas Negras, com
a voz abafada por dentro do elmo. Carregava na cinta uma espada enorme; era forte como um
touro, e vibraes indecifrveis emanavam de sua aura misteriosa.
         Ablon o identificou de imediato e, mesmo controlado e seguro, no foi capaz de conter
a raiva. Fora o Anjo Negro que, tanto tempo atrs, enfrentara Ishtar e a espancara at a
inconscincia. Tambm raptara Shamira de seu apartamento, exigindo que o general no se
unisse a Lcifer.  exceo de Apollyon, que matara a maioria de seus companheiros
renegados, no havia quem o querubim mais detestasse. Miguel sempre fora um adversrio
simblico, poltico, mas esses dois rivais eram objeto de seu dio pessoal, porque haviam
matado ou molestado seus amigos queridos, e no havia nada que Ablon prezasse mais do que a
amizade sincera.
         Naquelas circunstncias, o renegado poderia ter barganhado, dialogado, negociado a
libertao da feiticeira. Mas a razo o abandou e, com os olhos vermelhos de fria, disparou
pelo corredor, para aplacar sua ira. Expandiu as asas alvas manchadas de sangue, e os capites
desfizeram o bloqueio, assustados com seu mpeto valente.
         Confiante, o Anjo Negro tocou o cabo da espada. Um combate pico poderia ali ter
incio, mas, apesar da fria, Ablon era agora muito mais sbio que outrora. Compreendia que
Shamira precisava urgentemente de seu apoio e decidiu encerrar a batalha com um s
movimento.
         O Primeiro General foi veloz e investiu com a Flagelo de Fogo em ataque circular,
atingindo perfeitamente o rosto do inimigo. A fora do golpe atirou ao longe o guardio,
enquanto seu elmo zunia em direo oposta, indo girar contra o solo de pedra em um
caracterstico arrastar de metal. No fosse o capacete, teria o crnio amassado, mas o impacto
foi suficientemente grave para lev-lo a nocaute. O Anjo de Asas Negras rolou pelo cho e
escondeu a face nas trevas.
         Era um agente e tanto, sem dvida -- e to forte quanto Ablon. Nem se comparava aos
capites que guardavam a torre, carbonizados pelo simples toque da Flagelo de Fogo.
         O que fazer? -- ponderou o Anjo Renegado. Enfrent-lo de uma vez, correndo o risco
de chegar tarde demais a Miguel, ou dar as costas para o adversrio, podendo ser abordado por
ele depois?
         Os guerreiros de bronze resolveriam o impasse.
         Convencidos da superioridade e grandeza do Primeiro General, os capites tomaram sua
deciso. Em apoio ao lder rebelde, puxaram suas lminas e partiram para atacar o agente de
asas escuras, ainda atordoado. Ablon novamente sentiu o mpeto de se juntar a eles, mas, com o
estardalhao, talvez Miguel j soubesse da invaso. O renegado temia que, ao escutar o rudo de
luta, o prncipe assassinasse a necromante, em resposta  infiltrao.
         No havia mais um segundo a perder.
         Com a espada incandescente, estraalhou a porta de ouro, como um esti-lete a rasgar o
papel.
         Dali, enxergou a escada que conduzia ao penltimo andar,  Sala dos Portais -- um
nvel antes do pinculo da Roda do Tempo.


                                   "Eu Sou A PALAVRA"

         L fora, ao redor da fortaleza, os guerreiros prateados -- soldados rebeldes de elite, que
haviam chegado em primeira ofensiva  torre -- comeavam a perder fora. Combatiam com
incansvel bravura, mas estavam fadados  morte. Dos mil querubins que iniciaram a batalha,
liderados por Ablon, pelo menos trezentos j tinham cado.
         Mas mesmo encurralados, fatigados e esmagados pelo contingente inimigo, o time
avanado alcanara sucesso em misso. Os anjos rebeldes, em sua pica investida, conseguiram
desorganizar as linhas de defesa areas que cercavam Sion. O cinturo protetor, antes composto
por anis de combatentes alados, agora no passava de uma massa catica, um enxame de
celestiais que voavam de um lado para outro, caando os incrveis heris que insistiam em lutar.
Movidos pela ganncia, os capites perversos, em vez de manter formao, lanavam-se eles
mesmos  perseguio dos revoltosos, esperando colher os louros pela mutilao de oponentes
to arrojados. Em sua ambio, pouco se preocupavam com a integridade do coletivo; eram
maldosos e egostas e subestimavam o exrcito dos novos rebeldes.
         E justificado era seu julgamento. As tropas insurgentes estavam muito distantes, a
quilmetros dali, alm das cordilheiras, e o Primeiro General, cone da revoluo, havia sumido.
Ningum encontrara seu corpo, mas imaginavam que havia tombado, porque sua aura apagara-
se completamente.
         A falta de percepo desses comandantes cruis encerraria seu trgico destino.


         Prximas dali, enfiadas nas sombras das montanhas que abraavam Sion, as arqueiras
aguardavam o sinal da Sexta Trombeta. Uma multido de belas guerreiras, em suas malhas de
ouro, espalhava-se por toda a extenso da cordilheira, vigiando a torre inimiga pelos ngulos
mais impensveis e esperando. No falavam, no se mexiam, mal respiravam. Escondiam-se
entre as gretas, atrs das pedras, dentro das fissuras na rocha.
        Preparada, de flecha entre os dedos, Varna percebeu a redoma que cercava o pinculo
do forte e notou o excessivo nmero de anjos destacados para defender o ptio superior. Eram
tantos que nem sequer se enxergava o terrao -ponto onde, ela sabia, estava fixada a Roda do
Tempo. Mas se s um deus poderia mover o artefato sagrado, conforme diziam os sbios
malakins, ento qual seria a razo para to ostensiva guarnio? Se a relquia no podia ser
removida ou alterada, por que Miguel teria ordenado que o pino fosse cercado?
        Esperta, a general virou-se para uma de suas oficiais:
        --  inexplicvel o interesse do inimigo pela preservao do pinculo -- afirmou, com
os olhos possantes. -- Junte as melhores -- ordenou. -- Faa com que concentrem seus
disparos na guarnio do terrao. Quero que todos os alados no cume da torre sejam abatidos.
        A lugar-tenente sinalizou em afirmativa e desceu a encosta anterior da montanha,
silenciosa, para passar o comando s outras arqueiras.
        -- O que mais ser que voc guarda no corao dessa redoma vivente, impiedoso
tirano? -- divagou a guerreira, s para si.
        Varna, como os demais querubins, era uma predadora. E seus instintos no costumavam
falhar.


         Com a mesma furtividade que o preservara seguidamente na terra, o Anjo Renegado, de
espada em punho, galgou a escadaria de pedra vermelha e chegou a um aposento alto, de forma
redonda e aparncia sombria. Aquela era a Sala dos Portais, uma cmara to clebre quanto seu
singular morador. A aura de Ablon fervia de raiva e excitao, por finalmente ter alcanado o
ponto final de sua demanda, iniciada havia pelo menos cinco mil anos.
         Nas paredes ao redor do recinto, existiam passagens lacradas, encerradas por macias
portas de ferro. Essas entradas, sem maanetas, eram centralizadas por recuos anelados, cada
qual com seus smbolos distintos. Acessavam muitas dimenses paralelas, entre elas o cu e o
inferno. Mas o Primeiro General no reparou nesses arcos nem deu muita importncia ao
fabuloso tomo, escrito por dentro e por fora, que encimava um pedestal em forma de meia
coluna, bem no centro da sala. Sua ateno estava concentrada no objetivo primrio.
         No outro extremo da cmara, ele divisou a Feiticeira de En-Dor, presa pelos braos,
atada por correntes, exposta como um trofeu. Seu corpo, suspenso no ar pelas amarras de ferro,
bloqueava uma porta, mais larga que as outras, que levava ao pinculo da torre, onde estava
fincada a Roda do Tempo. No olhar da mulher, o general distinguiu uma expresso diferente,
mais controlada, quase irreconhecvel.
         E, entre ele e a necromante, erguia-se o mais temvel dos adversrios.
         Miguel, o Prncipe dos Anjos. Uma figura alta, imponente, impiedosa e invencvel. Seu
rosto, parcialmente oculto pelo elmo, estava marcado por profundas cicatrizes. Vestia uma
armadura completa, de ao refulgente, decorada com detalhes dourados, e nas mos carregava a
Chama da Morte, uma espada flamejante de cabo adornado. As asas eram brancas, e suas
extremidades brilhavam como o fio de navalha.
         -- Ento, o proscrito retorna  casa onde foi consagrado -- provocou o arcanjo. -- Pela
segunda vez voc invade Sion, procurando a vitria. Mas aqueles eram dias de glria, quando o
Primeiro General combatia a meu lado, ceifando e massacrando sob as ordens do cu -- incitou,
recordando o tempo em que Ablon matava em seu nome. -- Agora  a imagem da decadncia
celeste.
         O renegado no cedeu  afronta. Estava determinado a libertar a feiticeira, antes de
tudo.
         -- Voc sabe por que vim -- retrucou e, involuntariamente, seu olhar correu  mulher.
-- O Anjo Negro disse que eu a teria de volta se no me juntasse a L-cifer. E aqui estou eu,
honrando as condies.
         -- Eu estou acima da honra, renegado -- vangloriou-se. -- Sou maior do que qualquer
acordo ou promessa. Sou nico, absoluto. Eu sou a palavra, a ordem. Dito minhas prprias leis e
minha pretenso. Quando a ltima trombeta soar, toda a vida humana ter se extinguido. O
tecido cair, e ento a alma da Feiticeira de En-Dor ser o resqucio final da existncia de
Yahweh, o derradeiro vestgio de um Deus desaparecido, exterminado por sua prpria vontade.
Tomarei esse poder e me consagrarei como o Altssimo sobre este universo.
        -- Cair antes disso, arcanjo -- rebateu o general, convencido da demncia do
oponente. -- J perdeu a sanidade, e agora perder a vida.
        O tirano sorriu, com perigosa malcia.
        -- E quem me despojar? Voc, o anjo proscrito? O pria celeste? O lder de uma
irmandade de heris mortos, humilhados? Sei que derrotou Balberith, Eu-zin e tantos outros.
Mas eles eram apenas anjos. Eu sou um arcanjo, um gigante, o primognito do cosmo, o filho
do Luminoso. Nunca fui derrubado, e no o serei. Tenho um destino a cumprir, e ele me pe na
culminncia de todas as criaturas. Em poucas horas, quando a Roda do Tempo findar, jogarei
sua cabea para as legies revoltosas. E a elas sabero a quem devem obedecer.
        Desagradado com a arrogncia do inimigo, Ablon preparou sua lmina.
        -- Vejo que est cego pelas trevas, Miguel. Trago comigo a Flagelo de Fogo, que antes
pertenceu ao Mensageiro. As chamas da espada iluminaro sua razo e purificaro suas idias.
E assim ser, para o bem ou para o mal.
        Com isso, os dois celestiais cruzaram suas armas ardentes.
        E, antes que desferissem o primeiro golpe, escutaram o rudo da Sexta Trombeta.
        Era o princpio do fim.




                      A SEXTA TROMBETA  COMEA A BATALHA

NA PLANCIE, OS REBELDES ESTAVAM ALINHADOS. Baturiel os organizara em alas e fileiras, como
colunas e linhas, verticais e horizontais. Formavam assim um exrcito macio, como uma
parede altssima e de larga espessura. Apenas os soldados da primeira ala se apoiavam em terra.
Os outros, sobre eles, adejavam, pairavam no ar, esperando para voar ao objetivo. Elevavam-se
do cho trs mil metros acima, que era a distncia do solo at o ltimo andar da fortaleza ini-
miga, e assim avanariam, em formao.
         Baturiel, o Honrado, era o nico destacado e voava  frente, armado de lana e espada,
preparado para liderar os milhes. Era noite, mas a lua cheia iluminava todo o deserto, como um
lustre fnebre aceso para o confronto final.
         Do acampamento, os revoltos assistiam ao massacre de seus guerreiros de elite, bravos
celestes que encararam a morte para facilitar a ao das legies principais. Mas, ao observar
seus companheiros tombarem, no esmoreciam -- ao contrrio. A cada prateado abatido,
acumulava-se no corao dos insurgentes a nsia pelo combate, a energia que provm da
vingana. A cada instante de espera, crescia o desejo pela batalha, a vontade de lutar, de cruzar
armas e perseguir o triunfo.
         E foi no exato momento em que caiu um dos alados mais estimados que soou a Sexta
Trombeta.
         De lana e espada nas mos, Baturiel gritou, ao silenciar do estrondo:
         -- Aos probos, os louros; aos perversos, a morte! -- repetindo as palavras de Ablon em
seu discurso ao exrcito. -- Em honra do Criador e das criaturas da terra!
         E iniciou seu ataque.
       As legies rebeldes o seguiram.


         Na Fortaleza de Sion, os defensores, que ainda brigavam com os lutadores de prata,
avistaram o maravilhoso exrcito rebelde que se levantava no sul e progredia contra a
cordilheira. Se comparados s tropas sitiadas, os revoltosos constituam uma fora pequena,
apesar de seus milhes de soldados. A energia desses atacantes, contudo, sufocava os perversos,
que se apressaram em retomar posio, pois assim se achavam indestrutveis. Mas muitos de
seus generais haviam sido exterminados pelos combatentes de elite, e os capites encontravam
dificuldades para refazer os anis.
         Ento, antes que reagrupassem o cinturo de defesa, uma torrente de setas, que mais
pareciam raios dourados, precipitou-se sobre parte dos guerreiros que protegiam a bastilha.
Disparadas de todas as direes, as flechas encontraram seus alvos, abatendo grande nmero de
sitiados. Eram tantos os projteis que ao ser arrojados imitavam uma onda veloz, obscurecendo
at mesmo o brilho da lua.
         Mas de onde partia aquele ataque quase invisvel? Como surpreendera to eficientes
soldados?
         As picadas certeiras dizimaram todos os combatentes que rodeavam o pinculo da torre
e, quando eles caram, Varna enxergou o ptio da Roda do Tempo. Percebeu uma mulher de
pele clara e cabelos negros presa a uma pilastra de mrmore e concluiu que fosse a Feiticeira de
En-Dor, embora nunca a tivesse encontrado.
         --  a tal necromante -- disse para uma oficial a seu lado. -- A redoma tinha o intuito
de escond-la do Primeiro General, para que ele entrasse em Sion por outro caminho.  possvel
que o anjo guerreiro esteja sendo atrado para uma armadilha.
         Na Torre das Mil Janelas, um dos comandantes maldosos, chamado Mirdoth, viu a
movimentao das arqueiras nas montanhas circundantes, agora claramente aparentes, e
entendeu quanto seus lutadores estavam vulnerveis a sucessivas investidas. Deduziu, com isso,
a estratgia dos revoltosos e tentou organizar os esquadres.
         -- Voem para a cordilheira! -- berrou. -- Massacrem os proscritos!
         -- No! -- discordou um segundo general, estourando aos gritos. -- No podemos
deixar a fortaleza desguarnecida.
         As legies hesitaram, aguardando o comando final.
         -- Ento dividamos os grupos -- props Mirdoth. -- No vou servir de alvo para os
insurgentes.
         -- Chamem as legies de dentro da torre! -- exigiu um terceiro, ferido na asa por um
golpe dos prateados.
         Enquanto discutiam, principiou-se uma nova torrente. Mirdoth foi perfurado por uma
seta que lhe atravessou a garganta, e um outro caiu com uma ponta alojada no ombro. Mais
defensores tombaram, mas ainda eram muitos os intocados. Um oficial sobrevivente autorizou o
deslocamento de tropas do interior da torre para o lado de fora.
         Assim, Sion converteu-se em algo semelhante a um ninho de insetos, repleta de zanges
que saam em fila, ajustando os ferres.
         Mas, abandonando o forte, as companhias internas esvaziaram os sales principais,
deixando a guarda de seus tneis a alguns poucos vigias, que sozinhos no teriam condies de
impedir uma invaso -- caso os rebeldes ali penetrassem.


        Na sombria Sala dos Portais, Ablon e Miguel se entreolhavam, em perfeita
concentrao, iluminados somente pelo ardor de suas espadas fulgentes. Confiante em sua
grandiosidade, o Prncipe dos Anjos esperava pelo primeiro golpe, deliciando-se com a tenso
do inimigo. O general, por sua vez, suava, aguardando um vacilo para manobrar sua lmina.
        Os dois -- prncipe e vagabundo -- escutaram, com seus sentidos afinados, a gritaria do
exterior e o rasgo das flechas mortais que se fincavam nos sitiados. Depois, veio o impacto
abafado das setas, derrubando um por um os defensores.
         -- Parece que seus guerreiros foram surpreendidos -- constatou o renegado. -- Minhas
legies deram incio ao ataque. Logo, Sion ser invadida.
         -- Seus regimentos no perdem por esperar. Os insurgentes sero aniquilados, e suas
legies, totalmente vencidas. A mulher ser sacrificada, e a essncia de sua alma me elevar 
divindade.
         -- Sua loucura  pattica, Miguel. Com ou sem um esprito humano, acha que, sozinho,
ser capaz de governar todo o espao universal? Sua liderana ruiu at o firmamento e dividiu
os anjos do cu. Seu carisma  uma farsa, e seus partidrios o temem. Que tipo de reino
pretende forjar sob o jugo do medo?
         -- O medo  o instrumento dos fortes, no o carisma ou o amor. S a firmeza e a
represso governam. A benevolncia leva  fraqueza,  indisciplina e  inao. E voc, general,
 a imagem dos fracos, a mancha que ameaa a pureza dos gloriosos. Por milnios tolerei sua
anarquia, mas hoje terminarei minha misso, conforme preconizou o Pai Criador.
         Ablon no compreendia, em absoluto, o curioso fatalismo do soberano. Imaginou o que
impulsionava sua f no absurdo, mas interrompeu o raciocnio quando percebeu a ao da
espada oponente. Era a Chama da Morte, que descia para esmagar-lhe a fronte!
         Em sbita agresso, o tirano atacou com toda a energia e percia, e por um momento o
querubim achou-se desesperado, a exemplo de seus embates com Lcifer e Gabriel. Mas uma
fora superior animou seus movimentos, e a Flagelo de Fogo subiu para bloquear a poderosa
lmina do adversrio. Ao choque das armas, um fogaru emanou das folhas ardentes, aclarando
todo o recinto.
         -- Ento ousa persistir no desafio, em vez de entregar-se  morte? -- rosnou o Monarca
Celeste.
         -- Vou alm com minha ousadia -- rebateu o general. Em suprema velocidade, rolou
para o lado e avanou como uma fera voraz.
         Mas o arcanjo era astuto e se defendeu. Comeava assim o combate, com uma incrvel
sucesso de golpes que, a cada batida, estremecia a fortaleza.

         Enquanto ainda se recuperavam do espanto das flechas, os defensores assistiram 
violenta abordagem dos revoltosos. As legies regulares, lideradas por Baturiel, avanavam
sobre os sitiados, cheias de clera e vontade. L embaixo, na base da torre, j se empilhavam
milhares de corpos, vitimados pelas flechas douradas e pela pujana dos guerreiros de prata. O
montante de cadveres, destroados e mutilados, prostrava-se no solo, chegando  altura do
primeiro andar.
         Enfim, os poucos sobreviventes do grupo de elite recebiam reforo. Podiam recuar
agora e ainda assim manter sua honra, mas nenhum dos celestes largou o combate. Continuaram
a batalhar, e seguiriam lutando at a vitria final, ou at que a morte os levasse.
         Sucedeu-se, ento, o choque inevitvel. O exrcito dos novos rebeldes atacou em vrios
nveis, cada qual mirando um cinturo de defesa. Milhes de guardies da fortaleza receberam a
carga dos invasores, que rapidamente se espalharam por todos os cantos. Baturiel e seus anjos
engoliram as linhas de stio, suprimindo as defesas de Miguel como uma mo que se fecha sobre
o cabo de uma bengala.
         A distncia, a Torre das Mil Janelas converteu-se em um negro emaranhado de soldados
alados, que se digladiavam em feroz ofensiva. A zona de conflito parecia uma nuvem
coruscante, ora preta, ora rubra, que se movia em ondas desencontradas.
         Para quem estava no calor da peleja, o barulho era quase insuportvel. Metal se
chocando, gritos estridentes de dor, zumbidos de flechas e lanas passando a centmetros.
Apesar de Sion erguer-se a quilmetros do cho, a rea de batalha estava superlotada, e volta e
meia um guerreiro era ferido por um golpe resvalado. Alm do ar rarefeito pela altitude, o calor
no centro da briga era incrvel, com milhes de celestes lutando to prximos.
         Os rebeldes eram superiores, tinham bravura, fora e disciplina, e a princpio seu triunfo
era certo. Mas no paravam de sair esquadres do interior da bastilha, repondo a cada segundo
os milhares de mortos e feridos.
         -- Quantos mais ainda existem l dentro? -- perguntou Shenial, um general insurgente,
ao honrado Baturiel.
        -- No sei -- o outro admitiu, voando pelas linhas adversrias. -- Ataquem os
comandantes! -- vociferou, sempre atento  evoluo do confronto. -- Sem os capites, os
malignos ficaro desnorteados.
        E, ilustrando a ttica ordenada, Baturiel enxergou um chefe inimigo, que com a espada
em punho tentava reagrupar sua diviso. O nome dele era Lahash, e antes da guerra civil era
tido como um oficial indisciplinado, embora poderoso. Devia ter alcanado o posto de
comandante por meio de bajulaes e sub terfgios, e o Honrado decidiu que ele seria seu alvo.
        Mestre no uso da lana, Baturiel arremessou a arma contra Lahash. A lmina voou to
rpido que parecia invisvel, e por fim penetrou a placa peitoral do celeste. O rival no tardou a
morrer. Num instante suas asas se fecharam, a viso apagou e ele caiu, atrapalhando os soldados
que lutavam nos cintures abaixo.
        Um oficial de Miguel chegou por trs, mas Baturiel pressentiu o golpe. Esquivou-se do
ao e logo avanou. A deciso mais bvia foi reagir com um soco. O murro acertou o adversrio
no queixo, e mesmo com a barulheira da guerra todos ali escutaram o rudo do pescoo
rachando.
        Depois, sacou a espada e prosseguiu com a chacina.


                              O ASSALTO DOS ANJOS DO FOGO

        No topo da fortaleza, Ablon e Miguel persistiam em fervoroso duelo. As lminas se
encontravam, e o Primeiro General resistia, mas era clara a superioridade do Prncipe dos Anjos,
que frustrava todos os golpes do inimigo, respondendo s agresses com habilidade admirvel.
        Ablon tentou avanar com um assalto na vertical, mirando-lhe a cabea, depois na
horizontal,  direita e  esquerda. Miguel defendia com tanta fora que o bloqueio era quase um
ataque e obrigava o renegado a usar toda a potncia dos msculos para no se partir ao meio.
        Era a vez de o prncipe se adiantar. Era to rpido que seus golpes deixavam rastros de
movimento impressos no ar, os quais desapareciam momentos depois. Um humano que
presenciasse um combate assim nem enxergaria as pancadas, to assombrosa era sua
velocidade.
        Miguel lutava com maestria mpar. Lanou uma sequncia de ataques ligeiros, sem
muita penetrao, s para cansar o inimigo. Depois de dez ou quinze movimentos, usou as asas
para pular sobre Ablon, rodopiando, e descer s costas dele. Com esforo, o Primeiro General
conseguiu se virar, mas a guarda ainda no estava firme. Por pura sorte, a Chama da Morte
encontrou a Flagelo de Fogo -- se encostasse na armadura, o renegado estaria morto! A
pancada foi impressionante, e Ablon foi duramente jogado contra a parede, sentindo alguns
ossos da asa direita se quebrarem. Um pouco de sangue escorreu pela boca, mas ele se levantou
prontamente, para segurar o prximo baque.
        No decurso de suas aventuras, jamais enfrentara to formidvel oponente. Nem mesmo
em suas legendrias batalhas confrontara um adversrio com tal capacidade.
        -- Desista, rebelde! -- exclamou o tirano. -- Sua insistncia s adiar sua morte.
Prostre-se, para que eu abrevie este duelo.
        O querubim estacou, diante da sbita proposta.
        -- Um arcanjo demonstrando piedade? No  a firmeza que governa o universo?
        Miguel no respondeu. Por um segundo, a justia bateu em seu corao, e ele se
lembrou das Batalhas Primevas e do rosto do Pai Celestial, cheio de afeio e bondade. Houve
um tempo em que o prncipe chegou a amar, mas esse amor o levara ao cime. Isso fora nos
dias antigos, quando Yahweh fizera de sua essncia a alma humana, entregando aos mortais a
obra terrena, que os arcanjos julgavam ser sua. O amor dos gigantes transmutou-se em dio,
fomentando a tirania.
        -- Por qu, Prncipe Alado? -- insistiu o renegado. -- Como se degradou a tal ponto?
Por que no fez o que lhe foi ordenado e louvou a graa dos homens? Talvez, se lhes tivesse
indicado o caminho do bem, nunca tivessem conhecido a guerra ou a violncia. No foi para
isso que foi coroado? Para liderar anjos e mortais e lev-los  trilha da virtude?
        Um brilho de esperana acendeu nos olhos da figura malvola.
        -- Orion teria concordado com voc -- admitiu. -- Foi assim que reinou em Atlntida.
Mas no sou indulgente. Recuso-me a servir aos impuros, porque provenho da luz do
Onipotente. Como poderia adorar um bando de animais que se arrastavam na profundidade das
cavernas imundas?
        -- Os humanos so os herdeiros de Deus e carregam na alma o legado do Criador-
Ablon discordou. -- Devia ter se conformado, servido. Mas sua soberba o incitou  carnificina.
        Miguel abaixou a espada, consternado, refletindo sobre o impasse. Era ligeiramente
mais alto que Ablon, e fisicamente mais vigoroso.
        -- Ento eu lhe pergunto, Anjo Renegado, por que est lutando contra mim? Tambm
no  um perverso que combateu em mil batalhas sangrentas?
        -- No vou negar -- reconheceu -- nem vou me justificar por meus assassinatos. No
vou julgar meus atos, tampouco os seus. Mas agora no posso mais recuar. H muitos que amo,
muitos que confiaram em mim. Por eles, batalharei at a ltima centelha, mesmo que para isso
tenha que roubar mais uma vida.
        -- Mate-o -- surpreendeu a Feiticeira de En-Dor, acorrentada. O general no
compreendeu sua atitude, to calma costumava ser a mulher. Sups que estivesse sob tremenda
fadiga mental.
        Mas foi Miguel quem atacou, recuperando toda sua loucura. Sumiu a dvida na face do
opressor, e ele golpeou com a Chama da Morte, em traioeira manobra. Ao enrgico impacto da
arma inimiga, a Flagelo de Fogo escorregou das mos do renegado, indo perder-se em um
extremo da sala.
        Desarmado, o general preparou a Ira de Deus, mas antes disso sofreu mais um assalto.
Conseguiu esquivar-se, mas fugiu para uma rea pequena, onde seria encurralado. A lmina
resvalou no cho de pedra, abrindo uma enorme fissura no piso.
        Miguel revirou-se, cercando o querubim em um canto e submetendo-o sob o fio da
espada.
        -- Esta  sua fronteira, proscrito, seu limite. Chega ao fim sua jornada -- e, sem
piedade, manobrou sua arma para lanar o choque fatal.
        Mais uma vez, porm, a Ira de Deus salvaria o heri.
        Com inacreditvel destreza, o soco partiu, e Ablon percebeu como se sentia bem
utilizando sua tcnica fundamental. Ele nunca soube direito como acontecera, mas parecia que
nunca estivera to forte. A energia divina percorreu seu corpo, agitando os tomos no espao e
concentrando o vigor na dureza dos punhos. A Ira de Deus, geralmente invisvel, brilhou com
uma aura dourada, acertando o rosto do tirano celeste.
        Miguel no esperava uma surpresa daquelas. Viu apenas o murro se aproximando,
explodindo contra o nariz, destruindo-lhe completamente o elmo. Atnito, cambaleou para trs,
tropeou e caiu. Agora tinha sangue no rosto, e por um minuto a viso escureceu. Tossiu e
tentou se agarrar  parede.
        O soco de Ablon liberou o caminho entre o Primeiro General e a Feiticeira de En-Dor.
Com a celeridade da acometida, a pena escurecida de Apollyon, que o guerreiro carregava no
cinto, desprendeu-se e escapou para o breu, sem que ele percebesse.
        No curto instante de calma, durante o qual Miguel se levantava, Ablon no pensou em
massacr-lo. Dispensou a oportunidade de liquidar o rival e preferiu libertar a necromante,
aprisionada pelas correntes de ferro. Por ela ingressara na guerra, e por ela invadira Sion.
        O Anjo Renegado acudiria Shamira, para depois terminar a peleja.


        Mesmo com as legies internas da fortaleza unindo-se s tropas externas, os rebeldes
venciam. Os soldados defensores eram repostos pelos esquadres que saam da torre, mas nem
os inclumes eram capazes de segurar a coragem dos invasores. Nas montanhas, as arqueiras
continuavam a disparar suas setas, mas no mais em ondas compactas, e sim em ataques
cirrgicos, para no ferir os companheiros em combate. Agora, no s o cho, mas os degraus
que circulavam os andares estavam abarrotados de mortos, e as rubras pedras do baluarte
ficavam ainda mais rubras.
         Ento, surgiu no horizonte um grupo de celestiais envoltos em uma nuvem ardente. Do
corpo escapavam labaredas vermelhas, e os punhos copiavam tochas acesas. Esses revoltosos,
liderados pelo inestimvel Aziel, no eram anjos guerreiros. No carregavam arma ou armadura.
Eram os ishins, governantes das foras elementais, que chegavam  batalha no momento do
esvaziamento da torre. Tinham por misso invadir a bastilha e inflamar o smbolo da opresso,
destruindo o maior orgulho do arcanjo Miguel.
         -- Guerreiros de prata -- convocou Baturiel, ao perceber a aproximao de Aziel e seu
time --, atrs de mim! Preparar ponta de lana -- ordenou. Pelo menos cem batedores de elite
ainda viviam e responderam ao comando do general valoroso.
         Com esses heris, o Honrado formou uma dupla fila no cu, para perfurar as posies
inimigas e abrir uma ponte segura, atravs da qual os anjos do fogo pudessem passar sem ser
acertados. No eram combatentes, apesar de seu poder magnnimo, e sofreriam se expostos ao
calor do conflito.
         Assim atacaram os prateados e seu comandante, improvisando uma trilha celeste. Por
esse livre corredor seguiram os ishins, para adentrar o forte por suas incontveis janelas, agora
j desguarnecidas.
         Quando pisaram nos sales de Sion -- imensas cmaras vazias, de magnficos vitrais,
colunas enormes e teto ogival --, Aziel e seus alados estavam prontos para iniciar o incndio.
         Mas e quanto a Ablon, o Primeiro General? Ele ainda no regressara.
         A Chama Sagrada decidiu esperar.


                                     TRAIO EM SION

        Ablon cruzou a Sala dos Portais com uma batida de asas, sobrevoando o pedestal no
centro da cmara sobre o qual jazia o Livro da Vida. Agarrou-se  parede e, s com as mos,
arrebentou as correntes que prendiam Shamira.
        O ferro partiu-se com um estalar abafado.
        Sem dar espao ao raciocnio, o Anjo Renegado tomou nos braos a feiticeira, que se
apoiou na armadura do heri.
        -- Vou deix-la em rea segura. H muitos tneis vazios nos andares inferiores --
avisou, satisfeito por t-la libertado, mas ento estranhou o aroma da pele, que mascarava um
odor adverso. A textura da tez tambm parecia bem diferente, e at as batidas do corao no
soavam as mesmas.
        No outro extremo da sala, o Prncipe dos Anjos ergueu-se, com os cabelos pretos
cortados por uma mecha branca agora soltos, depois da destruio de seu capacete. Dali,
retomou a Chama da Morte e enxergou o rosto da necromante, amparado ao ombro do general.
De repente, os olhos castanhos da moa ficaram azuis, e sua face inverteu-se em uma expresso
demonaca.


        Ainda sem sua espada, Ablon deu meia-volta em direo  sada e s ento percebeu as
nuances do aposento. De posse da mulher, observou bem toda a sala, procurando a melhor rota
de ruga. Mas ento notou um detalhe terrvel.
        Das dezenas de portas msticas, com seus recuos anelados e smbolos caractersticos,
uma estava entreaberta -- era a passagem do inferno!
        Antes que reagisse, a mo pequena da necromante, que abraava seu forte pescoo,
cresceu em garras enormes. As unhas pontudas, negras e afiadas penetraram a garganta do
querubim, rasgando-lhe a carne em um movimento ligeiro.
        Imediatamente, o renegado a soltou e caiu de joelhos, com jatos de sangue a espirrar
pelo cho. O corte dilacerara a artria cartida, e a morte era s uma questo de minutos.
        Aturdido, assustado e sem palavras, Ablon voltou o olhar para a figura da feiticeira e de
repente entendeu quem era, verdadeiramente, seu ardiloso carrasco.
         Lcifer, o Arcanjo Sombrio, estava ali, de p, fitando o renegado com seu habitual
sorriso malicioso. Como antes, vestia uma tnica branca, mas agora sobreposta por uma placa
dourada. Trazia uma espada -- fato raro, porque nunca era visto portando nenhum tipo de arma.
         Mas o que fazia o Senhor do Sheol na Fortaleza de Sion? Como teria entrado na torre?
Quem o teria chamado? Era um demnio, supostamente o maior inimigo do cu.
         -- O Diabo tem muitas faces -- sussurrou a Estrela da Manh. -- Voc j deve ter
ouvido isso em algum lugar -- comprimiu as asas de morcego e juntou os dedos em estilo
teatral.
         -- Lcifer! -- exclamou o Primeiro General, esforando-se para respirar. -- Seu
traidor! Era uma iluso...
         -- Iluso? -- protestou, indignado. -- Ora, general, reconhea, ao menos uma vez, a
grandeza de minhas habilidades. No se trata de iluso, absolutamente.  minha capacidade de
transmutar-me. Voc j a conhecia, suponho.
         O renegado nada disse, tomado pela dor e engasgado com o prprio sangue, que lhe
escorria aos litros pelo pescoo.
         -- Tente entender, Ablon, no  nada pessoal. Fiz de tudo para evitar este horrvel
confronto. Chamei-o at mim e ofereci-lhe aliana. E a, quando voc recusou, no tive escolha
-- e simulou uma carranca de choro. -- Eu sinto tanto! Se sua resposta fosse outra, talvez hoje
estivssemos aqui, eu, voc e Miguel, prontos para dar a partida a um novo mundo, preparados
para governar todo o universo. O que  a terra seno uma semente perto da magnitude do
cosmo? Quantos planetas poderamos povoar por a afora? Quantos sis poderamos ainda
dominar?
         E, ao terminar o discurso, ficou muito srio e completou:
         -- O Armagedon no  o fim,  o princpio.
         -- Mas a revoluo... -- Ablon tossiu. -- A guerra no cu.
         -- Minha queda foi forjada -- continuou o Filho do Alvorecer --, e muito bem
arquitetada por mim e por meu irmo -- e a imagem do Prncipe dos Anjos ressurgiu no
limitado campo de viso do general moribundo. --Assim, governaramos o cu e o inferno, a
luz e as trevas, e no final teramos a recompensa pela qual esperamos. Para nossa conspirao,
recrutamos um agente duplo, o Anjo Negro, nico canal de comunicao entre o poro e o
poleiro, uma entidade capaz de viajar livremente pelos planos de existncia. Agora, com a
essncia da feiticeira, teremos o livre-arbtrio, e a destruio do tecido extinguira a fronteira que
restringe nossos poderes. Onipotentes e dotados de vontade prpria, cumpriremos nosso destino
e nos elevaremos  divindade. O deus da luz e o deus das trevas, reinando absolutos sobre o
infinito!
         -- Dois arcanjos dividindo o poder? -- a hiptese seria at cmica, se no fosse to
trgica.
         -- Sua viso  limitada, porque desconhece os anais dos dias remotos. H muito tempo,
antes da luz, havia Yahweh, o deus da claridade, e Tehom, a deusa da escurido. O Criador nos
deu a vida para que lutssemos a seu lado nas Batalhas Primevas e derrotssemos os deuses das
trevas. E, quando tudo se acabou, quando o Altssimo venceu e completou o trabalho da criao,
sentiu-se ocioso, pois havia findado seu objetivo. E, cansado, dissipou sua essncia. O maior er-
ro do Reluzente foi ter-se consagrado nico, porque isso acabou por lev-lo  inrcia. No
cometeremos esse deslize. Sempre haver fulgor e obscuridade; essas so duas provncias
imisturveis. Seremos eternos, inacabveis, e cada qual controlar o seu reino. Para sempre
brilhar em ns o estmulo da vida, porque o espao  perene. E quando estivermos aborrecidos,
restaro mais mundos para colonizar ou para destruir; mais lugares para saciar nossa fome.
Povoaremos o cosmo com nossos agentes leais, que no sero nem anjos nem demnios, mas
uma espcie renovada, nossos arautos. O duplo reinado garantir nossa infindvel
sobrevivncia. E assim encerra-se nosso conluio, to primorosamente realizado -- finalizou,
caminhando para mais perto do irmo. -- No paraso ou no Sheol, ningum desconfiou de nossa
inteno -- vangloriou-se. --  admirvel o poder da comunicao. Acho que sou o pai dos
polticos.
         Miguel, o Prncipe dos Anjos, reps  bainha a Chama da Morte e aproximou-se do
general.
         -- Ishtar chegou perto da verdade -- revelou o tirano, invocando o nome da renegada, a
primeira proscrita assassinada, espancada pelo Anjo Negro.
         -- Ah, sim, aquela pobre garota -- recordou-se Lcifer. -- Como poderia t-la
esquecido? Ishtar foi a nica que suspeitou de nosso estratagema.
         Irado, porm intil, Ablon arrastou-se pelo piso da sala, na v tentativa de retomar a
Flagelo de Fogo, que ainda crepitava ali perto. Os inimigos gargalharam, desprezando seu
esforo.
         -- Pouco antes da queda, Miguel e eu nos encontramos na terra para acertar os
pormenores da conspirao, longe dos outros arcanjos. Ishtar, que vagava pelas cercanias,
pressentiu nossa aura e descobriu nosso segredo. Seria um perigo para ns se ela desse com a
lngua nos dentes, portanto preferimos extermin-la e caar todos aqueles aos quais ela poderia
repassar a informao. Eis o motivo pelo qual a irmandade foi condenada.
         -- Ento era tudo uma desculpa -- gemeu o general. -- A justificativa de que os
renegados provocaram sua queda era s um pretexto. Tambm a propaganda de Miguel no
passava de um embuste para nos silenciar.
         -- Antes disso, enxergvamos a Irmandade dos Renegados como um squito de
desprezveis. Suas idias no poderiam nos ameaar... at suceder-se esse desagradvel
episdio. E a tivemos que decretar sua perseguio.
         Exaurido, no limite de suas foras, Ablon animou-se para mais uma vez buscar o cabo
da espada, mas no conseguiu. Uma ndoa grande de sangue inundava o solo de pedra, e sua
presso despencava.
         Com os olhos cinzentos j se apagando, ele fitou a porta do inferno, amaldioando sua
pouca cautela e sua incapacidade de compreender a mente aguada dos inimigos. Lcifer
agachou-se, para uma ltima e surpreendente revelao.
         -- A chave. Nunca precisei dela realmente, ou no a teria entregado na caverna do
Diabo. Era uma relquia original, de fato, mas no fazia a menor diferena para mim, j que
minha passagem para Sion esteve aberta desde o incio. Usei-a para desviar sua ateno, e
consegui, ao que me parece. O segredo de uma boa mentira est nos detalhes, general.
         Incapaz de falar ou reagir, o Anjo Renegado gemia, desejando ter a Flagelo de Fogo ao
alcance. Admirado com o vigor do querubim, o Filho do Alvorecer, sarcstico, sinalizou para o
irmo, permitindo que o moribundo recuperasse sua arma. O Monarca Celeste concordou, mais
por sadismo que por piedade, e chutou a espada, que foi parar sob o punho do massacrado
guerreiro. Com toda a energia que ainda guardava, Ablon apertou o cabo do sabre, sem a in-
teno de larg-lo.
         -- Se assim prefere... -- consentiu o Diabo -- Morrer brandindo a espada... No farei
objeo.
         Lcifer girou nos calcanhares e falou ao cmplice:
         -- Vamos, Miguel. Continuemos nossa conversa na cobertura. L  mais arejado --
convocou, referindo-se ao pinculo da torre, o ptio da Roda do Tempo, onde a verdadeira
Shamira estava aprisionada. -- Permitamos que o revoltoso veja a feiticeira pela ltima vez.
         O Prncipe dos Anjos agarrou o general pela gola da armadura, para arrast-lo ao
terrao. Antes, porm, pegou o Livro da Vida, sobre o pedestal, e o levou juntamente para o
andar culminante.
         A Estrela da Manh subiu as escadas, seguida por Miguel. O sangue do renegado
escoou nos degraus, desenhando uma trilha macabra e fazendo uma poa no cho do salo.
Aos estmulos do crebro, os msculos do querubim no mais respondiam, mas manteve os
dedos firmes, carregando consigo a lmina ardente.


                           A CIDADE NO CENTRO DO COSMO

       Nas guas rubras e turvas do Styx, os leviats estavam muito prximos de seu destino,
embora os passageiros desconhecessem o caminho. Os barqueiros haviam conduzido as hordas
por dimenses extraordinrias, algumas alheias at mesmo  inteligncia dos espertos duques do
inferno.
         O ltimo atalho cruzaria um universo oculto, aterrador aos demnios -- no por seu
carter malfico, mas por sua natureza ilgica. Para um grupo de poderosos cados, que julgava
ter visto de tudo e vivenciado as mais formidveis experincias, aquele era um stio de agonia e
frustrao.
         Os leviats deslizaram por um canal, um dos braos principais do Styx. As marolas
estouravam nas margens, retidas por paredes esverdeadas de ferro, corrodas pela ferrugem. O
terreno, por todos os lados, dava vida a uma impressionante cidade, diferente dos padres
concebveis. Torres compridas nasciam do cho, encimadas por espiges de ao retorcido. No
cu, brotavam mais construes, de cabea para baixo, como se a urbe fosse moldada no interior
de uma esfera, de propores incalculveis.
         Mas apesar de sua amplitude, a localidade era abafada, mida e sufocante. Um silncio
mortal inundava a metrpole, quebrado, de minuto em minuto, por um rudo agudo, parecido ao
arrastar de uma monstruosa corrente. E,  borda do canal, acotovelavam-se os assustadores
habitantes daquela terra bizarra -- seres pequenos, redondos, de casca metlica, desprovidos de
membros, que flutuavam no ar. No tinham rosto, s um nico olho, sem plpebras, que usavam
para observar os passantes. Transpareciam um tipo sinistro de imparcialidade, como se no
possussem esprito ou emoes, boas ou ms. Nesse ponto, eram idnticos aos barqueiros --
criaturas enigmticas, impenetrveis.
         Asmodeus surpreendeu-se ao examinar to inusitado cenrio.
         -- Diga-me, Orion -- sibilou o demnio ao Rei Cado de Atlntida. -- Voc, que tanto
estudou sobre os infinitos mistrios do multiverso... o que diria sobre este ambiente medonho?
         O satanis fitou novamente as torres de ao e inclinou a cabea.
         -- Xandria, a Cidade no Centro do Cosmo -- afirmou, sem muita certeza. --  assim
chamada pelos malakins, ainda que no seja propriamente uma cidade nem .steja exatamente no
centro do cosmo.
         -- E o que so essas figuras vazias, que nos encaram da margem? -- indagou o duque,
referindo-se s entidades de pele de ferro. -- No desprendem nenhuma essncia ou energia
vital.
         A erudio do atlante no chegava a tanto.
         -- No sei quem so, mas pertencem a uma esfera csmica adversa, e isso explica nossa
incapacidade de compreend-las. Talvez sejam animadas por outra sorte de energia, diferente da
minha ou da sua. Seria tolice especular a respeito
-- concluiu, encerrando a conversa.
         Da proa, os oito nobres satnicos avistaram a passagem para uma galeria e viram
quando a abertura se dilatou como mgica, para receber o primeiro dos navios gigantes. O tnel
fluvial, que descia ao subterrneo, ampliou-se, e por ele seguiram os leviats, lotados de diabos
e espritos-escravos.
         Dentro em breve, alcanariam o ponto terminal da viagem: o plano etreo.


                                  O VENENO DA SERPENTE

         Enquanto a batalha seguia em volta de Sion, vitimando milhes de alados, no interior
Aziel e os ishins esperavam, na frigidez das cmaras vazias. Mesmo juntos, pareciam formigas
diante da enormidade dos sales abandonados. Depois que todas as legies de apoio se
deslocaram para fora da torre, a fortaleza ficou desprotegida, quieta e um tanto soturna. O brilho
da lua trespassava os vitrais, desenhando fnebres figuras s sombras das magnficas colunas de
bronze, que s vezes substituam os pilares rochosos, em certas salas mais suntuosas.
         A Chama Sagrada e seus comandados -- anjos gneos, que mantinham os punhos em
lume perene -- esquadrinhavam os aposentos e avanavam, pouco a pouco, para o corao da
bastilha, procurando seu eixo fundamental, para ento principiar o incndio. Poderiam estalar
imediatamente o fogaru, posto que suas flamas divinas eram suficientemente intensas para
consumir pedra, vidro e bronze. Mas Aziel adiou a ao, preferindo, antes, buscar a tal linha
central de sustentao, ponto onde as exploses provocariam uma destruio mais eficiente -- e
mais rpida. O atraso tambm daria mais tempo ao Primeiro General, que at ento no
retornara ao campo de guerra.
         O time meteu-se por um tnel pequeno, de paredes circulares e iluminao fraca -- uma
das passagens labirnticas que se conectavam aos andares superiores, tambm chamadas de vias
anglicas --, chegando, finalmente, a um corredor largo e vazio. A parede norte era aberta,
amparada por pilastras quadradas. A janela permitia uma impressionante viso do exterior, e
dali os invasores observaram, por segundos, a evoluo do conflito e a determinao dos
rebeldes, que derrubavam com vigor os sitiados, destronando suas defesas e abrindo caminho
para a vitria final.
         Banindo a escurido com as mos inflamadas, Aziel, surpreso, divisou marcas estranhas
no piso, que de to peculiares despertaram sua ateno. Pareciam ter derretido o soalho, todo
pavimentado com macias placas de pedra. Eram pegadas, ou assim se mostravam. Ajoelhou-se
para examin-las e descobriu, ainda, minsculos buracos no solo, como gotculas de eroso,
supostamente provocados por pingos corrosivos -- ou seriam lgrimas de fogo?
         Tocou as distores e percebeu que ainda ferviam. Tais marcas teriam sido causadas,
certamente, por passadas escaldantes, emanadas por alguma entidade elemental, to ou mais
poderosa que ele. Aziel sabia que s os ishins tinham a habilidade de criar labaredas capazes de
fundir as rochas mais duras, e imaginou, inicialmente, que um membro de sua casta, simptico
ao inimigo, vagava pelos arredores.
         Por estar no principal bastio dos celestiais leais a Miguel, a mente de Aziel esqueceu o
mais simples. No s os ishins detinham a supremacia sobre a provncia do fogo, mas tambm
os zanathus. Excitado e temeroso, ele logo percebeu seu lapso.
         -- Amael... -- decifrou, em um murmrio engasgado. E virou-se a seus companheiros:
         -- Fiquem aqui e no faam nada at que eu retorne.
         De pronto, seus seguidores acataram o comando, porque compreenderam, no instante
exato, a carga dramtica da situao e o grande desafio imposto, pelo acaso, ao lder do
esquadro. Se Amael estivesse mesmo ali, na Torre das Mil Janelas, Aziel deveria encar-lo --
e sozinho.
         Ele no parou para pensar no absurdo que significava um infernal transitando
livremente pela fortaleza do Soberano Alado. Desde quando a inexpugnvel Sion servia de
esconderijo para diabos?
         Cauteloso, porm pouco furtivo, continuou pelo corredor, sem enxergar o que
espreitava adiante.
         O primeiro dos leviats -- provavelmente o maior -- saiu do tnel em uma grande
caverna alagada e correu para a rida plancie do etreo. Dali em diante, o Styx serpenteava pelo
deserto, contornando, ao longe, a cordilheira que abraava Sion. Era noite, mas uma forte lua
cheia iluminava o campo de guerra.
         A distncia, os duques assistiram ao magnfico espetculo dos exrcitos anglicos, que
se digladiavam no ar, ao redor da fortaleza altssima. Um dos partidos, supostamente o rebelde,
liderava a disputa, infligindo severas baixas aos inimigos. J haviam abatido tantos perversos
que agora o nmero de soldados rebeldes, inicialmente inferior, se igualava ao contingente dos
sitiados -- e seguia-se a matana. As paredes da torre e seus degraus circulares estavam
cobertos de sangue, e no cho os cadveres se amontoavam em camadas,  altura dos primeiros
andares. Eram milhes de alados abatidos, milhes de corpos jogados, decepados e mutilados,
com as asas partidas e a garganta cortada. No obstante, o exterior da bastilha continuava
infestado por atacantes e defensores, e a peleja no cessava.
         -- Somos muito mais numerosos que qualquer um dos exrcitos celestes -- gabou-se
Molloch, o Carrasco, com sua cabea grande e seus chifres pequenos.
         -- Mas veja como lutam! -- exclamou Asmodeus. -- Alm disso, o grosso de nossas
foras  composto por espritos-escravos, fracos e estpidos.
         -- Mas temos tambm nossas tropas de elite -- protestou Mephistopheles, uma figura
imponente, de pele de fogo e asas de morcego --, e nossos malikis so brbaros e furiosos,
combatentes inigualveis.
         -- Sim -- concordou Orion --, mas contra quem lutaremos? Ainda nos falta a correta
instruo de como atuar -- relembrou, e os nobres satnicos fitaram Samael, a Serpente do
den.
         O asqueroso conselheiro virou-se e da proa encarou os aristocratas, com expresso
atrevida. Nem uma palavra fora at ento revelada, mas os duques j imaginavam a estratgia,
definida secretamente por Lcifer e repassada ao seu testa de ferro. Supunham que deveriam
aguardar o fim da batalha, para depois barganhar com os vencedores enfraquecidos. Se no
aceitassem capitular, os infernais lanariam suas hordas, que aniquilariam sem muita
dificuldade as legies j fatigadas. Era uma ttica suja, covarde, mas que agradava de todo os
cruis senhores-diabos. Na verdade, os cados esperavam que os celestiais resistissem de fato,
para que pudessem assim destru-los, dando impulso  sua clera assassina e efetivando a
derradeira vingana contra aqueles que, um dia, os expulsaram do cu. Exigiriam execues
sumrias, sacrifcios e humilhaes, mesmo se os alados entregassem as armas.
         -- Preparem os batalhes -- sibilou a serpente --, mas atrasem as espadas. Levantem
os estandartes. Vamos mostrar nossa amizade ao Prncipe dos Anjos.
         -- O qu? -- grunhiu o gordo Mammon, incrdulo. Os outros duques, estupefatos,
perderam a fala ante o inesperado comando. Selar aliana com qualquer um dos partidos
divinos, especialmente com os seguidores do arcanjo Miguel, era uma afronta queles
demnios, derrubados antigamente pelas foras do Monarca Alado. O prprio Lcifer
reconhecia o irmo como seu pior inimigo, o adversrio que desbancara sua rebelio e o
condenara ao exlio na escurido do Sheol. -- Que palhaada  essa, sua cobra maldita?
         -- No  nenhuma palhaada, s a ordem do mestre. Sou leal ao meu amo.
         --  difcil aceitar que o Arcanjo Sombrio tenha ordenado que nos associssemos aos
anjos -- apoiou Asmodeus, e  sua retrica os presentes se agitaram. Mammon era o mais
furioso.
         -- A Estrela da Manh nunca pactuaria com aquele que nos arruinou. Sua memria 
longa e copiosa -- explodiu o untuoso infernal. -- O rastejante imundo est mentindo!
Revoltados, mais com a liderana de Samael do que com a estratgia ordenada, os chefes
empunharam as armas.
         -- Sugiro que se aquietem, senhores! -- pediu a cobra, acuada. -- Garanto que a ordem
provm de Nossa Majestade satnica, que julgou imprescindvel manter at agora o sigilo.
         Mas,  exceo de Orion, os aristocratas no se contiveram. Detestavam a Serpente do
den e adorariam pr fim  sua carreira indigesta. Mammon, que estava mais prximo ao
conselheiro, foi o primeiro a avanar. Levantou o machado e preparou a arma para estraalhar o
escamoso.
         Samael era um monstrengo fraco e esguio, mas rpido e astuto. Quando o gordalho
armou o golpe, a cobra escancarou a bocarra e cuspiu um veneno malcheiroso na cara do
agressor. No mesmo instante, Mammon largou a lmina pesada e, tonto pela cusparada, desabou
de costas no convs. O rudo alarmou os nobres do inferno, que recolheram a guarda.
         Com a face borbulhando em chagas de pus, o volumoso Mammon gritava como um
suno no matadouro. Cuspia bolas de sangue e se contorcia em convulses progressivas. A
peonha, naturalmente letal, fez dilatar a carne e os msculos, obstruindo a garganta e as
narinas. De repente, a vtima no podia mais respirar, e as paredes venosas se romperam 
presso acelerada. Os rgos e o corao sofreram colapso e faliram todos praticamente em
conjunto.
         Foi no piso do leviat, revirando-se de dor, incapaz de proferir uma ltima injria, que
morreu o duque Mammon, engasgado com a prpria saliva.
         O terror dominou os espectadores, e frustrou-se a tentativa de desafiar o preferido de
Lcifer. Samael teria gargalhado, mas conteve a soberba. O surto manaco de Mammon servira
bem aos seus interesses, promovendo uma reviravolta na situao. Ao assassinar um dos cados,
recuperara todo o respeito, defendendo-se da investida.
         -- Ponho  prova minha palavra -- declarou a serpente. -- Este  o desejo do Arcanjo
Sombrio, e falo em seu nome. Os descontentes podero desertar agora e sofrer as consequncias
depois.
         Sem mais opes e convencidos de que Samael dizia a verdade, os poderosos aderiram
 sua vontade. A manobra fatal do conselheiro e suas palavras ousadas mostravam como era
esperto. Os duques no tinham mais a inteno -- ou a coragem -- de provoc-lo, e reprimiram
o orgulho.
         A Serpente do den, de moral renascido, ergueu a cabea e mirou a fortaleza alm das
montanhas. Reparou na voracidade do embate e na derrota iminente dos alados partidrios do
prncipe, a quem deveriam prestar auxlio. Depois, girou o corpo reptiliano e contemplou a
fileira de leviats, que pelo leito do rio seguiam a nau capitnia -- o mesmo barco em que
navegavam os duques. Vislumbrou os milhes de demnios nos pores e conveses, ansiosos
para entrar em ao. Atentou para os capites; divisou as tropas de elite, os cavaleiros satnicos
e os espritos-escravos. Avistou a multido catica dos malikis, os diabos guerreiros, e enxergou
a massa restante dos infernais, monstros de todas as castas, inflados de fria e maldade.
         -- Chegou o dia em que o inferno caminhar sobre a terra -- disse Samael, j superada
a crise. -- Avisem a deciso aos comandantes. Logo, os navios vo atracar, e que estejam
prontas as divises.
         O primeiro transporte era reservado aos duques, aos altos oficiais e s foras especiais.
Tais foras eram formadas por incrveis cavaleiros, equipados com lanas e armaduras
completas, que guiavam cavalos esquelticos -- feras medonhas, de pele ressecada e cascos de
fogo. Os demnios montados no podiam voar, mas suas bestas tinham o poder de elevar-se aos
cus e trotar com o vento.
         -- Se me permite a pergunta,  conselheiro... -- ousou Asmodeus, adicionando uma
pitada irnica  oratria. -- Os sitiados tm cincia de que lutaremos a seu lado?
         Samael sabia que, embora temido, sua reputao podia ser novamente arrasada. Discutir
com os duques era o mesmo que pisar em ovos, e um simples movimento errneo o jogaria de
volta ao abismo.
         -- Levantaremos a bandeira do arcanjo Miguel em alinhamento  nossa, sinalizando a
aliana.
         -- E se eles recusarem o apoio? -- interpelou Mephistopheles.
         Sat apontou um dedo escamoso  zona de guerra, indicando a superior energia dos
revoltosos.
         -- No recusaro. Aos defensores no sobra escolha. Se declinarem nossa adeso, sero
massacrados pelos rebeldes. Nossas hordas vm salv-los da runa completa. E, findada a peleja,
seremos ns, ainda fortalecidos, que ditaremos as normas s tropas debilitadas.
         Era verdade. Os anjos sitiados eram perversos, inescrupulosos, e no rechaariam a
ajuda que os afastaria da derrocada. J os insurgentes no largariam seus ideais, adoravam a
justia, e jamais combateriam em concordncia com os soldados satnicos.
         Aos duques estava claro contra quem deveriam lutar, mas por qu? O que pretendia
Lcifer, auxiliando um inimigo de eras?
         Surgiu, ento, na mente de Orion, a hiptese da conspirao. Estariam os dois
mancomunados? Seria esse o motivo da ausncia do Senhor do Sheol durante toda a preparao
da campanha? O que cobiava Lcifer ao proteger os interesses do tirano que habitava Sion?
         E, por fim, havia mais uma pergunta.
         Por onde andava Apollyon?


                                     A LTIMA FLECHA

        Lcifer subiu a escada e emergiu pelo alapo, uma passagem aberta no piso, que
acessava o pinculo da fortaleza, no ponto mais alto da torre. No ptio pequeno, com a Roda do
Tempo no meio, o Arcanjo Sombrio encontrou dezenas de corpos estirados no cho. Esses anjos
abatidos haviam sido delegados para defender o terrao, mas foram aniquilados pelas setas
douradas das arqueiras rebeldes, logo no princpio da ofensiva.
        Shamira, ainda presa  pilastra de mrmore, assistiu  chegada do Diabo ao ltimo
andar. Enojada, a mulher encarou o demnio, que desviou o olhar para contemplar a batalha. Ao
notar sua presena, a necromante recordou-se da conspirao, tantas vezes mencionada por
Ablon, e desvendou o que se passava. Foi ento que viu o Prncipe dos Anjos subindo os
degraus, carregando consigo o general derrotado.
         Arrastado pela armadura, Ablon tinha a garganta lascada. Perdia sangue aos litros, em
um preldio  morte dolorosa. O rosto estava plido, gelado, e o corp, enfraquecido. Mas,
mesmo s portas do extermnio, seus olhos ainda brilhavam, e ele insistia em apertar com vigor
a Flagelo de Fogo.
         Shamira queria ajud-lo, mas estava imobilizada dos braos s pernas. Seus feitios
vocais no afetariam os inimigos.
         Todos os truques da feiticeira haviam se esgotado, e ela reviveu o trauma da corte do rei
Nimrod. O maior receio do Anjo Renegado era esquecer seus ideais. J a moa temia a
inutilidade. No tinha medo de morrer, nunca tivera, mas lamentava perder seu sonho, o anseio
de ter, algum dia, o general a seu lado.
         Miguel jogou Ablon com violncia contra a base da coluna de mrmore, entre a
necromante e a Roda do Tempo. Quando ele caiu, o metal da couraa dourada estalou, mas
resistiu ao impacto.
         -- Shamira... -- gemeu o renegado, aos ps da feiticeira acorrentada. -- Sempre fui seu
protetor. Quisera eu ter falhado na defesa de minha prpria vida e salvado a sua.
         Ela tentou no chorar, para no lastimar ainda mais o amigo, mas as lgrimas teimaram
em despencar pelo rosto. O corao tremeu  lembrana da caverna sobre a montanha, da
despedida na Babilnia, dos dias em Roma e dos tempos medievais. Definitivamente, estavam
ligados pelo amor verdadeiro, o sentimento divino que leva ao Criador.
         Estavam enamorados, e sempre estiveram, desde o dia em que se abraaram na gruta,
mas s ento reconheciam a paixo que os unia e os completava. No eram orgulhosos, apenas
inexperientes nos assuntos da carne, a despeito de suas habilidades fantsticas.
         E ali terminava a esperana, o desejo de uma vida futura, longe das trevas. Por toda sua
existncia, o general preservara sua amada, para que um dia pudesse t-la em paz. E tambm a
feiticeira sonhava com um tempo de luzes, em que abraaria seu adorado e com ele caminharia
eternamente.
         Mas o fim havia chegado, em um amargo desfecho. Ablon estava no precipcio da
morte, e Shamira seria sacrificada. A Feiticeira de En-Dor recordou-se de seu dilogo com o
tirano Miguel e do Livro da Vida. Estaria toda sua jornada gravada no tomo sagrado, conforme
sustentara o monarca? O destino dos dois, dela e do renegado, estava escrito desde o princpio
do universo?
         E, se estivesse, por que teriam lutado?


         Nas cordilheiras, a general Varna observava o combate, de arco na mo e seta no dedo.
Com o desenrolar da batalha, as arqueiras mantiveram suas posies nas montanhas, auxiliando
os soldados rebeldes com flechas ocasionais. No podiam disparar mais saraivadas, sob risco de
acertar os companheiros, metidos em luta cerrada. Os alvos prioritrios, agora, eram
meticulosos, e as guerreiras procuravam derrubar os lderes de esquadro. Graas s suas
fincadas mortais, os revoltosos superavam os sitiados e faziam proveitosa investida. Logo Sion
estaria em runas, ou assim pensavam os insurgentes.
         Foi quando, com olhos precisos e viso poderosa, Varna enxergou a oportunidade da
vitria ao alcance da seta. Do topo da pedra, avistou o pinculo da torre e reconheceu o arcanjo
Miguel, circulando  volta da Roda do Tempo. Divisou, ainda, uma segunda entidade obscura,
que no identificou muito bem.
         Se pudesse, dali, alvejar o corao de Miguel, os perversos perderiam seu lder. E
mesmo um arcanjo sucumbiria se trespassado em seu ponto vital. A distncia, para ela, no era
um fator -- j tinha perfurado inimigos a extenses muito maiores. Alm disso, o prncipe
estava desprevenido, alheio ao seu ataque, e no se desviaria do projtil dourado.
         Sem esperar, ela fez pontaria, mas aguardou o momento. Milhares de anjos, amigos e
adversrios, obstruam a linha de tiro, enquanto se debatiam nas cercanias da fortaleza. A cada
instante, um combatente passava na frente, dificultando o ajuste da mira.
         Ento, abriu-se uma lacuna, e ela atirou, com toda a percia.
         O mssil sagrado percorreu o trajeto como trovoada, de encontro ao corao do
soberano.
         Mas, conforme o prprio Miguel dissera uma vez, ele era um arcanjo, um gigante, o
primeiro dos celestiais, o primognito de Deus. Lutara nas Batalhas Primevas e vencera deuses
antigos. Era a mais velha e mais forte das criaturas viventes.
         Com o senso de perigo aguado, o tirano agachou-se e desfraldou as asas como a
expanso de um leque. As penas anavalhadas, conhecidas por mutilar feito ao, cortaram a
flecha pela metade com velocidade impressionante. O projtil de ouro foi dividido em pleno
percurso -- um fragmento encravou-se no cho do terrao, e o outro se perdeu no campo de
guerra.
          viso do fracasso, Varna recuou um passo, desolada.. Jamais perdera um tiro e no
sabia como reagir.
         Revoltado pela ousadia, Miguel catou do solo uma lana, a arma de um dos soldados
feridos.
         -- Esses rebeldes no aprendem seu lugar -- resmungou.
         -- Foi aquela de arco na mo -- apontou Lcifer, que melhor assistira ao assalto.
         E assim, o Prncipe dos Anjos arremessou a lana, sem se preocupar com as obstrues.
O arpo rasgou o vento, trespassando dezenas de anjos no caminho, mas nem por isso
interrompendo sua corrida. Por fim, alcanou o destino, destruindo a malha metlica da arqueira
celeste e atravessando-lhe o corpo.
         Varna caiu rolando pelo rochedo, e seu sangue jorrou na rocha.
         Uma oficial veio ampar-la, mas era tarde demais.
         A lutadora morrera antes de tocar o cho do penhasco.


                                 A BANDEIRA ENROLADA

         Quando todos os leviats estavam alinhados, prximos  margem do Styx, Samael fez
sinal para que os navios parassem. Mandou um subalterno trazer do poro um embrulho e o
desenrolou no convs -- era o estandarte do arcanjo Miguel, preso a uma haste de prata.
         -- Eis a flmula com a qual sinalizaremos aos nossos aliados -- explicou. -- Ser
carregada por um porta-bandeira, na linha de frente.
         -- E como conseguiu este objeto? -- desconfiou Baalzebul, uma criatura repugnante,
com rosto de mosca e corpo de inseto. Os duques estavam sempre prontos a desmoralizar a
serpente, mas ela era habilidosa com a lngua e rpida com a mente.
         -- Foi-me entregue pelo Filho do Alvorecer em pessoa -- respondeu.
         -- Mas com isso a pergunta prossegue -- insistiu o carrasco Molloch. -- Como o
Arcanjo Sombrio adquiriu esta bandeira?
         -- Logo poder esclarecer suas dvidas diretamente com nosso amo -- manobrou
sabiamente a cobra do den.
         Molloch no replicou, e o assunto perdeu-se. O conselheiro retomou as instrues.
         -- Assumam j o controle de suas hordas. Alinhem-se no cho e no ar. E, depois,
mandaremos tocar os tambores.
         As rampas dos barcos baixaram, e dos pores saram milhes de demnios. Os duques
se armaram para a batalha, mas Samael ficou na proa, perto do cadver de Mammon.
         -- E voc? -- intimou Asmodeus.--Vem conosco, ou permanecer no navio?
         -- Estarei com vocs, mas no sem antes limpar esta imundice -- respondeu, referindo-
se aos restos do gordalho.
         Deu-se, ento, um espetculo horrendo. A serpente, tal qual uma sucuri gigante, abriu a
bocarra e nela meteu a cabea do volumoso Mammon. Foi engolindo o defunto,  medida que
suas formas ofdicas se esticavam pax suportar a carcaa do morto. Ao perceber a atitude, at
os duques, sdicos e depravados, sentiram uma pontada de nojo e se afastaram da saliva txica
que vazava para o convs.
        Em segundos, todo o corpo foi devorado, sumindo carne e ossos. Samael levantou-se.
Sua silhueta crescera em altura e largura, e seus contornos s voltariam ao normal quando
digerido todo o alimento.


         As hordas comearam a sair dos navios, como gafanhotos famintos. Imediatamente,
assumiam suas posies, conforme ordenado por seus capites.
         Como os rebeldes ao se prepararem para a batalha, os demnios tambm armaram
fileiras e colunas no ar, porque muitos deles podiam voar, mas nem todos.
         Na primeira fileira vinham as unidades de elite, compostas por cavaleiros satnicos, em
armaduras completas. Guiavam animais esquelticos, que voavam com patas de fogo. E mesmo
trotando no cu, onde nada havia alm do vento uivante, escutava-se o som dos cascos pesados,
como uma manada correndo na firmeza da terra.
         A segunda fileira era reservada aos lutadores mais desprezveis, os espritos-escravos,
selecionados para executar os inimigos feridos, derrubados pelas tropas especiais. A aparncia
desses monstros  semelhante aos lees, chacais ou abutres, mas despelados, de carne ressecada
e olhos em fria.
         Na terceira fileira avanavam os soldados regulares: os malikis, os diabos guerreiros.
Levavam tridentes, mas faziam bom uso das presas e garras quando ameaados. O semblante
era grotesco, e babavam de clera. Fortes e vigorosos, costumavam balanar os chifres e a
cauda para apavorar os adversrios.
         Por fim, na quarta e ltima fileira, estavam as foras irregulares, formadas por infernais
de todas as castas, unidos pelo desejo de matar, pilhar e torturar. Pelo manto celeste, passeavam
ginetes com lanas compridas, montados em feras voadoras, iguais  besta de Lilith, a finada
rainha succubus.
         Os duques, que coordenavam a ao, caminharam at a plancie e estacaram perto do
monte Megiddo, a Montanha no Extremo do Mundo, para firmar a estratgia.
         -- H uma cordilheira que cerca a fortaleza -- reparou Baalzebul.
         -- Um destacamento rebelde se espalha nas rochas -- avistou Molloch, fitando as
montanhas. -- Devem ser lanceiros ou lutadores de apoio.
         --  o regimento das arqueiras -- reconheceu Alastor. -- Uma tal Varna comanda a
diviso.  a preferida do arcanjo Gabriel, e seu brao direito.
         -- Vamos sobrevoar o crculo de pedra -- props Mephistopheles.
         -- Seremos abatidos pelas setas douradas -- protestou Bael, o Infeliz.
         -- No se enviarmos na frente os espritos-escravos -- solucionou Asmodeus,
malicioso.
         -- Mas e quanto aos demnios desprovidos de asas? -- reagiu Molloch.
         -- Ordenemos que escalem as montanhas e ocupem a posio das arqueiras.
         -- Morrero aos milhares -- comentou Orion --, perfurados enquanto sobem a encosta.
         -- Para isso foram convocados -- lembrou Asmodeus, e os cados apoiaram seu plano.
         Na proa da nau capitnia, Samael, gordo como um saco apinhado, levantou o brao
escamoso.
         E os tambores rufaram.


        Nas alturas, ao redor de Sion, os anjos em guerra seguraram os golpes e pararam
subitamente, ao escutar a percusso infernal. Cessaram as lutas, as flechas e as perseguies, ao
som do rudo dos tambores satnicos.
        A ateno dos alados desviou-se para as plancies ao norte, anteriores  cordilheira,
onde um estupendo exrcito de diabos eufricos tomava posio, prximo s margens do Styx.
Eram centenas de milhes de soldados, que saam dos negros navios e enchiam o cu at a
altura do vu estelar.
        Todos os celestiais, atacantes e sitiados, tremeram, mesmo os mais destemidos, diante
das hordas de monstros. Quanto aos rebeldes, eram fortes de corpo e sbios de esprito, e logo
engoliram o receio.
        -- So as hostes de Lcifer -- exclamou Baturiel, o Honrado, para o general Shenial,
seu companheiro de campo. -- O que fazem aqui e como chegaram to repentinamente?
        -- Leviats -- respondeu o amigo, avistando os grandes barcos ancorados no rio. --
Pensei que s existissem em lendas.
        -- So muitos -- replicou o Honrado, ao reparar na multido de demnios. As divises
diablicas ultrapassavam, de longe, o contingente dos dois exrcitos anglicos juntos.
        -- E quem apoiaro? -- inquiriu Shenial, mas j sabia a resposta, e ao imagin-la o
terror percorreu-lhe a espinha. Os revoltosos, sob nenhuma hiptese, firmariam amizade com o
Diabo. Os defensores, entretanto, acostumados  perversidade, eram suficientemente malvados
para aceitar o apoio, ainda mais em um momento difcil.
        Na linha de frente, um cavaleiro do inferno levava, aberto, o estandarte das hordas de
Lcifer. A seu lado, outro ginete carregava uma bandeira fechada.
        Os dois partidos celestes esperavam para ver a flmula hasteada e saber ao certo com
quem os satnicos formariam aliana.


        Samael, a Serpente do den, arrastou-se ao tombadilho, ainda entorpecido pela comida.
De l, avistou a Torre das Mil Janelas, viu o combate parado e vislumbrou a nuvem negra que
encimava a bastilha. Ele no sabia, mas aquela era uma marca da presena de Lcifer na
fortaleza.
        --  uma noite propcia aos infernais -- sibilou, pressentido a presena de seu mestre
maldito.


                                    FIM DA ESPERANA
         Ablon estava esmorecido, quase morto, quando ouviu o rufar dos tambores. Com uma
mo, apertava a Flagelo de Fogo, e com a outra tentava se escorar na pilastra de mrmore. Presa
 coluna, Shamira assistia, intil, ao sofrimento do anjo guerreiro. No queria admitir que
erraram ao perseguir a justia, ento parecia mais confortvel aceitar que sua sina fora
previamente traada.
         -- L vm eles, meus meninos -- regozijou-se Lcifer, sempre teatral, ao avistar as
hordas do inferno. Ele se ps de ccoras e falou ao renegado:
         -- Voc tem que ver isso, general,  um espetculo.
         Ablon tossiu, com a hemorragia j avanada.
         -- No... no morra agora. Ainda no. No sem contemplar meu exrcito.
         Miguel, com seus msculos poderosos, pegou Ablon pela armadura e o levantou, para
que vislumbrasse, do terrao, a hoste de monstros. Foi quando um cavaleiro demnio, ainda na
plancie anterior s cordilheiras, desenrolou a bandeira, e nela estava gravado o smbolo dos
sitiados -- a herldica do Prncipe dos Anjos.
         A aliana fora declarada.
         No exterior da fortaleza, os anjos perversos enxergaram o estandarte, e um de seus
comandantes gritou:
         -- Esto conosco! -- como que abenoando a ajuda das feras. -- Continuem a lutar.
Destruam os rebeldes!
         De alento revigorado, os sitiados retomaram suas armas. Alguns poucos, de corao
resgatvel, hesitaram  perspectiva de combater ao lado dos infernais, mas a maioria nem se
importou com a identidade de seus salvadores. Buscavam somente o triunfo e o poder que dele
deriva.
         Considerando a reviravolta, qualquer exrcito teria recuado, mas os revoltosos no se
afastaram. Estavam preparados para a morte, prontos para enfrentar qualquer oponente, fosse
ele anjo ou demnio.
         -- Mantenham posio! -- clamou Baturiel s legies rebeladas. -- Levantem as
espadas. Prossigam a guerra. So s diabretes, contra os quais nossas lminas esto sempre
afiadas.
         Ressurgiu o confronto na torre, enquanto os satnicos voavam rumo a Sion.


         -- Seu levante est acabado, general -- disse a Estrela da Manh. -- A Irmandade dos
Renegados fracassou, e tambm os novos rebeldes, que abraaram seu ideal. Esta noite, minhas
hordas exterminaro os insurgentes. A aura de Gabriel apagou-se, e em breve a sua tambm
morrer. Da feiticeira tomaremos a alma, e assim completa-se a Roda do Tempo. Chega ao fim
o stimo dia, e tem incio o reino sagrado. Os seres humanos contaminaram suas idias. E,
ento, o que se tornou? Sinto em sua pele o cheiro do barro, o aroma da matria decrpita, o
fedor dos animais que destruram nosso planeta.
         Miguel, que agarrava o general pela gola, largou-o sobre a roda, e o sangue espargiu-se,
encobrindo as marcaes msticas no crculo de pedra. Mas, incrivelmente, restava ainda, nos
olhos do prncipe, uma centelha de lucidez, uma fagulha de retido, inexistente no corao do
Arcanjo Sombrio, corrompido pela maldade.
         -- Acho que, enfim, admiro sua bravura, Anjo Renegado -- discorreu Miguel, surpreso
por suas prprias palavras. -Tambm sou um soldado -- e era, realmente, o que Lcifer nunca
fora de fato -- e conheo o mpeto dos combatentes, o ardor que nos chama  batalha e nos faz
aceitar os grandes desafios, como um dia eu enfrentei os deuses antigos. Mas compreenda,
finalmente, que o curso do stimo dia sempre esteve traado -- e, dito isso, mostrou ao heri o
Livro da Vida. -- O destino do mundo foi determinado por Deus, no princpio da criao, e
registrado nas pginas do tomo -- e o arcanjo abriu o volume, permitindo que o querubim
visualizasse suas ltimas pginas. -- Nada que fizesse mudaria isso. Somos pees no plano
divino, e continuaremos a ser, at que se conclua o Apocalipse. Mas, quando o ciclo for
terminado e o tecido cair, seremos ns, Lcifer e eu, a escrevermos a histria, como divindades
supremas. A vontade do Altssimo  imutvel, inabalvel e irresistvel.
         -- J chega, Miguel -- cortou o Filho do Alvorecer, desagradado com a piedade do
irmo. -- Vamos fazer um minuto de silncio para o nosso rival -- ironizou.
         E, ao nefasto soar dos tambores do inferno, o general perdeu os sentidos. Em suas mos,
a Flagelo de Fogo diminuiu o crepitar,  medida que seu esgrimidor fenecia. Era uma relquia
sagrada, uma das cinco espadas forjadas por Yahweh na aurora do universo, e jamais se apagara
-- at agora.
         Quanto  feiticeira, suas lgrimas j tinham secado. Vivera por anos cultivando um
amor ideal, s para ver, no fim, morrer seu guardio adorado. Se fossem ambos terrenos, ela o
teria seguido  casa dos mortos, mas Ablon era um anjo, e os celestes so desprovidos de alma e
no conhecem outra vida, alm da existncia. Ao perecerem, sua aura vira pura energia, se
espalha e retorna  fluncia do cosmo, como uma estrela que expira no cu.
         No pinculo da Fortaleza de Sion, desmaiado sobre a Roda do Tempo, imundo de
sangue e suor, falecia o esprito da justia, o mensageiro da esperana, o protetor da Feiticeira
de En-Dor, aquele que a tirara do desespero e a ensinara a viver.
         Em resposta ao ltimo hlito do lutador, a luz da Flagelo de Fogo extinguiu-se, e seu
ao esfriou, tal qual o corao do guerreiro.
         E assim morria Ablon, o Primeiro General, lder dos renegados e cone dos novos
rebeldes.


                             A PERSISTNCIA DOS GENERAIS

        No campo de guerra, as hordas do inferno j estavam muito perto das cordilheiras -- o
crculo de montanhas que abraava Sion. As arqueiras rebeldes, originalmente ali posicionadas
para alvejar a fortaleza, viraram-se para a plancie na direo do Styx e comearam os disparos,
atirando uma chuva de flechas nos infernais, que haviam declarado seu apoio s perversas
legies de Miguel.
         No incio, os duques pensaram que enviar na frente os espritos-escravos protegeria os
cavaleiros voadores das setas douradas, mas estavam enganados. To poderosas eram as
arqueiras que as flechas trespassavam o corpo dos diabretes, um aps o outro, e s paravam ao
encontrar os soldados de elite, que haviam passado  segunda fileira de ataque, temendo as
fincadas mortais. Assim, os pees, convocados para a morte, constituam uma barreira intil e
desapareciam como fumaa ao ser atingidos pelos projteis. Em consequncia, caam tambm
as tropas especiais, com os msseis que furavam as armaduras.
         Mas, apesar da destreza, eram muitos os demnios, que lotavam a paisagem do cho s
alturas. As flechas seriam insuficientes, e as celestiais resolveram, enfim, pr os arcos de lado,
pegar as espadas e recuar para mais perto da torre, juntando-se s foras de Baturiel, que
combatiam corpo a corpo com os sitiados, j praticamente exauridos.
         Com isso, o grande exrcito satnico sobrevoou as montanhas, entrou no permetro de
defesa da fortaleza e uniu-se ao partido dos anjos malficos. Seu assalto era semelhante a um
escarcu de fumaa: obscuro, vivo, que gritava e rugia.
         Teve incio, ento, a maior batalha de todos os tempos, marcada pela fora, resistncia e
herosmo dos anjos rebeldes, que aguentaram com energia o ataque estupendo. Dos grandes
generais revoltosos, incluindo Baturiel e Shenial, poucos haviam cado. Cheios de fria e calor,
incentivavam os lutadores, que retalhavam e matavam com indescritvel bravura, contra todas as
possibilidades, humanas e divinas.
         Assim, eles resistiriam por muito tempo, mas no eternamente.


        Ao longe, o gordo Samael desceu a rampa da nau capitnia. Os barqueiros voltaram a
comandar seus navios, que dali seguiriam, vazios, para outro lugar.
        Os condutores haviam sido contratados para levar os demnios do Sheol ao etreo, mas
no foi acertado um caminho de volta- porque Lcifer no planejava regressar ao inferno to
cedo. Para ele, estava garantido o triunfo, por isso dispensou o servio de retorno nos leviats.
        Assim, tendo cumprido o acertado, os barqueiros comandaram seus veculos incrveis,
prosseguiram pelo leito do Styx e desapareceram no horizonte.
        Desajeitado pelo tamanho excessivo, a Serpente do den foi se arrastando rumo a Sion,
onde as hostes j combatiam.


         -- Terminou -- suspirou Lcifer, realizado. Olhou mais uma vez para o combate e
fitou, desejoso, a feiticeira pendurada  coluna. No era um desejo carnal, como uma vez sentira
por Lilith, mas um apetite csmico, que s a alma da moa poderia acalmar. Despiu-se da
couraa dourada e largou sua espada de fogo, a Raio da Aurora. -- No preciso mais desses
acessrios baratos. Serei Deus, brevemente -- e deu meia-volta, caminhando para o alapo.
         -- Aonde vai, meu irmo? -- perguntou Miguel. -- Temos trabalho a fazer -- e
indicou a necromante.
         -- Vou dar um estmulo aos meus rapazes, mostrar-me em campo, incentivar meus
soldados. Por enquanto, temos que aguardar o sinal da Stima Trombeta e a desintegrao total
do tecido. Voc pode sacrificar a mulher, se assim preferir, mas deve guardar sua alma --
alguns celestiais tm o poder de segurar a alma dos mortos, impedindo que sigam ao cu. --
No permita que seu esprito escape para o paraso celeste e ingresse na casa dos santos, ao leste
do den, de onde nem ns poderamos recuper-lo. Seu poder humano s nos servir finalmente
quando a membrana cair.
         O Terceiro Cu, chamado de Shehaquim,  o den celestial, uma terra de maravilhas,
reservada aos justos. Nessa camada esto as colnias espirituais, que recebem as almas dos
virtuosos para o eterno descanso. As comunidades superiores so guiadas pelos santos, pelos
profetas antigos e pelos mestres desencarnados. O maior desses sbios  o prprio Salvador,
nascido como homem em Nazar e morto no calvrio romano. To enorme  a fora dos mestres
que, em suas colnias, nem os arcanjos penetram sem permisso. Alguns dizem que o arcanjo
Rafael, cansado da perversidade de seus irmos, exilou-se em Shehaquim, ensinando aos
ntegros muitos mistrios remotos, anteriores  criao.
        A Estrela da Manh desceu a escada, deixando o terrao, e voltou  Sala dos Portais,
para depois caminhar para um corredor obscuro, de onde teria ampla viso da batalha.
        Miguel, o Soberano Alado, refez o semblante de dio, sua faceta mais natural. Retomou
da bainha a Chama da Morte e empunhou a lmina mstica.
        Shamira estava para ser executada.


                           BATURIEL CONTRA MEPHISTOPHELES

         Quando os inimigos chocaram suas armas, os duques tambm ingressaram em batalha,
juntamente com suas feras e monstros,  exceo de Orion, o Rei Cado de Atlntida, que
desaparecera no comeo da ofensiva. Os senhores satnicos chegaram a considerar sua morte,
porque no era de fugir  luta. Sentiram a perda de sua mente estratgica, e a ausncia resultou
no extermnio de hordas inteiras, que careciam de adequado comando, de um general que indi-
casse a ttica efetiva e mostrasse s tropas as manobras apropriadas. O satanis era um mestre do
belicismo, conhecimento que aprimorara havia milnios, durante as Guerras Mediterrneas, o
confronto ancestral entre Atlntida e Enoque, as duas maiores civilizaes humanas de
antigamente, anteriores  grande inundao.
         Nas alturas, era notvel a valentia com que os rebeldes afrontavam, simultaneamente,
tanto os soldados do inferno como seus adversrios celestes, simpticos ao arcanjo Miguel.
Mas, para a infelicidade dos alados perversos, o assalto dos demnios fazia-se grosseiro e
catico, o que, de certa forma, complicava as legies sitiadas. Essa falta de disciplina revelou-se
preciosa aos insurgentes, que mantinham seus guerreiros em linha, e aguentavam, seguros, o
embate das bestas.
         Misturados  confuso, Mephistopheles e Baalzebul voavam, cortando e estraalhando
os revoltosos. Mephistopheles, chamado tambm de Mephisto, era um exmio espadachim, e
carregava um sabre fino, porm indestrutvel. Parecia um homem comum, forte e imponente,
mas com pele de fogo, asas de morcego e um chifre grande que se dobrava para trs. J
Baalzebul, o Prncipe das Moscas, era um monstro abominvel. O corpo humanoide estava
recoberto por uma casca de inseto, dura e untada por uma gosma nojenta. As asas e o rosto
imitavam a anatomia das moscas, com olhos compostos e pelos na boca.
         -- Temos que anular a coragem dos rebelados -- falou Mephistopheles ao demnio-
inseto, que deslizava ao vento.
         O Prncipe das Moscas apontou para Baturiel, indicando ser ele o lder do exrcito dos
justos.
         --  aquele que coordena as legies revolucionrias.
         -- Vou derrub-lo. Venha comigo, mas fique escondido -- e disparou ao encontro do
alvo.
         Assim, Mephisto chegou diante do Honrado, pairando no ar com as asas esticadas.
Brandiu seu florete de lmina delgada e encarou o comandante rebelde.
         -- Sou Mephistopheles, duque do inferno, Senhor dos Zanathus e Rei do Mar
Flamejante -- anunciou-se.
         --  um dos cados -- reconheceu Baturiel. -- Recordo-me do tempo em que era um
ishim, no paraso celeste, antes da guerra no cu.
         -- Aceite, ento, meu convite ao duelo,  disputa justa, sem estratagemas -- convocou
o infernal, e o anjo no podia mais recusar, porque era um guerreiro, e seu cdigo o impedia de
recuar ante o combate anunciado. Sentia-se at premiado por confrontar um diabo supostamente
leal, pois ouvira que todos os infernais eram ardilosos e trapaceiros.
         Os dois se moveram, preparados para o conflito. As espadas rasparam, bateram,
toparam, soltaram fascas, e os duelistas se enfrentaram como lees. Muitos diabretes pararam
para observar e pagaram com a vida pela distrao.
         Baturiel ia ganhando, mas Mephisto chutou-lhe o ventre, empurrando o comandante
para longe. O celeste recuperou-se e aguardou nova investida, mas ento escutou um zumbido
de inseto que o espreitava por trs. Girou sem demora e viu o Prncipe das Moscas, que voejava
furtivo, pronto para agredi-lo. Pressionado nas duas direes por rivais poderosos, o Honrado
sacou um punhal mstico, que guardava na bota, e o arremessou contra Baalzebul, acertando-o
na testa. Depois, voltou  posio anterior e rasgou a barriga de Mephistopheles, que tentava
acomet-lo no calor do tumulto.
         O duque recurvou-se de dor e teve a cabea decepada, diante das hostes pasmadas.
         Na face oposta da fortaleza, Shenial derrotava o carrasco Molloch, mas o sinistro
Asmodeus matava dois generais rebelados.
         E, mesmo com a quantidade excessiva de inimigos, os rebeldes batalhavam em p de
igualdade.


         Lcifer deixou o terrao, cruzou a Sala dos Portais e desceu para um corredor largo e
vazio, cuja parede norte era aberta, dando vista  batalha. Ali ficou por alguns minutos, oculto,
louvando a prpria inteligncia.
         -- Que beleza!  uma maravilha! -- rejubilou-se, abrindo as asas e se preparando para
decolar. Ia aparecer a seus combatentes, mas parou e decidiu esperar, recuando para a escurido
do alpendre.
         Apesar de seu decisivo triunfo, o Arcanjo Sombrio sentia-se enfraquecido. Ele mesmo
sacrificara parte da energia de sua aura para contratar os leviats e, embora no estivesse
arrasado, estava mais dbil que o usual. Dentre os demnios, era o nico que poderia ter saldado
os barqueiros, porque s algum to poderoso teria essncia suficiente para solicitar os navios
gigantes.
         Sua potncia regressaria em breve, mas por ora precisava redobrar a cautela e cuidar
para que os duques no descobrissem sua atual condio. Os aristocratas satnicos, os quais
comandava, eram astutos e traioeiros, e poderiam tentar se voltar contra o mestre se soubessem
de sua fraqueza. Cansado, Lcifer seria capaz de lidar com qualquer um deles, mas no com
todos ao mesmo tempo.
         Assim, aguardou mais um pouco. S se apresentaria ao combate em momento seguro.


                            A CAVERNA SOBRE A MONTANHA

         De repente, como em sonhos, Ablon estava de volta  caverna sobre a montanha, seu
santurio particular, o refgio mental para onde se reportava sempre que a tristeza superava a
esperana. Sentia-se entorpecido, como ao despertar de um sono profundo.
         Estava frio como um cadver, imvel e insensvel, quando uma mo quente apertou seu
brao. Abriu os olhos e descobriu-se no centro da gruta, deitado sobre o colo da Feiticeira de
En-Dor. Desafiando toda a lgica do espao e do tempo, a necromante vestia-se como nos dias
antigos, pura e natural, e o nico perfume que exalava era o gostoso aroma de seu corpo
adorvel. Mas como poderia o renegado ter retornado ao passado, a no ser em meio aos
delrios que antecedem a morte?
         Tentou se erguer, mas os msculos enrijeceram. Os ossos mais pareciam gravetos,
frgeis e quebradios. Nem o corao se agitava. Era pouco mais que um defunto, incapaz de
movimentar um membro sequer.
         Ento, a moa sorriu, com carinho e sensualidade, e o terror desapareceu. Recurvando-
se sobre o busto do general destronado, ela afagou seu rosto, castigado pelas batalhas, e o
encarou com alegria, cultivando o amor j semeado. Acariciou-lhe os cabelos dourados e
deslizou os dedos pela barba malfeita, at encontrar os lbios rachados. Depois, aproximou a
face  dele e o beijou intensamente.
         Quando a boca macia da mulher tocou o heri, um calor encheu a caverna, fazendo
reviver a carcaa inerte e recuperando o ardor no corao congelado. O sangue voltou a correr, e
o peito palpitou novamente. Em um breve segundo, toda sua vida percorreu-lhe a lembrana,
desde a luz do nascimento, no princpio do universo, at seu jazigo no pinculo da torre.
         Assaltado pela paixo, ento elevada ao mximo, Ablon no mais distinguia o real do
ilusrio. No tinha certeza sobre o que faria ou de onde estava, verdadeiramente. Talvez ainda
agonizasse, estirado na Roda do Tempo, porque no h redeno para os celestiais fracassados.
         Sentou-se  fogueira e percebeu que havia, na gruta, outras entidades celestes. Ao seu
redor, como um precioso crculo de guardies, estavam todos os renegados, honrando o general
com suas espadas brilhantes.  luz tremulante do fogo, o general reconheceu a saudosa Ishtar, o
bravo Hazai e o valoroso Yarion, entre outros. Estava reunida a irmandade, com seus dezoito
guerreiros, de asas brancas rajadas de sangue e coragem insupervel.
         E, no centro dos expurgados, uma figura especial ganhava destaque, por sua essncia
sublime. O arcanjo Gabriel guardava a sada, de semblante tranquilo, postura altiva e expresso
decidida.
         -- Esto todos aqui -- gemeu Ablon. -- A Irmandade dos Renegados e o Anjo da
Revelao. Como podem ter escapado da morte?
         -- Para ns, os alados, a morte  a disperso do esprito -- explicou o Mestre do Fogo
--, mas nossa energia  indestrutvel. No somos mais conscincias individuais, mas uma s
potncia. Agora, vivemos em sua mente, e nossa fora far sua aura ascender. Nossos sacrifcios
o levaro  vitria.
         -- Eis o valor da amizade -- disse Hazai. --  o suporte do mundo.
         -- Confie em seus ideais, general -- instigou a bela Ishtar --, e regresse ao campo de
guerra.
         E, com o apoio dos velhos amigos, o guerreiro reanimou-se para a batalha. O brao
direito fervia, mas no chegava a feri-lo. Na verdade, s o elevava.


         No ltimo andar da Torre das Mil Janelas, sob o glido vento na culminncia da terra, o
prncipe Miguel apontou sua espada, a Chama da Morte, para o corao da Feiticeira de En-Dor.
Sacrificada, sua alma seria roubada e convertida em pura energia, para saciar a avidez dos
arcanjos. Nascida em Cana, havia muitos anos, hoje no existia um s mortal que a superasse
em poder e longevidade. Seu esprito era forte e antigo, e atraiu, assim, a cobia de seus
assassinos.
         O corpo de Ablon continuava esticado sobre a Roda do Tempo. A Flagelo de Fogo jazia
ao alcance da mo, mas sua lmina era ento s uma chapa gelada, uma arma de ao comum,
sem suas labaredas fantsticas.
         Foi quando,  escurido da nuvem que encobria Sion, sucedeu o milagre. No brao do
renegado, acima do pulso, acendeu uma marca abrasada, no exato local onde a necromante o
tocara em sonhos. A inscrio esquentou, como um sinal registrado a ferro. O sangue, espalhado
em poas no cho, iniciou um lento regresso ao cadver, em uma inacreditvel demonstrao de
misticismo e pujana. A trilha vermelha que sujava a escada subiu de volta  ferida, e mesmo a
garganta rasgada se regenerou, at que todo o sangue refluiu  carcaa.
         No antebrao do general brilhava uma runa -- a runa do corpo, gravada por Shamira no
ritual de alta magia, e que tinha por objetivo prevenir a destruio do guerreiro, quando de sua
visita ao inferno a convite de Lcifer. O encontro pacfico no exigira o feitio, mas ele
continuaria ativo at que fosse ceifada a vida de seu protegido. E agora, em circunstncia
surpreendente, o encantamento entrava em ao, recuperando o general em plenitude e fazendo-
o recobrar totalmente suas habilidades celestes.
         Em resposta ao renascimento do heri, a Flagelo de Fogo incendeu-se em flamas
sagradas. O querubim inspirou, expandiu as asas e lembrou-se das palavras de Gabriel, que o
incentivara a tomar a espada em um instante de aflio.
         Ao escutar o estalido do ao, Miguel imediatamente parou o que estava fazendo e virou-
se  Roda do Tempo. O que viu no era aceitvel, absolutamente, para algum to fatalista.
         Levantava-se o Anjo Renegado sobre o crculo de rocha, inteiramente recomposto. Sua
essncia vital ascendera, multiplicara-se e explodira ao patamar dos arcanjos, suplantando a
aura do inalcanvel tirano.
         Num primeiro momento, nem Ablon compreendera totalmente o que tinha acontecido.
Todos os ferimentos sararam, a fora voltara, e os sentidos estavam apurados como nunca.
Olhou para os punhos, meio incrdulo, e comeou a ver e escutar coisas novas. Uma agradvel
melodia inundou-lhe os ouvidos, e ele entendeu que aquele era o som da natureza, o incrvel
movimento dos tomos e partculas, vivas e mortas, que mantinham o universo fluindo. Ao seu
redor, enxergou os anjos em batalha, antes velozes, brigando to lentamente que seria ridculo
venc-los. Era assim, imaginou, que Miguel devia perceber seus golpes, durante o duelo na Sala
dos Portais.
         Preocupado, inicialmente, com a salvao de Shamira, Ablon golpeou a Chama da
Morte, para desarmar o Prncipe Celeste e impedir a execuo da feiticeira. O inimigo no
resistiu ao ataque, e sua lmina escapou-lhe  pegada. A arma rolou pelo piso do ptio, deixando
vulnervel o soberano.
         -- No pode ser real o que vejo! -- protestou o surpreso Miguel, negando seus instintos
primrios. -- H pouco estava arrasado, acabado, derrotado pela conspirao. Como pode ter
retornado do breu infinito, com energia to magnfica?
         -- Eu no luto sozinho -- avisou o general. -- Esto comigo a irmandade, o arcanjo
Gabriel e a Feiticeira de En-Dor.  a fora deles que me revive. Foi o amor pela justia que me
trouxe de volta. Agora, pegue sua espada. Meu cdigo me impede de enfrentar um oponente
desarmado.
         Assim, ainda chocado pelo extraordinrio prodgio, o prncipe buscou a arma do cho e
equipou-se para novo combate. Mas, logo que brandiu a relquia, o renegado avanou e investiu
contra ele com toda a vontade, demonstrando celeridade invencvel.
         Um estrondo descomunal sacudiu os pilares do mundo, abalando as fundaes do
planeta. Acompanhou uma exploso luminosa, que ofuscou o pinculo ao embate das lminas
cintilantes. O tirano tremeu, sobrepujado pelo esplendor do Renascido.
         -- O Criador previu sua morte e minha ascenso! -- gritou o arcanjo. -- O Livro da
Vida  inquestionvel,  o registro do Onipotente para o destino do mundo. Atreve-se a desafiar
Yahweh?
         Ablon inclinou a cabea, lamentando a ignorncia do gigante.
         -- Quem sou eu para questionar a memria do Pai? Mas quem  voc para reescrever
suas palavras? O Livro da Vida no  um compndio de histria universal.  um artefato
mstico muito mais singular, desenhado para a mente dos justos e feito para ludibriar os
perversos. O tomo no descreve o fado do mundo, mas apenas nossos desejos, nossas ambies,
nossos anseios mais sigilosos, por isso seu contedo  incerto. Descobri o mistrio quando li
suas pginas, antes de perecer sobre a Roda do Tempo. Voc e Lcifer tanto almejavam a di-
vindade que preferiram confiar nos escritos e utiliz-los como instrumento para justificar
inominveis maldades. Ao enganar-se sobre o futuro, mergulharam, ambos, em demncia, e
agora esto cegos para a verdade.
         O sinistro Miguel, apesar da situao, resistia a aceitar os argumentos mais bvios.
Franziu a sobrancelha e rodou a espada sobre a cabea, pronto a devolver o maior dos assdios.
Estava to certo de sua sina que no reconhecia o equvoco, mesmo aps ver seu plano cair por
terra. Lutaria ferozmente para defender sua crena, com o mesmo alento com que vencera os
deuses das trevas, no alvorecer da eternidade.
         -- Se  assim, ento conte-me seus desejos, proscrito -- desafiou, procurando, no
desespero, uma falha na lgica do renegado. -- O que estava escrito no tomo, o que voc viu
com seus olhos de fugitivo?
         Como resposta, Ablon no disse palavra, mas em vez disso atacou com formidvel
percia. E, dotado de vitalidade e destreza completas, no deixou defesa ao adversrio, que
sucumbiu ao fio da lmina. Miguel at tentou reagir, mas o renegado era agora mais rpido. A
Flagelo de Fogo desceu como um incandescente cometa, despedaou a armadura e atingiu o
corao do gigante, pondo termo  sua anosa existncia. Agachando-se para penetrar-lhe a
fincada, o general replicou:
         -- Diziam as pginas do livro... que eu seria seu assassino -- ultimou, puxando a
espada encravada no peito do inimigo. -- Para mim, o fim da histria encerra a misso de toda
uma vida.
        -- Mesmo acabando comigo, seu exrcito nunca vencer as hordas do inferno e minhas
legies fenomenais -- cuspiu o arcanjo, trespassado pela Flagelo de Fogo.
        -- Os combates no so s ganhos pela brutalidade, mas tambm pela virtude --
ensinou o Renascido. -- Onde houver retido e justia, estar a vitria.
        Um jorro de sangue saltou pelo busto do prncipe, silenciando-lhe a respirao. Ablon
ficou ali, inabalvel, absorto na cena final, imaginando o que pensara o gigante, surpreendido
pela devastao das iluses cultivadas.
        Ainda vivo, Miguel balbuciou:
        -- Estou morrendo. Como pode ser? -- o rosto perdeu toda a arrogncia. -- General,
voc pode me salvar?
        -- Eu tentei -- respondeu o anjo guerreiro.
        -- Ablon... -- chamou o prncipe, no momento fatal. -- Quero que saiba de uma coisa.
Quero que saiba. Foi tudo por amor.
        -- Foi tudo por cime.
        -- Ainda assim, por amor.
        Plido como uma flor atirada ao deserto, Miguel vislumbrou os dias antigos, os tempos
de glria que precederam a luz, a era de esplendor anterior  aurora do homem, quando voava
com o Pai e os irmos pela sombra do espao. Entendeu, no derradeiro suspiro, que no queria
ser Deus s pela ambio, mas tambm para recuperar o brio do universo de outrora. Almejava
a divindade no apenas para governar plenamente, mas para sentir, s mais uma vez, a presena
do Criador, que havia tanto dispersara o esprito, em sacrifcio aos seres humanos, que dele
herdaram a alma.
        No fim, o arcanjo queria somente rever o Altssimo, ou provar sua fora suprema.
        O Prncipe dos Anjos morreu de olhos abertos, fitando o vazio do cu.


                                O MESTRE E o APRENDIZ

        No amplo corredor com vista para a batalha, Lcifer analisava o combate, oculto pela
escurido do alpendre. Enquanto urros, brados e estalos ressoavam no exterior, dentro da
fortaleza o silncio era sepulcral. Todas as legies de apoio, inicialmente designadas para
permanecer dentro da torre, haviam sado mais cedo, antes da chegada dos leviats, para
massacrar os revoltosos, mas encontraram uma sorte nefasta.
        Apoiados pelas hordas de monstros, os anjos perversos voltaram a lutar com todo o
vigor, mas mesmo assim no reduziram os rebeldes, que continuavam a defraudar os inimigos,
fossem eles celestes ou feras. Quanto maior o nmero de guerreiros malvados, maior era a garra
dos insurgentes, inspirados pelos antigos heris renegados. Dentro do crculo de montanhas, a
devastao era espantosa.  volta da fortaleza, tudo o que se via no cho era um tapete ajuntado
de corpos -- restos de soldados decepados, mutilados, estraalhados e perfurados. Armaduras
amassadas e armas quebradas ainda brilhavam, enquanto o solo bebia sua partilha de sangue.
        Nas cordilheiras, os demnios de infantaria, desprovidos de asas, j tomavam as
posies antes ocupadas pelas arqueiras, nos picos e encostas. Ali fixaram sua bandeira, mas a
disputa estava longe do fim. Se assim continuassem, os dois exrcitos poderiam brigar por
muitos dias, meses ou sculos, sem despontar um vencedor. Ento, convencido da pertincia dos
rebelados, Lcifer decidiu agir, finalmente. Comandaria seus lutadores e logo findaria o
conflito, agora que muitos duques j tinham cado.
        No  este, afinal, o desejo do Criador, registrado no Livro da Vida?, pensou
cinicamente. Que eu ganhe rapidamente o embate e instaure meu trono em Tsafon, o Monte da
Congregao, ao lado do grande Miguel?
        A Estrela da Manh recolheu a bainha da tnica e subiu na mureta, pronto para alar
voo e se lanar ao campo de guerra, mas pressentiu uma aura insurgindo do escuro. J conhecia,
ou julgava conhecer, a identidade do invasor, e recuou ao telheiro com um sorriso atrevido.
Ainda poderia se divertir desgraando o audaz visitante.
         Aziel, a Chama Sagrada, emergiu das trevas, com as palmas de fogo e o semblante
cheio de clera. Separara-se havia pouco de seus companheiros de misso e seguira sozinho
pelas vias anglicas, para encontrar o renegado, que ainda no regressara  batalha. Tinha
esperanas de que Ablon estivesse vivo ainda, por isso relutara em incendiar a bastilha
anteriormente.
         Lcifer olhou com desprezo para a Chama Sagrada.
         -- Aziel, soberano da Cidadela do Fogo -- zombou, referindo-se s suas atribuies
como governante da fortaleza. -- Que surpresa mais estimulante!
         -- Desde quando os demnios se esgueiram pelos sales de Sion? -- irritou-se o ishim.
Seus negros cabelos refletiam as flamas dos punhos, que se elevavam em delgado filete.
         O Arcanjo Negro enrugou a testa, dissimulado.
         -- Ora, eu achei que, para os revoltosos, tanto os infernais quanto seus inimigos celestes
fossem da mesma estirpe perversa.
         -- Agora vejo que sim -- Aziel sabia que nem Lcifer nem qualquer outro penetraria
na fortaleza sem o consentimento do arcanjo Miguel, a no ser pela fora. O Diabo no fora
visto do lado externo, forando a passagem, ento estava ali convidado pelo anfitrio. -- Esto
aliados, voc e o Prncipe Anglico.
         -- Sua perspiccia  impressionante -- caoou novamente. -- Mas o que vai fazer? Vai
me chamar ao confronto, como fez seu general?
         -- Onde ele est? Em que cmara...
         -- Seu lder est arruinado. Foi liquidado por mim na Sala dos Portais e sepultado no
pinculo da torre. Seu corpo jaz nas pedras frias do ptio superior, e logo tambm ser
aniquilada a Feiticeira de En-Dor.
         A notcia atingiu fundo o corao de Aziel, como uma seta enfiada no peito. De incio,
quis negar o aviso, rechaar o discurso, repudiar aquela falao arrogante. Mas, infelizmente,
Lcifer podia estar dizendo a verdade -- e estava, provavelmente. Ablon no abandonaria por
tanto tempo seu exrcito. S a morte o impediria de retornar ao combate.
         As labaredas de Aziel se agitaram, rodando e crepitando em uma dana mortal.
Enfurecido pelo suposto assassinato de seu comandante e amigo, no mediu consequncias e
atacou sem piedade. Dos dedos expeliu uma enxurrada de fogo, que clareou o corredor e
derreteu o piso vermelho. Sua energia notvel queimaria o cu e borbulharia os oceanos -- mas
seria suficiente para vencer o Diabo?
         O Arcanjo Sombrio parou com as mos o jato incandescente, que refletiu nos pilares, j
sem muita potncia. Fraquejara, contudo, ao segurar a investida, e cambaleou para trs, embora
nada ferido. No resistiria to facilmente a mais um assalto, mas se fez parecer invencvel.
         -- Sua fora  crescente, ishim -- reconheceu --, mas voc se esquece de que, alm de
todos os meus atributos, eu tambm sou perito na provncia do fogo. Minhas chamas aclararam
as trevas do inferno, quando no poro s havia obscuridade. Por isso, no acho que esteja em
situao de me enfrentar. V embora, e eu o pouparei desta luta.
         Aziel estranhou a piedade do inimigo, mas ele no poderia, realmente, derrotar o Diabo.
No sozinho. Se Lcifer decidisse usar seu poder seriamente, ele seria esmagado. Naquela
ocasio, porm, o Arcanjo Sombrio preferiu no demonstrar suas habilidades e guardar o alento
para sua atuao na desordem do front -- por isso optara pela ameaa, intimidando o ishim, em
vez de estorric-lo de vez. Foi quando um terceiro personagem entrou na contenda, para des-
fazer o impasse.
         Surgiu primeiro, brotando das sombras, um par de asas de fogo. Depois, brilharam as
lgrimas fulgentes, como gotas ardentes de leo pingando no cho. Amael, o Senhor dos
Vulces, o antigo mestre de Aziel, aparecia em cena.
         Amael era um demnio passivo, conformado, que no buscava poder ou vingana. Por
isso, Lcifer permitiu que residisse em sua caverna, e gostava, sinceramente, de sua companhia.
Sempre reservado e submisso, o Senhor dos Vulces nunca contrariava seu lder, e ento o
Diabo o escolheu para lev-lo a Sion, confidenciando seu plano. Escondido nas cmaras
internas desde o princpio da guerra, o zanathus ressurgia agora, na presena de seu amo
satnico.
         Aziel, mais triste que assustado, lamentou a sentena de seu reformado mentor, que
havia decado ao inferno. Seu rosto seria o mesmo, no fosse o choro fervente. Trajava a mesma
armadura celeste, mas enferrujada, e o corao era pura melancolia. O algoz do dilvio era uma
criatura infeliz, arrependida, aflita por seus pecados passados.
         -- A est voc, Amael -- felicitou-se o Arcanjo Sombrio, aliviado. -- Defini-
tivamente, este  um encontro fortuito. Ser que se recorda de seu pupilo Aziel?
         O Senhor dos Vulces nada disse em rplica  excitao de seu chefe. Era por demais
reservado e vivia afundado nas prprias lembranas, preso  depresso e agoniado pelo remorso.
         -- Sinto muito, pequenino, mas estou de sada -- provocou Lcifer, encarando a
Chama Sagrada. -- No tenho mais tempo para suas infantilidades -- deslizou rumo  janela e
cuspiu uma ordem ao sombrio zanathus. -- Esta querela  sua, Amael. Acabe logo com esse
anjo insolente.
         E assim, seguro de sua majestade, a Estrela da Manh deu de ombros, girou nos
calcanhares e abriu as asas de morcego, pronto para escapar pela sacada.
         -- No posso fazer isso, Lcifer. Eu me recuso -- ousou o Senhor dos Vulces. -- Se
voc deseja mat-lo, ento que o faa. Estou farto de sua autoridade.
         O Diabo levantou uma sobrancelha e voltou-se ao alpendre, indignado. Seus sditos no
o chamavam pelo nome, s pelos ttulos solenes. Lcifer no podia ser questionado,
absolutamente, em circunstncia to decisiva. A vitria espreitava adiante, e no seria um
diabrete que iria afast-lo da consagrao.
         --  por pouco tempo, Amael -- insistiu, esforando-se para no vacilar. -- Estamos
muito prximos do fim, perto de exterminar esses detestveis rebeldes. O triunfo  iminente --
e fitou seu criado com toda a dureza do mundo. -- No seja tolo de me desobedecer agora.
         Mas o Senhor dos Vulces no seria persuadido mais uma vez, como fora  poca da
inventiva revoluo contra o arcanjo Miguel. No cultivava mais iluses sobre a honestidade de
Lcifer, a quem apoiara em era remota. Tinha chegado ao limite, e  nesse estado que os
acuados avanam e os medrosos se transformam em heris.
         -- Voc est fraco, Estrela da Manh. Desfalcou sua aura ao entregar parte da essncia
aos barqueiros, contratando seus servios.
         O Diabo recuou, tremulante. Um pensamento horrvel brotou na fundura da mente, e ele
preferiu nem cogit-lo. Armou-se do blefe, que era sua arma mais eficaz.
         -- Fraco ou no, voc ainda  um inseto perto de mim -- engrossou. -- Jamais me
abateria, se  que tem em mente um duelo.
         -- Sozinho, seguramente no -- devolveu, sugerindo conivncia com Aziel, que at ali
s observava a conversa. -- Eu tambm provei o preo pelas viagens no Styx, e sabia quo
fadigoso seria convocar os leviats. Por isso, eu o levei aos barqueiros.
         -- Traio! -- reagiu o Arcanjo Sombrio. Estava bvio que Amael premeditara a
cilada, embora Aziel desconhecesse a prvia inteno. Debilitando seu amo, o Senhor dos
Vulces teria a chance de afront-lo.
         -- No, Lcifer -- rebateu, indomvel. -- Foi voc quem me traiu, ao inventar aquela
maldita revoluo. Mentiu, arquitetou a guerra no cu e usou a mim, a Orion e aos outros como
cobaias em seu experimento csmico. Fomentou o dio pelos renegados e nos obrigou a matar
nossos irmos. Agora, pede que eu elimine meu nico discpulo!
         Nervoso, Lcifer deslizou furtivamente a mo  cintura, buscando o cabo da Raio da
Aurora, mas ele a havia deixado no nvel de cima. Tambm estava sem armadura -- no que ela
fosse de grande ajuda agora.
         -- Amael, escute-me com cuidado. Voc vai fazer o que eu mando. Podemos limpar
esta baguna, dar um novo comeo a todos. E voc vai me ajudar. Ns dois, juntos.
         Aziel estava em silncio. Ele sabia que aquele era um momento crtico para o seu
mestre. O Senhor dos Vulces tinha que desafiar Lcifer sozinho, encontrar a prpria redeno.
Podia at ajud-lo, mas a deciso final precisava ser dele. O Arcanjo Negro endureceu.
         -- E se teimar em me desafiar, Amael, vou ter que mat-lo -- fez uma expresso
maligna. -- Poderia destru-lo apenas com um olhar.
         -- Verdade? Ento por que est procurando sua espada?
        Aziel sorriu na escurido. No sentia nenhum prazer com aquilo, mas era irnico
observar Lcifer naquela situao. Logo ele, que sempre fizera o papel de carrasco.
        -- Seus monstros, porcos infiis! -- gritou, tentando intimid-los. -- Vou acabar com
vocs agora mesmo, seus vermes insignificantes.
        -- Voc pode tentar -- avisou Aziel --, mas, se ainda no percebeu, este  um tribunal
de execuo.
        Acossado, o Diabo juntou as mos e apelou para a splica. Ajoelhou-se e forou uma
lgrima, mas os carrascos eram insensveis  choradeira. O Filho do Alvorecer no sobreviveria
aos dois adversrios, se eles resolvessem submet-lo.
        -- Eu s queria o bem para todos, a satisfao de homens e anjos -- garantiu,
implorando perdo, mas sua oratria era incoerente.
        -- Basta de calnias, Estrela da Manh -- interferiu Aziel, irritado. Cansara-se de sua
petulncia, e agora no tinha mais dvidas sobre a redeno do mestre, Amael. -- Suas lamrias
no o absolvem.
        -- D-me mais uma chance!
        -- Voc teve todas as chances.
        -- No! -- desesperou-se o Arcanjo Sombrio. -- Miguel! -- berrou, convocando o
irmo. -- Miguel! -- esgoelou-se.
        -- O Prncipe dos Anjos foi morto -- avisou Amael. -- O Primeiro General o derrubou.
        -- O Anjo Renegado? No pode ser! Eu mesmo... -- ele engasgou antes de confessar o
homicdio. Rasgara a garganta do guerreiro instantes atrs. Como poderia ter revivido? -- Posso
sentir uma aura poderosa no topo da torre, a aura de um arcanjo. Isso significa que Miguel est
vivo. Ento, como se atreve...
        -- O que voc sente no  a aura de Miguel, mas a essncia do Renascido -- explicou
Amael, para a alegria da Chama Sagrada. Ento, Ablon seguia ileso e triunfante!
        -- Renascido? Que loucura  essa? -- Lcifer parecia inteiramente descontrolado. --
Poupe-me, Amael! Voc no  um assassino, nunca foi. Por que est fazendo isso?
        -- Desde o dilvio eu jurei no matar inocentes. Vivi por milnios com o peso da culpa,
calado, como um vulco que esconde sua fria. Hoje, cuspo meu dio, copiando a erupo da
grande montanha. Eu o sentencio  morte, Diabo, pela gravidade de seus crimes e pela
persistncia no erro.
        -- Pense nos anjos justos, Amael -- soluou. -- Eles no me condenariam  sumria
execuo.
        -- Sou sua cria, Lcifer. Sou um maldito, um demnio. Tambm sou perverso --
declarou, justificando sua inesperada atitude.
        Nesse momento, baniu-se toda a penumbra em Sion, quando mestre e aprendiz
incendiaram sua aura pulsante e consumiram o sentenciado com rajadas de fogo. Um estouro de
flamas atravessou a janela, e seu impacto fez a fortaleza inclinar. Na seo lateral da Torre das
Mil Janelas, o calor exaustivo amoleceu as pilastras, e toda a rocha derreteu-se em lava
vulcnica.
        Lcifer uniu as palmas diante do rosto para defender-se, usando todo o poder que lhe
restava para repudiar o ataque. Tinha conseguido deter o assalto de Aziel, porm agora no s
fogo, mas tambm cusparadas de magma o atingiam. O corao acelerou quando entendeu
finalmente que poderia morrer, que estava sendo derrotado! Mos e braos comearam a
derreter, a tnica branca incendiou-se. Sentiu o cheiro da prpria carne queimando, e uma massa
de lava grudou-se em seu rosto. Os lindos cabelos louros se desintegraram, e um dos olhos
murchou. A violncia rasgou a membrana das asas de morcego, sobrando s osso.
        A onda de choque jogou o arcanjo para alm do telheiro, e ele despencou, devorado
pelo ardor escaldante. Seus gritos assombraram os soldados, que avistaram uma trilha
esfumaada no cu e se esquivaram da trajetria.
        Lcifer no morreu rapidamente. Berrava enquanto caa, chorava, tossia, debatia-se,
incapaz de voar. Pela fumaa, no conseguia mais respirar. Ningum o acudiu. Ningum o
reconheceu.
        O Filho do Alvorecer desabou s profundas gretas da terra, um buraco imundo onde se
acumulavam os celestes tombados. Estava ali ao lado dos cadveres dos anjos derrotados, dos
demnios vencidos, dos espritos-escravos. Seu corpo era uma poro nojenta, sem braos ou
asas; o tecido da roupa grudara-se  pele. Lcifer pereceu como indigente, em uma vala comum,
gemendo e rogando socorro.


                                    PERIGOSO LEGADO

         No ptio superior de Sion, Ablon libertou Shamira dos grilhes apertados e a abraou
fortemente, envolvendo-lhe o corpo com as asas rajadas. A pele da feiticeira estava gelada,
pelos ventos cortantes quela altitude. No fosse por seus encantos de conservao, que a
protegiam do frio, entre outros perigos, a necromante j teria congelado. Era humana, apesar de
tudo, e no tinha a excepcional resistncia dos celestiais e dos demnios.
         A batalha seguia acirrada, e o general sabia que deveria regressar s legies, mas era
sensvel ao corao e reservou um momento para o casal.
         -- A runa do corpo -- sussurrou a mulher, afagando o antebrao do heri. -- Eu
mesma havia esquecido as atribuies do feitio.
         A inscrio mgica, marcada profundamente na carne do renegado, havia sumido,
desaparecendo suas propriedades fantsticas. Conforme a prpria necromante dissera 
execuo do ritual, o encanto s funcionaria uma vez, afastando o guerreiro da morte. E assim
agiria tambm a runa da mente, que preservaria o crebro de qualquer alterao psquica, como
tentativa de controle e esquecimento. Essa segunda marca, no usada, continuava gravada no
brao esquerdo do querubim, como uma tatuagem discreta.
         -- O Prncipe dos Anjos foi derrotado pela inteligncia de uma mulher -- declarou o
general, embora sua percia tenha sido igualmente indispensvel  vitria. -- Sem sua magia, eu
no teria regressado  vida.  irnico. Miguel sempre desprezou os artifcios da espcie mortal.
         Shamira olhou para o cadver do tirano, em sua prateada armadura. No fossem as asas,
afiadas na ponta, sua carcaa seria indistinguvel das dos homens comuns. Os olhos perdiam o
brilho, como  natural aos defuntos, e a face empalidecera pela falncia de sangue.
         -- Na morte, somos todos iguais, terrenos e alados, demnios e deuses -- lamentou,
reparando na extino do gigante.
         -- A eternidade  uma iluso. Voc se lembra quando, juntos, assistimos  devastao
de Constantinopla e  destruio final do Imprio Romano, cujos csares se diziam perenes?
Como muitos reinos de outrora, cai agora o ltimo arcanjo. O infinito  s utopia. Ns tambm
feneceremos um dia, seja pela espada ou pelo cansao, como nos mostrou Gabriel. E chegar o
tempo em que at mesmo o universo fechar seu manto. As estrelas se apagaro, e de ns s
restar a energia, a palpitao una  fluncia do cosmo.
         Uma exploso colossal arruinou os andares inferiores, encetando o incndio. Fogo e
lava foram atirados ao ar, inclinando os alicerces da torre. O magma borbulhante escorreu para
os nveis abaixo, corroendo as paredes de rocha como papel  fogueira. Ablon segurou a
feiticeira pelos braos, mas o pinculo continuava estvel.
         -- Os ishins esto incinerando as fundaes da bastilha -- avisou o Primeiro General,
ciente do planejamento rebelde. Aquela, porm, no era a atuao do grupo insurgente, mas o
reflexo das rajadas escaldantes que liquidaram o Diabo.
         -- A nuvem negra sobre Sion dissipou-se -- reparou a necromante.
         -- E a aura de Lcifer tambm se apagou. A Estrela da Manh suprime seu brilho.
Agora, quem poder se opor aos rebeldes?
         Com a morte dos irmos conspirados, os anjos perversos perdiam seu principal
comandante, e os demnios enfraqueciam o ataque. Os duques do inferno no eram preo para
os generais revoltosos, e dos nove aristocratas satnicos restavam s trs. As numerosas hordas
malditas lutavam frenticas, mas eram massacradas pelas legies revolucionrias. A aliana
entre os dois exrcitos no trouxera unidade, s confuso. As feras partiam ao assalto direto,
dificultando a estratgia dos sitiados. Com o tumulto, ganhavam os insurgentes, disciplinados
em suas tticas de guerra.
        Miguel e Lcifer sucumbiram, mas deixavam um perigoso legado. Sozinhos, nada
seriam, no fosse a pea fundamental da conspirao, uma entidade sinistra, capaz de acessar as
dimenses mais remotas, rasgar o tecido e garantir a perfeita comunicao entre o cu e o
inferno. O lacaio era tambm assassino, espio e soldado, e superava seus mestres em dio,
crueldade e sadismo.


        O Anjo Negro, temido servidor dos arcanjos, subiu os degraus ao pinculo, silencioso
como um tigre na floresta. No fora derrotado, nem sequer ferido pelos guerreiros de bronze, s
momentaneamente excludo da luta. Ablon o aturdira ao ingressar em Sion e enfrentar o
malfeitor com a Flagelo de Fogo -- objeto ao qual a entidade parecia ter singular averso. No
fosse o elmo metlico, o criminoso teria tido o crnio amassado, mas o capacete poupara-lhe a
vida.
        Por alguma enigmtica razo, o monstro de asas negras era to furtivo quanto o
renegado, e podia ocultar sua essncia, fazendo-se imperceptvel aos inimigos -- quando assim
o queria. Na mo brandia uma espada, pronto a estocar o general que, de costas, no percebera o
embuste.
        O assassino esgueirou-se pelo terrao como um espectro na noite e atacou de surpresa,
inclinando a lmina para decapitar sua vtima. Mas o alvo no era comum. Rpido e gil, Ablon
pressentiu o perigo e sacou sua arma, aparando a astuciosa investida. Shamira desviou o olhar e
protegeu a viso, para que a fasca do choque no a cegasse.
        Os dois fios bateram, e deu-se a revelao. Tal qual a Flagelo de Fogo, a espada do
agressor fulgia tambm, mas em chamas negras -- sinistras labaredas do inferno. A figura na
armadura escura deixara para trs sua mscara, ficando aparente o rosto disforme. A face,
cortada de um lado a outro por uma cicatriz horrorosa, no era anglica, muito menos humana
-- mas diablica. Da boca saltavam dentes pontudos, como a mandbula dos tubares, e os
olhos eram profundos e negros.
        -- Apollyon! -- exclamou o querubim, deixando transparecer a satisfao da vingana.
-- Poupa-me um bocado de trabalho -- acrescentou, lembrando-se dos espritos de Sodoma e
da promessa de desforrar os fantasmas.
        -- Apollyon  o Anjo Negro -- murmurou a Feiticeira de En-Dor, admirada, mas os
lutadores no a escutaram. Encaravam-se com indescritvel firmeza, concentrados como cobras
preparadas para o bote.
        Ablon no se surpreendeu totalmente. Para ele, tanto o duque-demnio como o Anjo
Negro eram perversos, detestveis, e haviam perseguido seus companheiros, o que os colocava
no topo da lista dos mais execrados. O Anjo Negro espancara Ishtar e raptara Shamira.
Apollyon capturara Yarion e assassinara os principais renegados -- e tambm Sieme, embora o
general ainda no conhecesse sua culpa. A despeito da traio de Lcifer e da felonia do arcanjo
Miguel, esses eram adversrios polticos, e sua derrocada estava, necessariamente, atrelada 
vitria dos novos rebeldes. A contenda com Apollyon, entretanto, fomentava um dio
acumulado, particular. E o Anjo Destruidor guardava tambm uma clera pessoal contra o
Renascido. Em jogo no estava o desfecho da guerra ou o futuro dos exrcitos em campo, mas o
acerto de contas entre dois inimigos havia muito privados de terminar seu duelo.
        Agora, a oportunidade caa nas mos do heri, que por ela tanto aguardara. Alerta,
tomando distncia da briga, a feiticeira entendeu que a natureza hbrida do monstro garantia a
ocultao de sua aura. No era anjo ou demnio, mas uma criatura nica, um celestial
corrompido segundo a vontade dos terrveis arcanjos.
        Normalmente slido e controlado, Ablon entregou-se ao furor. Os olhos irados
acenderam em um brilho vermelho, e o semblante enfureceu-se tal qual o de um leo agitado.
S duas vezes na vida provara tamanha exaltao. A primeira fora ao saber que Ishtar estava
presa em Babel, e a segunda, ao presenciar o sequestro da necromante. Shamira compreendeu,
ento, que no poderia acalm-lo.
        Apollyon recuou e golpeou novamente, mas o Renascido evitou o corte da arma,
agachando e, depois, levantando para agarrar o pescoo da besta.
         Preso pela garganta, o Destruidor debateu-se, engasgado, incapaz de manobrar a espada.
Furioso, Ablon o jogou para longe, como uma s mo. A fera satnica despencou por entre os
soldados em batalha como um meteoro chispante, pronto para colidir contra as montanhas. To
intenso foi o barulho do corpo lanado que os exrcitos no cu suspenderam o combate,
voltando a ateno  entidade cadente.
         Apollyon trombou com a encosta da cordilheira, e o impacto fez rachar a montanha,
mas ele, nada sofreu. Sua armadura era uma relquia e absorvera toda a violncia do choque.
Ileso, pulou para um pico ao lado e maneou sua lmina, convocando o Primeiro General ao
embate. Mas, mesmo exaltado, o renegado no poderia deixar Shamira sozinha, vulnervel 
queda da torre.
         -- V! -- exigiu a mulher, entendendo o dilema de seu protetor. -- A bastilha ainda
resistir por mais algum tempo -- garantiu.
         Ento, todos os combatentes que ainda podiam enxergar, fossem eles demnios ou
anjos, avistaram os dois lutadores em preparao para a disputa, cada qual em seu posto
avanado. Ablon pairava no auge da Fortaleza de Sion, e Apollyon esticava as asas no topo da
montanha mais alta.
         -- O Primeiro General est vivo! -- gritou Baturiel s legies insurgentes, apontando
para o lder rebelde no ptio da fortaleza.
         -- Ele alcanou o terrao da Roda do Tempo -- completou Shenial. -- O arcanjo
Miguel foi derrotado -- no restavam mais dvidas.
         Em outro lugar, ainda nas alturas ao redor de Sion, Asmodeus indicou ao duque Alastor:
         -- L est nosso colega sumido -- comentou, reconhecendo a face desfigurada do
Destruidor.
         -- Ele trabalhava para o Monarca Celeste -- concluiu, ao notar as asas escuras, as quais
nunca mostrara aos seus diablicos confrades. -- Espio ou traidor?
         -- Talvez nenhum deles -- incitou Asmodeus, reflexivo, coando o queixo ao preldio
da luta.
         A cada instante, ficava mais bvia a conspirao. Miguel e Lcifer estavam destrudos,
e o Exterminador era agora o perverso mais forte. Seu poder superava a potncia dos
aristocratas malditos, e dentre os infernais talvez apenas Orion estivesse em situao de abat-
lo, mas o Rei Cado de Atlntida desaparecera ao incio da ofensiva, largando suas hordas ao
caos. As tropas, malficas e justas, guerreavam empatadas, e assim seguiriam eternamente, se
nenhum evento as abalasse.
         A concluso era lanada, ento, s costas dos duelistas. Se Ablon ganhasse, os rebeldes
venceriam, mas, se Apollyon triunfasse, seria o princpio de um reino de trevas, muito pior do
que aquele sonhado pela mente doentia de Lcifer ou pelos delrios insanos do arcanjo Miguel.




                  MEGIDDO, A MONTANHA NO EXTREMO DO MUNDO

        No ptio sobre Sion, Ablon retesou as asas e saltou como uma guia em rapina ao
encontro do Destruidor. Era to veloz que um rastro de fogo acompanhava sua corrida,
desenhando uma trilha vermelha na curvatura do cu.
        Mas, em vez de se lanar contra o Renascido, Apollyon deu meia-volta e voou para
longe, para alm das cordilheiras. Rumou para o norte, na direo do Styx, e muitos pensaram
que fugia de medo, correndo do lder rebelde, contra o qual, supostamente, no teria nenhuma
chance. Mas Asmodeus percebeu seu real objetivo.
        -- Est atraindo o general para o monte Megiddo -- disse ao duque Alastor.
        -- A Montanha no Extremo do Mundo -- divagou o monstro. -- O ponto proftico
para a concluso do Apocalipse.
        Nos andares inferiores, quando o cho da fortaleza cedeu, Amael e Aziel adejaram,
sacudiram as asas e assistiram ao desmoronamento do piso, amolecido pelo calor. Pouco depois,
tambm as paredes caram, e eles escaparam pela sacada, j derretida em chamas.
        L fora, os rudos da batalha foram suprimidos, e os golpes tambm. Ablon e Apollyon
voavam ao monte Megiddo, e os trs exrcitos os seguiam.
        -- A feiticeira! -- lembrou-se o Senhor dos Vulces. -- Ela ainda deve estar no
pinculo.
        -- Vamos tir-la de l -- decidiu Aziel, disparando ao terrao. Nenhum soldado os
impediria. O caminho estava livre. A Torre das Mil Janelas fora evacuada.


         Ablon e Apollyon pousaram em Megiddo, uma montanha larga, de cume bem amplo,
solitria na esplanada, nica na vastido do deserto. Fazia lembrar um calombo, um caroo
nefasto na pele do mundo, distante uns cem quilmetros das cordilheiras que cercavam Sion. No
plano fsico, essa magnfica elevao fora cenrio de muitas batalhas e abrigara dezenas de
fortificaes antigas, hoje em runas. Mas no plano etreo Megiddo era s um morro de arenito,
titnico em dimenso, cujo topo se aplainava em forma de arena, um crculo aberto para o
derradeiro combate.
         Os anjos perversos e justos, e tambm os demnios, perseguiram os duelistas e
desceram ao solo, tomando posies para entrever o confronto.
         No alto do macio de rocha, nada abalava a confiana do general, frente a frente com
seu maior inimigo. J derrotara o Prncipe Celeste. Como o Exter-minador pretendia bat-lo?
         -- Terminaram seus truques, Anjo Negro -- disse o renegado. -- Seus lderes foram
liquidados, e a conspirao est arrasada. Este  o momento do nosso ajuste. Durante tantos
anos, voc perseguiu meus amigos e matou muitos deles. Agora vou fazer com que se arrependa
de suas agresses.
         O monstro sorriu, desprezando a determinao do heri.
         -- Pois saiba, proscrito, que eu sou invencvel. Por mais que voc tenha arruinado
Miguel e at superado os arcanjos, eu tenho a Fogo Negro -- e mostrou sua espada de chamas
negras. -- Esta arma me foi dada por Lcifer, como um presente por meu ingresso na
conspirao. Esta relquia pertenceu a Bahemot, servo de Tehom, um dos deuses antigos,
aniquilados por Yahweh antes da feitura da luz. Ela  anterior  criao do universo e precedeu
o nascimento dos anjos. Sua lmina  indestrutvel. Nada nem ningum poder me vencer
enquanto eu a brandir. Derrotarei os novos rebeldes, sozinho se for necessrio, at o ltimo
insurgente.
         Em resposta, o guerreiro levantou sua Flagelo de Fogo.
         -- Ento, talvez voc se lembre da Flagelo de Fogo -- desafiou-o, exibindo a ponta
abrasada da espada. --  a nica arma que j o feriu.
         Durante a guerra no cu, Gabriel, que no sabia da aliana entre Miguel e Lcifer, lutou
bravamente contra os agentes do Diabo, e em meio  peleja golpeou o Exterminador bem no
rosto, com sua espada fulgente. A cicatriz era ainda visvel.
         Cansados e furiosos, os dois rivais se afastaram e tomaram distncia para o combate
mortal. Flutuando ao lado de Shenial, Baturiel lembrou-se dos dias remotos, quando Ablon e
Apollyon se bateram no Castelo da Luz. Na poca, eram ainda generais de legies, e s no
morreram porque Balberith, ento prncipe da casta, interrompeu o embate.
         -- Continua aqui um desafio que se iniciou h quinze mil anos -- sua armadura
dourada estava coberta de sangue, seu e de outros. Os braos tinham cortes abertos, e as asas
doam pelas pancadas sofridas.
         -- A espada de um arcanjo ou a arma de um deus -- proferiu Shenial, referindo-se 
Flagelo de Fogo e  Fogo Negro. -- Quem vencer?
         Era impossvel precisar a vitria.


                                    O FIM DO UNIVERSO
        Shamira estava sozinha no ponto extremo da fortaleza, acompanhada somente pelos
mortos. No terrao, o sangue chegava aos calcanhares, e era difcil andar sem pisar em
cadveres. Apesar do incndio, a torre continuava segura e certamente resistiria por mais alguns
minutos.
        Livre das correntes e sem alados para vigi-la, a feiticeira preferiu tomar uma atitude,
em vez de assistir passiva ao duelo. Desceu pelo alapo e entrou na Sala dos Portais, palco da
armadilha preparada pelos arcanjos para assassinar o general dos rebeldes.
        A necromante estacou na entrada da cmara e observou tudo em volta. Estava resolvida
a encontrar ela mesma a sada e a escapar, sem ajuda, do fogaru que consumia a bastilha.


         Ablon e Apollyon chegaram  beira do precipcio sobre a montanha, em cantos opostos
da arena de pedra. Dali se viraram, um de frente para o outro, como desafiantes em lados
extremos do ringue. A tenso atingiu o ponto mximo e, ento, eles correram  batalha,
inchados de fora colrica.
         Os exrcitos estavam estagnados, aguardando o impacto. Como cavaleiros em justa, os
tits rasgaram a noite e se enfrentaram bem no meio do crculo.
         Quando as duas espadas bateram, o planeta inteiro tremeu. A exploso soou como um
acorde estridente na fluncia do universo, uma nota gritante na sinfonia do espao. Uma
fabulosa onda de fogo -- negro e rubro -- desceu pelas encostas do morro, fulminando os
espectadores mais prximos e lambendo toda a plancie. Os mais espertos voaram, enquanto o
vagalho escaldante chamuscava o cho do deserto, consumindo tudo  sua frente.
         As armas mais poderosas do cosmo se partiram ao encontro, lanando estilhaos
ferventes ao cu. Os duelistas foram atirados para trs, pela violncia do choque, e rolaram ao
marco inicial do combate. A exploso fez rachar as armaduras, que logo sumiram em farelos.
As couraas desapareceram como poeira ao vento, mas haviam preservado a vida de ambos --
sem elas, o corpo dos combatentes teria sido desintegrado, engolido pela suprema energia das
lminas, forjadas por deuses insuperveis.
         A Flagelo de Fogo fez seu trabalho, mas as ameaas de Apollyon no eram simples
bravatas. A Fogo Negro realmente era, e sempre fora, a arma mais potente j criada, por isso um
de seus estilhaos resistiu. A lasca abrasada atravessou o ombro de Ablon em extrema
velocidade, perfurou-lhe a carne e saiu pelas costas, indo perder-se nas pedras alm.


        Na Sala dos Portais, Shamira vasculhava as alcovas, atenta aos smbolos gravados nas
portas. Enquanto examinava os umbrais, encontrou um curioso objeto pousado no cho: uma
pena enegrecida, de aparncia antiga, j encurvada nas pontas, maior que a plumagem das aves.
Levando a pluma  luz, no teve dvidas sobre a quem pertencia.
        Aquela era a pena de Apollyon, dada ao Primeiro General pelos espritos da velha
Sodoma. Ablon a levara  batalha, para no esquecer sua vingana, mas durante o combate
contra o arcanjo Miguel ela lhe escapara do cinto, e agora a feiticeira a encontrava entre as
sombras.
        Sob circunstncias normais, anjos e demnios no so afetados por encantamentos
comuns, a no ser que o feiticeiro tenha um elemento fsico da entidade para os rituais. Foi
assim que Zamir conseguira atrair Ablon para o bosque Tin-Sen e imobiliz-lo na entrada da
casa romana.
        Agora, Shamira tinha uma pena do Destruidor.
        Podia fazer um feitio!


       Recuperados da exploso, os dois guerreiros se levantaram, enraivecidos e desarmados.
Nenhum deles esperava que as espadas se quebrassem ao impacto, mas no podia ser diferente.
O poder das lminas era enorme.
         -- E agora, onde est sua arma invencvel? -- instigou Ablon, sem dar a menor
importncia ao ferimento no ombro. -- Est inerme, maldito.
         -- Inerme? E quanto a voc? -- riu Apollyon, apontando para o rasgo onde o estilhao
penetrara. -- Achava que nada mais poderia venc-lo, no ? Entenda, renegado. A Fogo Negro
foi feita para exterminar os arcanjos, e isso o tornou o alvo perfeito.
         -- Acredita mesmo que este ferimento pode me matar?
         -- No. Mas agora suas foras esto reduzidas. Lutamos novamente em igualdade. No
 assim que prefere?
         -- Eu prefiro v-lo morto. Desta vez nenhum prncipe vai ajud-lo.
         --  verdade -- concordou o demnio. -- A salvao est reservada aos fortes. Assim
morreram os renegados, sem um lder para ampar-los -- provocou. -- Assim morreu Yarion,
Asa de Vento. Assim morreu Sieme, Mestre da Mente.
         -- J falou demais, assassino -- censurou o guerreiro. -- Vejamos se  to bom com os
punhos quanto  com as palavras.
         Eles voltaram ao combate, agora sem as armaduras a cobrir-lhes o torso. A batalha,
recordou Baturiel, repetia a sequncia do duelo no Castelo da Luz, quando os dois generais
lutaram, deitando fora as couraas de ouro.
         Apollyon disparou para cima com a rapidez de um trovo, como se convocasse o
Renascido. Ablon o seguiu, e os dois subiram alto, muito alto, s parando quando enxergaram
as estrelas. O frio do espao endureceu-lhes o corpo, e o general sentiu que sangrava, sangrava
muito. A lasca da Fogo Negro no apenas o enfraquecera, mas ainda poderia mat-lo. Seria ele,
enfim, vencido por seu inimigo mais pessoal, depois de ter voltado da morte e derrotado o
arcanjo Miguel?
         Mas, no momento em que a esperana fugia, o mundo girou, em seu caracterstico
movimento dirio. A escurido sideral recebeu o brilho da luz, e o primeiro raio de sol surgiu na
curvatura.
         Os desafiantes voaram um contra o outro, como dois foguetes em coliso. Apollyon
esmurrou, aproveitando toda a energia do empuxo, mas Ablon desviou o ataque. Agarrando o
malikis pelo brao, ele o rodou sobre a cabea e depois o lanou para baixo. O Exterminador
despencou, girando feito um furaco, enquanto o general o massacrava com uma sequncia de
socos.
          medida que reentravam na atmosfera terrestre, o monte Megiddo tornava-se
novamente visvel. Apollyon no conseguiu adejar e caiu de costas no cho, abrindo uma
cratera no cume do morro. O choque esmagou-lhe as asas, despedaando os ossos do dorso.
         Acelerado, Ablon desceu  vala e pousou j montado, forando o joelho contra o
estmago do monstro, que se defendia, insensvel  dor. O general reparou,  proximidade, que
o baque tambm tinha dilacerado as costelas da besta, trespassadas por estacas de pedra. O
sangue do misterioso Anjo de Asas Negras encheu o buraco, sujando a fundura da fenda.
         -- Est derrotado, Exterminador. Sem sua espada, no  quase nada. Conhecer agora o
caminho da morte. Partir ao vazio, e sua essncia voltar ao fluido do cosmo, de onde nunca
deveria ter se formado.
         Enlouquecido pela exaltao, Ablon invocou a Ira de Deus. Desceu um soco no rosto do
malfeitor, mas a fera esquivou-se, escapou para o lado e pulou s costas do general, como uma
pantera faminta.
         A pancada falhou, e o golpe possante atingiu o corao da montanha. Ao embate,
sobreveio um grande terremoto, que fez vibrar todo o morro e ameaou engolir a cratera. Ablon
tentou voar, mas Apollyon estava enlaado s suas asas, como um carrapato colado  pele.
Juntos, foram quase soterrados pelas pedras rolantes, mas um impulso do renegado jogou os
dois para fora da vala.


         O monte Megiddo implodiu, ruindo por dentro e destroando todo o de scrto. A plancie
se rasgou em gretas profundas, castigando a esplanada, j arrasada pelo fogo das espadas
divinas.
         Os duelistas aterrissaram sobre os destroos, salvos, mas buscando estabilidade no
terreno imperfeito.
         Agora, o jogo tinha virado, e o Destruidor detinha a vantagem. Enrolando o brao no
pescoo do inimigo, o demnio apertou o rebelde em um golpe do tipo gravata. Ele sabia que,
por mais que lutasse, seus assaltos seriam ineficazes contra o Renascido, por isso guardava,
secretamente, sua principal ttica de guerra -- o ataque final que encerraria a disputa. Ablon se
tornara insupervel ao vencer o arcanjo Miguel, mas no subsistiria  estratgia suprema do
Exterminador.
         O heri rolou para a frente, contraiu todos os msculos, tentou escorregar para baixo,
mas no conseguiu se libertar da pegada. Era o mais destro dos lutadores, possua habilidades
incrveis, mas j havia perdido muito sangue. Alm disso, o malikis ainda tinha maior fora
fsica, e usou de toda sua brutalidade para reter o revoltoso.
         -- Suas manobras so inteis -- avisou Apollyon. -- Como poder agir, enquanto
estiver imobilizado?
         Pela posio do rival, Ablon percebeu que ele tambm nada podia fazer. Um nico
movimento agressivo permitiria que o general se libertasse da chave.
         -- Nunca vai me ferir -- constatou o renegado. -- Solte-me, e voltemos  briga.
         O assassino no deu importncia  proposta e retrucou em regozijo:
         -- Para voc, reservei minha arma mais primorosa -- explicou, e continuou lentamente.
-- Soube que voc ficou muito impressionado pela maneira como arruinei Sodoma e Gomorra...
-- havia um deleite macabro em sua voz. -- Esse  meu poder de total destruio, a potncia
capaz de arrebentar o tecido e trazer a condenao sobre o mundo.
         Destruio total! -- a energia que vitimara os filhos de Sodoma, o horror que liquidara
as duas cidades, convertera os mares em sangue e transformara os fugitivos em colunas de sal.
Ao discurso, Ablon temeu pelo futuro da humanidade, pelo destino da terra e de seus habitantes.
A fera no era s assassina -- mas tambm suicida.
         -- Se no me soltar, voc morrer junto -- alertou o querubim.
         -- Ento, morreremos. Voc  meu inimigo, minha nmesis. Nosso fim marcar a
devastao do planeta. Essa  minha demanda vital -- revelou, repetindo as glosas sobre sua
identidade. -- Eu sou o Anjo do Abismo Sem Fundo, sou aquele que abre todas as portas. Eu
sou a luz e as trevas, o comeo e o fim.
         Com isso, seus msculos se dilataram, e o sangue vermelho da besta ganhou brilho
azulado. Ablon notou, com sua viso apurada, que os tomos do plasma inchavam e logo se
chocariam a ponto de estourar, culminando em uma exploso luminosa. De repente, o corpo do
Destruidor mais parecia um canal, um veculo retentor de toda a energia destrutiva do cosmo,
um receptculo carregado de sentimentos terrveis, concentrando, em si, horror e agonia,
maldade e aflio, dio e crueldade.
         O general no sabia de onde vinha tamanho poder, ou como era ativado.
         No havia mais reverso ao processo.
         Aquele era o fim do universo, para homens e anjos.


                              "ASSIM MORREM os HERIS"

       Apressada, Shamira voltou ao pinculo da torre, com a pena negra na mo -- a pena de
Apollyon. De l, avistou o terremoto devastando a plancie, e os dois gigantes ainda lutando.
       Apertou a pluma contra o peito e evocou sua mgica, para recitar um ltimo
encantamento.


        Sobre os escombros do monte Megiddo, ento reduzido a uma colina de pedregulhos
instveis, Apollyon prendia o Primeiro General em sua guarda, enquanto invocava a arma letal,
que vitimaria no s os dois duelistas, mas todos os mortais do planeta. Imobilizado, Ablon
imaginou qual seria o verdadeiro papel do Exterminador na conspirao. Por que Miguel e
Lcifer o teriam recrutado, alm de us-lo como mensageiro? Sups, ento, que sua habilidade
suprema de destruio fosse parte essencial do plano final. Os arcanjos tinham por meta liquidar
a humanidade aps a desintegrao do tecido, e quem melhor para ajud-los do que o Anjo
Destruidor, um agente da morte, criado para a carnificina e atrado pelos mais violentos
massacres?
         Apollyon era fascinado pela dor e pela matana. Por toda a histria, ele l estava, onde
quer que houvesse agonia e morticnio. No interferia, mas acompanhava do plano astral as
chacinas, as guerras, as hecatombes, as catstrofes. Assistira ao primeiro homicdio, quando
Caim matou o irmo; espiara as guerras da Grcia, o avano do Imprio Romano, o horror das
Cruzadas; espreitara as campanhas de Napoleo e os conflitos do sculo XX. Um dia, na
primavera de 1916, caminhara sobre os campos entrincheirados de Verdun, na Frana, ao
trmino da maior batalha humana da Europa, em que oitocentos mil soldados morreram. Anos
depois, vira a bomba atmica sobre o Japo e se admirara ao entender que seu poder havia sido
roubado pelos homens. Soube, ento, que cedo ou tarde a civilizao se extinguiria, ela prpria,
mas caberia a ele caar os sobreviventes. Era para isso que a Estrela da Manh o havia chamado
-- o Diabo julgava conhecer o futuro, revelado no Livro da Vida.
         Assim se concluiria o stimo dia, com a derrota do Renascido.
         Mas Ablon no acreditava em destino, e o que aconteceria a seguir desafiaria qualquer
previso.
         Surgiu, voando no cu, uma figura virtuosa e altiva, apesar de sua diablica aparncia.
Envergava uma armadura de prata, adornada com smbolos atlantes. O colete metlico se abria
nas costas, de onde brotavam duas asas despenadas, refletidas na pureza da couraa brilhante.
Os olhos eram vermelhos, a pele, morena, e a barba, de um negro profundo. Mistura de homem
e fera, o Rei Cado de Atlntida ingressava ao combate, oculto desde o princpio da luta.
         Mergulhou no ar feito um falco, e com suas garras pontudas furou o dorso do
Destruidor, puxando a besta para trs e libertando o renegado.
         -- Orion! -- espantou-se o Primeiro General.
         -- Orion? -- grunhiu Apollyon, enquanto o satanis o segurava pelas asas partidas,
enfiando-lhe os dedos na carne, cada vez mais profundamente.
         -- V embora, Ablon -- falou o Rei Cado. -- No vou det-lo por muito tempo.
         O general planava diante do amigo, ainda estupefato. Como veterano de guerra, sua
primeira reao foi preservar o camarada, e no correr da batalha.
         -- Ele no vai parar, Orion -- avisou, referindo-se ao Exterminador e a seu poder de
total destruio. -- Largue-o, ou ser imolado.
         O velho confrade sorriu.
         -- Fao isto pela nossa antiga amizade, general, que nem o cu e o inferno conseguiram
apagar -- e, ao notar o querubim ainda indeciso, acrescentou:
         -- Minha salvao est em morrer em glria, como um monarca atlante. Fuja, ou meu
sacrifcio no ter serventia. Voc j terminou sua misso. Permita que eu cumpra a minha.
         Compreendendo que Orion havia feito sua escolha, e que nem mesmo ele poderia
impedi-lo, Ablon decolou e voou com toda a celeridade na direo de Sion, esperando chegar 
fortaleza a tempo de salvar a Feiticeira de En-Dor. Aos brados indignados de Apollyon, que
teve frustrada sua demanda, o Renascido olhou para trs e proferiu uma ltima frase em tributo
ao bom companheiro:
         -- Assim morrem os heris -- sussurrou, e as palavras se perderam ao vento.


                              A CHAVE DO Poo DO ABISMO

       Ao ver a fuga de seu inimigo, Apollyon decidiu persegui-lo. Orion ainda o segurava,
mas o ocioso satanis no seria preo para a fora descomunal do malikis. Se nem o Primeiro
General o prendera, no seria o Rei Cado que o faria.
       O Destruidor forou o atlante para trs, com o objetivo de atir-lo ao alto, mas
percebeu, subitamente, que seus impulsos no eram mais to possantes assim.
        -- O que houve, Exterminador? -- perguntou com ironia o falido monarca. -- Seu
vigor colossal o abandonou?
        Desesperado, Apollyon esperneou, mas sua magnfica potncia sumira. Ele gritou em
protesto, esbravejou, e nada aconteceu.
        Como? Que tipo de energia o debilitara? Quem poderia sugar toda sua pujana?


         --Alsi ku nushi ilani mushiti!-- proferiu Shamira no cimo da fortaleza, com a pena
negra na mo. Aquele era o encanto do enfraquecimento, o mesmo que Zamir lanara em
Ablon,  entrada da casa romana.
         Mas, agora, o alvo era Apollyon.
         O feitio no era mortal, s debilitante. No renegado, os efeitos foram particularmente
terrveis porque, na ocasio, ele j estava arrasado pelo veneno do escorpio. O Exterminador
no seria vitimado pelo encantamento, e sim por sua prpria arma de destruio.


        -- Foi voc! -- decifrou de repente Apollyon. -- Foi voc quem libertou Ablon dos
calabouos de Zandrak.
        -- Sim -- confirmou o Rei Cado de Atlntida. -- Eu e a rainha-demnio.
        -- Lcifer enxergava tudo em seus domnios -- rugiu, buscando uma explicao
aceitvel. -- No  possvel que isso tenha escapado  sua viso!
        -- Nem tudo o Arcanjo Sombrio podia enxergar. A amizade e o amor... foram as
emoes que nos motivaram, a mim e  sedutora. A Estrela da Manh jamais perceberia nossas
intenes porque, para os perversos, esses sentimentos so indecifrveis.
        Ento, enfraquecido pelo feitio de Shamira, incapaz de voar com as asas quebradas e
retido no solo por Orion, Apollyon liberou sua fria, que, uma vez invocada, no poderia mais
ser contida.
        Assim, deu-se a grande exploso. O corao pulsante da besta rasgou, lanando um
oceano de fogo e fulgor sobre o mundo. No campo, os trs exrcitos enfrentaram, atnitos, o
espetculo,  medida que o calor csmico desintegrava seus corpos.
        Ruram as fundaes do planeta, e por toda a terra comearam os cataclismos. Rios
transbordaram, continentes se dividiram, montanhas desabaram. O solo foi castigado, e suas
gretas sugaram os mares s entranhas do globo.
        Sobre os escombros de Megiddo subiu uma coluna de negra fumaa, como se aberto o
poo do abismo -- uma passagem aos nefastos confins do universo. O ardor queimou todo o
cu, obscurecendo o firmamento e apagando o brilho dos astros.
        Submetendo o Exterminador, Orion foi o segundo a morrer, seguidamente ao suicida.
Mas, antes de perecer, teve um ltimo lampejo, uma viso -- no do futuro, mas do passado.
        Ao fenecer, avistou uma ilha e uma cidade de torres resplandecentes, banhada pelo sol
da manh, onde era sempre vero. Viu um povo feliz, navegando pelos mares e mergulhando
nas ondas. Vislumbrou uma terra de encantos e maravilhas, sem fome, dio ou tristeza; um pas
unido pelo amor ao Criador, mas ciente das prprias capacidades.
        Aquela era Atlntida, a Prola do Mar.
        Falecia seu monarca perptuo.


        Antes de a exploso engolir a bastilha, Amael e Aziel chegaram ao terrao da Roda do
Tempo para resgatar a Feiticeira de En-Dor. A Chama Sagrada segurou a mulher, e os trs
voaram para longe dali, em direo ao acampamento rebelde, tentando fugir da nuvem de
choque.
        Mas a energia os alcanou, lanando seus corpos ao deserto.
                                   O BEIJO DOS MORTOS

Devastao



ATORDOADO PELA EXPLOSO, ABLON LEVANTOU-SE do cho, trpego e dolorido. Cuspiu um pouco de
sangue no solo queimado e esticou as asas rajadas. Sentia-se pssimo, mas ainda estava vivo. A
respirao tambm voltava com custo, e ele inspirou fundo, s para sentir o gosto funesto do ar
poludo.
         Mas onde estava? O que acontecera? De repente, perdeu a noo do tempo e do espao.
         Olhou ao redor e viu uma paisagem de horror -- um deserto cinzento, de terreno
acidentado, coberto por runas e estilhaos. O cu estava fechado por uma nuvem escura,
profunda e venenosa, que deixava a plancie em penumbra lunar. O clima esfriara, e uma
estranha poeira descia  superfcie, imitando uma neve sinistra, pesada e plmbea.
         Percebeu, ento, que algo havia mudado, no s no cenrio, mas no universo. O tecido
da realidade cara, e os dois mundos -- o fsico e o espiritual -- eram agora um s. A distncia,
divisou os escombros da cidade santa de Jerusalm, desabitada e aniquilada. Mas como fora
destruda? Teria sido arrasada pela energia de Apollyon ou pelo estouro da Stima Trombeta, a
ltima das bombas humanas? O general no procurou a resposta, nem a acharia. Talvez o Des-
truidor e sua arma fossem de fato a Trombeta Final, e ele, o nico responsvel pelo cataclismo e
pela terminao da espcie mortal -- ou talvez no.
         Na esplanada, espalhavam-se milhes de corpos, celestiais e mundanos, decepados e
mutilados. O sangue dos anjos misturava-se ao sangue dos homens, ruborizando a negritude da
terra.
         Afundado na areia chamuscada, o guerreiro encontrou um volume intacto, em meio 
devastao. Ele o puxou e analisou a capa. Era o Livro da Vida, concebido para confundir os
perversos, cegos pela prpria ganncia. Resistindo  tentao de abrir o compndio, o general o
guardou consigo, virou-se ao sul e rumou em direo aos destroos que, pouco antes, eram a
inexpugnvel fortaleza do Prncipe Celeste.
         Shamira -- teria ela sobrevivido?
         O corao apertou, e ele se deu conta do derradeiro fracasso. Mesmo voando, correndo
a toda velocidade, o querubim no conseguira chegar a Sion.
S um milagre teria preservado a Feiticeira de En-Dor.
         Disparou s runas, e do cu enxergou trs figuras, entre elas o ishim Aziel e seu antigo
mestre, Amael, o Senhor dos Vulces. Estavam reunidos diante de uma mesa redonda de pedra
-- a Roda do Tempo --, que agora jazia no cho do deserto, espantosamente preservada aps
ter despencado do pinculo. Certas relquias so to especiais que nunca se quebram, mesmo
atacadas pelos mais terrveis desastres.
         O renegado sentiu uma fincada cortar-lhe o esprito, ao notar que Aziel deitava uma
jovem no solo -- uma moa de pele alva e cabelos negros -- e fechava-lhe os olhos.
         -- Tentei salv-la, general -- disse o ishim, quando Ablon pousou a seu lado e tomou a
necromante no colo. -- Mas seu corpo humano no resistiu  exploso.
         As entidades fizeram silncio.
         Morta! Shamira estava morta! O Renascido no quis acreditar, mas era a mais pura
verdade. A feiticeira o abandonara e no regressaria jamais. Para onde teria seguido sua alma?
Ali, ajoelhado, teve vontade de resgat-la, de traz-la de volta, para que vivessem tudo aquilo
que no viveram, para que se encontrassem, afinal, na tranquilidade que tanto sonharam.
        Mas ele no podia reviv-la, realmente.
        E agora, o que faria? Como prosseguiria sua vida miservel? Que foras teria para
continuar habitando este mundo?
        Compreendeu, finalmente, o exato sentimento de sua amada, ao t-lo a seus ps,
sangrando,  beira da morte, no trio da casa romana. Com efeito, a morte  muito mais
dolorosa para aqueles que ficam, e certamente pouco sombria aos falecidos. Entendeu, portanto,
que suas lgrimas no ajudariam seu corao, muito menos a pobre mulher.
        -- Voc fez sua parte, feiticeira. Siga em paz para o eterno descanso -- sussurrou e a
beijou entre os lbios.
        Foi aquele o nico beijo real, desde que se conheceram.
        O beijo dos mortos.


                               O CREPSCULO DOS TEMPOS

         Ali estavam as trs entidades, no campo destrudo, em volta da Roda do Tempo,
sobreviventes da grande catstrofe, velando o corpo da Feiticeira de En-Dor. Tinham vencido a
guerra, derrotado os inimigos, despojado os tiranos, mas a que preo!
         Como seus opressores, os rebeldes tambm haviam sido derrotados. O projeto dos
arcanjos se concretizara afinal, apesar da runa de seus arquitetos. A humanidade fora enfim
liquidada, conforme planejaram os chefes perversos.
         Mas agora o stimo dia havia terminado. E este era o crepsculo dos tempos -- o
declnio do universo.
         Aziel parou em frente  relquia de pedra, marcada com o cdigo secreto dos malakins.
To prxima, a roda mais parecia um relgio, gravada com runas antigas e smbolos csmicos.
Durante todo o curso da histria, o crculo esteve girando, mas agora descansava, esttico sobre
seu eixo.
         -- Ento, esta  a famosa Roda do Tempo -- arriscou o ishim, quando o clima de
tristeza acalmou. Nunca havia admirado o artefato de perto e percebeu que, mesmo inerte, a
energia continuava latente na rocha. -- Sua fora mstica  magnfica. Por isso Miguel quis
roub-la do santurio dos malakins no Sexto Cu e traz-la para Sion. Quem detivesse a roda
deteria o poder.
         -- A Roda do Tempo  a maior das relquias deixadas por Deus -- confirmou o
renegado.
         Amael desviou o olhar para cima e depois voltou a ateno aos escombros do monte
Mcgiddo.
         -- O que aconteceu aos trs exrcitos? -- perguntou o Senhor dos Vulces. Ele e Aziel
no tinham assistido ao duelo, s  exploso. A pilha de defuntos indicava o fado das legies,
mas quem teria sido o arauto da destruio?
         -- Esto todos mortos -- explicou o general. -- Apollyon era o agente da conspirao,
o Anjo Negro, escolhido pelos arcanjos para caar os sobreviventes mortais,  queda do tecido
da realidade -- e inclinou a cabea. -- Miguel no cairia no mesmo erro que cometeu no
dilvio, quando desprezou a capacidade de reproduo dos seres humanos, e eles voltaram a
povoar o planeta.
         Aziel fitou as palmas frias, outrora cheias de fogo.
         -- Juntos, triunfamos na Batalha do Armagedon. Completamos nossa misso, mas no
conseguimos afastar o mundo de sua extino. Os grandes valores foram deitados por terra.
         Ablon encarou o rosto glido da necromante, impressionado por sua beleza, mesmo na
frieza da morte. Era como se ela ainda vivesse, e realmente vivia, algures em seu corao.
Tocando-lhe a face macia, o querubim reviveu o ritual em seu apartamento, quando a moa
trouxe o esprito celta ao pentagrama -Korrigan, uma entidade com habilidades profticas.
         -- H esperana--sussurrou o Renascido. O murmrio era quase um suspiro.
         -- Como? -- perguntou o ishim. -- Como vamos devolver a vida aos mortos e
reconstruir um planeta infrtil? Somos anjos, no deuses.
         O general concordava com o amigo, mas no inteiramente.
         -- Este universo est arrasado, mas a verdade  incerta. No infinito, os caminhos nunca
levam ao mesmo lugar nem correm em uma s direo.
         Os trs silenciaram, at que Amael decifrou:
         -- A Roda do Tempo. Acha que poderamos volt-la?
         -- Talvez.
         -- Mas s um deus pode mov-la -- reagiu a Chama Sagrada. Era o que todos sempre
diziam.
         Ablon aprendera muitas coisas em sua jornada, mas sobretudo a desacreditar no destino,
nos rumos traados, nos trajetos j determinados. Preferia crer no revs, confiar no livre-
arbtrio, na capacidade de construir o prprio futuro. Ainda que no fosse humano e estivesse
preso  sua natureza anglica, acreditava na liberdade de deciso.
         --  o que somos agora -- interpretou Amael. -- Foi o que nos tornamos. So-
brepujamos os arcanjos, e agora no h quem nos supere. Aqui, somos deuses. Deuses sem
rosto, sem seguidores.
         -- Acabamos por nos converter naquilo que tanto lutamos para que nossos inimigos no
se tornassem: deuses de um mundo em cinzas -- completou o Primeiro General, olhando para o
cu obscuro. Alm das nuvens, o sol nascia, mas sua luz no alcanava a terra. O globo se
tornara uma estufa gelada, mergulhada nas trevas, assolada pelo inverno nuclear e contaminada
pela radiao das bombas humanas.
         Enquanto deliberavam, avistaram um ponto dourado no horizonte, que brilhava feito
estrela na noite fechada. Sua energia era amvel, bondosa, e os trs se sentiram acolhidos. O
brilho deslizou at eles, e de repente at a contorcida paisagem pareceu concertar-se.
         Aquele era o fulgor vivo de um anjo, um ofanim -- a casta dos alados mais piedosos.
No eram guerreiros, muito menos polticos, mas guardies dedicados  assistncia dos homens
e  proteo dos necessitados. Os olhos eram como pedrinhas de cobre, e tranas de ouro
desciam pela longa tnica branca. As asas tinham reluzir prprio e se abriam como folhas de
prata.
         Quando pousou, at o velho Amael o reconheceu. Ainda que afastado do cu, o Senhor
dos Vulces no esquecera a cintilante beleza de Nathanael, o Mais Puro.
         -- Nathanael... Est preservado -- constatou Ablon.
         -- Eu no fui ao combate -- esclareceu o ser reluzente. -- Continuei a distncia, na
caverna do monte Horeb, perto do acampamento rebelde. Assim, escapei da exploso. Alm
disso, sou capaz de me transformar em luz pura, tornando todo meu corpo absolutamente
imaterial.
         A chegada de Nathanael era uma bno em um instante de tanta aflio. O ofanim era
um dos mais sbios celestiais, por isso fora selecionado como assistente direto de Gabriel. O
Mestre do Fogo o designara para acompanhar, do plano astral, cada passo do Salvador, at o
martrio na cruz. Foi por causa de sua misso que o Mais Puro no pde encontrar Ablon no
monte das Oliveiras, quando da primeira viagem deste  Cidade Sagrada. Depois, Nathanael
esteve  frente das legies que escoltaram o Iluminado ao paraso. O Mensageiro confiava ao
ofanim os assuntos do esprito, e a Varna a matria da guerra.
         -- Ilumine-nos, Nathanael, com sua infinita prudncia--Ablon pediu. -- Sou s um
guerreiro e no enxergo muito bem os mistrios do cosmo -- ele apontou para a relquia de
pedra. -- Podemos voltar a Roda do Tempo?
         -- Agora vocs trs so soberanos -- declarou. -- So uma trindade suprema,
onipotentes e imperecveis. O stimo dia acabou, e as leis antigas caram. Cabe a vocs
encontrar a deciso. Se aqui ficarem, podero tentar refazer um universo arrasado. Se
retrocederem, abrir-se- uma nova chance  civilizao. Mas saibam,  gigantes, que caso
regressem no se lembraro do futuro. Sua mente ser apagada at o ponto em que decidirem
voltar. O destino  indecifrvel.
         -- Mas se retornarmos, sem conscincia do futuro, como poderemos garantir a retido
de nossas aes? -- interpelou Aziel. -- Como saberemos que, no fim, a situao no nos trar
a este mesmo ponto final?
         -- Miguel morreu porque se entregou ao destino -- alertou o Primeiro General. -- No
somos como ele. Construiremos nossa estrada, nossos valores, nesta ou noutra existncia.
         Seguiu-se uma longa pausa, enquanto a neve escura despencava das nuvens. Ento,
Amael confessou:
         -- Nunca me perdoei por ter acatado as ordens de Miguel e os comandos de Lcifer.
Executei o dilvio, sob a ateno dos arcanjos. Meus pecados agora so irreparveis. Mas, se
tivesse urna nova oportunidade, eu os enfrentaria.
         -- E eu o ajudaria -- replicou Aziel, arrependido por, um dia, ter virado as costas a seu
mestre querido.
         Sobre o deserto, a poeira cinzenta descia. Sion era s estilhaos, uma ruma fumegante
de colunas e blocos, como uma fogueira em brasa que se apaga ao orvalho da madrugada.
         -- General, voc foi o lder da irmandade e o cone dos revoltosos -- arbitrou
Nathanael. --  sua a palavra final.
         Korrigan -- pensou o Renascido. Durante o ritual mgico, o esprito celta havia
previsto o impasse, mas no expusera nenhuma soluo. Nem precisara -- a vontade do
guerreiro era bvia. Ele era um heri, e como tal dedicara a vida ao mundo. Por sculos,
desistira da felicidade para perseguir um ideal. Renegara a liberdade, e at o amor. E agora, por
fim, teria o aguardado repouso.
         Sua misso estava cumprida.


        Juntos, os trs cingiram a Roda do Tempo, sob a luz inspiradora do ofanim.
        E a giraram.




Estoril, costa de Portugal, tempo presente



O CONVERSVEL VERMELHO ESTACIONOU  margem da pista, entre o asfalto e a mureta de ao. Alm
da estrada, a praia se alongava at o horizonte, subindo em uma falsia adiante. No cu, as
gaivotas danavam, mergulhando s vezes no mar vespertino.
        Ablon rodou a chave do carro e desligou o motor. A seu lado, Shamira tirou os culos
escuros, para apreciar o esplendor da paisagem.
        -- Por que paramos? -- ela perguntou.
        -- S um velho costume atlante -- respondeu o celestial. De baixo do banco, ele sacou
um embrulho pequeno. Abriu a porta do automvel e caminhou em direo  mureta. -- J
volto.
        -- No se apresse -- sugeriu a mulher, fascinada pelo cenrio. -- Por mim, ficaria aqui
para sempre.
        O anjo desceu  areia e andou at a beira do oceano. Do embrulho, retirou um
compndio ancestral, um livro grosso, de aparncia antiga, com as pginas j amareladas, mas
sem inscrio alguma. Estava em branco, e nenhum ttulo cobria-lhe a capa.
        -- O Livro da Vida -- sussurrou para si, recordando de sua existncia onrica, uma
vivncia quase quimrica, que agora s resistia em lembranas.
        Ao testemunho do sol, o querubim atirou o volume ao mar. O tomo resvalou na
superfcie, boiou e depois afundou lentamente. Entrementes, um smbolo ferveu em seu brao,
como um selo gravado a ferro. A marca ardeu feito sinal abrasado, at que se apagou
totalmente. O feitio da necromante estava completo. A segunda runa -- a runa da mente --
terminava sua funo, preservando a memria do anjo guerreiro.
        Submerge o ltimo elo com um universo decrpito -- pensou o querubim,  imerso do
Livro da Vida. Uma nova chance se abre ao mundo.
        Realizado, voltou ao conversvel, entregando o tomo s profundezas.
        -- Que dia lindo! -- exclamou a feiticeira, contemplando o mar cristalino. Uma brisa
fraca agitava seus fios escuros.
        -- O mais belo de todos -- concordou o celeste.
        A ateno da moa correu pelas nuvens e deslizou ao horizonte.
        -- s vezes eu sonho com o fim do mundo -- confessou, admirada pela beleza da orla.
-- Fico pensando nas profecias do Apocalipse, e se um dia a espcie humana realmente
destruir o planeta, como descrito no livro sagrado.
        No assento do motorista, Ablon se afastou do volante.
        -- O Apocalipse  o incio de um reino de paz, aps um perodo de grandes mudanas
-- explicou. --  o que nos contam todas as religies, apesar de seu carter fatdico. O fim do
mundo no ser uma era de morte, mas de renascimento. O Apocalipse no vir pela guerra,
mas pela evoluo. Pelo menos, eu assim acredito.
        A necromante tocou com ternura o rosto do alado, mas seu semblante ainda era confuso.
        -- O que foi? -- preocupou-se o anjo.
        -- Nada -- ela reconheceu. --  que, de repente, me senti como que desperta de um
pesadelo.
        Ablon a acolheu entre os braos, aproximou-a de sua face e a beijou longamente.
        -- Ento, no adormea.
        Virando-se  estrada, deu partida no carro.
        -- Para onde vamos? -- ela quis saber, prendendo as madeixas com uma fita vermelha.
        -- O que importa?
        O automvel regressou ao centro da pista, e o condutor acelerou.
        Na praia, um peixe saltou sobre as ondas, e um caranguejo escondeu-se na toca. Uma
pedrinha negra, trazida pela correnteza, rolou na areia, reluzindo aos raios da tarde.
        Era um pedao comum de basalto, mas um caractere estranho estava desenhado em
cima, esculpido em baixo-relevo. Seus contornos eram como os das runas atlnticas, aquelas
gravadas no grande obelisco da capital anci. Certa vez, um anjo renegado jogou ao mar o
fragmento, mas isso s acontecera em sonhos, em uma realidade ilusria e fantstica, havia
muito esquecida. Agora, a pedra retornava ao verdadeiro universo, respondendo  vontade de
seu portador.
        Era a runa da paz.
A palavra: mensagens e diretrizes deixadas aos arcanjos por Yahweh antes de adormecer. Sua
principal regra era "servir e guiar a humanidade sem interferir em seu curso".
Abismo de Nimbye: passagem para o limbo, o vazio supremo entre as dimenses, localizada
nos Campos da Morte, uma regio geogrfica do Sheol.
Ablon, o Anjo Renegado: tambm chamado de Primeiro General antes do expurgo. Foi o lder
da Revolta de Sodoma. Expulso para a Haled por Miguel, com seus dezoito querubins.
Adnari: uma das remanescentes da tribo dos Filhos de Sem. Foi escrava na Babel de Nimrod.
Mais tarde, tornou-se uma das maiores magas de seu tempo.
Alai: espcie de trombeta de cobre, muito grande, caracterstica da velha Mesopotmia, que
produzia um som agudo fortssimo.
Alastor: um dos nove duques do inferno.
Alexius: escravista romano, costumava traficar escravos de Alexandria para Roma.
Aliana Oriental: coalizo poltica e militar liderada pela China, Rssia e Coreia do Norte no
conflito humano que antecedeu o Apocalipse.
Amael, o Senhor dos Vulces: demnio da casta dos zanathus. Antes um ishim, foi o res-
ponsvel por comandar o derretimento das calotas polares durante o dilvio.
Anjo Negro: entidade poderosssima, de natureza indecifrvel, que age a servio do arcanjo
Miguel. Suas asas tm penas negras, e sempre aparece com o rosto coberto por uma mscara.
Ankarel, o Chicote de So Miguel: querubim subordinado a Euzin, que participou do ataque a
Sodoma. Enviado com o Anjo Negro para capturar Shamira.
Apollyon, o Exterminador: antes chamado de Anjo Destruidor, caiu com Lcifer, tornando-se
um dos duques do inferno. Catico,  conhecido por ser o mais forte dos cados. Membro da
ordem dos malikis.
Arcdia: dimenso conhecida como terra das fadas.
Arcanjos: a mais alta hierarquia dos anjos. Os celestiais mais poderosos e mais prximos de
Deus. S foram criados cinco deles: Miguel, Gabriel, Uziel, Rafael e Lcifer.
Armagedon: a batalha final que encerra o Apocalipse.
Asmodeus: considerado o mais inteligente e diplomtico dos nove duques do inferno.
Asson: comandante querubim partidrio do arcanjo Miguel. Esteve presente no massacre de
Sodoma.
Atlntida, a Jia do Mar: a maior de todas as naes humanas antes do dilvio, foi destruda
com a inundao.
Aura: a energia vital dos anjos e demnios.  a essncia que lhes permite usar suas habilidades
e poderes especiais.
Avatar: a forma fsica de um anjo ou demnio no plano material. No precisa comer nem
dormir, a no ser quando ferido.
Aziel, a Chama Sagrada: governante da Cidadela do Fogo,  um ishim do fogo, partidrio do
arcanjo Gabriel na guerra civil.


Baals: demnios da punio e da tortura. Muitos eram hashmalins antes da queda.
Baalzebul, o Prncipe das Moscas: um dos nove duques do inferno.
Bacarata, o Prncipe da Matria: poderoso e malfico esprito etreo.
Bael, o Infeliz: duque do inferno, governante da regio chamada Campos da Morte.
Balam: hashmalim incumbido de vir  terra testar a bondade de No. Sua misso era provar que
os homens so todos malignos e corruptveis.
Balberith: prncipe da casta dos querubins.
Balor: demnio da ordem dos baals, que controlava os calabouos de Zandrak.
Bancada da Paz: pavilho localizado no Sexto Cu, onde trezentos anjos cantavam louvores ao
Deus adormecido. Miguel proibiu qualquer manifestao aps o incio da guerra civil.
Barqueiros: misteriosas criaturas que transportam passageiros pelo rio Styx, conhecendo suas
rotas e segredos.
Batalhas Primevas: conflito entre Yahweh e seus arcanjos, de um lado, e Tehom e suas en-
tidades abissais, do outro, pela supremacia do universo, antes mesmo da criao.
Baturiel, o Honrado: segundo querubim na linha de confiana de Gabriel. Antes do dilvio,
sua principal misso foi arbitrar a disputa entre Nathanael e Balam pela alma do humano No.
Behemot: principal auxiliar de Tehom durante as Batalha Primevas.
Belials: ordem de demnios cuja misso fundamental  tentar seres humanos (ainda vivos) e
"comprar" suas almas.
Bethor: smbolo mgico utilizado em feitios para cercar, conter e aprisionar temporariamente
entidades e espritos.
Bosque Tin-Sen: bosque que, na antiga China, abrigava um vrtice onde se manifestavam
diversos espritos etreos, entre eles Mai Yun, o Escorpio de Jade.


Campos da Morte: regio geogrfica do Sheol para onde so levadas as almas dos suicidas,
dos inteis e daqueles que desistiram da vida.
Cassius da Calbria: capanga de Alexius, durante os tempos de Roma.
Castas: classes de anjos divididas segundo sua natureza e funo no cu. Os demnios tambm
tm suas castas, que costumam chamar de ordens.
Castelo da Luz: principal fortaleza dos querubins, localizada no Quarto Cu.
Caverna sobre a montanha: gruta no topo da montanha de Mashu, no Mar de Rocha, que foi o
refugio de Ablon durante o tempo em que esteve nos arredores da Babilnia. Acabou servindo
depois como cripta para a renegada Ishtar.
Chama da Morte: espada de fogo do arcanjo Miguel.
Choque Mental: divindade teleptica que afeta a mente do indivduo, podendo mat-lo.
Ciclo: mede o nvel de poder de um anjo ou demnio. Os anjos de primeiro ciclo so os mais
fracos, e os de sexto ciclo so os mais poderosos. Os arcanjos so anjos de stimo ciclo.
Cidadela do Fogo: regio do Primeiro Cu que  o ponto de encontro dos ishins. Foi governada
por Amael, depois por Aziel, e mais adiante virou quartel-general de Gabriel e dos novos
rebeldes.
Cndice: unidade usada para medir a energia espiritual, em aura ou fora vital.
Couraa da Honra: famosa armadura dourada do anjo Balberith.
Cush: rei da Babilnia e pai de Nimrod.
Daimoniuns: ordem de demnios mais conhecida pela habilidade da possesso.
Dariel: querubim subordinado a Euzin e partidrio do arcanjo Miguel. Participou da carnificina
em Sodoma e, por suas habilidades sensoriais, foi destacado como guardio da Fortaleza de
Sion.
Destruio Total: divindade desenvolvida pelo ento anjo Apollyon, capaz de causar des-
truio em massa.
Dia do Ajuste de Contas ou Dia do Juzo Final: ver Armagedon.
Dilvio: a grande inundao descrita na Bblia, responsvel pela destruio de Atlntida e
Enoque.
Divindade: poder especial dos anjos e demnios.
Drakali-Toth: tido como o maior necromante do mundo, foi mestre de Shamira.
Duques do inferno: demnios de mais alta hierarquia, que compem o conselho chamado de
Crculo dos Nove. Os duques so Asmodeus, Molloch, Mephistopheles, Alastor, Mammon,
Orion, Apollyon, Baalzebul e Bael.


Eblis: poderosa querubim, uma das comandantes do exrcito de Gabriel. Sua arma  a maa.
den ou Jardim do den: os anjos assim chamavam a terra antes do surgimento da espcie
humana.
den celestial: terceira camada dos Sete Cus, para onde vo as almas humanas que foram
justas durante a vida. Ali existem diversas colnias espirituais.  tambm o lar dos santos e do
Iluminado.
Elfos: uma das muitas raas de fadas.
Elohai: anjo ferreiro, que forjou a segunda armadura de Ablon, a partir de uma fagulha da
Flagelo de Fogo.
Elohins: casta de anjos cuja principal funo foi, no passado, guiar os homens como um deles.
En-Dor: aldeia em Cana que se tornou o lar de Shamira e de sua me aps a fuga de Knossos.
Enoque, a Primeira e ltima: tambm chamada de A Bela Gigante, foi a cidade fundada por
Caim, filho de Ado.  considerada a ptria de todos os homens, uma vez que a civilizao
atlante, sua rival, foi totalmente destruda no dilvio.
Epidicus de Tiro: capito do barco Insula Major, de propriedade do escravista Alexius.
Espritos etreos: entidades que habitam o plano etreo. Todos os deuses pagos (gregos,
egpcios, indianos etc.) so espritos etreos. Em geral, no nutrem grande simpatia pelos
celestiais, em consequncia das Guerras Etreas.
Euzin: um dos mais influentes querubins sob o comando de Miguel. General da Legio
Formidvel.
Expurgo: refere-se  derrota de Ablon e da Irmandade dos Renegados e a sua posterior con-
denao  Haled.


Febre da Nbia: doena benigna causada por um protozorio e transmitida por mosquitos.
Afligia a vtima por trs semanas e depois desaparecia. No era letal, e o repouso era o nico
tratamento conhecido. Extinta antes da Idade Mdia.
Filhas de Shang: primeiro cl a governar a China. Seus membros eram dotados de poderes
medinicos e capazes de conversar com os espritos de seus ancestrais por meio de ossos-
orculos.
Filhos de Jaf: tribo inimiga dos babilnicos durante o reinado de Nimrod. Capturaram seu pai,
Cush, e o executaram em um ritual de feitiaria.
Filhos de Nod: homens e mulheres de Enoque.
Filhos de Sem: tribo do deserto aniquilada pelos babilnicos durante os reinados de Cush e
Nimrod.
Filhos do den: maneira formal de os anjos se referirem aos seres humanos.
Flagelo de Fogo: espada de fogo originalmente pertencente ao arcanjo Gabriel.
Flor do Leste: chinesa capturada como escrava, levada a Roma por Ablon.
Floresta Vermelha: bosque na regio central da Inglaterra, cujas rvores de casca vermelha
foram extintas durante a Idade Mdia. Nela, havia um vrtice dentro do qual as fadas se
manifestavam.
Fogo azul ou fogo das fadas: chama que no emana calor, apenas luminescncia, geralmente
produzida por magia.
Fogo negro: tipo de chama mstica que queima inclusive materiais no combustveis, como
pedra e metal.
Fogo Negro: espada do demnio Apollyon, herdada do deus Behemot. Considerada a arma
mais poderosa do universo.
Fogo verde ou fogo de Xahra: tipo de chama que queima to somente no plano astral, afetando
o esprito, no a carne.
Fogo violeta: chama usada essencialmente para queimar e marcar runas ou frmulas mgicas
no esprito do indivduo. Semelhante ao fogo verde, porm menos nocivo.
Fortaleza de Sion: o maior bastio das foras do arcanjo Miguel fora do cu. Localiza-se no
plano etreo, sob a cidade mundana de Jerusalm.


Gabriel, o Mestre do Fogo: tambm chamado de Anjo da Revelao e O Mensageiro,  um
dos cinco arcanjos.
Gehenna: segunda camada dos Sete Cus. Era o local de punio das almas nos dias antigos,
governada por Lcifer e seus hashmalins. Aps a queda, a Gehenna tornou-se um purgatrio.
Gente de barro: forma pejorativa de os anjos e demnios de referirem aos seres humanos,
Gorigath: um dos ltimos drages vivos no plano etreo.
Grimrio de Nippur: livro contendo uma srie de feitios necromnticos, escrito pelo feiticeiro
Drakali-Toth.
Grun-Kar, o Zelador: um dos trs espritos antigos do bosque Tin-Sen. Semelhante a um
homem-gorila.
Guerra civil: conflito militar entre Miguel e Gabriel iniciado com o nascimento da Criana
Sagrada.
Guerra dos Trezentos Dias: disputa entre os Estados Unidos e a China pelo controle de
Taiwan. Foi o grande conflito que precedeu a Terceira Guerra Mundial,
Guerras Etreas: srie de campanhas levadas a cabo pelos celestiais para destruir os poderosos
espritos etreos e aniquilar sua influncia sobre os seres humanos.
Guerras Mediterrneas: repetidos conflitos entre Enoque e Atlntida, pelo controle de portos
e territrios.


Haled: maneira como os anjos de referem ao plano fsico.
Hanki, o Senhor das Tempestades: um dos trs espritos antigos do bosque Tin-Sen. Podia
lanar raios e teleportar-se.
Hashmalins: casta de anjos incumbida de julgar e sentenciar os mortais na Gehenna.
Hazai: o mais graduado oficial querubim sob as ordens de Ablon. Um dos dezoito renegados.


Ibn-Hatar: cavalo alazo usado por Ablon na viagem pela Rota da Seda. Seu nome significa,
em rabe, filho do perigo.
Iluminado, tambm chamado de Salvador ou Criana Sagrada: nome usado pelos celestiais
para se referir a Jesus de Nazar.
Incubus: ordem masculina dos demnios da tentao.
Invocao: uma das escolas de magia, especializada em canalizar as forcas elementais e na-
turais e convert-las em energia.
Ira de Deus: divindade de combate usada por muitos querubins para potencializar seus ataques
desarmados.
Irmandade dos Renegados ou Dezoito Renegados: grupo de insurgentes liderados por Ablon,
o Primeiro General, na chamada Revolta de Sodoma.
Ishins: casta de anjos que controla as foras elementais. Vivem no Primeiro Cu.
Ishtar: querubim renegada durante a Revolta de Sodoma, depois capturada por Zamir e
Nimrod.


John Marc: prior do mosteiro ingls prximo  floresta Vermelha (1231 d.C.).


Korrigan: esprito celta de grande poder e sabedoria, que esclarece Ablon e Shamira sobre
as intenes de Miguel. Kumarbi, o Alto: um dos lderes da rebelio de escravos na Babel
legendria.


Lahash: anjo perverso selecionado por Miguel para ser um dos comandantes na defesa de Sion.
Antes da guerra civil, era conhecido como um guerreiro indisciplinado e desobediente.
Legio das Espadas: tropa comandada por Ablon antes do expurgo.
Legio Formidvel: legio comandada pelo querubim Euzin.
Leviats: navios gigantes que percorrem as rotas do rio Styx, guiados pelos barqueiros.
Liga de Berlim: bloco ocidental formado antes da Terceira Guerra Mundial.
Lilith, a Rainha das Succubus: primeira mulher de Ado. Levada ao inferno por Lcifer,
tornou-se lder da ordem dos demnios femininos da seduo.
Livro da Vida: relquia criada por Deus que, segundo a lenda, relata em detalhes toda a histria
e os acontecimentos do Stimo Dia, da criao do homem ao Juzo Final.
Lcifer, a Estrela da Manh: tambm chamado de Arcanjo Negro, Portador da Luz, Filho do
Alvorecer e Prncipe das Trevas. Um dos cinco arcanjos, perdeu a guerra contra Miguel e caiu
no inferno, passando a ser conhecido como Diabo.


Mai Yun, o Escorpio de Jade: mulher-aracndeo, lder dos espritos antigos do bosque
Tm-Sen. Malakins: casta de anjos cuja principal funo  observar e estudar o curso do
universo e
seus habitantes.
Malikis: ordem de demnios guerreiros, furiosos, imprevisveis, brutos e violentos.
Mammon: demnio gordo, de corpo de hipoptamo, cabea de porco e chifres imensos.  um
dos nove duques do inferno.
Mar de Rocha: regio geogrfica prxima  legendria Babel, caracterizada por montanhas
ridas e alongadas.
Margath: um dos drages ancios.
Mari: menina escrava, amiga de Adnari na antiga Babel.
Marilli: assassina querubim conhecida como uma das rapinas.
Megiddo: monte que existe tanto no plano fsico quanto no plano etreo e  profetizado como o
ponto onde ocorrer o duelo final do Armagedon.
Membrana etrea: tecido mstico que separa o plano astral do plano etreo.
Mephistopheles ou Mephisto: um dos nove duques do inferno. Excepcional estrategista
militar.
Mercurion: lder dos elfos da floresta Vermelha.
Merula: comerciante romano.
Miguel, o Prncipe dos Anjos: o mais poderoso dos cinco arcanjos.
Mirdoth: querubim malfico sob o comando do arcanjo Miguel. Destacado para defender a
Fortaleza de Sion.
Molloch, o Carrasco: um dos nove duques do inferno.
Montanha de Mashu: montanha no Mar de Rocha que foi o lar das serpentes de Kur. Mais
tarde, a caverna em seu topo serviu de refgio e santurio para Ablon, o Anjo Renegado.
Mundo dos sonhos: camada rasa do mundo espiritual, que se separa do plano astral pela
chamada zona onrica.  um espelho do astral, com bolses ilusrios criados pelos sonhos dos
seres humanos.
Mundo espiritual: tudo aquilo que est alm do tecido da realidade, compreendendo uma
infinidade de planos de existncia. Os mais conhecidos so o astral e o etreo.
Mundo sem cor: denominao humana para o plano astral.


Nahor: jovem oficial babilnico, nos tempos de Nimrod.
Nathanael, o Mais Puro: anjo da casta dos ofanins, provavelmente o celestial mais bondoso de
todos. Antes do dilvio, foi um dos responsveis por defender No, resguardar sua alma e
preservar a espcie humana.
Nebron: comandante babilnico, nos tempos de Nimrod.
Necromancia: escola de magia dedicada ao estudo dos espritos, dos mortos e do mundo
espiritual.
Netnia: o maior vulco do paraso, localizado no Primeiro Cu. Sobre ele sustenta-se a
Cidadela do Fogo, quartel-general da casta dos ishins.
Nimrod, o Imortal: filho de Cush, foi o ltimo rei da Babel legendria.
Novos rebeldes: partidrios do arcanjo Gabriel na guerra civil contra Miguel.


Ofanins: a casta de anjos mais prxima dos homens, tambm chamados de anjos da guarda. So
altrustas por natureza e sempre evitam a violncia. Seus poderes so baseados em luz e cura.
Olho de Peixe: marinheiro do navio romano Insula Major.
Ordem: os demnios se referem assim s suas castas.
Ordem de Sippar: confraria de magos baseada na cidade de Sippar, na Mesopotmia. Sua
principal especialidade era o uso de ervas e plantas para preparar poes e unguentos. Passou 
clandestinidade a partir do reinado de Nimrod.
Orion, o Rei Cado de tlntida: demnio da casta dos satanis, anteriormente um anjo elohim.
Ao ver sua cidade destruda pelo dilvio de Miguel, uniu-se a Lcifer em sua guerra.
Pases neutros: no conflito humano, naes da frica e da Amrica Latina no alinhadas a
nenhum dos dois blocos.
Palcio Celestial: fortaleza dos arcanjos no Quinto Cu. Ponto mais central e importante do
paraso celeste.
Pazuno: capito babilnico, nos tempos de Nimrod.
P-da-estrada: erva resistente, rica em vitaminas e minerais, de gosto ruim, capaz de garantir a
sobrevivncia de um homem por um largo perodo de tempo. Nativa da Babilnia.
Plano astral: camada mais rasa do mundo espiritual, que se conecta ao plano fsico pelo tecido
da realidade. Por l caminham fantasmas e almas perdidas. No tem cor nem gravidade.
Plano das sombras: camada mais distante do mundo espiritual, moradia de sombras e es-
pectros.
Plano etreo: camada mais profunda do mundo espiritual, alm do plano astral.  o lar dos
espritos evoludos e dos poderosos deuses pagos. Ver Espritos etreos.
Plano fsico: o mundo material, onde vivem os humanos encarnados. Compreende a terra e o
universo ao seu redor.
Poleiro: gria celeste para definir os Sete Cus.
Plix: jovem grego, filho de Tales, dono de uma pequena caravana que atravessava a Rota da
Seda.
Poro: gria celeste para definir o Sheol, ou inferno.
Portais: passagens msticas que ligam o plano etreo ou dimenses paralelas (como o cu e o
inferno) ao plano fsico.
Projeo astral: tcnica que permite aos seres humanos, em vida e voluntariamente, projetar a
alma ao plano astral e explor-lo.


Quatro portes: conexes mgicas que, quando abertas por feitio, criam vrtices temporrios.
O encanto  usado para permitir manifestaes de entidades espirituais no plano fsico.
Queda: refere-se  derrota do ento arcanjo Lcifer e de suas hostes por Miguel e sua expulso
para o Sheol.
Querubins: casta composta por anjos guerreiros. So os guardies e soldados de Deus.


Rafael: um dos cinco arcanjos. Desiludido, desapareceu do cu e nunca mais foi visto.
Rahab, o Prncipe dos Mares: deus pago cujas foras foram derrotadas pela Legio das
Espadas durante as Guerras Etreas. O ento general Ablon venceu o deus em combate singular.
Raio da Aurora: espada de fogo de Lcifer.
Raio de Ao: espada do anjo Euzin, usada de forma herica em muitas batalhas antigas.
Rapinas: duas querubins conhecidas por ser valorosas assassinas a servio do arcanjo Miguel.
Rebelio de Lcifer: revoluo do ento arcanjo Lcifer contra seu irmo Miguel. A derrota de
Lcifer ocasionou a queda e a condenao de seus aclitos ao Sheol.
Relquia sagrada: qualquer objeto mstico criado por Deus, anjos ou demnios.
Revolta de Sodoma: levante comandado por Ablon, o Primeiro General, contra a destruio de
Sodoma e Gomorra. A revolta resultou na expulso dos insurgentes e em sua condenao 
Haled.
Rio Styx: rio que percorre dimenses, funcionando como passagem entre os planos de exis-
tncia.
Ritual da purificao: cerimnia mgica que condena ao limbo o esprito de um morto,
libertando do sofrimento as almas que pereceram sob seu jugo.
Roda do Tempo: provavelmente a maior relquia criada por Deus, marca a continuidade do
Stimo Dia e no pode ser contida. Seu fim supostamente marcaria o despertar de Yahweh.
Runa da paz: pedao do monlito da praa central de Atlntida, cujo ideograma gravado
significa paz. Trata-se do nico fragmento material que sobrou da cidade.
Sala dos Heris: cmara no Palcio de Enoque dedicada aos guerreiros antigos, que tambm
serviu como sala de conferncia para os anjos renegados aps o expurgo.
Sala dos Portais: principal aposento da Fortaleza de Sion, dotado de diversas portas, cada uma
delas conduzindo a uma dimenso diferente.
Samael, a Serpente do den: anjo cado e auxiliar dketo de Lcifer. Conhecido tambm como
Sat ou Satans, quando anjo se disfarou de serpente para tentar Ado no Jardim do den.
Santurio: local no plano fsico em que o tecido da realidade  muito fino, facilitando a
manifestao de efeitos mgicos e msticos ou a interao com entidades espirituais.
Santurio do Alvorecer: construo no topo do monte Tsafon, no Stimo Cu, onde su-
postamente repousa o esprito de Deus. Ali tambm fica guardado o Livro da Vida, em seu
pedestal.
Satanis: ordem composta por demnios nobres, burocrticos e diplomticos. Muitos deles
foram elohins ou serafins antes da queda.
Selos do Apocalipse: srie de sinais e profecias que, associados  desintegrao do tecido da
realidade, indicam o curso do Apocalipse.
Serafins: casta de anjos nobres e diplomatas, tidos como os "burocratas" do paraso.
Serena: uma das fadas da floresta Vermelha.
Serpentes de Kur: espritos ofdicos que habitavam a regio do Mar de Rocha, na Babilnia, e
que foram extintos pelos anjos durante as Guerras Etreas.
Sete Cus, conhecidos tambm como paraso celeste, morada de Deus ou morada divina:
dimenso de onde anjos e arcanjos vigiam o rumo da espcie humana e do universo material.
Stimo dia: tempo que compreende da criao do homem ao Dia do Juzo Final.
Shamira, a Feiticeira de En-Dor: necromante chamada  Babilnia para invocar o esprito de
Cush. Seu pai era grego; sua me, cananeia.
Shen: um dos mercadores chineses da cidade de Chang'an.
Shenial: general querubim, liderou as tropas do arcanjo Miguel na defesa da cidade de Je-
rusalm, durante a crucificao do Salvador.
Sheol: dimenso onde foram sepultados os restos mortais de Tehom e dos deuses das trevas.
Mais tarde, serviu como lar a Lcifer e a seus anjos cados, passando a ser conhecido como
inferno.
Sieme, a Mestre da Mente: serafim telepata, enviada por Gabriel juntamente com Aziel para
buscar Ablon e traz-lo ao plano etreo.
Succubus: ordem feminina de demnios da tentao.


Tales: mercador grego, dono de uma pequena caravana que atravessava a Rota da Seda.
Tecido da realidade: membrana mstica que separa o mundo fsico do espiritual. Sua camada
mais rasa e adjacente  o plano astral. Acredita-se que o tecido da realidade seja formado pela
conscincia coletiva dos seres humanos e represente uma defesa inconsciente dos homens
contra os efeitos msticos e inexplicveis que os ameaam e desafiam sua compreenso.
Tehom: deusa do caos e da escurido, contra quem Yahweh lutou e a qual derrotou durante as
Batalhas Primevas. Sua derrocada antecedeu  criao da luz e do universo.
Templo da Harmonia: gigantesco salo de mrmore na Cidadela do Fogo. Lugar de confe-
rncia dos ishins, posteriormente serviu de residncia ao arcanjo Gabriel, durante a guerra civil.
Terra de Nod: pas cuja capital era Enoque.
Thomas: monge e enfermeiro no mosteiro ingls prximo  floresta Vermelha (1231 d.C.).
Titus: capanga do escravista Alexius.
Tommaso: empregado de Tales na caravana grega.
Trombetas: parte da srie de sinais do Apocalipse. Os celestiais posteriormente as identifi-
caram como a detonao das sete bombas humanas que ajudaram a devastar a civilizao
mortal.
Tsafon, o Monte da Congregao: regio mais alta do Stimo Cu, onde Deus estaria
adormecido.
Uziel: um dos cinco arcanjos, patrono da casta dos querubins, assassinado por seu irmo
Miguel.


Vale dos Condenados: regio geogrfica do Sheol onde se localiza a caverna do Diabo e por
onde passa o rio Styx. Tambm  um lugar de punio e desespero para as almas dos mortos.
Vnia: lder do regimento das arqueiras. Imediata em comando aps o arcanjo Gabriel.
Vrtices: stios onde ocorre uma interseo planar. Esses locais existem tanto no plano material
quanto no etreo, possibilitando a interao fsica entre humanos e espritos.
Vingadora Sagrada: espada de Ablon, o Anjo Renegado.
Vrtices: conexes msticas que ligam o plano astral ou o etreo a alguma dimenso paralela
(como o cu, o inferno ou a Arcdia).


Wang: um dos mercadores chineses da cidade de Chang'an.


Xandria, a Cidade no Centro do Cosmo: uma das poucas localidades conhecidas fora da
nossa esfera csmica.
Yahweh: tambm chamado de Altssimo, Pai Celestial, Deus adormecido, Reluzente, Lumi-
noso, Criador.  o Deus supremo do universo, adormecido no fim do sexto dia.
Yarion, Asa de Vento: um dos dezoito anjos renegados.


Zambil: assassina querubim conhecida como uma das rapinas.
Zamir, o Brilhante: tambm chamado de Feiticeiro do Deserto. Inicialmente mestre da
escola mgica da invocao, foi conselheiro de Nimrod, arquiteto de Babel e um dos
mais poderosos magos de que se tem notcia.
Zanathus: ordem de demnios que controla as foras elementais. Muitos deles eram ishins
antes da queda.
Zandrak: maior calabouo do Sheol, com celas, salas de tortura e cadafalsos. Localiza-se
nos tneis abaixo do vale dos Condenados.




? Protouniverso. Inexistncia do tempo ou matria. Yahweh, a Lei, e Tehom, o Caos, vagam
pela sombra do espao.
? Yahweh d vida aos cinco arcanjos: Miguel, Lcifer, Gabriel, Rafael e Uziel. Tehom cria seus
deuses-monstros: Behemot, Leviat, Tanin, Enuma, Taurt.
? Batalhas Primevas. Yahweh e seus generais anglicos derrotam Tehom, assumindo controle
sobre as duas provncias.

PRIMEIRO DIA
+-15 bilhes de anos atrs. Incio da criao. Surgem o tempo e a matria.


SEGUNDO DIA
+- 14 bilhes de anos atrs. Nascimento dos anjos. BigBang. Criao da luz.
+-12 bilhes de anos atrs. A expanso da matria cria "vincos csmicos" no universo, dando
origem s dimenses paralelas


TERCEIRO DIA
+- 7 bilhes de anos atrs. Formao das estrelas e galxias. A luz  separada da escurido.
Anjos e arcanjos estabelecem os Sete Cus como sua dimenso principal. Yahweh cria a Roda
do Tempo e o Livro da Vida.


QUARTO DIA
+- 6 bilhes de anos atrs. Sol, sistema solar e a terra.

QUINTO DIA
+- 4 bilhes de anos. Na terraj surgem as primeiras formas de vida materiais.


SEXTO DIA
+- 400 milhes de anos atrs. Primeiros homindeos.
+- 400000 a.C. Surgimento do homem primitivo, os eridais, tambm chamados de primeira
raa.
+- 320000 a.C. Grande migrao. Os eridais se dividem em dois grupos. Um permanece no
Oriente Mdio, o outro se desloca atravs do Mediterrneo rumo  Europa Ocidental.


STIMO DIA
+- 200000 a.C. Os eridais evoluem em dois ramos: os homens (segunda raa) e os atlantes
(terceira raa). Ambos pertencem  espcie Homo sapiens, dotados de alma. Yahweh parte para
o descanso. Despertar da conscincia. Confeco do tecido da realidade.
+- 180000 a.C. Primeira era glacial.
+- 150000 a.C. Fundao da cidade de Atlntida. Ascenso dos altantes e supremacia do
Mediterrneo. Na Europa, sia e Oriente Mdio, os homens migram das cavernas para palafitas
e constrem pequenas aldeias.
+- 100000 a.C. Primeiro cataclismo. Terremotos dividem a terra. Atlntida se enfraquece.
+- 50000 a.C. Ado unifica as tribos do Oriente Prximo. Caim, seu filho, funda a cidade de
Enoque. Segundo despertar -- tecido da realidade engrossa.
+- 40000 a.C. Ascenso de Enoque. Extino do homem de Neandertal e dos tigres-dentes-de-
sabre.
+- 38000 a.C. Atlntida c Enoque entram em choque. Guerras Mediterrneas.
+- 35000 a.C. a +- 25000 a.C. Perodo das grandes catstrofes. Segundo cataclismo. Terra sofre
com chuvas de meteoros, terremotos e vulces. Arcanjos decidem enviar suas legies para
exterminar a raa humana. Reis de Enoque, com ao e magia, rechaam ataque de anjos 
cidade.
+- 23000 a.C. Incio das Guerras Etreas.
+- 22000 a.C. Apollyon, o Anjo Destruidor, e sua legio vencem e eliminam as serpentes de
Kur.
+- 18000 a.C. Batalha de Shin-Tain. Celestiais so derrotados no Extremo Oriente.
+- 12000 a.C. Ablon, o Primeiro General, vence o deus Rahab, o Prncipe dos Mares, pondo fim
s Guerras Etreas. Construo da Fortaleza de Sion.
+- 11500 a.C. Dilvio. Terceiro cataclismo. Destruio de Enoque e Atlntida. Orion retorna
aos Sete Cus.
+- 10000 a.C. Civilizao regressa  barbrie. Atlntida no deixa sobreviventes. Remanes-
centes dos homens de Enoque evoluem no chamado "homem moderno", o Homo sapiens
sapiens, tambm conhecido como quarta raa. O ser humano se espalha pelo globo terrestre.
+- 4000 a.C. Renascimento da civilizao humana. Inveno da escrita. Fundao da Babel
legendria. Gilgamesh na Sumria. Extino dos mamutes.
+- 3800 a.C. Revolta de Sodoma. Expurgo de Ablon e da Irmandade dos Renegados dos Sete
Cus. Sodoma e Gomorra so destrudas. Zohar  devastada.
+- 3500 a.C. Rebelio de Lcifer. O Arcanjo Sombrio e suas hordas so expulsos do cu e
condenados ao Sheol.
+- 3000 a.C. A Irmandade dos Renegados deixa Enoque e se divide. Construo das grandes
pirmides do Egito. Terceiro despertar -- alargamento do tecido da realidade.
+- 2800 a.C. Anjo Negro encontra Ishtar. Os dois lutam sobre a montanha. Ablon destri o
morro e impede o assassinato de Ishtar, mas  soterrado.
2414 a.C. Cush assume o trono da Babilnia legendria. Construo do zigurate de prata. Ablon
desperta e escapa do soterramento. Nasce Zamir, o Feiticeiro.
2354 a.C. Akto e Maya, pais de Shamira, fogem de Knossos, na Grcia, e se estabelecem na
aldeia de En-Dor, em Cana.
2335 a.C. O rei Cush  capturado e morto. Nimrod assume o trono da Babilnia. Zamir encontra
o avatar desacordado de Ishtar e o leva  cidade. Incio da construo da Torre de Babel.
2334-2333 a.C. Shamira  levada  Babilnia. Queda de Babel. Destruio da torre. Ishtar
morre.
2332 a.C. Shamira comea seu treinamento com o mestre necromante Drakali-Toth, na cidade
de Mnfis.
+- 1800 a.C. Ascenso da Babilnia histrica. Hamurabi.
315 a.C. Zamir inicia sua campanha para restaurar o sonho da Babilnia, perseguindo, as-
sassinando e roubando o conhecimento dos grandes feiticeiros que ainda caminhavam pelo
mundo.
209 a.C. Zamir derrota Drakali-Toth e incorpora suas habilidades necromnticas.
3 a.C. Hazai enfrenta as rapinas; sobrevive, gravemente ferido. Ruma para Enoque.
Ano O da era crist. Nasce a Criana Sagrada. Incio da guerra civil entre Miguel e Gabriel.
Isolamento do arcanjo Rafael. Ablon enfrenta os espritos antigos do bosque Tin-Sen. Quarto
despertar -- o tecido se adensa.
l d.C. Caravana na via secreta. Ablon derrota as rapinas. Shamira vence Zamir. Ablon entra em
torpor.
30 d.C. O Salvador  crucificado e ascende. Ablon desperta do torpor e alcana Jerusalm. A
guerra civil entre Miguel e Gabriel, que at ento se passava no plano astral,  transferida para
os Sete Cus. Gabriel assume seu quartel-general na Cidadela do Fogo.
112 d.C. Flor do Leste morre na China. Shamira descobre o segredo dos ossos-orculos e estuda
a feitiaria chinesa.
+- 500 d.C. Supresso csmica. A queda de Roma e a expanso do cristianismo resultam na
supresso de diversos vrtices, especialmente no mundo ocidental. Fadas se recolhem ao plano
etreo.
+- 700 d.C. A ilha de Avalon regride ao plano etreo.
1097 d.C. Shamira assume o posto de arauto entre as fadas, para registrar a partida dos elfos e
gravar seus rituais e conhecimentos. Ela se estabelece no vrtice da floresta Vermelha, na
Inglaterra.
1119 d.C. O poderoso Azazel, um anjo cado e duque do inferno, desafia Lcifer, dando incio,
no Sheol,  chamada Guerra de Libertao. Azazel  derrotado e morto em 1203.
1231 d.C. Apollyon, o Exterminador, captura o anjo renegado Yarion, Asa de Vento, e o arrasta
para o Sheol. Ablon parte em seu encalo,  capturado e preso.
1318 d.C. As fadas do oeste da Europa retornam  Arcdia. Todos os seus santurios so su-
primidos.
1453 d.C. Ablon escapa dos calabouos de Zandrak. Yarion  morto. Constantinopla  invadida.
1614 d.C. Nos Sete Cus, as foras rebeldes de Gabriel tomam o Castelo da Luz, fortaleza dos
querubins.
1650 d.C. Inicia-se o chamado Haniah, ou Retorno. Miguel ordena que todos os anjos que
vivam, atuem ou estejam em misso na Haled voltem imediatamente para o cu. A guerra civil
torna-se ainda mais sangrenta. Gabriel  obrigado a fazer o mesmo: convocar todos os seus
partidrios  batalha.
1772 d.C. Para impedir que seus soldados desertem e fujam para a Haled, onde poderiam se
esconder, Miguel ordena a destruio da maioria dos portais conhecidos de acesso  terra. Os
poucos que sobram passam a ser guardados por sentinelas poderosas.
+- 1880 d.C. Quinto despertar. O ltimo grande adensamento do tecido da realidade torna a
manifestao de magias e divindades, na terra, praticamente impossvel fora de santurios.
2007 d.C. Uziel  morto pelo arcanjo Miguel, emTsafon, o Monte da Congregao, no Stimo
Cu.
2012 d.C. Muito concentrado e denso, o tecido da realidade comea seu lento processo de
desintegrao.
Sculo XXI. Apocalipse.




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